Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Abril 2010)
O CRIME
DO
PADRE AMARO
Obras do mesmo auctor:
| Os Maias. 2 grossos volumes. | 2$000 |
| O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume. | 1$200 |
| O Primo Bazilio. Segunda edição. 1 grosso volume. | 1$000 |
| A Reliquia. 1 grosso volume. | 1$000 |
| O Mandarim. Segunda edição. 1 volume. | 500 |
EÇA DE QUEIROZ
O CRIME
DO
PADRE AMARO
SCENAS DA VIDA DEVOTA
TERCEIRA EDIÇÃO
Inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma
e na acção da edição primitiva
PORTO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON
Casa editora
LUGAN & GEMELIOUX, Successores
1889
Todos os direitos reservados
Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
NOTA
(DA 2.ª EDIÇÃO)
Bristol, 1 de janeiro de 1880.
Eça do Queiroz.
O CRIME
DO
PADRE AMARO
I
II
III
Mulatinha da Bahia,
Nascida no Capujá...
The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...
The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...
IV
Adeus, meu anjo! eu vou partir sem ti!
E um dia, emfim, d'este viver fatal,
Repousarei na escuridão da campa!
V
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãi foi á fonte!
Dorme, dorme, meu menino.
Que a tua mãi foi á fonte!
Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria é famosa,
Tens a frescura da rosa,
E o teu nome sabe a mel...
Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...
VI
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...
VII
—Passarinho trigueiro,
Salta cá fóra...
—Tem as azas quebradas,
Não póde agora...
Fico sósinha á varanda
Que o meu bem está na prisão!
VIII
Ai! adeos! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
Sôa a hora, o momento fadado,
É forçoso deixar-te e partir!
Ora já cá temos o senhor parocho
Nos chás da S. Joanneira.
Isto já parece outra coisa,
Volta a bella cavaqueira!
IX
Quando sali de la Habana
Valga-me Dios!...
Si á tua ventana llega
Una paloma,
Trata-la com cariño,
Que es mi persona.
Ay chiquita que si,
Ay chiquita que no-o-o-o!
Na capellinha do amor,
No fundo da sacristia,
Ao senhor padre Cupido
Confessei-me n'outro dia...
Seis beijinhos de manhã,
De tarde um abraço só...
E p'ra acalmar dôces chammas
Jejuar a pão de ló.
X
Ora foi o fado tyranno
Que me levou á má vida,
Na vida do negro fado Ai!
Que me traz assim perdida...
«Amaro».
Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitavel Carlos julgou vêr uma seccura reprehensível; á volta encontrára o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada—esquecendo que o bom Marques era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
—Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia soluções devotas—entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé da mãi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fôra sempre bem infeliz!
A mãi não lhe fallára claramente sobre o Communicado; tivera apenas palavras ambíguas:
—É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua consciencia socegada, o mais historias...
Mas Amelia via-lhe bem o desgosto—na face envelhecida, nos tristes silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janella com a luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande fallatorio na cidade», de que a mãi, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. Josepha Dias—cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!
E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, n'aquella reunião de saias e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurára natural, agora, julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar—os Guedes, os Marques, os Vazes,—apparecia-lhe já monstruoso: assim as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e que á luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse voltado á rua da Misericordia.
No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas elle não vinha; e aquella ausencia, que a sua razão julgava prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma traição. Na quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:
—Que será feito do senhor parocho?
O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:
—Mais que fazer... E escusam de esperar por elle tão cedo!...
E Amelia, que ficára branca como a cal, teve immediatamente a certeza que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»—tratava de se descartar d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãi, escondeu o seu desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão estrondosas—que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
—Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma allusão n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a—sem se lembrar que tambem ella se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor! E fôra elle que a tentára com as suas palavrinhas dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração—e esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade—e a sua imaginação começou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa excitação, aquelle plano parecia-lhe muito pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer o cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fóra; e viveriam n'uma casinha—onde o que mais a attrahia era o leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a unica difficuldade que via em todo este plano radiante era fazer sahir de casa, às escondidas da mãi, o bahú com a sua roupa!—Mas quando acordou, essas resoluções morbidas, á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora tão impraticavel, e elle tão separado d'ella, como se entre a rua da Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se vingar do padre Amaro.
Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a publicação do Communicado não apparecera na rua da Misericordia. Tambem me volta as costas—pensou com amargura. Mas que lhe importava! No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as affeições—a que lhe enchia a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não sentir já o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade d'um cão—mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já não queria saber d'ella»! Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre Amaro...
Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardaes—depois de saber que João Eduardo, certo do emprego, viera fallar emfim á mãi,—pensava com satisfação no desespero do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse, com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decencia, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.
—Que lhe parece, minha mãi?—perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida e forçada.
—Eu ia pelo seguro, filha—foi a resposta da S. Joanneira.
—É sempre o melhor—murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepusculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons tempos com o senhor parocho».
N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S. Joanneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar o abat-jour verde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido tão estimado na pequena burguezia—não era feio e tinha um emprego; decerto o offerecimento da sua mão, apesar das infamias do jornal, não lhe parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois annos que o pobre João gostava d'ella... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava—o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.
Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no berço—porque seria um rapaz, chamar-se-hia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão da janella para occultar a vermelhidão do rosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa implacavelmente apoderára-se d'ella como um braço muito forte que a suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos—oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Então á janella, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.
Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente:
-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval, e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.
Ella não respondeu—mas a sua imaginação alvoroçou-se áquellas palavras. Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser indifferente, a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ella, dormir com ella, deu uma perturbação a todo o seu sêr.
E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe:
—Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a custar entrar em explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...
—Tambem acho, filha, escreve-lhe... A Ruça leva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:
«Snr. João Eduardo,
a que muito lhe quer,
«Amelia Caminha».
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditosa vivi a teu lado!
XII
—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro nervoso.
—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. Não ha banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar, que sabe tudo, que o odeia...
Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. E subitamente, com voz d'um ardor brusco:
—Não se importa com elle, não é verdade?
Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida sobre o peito:
—Não.
—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?
Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.
—Gosta? diga, diga!
Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para elle os olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.
—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz da Ruça, dentro.
Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou encostar-se á porta da cozinha um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperou-se, desceu a acordar a mãe.
Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão; uma respiração accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas orações. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baços. Expirára.
O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...
—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da minha alma!
Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, olhava entorpecida a noite negra.
Bateram então á campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da porta aberta; emfim balbuciou:
—Eu vinha saber se havia novidade...
—A pobre senhora expirou agora mesmo...
—Ah!
Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse João Eduardo.
—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.
João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando—mas vendo o parocho abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:
—Bem, boa noite, disse.
—Boa noite.
O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o Breviario.
Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho do Porto que achára no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janellas. Como a noite estava escura não pôde distinguir «o passeante».—Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.
XIII
XIV
«Snr. João Eduardo.
«criada de v. s.a
«Amelia Caminha».
XV
E as senhoras, em alarido, arremetteram para a cozinha. A mesma S. Joanneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalisar a fogueira.
Os tres padres então, sós, olharam-se—e riram.
—As mulheres têm o diabo no corpo, disse o conego philosophicamente.
—Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu logo Natario fazendo-se sério. Eu rio porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o sentimento é bom. Prova a verdadeira devoção ao sacerdocio, horror á impiedade... Emfim o sentimento é excellente.
—O sentimento é excellente, confirmou Amaro, tambem sério.
O conego ergueu-se:
—E é que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... Não lh'o digo a brincar, que a mana tem figados para isso... É um Torquemada de saias...
—Está na verdade, está na verdade, affirmou Natario.
—Eu não resisto a ir vêr a execução! exclamou o conego. Eu quero vêr com os meus olhos!
E os tres padres então foram até á porta da cozinha. As senhoras lá estavam, em pé diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira que fazia destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que já se tinham coberto. A Ruça, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado com o facão a encardernação do Panorama; e as folhas retorcidas e negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé nas linguas do fogo claro. Só a luva de pellica não se consumia. Debalde com as tenazes a punham no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um caroço engorolado; mas não ardia. E a sua resistencia aterrava as senhoras.
—É que é a da mão direita com que commetteu o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assumpção.
—Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da porta o conego muito divertido.
—O mano faz favor de não troçar com coisas sérias! gritou D. Josepha.
—Oh, mana! a senhora quer saber melhor que um sacerdote como é que se queima um impio? A pretenção não está má! É bufar-lhe, é bufar-lhe!
Então, confiadas na sciencia do senhor conego, a Gansoso e D. Maria da Assumpção, acocoradas, bufaram tambem. As outras olhavam, n'um sorriso mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella exterminação grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma força galharda, na gloria da sua antiga funcção de purificador dos peccados.—E por fim sobre as achas em braza, nada restou do Panorama, do lenço e da luva do impio.
A essa hora João Eduardo, o impio, no seu quarto, sentado aos pés da cama, soluçava, com a face banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos bons serões da rua da Misericordia, na cidade para onde iria, na roupa que empenharia, e perguntando em vão a si mesmo porque o tratavam assim, elle que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguem, e que a adorava tanto, a ella?
XVI
XVII
Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...
XVIII
XIX
O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava incommodado...
—Cansadote, disse.
Tomou o Popular de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia da administração do concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella, chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um ah! regalado, dizendo:
—Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além, inquieta, na perturbação que lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto que lhe sentia o halito forte.
—Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso. Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um fôlego:
—É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das orbitas:
—Mas quem é elle, como se chama? O teu pai que te disse?
—É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.
—E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena, dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua voz de tisica,—como ambos entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
—E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, toda pallida, os dentes cerrados.
—E olha, Tótósinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao conego selvagem.
—Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de cabeça.
—E vistel-os beliscarem-se?
—São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou vivamente a corôa.
—Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
—Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de furor. No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e rodando sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um habito de quarenta annos, não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para a sacristia—justamente quando o padre Amaro sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
—Que é isso, padre-mestre?
—O que é? exclamou o conego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a sua infamia!...
E emmudeceu, suffocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:
—Que está vossê a dizer, padre-mestre?
O conego tomára fôlego:
—Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente d'um gracejo:
—Que rapariga!? O senhor está a brincar...
Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.
—Homem, eu vi! berrou o conego.
O parocho, subitamente aterrado, recuou:
—Viu!?
Imaginára n'um relance uma traição, o conego escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas...
—Não vi, mas é como se visse!—continuou o conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá. Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma ignominia !
O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistencia de desespero.
—Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?
O conego pulou.
—O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor vigario geral!
O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:
—Ah, seu maroto!
—Que é lá? que é lá? exclamou o conego de guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade forçada:
—Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira...
—Mente! mugiu o conego.
—Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar o collete. Até o senhor me perguntou «quem está ahi?» Vi, como estou a vêl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á face de todo o clero! Ora ahi tem!
O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito murcho:
—Que traste que vossê me sae!
O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do silencio do conego, disse com bonhomia:
—Traste porquê? Diga-me lá! Traste porquê? Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Tótó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escóla e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!
O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:
—Mas vossê, homem, no começo da carreira!
—E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.
O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena de casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi viesse a saber estourava de desgosto.
—Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja agora traição!
O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mão.
Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.
E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho d'entendedor:
—Pois seu velhaco, tem dedo!
—Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por brincadeira...
—Homem! disse o conego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor d'este mundo.
—É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor d'este mundo.
Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes, a idéa de que correspondera ingratamente á confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação do conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia, o cavalheiro respeitavel, o cabeça—era o conego. A S. Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de seu caro sogro.
Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do conego, passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica galopante, questão de semanas, caso decidido...
—É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é trás... trás...—Era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.
As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Tótó estava bem prostrada de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:
—Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar com a morte...
Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a vontade de Deus?...
E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as sáias.
Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em que ella pretendia descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe ás vezes:
—Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?
—É que não imaginas, dizia ella, trago o coração negro como a noite.
Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. Ás vezes durante serões inteiros não descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o abat-jour verde do candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
—Ó rapariga, deixa esse abat-jour em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.
Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a sáia branca que havia semanas andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.
—Não é nada, minha mãi, é nervoso, passa...
O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a tomavam—a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de visões.
—É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mãi ao conego, é uma rapariga que necessita casar...
O conego pigarreava grosso.
—Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...
Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga (como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra vêr a Tótó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha, o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um bom dote.
—Seu maganão, tem dedo!—dizia sempre o conego quando estava só com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
—Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.
Era este um dos [grandes] gozos d'Amaro—ouvir gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero «a flôr das devotas». Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella em que se ajanotasse nos domingos, á missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.
Mas Amelia, agora, já não tinha aquella necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor parocho. Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lançára o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo, fazia-se um amanhecimento de razão.—O que era ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome—de todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas. Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para receber com agrado as suas orações, como ramos congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E comprehendia bem que para ella não havia esperança—e que alguma coisa medonha se preparava lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?
Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma idéa do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma coragem colerica; era com um brutal desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu corpo.—Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.
—Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.
—Passei mal a noite... Nervoso.
—Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario? Se tinha feito a oração mental?...
—Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!
—É que é necessario estar bem com Deus, murmurava ella.
Era com effeito a sua preoccupação, agora, que Amaro fosse um bom padre. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influencia do parocho na côrte de Deus: e temia que elle por negligencia de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do céo, para colher os proveitos da sua protecção mystica.
Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». Detestava-as, por as achar frivolas—e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da casa do sineiro...
—Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sêccamente. Fecha a porta, se queres.
Ella obedecia,—e então aos primeiros beijos na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.
E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar emquanto era novo!
E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras—como uma d'estas salas onde tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle d'uma almofada.
Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora, embaraços de dinheiro, porque a snr.a D. Maria da Assumpção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes que vira passar n'um char-á-banc para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes eram herejes.
—São baptisados como nós, observára D. Joaquina Gansoso.
—Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. Não é o nosso rico baptismo, não lhes vale.
O conego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a snr.a D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu canon IV, sessão VII, lá determinára «que aquelle que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, não é o verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...
A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatorio—que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.
Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um embrulhosinho na mão. Era algum presente para Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de côres, um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas provas da affeição do senhor parocho; e era então no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo «trás... trás...»
XX
XXI
XXII
Caminhante, detem-te a contemplar
Estes restos mortaes;
E, se sentires a mágoa a transbordar,
Detem teus ais.
Que Julio Cabral da Silva Maldonado
Mendonça de Gouvêa,
Moço fidalgo, bacharel formado,
Filho da illustre Cêa,
Ex-administrador d'este concelho,
Commendador de Christo,
Foi de virtudes singular espelho,
Caminhante, crê n'isto.
Entre os anjos espera, ó esposo,
A metade do teu coração
Que no mundo ficou, tão sózinha,
Toda entregue ao dever da oração!...
Lembras-te d'esse tempo da delicias,
Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,
Quando tudo eram risos e ventura
E a vida nos corria socegada?
Lembras-te d'essa noite de poesia
Em que a lua brilhava pelos céos,
E nós unindo as almas, ó Amelia,
Erguemos nossa prece para Deus?...
XXIII
Ouves ao longe retumbar na serra
O som do bronze que nos causa horror...
XXIV
De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu então para o casebre—quasi esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criança.
—Ahi está, disse elle. Mas ouça lá. Isto agora é sério. Agora é outra coisa. Olhe que o não quero morto... É para o tratar. O que se passou não vale... É para o criar! é para viver. Vossê tem a sua fortuna... Trate d'elle!...
—Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher apressada.
—Escute... A criança não vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu capote.
—Vai bem, senhor, vai bem.
—Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha de levar o capote! Não quero que morra de frio!
Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o sobre o peito, agasalhando a criança;—e a mulher já enfastiada metteu rapidamente pela estrada.
Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaram n'uma fraqueza de mulher sensivel—e rompeu a chorar.
Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E ahi começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!
O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controversia.
—A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer a consciencia da vida, por lhe impôr uma religião...
O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:
—Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina a pena d'excommunhão contra todo o que disser que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a aceitação da razão.
—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo e outros collegas...
—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade já escandalisado.
—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O Concilio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem presenciado...
O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.
Mas o doutor proseguiu:
—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...
—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados—como significando «anda, anda, enterra bem essa alma no abysmo de fogo e pez»!
—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir dos animaes, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis annos que não sabe ainda o b-a-bá tem uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus systemas planetarios; como appareceu na terra a creação; como se succederam as raças; como passaram as revoluções geologicas do globo; como se formaram as linguas; como se inventou a escripta... Sabe tudo: possue completa e immutavel a regra para dirigir todas as acções e formar todos os juizos; tem mesmo a certeza de todos os mysterios; ainda que seja myope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céos e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espectaculo, o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não ha problema que não decida... E quando a Igreja tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto é: para que?
A indignação tinha emmudecido o abbade.
—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o res scibilis, está no Catecismo: é metter-lh'o na memoria, e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é Deus mesmo.
O abbade pulou.
—Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças á Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais d'alto...
—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...
Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe sempre encolhida de terror.
—Senhor doutor, disse ella no silencio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
—E então? A criança levaram-n'a, não?
—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia.
—Bem, acabou-se...
Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem ámanhã... Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá licença... Que durma, que socegue.
A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não recomeçou: diante d'aquella mãi que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da situação do padre na sociedade...
O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre n'aquella historia infeliz.
O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou contra a preparação e educação ecclesiastica.
—Ahi tem o abbade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas solicitações da natureza, e resistencia aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada existencia n'uma batalha desesperada contra os dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia e a força da Razão!
—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.
—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educação d'um sacerdote? Primò: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes. Secundò: em evitar todo o conhecimento e toda a idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto é, a suppressão forçada do espirito d'indagação e d'exame, portanto de toda a sciencia real e humana...
O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa indignação:
—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?
—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos, o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as producções do espirito humano eram inuteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro movel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação d'aquellas blasphemias; não se conteve, gritou:
—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me cahir em peccado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista...
Lançou-se então com calor n'uma dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos padres...
—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle diz dos estudos dos auctores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a Historia dos mosteiros na meia idade! Era lá que estava a sciencia, a philosophia...
—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! Por philosophia meia duzia de concepções d'um espirito mythologico, em que o mysticismo é posto em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos... Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo, estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus principios e nos seus methodos ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isto! Veja o Syllabus no seu canon terceiro excommungando a Razão... No seu canon decimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:
—A pequena está a choramingar, diz que quer a criança.
—Mau, mau! disse o doutor.
E depois d'um momento:
—Que tal aspecto tem ella? Está córada? Está inquieta?
—Não senhor, está bem. Só a choramingar, a fallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...
—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella adormece...
A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:
—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o affligir-se?
—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abbade!
O abbade tornou a levar as mãos á cabeça.
—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia...
Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fôra a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diario do ministro da justiça, e pedia esmola á porta das capellas. Recrutára-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia. Fôra a depositaria da tradição nacional, do ideal collectivo da patria; e hoje, sem communicação com o pensamento nacional (se é que o ha) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espirito...
—Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se escarlate.
Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta.
—Que temos mais?
—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...
O doutor então immediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.
Então aquelle silencio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudor sacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em pontas de pés, córando na escuridão d'aquella audacia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de latão. E emfim o doutor appareceu.
A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha sem gravata, com o collarinho espedaçado; os botões do collete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.
—Alguma coisa, doutor?
O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada d'um calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta anciosa do abbade:
—Tem convulsões, disse.
O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, muito digno:
—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma christã em agonia, e eu estou aqui.
—Certamente, certamente...
O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relogio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau d'uma coruja pensativa, um movel de castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. O abbade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada devia passar-lhe a visão do peccado: diante dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o halito ardente da aproximação de Satanaz. Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava fervorosamente por ella.
Mas depois pensava no outro que fôra uma metade do seu peccado, e que agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquillamente. E rezava então tambem por elle.
Tinha sobre o Breviario um pequeno [crucifixo]. E contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão! Philosophias, idéas, glorias profanas, gerações e imperios passam: são como os suspiros ephemeros do esforço humano: só ella permanece e permanecerá, a cruz—esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus...
Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janella, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada d'ar fresco.
—Como vai ella? perguntou o abbade.
—Mal, disse o doutor sahindo.
O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgencio:
—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe depois a misericordia...
E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á beira da mesa.
A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.
—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.
—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle somno, que é o somno da morte...
E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:
—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor tem um genio!... Mas sangrar a rapariga n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguem em semelhante momento. Nunca, nunca!
—O senhor doutor é homem de muita sciencia...
—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abbade... Sangrar em convulsões! Até causa horror!...
Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio...
Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu mólho de guardanapos.
O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as tres... O abbade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviario:
—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquelle leito d'agonia...
Foi então Gertrudes que appareceu commovida. O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço para pôr a egoa ao cabriolet.
—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...
O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.
O doutor então entrou com o seu estojo na mão:
—Se quizer, abbade, póde ir, disse.
Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, não se conteve, e n'um tom de medo:
—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?
—Não.
—É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um caso extremo...
—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.
O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do medico racionalista a certeza da eternidade mystica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:
—É n'este instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...
O doutor não respondeu, occupado a afivelar o seu estojo.
O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e fallando com inquietação:
—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos soccorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do medico então póde ser util...
—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a presença da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia da Graça.
Desceu, a vêr se estava prompto o cabriolet.
Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava immovel, com os braços hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura escura—e a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a face rigida.
E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão, o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia:
—Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!
Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o Miserere. O doutor que ficára á porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de pés o corredor, e desceu á rua, onde o moço segurava a egoa atrellada.
—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de somno.
O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento o cabriolet rodava surdamente pela estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o clarão vermelho das suas duas lanternas.
XXV
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.
XXVI
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| [#pág. 81] | ?uz | ... | luz |
| [ #pág. 88] | arcepispo | ... | arcebispo |
| [ #pág. 95] | branços | ... | braços |
| [ #pág. 152] | elle | ... | ella |
| [ #pág. 344] | demolissse | ... | demolisse |
| [ #pág. 357] | religão | ... | religião |
| [ #pág. 357] | Infelimente | ... | Infelizmente |
| [ #pág. 357] | podia ter ter | ... | podia ter |
| [ #pág. 360] | tataruga | ... | tartaruga |
| [ #pág. 372] | patite | ... | patife |
| [ #pág. 396] | exemplicar | ... | exemplificar |
| [ #pág. 397] | cebeça | ... | cabeça |
| [ #pág. 425] | installado-se | ... | installando-se |
| [ #pág. 428] | encondo | ... | encontrado |
| [ #pág. 430] | iria em em | ... | iria em |
| [ #pág. 436] | enconder | ... | esconder |
| [ #pág. 460] | atravessassse | ... | atravessasse |
| [ #pág. 463] | malacia | ... | malicia |
| [ #pág. 478] | grades | ... | grandes |
| [ #pág. 489] | necesario | ... | necessario |
| [ #pág. 489] | viessa | ... | viesse |
| [ #pág. 492] | entercimento | ... | enternecimento |
| [ #pág. 558] | appareeeu | ... | appareceu |
| [ #pág. 634] | cruxifico | ... | crucifixo |
O original não tem capítulo XI, no entanto, a numeração das páginas não apresenta quebra na narração. Optámos por não corrigir a numeração dos capítulos.