Cartas de Inglaterra

Eça de Queirós

Cartas de Inglaterra

Porto
LIVRARIA CHARDRON
de Lello & Irmão—Editores
1905

Obras de EÇA de QUEIROZ

O crime do padre amaro. Quarta edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume1$200
Os Maias. Segunda edição. 2 grossos volumes 2$000
A cidade e as Serras. 800
O Mandarim. Quarta edição. 1 volume 500
O primo Basilio. Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
A Reliquia. Terceira edição. 1 grosso volume 1$000
Contos. 1 volume 600
As minas de salomão. 1 volume 600
Correspondencia de Fradique Mendes. 1 volume 600
Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12$000
A Illustre Casa de Ramires. 1 volume 1$000
Prosas Barbaras. 1 volume 600
No prélo:
Echos de Paris
S. Christovam (inedito)

Porto—IMPRENSA MODERNA

INDICE

Pag.
Afghanistan e Irlanda[1]
Ácerca de livros[15]
O inverno em Londres[33]
O Natal[45]
Litteratura de Natal[55]
Israelismo[63]
A Irlanda e a Liga Agraria[77]
Lord Beaconsfield[95]
Os inglezes no Egypto[125]
O Brasil e Portugal[207]
A festa das creanças[223]
Uma partida feita ao Times[231]

Nota do transcritor: no livro impresso o índice encontra-se no fim da obra!

[ I
Afghanistan e Irlanda]

Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d'esse humoristico logar-commum do seculo XVIII: «A Historia é uma velhota que se repete sem cessar.»

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim uma imaginação exhausta.

Em 1847 os inglezes, «por uma razão d'Estado, uma necessidade de fronteiras scientificas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia...» e outras coisas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes—invadem o Afghanistan, e ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; collocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegraphado a victoria, o exercito, acampado á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880.

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias indigenas, vão percorrendo o territorio, e com grandes nomes de Patria e de Religião, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias feudaes correm com os seus troços de cavallaria, principes rivaes juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a entrada da India... E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa barbara rola-lhe em cima e aniquila-o.

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exercito refugiam-se n'alguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n'essas guerras asiaticas póde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India, reclamando com furor reforços, chá e assucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o inglez, sem chá, bate-se frouxamente.) Então o governo da India, gastando milhões de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas collinas de assucar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880.

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras columnas de tropa india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; d'ahi começa uma marcha assoladora, com cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manhã avista-se Candahar ou Ghasnat;—e n'um momento, é aniquilado, disperso no pó da planicie, o pobre exercito afghan com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneraveis colubrinas do modelo das que outr'ora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre! Hurrah!—Faz-se immediatamente d'isto uma canção patriotica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularisada n'uma estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros bellos como Apollos, que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847; ha-de ser assim em 1880.

No emtanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a patria ou morriam pela fronteira scientifica, lá ficam, pasto de corvos—o que, não é, no Afghanistan, uma respeitavel imagem de rhetorica: ahi, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as immundicies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n'uma pagina de chronica...

Consoladora philosophia das guerras!

No emtanto a Inglaterra goza por algum tempo a «grande victoria do Afghanistan»—com a certeza de ter de recomeçar d'aqui a dez annos ou quinze annos; porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a França, nem póde consentir, collados á sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. A «politica» por tanto, é debilital-os periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades d'um grande imperio. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vacca para o leite e dois pés d'alface para as merendas de Verão...

Outra historia melancholica é a da Irlanda. Quem não conhece as queixas seculares da Irlanda, da Verde Erin, terra de bardos e terra de santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de raça celtica, esmagada por um feudalismo agrario, vivendo em buracos como os servos gothicos, vae desesperadamente disputando á urze, á rocha, ao pantano, magras tiras de terra, onde cultiva, em lagrimas a batata? Todo o mundo sabe isto—e, desgraçadamente, esta Irlanda de poema e de novella é, em parte, verdadeira: além dos poucos districtos onde a agricultura é rica como em qualquer dos uberrimos condados inglezes, além de Cork ou Belfast, que têm uma industria forte—a Irlanda permanece o paiz da miseria, bem representada n'essa estampa romantica em que ella está, em andrajos, á beira de um charco, com o filhinho nos braços morrendo-lhe da falta de leite, e o cão ao lado, tão magro como ella, ladrando em vão por soccorro...

Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provêm, sobretudo, do systema semi-feudal da propriedade.

O povo irlandez é numeroso, exageradamente prolifico (nem a emigração, nem a morte, nem as epidemias, alliviam esta ilha muito cheia) e vive n'uma terra pobre, de cultura estreita, apenas no seu terço trabalhada: os proprietarios, lords inglezes ou escocezes, sempre ausentes das terras, não admittindo a despeza d'um schelling para as melhorar, estão em Paris, estão em Londres, comendo pecegos em janeiro, e jogando pelos clubs o whist a libra o tento: os seus procuradores e agentes, creaturas vorazes, sem ligação com o solo nem com a raça, forçados a remetter incessantemente dinheiro a SS. SS., interessados em conservar a procuradoria, cáem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, forçam-n'o a vendas desastrosas, enlaçam-n'o na uzura, tributam-n'o feudalmente, apertam-n'o com desespero como a um limão meio secco, até que elle verta n'um gemido o ultimo penny. Se o miseravel este anno, fatigando o torrão, sustentando-se de hervas seccas, economisando o lume quando ha seis palmos de neve, consegue arrancar de si a somma que S. S., o Lord, reclama para offerecer uma esmeralda á loura Fanny ou á pallida Clementine, para o anno lá está enleado na divida, sem meios de comprar a semente, com uma terra exhausta a seus pés...

Então o procurador, de lei em punho, vem, corre, penhora-o, vende-lhe o catre, expulsa-o do casebre, atira-lhe mulher, creancinhas e avós entrevados para as pedras do caminho... E ahi vae mais um bando de desgraçados engrossar o lamentavel proletariado que povôa a «verde ilha dos bardos». São milhares, são milhões! Esta população, com o ventre vazio, os pés nús sobre a geada, volta-se então para a Inglaterra, a mãe Inglaterra, que tem a Lei, que tem a Força, que tem a Responsabilidade: a Inglaterra, commovida na sua fibra christã, volta-se para os seus economistas, os seus politicos: estes individuos pousam as suas vastas frontes nas suas vastas mãos, e arrancam das concavidades da sua sabedoria pharisaica esta resposta, a tenebrosa resposta da meia edade ás reclamações do soffrimento humano:

—Paciencia! o remedio está no ceu...

A Inglaterra, valendo-se capciosamente do clero catholico da Irlanda, e da religiosidade da plebe, para a manter na resignação da miseria, acenando-lhe com as promessas côr de ouro da bemaventurança—é um salutar espectaculo!

Sejamos, porém, justos: a Inglaterra manda tambem, aos milhões de esfomeados, farinha e dois ou tres schellings: e o Punch faz-lhes a honra de lhes dedicar pilherias.

De tudo isto que resulta? Que o irlandez, vendo a fome no seu lar, a Inglaterra occupada com o dr. Tanner, o Punch muito divertido, e o ceu muito longe—faz uma trouxa dos seus andrajos, vae á villa mais proxima, apresenta-se ao comité dos Fenians ou á secção de Mollie Maguire e diz simplesmente:—Aqui estou!...

Estas duas associações secretas são terriveis e completam-se uma pela outra. Os Fenians, que estiveram um momento desorganizados, mas que têm hoje a prosperidade de uma instituição publica, são uma seita politica, com o fim claro de conquistar a independencia da Irlanda: o seu meio é uma futura insurreição, batalhas á luz do dia, um esforço heroico de raça que sacode o estrangeiro.

É evidente, portanto, que a Inglaterra não tem nada a temer d'esta associação: uma esquadra no canal de S. Jorge, dez mil homens desembarcados, e os Fenians serão, no estylo da canção, como a herva dos campos depois que passou o ceifador, um estendal de cousas sem vida. Mas não é assim com Mollie Maguire; esta constitue puramente uma conspiração: os seus estatutos, os seus fins, a sua organização, os seus chefes, tudo está envolvido n'um mysterio, que é o terror na Irlanda; só são claros os seus crimes. Ha um proprietario duro que levantou a renda? Uma noite, ou elle ou o seu procurador apparecem á beira de um caminho, com duas balas na cabeça. Quem foi? Foi Mollie Maguire: foi ninguem, foi a Miseria, foi a Irlanda. Ha um senhorio, um agente, que fez uma penhora? Á meia noite, a sua casa começa a arder, e é n'um momento uma ruina fumegante. Quem foi? Mollie Maguire. Houve um burguez especulador que comprou o casebre de um proprietario penhorado? No outro dia lá está no fundo de uma lagôa, com um pedregulho ao pescoço. Quem foi, coitado? Mollie Maguire. Todos os dias, n'estes ultimos mezes, são assim, dois, tres d'estes crimes—que têm em Inglaterra o nome de agrarios. Os tribunaes, a policia, já se não fatigam em devassas e em autos: para quê? Mollie Maguire é intangivel, Mollie Maguire é impessoal.

E se houvesse um magistrado tão desgostoso da vida que quizesse descobrir d'onde viera a bala, o pedregulho ou o fogo—teria certamente, horas depois, o que tanto parecia desejar: um punhal atravez do peito. São verdadeiramente os processos do Nihilismo militante: nem falta a esta seita aquella vaga exaltação mystica que complica o Nihilismo. Se Mollie (Mollie é o diminutivo de Maria) não é uma divindade, é pelo menos uma degeneração fetichista da divindade: é a tenebrosa padroeira das desforras da plebe, aquella em quem os desgraçados abandonados de Deus, do Deus official, do Deus da Missa, encontram soccorro, amizade, força—uma sorte de encarnação feminina do diabo do Sabbath, confidente dos servos e dos feiticeiros da meia-noite.

A estas duas associações deve juntar-se uma terceira, legal essa, fallando alto nas praças, com jornaes, com taboleta, vivendo sob a protecção da Constituição, respeitada da policia, e que se chama a Liga da Terra. O seu fim é promover, por meio de meetings e representações, uma vasta agitação, um impulsivo movimento da opinião, que force o parlamento inglez a reformar o systema agrario. Mas é realmente uma associação legal? São os seus fins tão honestamente moderados, tão estreitamente constitucionaes como se diz? Todo o mundo duvida. Na Irlanda, sempre que dois homens se reunem, conspiram: quando se sentem quatro, apedrejam logo a policia:—que será então quando reconhecerem que são duzentos mil? Além d'isso, as reclamações d'esta associação são de um vago singular: nada de pratico, nada de realisavel: apenas os velhos gritos sentimentaes da aspiração humanitaria. E, ao mesmo tempo, os homens, que a dirigem, são espiritos positivos e experimentados. Ha aqui uma contradicção assustadora. Sente-se que os chefes d'este movimento, sabendo bem que da Inglaterra nada têm a esperar, estão simplesmente, sob as apparencias da legalidade, organisando a insurreição. Formular um programma pratico para o parlamento votar, seria, na opinião d'elles, ocioso e pueril: as declamações verbosas em que se falle muito de legalidade, ordem, parlamentarismo bastam—para illudir a policia... E não é duvidoso que, n'um certo momento, Fenians, Mollie Maguire e Liga da Terra formarão um só movimento—o da revolta desesperada.

Este era o estado da Irlanda ha dois mezes, quando se deu o caso inesperado do bill de compensação. Este projecto de lei apresentado pelo ministro Gladstone (parte por um sentimento liberal de justiça, parte para agradecer os fortes serviços dos irlandezes nas ultimas eleições) não trazia certamente um remate aos males da Irlanda; mas, coarctando os abusos dos senhores, difficultando a arbitrariedade das «expulsões», modificando a legislação barbara das penhoras, alliviava o trabalhador irlandez do ferreo calcanhar feudal que o esmaga. O bill passou entre os applausos da camara dos communs: mas escuso de acrescentar que a camara dos lords, essa augusta e gothica assemblêa de senhores semi-feudaes, o regeitou com horror, como obra execravel do liberalismo satanico!

Veem d'ahi o resultado: os agitadores da Irlanda, os seus prophetas, os seus chefes apossaram-se com enthusiasmo d'esta regeição da camara dos lords—e utilisaram-n'a tão habilmente, como Antonio utilisou a tunica ensanguentada de Cesar. Foram-n'a mostrando á plebe indignada, por campos e aldeias, gritando bem alto: «Aqui está o que fizeram os lords, os vossos amos, os vossos exploradores! A primeira proposta justa, em bem da Irlanda, que se lhes apresenta, repellem-na! Querem manter-vos na servidão, na fome, no opprobrio das velhas edades, no estado da raça vendida! Ás armas!»

E desde então a Irlanda prepara-se ardentemente para a insurreição: apesar dos cruzeiros que vigiam a costa, todos os dias ha desembarques de armas; o dinheiro, os voluntarios affluem da America; pelos campos vêm-se grupos de duzentos, trezentos homens, de espingardas ao hombro, fazendo exercicios como regimentos em vesperas de campanha; ainda que seja agora a epoca das colheitas, a população não está nos campos, está nos meetings, nos clubs; e os tribunos, os agitadores, prodigalizam-se sem repouso. Não falta, decerto, a estes homens nem coragem, nem aquella eloquencia pathetica que faz passar nas multidões o arrepio sagrado. Um d'elles, Redathd, exclamava ha dias:

—Dizem-nos a cada momento: sêde justos, pagae ao lord, pagae ao senhorio! E citam-nos a palavra divina d'aquelle que disse: Dae a Cesar o que é de Cesar! Houve só um homem, Brutus, que deu a Cesar o que a Cesar era devido, um punhal atravez do coração!

Esta brutalidade tem grandeza. Agora imagine-se isto lançado a uma multidão opprimida, com os gestos theatraes d'esta raça violenta, de noite, n'um d'estes sinistros descampados da Irlanda, que são todos rocha e urze, ao clarão d'archotes, dando aquella intermittencia de treva e brilho que é como a alma mesma da Irlanda—e veja-se o effeito!

Em Inglaterra, mesmo, os optimistas consideram a insurreição quasi inevitavel para os frios do outomno. E o honesto John Bull prepara-se: já o ministro do interior está em Dublin, e é eminente a declaração da lei marcial... N'este ponto, radicaes e conservadores são unanimes: se a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Sómente John Bull declara que o seu coração ha-de chorar emquanto a sua mão castigar... Excellente pae!

O jornal o Standard, o veneravel Standard, tinha ha dias uma phrase adoravel. «Se, como é de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve a si e á Inglaterra»—exclamava o solemne Standard,—«é doloroso pensar que no proximo inverno, para manter a integridade do imperio, a santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir, com o coração negro de dôr, mas a espada firme na mão, levar á Irlanda, á ilha irmã, á ilha bem amada, uma necessaria exterminação.»

Exterminação é muito: e quero crêr, que está alli, para rematar com uma nota grave, uma nota d'orgão, a harmonia do periodo. Mas o sentimento é curioso e raro: e seria um espectaculo maravilhoso vêr, no proximo inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lagrimas e a sua bayoneta a pingar de sangue... —Ainda as fataes necessidades de um grande imperio! Volto ao meu desejo: um quintalejo, uma vacca, dois pés d'alface... E um cachimbo—o cachimbo da paz!

[ II
Ácerca de livros]

Outubro chegou, e com este mez, em que as folhas cáem, começam aqui a apparecer os livros, folhas ás vezes tão ephemeras como as das arvores, e não tendo como ellas o encanto do verde, do murmurio e da sombra.

Estamos, com effeito, em plena Book-Season, a estação dos livros.

Estes dous mezes, setembro e outubro (e elles merecem-no porque como côr, luz, repouso, são os mais simpathicos do anno) têm accumulado em si as mais interessantes seasons, as estações mais fecundas da vida ingleza.

A London-Season, a celebre estação de Londres, quando a Aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palacios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres—passa-se em abril, junho e julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e ôca estação de trapos, de luvas de vinte botões, de lacaios, de champagne, de batota e de cotillon. Emquanto que as outras!...

Olhem-me para estas sabias, uteis, viris, solemnes seasons, que abundam n'estes dourados mezes de setembro e outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a Congress-Season, a estação dos congressos.

Que espectaculo! Toda a verde superficie da Inglaterra está então, de norte a sul, salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Ha-os de metaphysicos e ha-os de cosinheiros.

Aqui, duzentos individuos carrancudos e descontentes elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sabios, acocorados, semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não pódem chegar á conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da camara nupcial da rainha Ginevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão—esse amor!

Os congressos mais notaveis este anno fôram—o de medicina em Londres, a que assistiram mil e tresentos congressistas medicos e cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometteu á humanidade, para d'aqui a annos, a suppressão das epidemias pelas vaccinas; o da British Association, a grande Sociedade das Sciencias (congresso annual celebrado este anno em York) em que o presidente, sir John Lubbock, esse amavel sabio que tem passado a existencia a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploraveis oligarchias de abelhas—occupou-se d'esta vez, dando um balanço á sciencia durante os ultimos cincoenta annos, a mostrar algumas das estupendas habilidades d'esse outro ephemero insecto, o Homem: e emfim o congresso annual da Egreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitarios ecclesiasticos, theologos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, o mais douto e litterario da Europa. N'este, entre outros assumptos discutiu-se a Influencia da Arte na vida e no pensar religioso: mas, quanto a mim, o resultado mais nitido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminue de um terço todos os dez annos, ao passo que o espirito de religiosidade cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das fórmas caducas e pereciveis das religiões.

N'este momento ha outros congressos—o dos Metallurgistas, o das Sciencias Sociaes, o dos Telegraphistas, o Archeologico, o dos Gravadores, o dos... emfim, centenares. Até o dos Browninguistas. Não sabem o que são os Browninguistas? Uma vasta associação, tendo por fim estudar, commentar, interpretar, venerar, propagar, illustrar, divinisar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo n'este paiz de arrebatados enthusiasmos intellectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem duvida, com Shelley, Shakspeare e Milton, um dos quatro principes da poesia ingleza: mas tem o inconveniente de estar vivo. Elle proprio assiste, materialmente, com o seu paletot e o seu guarda chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assumpto: e fatalmente, pelo effeito mesmo da sua presença, a admiração litteraria tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake hands que elle distribue começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que elle escreveu. Por isso mesmo que o divinisam, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o idolo particular dos Browninguistas, deixa assim de ser um espirito fallando a espiritos—para ser apenas um manipanso aterrorizando supersticiosos.

Mas, continuando com as estações, temos ainda a Yachting-Season, a estação nautica, das regatas, das viagens em yacht. Hoje em Inglaterra ter um yacht é, como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das fórmas mais triviaes do conforto luxuoso. Um yacht não é só um frágil e airoso barco de cincoenta toneladas e vela branca; póde ser tambem um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. N'este ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das flôres e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo, carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de yacht tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de yacht é vasta—William Black, o autor das Azas Brancas, do Nascer do Sol, da Princeza de Thude, o seu romancista official: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do pincel d'um Jules Breton.

Temos igualmente n'este mez a Shooting-Season, a estação da caça ao tiro, que abre no 1.º de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de um interesse publico tão intenso, tão fremente—que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revolução a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão d'esta abominavel comparação—mas a carne é fraca, e eu considero esta estação sublime. É n'ella que se caça o grouse, e é durante ella que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençôe!) nos moors, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no grouse, com as mãos cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio... Não imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas boas sem veneração. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o ortolan, esse outro delicioso passaro, acrescentou—que o peitinho gordo do ortolan é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade. Póde-se dizer o mesmo do grouse.

Continuando, temos a Burglary-Season, a estação dos assaltos e roubos ás casas. Esta começa tambem em setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e somnolento guarda-portão. Os salteadores de Londres, corpo social tão bem organisado como a propria policia, procede então systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades abarrotadas de cousas ricas...

Temos a Lecture-Season, ou estação das conferencias. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisação. Basta dizer que n'esta estação não ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se não veja, cada noite, um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os assumptos são tudo—desde a ideia de Deus até á melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são todo o mundo—desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sóbe á plataforma a contar as suas impressões de viagem ás ilhas Fidji, ou as aptidões curiosas que observou no seu cão...

Ha ainda outras estações que basta enunciar: a Hunting-Season, a estação da caça á raposa (isto é todo um mundo); a Cricket-Season, a estação em que se joga o cricket,—e em que se vêm d'estes edificantes espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presença arrebatada de um povo em delirio!

Temos tambem a Angling-Season, a estação da pesca á linha, instituição nobilissima a que a humanidade deve o salmão e a truta. É o sport favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne respeitabilidade e de alto ceremonial—pesca á linha. Talvez por isso, de todos os sports inglezes, a pesca á linha é um dos que têm produzido uma litteratura mais consideravel—tão consideravel que a sua bibliografia, a simples enumeração dos seus tratados, occupa um livro de duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso estudo sobre a Pesca á linha entre os Assyrios...

Só esta semana a litteratura da pesca á linha nos deu já dois livros, segundo as listas: A carteira de um pescador á linha, Pela beira dos rios.

Temos ainda a Traveling-Season, a estação das viagens, quando o famoso touriste inglez faz a sua apparição no continente. N'esta epoca (setembro e outubro) todo o inglez que se respeita (ou que, não podendo em sua consciencia respeitar-se, pretende ao menos que o seu visinho o respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os paizes do sol, do vinho e da alegria. Os anjos (se o não sonharam, como diz João de Deus) devem assistir então, do seu terraço azul, a um espectaculo bem divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover—e d'ahi successivamente partirem longos formigueiros de touriste, riscando de linhas escuras o continente, indo alastrar os valles do Rheno, negrejando pela neve dos Alpes acima, serpenteando pelos vergeis da Andaluzia, atulhando as cidades da Italia, inundando a França! Tudo isto são inglezes. Tudo isto traz um Guia do Viajante debaixo do braço. Tudo isto toma notas. Isto ás vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida d'esta amiga, sete filhos, seis creados, dez cães, e outros cães conhecidos d'estes cães; e isto paga por tudo isto sem resmungar! Não: não digo bem, resmungando sempre. Esta viagem de prazer passa-a quasi sempre o inglez a praguejar (mentalmente—porque nem a Biblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).

A verdade é que o inglez não se diverte no continente; não comprehende as linguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, toilettes, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga crença de que os lençóes nas camas d'hotel nunca são limpos; o vêr os theatros abertos ao domingo e a multidão divertindo-se amargura a sua alma christã e puritana; não ousa abrir um livro estrangeiro porque suspeita que ha dentro cousas obscenas; se o seu Guia lhe affirma que na cathedral de tal ha seis columnas e se elle encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o paiz que percorre, como um homem a quem roubaram uma columna; e se perde uma bengala, se não chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compôr uma carta para o Times, em que accusa os paises continentaes de se acharem inteiramente n'um estado selvagem e atolados n'uma putrida desmoralisação. Emfim o inglez em viagem, é um ser desgraçado. É evidente que eu não alludo aqui á numerosa gente de luxo, de gosto, de litteratura, de arte: fallo da vasta massa burgueza e commercial. Mas mesmo esta encontra uma compensação a todos os seus trabalhos de touriste quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como esteve aqui e além, e trepou ao Monte Branco, e jantou n'uma table-d'-hote em Roma e, por Jupiter! fez uma sensação dos diabos, elle e as meninas!...

Que mais estações temos ainda? A Speech-season, a estação dos discursos, quando, nas ferias do parlamento, todos os homens publicos se espalham pelo paiz discursando, perante enormes meetings, sobre os negocios publicos. É uma das feições mais curiosas da vida politica em Inglaterra...

Ha outras muitas estações em setembro e outubro, mas não me lembram agora. E emfim, para não ser injusto, devo mencionar tambem o Outomno.

De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a Book-Season, a estação dos livros.

Isto não quer dizer que fóra d'esta estação (outubro a março) se não publiquem livros em Inglaterra—longe d'isso, Santo Deus! Como não quer dizer que fóra da London-Season se não dance, ou fóra da Travelling-Season se não viaje. Significa simplesmente que as grandes casas editoras de Londres e d'Edimburgo reservam, para as lançar n'esta epocha as suas grandes novidades. Um livro de Darwin, um estudo de Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de Georges Meredith serão evidentemente guardados para a estação. De resto, durante todo o anno não s'interrompe, não cessa essa publicidade phenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta de papel impresso em inglez.

Não sei se é possivel calcular o numero de volumes publicados annualmente em Inglaterra. Não me espantaria que se pudessem contar por dezenas de milhares. Aqui tenho eu deante de mim, no numero de ontem do Spectator, a lista dos livros lançados esta semana: NOVENTA E TRES OBRAS! E isto é apenas a lista do Spectator. Apenas o que se chama aqui Litteratura Geral. Não se contam as reimpressões; nem as edições dos classicos, em todos os formatos, desde o in-folio, que só um Hercules póde erguer, até ao volume miniatura, cujo typo reclama microscopio, e em todos os preços desde a edição que custa 50 libras, até á que custa 50 réis: não se contam as traducções de livros estrangeiros, sobretudo as litteraturas da antiguidade: não se conta, emfim, essa incessante producção das Universidades, essa outra levada de gregos e latinos, de commentarios, de glossarios, de in-folios, que lançam de si, aos caixões, as imprensas de Clarendon.

Ha n'esta litteratura geral uma especie de que o inglez não se farta—a litteratura de viagens. Já não fallo nos romances: isso não constitue hoje uma producção litteraria, é uma fabricação industrial.

Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade como a flanella ou as fazendas de algodão; e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por grosso, e tão depressa quanto a penna póde escrever, arremessando para o mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.

Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é tambem consideravel, e de resto bem explicavel n'uma raça expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu um outro typo de industrial das lettras—o prosador viajante.

Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras pittorescas, á volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememoração de impressões e paisagens. Hoje não. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem selvagem, bem exotico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um diccionario. E toda a questão está (como a concorrencia é grande) em saber qual é o recanto da terra sobre que ainda se não publicou livro! Ou, quando o paiz é já toleravelmente conhecido, se não terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas paginas de prosa...

Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de capacete de cortiça, lapis na mão, binoculo a tiracollo, não pense que é um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras—é um prosador inglez preparando o seu volume.

Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres n'estas duas ultimas semanas.

É claro que eu não os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos, sómente, da lista de dous jornaes de critica: o Atheneum e a Academy. Note-se que estes livros são quasi sempre bem estudados: dão o traço e a linha que pinta, a paysagem com a sua côr e luz, a cidade com o seu movimento e feições; são graphicos e são criticos; têm a geographia e têm a observação; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua religião, a sua agricultura, o seu sport, os seus vicios, a sua arte se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo inteiro.

Aqui está, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze dias: A minha jornada a MedinaEntre os filhos de HanNas aguas salgadasLonge, nos PampasSanctuarios de PiemonteO novo JapãoUma visita á AbyssiniaVida no oeste da IndiaPelo Mahakam acima, e pelo Barita abaixoA cavallo pela Asia MenorScenas de CeylãoAtravez de cidades e prados No meu BungalóAs terras dos MatabelesFugindo para o sulTerras do sol da meia-noitePeregrinações na PatagoniaO Soudan egypcioTerra dos MaggiyresAtravez da SiberiaNotas do mundo do OesteCaminhos da PalestinaNorsk, Lapp e Finn (onde será isto Santo Deus?!)—Guerras, peregrinações e ondas (que titulo, Deus piedoso!)—A linda AthenasA peninsula do Mar BrancoHomens e casos da IndiaA bordo do «Rapoza»Sport na Crimêa e CaucasoNove annos de caçadas na AfricaDiario de uma preguiçosa na SiciliaA leste do Jordão...

Ainda ha outros, ainda ha muitos—e em quinze dias!

Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, balladas, tragedias, annunciados ou já publicados na primeira quinzena da estação; mas não tenho paciencia em revolver todo esse lyrismo. Ha uma «grande sensação»: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóes.

Não menos espessas, nem menos compactas são as listas dos livros de Theologia, Controversia, Exegese, etc.,—exhalando de si uma melancholia de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento—macisso e vago, como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas bibliographicas vêm riquissimas... Emfim, ao que parece, é uma formidavel e grandiosa estação de livros. Aos romances, nem alludo: montões, montanhas—e monturos!

Uma pastora meio-selvagem das Ardennes, que nunca vira outro espectaculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Pariz, quando no boulevard passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzella fez-se branca como a cêra, e só poude murmurar n'uma beatitude suprema:

—Jesus! tanto homem!

Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridiculo d'esta pastora, e balbuciando, com a bocca aberta, como se chegasse tambem das Ardennes:

—Jesus! tanto livro!

Mas não é este grito, como o da pastora, natural?

O beduino do deserto d'Oeste, que, passando a Serrania Lybica, avista pela primeira vez, immenso, lento, enchendo um valle, o rio Nilo, exclama espantado:

—Allah! tanta agua!

A agua é a sua preoccupação: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da agua: mais que ninguem sente as maravilhas que a agua produz; e no seu grito ha uma timida reprehensão a Allah! «Tanta agua aqui, e tão pouca lá d'onde eu venho!...»

Assim eu venho... Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor astuto.

[ III
O INVERNO EM LONDRES]

Eis ahi o inverno. Já todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ouço fóra, na rua, sob a nevoa tristonha d'esse fim d'outubro, a voz dolente e vaga: não é o velho semi-deus de attributos mythologicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o classico feixe de lenha a tiracollo: é um rapagão enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vae conduzindo uma carroça negra com um forte percheron aos varaes, pelo macadam já endurecido da geada, e soltando de porta em porta, o seu pregão melancholico: Coals! coals! (carvão! carvão!)

Estão, pois, findos os dias purpureados do lindo outomno inglez! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados d'outubro nestes condados do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pittorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memoria de Shakspeare torna quasi sagrada, ou pelas collinas amaveis de Surrey, é o mais belo, o mais util repouso que póde ter o espirito sobresaltado, cançado dos livros, ou do duro movimento da vida.

Tem-se aqui alguma coisa d'aquella paz etherea, que os poetas pagãos sonhavam nas perspectivas ineffaveis dos Elysios: sómente a natureza particular do Norte, as linhas da architectura saxonia, o arranjo das culturas, dão a feição romantica e elegiaca que falta á paysagem latina.

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quasi magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das arvores seculares e aristocraticas, solemnes, isoladas, immoveis n'um recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma cousa de muito alto e de muito puro: ha um silencio de uma extraordinaria limpidez, como o que deve haver por sobre as nuvens, um silencio que não existe na paysagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte parece fazer um vago rumorido, um silencio que pousa no espirito com a influencia de uma caricia. E a cada momento são fundos encantadores de paysagem, de um vaporisado azul, com alguma torre d'Abbadia coberta de heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entreveem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a historica architectura de um castello, de bandeira feudal na torre, que de repente apparece n'uma elevação, com os seus terraços de marmore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animaes de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos...

D'aqui a dias, porém, por collina e valle, só haverá a triste nevoa humida que dura mezes, ou a neve redemoinhando ao vento...

Esta monotonia, que começa escurecendo os campos desde novembro, vae causar este anno uma innovação excellente nos costumes sociaes da Inglaterra. Vae haver, de dezembro a maio, uma estação d'inverno em Londres.

Como sabem, Londres só é habitado desde os começos de maio até aos primeiros dias quentes de agosto. O resto do anno, Londres é a cahida Palmyra ou a tenebrosa planicie do deserto da Petrêa. Ficam lá, é verdade, entre tres a quatro milhões de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro villão, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que não tem castellos, nem parques de tres legoas, nem o seu nome no Livro d'Ouro, nem yachts de luxo para bordejar nas costas da Escossia; é a humanidade que não tem nas arterias o famoso sangue normando, esse sangue invejado, mais precioso que o de Christo, cantado por todos os poetas da côrte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro, e pelludos como féras, que acompanhavam a estas ilhas Guilherme da Normandia; é emfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem-amado, chamava a canalha, e que o grande sacerdote da Bella Helena, o pobre Offenbac, designava, com tanto criterio, pelo nome de vil multidão:—é o trabalhador, o artifice, o artista, o professor, o philosopho, o operario, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

É esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os dez mil de cima, como aqui tão pittorescamente se diz, partem para os seus castellos, as suas villas á beira mar, ou os seus yachts.—Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a face da terra, como a lamentavel Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, peior, por um philosopho, um poeta, um d'esses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castello e sem matilha de cães, que nenhuma Lady quereria ter no seu «rol de visitas».

Se um gentleman, tendo negócios instantes em Londres, é forçado a vir a este deserto de plebeus, guarda um incognito severo; não chegará talvez a pôr barbas postiças; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um cupé com os stores descidos, e o paletot rebuçando-lhe a face. Todavia uma aventura tão poderosa poucos a ousam!

Pois bem, tudo isto se vae reformar! E este anno será moda passeiar em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno janeiro, na espessura dos nevoeiros. Esta revolução consideravel foi, como todas as fecundas revoluções, tramada, prégada, popularisada pelas mulheres.

Havia longos annos que estes anjos soffriam com impaciencia a melancholia da vida do campo, durante o longo inverno saxonio. Ainda, nos primeiros tempos, depois de deixar as glorias de Londres e os esplendores da season, a existencia era toleravel. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da caça; seguia-se a epocha dos yachts, as viagens ás costas da Noruega, ás Hebbidas, ás praias elegantes da Normandia; depois, quando a côrte está na Escossia, vinha a caça do veado, os bailes de gellies das montanhas... Emfim, vivia-se.

Mas, com a chegada de dezembro, da neve, uma formidavel lei social, a fashion, obrigava os dez mil de cima a recolherem-se aos seus castellos, á solidão do campo. E ahi começava para as damas o tedio memoravel!

Quando se não tem um chateau e parque como os de Inglaterra, póde parecer um sonho de paraizo o viver n'essas faustosas residencias, entre maravilhas d'arte, accumuladas por gerações, com mobilias de duzentos contos, um serviço de sessenta criados, vinte cavallos na cocheira e um parque de trez legoas, um parque de romance, para passeiar sobre a neve dura quando o ceu brilha claro. Mas a desgraçada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos explendores, já lhes não encontra encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce.

Depois, a vida do castello é de um vasio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manhã, teem a caça, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atraz de uma raposa espavorida, ao grito barbaro de hally-hó! Depois á noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o grog forte no fumoir. Mas as desgraçadas damas? Todas bebem grog—mas raras são as que caçam. O dia é-lhes lugubre. Uma burgueza, em Inglaterra, tem sempre uma occupação, mesmo nas existencias ricas: borda, pinta em porcellana, faz camisas para os pequenos Patagonios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memorias ou corresponde-se com um Theologo sobre pontos difficeis de doutrina. Mas um dama das dez mil não faz nada; os seus grandes talentos, a toilette, a graça de receber, a intriga politica, o brilho da conversação, o chic esthetico, cousas em que prima, não lhe servem no isolamento relativo do castello, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o salão de Londres. Alli no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avósinhos nunca invadiram a França, as bandeiras compradas no antiquario da esquina, Mylady boceja; ou estendida n'um sofá, na sua robe-de-chambre de brocado branco de Genova, com uma novella cahida no regaço, olha os flocos de neve empoando os grandes carvalhos do parque...

Depois vem a noite. É o peior. Os homens que fizeram talvez cinco legoas de galope atraz das rapozas, ou que se estiveram adestrando em jogos athleticos, têm somno. De gardenia na casaca e perola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo Nocturno de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, são tão inuteis para a flirtation, o espirito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados. [a]

Debalde as pobres damas fizeram uma toilette de duzentas libras: debalde resplandecem, ás mil luzes de cêra, os seus hombros de deusas. De nada valle. O gentleman anceia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu brandy and soda, estirar aquelles membros que a raposa cançou, em lençóes bem perfumados e bem bassinés, e ressonar forte.

Esta situação era intoleravel.

E os homens mesmo soffriam. Galopar n'um cavallo de preço sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manhã de brisa fria—tem encanto. Mas póde-se isso comparar á delicia de ir tagarelar para o club, ter todas as noites trez ou quatro bailes, fazer phrases sobre a questão do Oriente, e ceiar com Miss Fanny, n'um quente boudoir de veludo, emquanto fóra a plebe patinha na lama de Londres?! Não, não se póde comparar.

E por isso veio o momento psychologico, como diz esse illustre homem de prosa, o snr. De Bismarck, em que ladies e lords concordaram que o inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra, Londres era preferivel. E ahi está como se vae ter esta cousa inesperada na vida ingleza—o inverno em Londres.

E, todavia, Deus sabe que elle não é agradavel, esse inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca, espessa, parda, arripiadora e sinistra: é necessario fazer a barba, com o gaz flammejando; almoça-se com todas as velas do candelabro accesas, e a carruagem que nos conduz é precedida de um archote. Ao meio dia esta decoração de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarello de óca e começa a exalar um vapor fetido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrepito, que deve lá em cima incommodar a corte do ceu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.

Depois, á noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.

O gaz parece côr de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flammejar das vitrinas dão uma acceleração brutal ao sangue, uma vibração quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o abrasado do cognac, a paixão. Londres n'uma noite de inverno, exhala violencia e crime. E póde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro de lanternas, vae um cidadão ou uma cidadã commettendo ou preparando-se para commetter, com excepção da preguiça, um dos sete peccados mortaes.

De uma coisa se póde ter a certeza: é que não ha de faltar, aos que vão fazer o seu inverno a Londres, assumpto de cavaco. Além dos livros que se annunciam, dos escandalos que não hão-de faltar, das modas que sempre se inventam, a politica, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da Liga da Terra, deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebellião; complicações sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os radicaes no poder... Emfim, um encanto.

Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das Memorias, olhando n'um começo de primavera para todos os lados do horizonte politico e social, e não vendo (em 1830) senão presagios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia, banhado em jubilo, quasi em extasi:

—Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no Club!

[ IV
O NATAL]

O Natal, a grande festa domestica da Inglaterra, foi este anno triste—d'essa tristeza particular que offerece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma villa pobre, ou d'essa melancholia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, n'uma sala a que se não voltará mais...

O que nos estragou o Natal, não fôram decerto as preoccupações politicas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebellião do Transvaal em que os Boeres debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a Africa do Sul n'uma guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionario da Liga Agraria—seriam inquietações sufficientes para tirar o sabor tradicional ao plum-pudding do Natal. As desgraças publicas nunca impedem que os cidadãos jantem com appetite: e miserias da patria, emquanto não são tangiveis e se não apresentam sob a fórma flammejante de obuzes rebentando n'uma cidade sitiada, não tirarão jámais o somno ao patriota.

Não; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passamos, com um sol de uma pallidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma immensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de pelles, parece tão insipido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão tres palmos de neve e cahisse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!

Para comprehender bem o encanto da neve d'este famoso Natal inglez, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o têm popularizado.

O assumpto não varia na paysagem repetida: é sempre a mesma entrada d'um parque, de apparencia feudal, por vesperas do Natal, antes da meia-noite; o ceu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve cahida, uma neve branca, fôfa, alta, que faz nos campos um grande silencio. Junto á grade do parque, uma mulher e duas creanças, atabafadas nos seus farrapos, com lampeões na mão, vão cantando as lôas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o massiço castello, com as janellas flammejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.

E toda a poesia do Natal está justamente n'essas janellas resplandecendo na noite nevada.

Felizes aquelles para quem essas portas difficeis se abrem. Logo ao entrar na ante-camara os tectos, as humbreiras, os espaldares das cadeiras, os tropheus de caça, apparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho celtico; e pelas paredes, em lettras douradas ondeiam os disticos tradicionaes—Merry Christmas! Merry Christmas! alegre Natal! alegre Natal! E o mesmo grito se repete nos shakehands que se dão ao hospede.

Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabellos louros, e de prata as barbas brancas.

Tudo está enfeitado como n'uma paschoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flôres de inverno, as flôres da neve, e todas as pratas da casa scintillam sobre os aparadores, n'uma solemnidade patriarchal. Dos grandes lustres balança-se o ramo symbolico do mistletoe, o ramo do amor domestico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surprehender tem direito a beija-las n'um grande abraço! Tambem, que voltas sabias, que estrategia complicada, para evitar o ramo fatidico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o mistletoe um grito, um beijo, dois braços que prendem uma cinta fugitiva...

E o piano não se cala n'estas noites! É alguma velha canção ingleza, em que se falla de torneios e cavalleiros, ou uma dança da Escossia, que se baila com o gentil ceremonial do passado.

E por corredores e salas, as creanças, os bébés, com os cabellos ao vento, vestidos de branco e côr de rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relogio monumental, porque á meia-noite chega Santo Claus, o veneravel Santo Claus, que tem trez mil annos de edade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amavel Santo Claus! por um tempo tão frio, n'aquella edade, deixar a cabana de algodão que elle habita no paiz da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bébés o seu Natal!

Tambem, como elles o adoram, o bom Claus! E apenas elle chegar, como correrão todos, em triumpho, a puxal-o para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrepitas mãos regeladas, a offerecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente—que elle bebe d'um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...

Mas d'estes personagens que apparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas—o papá Natal.

Esse, porém, só póde ser admirado em toda a sua gloria, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da meza—que lhe põe em torno, com os crystaes e os pratos, um amavel brilho d'aureola caseira. Bem vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!

O respeitavel ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a bocca n'um riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as creanças o querem abraçar, e elle não se recusa, porque é indulgente.

E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarchal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e alli está, bonacheirão e veneravel, com a importancia de um deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria domestica.

E no emtanto fóra, na neve, as pobres creanças cantam as lôas: e com que vigor as cantam! É que ellas sabem que não serão esquecidas: e que d'aqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de cousas bôas, peças de carne, empadas, vinho, queijos—e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os vêr esvaziados no regaço dos pobres.

Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua côr de manteiga a bater n'uma terra tepida de Primavera torna-se apenas uma data no calendario. O lume não tem poesia intima; não ha lôas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insipido; não se colhe o mistletoe. Não ha mesmo a alegria de abrir a janella e pôr no rebordo, dentro d'uma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardaes e para os outros passarinhos que tanta fome soffrem pelas neves. Emfim, não ha Natal! Foi o que succedeu este anno...

Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indifferente que nos castellos as damas bocejassem.

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer—quando se considere que lá fóra ha quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma codea de dois dias. É justamente n'estas horas de festa intima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoismo—que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de sympathia universal, e que a consciencia da miseria em que se debatem tantos milhares de creaturas, volta com uma amargura maior. Basta então vêr uma pobre creança, pasmada deante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lagrimas para uma boneca de pataco, que ella nunca poderá apertar nos seus miseraveis braços—para que se chegue á facil conclusão que isto é um mundo abominavel. D'este sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoismo parte á desfilada, ninguem torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionarios endurecidos, dignos do carcere—e a miseria continúa a gemer ao seu canto!

Os philosophos affirmam que isto ha-de ser sempre assim: o mais nobre de entre elles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-n'os, n'uma palavra immortal, que teriamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções successivas fazer falhar esta sinistra profecia—mas as revoluções passam e os pobres ficam.

N'este momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando annualmente, do trabalho duro que elles fazem, quatrocentos contos de reis de renda! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no craneo.

E o resultado? D'aqui a vinte annos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a soffrer a fome e o frio—e o filho do duque de Leicester, duque elle mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por anno.

Não é possivel mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto n'uma burguezia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado peior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. D'onde se prova que esta humanidade é o maior erro que jámais Deus cometeu.

Aqui estamos sobre este globo ha doze mil annos a girar fastidiosamente em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingenuo de provincia é que ainda considera progresso a invenção ociosa d'esses bonecos pueris que se chamam machinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam systemas sociaes.

Nos dois ou trez primeiros mil annos de existencia trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo n'uma cambalhota secular.

O typo secular e domestico de uma aldeia Arya do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo domestico e social. Já não fallo de gregos e romanos: ninguem hoje tem bastante genio para compôr um côro d'Éschylo ou uma pagina de Virgilio; como escultura e architectura, somos grotescos; nenhum millionario é capaz de jantar como Lucullus; agitavam-se em Athenas ou Roma mais ideias superiores n'um só dia do que nós inventamos n'um seculo; os nossos exercitos fazem rir, comparados ás legiões de Germanicus; não ha nada equiparavel á administração romana; o boulevard é uma viella suja ao lado da Via Áppia; nem uma Aspasia temos; nunca ninguem tornou a fallar como Demosthenes—e o servo, o escravo, essa miseria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o proletario moderno.

De facto, póde-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu veneravel pae—o macaco: excepto em duas coisas temerosas—o soffrimento moral e o soffrimento social.

Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inutil: afogal-a n'um diluvio. Mas afogal-a toda, sem repetir a fatal indulgencia que o levou a poupar Noé; se não fôsse o egoismo senil d'esse patriarcha borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gosariamos a felicidade ineffavel de não sermos...

[ V
Litteratura de Natal]

Uma das cousas encantadoras que nos traz o Natal, são esses lindos livros para creanças, que constituem a litteratura de Natal.

Não falo desses extraordinarios volumes dourados publicados pelos editores francezes, em encadernações decorativas como fachadas de cathedraes, que custam uma fortuna; contém um texto que nunca ninguem lê e são offerecidos ás creanças, mas realmente servem para obsequiar os papás. Os pobres pequenos nada gosam com esses monumentos typographicos; apenas se lhes permite vêr de longe as gravuras a aço, sob a fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o resplandecente volume orna d'ahi por deante a jardineira da sala, ao lado do candieiro vistoso.

Em Inglaterra existe uma verdadeira litteratura para creanças, que tem os seus classicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e genios—em nada inferior á nossa litteratura de homens sisudos. Aqui, apenas o bébé começa a soletrar, possue logo os seus livros especiaes: são obras adoraveis, que não contém mais de dez ou doze paginas, intercaladas de estampas, impressas em typo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assumpto é uma historia, em seis ou sete phrases, e decerto menos complicada e dramatica que O Conde de Monte-Christo ou Nana; mas emfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral e a sua catastrophe.

Tal é, para dar um exemplo, a lamentavel tragedia dos Tres velhos sabios de Chester: eram muitos velhos e muito sabios; e para discutirem cousas da sua sabedoria, metteram-se dentro de uma barrica, mas um pastor que vinha a correr atráz de uma ovelha, deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas ao ar os tres velhos sabios de Chester!

Como estas ha milhares: a Cavallgada de João Gilpin é uma obra de genio.

Depois, quando o bébé chega aos seus oito ou nove annos, proporciona-se-lhe outra litteratura. Os sabios, a barrica, os trambulhões, já o não interessariam; vêm então as historias de viagens, de caçadas, de naufragios, de destinos fortes, a salutar chronica do triumpho, do esforço humano sobre a resistencia da natureza.

Tudo isto é contado n'uma linguagem simples, pura, clara—e provando sempre que na vida o exito pertence áqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espirito da creança para o paiz do maravilhoso:—não ha n'estas litteraturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escamas de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se falla de anjos ou de fadas é de modo que a creança, naturalmente, venha a rir-se d'esse lindo sobrenatural, e a consideral-o do genero boneco, como os seus proprios carneirinhos de algodão.

O que se faz ás vezes é animar de uma vida ficticia os companheiros inanimados da infancia: as bonecas, os polichinellos, os soldados de chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existencia d'uma boneca honesta e infeliz: ou os soffrimentos por que passou em campanha, n'uma guerra longinqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta litteratura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a creança—mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e miserias atravessaram aquelles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas bayonetas torcidas ella todos os dias endireita com os dedos: e assim póde ficar depositado n'um espirito de creança um justo horror da guerra.

As lições moraes que se dão d'este modo são innumeraveis, e tanto mais fecundas quanto sahem da acção e da existencia dos sêres que ella melhor conhece—os seus bonecos.

Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze annos: popularisações de sciencias; descripções dramaticas do universo; estudos captivantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a historia; e, emfim, em livros de imaginação, a vida social apresentada de modo que nem uma realidade muito crúa ponha no espirito tenro securas de misanthropia, nem uma falsa idealisação produza uma sentimentalidade morbida.

É no Natal, principalmente, que esta litteratura floresce. As lojas dos livreiros são então um paraizo. Não ha nada mais pittoresco, mais original, mais decorativo, que as encadernações inglezas; e as estampas, as côres leves e aguadas, offerecem quasi sempre verdadeiras obras d'arte, de graça e d'humour.

Não sei se no Brazil existe isto. Em Portugal, nem em tal jámais se ouviu fallar. Apparece uma ou outra d'essas edições de luxo, de Pariz, de que fallei, e que constituem ornatos de sala. A França possue tambem uma litteratura infantil tão rica e util como a de Inglaterra: mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobilia, sim; para educar o espirito, não.

A Belgica, a Hollanda, a Allemanha, prodigalisam estes livros para creanças; na Dinamarca, na Suecia, elles são uma gloria da litteratura e uma das riquezas do mercado.

Em Portugal, nada.

Eu ás vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres creanças. Creio que se lhes dá Filinto Elysio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação pela leitura.

Isto é tanto mais atroz quanto a creança portuguesa é excessivamente viva, intelligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portuguezes, só começamos a ser idiotas—quando chegamos á edade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de genio: e estou certo que se existisse uma litteratura infantil como a da Suecia ou da Hollanda, para citar só paises tão pequenos como o nosso, erguer-se-hia consideravelmente entre nós o nivel intellectual.

Em logar d'isso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos, sepultamol-a sob grossas camadas de latim! Depois do latim accumulamos a rhetorica! Depois da rhetorica atulhamol-a de logica (de logica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!

Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal litteratura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domesticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras, intelligentes e pobres, se poderiam empregar em escrever essas faceis historias: não é necessario o genio de Zola ou de Thackeray para inventar o caso dos tres velhos sabios de Chester. Ha entre nós artistas, de lapis facil e engraçado, que commentariam bem essas aventuras n'um desenho de simples contorno, sem sombras e sem relevo, lavado a côres transparentes... E quantos milhares de creanças se fariam felizes, com esses bonitos livros—que, para serem populares e se poderem despedaçar sem prejuizo, devem custar menos de um tostão!

Eu bem sei que esta ideia de compôr livros para creanças faria rir Lisboa inteira. Tambem, não é a Lisboa que eu a offereço. Lisboa não se occupa d'estes detalhes.

Lisboa quer cousa superior; quer a bella estrophe lyrica, o rico drama em que se morre de paixão ao luar, o fadinho ao piano, o saboroso namoro de escada, a endeixa plangente, a bôa facadinha á meia noite, o discurso em que se cita o Golgotha, a andaluza de cuia—emfim, tudo o que o romantismo portuguez inventou de mais nobre. Educar os seus filhos intelligentemente, está decerto abaixo da sua dignidade.

Mas, emfim, se estas linhas animassem ahi no Brazil, ou entre a colonia portugueza, um escriptor, um desenhista e um editor, a prepararem alguns bons livros, bem engraçados, bem alegres, para os bébés—eu teria feito ao imperio um serviço colossal, que não sei como me poderia ser recompensado.

Uma bôa fazenda, de rendimento certo, n'uma provincia rica, com casa já mobilada e alguns cavallos na cavallariça, não seria talvez de mais. Se a gratidão do governo imperial quizesse juntar a isto, para alfinetes, um ou dois milhões em ouro, eu não os recusaria. E se me não quizessem dar nada, bastar-me-hia então que um só bébé se risse e fôsse alguns minutos feliz. Pensando bem—é esta a recompensa que prefiro.

[ VI
Israelismo]

As duas grandes «sensações» do mez são incontestavelmente a publicação do novo romance de Lord Beaconsfield, Endymion, e a agitação na Allemanha contra os Judeus. Litterariamente, pois, e socialmente o mez pertence aos israelitas. Este extraordinario movimento anti-judaico, esta inacreditavel ressurreição das coleras piedosas do seculo XVI é vigiada com tanto mais interesse em Inglaterra quanto aqui, como na Allemanha, os judeus abundam, influindo na opinião pelos jornaes que possuem (entre outros o Daily Telegraph, um dos mais importantes do reino), dominando o commercio pelas suas casas bancarias e em certos momentos mesmo governando o Estado pelo grande homem da sua raça, o seu propheta maior, o proprio Lord Beaconsfield. Aqui, decerto, estamos longe de vêr desencadear um odio nacional, uma perseguição social contra os judeus; mas ha sufficientes symptomas de que o desenvolvimento firme d'este Estado israelita dentro do Estado christão começa a impacientar o inglez. Não vejo, por exemplo, que o que se está passando na Allemanha, apesar de exhalar um odioso cheiro d'auto-de-fé, provoque uma grande indignação da imprensa liberal de Londres: e já mesmo um jornal da auctoridade do Spectator se vê forçado a attenuar, perante os graves protestos da colonia israelita, artigos em que descrevera os judeus como uma corporação isolada e egoista, á semelhança das communidades catholicas, trabalhando só no mesmo interesse, encerrando-se na força da sua tradição e conservando sympathias e tendencias manifestamente hostis ás do estado que os tolera. Tudo isto é já desagradavel.

Mas que diremos do movimento na Allemanha? Que em 1880, na sabia e tolerante Allemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Padua, decretando a destruição da lei Rabbinica e ainda prégasse em Colonia o furioso Grão-de-Pimenta, geral dos dominicanos—é facto para ficar de bocca aberta todo um longo dia de Verão. Porque emfim, sob fórmas civilizadas e constitucionaes (petições, meetings, artigos de revista, pamphletos, interpellações) é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das Manuelinas, quando se deitavam á mesma fogueira os livros do Rabbino e o proprio Rabbino, exterminando assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.

E é curioso e edificante espectaculo vêr o veneravel professor Virchow, erguendo-se no parlamento allemão, a defender os judeus, a sabedoria dos livros hebraicos, as synagogas, asylo do pensamento durante os tempos barbaros—exactamente como o illustre legista Roenchlin os defendia nas perseguições que fecharam o seculo XV!

Mas o mais extraordinario ainda é a attitude do Governo allemão: interpellado, forçado a dar a opinião official, a opinião d'estado sobre este rancôr obsoleto e repentino da Allemanha contra o judeu, o governo declara apenas, com labio escasso e secco, «que não tenciona por ora alterar a legislação relativamente aos israelitas»! Não faltaria com effeito mais que vêr os ministros do imperio, philosophos e professores, decretando, á D. Manuel, a expulsão dos judeus, ou restringindo-lhes a liberdade civil até os isolar em viellas escuras, fechadas por correntes de ferro, como nas judiarias do Ghuetto. Mas uma tal declaração não é menos ameaçadora. O estado dá a entender apenas que a perseguição não ha-de partir da sua iniciativa: não tem, porém, uma palavra para condemnar este estranho movimento anti-semitico, que em muitos pontos é presentemente organisado pelas suas proprias auctoridades.

Deixa a colonia judaica em presença da irritação da grossa população germanica—e lava simplesmente as suas mãos ministeriaes na bacia de Poncio Pilatos.

Não affirma sequer que ha-de fazer respeitar as leis que protegem o judeu, cidadão do imperio; tem apenas a vaga tenção, vaga como a nuvem da manhã, de as não alterar por ora!

O resultado d'isto é que n'uma nação em que a sociedade conservadora fórma como um largo batalhão, pensando o que lhe manda a «ordem do dia» e marchando em disciplina, á voz do coronel,—cada bom allemão, cada patriota, vae immediatamente concluir d'esta linguagem ambigua do governo que, se a côrte, o estado-maior, os feld-marechaes, o senhor de Bismarck, todo esse mundo venerado e obedecido não vêem o odio ao judeu com enthusiasmo, não deixam, todavia, de o approvar em seus corações christãos... E o novo movimento vae certamente receber, d'aqui, um impulso inesperado.

Que digo eu? Já recebeu. Apenas se soube a resposta do ministerio, um bando de mancebos, em Leipzig, que se poderiam tomar por frades dominicanos mas que eram apenas philosophos estudantes, andaram expulsando os judeus das cervejarias, arrancando-lhes assim o direito individual mais caro e mais sagrado ao allemão: o direito á cerveja!

Mas d'onde provem este odio ao judeu? A Allemanha não quer, de certo, começar de novo a vingar o sangue precioso de Jesus. Ha já tanto tempo que essas cousas dolorosas se passaram!... A humanidade christã está velha e, portanto, indulgente: em desoito seculos esquece a affronta mais funda. E infelizmente hoje já ninguem, ao lêr os episodios da Paixão, arranca furiosamente da espada, como Clovis, gritando, com a face em pranto:

—Ah, infames! Não estar eu lá com os meus Francos!

Além d'isso, este movimento é organizado pela burguezia, e as classes conservadoras da Allemanha são muito juridicas, para não approvarem, no segredo do seu pensamento, o supplicio de Jesus. Dada uma sociedade antiga e prospera, com a sua religião official, a sua moral official, a sua litteratura official, o seu sacerdocio, o seu regimen de propriedade, a sua aristocracia e o seu commercio—que se ha-de fazer a um inspirado, a um revolucionario, que apparece seguido d'uma plébe tumultuosa, prégando a destruição d'essas instituições consagradas á fundação de uma nova ordem social sobre a ruina d'elas e, segundo a expressão legal, excitando o odio dos cidadãos contra o Governo? Evidentemente puni-lo.

Pede-o a lei, a ordem, a razão de Estado, a salvação publica e os interesses conservadores. É justamente o que a Allemanha, com muita razão, faz aos seus socialistas, a Karl Marx e a Bebel. Ora, estes maus homens não querem fazer na Allemanha contemporanea uma revolução, de certo, mais radical que a que Jesus emprehendeu no mundo semitico. É verdade que o Nazareno era um Deus: para nós, certamente, humanidade privilegiada, que o soubemos amar e comprehender:—mas em Jerusalem, para o doutor do templo, para o escriba da lei, para o mercador do bairro de David, para o proprietario das cearas que ondulavam até Bethlem, para o centurião severo encarregado da ordem—Jesus era apenas um insurrecto.

E se Bismarck estivesse de toga, no pretorio, sobre a cadeira curul de Caiphás, teria assignado a sentença fatal tão serenamente como o dito Caiphás, certo que n'esse momento salvava a sua patria da anarchia. Os conservadores de Jerusalem foram logicos e legaes, como são hoje os de Berlim, de S. Petersburgo ou de Vienna: no mundo antigo, como agora, havia os mesmos interesses santos a guardar. Que diabo! é indispensavel que a sociedade se conserve nas suas largas bases tradicionaes: e outr'ora, como hoje, a salvação da ordem é a justificação dos supplicios.

É possivel que este goso, que nós, conservadores, temos hoje, de triturar os Messias socialistas, encarcerar os Proudhon, mandar para a Siberia os Bakounine, e crivar de multas os Felix Pyat—venha a custar caro a nosso netos. Com o andar dos tempos, todo o grande reformador social se transforma pouco a pouco em Deus: Zoroastro, Confucio, Mahomet, Jesus, são exemplos recentes! As fórmas superiores do pensamento têm uma tendencia fatal a tornar-se na futura lei revelada: e toda a philosophia termina, nos seus velhos dias, por ser religião. Augusto Comte já tem altares em Londres; já se lhe reza. E assim como hoje exigimos capellas aos Santos Padres, aos que foram os auctores divinos, os nobres criadores do catholicismo, talvez um dia, quando o socialismo fôr religião do Estado, se vejam em nichos de templo, com uma lamparina na frente, as imagens dos Santos Padres da revolução: Proudhon de oculos, Bakounine parecendo um urso sob as suas pelles russas, Karl Marx apoiado ao cajado symbolico do pastor d'almas.

Como a civilização caminha para o oeste, isto passar-se-ha ai para o seculo XXVIII, na Nova Zelandia ou na Australia, quando nós, por nosso turno, fôrmos as velhas raças do Oriente, as nossas linguas idiomas mortos, e Pariz e Londres montões de columnas truncadas como hoje Palmyra e Babylonia, que o zelandez e o australiano virão visitar, em balão, com bilhete de ida e volta... Logicamente, então, como são detestados hoje na Allemanha os herdeiros dos que mataram Jesus—só haverá repulsão e odio pelos descendentes de nós outros, que estamos encarcerando Bakounine ou multando Pyat. E como toda a religião tem um periodo de furor e exterminio, esses nossos pobres netos serão perseguidos, passarão ao estado de raça maldita e morrerão nos supplicios... C'est raide!

Mas voltemos á Allemanha.

Ainda que o Pedro Ermita d'esta nova crusada constitucional seja um sacerdote, o Revd. Streker, capellão e prégador da côrte, é evidente que ella não tira a sua força da paixão religiosa. As cinco chagas de Jesus nada têm que vêr com estas petições que por toda a parte se assignam, pedindo ao governo que não permitta aos judeus adquirirem propriedades, que não sejam admittidos aos cargos publicos, e outras extravagancias gothicas! O motivo do furor anti-semitico é simplesmente a crescente prosperidade da colonia judaica, colonia relativamente pequena, apenas composta de 400.000 judeus; mas que pela sua actividade, a sua pertinacia, a sua disciplina, está fazendo uma concorrencia triumphante á burguezia allemã.

A alta finança e o pequeno commercio estão-lhe igualmente nas mãos: é o judeu que empresta aos Estados e aos principes, e é a elle que o pequeno proprietario hypoteca as terras. Nas profissões liberais absorve tudo: é elle o advogado com mais causas e o medico com mais clientella: se na mesma rua ha dois tendeiros, um allemão e outro judeu—o filho da Germania ao fim do anno está fallido, o filho d'Israel tem carruagem! Isto tornou-se mais frizante depois da guerra: e o bom allemão não póde tolerar este espectaculo do judeu engordando, enriquecendo, reluzindo, emquanto elle, carregado de louros, tem de emigrar para a America á busca de pão.

Mas se a riqueza do judeu o irrita, a ostentação que o judeu faz da sua riqueza enlouquece-o de furor. E, n'este ponto, devo dizer que o allemão tem razão. A antiga legenda do israelita, magro, esguio, adunco, caminhando cosido com a parede, e coando por entre as palpebras um olhar turvo e desconfiado—pertence ao passado. O judeu hoje é um gordo. Traz a cabeça alta, tem a pança ostentosa e enche a rua. É necessario vêl-os em Londres, em Berlim, ou em Vienna: nas menores cousas, entrando em um café ou occupando uma cadeira no theatro, têm um ar arrogante e ricaço, que escandalisa. A sua pompa espectaculosa de Salomões parvenús offende o nosso gosto contemporaneo, que é sobrio. Fallam sempre alto, como em paiz vencido, e em um restaurante de Londres ou de Berlim nada ha mais intoleravel que a gralhada semitica. Cobrem-se de joias, todos os arreios das carruagens são de oiro, e amam o luxo grosseiro e vistoso. Tudo isto irrita.

Mas o peior ainda, na Allemanha, é o habil plano com que fortificam a sua prosperidade e garantem a sua influencia—plano tão habil que tem um sabor de conspiração: na Allemanha, o judeu, lentamente, surdamente, tem-se apoderado das duas grandes forças sociaes—a Bolsa e Imprensa. Quasi todas as grandes casas bancarias da Allemanha, quasi todos os grandes jornaes, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacavel. De modo que não só expulsa o allemão das profissões liberais, o humilha com a sua opulencia rutilante, e o traz dependente pelo capital; mas, injuria suprema, pela voz dos seus jornaes, ordena-lhe o que ha-de fazer, o que ha-de pensar, como se ha-de governar e com que se ha-de bater!

Tudo isto ainda seria supportavel se o judeu se fundisse com a raça indigena. Mas não. O mundo judeu conserva-se isolado, compacto, inacessivel e impenetravel. As muralhas formidaveis do templo de Salomão, que fôram arrasadas, continuam a pôr em torno d'elle um obstaculo de cidadelas. Dentro de Berlim ha uma verdadeira Jerusalem inexpugnavel: ahi se refugiam com o seu Deus, o seu livro, os seus costumes, o seu Sabbath, a sua lingua, o seu orgulho, a sua seccura, gosando o ouro e desprezando o christão. Invadem a sociedade allemã, querem lá brilhar e dominar, mas não permittem que o allemão meta sequer o bico do sapato dentro da sociedade judaica. Só casam entre si; entre si, ajudam-se regiamente, dando-se uns aos outros milhões—mas não favoreceriam com um troco um allemão esfomeado; e põem um orgulho, um coquetismo insolente em se differençar do resto da nação em tudo, desde a maneira de pensar até á maneira de vestir. Naturalmente, um exclusivismo tão accentuado é interpretado como hostilidade—e pago com odio.

Tudo isto, no emtanto, é a lucta pela existencia. O judeu é o mais forte, o judeu triumpha. O dever do allemão seria exercer o musculo, aguçar o intellecto, esforçar-se, puxar-se para a frente para ser, por seu turno, o mais forte. Não o faz: em logar d'isso, volta-se miseravelmente, covardemente, para o governo e peticiona, em grandes rolos de papel, que seja expulso o judeu dos direitos civis, porque o judeu é rico, e porque o judeu é forte.

O Governo, esse esfrega as mãos, radiante. Os jornaes inglezes não comprehendem a attitude do sr. de Bismarck, approvando tacitamente o movimento anti-judaico. É facil de perceber; é um rasgo de genio do chanceller. Ou pelo menos uma prova de que lê com proveito a Historia da Allemanha.

Na meia idade, todas as vezes que o excesso dos males publicos, a peste ou a fome, desesperava as populações; todas as vezes que o homem escravisado, esmagado e explorado, mostrava signaes de revolta, a egreja e o principe apressavam-se a dizer-lhe: «Bem vemos, tu soffres! Mas a culpa é tua. É que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda não castigaste sufficientemente o judeu.» A populaça então atirava-se aos judeus: degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de supplicios; depois, saciada, a turba reentrava na tréva da sua miseria a esperar a recompensa do Senhor.

Isto nunca falhava. Sempre que a egreja, que a feudalidade, se sentia ameaçada por uma plébe desesperada de canga dolorosa—desviava o golpe de si e dirigia-o contra o judeu.

Quando a besta popular mostrava sêde de sangue—servia-se á canalha sangue israelita.

É justamente o que faz, em proporções civilizadas, o sr. de Bismarck. A Allemanha soffre e murmura: a prolongada crise commercial, as más colheitas, o excesso de impostos, o pesado serviço militar, a decadencia industrial, tudo isto traz a classe media irritada. O povo, que soffre mais, tem ao menos a esperança socialista; mas os conservadores começam a vêr que os seus males vêm dos seus idolos.

Para o calmar e occupar, o que mais serviria ao chanceller seria uma guerra, mas nem sempre se póde inventar uma guerra, e começa a ser grave encontrar em campo a França preparada, mais forte que nunca, com os seus dois milhões de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza inconcebivel, que, como dizia ha dias a Saturday Review, é um phenomeno inquietador e difficil d'explicar.

Portanto, á falta d'uma guerra, o principe de Bismarck distrahe a attenção do allemão esfomeado—apontando-lhe para o judeu enriquecido. Não allude naturalmente á morte de Nosso Senhor Jesus Christo. Mas falla nos milhões do judeu e no poder da Synagoga. E assim se explica a estranha e desastrosa declaração do governo.

Da outra «sensação», o romance de Lord Beaconsfield, Endymion, não me resta, n'esta carta, espaço para rir. Figuram n'elle, sob nomes transparentes, Beaconsfield, elle proprio, Napoleão III, o principe de Bismarck, o cardeal Manning, os Rothchilds, a imperatriz Eugenia, duquezas, lords, marechaes... emfim um ramalhete de flôres, pelo qual o editor Longman pagou cincoenta e quatro contos de reis fortes.

Jovens de lettras, meus amigos, ponde vossos olhos n'este exemplo de ouro! Sê prudente, mancebo; nunca, ao entrar na carreira litteraria, publiques poema ou novella sem a antecipada precaução de ter sido durante alguns annos—primeiro ministro de Inglaterra!

[ VII
A Irlanda e a Liga Agraria]

É necessario fallar da Irlanda, fallar da Liga Agraria, fallar de Parnell...

Ha seis mezes que este homem, esta associação, essa ilha inquieta, são o cuidado supremo, a preoccupação pungente da Inglaterra e de tudo o que em Inglaterra pensa, desde os homens de Estado até aos caricaturistas. E dentro em breve o sentimento europeu, o sentimento universal, vae-se exaltar pela questão da Irlanda, como outr'ora pela questão da Polonia.

A questão da Polonia! oh saudosos dias passados! Foi esse um dos meus primeiros enthusiasmos! N'esse tempo, ser polaco era synonimo de ser heroe: e a fórma mais usual da paixão, n'uma alma de vinte annos, não consistia no desejo de se subir ao balcão de Julieta, mas de partir e ir tomar as armas pela Polonia. Em Coimbra, sempre que nos reuniamos mais de quatro amigos, faziamos logo esse projecto, gritando: —Viva a Polonia! Os jornaes transbordavam de poemas á Polonia e de injurias ao Urso do Norte! Empenhavam-se batinas e compendios para soccorrer a Polonia, em subscripções enthusiasticas. Em beneficio da Polonia eu representei muito melodrama em que ora, virgem trahida e vestida de branco, soluçava com as minhas tranças soltas—ora, traidor, soltando gargalhadas cynicas, cravava um ferro no peito de Condé!

Por fim não eramos mais insensatos do que o povo de Paris em 1848, marchando em procissão a reclamar do governo provisorio a libertação da Polonia. «Mas é uma guerra com a Russia, é um conflicto europeu!» diziam os prudentes. E os enthusiastas respondiam: «Não tem duvida; a França é o Messias, é a salvadora dos opprimidos: a França é o Christo das nações; sendo necessario, deve morrer por ellas.»

Mas desde 1848 muita agua tem passado sob as pontes, como dizem em Paris: e mesmo muito sangue.

Por estes tempos de opportunismo e de naturalismo, a pobre Irlanda não inspirará jámais o culto piedoso que votamos outr'ora á Polonia.

De resto a Polonia e a Irlanda constituem dois casos differentes. É certo, porém, que vistos de longe, atravéz da nevoa lacrimosa da sentimentalidade, offerecem similitudes. A Irlanda póde talvez considerar-se uma Polonia constitucional: ha aqui como na Polonia uma raça opprimida, cujo solo foi dividido entre os grandes vassalos, as familias historicas da nação conquistadora, e que desde então tem permanecido em servidão agraria. Sómente na Irlanda o arbitrario e os abusos, que esta situação origina, são recobertos pelo regimen parlamentar de um bello verniz de legalidade: e a Irlanda soffre as miserias de um paiz vencido e explorado—mas dentro das fórmas constitucionaes.

O irlandez parece-se com o polaco em certos pontos: são ambos arrebatados, imprudentes, espirituosos, generosos e poetas. Como o Polaco, o irlandez catholico odeia o conquistador, sobretudo por elle ser heretico de nacionalidade, misturando com o odio politico o conflicto de religião. Como na Polonia, ha na Irlanda a legenda patriotica da independencia, das revoltas suffocadas, dos agitadores heroicos, legenda que falla á imaginação popular tanto como a mesma religião, inspirando eguaes fanatismos, de tal sorte que o irlandez é tão devoto dos seus santos como dos seus patriotas; como o polaco despreza o russo, assim o irlandez olha o anglo-saxonio como um barbaro e um estupido e tem por elle toda a antipatia desdenhosa que uma raça de improvisadores póde ter por uma raça de criticos e de analistas. Na ordem social, como na ordem domestica, ha entre a Polonia e a Irlanda outras curiosas afinidades. A ultima táctica da Irlanda, mesmo, é imitada da Polonia: a Irlanda vae apelar para a Europa e é Victor Hugo quem fallará em nome dela, n'um manifesto com o titulo de Opressor e Oprimido.

Mas a Inglaterra realmente não se parece com a Russia: nem mesmo atravéz da nevoa da sensibilidade, atravez da paixão pela causa da Irlanda, o mais esclarecido dos liberalismos póde ser confundido com o mais boçal dos despotismos. E todavia a Inglaterra, para não perturbar os interesses tyrannicos d'um milhar de ricos proprietarios, deixa na miseria quatro milhões de homens. Tem todo o territorio irlandez occupado militarmente. Apenas um patriota começa a ter influencia na Irlanda, prende o patriota. Quando a eloquencia dos deputados irlandezes se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrupulos uma tradição parlamentar de seculos. Vae governar a Irlanda pela Lei marcial, como qualquer czar. E, para suspender os planos da Liga Agraria, viola os segredos das cartas.

Esta questão da Irlanda apresenta-se tão complexa, tão confusa como o proprio chaos antes da grande façanha de Jehovah. Na Irlanda começa por haver tres nações distinctas com interesses contradictorios: os irlandezes catholicos, os irlandezes protestantes ou orangistas, os inglezes e proprietarios escocezes. A questão da propriedade é sem duvida a essencial: mas existem outras, a questão religiosa, a questão policial, a questão judicial, a questão municipal, etc., etc. E sobre cada uma d'estas questões é difficil achar dois irlandezes de accordo. Cada aldeia se torna assim um campo de batalha: e, como são eloquentes e sarcasticos, o grande fluxo labial, a paixão do epigramma amplificam e azedam as dissensões.

Mesmo dentro da egreja catholica, que deveria conservar a tradicção da Unidade—tumultua a discordia: o clero parochial está em lucta com os dignitarios episcopaes: e é raro que o clero de um condado não divirja, de sentimentos e de predica, com o clero do condado visinho. No mundo dos patriotas revolucionarios não existe uma harmonia melhor: a Liga Agraria não aceita os Fenians, e os Fenians abominam as tendencias parlamentares dos Home-rulers: e dentro mesmo do partido dos Home-rulers ha democratas e conservadores. É um numeroso conflicto por toda a pobre Irlanda.

Os irlandezes dizem, porém, que se lhes fosse dada a autonomia, horas depois de declarada a Republica Irlandeza, todas estas questões se resolveriam de per si e o paiz seria como um mar que amansa e fica em equilibrio.

Até agora, porém, essa falta de unidade é adduzida justamente como evidencia dos perigos que teria essa autonomia.

Os inglezes pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda sahisse de sob a tutela do bom senso e do saber inglez, no instante que essa raça impressionavel, excitada, fanatica e pouco culta fosse abandonada a si mesma, começaria uma guerra civil, uma guerra religiosa, differentes guerras agrarias, que bem depressa fariam da Verde Erin um montão de ruinas n'uma poça de sangue.

Se os irlandezes se não entendem bem sobre os males da Irlanda, os inglezes comprehendem-se menos ácerca dos remedios para a Irlanda. E a confusão em que se está provém principalmente da abundancia da discussão. Não ha villota, ou mesmo aldeia d'Inglaterra, que não tenha um jornal do tamanho da Gazeta de Noticias, com oito paginas e typo cerrado. E d'alto a baixo esta vastidão de papel, desde que começou a agitação da Liga Agraria, é occupada por estudos e artigos sobre a Irlanda. Multiplique-se isto pelas tres ou quatro mil gazetas que a pobre Inglaterra nutre sobre a sua epiderme: juntem-se-lhe os artigos dos Semanarios, dos Quinzenarios, das Revistas e dos Magazines, os pamphletos, as brochuras, os ensaios inumeraveis como as estrellas do céo, os livros e tratados de toda a sorte, os discursos do parlamento, as arengas dos meetings, as conferencias, os sermões, as controversias publicas, as lições, emfim, toda essa colossal litteratura que nestes ultimos mezes tem tomado por assumpto a Irlanda.

E digam-me se, com todo este mundo de informação, de discussão, de theorias, de projectos, de systemas, de opiniões, de imaginações,—não é natural que o cerebro da Inglaterra esteja, n'esta questão da Irlanda, perfeitamente desorganisado. O meu está. Mas n'este cahos mental tenho illustres companheiros: o grande Carlyle costumava dizer que a sinceridade e a elevação de alguns patriotas irlandezes era a unica coisa nitida e clara que elle conseguia distinguir no escuro tumulto da confusão irlandeza...

Ha tambem outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietaria, os land-lords indignam-se e reclamam o auxilio da policia ingleza quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionaria—comer!

Aqui está, por exemplo, Sua Graça o Duque de Leicester, para não citar outros de nomes menos sonoros: os seus rendimentos na Irlanda sobem a quatrocentos contos de reis—e o infeliz tem ainda uns duzentos contos mais das suas propriedades na Inglaterra! Este fidalgo, escuso talvez dizel-o, não soffre frio e não passa fome: por outro lado, a população de rendeiros que trabalham as suas terras, e que com o seu suor e o seu esforço lhe arrancam do sólo este rendimento,—a unica cousa que realmente tem é fome e frio. Mas este anno tiveram mais fome e mais frio que de costume: e lá foram em farrapos, e com os pés nús sobre a neve, supplicar a Sua Graça, o Duque de Leicester, que lhes fizesse uma diminuição de dez por cento nas rendas—exageradas, absurdas e devoradoras. Sua Graça respondeu (pela bocca dos seus administradores, naturalmente: por sua propria bocca um Duque inglez nunca falla senão com outro Duque) respondeu que as suas circumstancias não lhe permittem essa liberalidade—e que a repetição d'uma tal supplica não podia ser tolerada.

E os rendeiros de Sua Graça lá voltaram de cabeça baixa, para o frio e para a fome.

Direi de passagem que se o pedido, em logar de ser feito pelos seus rendeiros da Irlanda, partisse dos seus rendeiros da Inglaterra, Sua Graça apressar-se-hia a satisfazel-o rasgadamente. É porque a Irlanda é um paiz conquistado, e, quando o proletario se queixa, a policia fila-o pela gola: mas, em Inglaterra, quando o operario inglez ergue a sua voz de leão, a policia fica immovel, os Duques empallidecem, e o edificio monarchico e feudal treme nas suas bases.

Mas, a proposito de Sua Graça o Duque de Leicester (gozemos o mais tempo possivel esta illustre companhia: quand on prend du Duc on n'en saurait trop prendre) deixem-me dizer-lhes em resumo quaes são as relações agrarias entre um proprietario, um land-lord, e os seus rendeiros.

O sólo, é claro, pertence ao lord. Por que titulo não sei; talvez uma de suas avós, n'uma noite que estava mais decotada, attrahisse o inconstante olhar do amavel Carlos II, nos saráus galantes da Restauração: d'esse olhar provém, acaso, esta bella propriedade. O alegre Stuart era tão generoso! tinha-se vivido tão pobremente, tão tristemente sob a dictadura puritana do Cromwell!... Depois, se Carlos II tinha pouco dinheiro, (o desgraçado recebia uma mesada do rei de França!) não lhe faltavam terras na Irlanda. Trez leguas de pastos, ou de terreno aravel, por um beijo e os seus acessorios, não é caro para um Stuart. E para uma fraca dama ou para seu esposo é um famoso negocio. Note-se, por Deus, note-se que eu estou fazendo estas supposições sobre um typo de Lord abstracto. Nem toda a minha sympathia pelos trabalhadores irlandezes me levaria a suspeitar das purissimas senhoras da Casa de Leicester...

Como proprietario do sólo, pois, o Lorde arrenda-o ás familias que de geração em geração vivem nas suas terras: o irlandez prende-se ao sólo como uma arvore pelas raizes, e muitas vezes prefere morrer a abandonar um torrão arido que o não nutre. A emigração irlandeza para a America sáe principalmente da população operaria das cidades. Ora, nos contractos de renda, o homem de trabalho está absolutamente á mercê do senhor da propriedade.

O valor das rendas é puramente arbitrario. Não ha typo de renda, baseado sobre a avaliação das terras; existe o que se chama a avaliação de Griffith, feita ha mais de trinta annos por o agronomo d'esse nome; mas esta avaliação, equitativa e favoravel ao trabalhador, não é jamais aceitada pelos proprietarios. N'isto está a origem de todas as miserias da Irlanda; as rendas, absurdamente elevadas, absorvem todo o producto da terra, e o rendeiro escassamente póde viver, muito menos economizar.

Além do sólo, o proprietario deve fornecer a habitação e os instrumentos de trabalho: se na fazenda não existe casa, ou se ella necessita reparações, o land-lord dará naturalmente alguma madeira, uma mão-cheia de prégos, um molho de colmo, para que o trabalhador erga a cabana miseravel, muito inferior, como conforto, aos curraes dos nossos gados; e a esta generosidade regia o land-lord juntará talvez um velho arado e um ferro de enxada. Mas estes dons são adiantamentos que elle sobrecarrega com preços duplos ou triplos do seu valor, e de que se faz embolsar por prestações trimestraes.

Não é possivel ser mais grandioso ou mais nobre.

Aqui está, pois, o rendeiro de posse de um tecto, de um terreno e de ferramenta. Parece que só lhe resta começar a cultivar.

Assim seria, se não fosse na Irlanda. Mas a natureza, mãe fecunda e amante, comporta-se aqui ainda peior que os lords: se a natureza tivesse assento na camara dos pares de Inglaterra, não seria mais aspera, mais hostil ao pobre e mais avara de si mesma. A natureza, quando não se apresenta ao trabalhador irlandez sob o aspecto de sólo pedregoso, mostra-se sob o aspecto de pantano.

Offerece-lhe de um lado um penedo, do outro um charco.

E diz-lhe com a sua ternura de mãe:

—Escolhe. De qual preferes tirar tu os meios de subsistencia?

O pobre irlandez o que preferiria era ir-se embora: mas como por toda a parte encontraria um proprietario egual, os mesmos pedregulhos e identicos lamaçaes—fica. E é então que se apresenta de novo a generosidade do Lord. Sua Graça está pronta (porque Sua Graça é compassiva) a escoar o pantano, a desempedrar o sólo, a fazer melhoramentos na terra. Sua Graça vae mesmo mais longe: Sua Graça (Deus o recompense!) offerece a semente. E mais ainda: Sua Graça (que as bençãos do ceu o vistam!) dá os adubos.

E aqui está um rendeiro feliz, que tem a casa, os instrumentos, a semente, os adubos... Sómente Sua Graça marca os preços que lhe convém aos melhoramentos feitos, á semente e aos adubos: e no fim do anno a renda que era originariamente de dez está em vinte e cinco! Como os terrenos são pobres, os invernos abominaveis, o pobre rendeiro não póde pagar: dirige-se então ao agiota—ou ao Lord mesmo. E desde esse momento está n'uma rede de dividas, lettras, colheitas empenhadas, juros accumulados, protestos, o demonio—de que jámais se poderá desenredar. O resultado é previsto: o Lord (pelo seu agente) penhora-o, apossa-se do grão que está nos celleiros, do gado que está nos curraes, do pequeno bragal que está na arca, das arrecadas da mulher, das enxergas—e expulsa-o da casa e da propriedade—da casa que elle talvez construiu, da propriedade que elle com o seu trabalho melhorou! Tal qual como na meia edade.

Estas expulsões, que se chamam evictions, são o terror irlandez. Que ha-de fazer um miseravel com mulher, creanças, ás vezes uma avó entrévada, que se vê d'uma hora para a outra no meio de uma estrada, por um terrivel inverno, sem um farrapo para se cobrir, sem uma codea de pão, sem casa, sem destino e sem esperança? E note-se que isto passa-se em regiões como as da Irlanda, pouco habitadas, com um casal de legua em legua.

Esta falta de vizinhos torna estas expulsões mais terriveis. Quantas milhas a caminhar sob a chuva ou sob a neve, com as creanças chorando de fome, os doentes levados n'uma padiola, até que se encontre algum rendeiro mais feliz que ainda tem um canto de cabana onde azyle a familia errante! Mas por pouco tempo—porque todos são pobres, todos estão endividados, todos ameaçados da expulsão...

E durante esse tempo Sua Graça banqueteia-se, bebe Chateaux Margaux de 6$000 reis a garrafa, caça, etc.—e aluga a fazenda, d'onde expulsou o miseravel n.º 1, ao rendeiro n.º 2. Sómente o n.º 2, como a encontra melhorada pelo antecedente, paga-a mais cara: e depois de explorado, sugado, expremido, durante dois ou trez annos, é expulso—para dar logar ao n.º 3. Este infeliz passa pelo mesmo processo de trituração, et sic per omnia...

E as expulsões são inevitaveis, porque, com a altura absurda das rendas, é impossivel que o rendeiro as possa pagar—e viver.

Isto, como comprehendem, é apenas um vago contorno da realidade, apontada nas suas feições essenciais.

Descendo-se a detalhes—vê-se então uma horrorosa tréva de injustiça e miseria.

Mas como pódem taes cousas passar-se no seculo XIX, e ao lado do povo inglez?

Como permitte uma nação tão justa a existencia de tanto oprobio?—dir-me-hão.

Justamente essa pergunta a fazia Victor Hugo ha dias a Parnell, o chefe da Liga Agraria, na sua celebre entrevista. E eu responderei com as palavras de Parnell.

Taes cousas passam-se no seculo XIX. E o povo inglez não as sabia: pelo menos eram-lhe contadas de tal modo que, em logar de piedade, só sentia colera.

E isto é exacto. Os males da Irlanda eram conhecidos pela voz dos seus agitadores. Mas estes homens, desde O'Connell cometteram sempre o erro de misturar as queixas d'um proletariado opprimido ás aspirações d'independencia nacional: de sorte que a Inglaterra não attendia á reclamação dos trabalhadores pela irritação que lhe causavam as exigencias dos patriotas. O povo inglez não póde ouvir fallar em que a Irlanda se separe, e se constitua em republica: mas está prompto a ordenar que se lhe dê um justo regimen de propriedade.

O erro dos Fenians foi confundir a questão nacional com a questão agraria: o rendeiro miseravel apparecia então aos inglezes com o aspecto de um rebelde á União; e envolvendo-os ambos no mesmo odio, porque lhes suppunha identicas ambições, suffocou sem discernimento, a voz que só pedia pão e a voz que reclamava autonomia.

E todavia o povo inglez sentiu sempre instinctivamente que a Irlanda soffria. Muitas vezes pediu para ella uma reforma das leis agrarias. Era, porém, um pedir vago, sem cohesão: mais a expressão de sensibilidades feridas do que a intimação da vontade nacional.

De sorte que os parlamentos, sahidos das classes que têm interesse em manter a Irlanda na miseria, contentavam-se em fazer reformas de detalhes, reformas insignificantes e imperceptiveis, para dar uma satisfação á compaixão ingleza: e o regimen antigo ficava inatacado como d'antes. Mas isto bastava para que alguns humanitarios dissessem com um suspiro de allivio: «Emfim lá se fez alguma coisa pela Irlanda!» De facto não se tinha feito nada.

Era, pois, necessario que a questão da propriedade fôsse separada da questão da independencia: que se fizesse um movimento legal dentro da constituição, com o fim exclusivo de terminar os abusos dos land-lords, calando toda a ideia de arrancar a Irlanda ao Reino Unido. Então haveria a certeza de que o povo inglez, vendo a questão agraria e os seus horrores, isoladamente, no seu relevo proprio, desembaraçada das declamações rebeldes e das agitações separatistas—determinasse dar a tantos males, e tão antigos, um remedio radical. Foi isto que tentou a Liga Agraria.

Esta carta é longa: e apresentando esta formidavel entidade—a Liga Agraria, eu devo fazer como o illustre Ponson du Terrail, quando introduzia um novo personagem, o heroe providencial, n'um fim de folhetim: deixar a historia das suas façanhas, das suas virtudes e da sua belleza, com o interesse suspenso, até ao folhetim seguinte. Não se esqueçam que ficamos no momento em que, n'este palco da Historia Irlandesa subitamente apparece ao fundo, misteriosa e grave, a Liga Agraria.

[ VIII
Lord Beaconsfield]

[ I]

Recomeçando hoje estas CARTAS DE INGLATERRA—que eu não podia escrever de Lisboa, onde estive alguns mezes gozando os ocios de Tityro, sub tegmine fagi, á sombra d'essa faia constitucional que se chama o Gremio—devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamin Disraeli, Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de maio, pela madrugada, em Londres, na sua casa de Curzon Street. A doença de Lord Beaconsfield, uma complicação de gotta, asthma e bronchite, arrastou-se cruel e longa; o mal porém foi debelado e Lord Beaconsfield succumbiu realmente á fraqueza, á fadiga dos setenta e sete annos e uma existencia tão episodica, tão cheia, tão emotiva, que ella ficará como o seu melhor romance, bem superior em estylo e interesse a Tancredo ou a Endymion.

Desde o primeiro dia, Lord Beaconsfield perdeu logo a esperança de se restabelecer; mas passou a encarar a morte como encarára sempre as suas derrotas politicas: com uma coragem desdenhosa e fria e um ar de facil superioridade. Durante a doença, aos accessos agudos da dôr, respondia elle com esses sarcasmos mordentes e rebrilhantes, que tinham sido sempre a sua desforra querida perante um adversario mais forte.

No dia 18, á noite, cahiu pouco a pouco n'uma somnolencia comatosa, e assim permaneceu até ao romper da manhã; momentos antes de morrer, agitou-se, ergueu-se, ainda dilatou o peito, lançou os braços ao ar—como costumava fazer nos grandes debates da camara; depois recahiu sobre o travesseiro, estendeu as mãos a Lord Rowton e Lord Barrigton, seus secretarios, e murmurou debilmente: Estou vencido!—E ficou como adormecido para sempre. E, considerando que, n'esse momento, toda a Inglaterra, o mundo inteiro, esperavam anciosamente noticias d'aquelle quarto de Curzon Street, onde expirava o homem que sessenta annos antes era um pobre escrevente de cartorio—póde-se dizer que n'esta carreira tão feliz a morte mesma foi feliz.

O seu proprio funeral teria agradado á sua imaginação—a certos lados delicados da sua imaginação de artista. O testamento que deixou não permitiu que se celebrassem funeraes publicos na Abbadia de Westminster—disposição estranhavel n'um homem que mais que tudo amou a pompa e os grandiosos ceremoniaes; mas não teve tambem o lugubre scenario da morte, os crepes, as plumas negras, as tochas, os fumos, as caveiras bordadas—tudo isso que deveria ser tão antiphatico ao seu luminoso espirito. Foi sepultado no seu querido Castello d'Hughenden, no meio das arvores do seu parque, por uma fresca manhã de maio, na capella toda ornada de flôres como para uma alegria nupcial; o caminho que lá levava ia por entre jasmineiros e rosaes; em vez do dobre dos sinos de Westminster teve o gorgeiar das suas aves; e o caixão, seguido pelos principes de Inglaterra, por todos os embaixadores, pela aristocracia que ella governára—desapparecia sob corôas, ramos e molhos de primroses, que a rainha Victoria mandára, com estas palavras escriptas pela sua mão: «As flôres que elle amava.»

Depois, ao outro dia, em todas as cathedraes da Inglaterra, em cada capella rustica, o clero fez do pulpito o elogio de Lord Beaconsfield; nas universidades, nos institutos, nas academias, os professores commemoraram aquella carreira soberba; pelas platafórmas dos meetings, nas assembléas commerciais, em qualquer parte onde se juntam homens, alguma voz se ergueu a honrar os seus serviços e o seu genio; Lord Granville, na camara dos lords, na camara dos communs Gladstone, fizeram, em sessão solemne, o seu panegyrico publico; e durante dias, toda a imprensa ingleza, a imprensa de todo o mundo civilisado (excepto a de Portugal, infelizmente) vieram cheias do seu nome, da commemoração dos seus livros, da sua pittoresca historia.

E assim Lord Beaconsfield desappareceu—como fôra o desejo de toda a sua vida—n'um rumor de apotheose.

E todavia nada parece mais injustificado que uma tal apotheose. Lord Beaconsfield, por fim, foi um homem de estado que fez romances. Ora os seus romances, como obras d'arte, já começam a apparecer, a esta geração de sciencia e d'analyse, tão falsos, tão ficticios como as novellas lyrico-religiosas do visconde d'Arlincourt; e como homem d'estado o nome de Lord Beaconsfield não fica decerto ligado a nenhum grande progresso na sociedade ingleza. Crear o titulo de Imperatriz das Indias para a rainha de Inglaterra, roubar Chypre, restaurar certas prerogativas da corôa, tramar o fiasco do Afghanistan, não constituem de certos titulos para a sua glorificação como reformador social: por outro lado, escrever Tancredo ou Endymion, não basta para marcar n'uma litteratura, que teve contemporaneamente Dickens, Tackeray e Georges Eliot.

Como succede, depois d'isto, que a Inglaterra, paiz tão pratico, tão bem equilibrado, se deixe levar em um tal arranque de admiração pelo homem que foi a personificação, a encarnação de tudo quanto é contrario ao temperamento, ás maneiras, ao gosto inglez? É que Lord Beaconsfield, mais que nenhum outro contemporaneo, impressionou a imaginação ingleza—e na fria Inglaterra, como sob céos mais calidos, são grandes as influencias da imaginação.

Podia-se ás vezes sorrir das suas phantasticas obras d'arte, protestar contra as suas theatraes combinações politicas, mas atravéz de protestos e sorrisos a sua propria personalidade nunca deixou de maravilhar e de fascinar. Qualquer inglez, medianamente educado, a quem se pergunte a sua opinião sobre Lord Beaconsfield dirá: Foi um homem extraordinario!

Extraordinario—é como elle se nos representa, agora que se vê o conjunto da sua existencia, que não parece ter sido um producto natural dos factos ou das occasiões, mas uma creação subjectiva da sua propria vontade, e como um enredo de romance talhado pela sua penna. Senão veja-se. Tendo nascido judeu—tornou-se o chefe de uma aristocracia saxonia e normanda, a mais orgulhosa da terra; começando em um obscuro circulo litterario e vegetando algum tempo em um cartorio de Londres—veiu a ser o mais famoso primeiro ministro de um grande imperio; não possuindo senão dividas—bem cedo se tornou o inspirador das grandes fortunas territoriais; homem de imaginação, de poesia, de phantasia, foi o idolo das classes médias de Inglaterra, as mais praticas e utilitarias que jamais dirigiram uma nação commercial; sem religião e sem moral, governou um protestantismo que não concebe ordem social possivel fóra da sua estreita religião e da sua estreita moral; confessando o seu desprezo pela omnipotencia da sciencia moderna—foi o grande homem de uma sociedade que quer dar a todo o progresso uma base puramente scientifica: emfim, sendo o menos inglez possivel, tendo um modo de ser e de sentir quasi estrangeiros, dirigiu annos e annos a Inglaterra, o paiz mais hostil ao espirito estrangeiro, e que conhecia bem que não era comprehendida pelo homem que a governava. Tudo isto parece paradoxal—e a existencia de Lord Beaconsfield foi com effeito um perpetuo paradoxo em acção. Para realizar tudo isto era necessario que o seu genio, por um lado, por outro a sua habilidade, fossem grandes. E realmente em dons pessoais nada lhe faltou: prodigiosa finura de espirito, uma vontade de aço, uma coragem serena de heroe, uma infinita veia sarcastica, um fogo ruidoso de eloquencia, o absoluto conhecimento dos homens, a luminosa penetração no fundo dos caracteres e dos temperamentos, um poder subtil de persuasão, um irresistivel encanto pessoal,—e tudo isto envolvido (como n'uma athmosfera luminosa) por alguma coisa de brilhante, de rico, de largo, de imprevisto, que era ou fazia o effeito de ser o seu genio.

Eu por mim começo por admirar a sua propria apparencia. Diz-se que fôra formoso como um Apollo—e que isto concorrera muito para os seus primeiros triumphos: agora, já tão velho, era apenas pittoresco.

A sua grande testa sobre a qual cahiam aquelles dous extraordinarios caracóes parallelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em pensamentos muito fundos, o nariz de pura raça israelita, a bocca descahida na sua eterna curva sarcastica, o beiço inferior muito recurvo e muito pendente, e a sua estranha pera de Mephistopheles—constituiam uma d'estas physionomias que se sente que vão ficar na galeria da historia e que servirão a futuros historiadores para explicar um destino e um genio. Em novo, e quando as modas romanticas o permittiam, vestia-se de setim e velludo, recobria-se d'um luxo de medalhões e joias, as suas proprias calças tinham bordados d'ouro. Agora era mais sobrio de toilette: usava apenas esses casacos compridos como tunicas, a que os homens de origem judaica são particularmente affeiçoados, e o seu unico adorno eram os bellos ramos que lhe enchiam o peito. Um jornalista francez, n'um dia de crise politica em que Lord Beaconsfield devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, n'um dos salões da camara, occupado a encher d'agua o tubosinho de crystal que por traz da botoeira da casaca conservava frescas as suas rosas. Todo o homem está n'este traço.

De raça oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descripções de palacios, de festas perante as quaes as mais ricas galas de Salomão são como desbotados scenarios de theatro de feira; o seu estylo resente-se d'este gosto: é um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de joias, scintillante e espesso, cahindo em belas pregas ao comprido da idéa. O dinheiro, o ouro, preoccuparam-n'o sempre, menos pela sua influencia social, que pelo mero esplendor da sua amontoação. Os seus heroes possuem fortunas tão prodigiosas que seriam impossiveis nas condições economicas do mundo moderno; Lothario, o famoso Lothario, querendo dar um presente de annos a uma senhora catholica, offerece-lhe uma cathedral toda de marmore branco, que elle mandou construir e que dedicou á santa do nome d'ella; o seu custo excederia decerto dois mil contos fortes. Confessemos que é chic. Pois bem; presentes d'estes dava-os Lothario todos os dias. O banqueiro Sidonia, uma das mais curiosas creações de Lord Beaconsfield, dando ao seu amigo Tancredo uma carta de credito para os banqueiros da Syria, redige-a d'este modo: «Pague á vista ao portador tanto ouro quanto seria necessario para reconstruir os quatro leões de ouro massiço que ornavam a porta direita do templo de Salomão.» Tambem muito chic.

Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder manejar os milhões de Inglaterra. Todos os seus ministerios custaram caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a agua,—e dava-se ao luxo de realisar por si, e á custa do seu paiz, as larguezas epicas do seu banqueiro Sidonia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no romance.

As linhas da sua biographia são conhecidas. Seu pae era um d'estes litteratos mediocres e trabalhadores que vão desenterrando e colleccionando atravéz de in-folios e bibliothecas casos curiosos e archaicos de historia e de litteratura.

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros—litteralmente entre os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli offerecia o espaço de uma boceta, e no quarto da creança, entre a accumulação vetusta dos calhamaços, havia apenas espaço para uma cadeira e para um berço. O velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu filho rompeu com a synagoga, e todos os Disraeli se fizeram christãos. Benjamin tinha então dezessete annos, e o seu padrinho na pia baptismal foi um certo Samuel Rogers, notavel por ser ao mesmo tempo um dos mais ricos banqueiros da City e um dos poetas mais elegiacos do seu tempo—e notavel ainda por não ficar na historia, nem como banqueiro, nem como poeta, mas como um requintado gourmet, o grande Lucullus de Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christão, Benjamin Disraeli largou a caminhar pela vida fóra, mas foi encalhar bem depressa n'um cartorio de tabellião—onde se diz que, durante dous annos, este moço orgulhoso, que já então se considerava um semi-deus, redigiu procurações e testamentos. Com a mesma penna, porém, ia escrevendo Vivian Grey: e da tempestuosa sensação que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, á parte algumas fugitivas scintillações de um genio ainda desequilibrado, é no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os gostos escandalosos e intrigantes da sociedade d'então, pondo em scena todas as individualidades marcantes de Londres, politicos, dandies, rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de Vivian Grey, foi tornar Disraeli Junior (como elle então se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa época, e que tinham de sociedade o mais selecto, mais intelligente, mais apetecido salão de Inglaterra.

Estes dous formavam um typo destinado a reinar. Lady Blenington era uma mulher de graciosa e olympica belleza, de uma extrema audacia de caracter e de alta energia intellectual. O conde d'Orsay, esse era o homem que durante vinte annos governou a moda, o gosto, as maneiras, com a mesma indisputada auctoridade com que hoje o principe de Bismarck arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que não tivessem sido aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nação que hoje, sem auctorização secreta do principe de Bismarck, organisasse uma expedição militar. Lady Blenington, entre outras coisas embaraçadoras, tinha uma filha: e o bello d'Orsay, não sei porque, nem elle o soube jámais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua resplandecente mãe, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pallida lampada bruxoleando entre dous astros. Fez então uma cousa sensata e espirituosa: apagou-se de todo, desappareceu. E o conde d'Orsay e Lady Blenington, livres d'aquella senhora que entristecia, regelava as salas com o seu ar honesto e frio, começaram então a scintillar tranquillamente, como constellações conjunctas no firmamento social de Londres. E Londres curvou-se deante d'esta nova e original situação domestica, como se curvava deante de uma nova sobrecasaca do conde d'Orsay, ou deante de uma decisão litteraria de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heroes d'este salão—onde desde logo se mostrára com esse ar de tranquilla superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua força. Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao marmore da chaminé, n'uma pose d'Apollo melancholico, abandonando-se á caricia ambiente dos olhares das damas que viam n'elle a encarnação radiante do poetico Vivian Grey. As pessoas mais intimas, começando por Lady Blenington, já lhe chamavam sempre Vivian, querido Vivian. O conde d'Orsay fizera-lhe o retrato a sepia—honra que elle dava raramente, e a mais appetecida n'esse curioso mundo.

Todos estes triumphos de Disraeli Junior não deixavam de surprehender Disraeli Senior. Um dia, dizendo-lhe alguem que seu filho estava compondo um romance, em que entravam duques, e toda a sorte de grandes, o velho e laborioso litterato exclamou:—Duques, senhores! Mas meu filho nunca viu um sequer!

Viu muitos depois, viu-os todos—e governou-os com uma vara de ferro. Mas n'esse tempo o bello Disraeli Junior era ainda radical, ou tomára ao menos essa attitude. Meditava mesmo a sua Epopêa da Revolução, a sua unica obra em verso, uma vaga rhapsodia que eu nunca li, mas de que os criticos mais benevolos fallam como d'um volume de duzentas paginas, sem uma só linha toleravel. E, cousa curiosa, este homem tão fino, tão sceptico, tão experiente, nunca perdeu a candura quasi comica de se considerar um grande poeta como Virgilio ou como Dante, e a esperança phantastica de que as gerações futuras poriam a Epopêa da Revolução ao par da Eneida, ou da Divina Comedia.

Apesar de poeta abominavel e de perfeito dandy—ou talvez por isso mesmo—Benjamin Disraeli era reconhecido n'esse tempo como um dos chefes do movimento da Joven Inglaterra.

A Joven Inglaterra consistia n'um grupo de rapazes, ardentes e aristocratas, que se tinham embebido da Revolução atravéz da litteratura; fallavam muito da Humanidade e queriam sobretudo um burgo pôdre que os nomeasse deputados; cultivavam pelos salões o amor platonico, quereriam vêr o povo feliz comtanto que estivessem elles no poder para promover essas felicidades, e (traço decisivo das suas maneiras e da sua pose) quando se escreviam uns aos outros tratavam-se por my darling—meu amor!

Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabello á nazarena, mostravam a coragem (enorme n'esse tempo) de admirar o odiado Byron, e procuravam elevar e aperfeiçoar a arte da cozinha em Inglaterra!

No emtanto, Benjamin Disraeli já estava bem decidido a sacudir o seu radicalismo—quando fosse necessario aos interesses da sua careira. E essa carreira via-a elle então, apesar de desconhecido e pobre, tão claramente triumphante no futuro como se a tivesse deante dos seus olhos escripta, parte por parte, n'um programma.

Em pleno reinado dos tories, é caracteristica já a sua resposta a Lord Melbourne, primeiro-ministro então, que lhe perguntava o que elle tencionava fazer.

—Ser eu o primeiro-ministro d'aqui a pouco—respondeu o dandy com as suas grandes maneiras á Vivian Grey.

Lord Melbourne viu n'esta resposta uma odiosa e insolente jactancia. E assim parecia, quando, tempo depois, Disraeli, já deputado por Wycombe, fez o seu primeiro discurso—e o viu suffocado pelas gargalhadas e pelos apupos. Como não podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas palavras mais:

—Hoje não me quisestes ouvir. Um dia virá em que eu me farei escutar!

E um dia veio em que não só a camara dos communs, mas a Inglaterra, todo o continente, a terra civilizada escutavam com anciedade as palavras que iam cahir dos seus labios, e que traziam comsigo a paz ou a guerra na Europa.

[ II]

A reputação de salão que gozava Lord Beaconsfield, levou algum tempo a transformar-se em popularidade; mas a sua popularidade, apenas obtida, penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos annos essa vasta e ressoante nomeada, que fez o seu nome familiar, quasi domestico, em toda a parte onde se falla inglez, na mais rude aldeia de pescadores de Cornwall, no bush d'Australia, entre os mesmos montanhezes barbaros das Highlands, e que, quando elle se dirigia ao congresso de Berlim, attrahia ás estações do caminho de ferro as populações da Allemanha a contemplarem o grande inglez. E este reconhecimento de gloria constitue um dos phenomenos mais curiosos da carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, não se avalia bem a difficuldade portentosa de obter uma fama, mesmo mediocre.

Não ha nada tão illusorio como a extensão de uma celebridade; parece ás vezes que uma reputação chega até aos confins de um reino—quando na realidade ella escassamente passa das ultimas casas de um bairro.

No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou assombrado de que o magistrado de uma villa visinha de Paris, homem illustrado, de resto, não soubesse com que letras se escrevia esse glorioso nome de Dumas!

E se nós pudessemos reduzir a numeros as proporções das glorias contemporaneas, ficariamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos resultados. Nós outros jornalistas, criticos, artistas, homens de estudo e de curiosidade litteraria, julgamos quasi impossivel que haja alguem na Europa que não tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, não conheça esse nome de syllabas faceis, que ha meio seculo fere, a grande estrondo, o ouvido humano; pois bem, póde-se dizer que fóra de França apenas cinco mil pessoas talvez terão lido Victor Hugo—e que não passará decerto de dez mil o numero de creaturas que lhe saibam o nome, incluindo mesmo a vasta massa democratica de que elle é o epico official. E já isto constitue um famoso progresso—desde o tempo em que Voltaire ambicionava ter cem leitores!

A conhecida alegoria da fama, cantando o nome d'um varão com as suas cem bocas, applicadas ás suas cem tubas, e voando de um a outro confim do universo—é uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro da área humilde d'um corrilho ou d'uma coterie: e nada viaja com uma lentidão egual á da Fama. Um fardo de fazendas gasta quatro dias a vir de Londres a Lisboa—e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os tres grandes poetas da Inglaterra, e que ha quarenta annos são a sua mais pura gloria, ainda cá não chegaram. É verdade que todo o mundo necessita flanellas—e nem todo o mundo supporta poesia.

Mas uma celebridade não encontra só difficuldades em transpôr a fronteira—acha-as sobretudo e quasi insuperaveis em fixar a atenção da grande turba dos seus concidadãos. Principalmente n'um paiz como a Inglaterra, em que a aspera lucta pela existencia, a soffrega preoccupação do pão diario, o feroz conflicto da concorrencia, não permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portuguezes ou hespanhóes, em que se está de barriga ao sol, prompto a olhar, a admirar o menor foguete que estala nos ares.

Em Inglaterra, o duque de Wellington era de certo popular—porque ganhou a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crença contemporanea, salvára a Inglaterra da invasão. Gladstone é conhecido em cem cidades e mil aldeias, porque alliviou a nação dos seus grandes impostos. Mas estes fórmam as excepções; as outras celebridades inglesas, ou sejam politicos como Lord Salisbury, ou philosophos como Spencer, ou poetas como Browning, ou artistas como Herkomer—permanecem profundamente ignorados da grande massa do publico. São reputações de salão, de academia, de club, de redacção de jornal.

Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tornar popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande instituição, a um grande beneficio publico, a uma campanha victoriosa. Tudo, ao contrario, n'esta original personalidade parecia destinal-o á impopularidade: a sua origem, os seus gestos e habitos anti-inglezes, a sua poderosa veia sarcastica, a sua oratoria requintada e subtil, o gongorismo metaphysico das suas concepções litterarias, e certos lados muito accentuados do seu fundo semitico. E a isto accrescia que, para a grande maioria da nação, elle representava um parvenu de auctoridade oligarchica, surdamente hostil á ideia de democracia e de soberania popular.