EÇA DE QUEIROZ

ECHOS DE PARIZ

QUARTA EDIÇÃO

PORTO

Livraria Chardron, de Lélo&Irmão, Limda, Editores

Rua das Carmelitas, 144

AILLAUD E BERTRAND—LISBOA—PARIS

1920


INDICE

[I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.]
[II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.]
[III. O IMPERADOR GUILHERME.]
[IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.]
[V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.]
[VI. A FRANÇA E O SIÃO.]
[VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.]
[VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.]
[IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.]
[X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS DO BRASIL.]
[XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.]
[XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.]
[XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.]
[XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.]
[XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.]
[XVI. O «SALON».]
[XVII. CARNOT.]
[XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.]


I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.

Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco regato que vae cantando por entre as relvas altas.

Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta opinião do romanesco auctor de Tancredo e da Guerra do Afganistan: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as creações da Arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés—e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais episodica,—em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...

...Em Roma contempla os ornamentos do passado—o Colyseu e o Papa; em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que palpita ao centro.

Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma paizagem accessoria—a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza exuberante;—mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias sensações.

O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o melhor espectaculo para o homem—será sempre o proprio homem.

Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o valle—a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito, d'um coração vivo.

Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.

O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza—é-lhe indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, algum panorama—a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de Lisboa é a presença do lisboeta—como a mim o que me estraga a Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma sociedade—a de Pariz e de Londres.

Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os regulamentos de policia até á vitrine dos joalheiros, dar-se a linha parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os ditos do Figaro; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de Jerusalem foi o can-can de Bella Helena, e sahiu da habitação de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba sagrada.

O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do Times. O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.

Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para lá—dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas de um portico.

É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em Londres, desde as revoluções até ás toilettes, desde os poemas até aos escandalos.

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em Pariz.

Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.

E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e Londres ensinam tudo.

Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico—creio que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e patria genuina de Mr. Prudhomme...

O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data, na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr de batalha na face.

Trinta e cinco mil pessoas fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e flammejante Moloch.

Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.

Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis, armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas nas eleições.

No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre valla onde apodrecem os seus mortos.

O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou promettendo concessões ao velho mundo communard a troco da desistencia d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto sangrento—conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população que devia descer dos faubourgs apenas se viram pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram vermelhas.

Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a sua corôa sobre a herva verde, um sergent de ville precipitava-se, verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um governo forte e contundente...

Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam a religião e os seus ceremoniaes?

O mais illustre jornal do partido, o Mot d'Ordre, descrevia ha dias uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um anniversario de morte—da morte que não deve ser para elles mais que uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta de symbolos saudosos...

Mas, mais estranho que tudo é a influencia do vermelho no animo da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.

Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre corôa de perpetuas tingidas de vermelho?

Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria generosamente permittido a manifestação saudosa...

Logicamente, pois, uma rapariga que passe no boulevard com duas rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á constituição.

Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o bom Deus!

Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!

Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em meeting com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora do meeting, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!

Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...

Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama Gustavo Flaubert e é o auctor da Madame Bovary e da Educação Sentimental—quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.

Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma mais viva, mais pura e mais forte.

As suas creações—Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos rendez-vous.

Madame Bovary é hoje uma obra classica—e de certo o seu melhor livro. Quem a não conhece e a não relê—essa historia profunda e dolorosa d'uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por alguma cousa de melhor, e arrastando uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel—o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si mesma!

Na Educação Sentimental, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a difficuldade de governar a democracia...

Salammbô é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na Tentação de Santo Antão, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.

Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo burguez.

Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu á luz dos ceus.


II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.

Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.

Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo—um considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem importancia—corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de Bolonha.

Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletot.

Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e dandies é abundantemente deteriorada.

Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do Voltaire, com o conde de Dion; duello de Fronsac, do Gil Blas, com o principe de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do Mot d'Ordre; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e o cotovello!

Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».

Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, as phrases celebres do mestre:—Deus é o mal! A propriedade é o roubo! Queremos a liquidação social!

A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho perfido, contendo esta abominavel sextilha:

A loira e dôce Maria
Que a ninguem d'amores maltrata,
Foi avisada outro dia
Que Paulo a vem visitar,
E eil-a que rompe a gritar:
—Depressa! fechem a prata!

Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr. Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um cheiro adocicado de sachristia—que saboreava tambem os seus grogs no café e dirigia um jornal jesuita, A Palavra. A sextilha tomava, assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.

D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de pistola alta. Fogo! A bala do homem da Palavra vae cravar-se na anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito franziu consideravelmente o sobr'olho.

Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:

—Então, o duello? Houve morte de homem?

—Não,—respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.—Houve morte de jumento.

—O que! Morreu Paulo?

E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola tambem.

Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr. Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho—do mesmo, precisamente o mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu atravessado e franzira tanto o sobr'olho.

—Comprehendo!—rosnou este individuo, livido. E á noite, no café, dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um modo desleal e infame»!

—Pois atreve-se?...—ruge o snr. Paulo.

—Sei o que digo; infame e desleal!

—Insolente!

—Garoto!

Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se alojar.

Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.

Os conflictos de honra que têm este final de vaudeville são, por fim, os mais acceitaveis.

Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da familia: Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu! nem o codigo, nem o bom senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem, publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»

Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue—tendo em redor as acclamações d'um circo.

No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.

O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.

No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.

—Tem sido feliz em seus desafios?—perguntava-lhe alguem.

—Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com a consciencia serena e uma ferida séria...

Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que para se poder gosar, com a alma tranquilla, a omellette do almoço, se deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.

De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra a serio por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.

Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são egualmente heroes nas gazetas!

Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a questão da amnistia, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a França!

Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não houvesse o direito de perdoar.

O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por compaixão—não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.

Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se dizia nas operas comicas da minha infancia, ha um mysterio. Qual é, pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto dono de França—que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a confiança para os darem a Clemenceau.

Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na força do proletariado que se quer apoiar—e, portanto, resolveu, como um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe fallar.

No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.

Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.

Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: Gambetta fallou! Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de França e Patria e Republica, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante—tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.

Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego triumphante do pronome pessoal eu.

«Eu consultei o paiz! Eu disse á Europa! Eu quero!» E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.

Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só França!

Rhetorica! A questão da amnistia era, decerto, nas mãos da esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.

Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do Rappel e do Mot d'Ordre, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do Gambettismo.

Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo do Rappel, da Justice e do Mot d'Ordre.

E outras reclamações virão—todas necessariamente satisfeitas—e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica... A questão está collocada entre o proletario e o burgues. É Clemenceau contra Gambetta. E isto, que é o socialista Clemenceau, matará fatalmente aquillo, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde aquillo, que é o philosopho Clemenceau.

Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das Gallias—que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.

Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, o gaiato sublime como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio—vae ser curioso vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da Lanterna, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado presidente Gambetta.

O jornal que vae fundar chama-se o Intransigente. Já é bom! E vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a Lanterna e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, vamos rir.

Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato que esta expulsão.

Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é antipathico—a sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua abominavel summa theologica, a sua sciencia secca e hieratica, o seu frio estylo d'architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria, a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta influencia na sociedade franceza—então é necessario expulsar o clero inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo.

Quem governa a egreja não é Leão XIII, o Papa Branco, é o Papa Negro, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia—o clero regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma insignia, e considera-se ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas, recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical, semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar tres ou quatro estabelecimentos da companhia—se fica todo um clero compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como inimigos da democracia?

Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em logar da roupeta, vestirão a quinzena—e nem por isso o seu ensino será mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola—lá ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.

É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres conventos de jesuitas!

Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma roupeta que se reprime um ideal.

E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia, pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.

Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.

Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico, comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro d'exilio—que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e o seu nacionalismo prouddhomesco.

Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos; as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação mesma do crucificado.

Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias forte—mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso abuso da força.

Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;—que a amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!

Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella. Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe faz a suprema liberdade na suprema força.


III. O IMPERADOR GUILHERME.

«Lui, toujours lui!...—Elle, sempre elle!...»—Assim, no tempo das Vozes interiores, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia: «Lui, toujours lui!... Elle, sempre elle!»—perante esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu—e occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise capitalista! Talvez mais—porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!

Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e lances—como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra pittoresca de Guilherme II—o ter convertido—o throno dos Hohenzollerns n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da Vida de Jesus lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da realeza!

Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o sic volo, sic jubeo, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,—e, de repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os officiaes que melhor valsam nos cotillons, e querendo volver Berlim n'um Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O mundo sorri—e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de caturra o Passado, expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...

Depois, por vezes, desce do seu palco—quero dizer, do seu throno—e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna Imperator Rex) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, nos mares scandinavos, entre os austeros fjords da Noruega, ao rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e os sandwichs de foie-gras, collocados no seu wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...—E subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? No es nada, como se canta, no Pan e Toros. É apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco—quero dizer, ao seu throno.

O mundo perplexo murmura:—«Quem é este homem tão vario e multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,—e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no que diriam os Athenienses) e que, mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas toilettes. Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...

Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o imperador Guilherme é simplesmente um dilettante da acção—quero dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação. Os dillettante são-n'o geralmente de ideias ou de emoções—porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito dillettante de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca:—mas se tentasse ser um dillettante da Acção, nas suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel dilettantismo da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha ideia»—e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.

Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, e que quando o seu imperador lhe ordena que marche—emmudece e marcha.

E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com elle, o inspira e sancciona o seu poder.

E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador da Allemanha:—é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que conferencia com Deus na sarça ardente do Schloss de Berlim, e que por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez allude a Deus em termos de maior igualdade—como alludiria a Francisco d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com reverencia, o Amo que está nos céus, o Muito alto que tudo manda. Ultimamente porém, arengando com champagne aos seus vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus—o meu velho alliado! E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:—e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo crêmos,—Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n'este instante chalra no meu telhado!

Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito triumphal de cada emprehendimento—eis o que me parece explicar a conducta d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e submissos como soldados—Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque falta ainda ao seu dilettantismo experimentar a fórma da Acção mais seductora para um rei—a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam—só porque na alma do grande dilettante o fogoso appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo:—«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida—pois que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a Landwehr allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da phalange grega.

Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus—mas apenas se provou que Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava desdenhosamente—foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que se estampa sobre a moeda falsa.

Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão repartidas pelos corpos de Estado—e só elle julga, só elle executa porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.

Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.

E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra o destino esses terriveis dados de ferro, a que alludia outr'ora o esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua infallibilidade.

E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia politica na Prussia era—Deus salve o Rei? Onde estão esses louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado:—e o throno, sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do abysmo...

Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno, o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr. E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em Sadowa e em Sedan—é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova ferula, que vencerá em Berlim.

O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo, n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II. Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu Schloss de Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.


IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.

Na semana passada o Grand Prix—que é a solemnidade official do sport, do jogo e das toilettes. Todos estes elementos estiveram magnificamente representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma quarta parte do focinho. As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia toilettes portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de crysanthemos brancos.

A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)

O calor era horrifico. Á noite, no Jardim de Paris, houve, sob as arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava brilhantemente borracha, sicut licet. A unica innovação foi a troca geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas, com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.

Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana). Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de Grand Prix, os cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de toga arregaçada:—e o austero Catão apparecia no senado com um grande nariz postiço.

N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava—uma estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus benemeritos.

Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada mez,—que digo eu? cada semana!—se desvenda algures uma estatua d'alguem, entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d'este fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava recentemente Julio Simon. Digo um certo Guerin, porque eu não lhe conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que foi o inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto, talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças, sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin? Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial, sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes, menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac, como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.

Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais duro de atravessar é a grève dos cocheiros. Pariz está sem tipoias—o que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem camelos. Se n'esta super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil, exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos—e seria mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz, são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no céu do que n'um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta, segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo, contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d'elle—por aquelle meio natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega—senão quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para o Arc de L'Étoile. Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma, que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam noivos—ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que conservam a freguesia aos omnibus.

Uma das causas, ou antes a causa da grève é que os cocheiros querem ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades innumeraveis. É peior que a administração chineza—e menos pittoresca. Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar licenças successivas a vinte auctoridades successivas—entre as quaes o ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d'esses trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia—e o digno funccionario, com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento, respondendo com superioridade: Indeferido, por causa da distancia e do mau tempo!

Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.

Victor Hugo publicou este mez mais um volume—Toute la Lyre. Como o Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as Contemplations, a Légende des Siècles e os Châtiments. Mas augmentam o nosso conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento novo sobre o poeta—sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os papeis intimos—até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para Lamartine, para Balzac, etc.

Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem de guerra, que tem iguaes—é bem justificado que se publiquem os versos, todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.

A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro, etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo. Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra—e que os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca apertada e do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permittir a tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e deve, portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em julho, só pede a propria pelle—sem mais nada, além de uma folha de vinha. Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão radical—e foi só até á palha e á alpaca.

Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio, segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40 graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico. Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves—e elle respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no Estado.


V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.

Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito, um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais descontente:—accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela enthusiasmada rouquejava a Marselheza. As filas de fiacres dormiam pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro civico.

Nem um Vive Carnot! Nem uma palma ao velho Saussier, governador militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz não applaude os pennachos—é que Pariz está realmente macambuzio.

Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma commissão para desorganisar a festa e promover uma melancolia de protesto:—mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:—e onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio, cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro grossas torres onde pudesse ser sepultada pro vita ao bel-prazer d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com o dia que a libertou—porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?

Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta Constitucional.

Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza simplista, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus attributos, tudo lhe é familiar—e elles são como verdadeiras pessoas de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a cidade;—e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:—«S. João é um amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o preço de uma lamparina.»

É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.

Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos protestariam com furor e haveria sangue.

Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.

Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.

A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de casus belli. Este latim, que significava outr'ora caso de guerra, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos se zangam, se tratam de pulhas e malcreados, se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.

Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma architectura phantasista de magica—e estão armadas de canhões Krupp. Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n'esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir o animal pensante—e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes occidentaes—e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és barbaro—logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e Abel.

Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido.

Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram hu! hu! Tudo isto é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da França. Se não foram elles—foram seus paes, como disse o lobo ao cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á Luiz XV!

Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle bello bocado do Oriente—e é a França, a nação entre todas rival, que apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes berraram hu! hu! É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia a preciosa felicidade de ser insultada—e que portanto tem o rendoso direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada—e a Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu parlamento:—«Uma vez que n'esta occasião Sião não pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.

E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios deante de um velho osso.

O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.


VI. A FRANÇA E O SIÃO.

A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um ultimatum em que era intimado a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando os costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.

Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da Cochinchina.

Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.

Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.

Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a França e Inglaterra se batessem por causa de bichos tão feios como os siameses—estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm dilacerado todos os povos desde o diluvio—não ha receio que jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.

De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido, e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma tinta—sem medo que se venha a gastar sangue.

Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua conquista.

Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto—nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.

A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para que quer aquelle velho aquella moça?»

E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer esta França este Sião?»

Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no palacio, e conta detalhes bem pittorescos.

Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das fronteiras.

É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e rei é esta: «Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr».

O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta invocal-o com o nome todo.

Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da corte é pronunciar o nome d'el-rei.

Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.

E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!

O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.

Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que Goethe descreveu—«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.

Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não podia) responder com um saber exacto e forte:

—Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!


VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.

Por fim o Sião cedeu:—e, muito avisadamente, para evitar a immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que ella reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a humanidade, como o caso do snr. Buloz.

Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses dous mundos que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, por meio da sua illustre e famosa Revista. Porque é d'elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da Revista dos Dous Mundos!

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror—porque elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa Revista dos Dous Mundos nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.

E escrever na Revista, pertencer á Revista era para nós uma maneira especial de ser fossil.

Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa Revista! Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano, um numero da Revista dos Dous Mundos:—e ao chegar ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno eterno. Ainda me lembro d'uma definição da Revista, dada por um de nós:—«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»

Tudo isto era excessivo e injusto. A Revista, de facto, tinha leitores por todo o mundo:—e, como se sabe, e já tem sido dito, Todo-o-Mundo é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda remexedora de ideias e de factos:—e não houvera de resto nenhum grande francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto, para nós tão vergonhoso: «escrever na Revista». Todos tinham escripto—mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d'essa geração—Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de Beaudelaire, tirados das Flores do Mal, apresentou-os ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerarios)—e esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações intellectuaes com a Revista. Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no inferno!»

Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não vejo a Revista dos Dous Mundos sem um sentimento vago e inexplicavel de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados, faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do Quarter Latin. É talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.

Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o snr. Buloz e, com elle, a pudibunda Revista dos Dous Mundos se achavam envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a Revista, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão severa policia dentro da sua Revista, que esquadrinhava todos os romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.

Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a excellente Revista. Porque não havia aqui realmente um romance d'esses que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»—mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a Revista de que elle é a encarnação viva—por dous d'esses horriveis personagens a que Balzac chamava impropriamente os tubarões de Pariz. Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.

Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella, quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.

O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando se tem vivido, durante vinte annos, dentro da Revista dos Dous Mundos, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel. Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!) uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos Remusat, evita ou vence.

Buloz cedeu—ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora pretende, em confidencias que fez a um reporter do Gaulois, que «foi uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda a mourama. Pagou, naturalissimamente, as toilettes da menina e da familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade, deu um dote e um marido á menina.

Educado no idealismo incorrigivel dos romances da Revista, imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á Revista dos Dous Mundos, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia uma cidade conquistada.

Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio—e Buloz pagava pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria reunir rapidamente uma fortuna—e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E pagava—para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi arruinado—e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma—e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra promissoria de perto de setecentos mil francos.

Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!

Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam contra as queixas de Buloz—influencias pagas talvez com o dinheiro sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»—como diria Balzac. O facto é que a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua Revista. Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu marido, e a Revista dos Dous Mundos se separou do seu director. E o grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz.

Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a Revista dos Dous Mundos? Era esta, durante semanas, a interrogação anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou—e cruel.

Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da Revista pronunciou egualmente divorcio entre a casta Revista dos Dous Mundos e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado, durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de nomes sagrados. Tal é Pariz.

Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios. Mas a resolução dos accionistas da Revista parece-me excessivamente austera e illogica.

Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções exactas sobre as realidades da vida—e o seu peculio de conhecimentos sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois, mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista, sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro de criterio, além de uma falta de misericordia.

Em todo o caso, assim acaba na Revista dos Dous Mundos a grande dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da Revista por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A mais austera, solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas d'amor houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas illegitimas! Habent sua fata Revistœ.

Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra) em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por dedicação civica.

Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na Camara dos Communs, em mangas de camisa.


VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.

As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa affirmação.

N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças de Augias:—e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos, com um enthusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito comesinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres inspiradores da oratoria. Basta de lyra! gritavam em 1848 os operarios famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia! Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor do seu progresso.

Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe, para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes, capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou—e viu que a sua obra era boa.

Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia) foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das papoulas mais altas.

Na camara não haverá senão espiritos medios e planos—e toda ella será realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa d'onde vôem aves.

Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta, foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens, desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus, a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão, ignominiosamente expulsos da Republica.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim, e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. Amen.

Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul (em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.

Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França, como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,—porque o capital é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no seu pão—e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados como lobos, e dizimados a tiro, um a um.

Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova, em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de Morra o francez! acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de Viva a Allemanha!

Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu sangue, berre: Abaixo a França! Ha ahi apenas, para elles, esquecimento e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: Viva a Allemanha! Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a Italia—a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, n'estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um outro e supremo ultraje.

O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa?

Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se o acceitar um convite para essa região é offender a França, o recusar o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de pecunia.

Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França tem o condão de enervar a Italia—de a enervar até ao desespero. É um facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente cita, lembra e celebra o beneficio da libertação—não é tedio então, é intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o libertou. É bem natural—porque o fraco não póde esquecer que o apoio trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.

Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente inuteis.

A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua magnanimidade.

Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem sido ajudada:—mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua imagem. Ella é e permanecerá a Italia-mater, a mãe veneravel das nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente, ella nos deu a musica.


IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.

N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo Brazil:—e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a elle tão tumultuosamente o perturba.

Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove com o que se passa dentro da linha dos boulevards—quando muito, dentro do recinto das fortificações.

Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate, se não impede totalmente a emoção.

Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.

De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza, que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da guerra. Por toda a parte grèves, e sangrentas; por toda a parte ruinas causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite, envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen) mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas pacata e hygienica de dona de hospedaria.

Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:—e aqui temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente, uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome, procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d'uma nova éra historica.

Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa. Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão particularmente penosas a uma nação altiva.

Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza (outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito, encarregava d'elle os francos—gesta Dei per Francos), a França estava, na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados, politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel e invencivel, a da litteratura e da arte.

Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga, uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas. E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz, como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente, mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia, vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr. Carnot fôsse um Rei de Direito Divino—mas ao mesmo tempo a França, como França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.

Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild. Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e, ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild! E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo uma parte do poder.

A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer, como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.

A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a vehemencia do abraço:—e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de apotheose!

Mas a França é uma franceza—com todas as suas graças de sensibilidade e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III.

Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo, escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção. Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo, o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas festas vão ter não sei que de nupcial.

O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja. E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar Te-Deums louvando o Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.

Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario: liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande «despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle, mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi brutalmente demittido!

Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa) e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular. E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as gares estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos clamores de Viva o Czar!

Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo, acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;—e quasi se póde dizer que um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado, as duas nações discordam—porque uma é ainda primitiva, governada por crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo de revoluções.

Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a confraternisação. A França, repito, é uma franceza—e, como tal, extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.

Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta élite.

Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição)—e vão buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d'isso tambem quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam les petites dames. Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d'armas e d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa ou champagne.

Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»

É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.


X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS DO BRASIL.

Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo desceram, como se se tratasse de sêres chegados das brancas espheras celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita de sobrenatural, e o snr. Hervé, director do Soleil, um academico, um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um caracter miraculoso. Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente. E Pariz está em delirio;—mas um delirio cheio de bonhomia, e mesmo cheio de diplomacia.

Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando a prudencia de um diplomata encanecido na carreira—e os proprios garotos se comportam como Metternichs.

Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo, todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem, e todo este champagne estala, tanto pela Russia como contra a Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais fundos recantos d'alma—e o que transborda é apenas o clamor do enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o russo—e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel santuario de paz.

Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho. E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a harmonia pacifica do soberbo festival.

Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e prompta—isto é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, penetre tão claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é facil, extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos legitimos;—mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que os inglezes chamam os roughs, os «asperos»? Para esses não ha interesse publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de viva a Russia! brados ainda mais altos de morra a Allemanha! Ainda ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a França e a Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes de commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que bailado, a bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca ebulição do forte sangue saxonio. O bailado continuou—e cada um recomeçou serenamente a rir e a emborcar bocks.

No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold, o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado espirito se ter nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza do seculo XVIII. Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á populaça. Em França, nem a essa faltam.

N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata, um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco pançudo que quasi estoura—são frouxas imagens materiaes para exprimir esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo. Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um templo.

Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de paz.

Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se communica aos animaes.

Na Avenida da Opera um grande mail-coach, tirado por quatro puros cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles, terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita—e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e apotheose.

Por vezes, entre couraceiros que cercam um landeau, alvejam ao longe os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de viva o Czar, viva a Russia! Toda a massiça multidão arremette n'uma anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave, polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse—não cessei de louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a conquista das Gallias.

Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres—sobretudo as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio decorativo—nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão—ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente, infinitamente: o Luis XV e Henrique II. Em todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.

A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção buddhista.

As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os russos;—e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro lunchs, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os toasts, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.

Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz valia uma missa, não ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma dyspepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca e gravata branca como os escudeiros que servem o punch. Este inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, das amas ricas—alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê prestigio—esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado—um revestido de uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot negro, com um chapéo côco—o respeito instinctivo da multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres—e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos—e para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia—e de que elle proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.