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O Mysterio da Estrada de Cintra

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO

O Mysterio da Estrada de Cintra

Cartas ao Diario de Noticias

Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio

LISBOA

Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor 50—RUA AUGUSTA—54

MDCCCXCIV

LISBOA TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA 11—Apostolos—1.^o

+PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+

CARTA AO EDITOR D'O Mysterio da Estrada de Cintra

Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante pot-pourri dos Dois Foscaris, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do Diario de Noticias.

Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.

Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do Diario de Noticias o Mysterio da Estrada de Cintra, o comprou ainda n'uma edição em livro; e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com saudade…

Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr. Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas. Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado… (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam commovidamente os criticos:—Eis ahi uma obra que ha de ficar!… Nós, emfim, eramos novos.

O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?… Pensamos simplesmente—louvores a Deus!—que elle é execravel; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria tirar.

Poupemol-o—para o não aggravar fazendo-o em tres volumes—á enumeração de todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda, sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes, sobre as suas toilettes romanticas, sobre os seus cavallos esporeados por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!…

Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.

Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva?

Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se do ser trabalho.

Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: Comecei por ali. Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles.

Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal!

Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade.

Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição.

A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a receber, uma util lição de independencia.

A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz, revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora, copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas.

Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice.

Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que, para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a doirada abelha da phantasia.

A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras, resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso espírito, é para o nosso coração uma suave alegria.

Lisboa, 14 de dezembro de 1881

De V.

Antigos amigos

Eça de Queiroz

Ramalho Ortigão

+O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+

+EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** +

I

Sr. redactor do Diario de Noticias

Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo menos, do que vou expôr.

Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio, envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes tenham de ser as ultimas.

Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F…, um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.

Montavamos dois cavallos que F… tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.

Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na paizagem, caminhando a passo.

A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem, n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem.

Era um coupé pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha.

O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos.

Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar attentamente o jogo da carruagem.

Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma pedra para calçar o trem.

É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo.
Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada.

Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F… tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e caiu de chapa.

O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para o lado oposto.

O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham constrangido.

O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que ficára debaixo do cavallo.

Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu. Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavallo.

Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei.

Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente.

F…, vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lhe da mão.

Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o tinha seguro.

O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade:

—Menos furia! menos furia!

O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapeu que lhe caira.

A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas a que chamam em França coups de poing e que varam uma porta a trinta passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade:

—Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada.

Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio.

Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão extranha aventura.

Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou violencia alguma.

Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido, vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas, nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F… trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas.

Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que resistissemos ou que nos rendessemos.

—Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos ficarão em Cintra d'aqui a duas horas.

Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no coupé. Eu segui-o.

Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.

No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara que tinha no rosto, e partimos a galope.

Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.

Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.

Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe occulto o meu nome e o nome do meu amigo.

II

Julho, 24 de 1870—Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal.

Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta feira, 20 do corrente mez de julho.

Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle se empregaram.

A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o, em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do coupé coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no horisonte.

Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que tomassemos.

É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha de Cintra para Lisboa.

Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um quarto.

O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido.

Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte de F…, o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhassemos, nos disse:

—Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em quanto á segurança das suas pessoas…

—Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras, arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos. Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós assustados.

Com quanto estas cousas fossem ditas por F… com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução:

—No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e dissesse o mesmo no seu logar.

E, tendo meditado um momento, continuou:

—Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui?… Queiram imaginar por um momento um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está gravida. Que deliberação ha de tomar?

Houve um silencio.

Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude d'aquelle problema e respondi:

—Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre, comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa n'essas condições, n'um cottage á beira do lago Genebra ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo do idyllio.

—E o filho?

—O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda.

—O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico, esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao mundo.

—Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou aqui.

—Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle.

—Mas eu não faço clinica.

—É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade. Queira fazer de conta que vae assistir a um parto.

O meu amigo F… poz-se a rir e observou:

—Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?

—Quer saber o motivo porque se encontra aqui?… Eu lh'o digo.

N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros sobresaltados ergueram-se.

III

Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando.

Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.

Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua illuminada.

Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas, aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F… a razão porque elle nos acompanhava, prosseguiu:

—O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico. Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora comprehende, continuou elle dirigindo-se a F…, a razão por que nos acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.

—A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha discrição.

—A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.

F… achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.

As palavras de F… accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.

É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.

Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:

—Lá vou!

Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:

—Vão com raparigas para Lisboa.

O trem prosseguiu.

Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?

Não posso dizel-o com certeza.

A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:

—Chegámos.

O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma commoção:

—Tenham paciencia! perdôem-m'o… Assim é preciso!

F… approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente vendado pelo que estava em frente de mim.

Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que era disse:

—Levo o trem?

A voz do que nos guiara respondeu:

—Leva.

Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:

—Vamos!

Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.

Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.

Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma especie de sobresalto pueril.

Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.

—Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.

Descobri os olhos. Era noite.

Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.

Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.

O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.

IV

Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos da minha vida repousada subitamente exaltados,—tudo isto me dá um estado de irritação morbida que me aniquilla.

Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:

—Que quer isto dizer, meus senhores?

Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:

—Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com algum narcotico?

Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação, approximei-me do cadaver, e examinei-o.

Estava deitado n'uma chaise-longue, com a cabeça pousada n'uma almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido.

Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar.

—Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.

Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a narcotisação.

Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da chaise-longue sobre uma cadeira de estofo.

—Não sei, disse elle, talvez aquillo.

O que havia no copo era evidentemente opio.

—Este homem está morto, disse eu.

—Morto! repetiu um d'elles, tremendo.

Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrivel.

Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:

—Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil; como testemunha posso ser perigoso.

Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:

—Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto?

—De certo.

—E qual pensa que fosse a causa da morte?

—O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra.

Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.

—Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto?

Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F… junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio.

Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras, tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro.

—Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem—comprehendem perfeitamente, que se nós tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações…

—Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta.

Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.

—Ah! os senhores escarnecem! gritou F…

E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair, offegante, tremulo de desespero.

Eu tinha ficado sentado e impassivel.

—Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela colera, eu protesto pelo tedio.

E accendi um charuto.

—Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara, tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por assassino!… Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem!

E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se, descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-n'o, olhando rapidamente para F…, que tinha ficado impassivel. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam baixo. Eu no emtanto examinava a sala.

Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala.

O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.

Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle homem parecia inglez.

Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.

F…, tinha-se approximado de mim.

—Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.

—Não. Conheceste?

—Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti.
Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.

Um dos mascarados approximou-se, perguntando:

—Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta chaise-longue?

Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, entrara, dizendo para os outros:

—Prompto!…

Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F…, que passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.

—Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado—damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela corrupção, pela astucia, ou pela força da lei… como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto—disse-me—é n'aquella alcova, e o seu—apontou para F.—lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para os jornaes.

Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não respondemos.

Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma corôa.

N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F…

—Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe os olhos.

F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os olhos, e sairam.

Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.

Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente, elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu.

Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha viajado e tinha lido.

De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes.

Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na fechadura.

Nós, immoveis, não respiravamos.

Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel, com os braços estendidos.

Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.

* * * * *

P.S.—Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:

Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido…

Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas populares.

V

Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o morto.

O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de toilette. Voltou a si, e, ainda tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a janella!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

—Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o coração!

—Vá, vá, disse eu, breve! responda… Que quer? Que veio fazer aqui?

Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia machinalmente:

—Está perdido tudo! Está tudo perdido!

—Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu fazer aqui? Que é isto? como soube?…

A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da mascara.

—Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o como um vime.

—Escute… disse o homem convulsivamente. Vinha saber… disseram-me… Não sei. Parece que já cá estava a policia… queria… saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado… vinha tomar informações…

—Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.

Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava positivamente envolvido no crime…

—Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.

O homem calou-se.

—Quem lhe fallou n'isto?

Calou-se.

—Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa?

Calou-se.

—Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?…

E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do expediente que ia tomar, accrescentou:

— … nós e o senhor comissário.

O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.

—Para que era isto?

—Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa… um caixote…

O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a livida face do cadaver.

—Conhece este homem?

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e attento.

Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:

—Porque o matou?

—Eu? gritou elle. Está doido!

Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.

—Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim.

—Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido.

Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem dicta:

—A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, n.º tantos…

Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde estava!

Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

—Se diz onde estamos, mato-o.

O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia. Esteve um momento calado e accrescentou:

—Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

—Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.

—Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores?
Suppuz que eram da policia… São talvez… disfarçam para me
surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair…
Que desgraça!

—Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

—Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.

—Qual?

—É que não tivesse deixado signaes o arsenico…

—Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.

Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.

—Sabe tudo, disse eu ao mascarado.

—Foi elle, confirmou o mascarado convencido.

Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:

—A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que vêr n'este negócio.

—De certo que não. Este homem é o assassino.

E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da mascara:

—E porque o matou?

—Matei-o… respondeu o homem.

—Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para lhe roubar 2:300 libras em bank-notes, que aquelle homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de prata, que eram as iniciais do seu nome.

—Eu!… para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei!

—Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado.

A.M.C. objectou lentamente:

—O senhor que está mascarado… este homem não era seu amigo, o unico amigo que elle conhecia em Lisboa?

—Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço.
Falle,diga.

—Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha poucas semanas, vinha a esta casa…

—É verdade, atalhou o mascarado.

—Que se encontrava aqui com alguem…

—É verdade, disse o mascarado.

Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.

—Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um grande segredo occupava a vida d'este infeliz…

—É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.

—Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava…

Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões.

—Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.

E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.

—Leia, disse elle ao mascarado.

Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.

Ergui o papel, li:

I declare that I have killed myself with opium.

(Declaro que me matei com opio).

Fiquei petrificado.

O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho:

—Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio!

Vinha a amanhecer.