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Rita Farinha (Junho 2013)

O PRIMO BAZILIO


PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
Rua da Cancella Velha, 70


EÇA DE QUEIROZ


O PRIMO BAZILIO

EPISODIO DOMESTICO


SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA

LIVRARIA INTERNACIONAL
DE

ERNESTO CHARDRON ERNESTO CHARDRON
Porto Braga

1888


Porto: 1878—Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62

O PRIMO BAZILIO


I

Dio del oro,
Del mondo signor.
La la ra, la ra.

Addio, del passato...

Ai! adeus, acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...

Sobre a encosta da collina
Cresce o lyrio virginal...

A TI

Pharol da Guia, 5 de junho.

Quando scismo á hora do poente
Sobre os rochedos onde brame o mar...

Onde todos os dias ao sol posto
Eu vejo adormecer o mar gigante.

Quem melhor conselheiro e bom amigo
Que o marido que a alma m'escolheu?

II

As neves que na fronte se accumulam
Terminam por cahir no coração...

agatha (cahindo de joelhos nos pés de Julio)

julio

Impurezas do mundo não me roçam
Nem a fimbria da tunica sequer.

Amici, la notte é bella,
La luna va spontari...

Di cà, di là, per la cità
Andiami a transnottari...

III

E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!
A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!
Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.
Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus ais. Luiza achava-a funebre.
Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;—e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a piorrinha! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,—e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.
Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca vira semelhante desproposito! A unica vantagem—dizia ella á tia Victoria—era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!
Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,—trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.
—Como poucos—dizia ella—não vai outro ao Passeio!
E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,—a mostrar, a expôr o pé!

IV

Igual ao mar sombrio
Meu coração profundo...

Tem tempestades, coleras,
Mas perolas no fundo!

Vem! vem
Pousar, ó dôce amada,
Teu peito contra o meu...

Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.

E a negra p'ra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.

V

«Querido Bazilio.

Ouvi dizer que meu avô de vinho,

Era um tal amador...

O rapaz que eu hontem vi
Era moreno e bem feito...

Vejo-o nas nuvens do céo,
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteja
Sinto-o sempre ao pé de mim.

O amor é uma doença
Que costuma andar no ar;
Só d'ir á janella, ás vezes
S'apanha a febre d'amar!

E por mais longe que esteja
Vejo-o sempre ao pé de mim!...

Al pallido chiarore
Del astri d'oro...

Al pallido chiarore
Del astri d'oro...

VI

«Meu adorado Bazilio .

«Meu adorado Bazilio .

Amici, la notte è bella...
La ra la la...

Além d'ámanhã termina a campanha,

P-o-o-or aqui se diz...

Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...

Se-e-rei bem feliz!

VII

—Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?
—E tu, é esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
—Bem, queres uma questão? És como as outras.
—Que outras?
E toda escandalisada:
—Ah! é de mais! Adeus!
Ia sahir.
—Vaes-te, Luiza?
—Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
Elle segurou o fecho da porta rapidamente.
—Fallas serio, Luiza?
—De certo. Estou farta!
—Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.
Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:
—Então, é para sempre? Nunca mais?
Luiza parou, branca. Aquella triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.
As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...
Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.
—Se tu me deixares, morro!
Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.
Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:
—Não me deixas nunca, não?
—Juro-t'o! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:
—Se podesses aqui passar a noite!
Ella disse aterrada, quasi supplicante:
—Oh! não me tentes, não me tentes...
Bazilio suspirou, disse:
—Não, é uma tolice. Vai.
Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso:
—Sabes tu uma cousa?
—O que, meu amor?
—Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!
Elle ficou desolado:
—Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
—Que horas são, filho?
Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:
—Sete!
—Ai, Santo Deus!
Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:
—Que tarde! Jesus! Que tarde!
—E ámanhã, quando?
—Á uma.
—Com certeza?
—Com certeza.
Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:
—Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!
Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
—Que é aquillo?
Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave:
—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!
Era um lunch. Havia sandwichs, um pâté de foie gras, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.
—É brilhante!—disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.
—Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!
Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:
—E tu pensaste em mim, meu amor?
Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada dos seus braços.
Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champagne. Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos.
Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor permanente, e lunchs ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ella não soubesse!
—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo.
—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe champagne por um copo. O copo é bom para o Collares...
Tomou um gole de champagne, e n'um beijo passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma pomba fatigada.
Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter tanto chic, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou reprehensivamente:
—Oh Bazilio!
Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!
Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:
—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.
—Não vaes vêr a D. Felicidade?
—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a ti! só a ti!
—Ao meio dia?
—Ao meio dia!
Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou Juliana:
—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.a D. Leopoldina.
Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:
—A senhora foi p'ra o Porto!
—P'ra o Porto!
Sim. Demorava-se quinze dias.
Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto solitario aterrava-a.
—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!
—Rica, minha senhora!
Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o Hotel Central.
Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.
Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve medo.—Era melhor voltarem—disse.
Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.
Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao pescoço:
—Aonde mora, ó menina?
Agarrou aterrada o braço de Juliana.
A voz repetiu:
—Não se agaste, menina, aonde mora?
—Seu malcriado!—rugiu Juliana.
O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.
Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se cahir na causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o lunch, o champagne bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.
Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao Paraiso. O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e dôce.
E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.
Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
—Que encontro verdadeiramente feliz!...
—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!
—E v. exc.a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!
Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao lado d'ella.
—Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão?
—De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...
—Estive em Cintra, minha querida senhora.—E parando:—Não sabia? O Diario de Noticias especificou-o!
—Mas depois de vir de Cintra?
Elle acudiu:
—Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome não ignora, creio.
Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era a Descripção pitoresca das principaes cidades de portugal e seus mais famosos estabelecimentos.
—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. exc.a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer.
Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco.
—Está hoje muito agradavel!—disse ella.
—Agradabilissimo! Um dia creador!
—Que bom fresco aqui!
Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto.
O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas é que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador.
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou com ar profundo.
Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha tempo, tomaria um trem...
Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
—Grande panorama!—disse o Conselheiro com emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!—exclamou.
Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, minha senhora!—E acrescentou com uma voz respeitosa:—E Deus!
—Que bonito está o rio!—disse Luiza.
Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:
—O Tejo!
Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias, passaros pousavam.
Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão altas...
—Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel como a imprensa os condemnava...
—Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!
—Se fossemos andando...?—lembrou Luiza.
O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço:
—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo deve vir de cima.
Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa, larga-me ao Loreto.
Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já Bazilio esperava!
Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.
—Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!
—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.a m'o permitte. De certo não sou indiscreto?
—Ora essa! De modo nenhum.
Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.
O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo.
—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!—E ia de certo fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja, e sorrindo:
—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.
—Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse zelo!
Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.
Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na cupula, e olhando Luiza de lado:
—Vai indo p'ra as duas.
Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no Paraiso nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia de impaciencias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos jurados.
Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a immoralidade que grassava...
—E além d'isso é de boa educação. V. exc.a ha-de reparar que toda a nobreza cumpre...
Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
—Está um dia apreciavel!
E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou.
—Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.
A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.
Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de foulard a um caixeiro louro e jovial.
—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?
—Sim, verei, sortidas.
Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...
Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou exemplos.
Mas vendo-a calada:
—Ainda soffre?
—Não, estou bem.
—Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não enthusiasmasse com as bellezas d'um Frei Luiz de Sousa! mas a sua saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo...
Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:
—Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, com a voz rapida:
—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para o portal do Vitry.
Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.
Chamou um trem.
—A quanto puder!—exclamou.
A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do Paraiso. Figuras pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa segredou:
—Já sahiu. Ha-de haver meia hora.
Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os stores para se esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu nos vidros [desesperadamente], gritou:
—Ao Hotel Central!
Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!
A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim».
—Bem, para casa, para onde eu disse!
O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse á cabeça!...
Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar!
—Que bicha!—pensou o cocheiro.
Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.
Luiza foi direita ao quarto: o cuco cantava tres horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.
—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza.
Juliana estremeceu áquella colera inesperada.
—Estava agora, minha senhora!
—Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza.
—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este estado!
Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.
—Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...—disse Juliana.
E seus beiços faziam-se brancos.
—Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!
Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:
—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!
E arremessou violentamente a vassoura.
—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa!
Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a voz rouca:
—Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!
—Joanna!—bradou Luiza.
Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:
—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a cabeça!—E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!
Luiza recuou, gritou:
—Que diz vossê?
—Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira, ferozmente.
Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, junto á causeuse, desmaiada.

VIII

Bazilio sahiu do Paraiso muito agitado. As pretensões de Luiza, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao Paraiso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:
—Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto.
Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu buvard com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, caixas de charutos, os seus livros—Mademoiselle Giraud ma femme, La vierge de Mabille, Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme de chambre, Le chien d'arrêt, Manuel du chasseur, numeros do Figaro, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.
E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a «situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor e o bœuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se concluido,—e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!
Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se!
A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um empecilho», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha passar o pé!
A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou—afogueado, de lunetas azues, furioso.
Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia—que o fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial—ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse repugnancia, eram as ternuras de familia!
—E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar!
—Sabes o que me succede?—disse Bazilio, erguendo-se.
—O quê?
—Imagina. O caso mais estupido.
—O marido apanhou-te?
—Não, a criada!
Shocking!—exclamou Reynaldo com nôjo.
Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle:
—E agora?
—Agora é safar-te!
E levantou-se.
—Onde vaes tu?
—Vou ao banho.
Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...
—Não posso!—exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.—Vem tu cá abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!
Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.
Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:
—Então cartinha apanhada nos papeis sujos!
—Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?
—As malas, menino!
E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:
—Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada!
—Oh!—fez Bazilio, impaciente.
—Oh quê?—E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de marmore da tina:—Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se quer safar—isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!
—Meu rico, é uma mulher deliciosa!
O outro encolheu os hombros, descrente.
Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou episodios lascivos.
O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar.
—Bem! estás pelo beiço—resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.
Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição grotesca.
—Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!
—Eu—disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo—se me podesse desembaraçar decentemente...
—Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!
E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.
—Mas tambem—disse Bazilio—deixal-a agora n'aquella atrapalhação com a criada! No fim é minha prima...
Reynaldo agitou os braços, com hilaridade.
—Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de notas na mão.
—É brutal...
—É caro!
Bazilio disse então:
—Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...
Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:
—Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra!
Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse esquecido de frapper o champagne!
Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com effeito a ralhar, a descompôr-se? Que pulhice que era tudo aquillo! Positivamente devia partir.
—Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?
—Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor!
—Vou fazel-o—disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.
—E partimos ámanhã?—gritou Reynaldo.
—Ámanhã.
—Por Madrid?
—Por Madrid.
Salero!—Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com ferradurinhas bordadas.
Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa—desde o desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:
—Está alli o primo da senhora.
Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, alisou o cabello, entrou na sala.
Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:—que apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo «como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:
—Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida!
Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Bazilio acrescentou logo:
—Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!—Encolheu os hombros com desdem.—Mas são interesses d'outros... E aqui está o que eu recebi esta manhã.
Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.
—Lê, peço-te que leias!
—Para que?—fez ella.
Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessaria. Parta já.»
Dobrou o papel, entregou-lh'o.
—E partes, hein?
—É forçoso.
—Quando?
—Esta noite.
Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:
—Bem, adeus.
Bazilio murmurou:
—És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é necessario terminar. Fallaste á mulher?
—Está tudo arranjado—respondeu ella, franzindo a testa.
Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade:
—Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?
Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente:
—Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...
Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:
—Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem lidamos), é natural que haja outras exigencias...—Abriu a carteira, tomou um sobrescripto pequenino e cheio.
Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.
—Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece bom deixar-te algum dinheiro.
—Tu estás doudo?—exclamou ella.
—Mas...
—Tu queres-me dar dinheiro?—A sua voz tremia.
—Mas emfim...
—Adeus!—E ia sahir da sala, indignada.
—Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste...
Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
—Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus...
—Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...
—Bem, então nos veremos...
Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios passivos e inertes.
Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:
—Nem um beijo me queres dar?
Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e recuando:
—Adeus.
Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:
—Adeus!—E da porta, voltando-se, com melancolia:—Escreve-me ao menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.
Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um olhar para as janellas!
O trem rolou. Era o n.º 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.—Elle partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da densa noite, erriçada de perigos!
Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,—encontrou a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu olhar leal, o seu sorriso bom.—Não, não estava no mundo só! Tinha-o a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!—E collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:—Perdôa-me, Jorge, meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!
Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:
—A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.a Juliana?
—Mas onde quer vossê ir saber?—perguntou Luiza.
—Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir saber...
—Pois bem, vá, vá.
Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, terrivelmente...
Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e sangrava dolorosamente!
Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,—e recuou vendo Juliana, amarella, muita alterada.
—A senhora faz favor de me dar uma palavra?
Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, furiosa:
—Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?
—Que é, mulher?—fez Luiza, petrificada.
—Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar em nada?—berrou.
—Oh mulher, pelo amor de Deus!...
A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.
Mas depois de um momento, mais baixo:
—A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram?—E retomada pela sua colera, batendo com o punho furiosamente na mesa:—Raios me partam, se não houver uma desgraça n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!
—Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?—disse Luiza, erguendo-se direita, diante d'ella.
Juliana ficou um momento interdicta.
—A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os papeis!—respondeu, empertigando-se.
—Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil reis?
—Ao inferno!—gritou Juliana.—Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas!
Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.
—Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
—A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para m'as pagarem!—E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação phrenetica:—Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã—e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o que lhe appetece—e a negra? A negra a esfalfar-se!
Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.
—Pois que lhe parece?—exclamava.—Não que eu cômo os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez—e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança.—Quem manda agora, sou eu!
Luiza soluçava baixo.
—A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!
Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços:
—Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca se torna a abrir!—E deu uma palmada na bocca.
Luiza erguera-se devagar, muito branca:
—Pois bem—disse, quasi n'um murmurio—eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Fez-se um silencio—que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o seu tic-tac, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um momento:
—Bem, minha senhora—disse, muito secca.
Voltou as costas, sahiu.
Luiza sentiu-a bater a cancella com força.
—Que expiação, Santo Deus!—exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada de novo em lagrimas.
Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.
—Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe d'ella.
—Bem, traga a lamparina.
E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:
—A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio!
Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de amargura. Quem lhe poderia valer?—Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de Jorge:—Empreste-me seiscentos mil reis.—Para quê, minha senhora? E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.
A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,—a chegada de Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao Paraiso...
Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas do wagon!
E ella alli, na agonia!
Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.
Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.—Aquella alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar!
Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana desappareceria, Jorge voltaria!—E, alvoraçada, via perspectivas de felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.
Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado d'Almada, desejava saber como a senhora estava.
Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo que podesse!
Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E Sebastião era tão amigo d'ella!
Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe désse mau humor, entrou.
Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera tão recto, e a sua barba tão séria!
—Então que é? precisa alguma cousa?—perguntou-lhe elle depois das primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.
Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:
—É por causa de Jorge!
—Aposto que não lhe tem escripto?
—Não.
—Esteve muito tempo sem me escrever tambem.—E rindo:—Mas hoje recebi duas cartas por atacado.
Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estôfo.
—É verdade—dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.—Recebi duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...—E estendendo uma carta a Luiza:—Póde vêr.
Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:
—Perdão, não é essa!
—Não, deixe vêr...
—Não diz nada, são negocios...
—Não, quero vêr!
Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:
—O quê?—A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza irritada.—Realmente!...
—São tolices, são tolices!—murmurava Sebastião, muito vermelho.
Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar:
«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»—Que graça!—murmurou Luiza, furiosa.—«Receio muito que se repita commigo o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...»
Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel.
—São brincadeiras!—balbuciou elle.
Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soirée em minha honra, e em minha honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»—Luiza fez-se escarlate—«e uma queda do diabo...»
—Está doudo!—exclamou ella.—«E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...»
Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:
—Muito bem, diverte-se!—disse com uma voz sibilante.
—São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio...
—Eu!—exclamou ella.—Acho muito natural até!
Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. Felicidade, de Julião...
—Trabalha muito agora para o concurso—disse Sebastião.—Quem não tenho visto é o Conselheiro.
—Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem?
Sebastião encolheu os hombros—e com um ar quasi reprehensivo:
—Ora realmente tomou a serio...
Luiza interrompeu-o:
—Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.
Sebastião teve um alvoroço d'alegria.
—Sim?
—Foi para Paris, não creio que volte.—E depois d'uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, e a carta:—Só em Paris está bem... Estava no ar p'ra partir.—Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido:—Precisava casar, aquelle rapaz.
—P'ra assentar—disse Sebastião.
Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.
Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de familia...
—Teem mais experiencia—disse.
—Mas um fundo leviano—observou ella.
E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço.
—Eu a fallar a verdade—disse então Luiza—estimei que meu primo partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio despedir-se, fiquei surprehendida...
Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas trocadas—mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo:
—Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava».
Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas duvidas, que tivera, tão injustas!...
—E volta?—perguntou.
—Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idéa da carta, de repente:
—Então o Sebastião é confidente de Jorge?
Elle riu:
—Oh minha senhora! pois acredita...
—E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não supporta o Alemtejo...—Mas vendo Sebastião olhar o relogio:—O que, já? É cedo.
Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.
Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê—porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.
Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham trazido outras—e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
Luiza riu, forçadamente.
—Ora, quando se é proprietario e rico!...
—Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
—Eu espero que aquelle vadio se não demore muito...
—Se a estanqueira der licença...
Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que viesse immediatamente, ou que partia ella!»—Entrou no quarto, muito excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da «mais pequena cousa»—separava-se, recolhia-se a um convento, morria de certo, matava-o!...
—Minha senhora—veio dizer Joanna—é um gallego com esta carta. Está á espera da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros d'orthographia, dizia:

«Minha senhora.

«Serva muito obediente

«a criada

«Juliana Couceiro Tavira

Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido
Tem obrigação de amar!

IX

Em labios de coral, perolas finas...

Quel giorno più no vi leggiomi avante,

La bocca me bacciò tutto tremante,

Seu coração é nobre, e a fronte altiva
Revela-lhe da alma a pura essencia.

Vejo-o nas nuvens da tarde,
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteja
Sinto-o sempre ao pé de mim.

X

XII

Não ouses, temerario, erguer teus olhos
Para a mulher de Cesar!

Dies iræ, dies illa
Solvunt sæcula in favilla!...

«Meu caro amigo.

Sua amiga

Leopoldina».

XIII

—Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas vai-te indo para o olho da rua!
Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
—Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo.
—Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana.
Luiza então chamou a rapariga:
—Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã—disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a Carta adorada, com um jubilo estridente.
E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o jantar na mesa».
Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;—e alli jantou, a um canto da jardineira.
Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...
—E isto...
Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento commovido.
—E carruagem, tem?
—Não
—Eu cá mando. Ás oito, hein?
E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.
Nós de dedos bateram á porta do quarto:
—Então a senhora não quer jantar?—disse a voz impaciente de Juliana, de fóra.
—Não.
—Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.
—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente senhora.
Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.
—Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar! Felizmente, não tinha comido quasi nada!
Quiz então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe [d'aquella] noitada de theatro!...—E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.
Uma carruagem parou á porta.
—O trem!—disse, toda risonha.
Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?
—Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida p'ra theatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:
—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou.
O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
—Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!
—Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez Luiza impaciente.
Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, vestida de soirée, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.
—Estão a arder por saber quem somos.
Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.
Jorge correu á portinhola do trem, rindo:
—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio!
Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para as não amarrotar subiu para a almofada.

XV

Al pallido chiarore
Dei astri d'oro.

XVI

«Minha querida Luiza.

«Teu do C.
«Bazilio».

XVII

XVIII

NECROLOGIO
Á MEMORIA DA SNR.a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO

Rosa d'amor, rosa purpurea e bella,

Quem entre os goivos te esfolhou na campa?

Setembro 1876—Setembro 1877.

FIM

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
[#pág. 84]Luzia...Luiza
[#pág. 130]arrebitanto...arrebitando
[#pág. 155]com ha-de d'estar?...como ha-de d'estar?
[#pág. 190]pé dos portas...pé das portas
[#pág. 194]enternciam-no...enterneciam-no
[#pág. 209]Lepoldina...Leopoldina
[#pág. 215]lacas...lascas
[#pág. 263]concialibulo...conciliabulo
[#pág. 267]Luzinha...Luizinha
[#pág. 316]dsesperadamente...desesperadamente
[#pág. 328]eperança...esperança
[#pág. 333]batendo-lho...batendo-lhe
[#pág. 337]de de pé...de pé
[#pág. 404]Leolpodina...Leopoldina
[#pág. 404]prodigiosomente...prodigiosamente
[#pág. 425]Sabastião...Sebastião
[#pág. 427]engmomados...engommados
[#pág. 430]Leolpodina...Leopoldina
[#pág. 456]apparer...apparecer
[#pág. 457]Julão...Julião
[#pág. 457]ao ouvindo...ao ouvido
[#pág. 472]cousá...cousa
[#pág. 477]as palavra...as palavras
[#pág. 482]quizessse...quizesse
[#pág. 494]voltou dizer...voltou a dizer
[#pág. 507]apaixonado...apaixonada
[#pág. 512]d'aqulla...d'aquella
[#pág. 521]susurrro...susurro
[#pág. 558]illsuões...illusões

Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra:
Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original.
A [página 525] surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter a ordem
(após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio).