Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Maio 2008)

Theóphilo Braga

E

A LENDA DO CRISFAL

Obras de Delfim Guimarães

PROSA:
Alma dorida, com prefáciode Teixeira Bastos, 1 volbroch.500réis
A Viagempor terra do snr. JoãoPenha, (crítica literária) 1folh.100»
O Rosquedo (Scenas da vida deprovíncia)Esgot.o
Ares do Minho (Contos) 1 vol.broch.200»
BernardimRibeiro: O poeta Crisfal(Subsídios para a Historia da literaturaportuguêsa) 1 vol.broch.800»
EM PREPARAÇÃO:
Luis de Camões.—DiogoBernardes.
VERSO:
Lisboa Negra, 1fol.200»
Confidencias, 1 vol.broch.400»
Evangelho, 1vol.400»
Não! Mil vezesnão! 1fol.200»
Sim! Mil vezes sim! 1fol.100»
SonhoGarretteanoEsgot.o
A Virgem do Castelo, (2.ªedição) 1fol.100reis
Outonaes, 1 vol.broch.500»
NO PRELO:
Floresdo mal(interpretação em versos portuguêses depoesias de Carlos Baudelaire)
TEATRO:
Aldeia naCôrte, drama em3 actos, de colaboração com D. João daCamara, representado no D. Amelia, 1 vol.broch.500réis
JuramentoSagrado, comedia n'um actoem verso, representada no D. Maria II, 1fol.200»
A PUBLICAR:
Domingo de Páscoa,peça de costumes minhotos
OUTROS TRABALHOS:
A Dama dasCamelias, de Dumas, filho(tradução), 1 vol.broch.200réis
Saudades,(História deMenina e moça), de Bernardim Ribeiro,edição revista (vol. 29 daColecção Horas deLeitura)200»
Trovas de Crisfal, de BernardimRibeiro,ediçãorevista300»
Versos portuguêses, de Sáde Miranda,ediçãorevista500»

DELFIM GUIMARÃES

Theóphilo Braga

E

A Lenda do Crisfal

1909
Livraria Editora
GUIMARÃES & C.a
68, Rua de S. Roque, 70
Lisboa

THEÓPHILO BRAGA
E A LENDA DO CRISFAL

I
Razão de ser d'este livro

«Meu caro João Grave:—Encantou-me o favor da sua carta, communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma conquista, d'um triumpho.
Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim Ribeiro. Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos[1].
Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do «Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome d'auctor, (no pliego-suelto da Bibliotheca Nacional de Lisboa) dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as mesmas referencias ao poeta Christovam Falcão. E a edição de Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D. Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».

Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
Com um abraço do seu, etc.

Theophilo Braga.»

«Meu prezado camarada João Grave:—Acabo de ler, reproduzida por Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo, em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a Cristovam Falcão.

O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira Sampaio—Bruno—, como se viu da interessante carta que estampou no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu concurso.
Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma «miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de Brito.
Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu jornal que conheço perfeitamente os recursos históricos a que alude o incansavel historiador da Litteratura Portugueza, como não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
Que Bruno não ignora nenhum d'esses recursos, estou convicto, que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao justificado nome literário de José Sampaio.
Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo nenhum eu vou sustentar que não existiram vários cavalheiros com o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!
Não o enfado mais.
Creia-me, com verdadeira estima,

seu amigo, adm.dor e obg.do

Delfim Guimarães.»

«Meu caro João Grave:—Novamente o venho importunar, pois entendo que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr. Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no «Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e chimerico.
A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.

Todo seu

José Pereira Sampaio (Bruno).»

«A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.»

«Lisboa, 25 de Novembro de 1908

...sr. Delfim Guimarães
e meu presadissimo amigo

Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V., acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa historica, de Diogo do Couto, na sua Decada VIII, que, fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de Christovam Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «que dizem ser de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia. Isto leva a explicar como Christovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga Alexo assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante estudo, sou

admirador obr.mo e amigo

Theophilo Braga»

«...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão, mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais confundir-se».

«Ex.mo Snr. Dr. Brito Camacho,

meu prezado amigo:

Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse, procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, e insistindo na lenda do poeta Cristovam Falcão de Sousa.
Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos cantos de ledino era precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem lh'o contesta.
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que não torci a meu bel-*prazer a verdade, nem falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr. Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que s. ex.a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé, quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não conseguiram?
É tempo de pôr de parte o magister dixit, porque, felizmente, os processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que passaram á historia, e que não se ressuscitam já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade na nossa Lucta a esta minha carta, que representa o legítimo desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como tal tem jus a ser considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,

De V. Ex.a

amigo, admirador e obrigado

Delfim Guimarães.»

«O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça, como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária, e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»

«...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o Maria Brandoa a do Crisfal, por que o pae d'esta dama, que inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella, João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo Gomes de Figueiredo.

Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta mesma inscrição: Maria Brandoa a do Crisfal; e nos livros dos linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr. Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.
Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro Bernardim Ribeiroo Poeta Crisfal, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão,—«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa as palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo (![2]) ao anagrama Crisfal.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras Crisma e Falso

E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves Vianna—honra a erudição portugueza,—ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome litterario do verdadeiro Crisfal, o doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas?
Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro—«e até se acham no fim algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dic. Bibliog.)
Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de outra individualidade.»

No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»

Os processos... scientíficos
do snr. dr. Theóphilo Braga

A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da índole da Lucta.
Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo Movimento litterario, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a correcção dos processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
Referindo-se ao ultimo tomo do Archivo Historico, a revista dirigida pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta Crisfal.
Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente engendrados:

«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do romance Menina e Moça d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.»

Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s. ex.a gratuitamente lhe atribue.
Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:

«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no pleito e continuarei com a rotina.»

Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara as bases em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente as principaes bases, e o consciencioso investigador não declarava que taes bases não conseguiram demovê-lo da rotina, mas sim que «em quanto não aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não transitasse sem apelação em julgado, não lhe competia intervir no pleito e continuava com a rotina».
Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia de correcção do ilustre escritor?—Para se servir, como de um escudo protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando, com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do Archivo Historico.

Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na 2.ª pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal).
Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em julgado—muito embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr. Gonçalves Viana, achasse que o meu livro Bernardim Ribeiro fazia honra á erudição portuguêsa.
Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada do Crisfal, passara á historia...
Foi fazer companhia aos cantos de ledino...
Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos... scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente, intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no Dia.
É como segue:

«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a biographia de Maria Brandôa, já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga Crisfal

Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no Diario da Tarde, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio (Bruno), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte maneira:

«No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».

O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á sinceridade inconsciente de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas glórias.
Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!

Delfim Guimarães

II
O snr. dr. Theóphilo Braga,
descobrindo a verdade, e procurando
enterrá-la

«........o copista, a quem o distinto professor encarregou de reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe uma reprodução com summa deligencia emendada, que o snr. dr. Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito se afasta do original.»[4]

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III
Anotações á carta que nos dirigiu
o snr. dr. Theóphilo Braga

1

«A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados genealogicos.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

2

«Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

3

«Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

4

«Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

«Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr. Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões do Cancioneiro e da Feitoria de Flandres.»

5

«Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim Ribeiro.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

6

«Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua Decada VIII, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico: «irmão de Cristovam Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a attribuição «que dizem ser de Cristovam Falcão, ho que parece alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos genealogistas.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

7

«A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

8

«A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em 1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que então andava no gosto.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

«N'esta folha volante não vem a Carta, nem as Cantigas e Esparsas incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga muy nomeada, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa (existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só conhecidos pela edição de 1559.
«A folha volante sem data diverge do texto de Colonia profundamente; basta observar as variantes entre as lições das estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das Trovas de Crisfal, a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as Trovas de Dois Pastores (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.
«A vinheta do Pastor com capuz e cajado no Crisfal é a mesma que serve nas Trovas de dois Pastores; o typo gothico corpo 12 do titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do Crisfal. Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em outra folha volante de 1536, intitulada Tragedia de los amores de Eneas y de la reina Dido

[Figura]

9

«Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia. Isto leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

Muitos pastores buscaram
mas um pastor por ser-te amigo,
e outro por ser-te enemigo,
um e outro se escusaram.
E dão-lhe logo comigo
gados que farão mil queijos;
mas como se despediam
é já mostrar que temiam
que o sabor dos teus beijos
na minha boca achariam!

10

«Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

11

«Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em situações differentes.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

«...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera em carcere privado:

Vi-me já preso; contente
A meu mal queria bem.

«Na Carta, que escreveu estando preso, e mandou áquella com quem estava casado a furto, diz Christovam Falcão:

Mal cuja dor se não crê
de prisão e de ausencia!

«Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:

Logo então começou
Seu gado a emagrecer,
Nunca mais d'elle curou
,
Foi-se-lhe todo a perder
Com o cuidado que cobrou.

«Em Christovam Falcão lê-se:

Crisfal não era entam
dos bens do mundo abastado,
tanto como de cuidado,
que por curar da paixão
não curava do seu gado.

«E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes traços com que Bernardim Ribeiro retrata o Crisfal:

Sentava-me em um penedo
Que no meio d'agua estava;
Então alli só e quedo
A minha frauta tocava.

«E no Crisfal, quasi pela mesma maneira:

Alli sobre uma ribeira
de mui alta penedia,
d'onde a agua d'alto caía,
dizendo d'esta maneira
estava a noite e o dia...

«Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica entre os dois namorados poetas.»

12

«Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela um trabalhador fervoroso, etc.»

Carta do snr. dr. Th. Braga.

IV
A comunicação do presidente
da Academia das Sciencias
de Portugal

V
O artigo «Movimento litterário»

1

«...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro Bernardim Ribeiro—O Poeta Crisfal, em que resume o já sabido da biographia do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a significarem os factos que imagina.»

Do artigo «Movimento Litterario

«Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e não Celia, como pode inferir-se

Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49


vestida de arenoso,

«Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito amarellado da Ordem cisterciense...»

Obras de Christovam Falcão, p. 11

Té aqui me pude enganar,
mas agora que podeis
trazer a côr do pesar
pera mim só a trazeis...

«Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim Ribeiro pelo que se sabe da sua vida

Obras de Christovam Falcão, p. 12


Amor burlando vá, muerto me deja;
Tiene de que por cierto; a su merced
Como de señor vine; armó la red,
Puso me en prision dura, ende me aqueja;
Cada ora mas se aleja
De mi, mucho cruel. Quien me desmiente?
Ah que lo saben todos! quien ganó
El precio de la lucha, ese perdió!
Enemigo señor que tal consiente!

«...aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira

Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206


Foi minha ama uma fera; que o destino
Não quis que mulher fosse a que tivesse
Tal nome para mi, nem haveria.
Assi criado fui porque bebesse
O veneno amoroso de menino...

Por ama tive ũa fera, que o destino
Não quis que melhor fosse a que tivesse
Para o que elle de mi fazer queria...

«Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.»

Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564

2

«Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de Christovam Falcão—«dois poetas de temperamento semelhante, com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente eguaes.»

Do artigo «Movimento litterário»

3

«D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa ás palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro.»

Do artigo «Movimento litterário»

«Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com a alusão que na écloga de Crisfal haviamos interpretado como visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva satisfação ao reconhecer que os versos de Crisfal que alvejavam Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas: completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.

«Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um ùnico poeta. O trovador Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo ao anagrama Crisfal.
«E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam os dizeres alusivos á ecloga de Crisfal da edição de Colónia, revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio Dias: «que dizem ser de Cristovam Falcão, ao que parece aludir o nome da mesma écloga.»
«Que dizem ser... ao que parece aludir...
«Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula que devia datar da primeira edição das Trovas de Crisfal, etc.»

«Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagrama de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras sílabas das palavras Crisma e Falso

«Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das palavras Crisma e Falso, de que aproveitou as primeiras sílabas, formando assim a palavra Crisfal.

«Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia que fundamentou a composição, são todos êles crismas falsos, sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações, contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do próprio anagrama Crisfal, que foi tomado como deduzido dos nomes de Cristovam Falcão.»

4

«Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na écloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr. Jordão de Freitas?»

Do artigo «Movimento litterário».

«Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do aqui chamado Val de Pantaleão: D. Joanna, tia avó de D. Maria Brandão, casara a primeira vez com João Pantalião; etc.»

«O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata de nenhum João Pantalião, como erradamente leu, mas sim de um João Patalim, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes, como verificámos por nossos próprios olhos.»

«Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D. Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.»

«Maria Brandão, a lendária amada do Crisfal, não teve nenhuma irman! era filha única!»

«...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas.»

«O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna e ao que diz ter sido notado por mim.

«Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes Brandão) do 4.º avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão (Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259).
«Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com ella, etc.»[9]


«Quando contigo falei
aquela ultima vez,
o choro que então chorei,

que o teu chorar me fez,
nunca o esquecerei.
Foi esta a vez derradeira,
mas começo de paixão,
passando-me eu então
era o casal da Figueira
do Val de Pantalião.»

5

«Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.º 180 da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;»

Do artigo «Movimento litterário».

«Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva este manuscripto inteiro, e em bom estado

«A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de verificar as varias lições das impressas, e de restituir as manuscriptas.»[10]

6

«tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a Menina e Moça, duas eclogas de Bernardim Ribeiro—«e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, Dicc. Bibliog.

Do artigo «Movimento litterario».

«Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume, encontro ácerca do auctor da Menina e moça o trecho que se segue:

«As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na Bibl. Hispanica, que vulgarmente era chamado) por sua muita raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam impresso todas. A Bibl. Lus. faz só menção da Menina e moça, ou Saudades de Bernardim Ribeiro. Além das impressões que alli cita, que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa em 1559, em 8.º, que em tudo tem muita semilhança com o manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a Bibl. Hisp., e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.—O titulo que se lê no manuscripto é: Historia da Menina e moça, por Bernaldim Ribeiro. Principia: «Menina e moça me levaram de casa de minha may para muito longe», e acaba: «Com demasiada ira disse contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras». Consta de historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «Nas selvas junto do mar», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos cada uma.—Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia: «Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.»

«De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só elle ignorou a existencia da moderna edição da Menina e moça, feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas, pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra faltavam todas as outras já então impressas.»

7

«Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os encontraram?»

Do artigo «Movimento litterario».

8

«...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...»

Do artigo «Movimento litterário»

9

«No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas, proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.»

Do artigo «Movimento litterário»

10

«A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527 refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a deduzir que nascera em 1512.»

Do artigo «Movimento litterário»

11

«Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.»

Do artigo «Movimento litterário»

12

«Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa intercalava na sua prosa.»

Do artigo «Movimento litterário»

Baste o que tenho dito
pera aver, por galardão,
tres regras de vossa mão,
pera resposta das quaes
......... fique o mais
que aqui escrever devera,
se o escrever podera.

VI
Uma patranha genealógica

«...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no Archivo histórico, suficiente para destruir a petarola inventada pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet. Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões, proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (Arch. hist. III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas, repito, entendo dever meu avisál-o».

VII
O criptónimo «Fileno»

«Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz honra á erudição portuguesa, com o titulo Bernardim Ribeiro, e o sub titulo O poeta Crisfal, aventa a idea de que o criptónimo Fileno seja o disfarce do adjectivo felino, latim felinus, procedente do substantivo felis, «gato», por alusão ao apelido Gato, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.

«Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu Vocabulario portuguez e latino, nem mesmo no próprio Diccionario portuguez de Morais e Silva figura tal adjectivo atè á 3.ª edição, feita no anno de 1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do vocabulo felino é não só posterior, e muito, ao século XV, mas até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto.
«Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical será o de Filipe, por exemplo.»

VIII
In terminis

Amadora, 16 de março de 1909.

APRECIAÇÕES DA IMPRENSA
ao livro
"Bernardim Ribeiro
(O POETA CRISFAL)"

«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)

(Do jornal O Mundo, de 16 de Novembro de 1909)

«Bernardim Ribeiro»
por Delfim Guimarães

(Do jornal O Seculo, de 16 de N, de 16 de Novembro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)

Subsidios para a história da literatura portuguesa, por Delfim Guimarães.—Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.a, 274 pág. 800 réis.

Dr. Candido de Figueiredo
(Do Diario de Noticias, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).

O poeta Chrisfal

Delfim Guimarães: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)—Subsidios para a historia da literatura portuguêsa—1908—Livraria Editora Guimarães & C.a—68, R. de S. Roque, 70—Lisboa.

A Vós, correndo vou, braços sagrados
N'essa cruz sacrosanta descobertos
Que para receber-me estaes abertos
E, por não castigar-me, estaes cravados.
A Vós, olhos divinos eclypsados
De tanto sangue e lagrimas cobertos:
Que para perdoar-me estaes despertos
E por não devassar-me estaes fechados.
A Vós, pregados pés, por não fugir-me;
A Vós, cabeça baixa, por chamar-me;
A Vós, sangue vertido para ungir-me;
A Vós, lado patente, quero unir-me,
A Vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Hemeterio Arantes.
(Do Diario Illustrado, de 2 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)

Subsidios para a historia da litteratura portugueza, por Delfim Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.a 1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.

(Da Mala da Europa, de L, de Lisboa, n.º 669, de 6 de dezembro de 1908).

Ainda Chrisfal


Hemeterio Arantes.
(Do Diario Illustrado, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)

Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim Guimarães. 1908—Liv. ed. Guimarães & C.a Lisboa—8.º, 274 pag.
Delfim Guimarães, Bibliographia: Prosa: Alma Dorida, com prefacio de Teixeira Bastos, O Rosquedo (scenas do Minho), Ares do Minho (contos).—Critica litteraria: A viagem por terra do sr. João Penha.—Verso: Lisboa negra, Confidencias, Evangelho, Não! mil vezes não!, Sim! mil vezes sim!, Sonho Garretteano, A Virgem do Castello e Outonaes.—Theatro:—Aldeia na Côrte, de collaboração com D. João da Camara. (3 actos—Th. D. Amelia), Juramento sagrado (1 acto, verso.—Th. D. Maria). Traduziu a Dama das Camelias, de Dumas, filho; reviu e publicou as Saudades de Bernardim Ribeiro e as Trovas de Crisfal, do mesmo auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou longo tempo na Mala da Europa, Provincia, O Lima, Chronica, etc. Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.ª edição, estando algumas outras exgotadas.

Albino Forjaz de Sampayo.
(Do jornal A Lucta, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).

«Bernardim Ribeiro»
por Delfim Guimarães

(Do jornal O Dia, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)

«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)

Antonio Ferreira
(Do Commercio do Lima, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

A. B.
(Do Jornal das Colonias, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

(Do jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»
por Delfim Guimarães

(Do Jornal de Noticias, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909).

Divagações

I

«Dão os premios, de Ajace merecídos,
Á lingua vã de Ulysses fraudulenta»

«Fit sa croix, déclarant ne savoir pas écrire,
Mais d'un ton si autain que nul ne put en rire.»

Por ti me vi desterrada
em estas estranhas terras
de donde eu fui criada,
e, por ti, antre estas serras,
em vida, são sepullada:
onde, a se me perderem
a frol dos annos se vão;
ora julga se é rezão
das minhas lagrimas serem
menos daquestas que são!

Silvio de Almeida.
(Do jornal O Estado de S. Paulo, de S. Paulo, Brasil, de 29 de março de 1909).

Divagações

II

«Coitado, não sei que diga,

«Mas, triste, não sei que digo»;

«Cuidai quanto nos quisemos,
e não vos possa mudar
dizer que vos podem dar
outrem que tenha mais que eu»,

«Veio ahi outro pastor ter:
com o que prometteu ou deu
se deixou delle vencer»,

«Vão alli grandes montanhas
de alguns valles abertas,
todas de soutos cubertas,
aos naturaes extranhas,
mas á saudade certas.

«Sendo de pouca edade,
não se ver tanto sentiam
que o dia que se não viam,
se via na saudade
o que se ambos queriam».

«a frol dos annos se vão»,

«Quando vos dei a vontade,

inda vós ereis menina,
e eu de pouca edade»,

«logo então começou
seu gado a emagrecer:
nunca mais delle curou.»

«...por curar da paixão,
não curava do seu gado».

«descuido matou meu gado,
cuidado matou a mim».

«O longo uso dos danos
se converte em natureza».

«Vine por Ribero ver,
como otras vezes solia.»

«Aqueste é o pastor
que aqui vêo buscar-me.»

«Io sonava que me via
entre unas cerradas breñas;
de una parte i de otra peñas,
do nunca el sol descobria»,

«esconderam-me antre serras,
onde o sol nunca era visto,»

Silvio de Almeida.
(Do jornal O Estado de S. Paulo, de S. Paulo, Brasil de 5 de Abril de 1909).

Indice


Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal

Pag.
I.Razão de ser d'este livro[5]
II.O snr. dr. Theóphilo Braga descobrindo a verdade, e procurando enterrá-la[29]
III.Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga[37]
IV.A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal[59]
V.O artigo «Movimento litterário»[63]
VI.Uma patranha genealógica[97]
VII.O criptónimo «Fileno»[99]
VIII.In terminis[103]

Apreciações da imprensa ao livro:

«Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)»

Do jornal«OMundo», de Lisboa[107]
»»«OSeculo», » »[109]
»»«DiariodeNoticias», de Lisboa,—artigo do snr. dr.CandidodeFigueiredo[111]
»»«DiarioIllustrado», de Lisboa,—artigos do snr.HemetérioArantes[113] e [125]
»»«AMala daEuropa», deLisboa[121]
»»«ALucta,»de Lisboa,—artigo do snr. Albino Forjaz deSampayo[133]
»»«ODia», deLisboa[139]
»»«OCommercio deLima», de Ponte do Lima—artigo do snr. dr.Antonio Ferreira[143]
»«JornaldasColonias», de Lisboa,—artigo de A.B.[147]
»jornal «OPrimeiro deJaneiro», doPorto»[149]
»«JornaldeNoticias», doPorto[151]
»jornal «OEstado de S.Paulo», de S. Paulo, Brasil,—artigos do snr.Sílvio deAlmeida[155]

Nota de D. G.

Nota de D. G.

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
[#pág. 12]auxilados...auxiliados
[#pág. 28]impondo-a...impondo-o*
[#pág. 29]Pedron...Padron*
[#pág. 32]paternalmente...paternalmente,*
[#pág. 38]primeiro...segundo*
[#pág. 85]com o...como
[#pág. 90]empenhada...empenhado
[#pág. 94]com todas...como todas*
[#pág. 95]Falção...Falcão*
[#pág. 102]portuguesês...portuguêses
[#pág. 107]Chistovão...Christovão

* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
As figuras da [página 34] e da [página 49] estão ilegíveis, motivo pelo qual não foram adicionadas. Fica no entanto a sua indicação.