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[Primeiro Volume]
[Segundo Volume]
Rita Farinha (Agosto 2012)
Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME I
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OBRAS DO MESMO AUCTOR
| O Crime do Padre Amaro, edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol. | 1$200 | |
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| O Mandarim. 2.ª edição. 1 vol. | 500 | |
| A Reliquia. 1 grosso vol. | 1$000 |
OS MAIAS
VOLUME I
OS MAIAS
I
mysterios que jámais poude Lisboa
astuta devassar e só Deus sabe!
II
Vi-te essa noite no explendor das sallas
Com as loiras tranças volteando louca...
III
É noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plumbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, humido véo...
IV
Dites, la jeune belle,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
V
On the Serpentine,
Oh my Caroline...
Oh!
Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
VI
Je suis Mephisto...
Je suis Mephisto...
«E entre duas costellas, no decotte,
Tinha um bouquet de rosas!»
O Alencar d'Alemquer,
Acceso com a primavera...
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Quer menina!
O Alencar d'Alemquer
Quer cacete!
«Abril chegou! Sê minha»
Dizia o vento á rosa.
Abril chegou, sê minha!
VII
—Dizem que não, que sou triste, que tenho spleen...
O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas teclas do piano—e elle baixou a voz para lhe dizer:
—É que a senhora condessa tem um mau regimen. É necessario tratar-se, voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se escapou um clarão de ternura e de triumpho:
—Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar chá comigo, ás cinco horas... Charlie!
O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braço.
Carlos, acompanhando-a abaixo á rua, lamentava a fealdade da sua escada de pedra:
—Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a dar-me a honra de me vir consultar...
Ella gracejou, toda risonha:
—Ah não! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá comsigo...
—Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites nenhuns ás minhas esperanças...
Ella parou, com o pequeno pela mão, olhou para elle, como pasmada, encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.
—Então vae por ahi além, por ahi além...?
—Vou por ahi além, por ahi além, minha senhora!
Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
—Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipoia.
—E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir á egreja da Graça.
—A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?
Ella corou de leve, murmurou:
—Ando fazendo as minhas devoções...
Depois saltou ligeiramente para o coupé—deixando Charlie, que Carlos ergueu nos braços e lhe collocou ao lado, paternalmente.
—Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça—ambos tão doces como caricias.
Carlos subio: e, sem tirar o chapéo, ficou ainda enrolando uma cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
Realmente gostava d'aquella audacia d'ella—ter vindo assim ao consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o vêr, para dar um nó brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relações que elle tão negligentemente deixara cahir e quebrar...
O Ega d'esta vez não phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, tão claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos errantes e faceis—que bella flôr a colher, a respirar, a deitar fóra depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se tinha divertido. E o que elle não queria era achar-se envolvido n'uma paixão ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta annos, de que depois se desembaraçaria difficilmente... Nos braços d'ella o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira curiosidade, começaria o tedio dos beijos que se não desejam, a horrivel massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito irregular, e pícante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fórmas onde sentia ao mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos tentavam-n'o, assim avermelhados, tão crespos e quentes...
Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou o Damaso, n'um coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava parar, com a face á portinhola, vermelho e radiante:
—Não tenho podido lá ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mão, apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho andado n'um turbilhão!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó Calção!
A parelha abalou; elle ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão, gritou no rumor da rua:
—Um romance divino, chic a valer!
Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que acabava de «bater» o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o cachimbo:
—E noticias do nosso Damaso? Já se esclareceu esse lamentavel desapparecimento?...
Carlos então contou como o encontrára, afogueado e triumphante, atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a noticia de um romance divino!
—Bem sei, disse o Taveira.
—Como sabes?... exclamou Carlos.
Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
—Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
—Exactamente, uma cadelinha escoceza, um griffon côr de prata... Quem são?
—E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?
—Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente é?
—Uma gente brazileira, penso eu.
Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia apenas duas semanas que no terraço o Damaso, de punhos fechados, bramara contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros pormenores ao Taveira—mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona onde se estirára, e quiz saber a opinião de Carlos sobre o grande acontecimento d'essa manhã na Gazeta Illustrada.—Na Gazeta Illustrada?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.
—Então não lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! Cá ha a Gazeta? Manda buscar a Gazeta!
Taveira puxou o cordão da campainha;—e quando o escudeiro trouxe a Gazeta, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.
—Deixa-lhe vêr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.
—Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal atraz das costas.
Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo á festa proxima, ao grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado—J. da E.—as iniciaes de João da Ega!
—Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do bilhar.
—É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.
O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...
—Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. É intimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongea o marido. Está na logica cá da terra... Você verá que successo isto vae ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!
Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir côr de rosa de madame Cohen: «respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle côr de rosa exhalasse de si o aroma que a rosa tem»!
—Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...
—Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que seja uma extraordinaria falta de senso moral.
—Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto d'um sophá, para deixar cahir ás syilabas esta pesada opinião.
O marquez investiu com elle.
—Que entende você d'isso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba mais: é de finorio!
O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao outro canto do sophá.
E então o marquez, de pé e bracejando, appellou para Carlos, e quiz saber o que é que Craft em principio entendia por senso moral.
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o braço do Taveira, levou-o para o corredor.
—Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que lado iam?
—Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ás duas horas... Estou convencido que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada n'um coupé com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a mulher é divina! Que toilette, que ar, que chic!.. É uma Venus, menino!... Como conheceria elle aquillo?...
—Em Bordeus, n'um paquete, não sei onde!
—Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado! Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A debruçar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista...
—Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.
—Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher civilisada e decente, e é elle que a conhece, e é elle que vae com ella para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos á partidinha de dominó.
Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete—e havia agora alli, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez. Porque a paixão do Taveira era bater o marquez.
Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o arrazoado com que estava acabrunhando o Craft—que do fundo da poltrona, de cachimbo na mão e com um ar de somno, respondia por monossyllabos. Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definição de senso moral. Já tinha fallado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro Finorio; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da policia. Tinha o amigo Craft visto já alguem com remorsos? Não, a não ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhões...
—Acredite você uma cousa, Craft—terminou elle por dizer, cedendo ao Taveira que o puchava para a meza—isto de consciencia é uma questão de educação. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não metter os dedos no nariz. Questão d'educação... No resto da gente é apenas medo da cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as pedras—quando á porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e vinha acabar no Ramalhete a sua soirée, em familia...
Então o marquez que o não via desde o famoso ataque de intestinos, abandonou o dominó, correu a abraçal-o ruidosamente—e sem o deixar sequer sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das suas bellas canções filandezas, uma só, d'aquellas que lhe faziam tão bem á alma!...
—Só a Ballada, Steinbroken... Eu tambem não me posso demorar, que tenho aqui a partida á espera. Só a Ballada!... Vá, salta lá para dentro para o piano, Cruges...
O diplomata sorria, dizia-se cançado, tendo já feito musica deliciosa no Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir áquelle modo folgazão do marquez—e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do sophá. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os suspiros do piano, a emballadora melancolia da Ballada, com a sua lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos n'essa noite não se interessava, jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da Ballada: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra, estava aberto todo o anno...
—A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. Anda, joga!
Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.
—Dominó! gritou Taveira.
E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos que Carlos perdia.
Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.
—Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, deixe-me você dar aqui uma sova n'este ladrão. Depois jogamos de tres... Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d'esse dôble-seis, miseravel...
Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decisão, atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só, entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava para si, melancolicamente.
—Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra?
O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o deixou fallar.
—Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá estou á porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que talvez passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?... E não digas nada lá dentro.
Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o braço descahido ao longo da poltrona, dormitava, beatificamente.
VIII
Quantos luares eu lá vi!
Que doces manhãs d'abril!
E os ais que soltei alli
Não foram sete, mas mil!
Vieste! Cingi-te ao peito.
Em redor que noite escura!
Não tinha rendas o leito,
Nem tinha lavores na barra
Que era só a rocha dura...
Muito ao longe uma guitarra
Gemia vagos harpejos...
(Vê tu que não me esqueceu)...
E a rocha dura aqueceu
Ao calor dos nossos beijos!
Era o jardim d'uma vivenda antiga,
Sem arrebiques d'arte ou flôres de luxo;
Ruas singellas d'alfazema e buxo,
Cravos, roseiras...
IX
Alerta, marinari,
Il vento cangia...
X
Vladimiro! Vladimiro! foram de novo os gritos isolados, aqui, além.
Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo um ar de rajada.
—Minhoto! Minhoto!
—Vladimiro! Vladimiro!
Chegavam... De repente o jockey inglez de Vladimiro, todo em fogo, levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso directo lançou-o além da meta, duas cabeças adiante de Minhoto, todo coberto d'espuma.
Então em volta de Carlos foi uma desconsolação, um longo murmurio de lassidão. Todos perdiam; elle apanhava a poule, ganhava as apostas, empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro da poule, empallideceu ao separar-se do lenço cheio de prata: e de todos os lados mãosinhas calçadas de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que elle recolhia, rindo, no chapéo.
—Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
—Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapéo.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era o secretario de Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia.
—Quanto ganha você? exclamou Telles da Gama, assombrado.
Carlos não sabia. No fundo do chapéo já reluzia ouro. Telles contou, com o olho brilhante.
—Você ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com respeito.
Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto. Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapéos, davam ainda hurrahs. Mas uma indifferença, um tedio lento, ia pesando outra vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, tocava cousas plangentes da Norma.
Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idéa de descobrir o Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade melancolica, no fundo das caleches, de mãos no regaço. Aqui e além um dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria estavam as duas hespanholas do Eusebiosi Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idéa de descobrir o Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade melancolica, no fundo das caleches, de mãos no regaço. Aqui e além um dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam para um char-à-bancs a quatro attrelado á Daumont onde, entre uma familia triste, uma ama de lenço de lavradeira dava de mamar a uma creança cheia de rendas. Dous garotos esganiçados passeavam bilhas d'agua fresca.
Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso—quando deu justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado, flamante, na sua famosa sobrecasaca branca.
—Onde diabo tens tu estado, creatura?
O Damaso agarrou-o pelo braço, alçou-se em bicos de pés, para lhe contar ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe que tinha mulher!
—Ah, Sardanapalo!...
—Faz-se pela vida... Volta cá acima á tribuna, anda. Eu ainda hoje não pude cavaquear com o high-life!... Mas estou furioso, sabes? Implicaram com o meu veo azul. Isto é um paiz de bestas! Logo troça, e olhe não creste a pelle, e onde mora, ó catitinha? e chalaça... Uma canalha! Tive de tirar o veo ... Mas já resolvi. Para as outras corridas venho nú. Palavra, venho nú! Isto é a vergonha da civilisação, esta terra! Não vens d'ahi? Então até já.
Carlos deteve-o.
—Escuta lá homem, tenho que te dizer... Então, essa visita aos Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... Não vens, não mandas... O Craft á espera... Emfim um procedimento de selvagem.
Damaso atirou os braços ao ar. Então Carlos não sabia? Havia grandes novidades! Elle não voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque o Carlos Gomes não podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. Já partirá mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle chega lá, para fazer o convite, e s. ex.a declara-lhe que sente muito, mas que parte no dia seguinte para o Rio... E já de mala feita, já alugada uma casa para a mulher ficar aqui á espera tres mezes, já a passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes.
—E lá partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. Lá partiu, e ella já está installada. Até já antes de hontem a fui visitar, mas não estava em casa... Sabes do que tenho medo? É que ella, n'estes primeiros tempos, por causa da visinhança, como está só, não queira que eu lá vá muito... Que te parece?
—Talvez... E onde mora ella?
Em quatro palavras, Damaso explicou a installação de madame. Era muito engraçado, morava no predio do Cruges! A mamã Cruges, havia já annos, alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera lá o Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes tinha tido dedo...
—E para mim, muito commodo, ali ao pé do Gremio... Então não voltas cá acima, a cavaquear com o femeaço? Até logo... Está hoje chic a valer a Gouvarinho! E está a pedir homem! Good-bye.
Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, não cessava de o chamar com o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle não obedeceu logo, parado ao pé dos degraus da tribuna, accendendo vagamente uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia só em Lisboa, vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que já a conhecia, sentia-se muito perto d'ella—podendo assim a todo o momento entrar os hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua imaginação transluziam já possibilidades d'um encontro, alguma palavra trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus destinos se começariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentação pueril de ir lá, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da porta d'ella—e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer da sua vida.
O olhar da condessa não o deixava. Elle approximou-se, emfim, contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns passos com elle pela relva, recomeçou a fallar na ida a Santarem. Carlos, então, muito seccamente, declarou toda essa invenção insensata.
—Porque?...
Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo... Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso.
Ella mordia o beiço, com todo o sangue na face. E não via alli bom senso. Via só frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem...
—Mas não é isso!...
Então que era? Tinha medo? Não havia mais perigo do que nas idas a casa da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra côr de cabello, toda a sorte de véos, disfarçada n'um grande water-proof. Chegavam de noite, entravam para o quarto, d'onde não sahiam mais, servidos apenas pela escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o seductor, com a sua vehemencia de paixão activa, tentando-o, soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor, prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo; e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente á curta chamma que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo mil cousas, disse, um pouco pallido:
—Pois bem, perfeitamente... Ámanhã á noite, na estação.
N'esse momento, em redor, romperam exclamações de troça: era um cavallo solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo só—quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, arquejando, n'um esforço doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, já o outro gentleman-rider voltara da meta, a passo, pachorrentamente,—e estava conversando com os amigos, encostado á corda da pista.
Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim, grotescamente.
Ainda havia o Premio de Consolação—mas agora desapparecera todo o interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a pesagem, cançadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais cadeiras: aqui e além, sobre a relva pisada, formavam-se grupos alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapéo: e palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz. Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucção. A horrivel Craben, entre outros diplomatas e moços de binoculo a tiracolo, dava do fundo grosso do papo, opiniões sobre Daudet, que elle achava très agreable. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as corridas, tomava um tom de soirée, no ar claro e fresco da collina, com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando uma valsa de Strauss.
Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o Darque, com outros, bebendo mais champagne.
—Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton. Abandono torpemente. Você vá para o Ramalhete como poder...
—Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha já a gravata toda desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica por minha conta... É necessario recibo? Á saude do Craft, inglez cá dos meus... Hurrah!
—Hurrah! Hip, hip, hurrah!
D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbação deliciosa e singular, com aquella certeza de que ella estava só na casa do Cruges: o ultimo olhar que ella lhe déra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava-lhe a alma para o azul.
Quando parou diante do portão—alguem, por dentro das janellas d'ella, ía correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia já uma sombra de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no começo de escuridão. No patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou olhando, com uma devoção ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordão da campainha. De dentro não vinha um rumor:—e este pesado silencio, juntando-se ao movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas que alli viviam de solidão e de impenetrabilidade. Uma desconsolação passou-lhe na alma. Se ella agora, só, sem o marido, começasse uma vida reclusa e solitaria? Se elle não tornasse mais a encontrar os seus olhos?
Foi subindo de vagar até ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha sahido.
Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton até ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha uma estrella.
Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se justamente apeando de uma calecha de praça. Um momento ficaram alli á porta, em quanto Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. No Premio de Consolação, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pé da meta, sem se magoar: e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia na sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com ferocidade.
—Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas pelo velho principe Shakespereano de que tudo é bom quanto acaba bem.
—Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um bello ponto final.
No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta na mão para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. ex.a chegar.
Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha, teve um movimento tão vivo, de tão bella surpreza, illuminando-se-lhe tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:
—Aventura? Herança?...
Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
—Um bilhete apenas, um doente...
Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas começava assim:—«Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia, e roga-lhe o obsequio...»—depois, em duas breves palavras,
pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possivel, uma pessoa de familia, que se achava incommodada.
—Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e meia, hein?
—Sim, o jantar...—respondeu Carlos, sem saber o quê, banhado todo n'um sorriso, como em extase.
Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapéo, leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel.
Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando elle passara defronte da sua porta, já ella a escrevera, já o seu pensamento se demorara n'elle—quando mais não fosse senão ao traçar as lettras simples do seu nome. Não era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella não diria tão friamente «uma pessoa de familia.» Era talvez o esplendido preto de carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abençoada fosse ella para sempre, que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma pessoa n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos corredores interiores d'aquella casa—que havia apenas instantes sentira tão fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adoradobilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus—tomava uma significação profunda, perturbadora...
Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar
o distante amor que os seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os d'ella—então poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico qualquer, um estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella abria-lhe a sua porta...—E o que sentia a esta idéa era uma gratidão ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés, ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem querer mais nada, sem pedir mais nada...
Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, correcto—achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na cabeça passeando o quarto, n'esta agitação radiante.
—Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu resplandecente collarinho. Você flameja!... Você parece que tem uma auréola na nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
—A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede é, em definitivo, bom ou mau.
—Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do espelho a retocar com mais correcção o nó da gravata branca.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME II
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OS MAIAS
VOLUME II
OS MAIAS
I
Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres,—e que aquellas que não pertenciam ás puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de whist. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges—que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da visinha...
—A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de grande dame».
Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
—E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
—Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando Niniche que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:
—É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi escandalisada.
—Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,—e voltando-se logo para Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
—Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... Eu estava mais longe...
Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle tinha chegado.
—Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.a vê—e mostrou o seu luto pesado—acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
—E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez risonho:
—Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da Niniche. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar tambem Niniche sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
—C'est moi, Niniche! dizia Damaso, recuando a cadeira. C'est moi, ami... Alors, Niniche...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente Niniche. E, aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e com rancor.
—Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
—Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
—Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades novas de Mademoiselle Niniche. Alli estava nos braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
—Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.a D. Maria Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...
—Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...
—Eram vesperas de partida, disse ella.
—Sim, bem sei, o marido de v. exc.a... E como vai o snr. Castro Gomes? V. exc.a já recebeu noticias?
—Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
—Pois v. exc.a—continuou elle, cheio subitamente de loquacidade—perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. exc.a estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
—Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
—Mas então?
—Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...
—Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!
Repetiu ainda que as corridas eram chics. Depois não achou mais nada:—e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...
—Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc.a, não tolero...
Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a snr.a D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle Rosa.
—Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que tem chic... Pergunte v. exc.a ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delicia, até conhecido lá fóra?
—Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousára Niniche no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.
—Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para elle. Até ámanhã, então!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
—Au revoir, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de apparecer!...
Carlos desceu as escadas, furioso.
Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito da própria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o atracão». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse um ultraje? A supposição era insensata, talvez—mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma vidraça—viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó d'aquelle grutesco...
N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava, enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa manhã,—quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:
—Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, disse, com uma dôce reprehensão paternal:
—Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre as lavradeiras de Penafiel!
—Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber... Como a conheceste tu?
Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou, n'um tom lento e solemne de recitativo:
—Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão do seu semblante...
Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.
—Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
—Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um photographo?
—Então quem está doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza—emquanto o Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.
—E como soube ella onde tu moravas?
—Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas aulas de instrucção primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos bolsos.
—Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...
—Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...
Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...
E acrescentou logo, accendendo o charuto:
—Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
—Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.
Damaso olhou-o, esgazeado:
—Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
—Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.
E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...
Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de revez.
—Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!
—Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!
Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
—Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no sabbado.
Foi um espanto para o Damaso.
—Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois dias de Southampton... Jógo eu?
Jogou, falhou a carambola.
—Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma toilette ingleza com coisas brancas, coisas côr de rosa... Chic a valer, parecia um moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos escandalo!
II
—Isso era um encanto!
Ella tinha dito—«era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperança, e não lh'a realisar com fervor.
O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos, erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar immediatamente negociações com o Craft, comprar-lhe as collecções, alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença, severos e nobres!
—Muito assucar? perguntou ella.
—Não... Perfeitamente, basta.
Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges!
—E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda.
—Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem...
Explicou-lhe detalhadamente o sitio,—acrescentando, com os olhos n'ella, e com um sorriso inquieto:
—Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr?
Ella pareceu surprehendida:
—Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não tem quasi nada que fazer?...
Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá—era como se a casa, os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas abrindo sobre o rio...
Ella escutava-o, encantada:
—Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta?
Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...
—Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei de eu agradecer?...
Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ella retinha no seu coração.
Elle murmurou:
—Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.
Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
—Não diga isso...
—E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!
Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:—e assim ficaram, mudos, cheios d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos inquietas e tremulas:
—Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...
Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os dedos, devagar, murmurando apenas:
—Meu amor! meu amor! meu amor!
Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação:
—Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...
Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.
—Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que um amor como o nosso não póde viver nas condições em que vivem outros amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe pedisse para ser minha esposa diante de Deus...
Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:
—Sempre que pensava em si, era já com esta esperança d'uma existencia toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... Levamos Rosa, está claro, sei que não se póde separar d'ella... E assim viveriamos sós, todos tres, n'um encanto!
—Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.
Carlos erguera-se.
—E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso amor?
Maria não respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera. E pouco a pouco uma idéa parecia surgir n'ella, inesperada e perturbadora, revolvendo todo o seu sêr. Os seus olhos alargavam-se, anciosos e refulgentes.
Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do chá: e durante um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sêres, sacudidos por um ardente vendaval de paixão, a caseira passagem d'um criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente, refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a vidraça. Carlos foi sentar-se no sofá, a folhear ao acaso uma Illustração, que lhe tremia nas mãos. E não pensava em nada, nem sabia onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com ella, dizia ceremoniosamente «minha cara senhora»: depois houvera um olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornára-se o cuidado supremo da sua vida, e a esposa secreta do seu coração.
—V. exc.a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.
Maria Eduarda respondeu sem se voltar:
—Não.
O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella então atravessou a sala, veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixão, tão prompta a apoderar-se de todo o seu sêr, e murmurou, quasi triste:
—Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me tão pouco, para irmos assim ambos, quebrando por tudo, crear um destino que é irreparavel...
Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
—O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na vida!
Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um longo suspiro.
—Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria dizer, mas não importa... É melhor assim!...
E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica solução digna, séria... E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...
E ella repetia, mais firme agora, já decidida, e como se aquella resolução a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, penetrando-a toda e para sempre:
—Pois seja assim! É melhor assim!
Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
—Dize-me ao menos que és feliz, murmurou Carlos.
Ella lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:
—Adeus, deixa-me só, vai.
Elle tomou o chapéo, e sahiu.
No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete, passeava na quinta antes d'almoço—quando appareceu Carlos. Apertaram as mãos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o horisonte, perguntou rindo:
—Você quer-me vender tudo isto, Craft?
O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibeiras:
—A la disposicion de ustêd...
E alli mesmo concluiram a negociação, passeando n'uma ruasinha de buxo por entre os geranios em flôr.
Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas mil e quinhentas libras, pagas em prestações: só reservava algumas raras peças do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecção que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos não tinha no Ramalhete lugar para este vasto bric-à-brac, Craft alugava-lhe por um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.
Depois foram almoçar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza que fazia, só para offerecer uma residencia de verão, por dois curtos mezes—a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, já com olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de gosto.
Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo «a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma cabra, e flôres, e arvores para se balouçar...
—Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.
—D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila.
Maria Eduarda appareceu, com Niniche ao collo.
—Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade? Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá?
Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...
Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.
—Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...
—Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar.
—Sómente, é necessario saber o que esse paraiso me vae custar...
Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro—e que ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a quinta: o avô e elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de verão, uma residencia tão graciosa, e tão confortavel...
—Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de silencio... Miss Sarah está á tua espera.
Depois, olhando para Carlos, muito séria:
—De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não tinha feito essa despeza...
—Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos criados, etc....
E acrescentou, rindo:
—Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...
Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
—Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para que eu lá me installasse...
Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E isto inquietou-o—o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.
—Não approva então o que fiz? Seja franca...
—Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto vem de si? Mas...
Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:
—Não ha mas! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, se fosse possivel que a nossa affeição se passasse fóra do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não póde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisiveis. Nós não somos deuses, felizmente...
Ella sorriu.
—Quantas palavras para converter uma convertida!
E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.
Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte Santa-Olavia e o Ramalhete.»
Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario»,—despeitado por essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo, outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado, já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela casa da titi...
Mas do outro segredo não sabia nada—e considerava-se ultrajado. Via todas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»; via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente amado... E não sabia nada.
Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um pedaço do paraiso...
Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeava com as mãos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente, farto d'aquelles louvores eternos á casinhola do Craft.
—Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo archeologico... Jesus! o que eu odeio bric-à-brac!
Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como reflectindo:
—Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar remobilar, tornar aquillo mais habitavel.
Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.
—Habitavel? Vaes ter hospedes?
—Vou alugar.
—Vaes alugar! A quem?
E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse sarcasticamente:
—Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega—e quasi sentia um remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar d'ella ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
—Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos.
E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o bom Ega teve esta pergunta chôcha:
—Então estás decidido a safar-te com ella?
—A safar-me, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!
Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno prodigioso, e murmurou:
—É d'arromba!
Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez, Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam nunca uma d'essas situações atrozes e reles em que a mulher é do amante e do marido, a horas diversas... Só lhes restava uma solução digna, decente, séria—fugir.
Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:
—Para o marido é que não é talvez divertido perder assim, de uma vez, a mulher, a filha, e a cadellinha...
Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle já pensára n'isso... E não sentia remorsos—mesmo quando os podesse haver no absoluto egoismo da paixão... Elle não conhecia intimamente Castro Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes não era um esposo a sério: era um dandy, um futil, um gommeux, um homem de sport e de cocottes... Casára com uma mulher bella, saciára a paixão, e recomeçára a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar para elle, para a sua toilette, para os seus modos—e comprehendia-se logo a trivialidade d'aquelle caracter...
—Que tal é, como homem? perguntou Ega.
—Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um rastaquouère, o verdadeiro typosinho do Café de la Paix... É possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na vaidade ferida... Mas é um coração que se ha de consolar facilmente nas Folies Bergères.
Ega não dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel nas Folies Bergères, póde não se importar muito com sua mulher, mas póde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra idéa, acrescentou:
—E teu avô?
Carlos encolheu os hombros:
—O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse ponto, não estou decidido a fazer sacrificios.
Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas coisas vehementes:
—É d'arromba!
III
Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta,
Emquanto o fumo dos casaes se eleva
E ao lado o burro, pensativo, pasta.
IV
—Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sério! O Palma é que lá tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha agora um jornal, A Corneta do Diabo.
—A Corneta...?
—Sim, do Diabo, disse o Eusebiosinho. É um jornal de pilherias, de picuinhas... Elle já existia, chamava-se o Apito; mas agora passou para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais chalaça...
—Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle...
Craft reappareceu, enxugando a cabeça. E emquanto se vestia, fallou de uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia. Como já não tinha a Toca, e a sua casa ao pé do Porto necessitava longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em communicação espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se adiantasse até Bagdad, a vêr o Euphrates, e os sitios de Babylonia...
—Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, Ninive e Babylonia... Que diabo, você gosta d'isso? Eu tenho horror a raças e a civilisações defuntas... Não me interessa senão a Vida.
—É que você é um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e de Babylonia, quer vir você almoçar ao Bragança? Eu tenho de lá encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua do Ouro, que quero trepar um instante á caverna do meu procurador... E a caminho, que é meio dia!
Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft travou do braço de Carlos, e disse-lhe que as coisas sérias a respeito de Santa Olavia—era o visivel, profundo desgosto do avô por elle não ter lá apparecido.
—Seu avô não me disse nada, mas eu sei que elle está muitissimo magoado com você. Não ha desculpa, são umas horas de viagem... Você sabe como elle o adora... Que diabo! Est modus in rebus.
—Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter lá ido... Que quer você, amigo?... Emfim acabou-se, é necessario fazer um esforço!... Talvez parta para a semana com o Ega.
—Sim, homem, dê-lhe esse alegrão... Esteja lá umas semanas...
—Est modus in rebus. Hei de vêr se lá estou uns dias.
A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava, havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta—quando de repente avistou Melanie, a sahir o portão do Monte-Pio, com uma matrona gorda, de chapéo rôxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; balbuciou logo que Madame lhe déra licença para vir a Lisboa, e ella andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para dentro, á pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do Paço.
Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltára, olhando tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do Torto, dos Olivaes, onde elle ás vezes costumava vir «janotar a Lisboa».
—Era alguem lá da Toca? perguntou.
Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraço de Melanie.
E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no rumor da rua:
—Ouça lá! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?
O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto, rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de Carlos nos Olivaes...
—Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era tão pouco curioso que nem mesmo quizera lêr nunca a Historia Romana... Em todo o caso você deve ir a Santa Olavia.
Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que devia ao avô. Ella, muito séria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o amavam.
—Mas ouve, querido, não é por muito tempo, não?
—Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago até o avô. Não está lá a fazer nada, e eu não estou para a massada de voltar lá...
Maria então lançou-lhe os braços ao pescoço, e baixo, timidamente, confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vêr o Ramalhete! Queria visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas vezes elle pensara n'ella, e se desesperára, sentindo-a distante e inaccessivel...
—Dize, queres? Mas é necessario que seja antes de vir teu avô. Queres?
—Acho um encanto! Ha só um perigo. É eu não te deixar sahir mais e ficar a devorar-te na minha caverna.
—Prouvera a Deus!
Combinaram então que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida de Carlos para Santa Olavia. Á noitinha levava-o no coupé a Santa Apolonia; depois seguia para os Olivaes.
Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coração batia com a deliciosa perturbação d'um primeiro encontro, quando sentiu parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roçarem o velludo côr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doçura d'um primeiro beijo!
Ella foi logo ao toucador tirar o chapéo, dar um geito ao cabello. Elle não cessava de a beijar; abraçava-a pela cinta; e com os rostos juntos sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, até á alcova de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos, abriu os cortinados de sêda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada, outras ainda. Ella mergulhou as mãos, com um sorriso triste, na profusão d'aquellas recordações... Carlos, rindo, pediu-lhe que não olhasse «esses enganos do seu coração».
Porque não? dizia Maria, séria. Sabia bem que elle não descera das nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amára as outras como a sabia amar a ella.
—Até é uma profanação fallar em amorquando se trata d'essas coisas d'acaso, murmurou Carlos. São quartos de estalagem onde se dorme uma vez...
No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?
—Não, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios... Gente tranquilla, que vivia no campo...
—Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de Vienna!
Carlos tirou-lhe a photographia da mão. Para que haviam de fallar d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e elle tinha-a alli abraçada sobre o seu coração.
Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. Ella gostou sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de prelado, a sua feição severa de paz estudiosa.
—Não sei porque, murmurou dando um olhar lento ás estantes pesadas e ao Christo na cruz, não sei porque, mas teu avô faz-me medo!
Carlos riu. Que tonteria! O avô se a conhecesse, fazia-lhe logo a côrte rasgadamente... O avô era um santo! E um lindo velho!
—Teve paixões?
—Não sei, talvez... Mas creio que o avô foi sempre um puritano.
Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua cascatasinha chorando n'um rythmo dôce. Sentaram-se um instante sob o velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos pareceu a Maria mais dôce que o de todas as outras aves que ouvira; depois arranjou um ramo para levar como reliquia.
Mesmo em cabello foram vêr defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou de boné na mão, embasbacado para aquella senhora tão linda, tão loira, a primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez uma festa grata e mais longa á Tunante, que tantas vezes levára Carlos á rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graças incomparaveis d'uma esposa perfeita.
Recolheram pela escada particular de Carlos—que Maria achava «mysteriosa» com aquelles velludos grossos côr de cereja, forrando-a como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca alli passára outro vestido—a não ser o do Ega, uma vez, mascarado de varina.
Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: mas quando voltou encontrou-a a um canto do sofá, tão descahida, tão desanimada, que lhe arrebatou as mãos, cheio d'inquietação.
—Que tens, amor? Estás doente?
Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.
Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua paz, os teus amigos... É uma tristeza, tenho remorsos!
Carlos ajoelhára ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se ella então valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes usados?...
—O que eu tenho pena é de te sacrificar tão pouco, minha querida Maria, quando tu sacrificas tanto!
Ella encolheu os hombros, amargamente.
—Eu!
Passou-lhe as mãos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu seio—e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coração, calmando-lhe as incertezas e as duvidas:
—Não, com effeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais vale! Se elle é verdadeiro, se é profundo, tudo mais é vão, nada mais importa...
A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraçada para o leito—onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.
Ás cinco horas pensaram em jantar. A mesa fôra posta n'uma saleta que Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim côr de perola e botão d'ouro. Mas não estava ainda arranjada; as paredes conservavam o seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de seu pai—uma teia banal, representando um moço pallido, de grandes olhos, com luvas de camurça amarella e um chicote na mão.
Era Baptista que os servia, já com um fato claro de viagem. A mesa, redonda e pequena, parecia uma cesta de flôres; o champagne gelava dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dôce tinha as iniciaes de Maria.
Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar aquella face descórada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos.
—Quem é? perguntou.
—É meu pai.
Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. Não achava que Carlos se parecesse com elle. E voltando-se muito séria, emquanto Carlos desarrolhava com veneração uma garrafa de velho Chambertin:
—Sabes tu com quem te pareces ás vezes?... É extraordinario, mas é verdade. Pareces-te com minha mãi!
Carlos riu, encantado d'uma parecença que os aproximava mais, e que o lisonjeava.
—Tens razão, disse ella, que a mamã era formosa... Pois é verdade, ha um não sei quê na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes...
Baptista entrava com uma terrina de louça do Japão. E Carlos, alegremente, annunciou um jantar á portugueza. Mr. Antoine, o chef francez, fôra com o avô. Ficára a Michaela, outra cozinheira de casa, que elle achava magnifica, e que conservava a tradição da antiga cozinha freiratica do tempo do snr. D. João V.
—Assim, para começar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de gallinha, como só se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em noites de noivado mystico...
E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles apertavam-se rapidamente a mão por cima das flôres. Nunca Carlos a achára tão linda, tão perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos portuguezes á moda de D. João V, servidos pelo Baptista de jaquetão.
—Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como implorando a sua approvação.
—Não, deves ir... é necessario não sermos egoistas... Sómente não te descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e está longe, como dizia a mamã.
Então Carlos gracejou de novo sobre a sua parecença com a mãi d'ella. E baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:
—É curioso não m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de tua mãi...
Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallára da mamã, porque nunca viera a proposito...
—De resto não havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A mamã era uma senhora da ilha da Madeira, não tinha fortuna, casou...
—Casou em Paris?
—Não, casou na Madeira com um austriaco que fôra lá acompanhar um irmão tisico... Era um homem muito distincto, viu a mamã, que era lindíssima, gostaram um do outro, et voilà...
Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza de frango.
—Mas então, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu és tambem austriaca... És talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que tem um tão grande encanto...
Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca conhecera o pai, vivera sempre com a mamã, fallára sempre portuguez, considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo allemão...
—Não tiveste irmãos?
—Sim, tive, uma irmãsinha que morreu em pequena... Mas não me lembra. Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda!
N'esse momento em baixo, na calçada, uma carruagem, a trote largo, estacou. Carlos, surprehendido, correu á janella com o guardanapo na mão.
—É o Ega! exclamou. É aquelle velhaco que chega de Cintra!
Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pé, ambos se olharam, hesitando... Mas o Ega era como um irmão de Carlos. Elle esperava só que o Ega recolhesse de Cintra para o levar á Toca. Melhor seria que o encontro se désse alli, natural, franco e simples...
—Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou a jantar, que entre para aqui.
Maria sentára-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do cabello, arranjado á pressa, um pouco desmanchado.
A porta abriu-se,—e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéo branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mão.
—Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega.
E ao Ega disse simplesmente:
—Maria Eduarda.
Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mão que Maria Eduarda lhe estendia, córada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Cintra rolou, esmagando-se, sobre as flôres do tapete. Então todo o embaraço findou através d'uma risada alegre—emquanto o Ega, desolado, abria os braços sobre as ruinas do seu dôce.
—Tu já jantaste? perguntou Carlos.
Não, não tinha jantado. E via já alli uns ovos molles nacionaes, que o encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calão, como as comedias do Gymnasio!
—Então avança! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa Olavia?
Está claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas não podia jantar ainda, assim coberto do pó da estrada, e com um jaquetão de bucolica...
—Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo, que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...
O Baptista servira o café. E a carruagem da senhora, que os devia levar a Santa Apolonia, esperava já á porta com a maleta. Mas Ega agora queria conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flôres e como as aves...
—Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.
—Não, minha senhora, só o tempo de cumprir o meu dever de cidadão, subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra começa a ser interessante para mim, agora que não está ninguem... Cintra, de verão, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de sebo.
Mas Baptista offerecia a Carlos a chartreuse—dizendo que s. exc.a não se devia demorar se não tencionava perder o comboio, de proposito. Maria ergueu-se logo para ir dentro pôr o chapéo. E os dois amigos, sós, ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto.
—Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.
—Tres ou quatro dias. E tu não voltes para Cintra antes que eu chegue, precisamos communicar... Que diabo tens tu feito lá?
O outro encolheu os hombros.
—Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando «que lindo que isto é!» etc.
Depois, debruçado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:
—De resto, nada... O Damaso lá está! Sempre com a Cohen, como te mandei dizer... Está claro que não ha nada entre elles, aquillo é só para mim, para me irritar... É um canalha aquelle Damaso! Eu só quero um pretexto. Esgano-o!
Deu um puxão forte aos punhos, com uma côr de cólera no rosto queimado:
—Eu, está claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mão, chamo-lhe «amigo Damaso», etc. Mas só quero um pretexto! É necessario aniquilar aquelle animal. É um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de lama humana!
—Quem esteve por lá mais? perguntou Carlos.
—Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma só vez. Apparecia pouco, coitada, agora que andava de luto.
—De luto?
—Por ti.
Calou-se. Maria entrava, com o véu descido, acabando de apertar as luvas. Então Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braços ao Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, pedindo um abraço filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira.
Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola, promettendo a Maria Eduarda uma visita á Toca, apenas Carlos voltasse d'esses penhascos do Douro...
—Não vás para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a Michaela que tome conta em ti!
—All right, all right, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.a, minha senhora... Até á Toca!
O coupé partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flôres e os restos do jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus olhos.
No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda á mesa do almoço, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos chegára de lá essa madrugada, só. O avô decidira ficar entre as suas velhas arvores até ao fim do outono que ia tão luminoso e tão macio...
Carlos fôra-o encontrar muito alegre, muito forte—apesar de ter sido obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fôra um allivio para o coração de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Além d'isso achára um truc, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo da sua vida sem magoar o avô, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um truc, simples. Consistia em partir elle só para Madrid, no começo d'uma certa «viagem d'estudo», para que já preparára o avô em Santa Olavia. Maria ficava na Toca, durante um mez. Depois tomava o paquete para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a começarem essa existencia de felicidade e romance que as flôres da Italia deviam perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria installada no seu ninho: e então, pouco a pouco, ia revelando ao avô aquella ligação, a que o prendia a honra, e que o forçaria agora a viver regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornára a patria do seu coração. E que havia de dizer o avô? Aceitar esse romance, a que não veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa da paixão. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar pontualmente todos os annos o neto para
longe; e cada anno se consolaria pensando na curta duração dos idyllios humanos. De resto Carlos contava com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu trucparecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o truc.
Depois, mais alegremente, fallaram da installação d'esse amor. Carlos permanecia na sua idéa romantica—um cottage á beira d'um lago. Mas Ega não approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixão. Na quietação continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios, dizia elle, não sendo botanicos nem pescando á linha, vêem-se forçados a viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as suas idéas, sensações, occupações, gracejos e silencios... E, que diabo, o mais forte sentimento não póde dar para tanto! Dois amantes, cuja unica profissão é amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os clubs, o cavaco, os museus, as idéas, o sorriso d'outras mulheres—e a mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenção d'outros homens; de sorte que á noite, quando se reunam, não tendo passado o infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo cada um a vibração da vida forte que atravessaram—achem um encanto novo e verdadeiro no conchego da sua solidão, e um sabor sempre renovado na repetição dos seus beijos...
—Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, não era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli á esquina do Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do Figaro, do Louvre, da Philosophia e da blague... Aqui tens tu a minha doutrina!... E ahi temos nós o amigo Baptista com o correio.
Não era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma salva: e vinha tão perturbado que annunciou «um sujeito, alli fóra, na antecamara, n'uma carruagem, á espera...»
Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o, lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa.
—Caramba! murmurou Ega, assombrado.
Era Castro Gomes!
Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.
—Manda entrar... Para o salão grande!
Baptista apontou para o jaquetão de flanella com que Carlos tinha almoçado, e perguntou baixo se s. exc.a queria uma sobrecasaca.
—Traze.
Sós, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.
—Não é um desafio, está claro, balbuciou Ega.
Carlos não respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis «Hotel Bragança»... Baptista voltára com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficára de pé junto da mesa, limpando estupidamente as mãos ao guardanapo.
No salão nobre, forrado de brocados côr de musgo d'outono, Castro Gomes examinava curiosamente, com um joelho apoiado á borda do sofá, a esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e forte no seu vestido de velludo escarlate de caçadora ingleza. Ao rumor dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapéo branco na mão, sorrindo, pedindo perdão de estar assim a pasmar familiarmente para aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido, indicou-lhe o sofá. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um botão de rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho; no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura, de fadiga.
—Eu possuo tambem em Paris um Constable muito chic, disse elle, sem embaraço, n'um tom arrastado, cheio de rr, que o sutaque brazileiro adocicava. Mas é apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. É um pintor que não me diverte, a dizer a verdade... Todavia dá muito tom a uma galeria. É necessario tel-o.
Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle modo affavel, uma idéa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, pondo-lhe já nos olhos largos que não tirava de sobre o outro, uma irreprimivel chamma de cólera. Carlos Gomes decerto não sabia nada! Chegára, desembarcára, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o marido, era novo, tivera-a já nos braços—a ella! E agora alli estava, tranquillo, de flôr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.
No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma entrevista...
—O motivo porém que me traz é tão urgente, que cheguei esta manhã ás dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.
Fez-se um allivio infinito no coração de Carlos. Ainda não vira então Maria Eduarda, aquelles seccos labios não a tinham tocado! E sahiu emfim da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de leve a cadeira.
Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapéo, tirára do bolso interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e, vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na mão, muito tranquillamente:
—Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo... Mas não creia v. exc.a que foi elle que me levou a atravessar á pressa o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui o tem. Quer v. exc.a lêl-o, ou quer que eu leia?
Carlos murmurou com um esforço:
—Leia v. exc.a
Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.
—Como v. exc.a vê, é a carta anonyma em todo o seu horror: papel de mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro reles. Um documento odioso. E aqui está como elle se exprime: «Um homem «que teve a honra de apertar a mão de v. exc.a» Eu dispensava a honra... «que teve a hora de apertar a mão de v. exc.a e d'apreciar o seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher é, á vista de toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo da Maia, que vive n'uma casa ás Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. Este heroe, que é muito rico, comprou expressamente uma quinta nos Olivaes, onde installou a mulher de v. exc.a e onde a vai vêr todos os dias, ficando ás vezes, com escandalo da visinhança, até de madrugada. Assim o nome honrado de v. exc.a anda pelas lamas da capital.» É tudo o que diz a carta; e eu só devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto ella diz é incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia é pois publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa senhora.
Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braços, n'uma aceitação inteira de todas as responsabilidades:
—Não tenho então nada a dizer a v. exc.a senão que estou ás suas ordens!...
Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes. Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo friamente:
—Perdão... O snr. Carlos da Maia sabe, tão bem como eu, que se isto tivesse de ter uma solução, violenta, eu não viria aqui pessoalmente, a sua casa, lêr-lhe este papel... A coisa é inteiramente outra.
Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentidão adocicada d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi fazia estalar o seu pobre coração. E era um desejo brutal de lhe gritar que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua presença era uma inutilidade ou uma torpeza!...
O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as suas palavras com cuidado e com precisão:
—O meu caso é este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me não conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um amante. Isto é desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.a comprehende que eu não devo continuar a arrastar por mais tempo a fama de marido infeliz, visto que a não mereço, e que a não posso legalmenteter... É por isso que aqui venho, muito francamente, de gentleman para gentleman, dizer-lhe, como tenho tenção de dizer a outros, que aquella senhora não é minha mulher.
Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um esforço, baixou de leve a cabeça, como acolhendo placidamente aquella revelação, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria e vã.
Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida resignação, como quem attribue tudo á malicia dos Destinos.
—São as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia está d'ahi a vêr as coisas. É a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil, trouxe-a a Lisboa para não vir sósinho. Fômos para o hotel Central. V. exc.a comprehende perfeitamente que eu não fui fazer confidencias ao gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher. Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! não podemos realmente condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente posição social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posição e nome eram de emprestimo e ella era apenas «Fulana de tal, amigada...» De resto, sejamos justos, ella não era moralmente obrigada a dar semelhantes explicações ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou á matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a não ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome. Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante ingleza. As inglezas são tão exigentes!... Aquella, sobretudo, uma rapariga tão séria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora é que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestára; e ella fica apenas com o seu, que é Madame Mac-Gren.
Carlos ergueu-se, livido. E com as mãos fincadas nas costas da cadeira tão fortemente, que quasi lhe esgaçava o estofo:
—Mais nada, creio eu?
Castro Gomes mordeu de leve os beiços perante este remate brutal que o despediu.
—Mais nada, disse elle tomando o chapéo e levantando-se muito vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.a suspeitas injustas, que aquella senhora não é uma menina que eu tivesse seduzido, e a quem recuse uma reparação. A pequerruchinha que alli anda não é minha filha... Eu conheço a mãi sómente ha tres annos... Vinha dos braços d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem injuria, que era uma mulher que eu pagava.
Completára com esta palavra a humilhação do outro. Estava deliciosamente desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava só mortificação, Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou:
—Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o conhecimento de v. exc.a por um motivo tão desagradavel... Tão desagradavel para mim.
Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as tapeçarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na calçada...
Carlos ficára cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeça entre as mãos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe resoavam em redor, adocicadas e lentas, só lhe restava o sentimento atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que cahia de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de nodoas intoleraveis... Não soffria: era simplesmente um assombro de todo o seu sêr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de rr; as duas almas rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braços uma mulher que não conhecia, e que se chamava Mac-Gren!
Mac-Gren! era a Mac-Gren!
Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido, tremulo, ancioso, seguindo á maneira d'uma estrella aquella mulher, que qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá, facil e núa! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a emoção religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mãos, que elle julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de lã no bordado, n'um constante trabalho de mãi laboriosa e recolhida; a veneração espiritual com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle á tunica d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha vergonha agora das flôres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha das «excellencias» que lhe déra!
E seria tão facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas quê! a sua paixão absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que dão ás montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua intimidade, o homem que na rua a fitára com um fulgor de desejo na face? Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da rua de S. Francisco, não fallára jámais de Paris, dos seus amigos e das coisas da sua casa? Porque é que ao fim de dois mezes, sem preparação, sem todas essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma flôr, se lhe abandonára de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o primeiro «amo-te»?... Porque lhe aceitára uma casa já mobilada, com a facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda, pequeninas, mas que não teriam escapado ao mais simples: joias brutaes, d'um luxo grosseiro de cocotte: o livro da Explicação de sonhos, á cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora até o ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da paixão—que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabára, providencialmente! A mulher que elle amára e as suas seducções esvaíam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas a Mac-Gren... O seu amor fôra, desde que a vira, como o proprio sangue das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incuravel e que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
Ega appareceu á porta do salão, ainda pallido:
—Então?
Toda a cólera de Carlos fez explosão:
—Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa mais immunda!
—O homem pediu-te dinheiro?
—Peor!
E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,—que assim repetidas e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhação e de nojo.
—Já por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim, cruzando violentamente os braços diante do Ega, que se abatera no sofá, assombrado. Pódes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais burlesco? É para estalar o coração. E é para rebentar a rir. Estupendo! Ahi, n'esse sofá, ahi onde tu estás, o homemzinho, muito amavel, de flôr ao peito, a dizer: «Olhe que aquella creatura não é minha mulher, é uma creatura que eu pago...» Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito paga-a... Quanto é o beijo? Cem francos. Ahi estão cem francos... É de morrer!
E recomeçou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda n'uma brutalidade maior...
—Que te parece, Ega? Dize lá. Que fazias tu? É horrivel, heim?
Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do seu tempo e «do seu mundo», ellas não offereciam nem motivos de cólera, nem motivos de dôr...
—Então não comprehendes nada! gritou Carlos, não percebes o meu caso!
Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no momento em que ia ligar com adoração o seu destino ao d'uma mulher, saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo simplificava e amenisava as coisas. O que fôra um drama complicado tornava-se uma distracção bonançosa. Ficava Carlos, desde logo, alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: já não tinha de se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; já o não prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez não o prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens.
—E a dignidade d'ella! exclamou Carlos.
Sim, mas a diminuição de dignidade e pureza não era na verdade grande, porque antes da visita de Castro Gomes já ella era uma mulher que foge do seu marido—o que, sem mesmo usar termos austeros, nem é muito puro nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhação irritante—não superior todavia á d'um homem que tem uma Madona que contempla com religião, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos até ahi tivera uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes uma bella amante...
—O que tu deves fazer, meu caro Carlos...
—O que eu vou fazer é escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preço de dois mezes que dormi com ella...
—Brutalidade romantica!... Isso já vem na Dama das Camelias... Sobretudo é não vêr com boa philosophia as nuances.
O outro atalhou, impaciente:
—Bem, Ega, não fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente nervoso!... Até logo. Tu jantas em casa, não é verdade? Bem, até logo.
Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se muito lentamente do sofá:
—O homemzinho foi para lá.
Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes:
—Foi para os Olivaes? Foi ter com ella?
Sim, pelo menos mandára a tipoia á quinta do Craft. Ega, para conhecer esse snr. Castro Gomes, fôra metter-se no cubiculo do guarda-portão. E vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses rastaquouèros que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao Café de la Paix ás duas horas para tomar a sua groseille, tesos e embrutecidos... E fôra o guarda-portão que lhe dissera que o sujeito parecia muito alegre e mandára o cocheiro bater para os Olivaes...
Carlos parecia aniquilado:
—Tudo isso é nojento!... No fim talvez até se entendam ambos... Estou como tu dizias aqui há tempos: «Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso um banho por dentro!»
Ega murmurou melancolicamente:
—Essa necessidade de banhos moraes está-se tornando com effeito tão frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles.
Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, já tinha a data d'esse dia, depois—Minha senhora, n'uma letra que elle se esforçára por traçar firme e serena:—e não achava outra palavra. Estava bem decidido a mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante das semanas que passára no seu leito. Mas queria juntar duas linhas regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: não encontrava senão phrases de grande cólera, revelando um grande amor.
Olhava a folha branca: e a banal expressão Minha senhora dava-lhe uma saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia «minha adorada», pela mulher que se não chamava ainda Mac-Gren, que era perfeita, e que uma paixão indomavel, superior á razão, entontecera e vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se transformára na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior infinitamente, desesperado por ser irrealisavel—como o que se tem por uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundára, outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais delicado a cercaria, para a compensar das affeições domesticas que ella deixasse de merecer! Que veneração maior lhe consagraria—para supprir o respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha tudo para reter amor e respeito—tinha a belleza, a graça, a intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel gosto... E com todas estas qualidades dôces e fortes—era apenas uma intrujona!
Mas porque? porque? Porque entrára ella n'esta longa fraude, tramada dia a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia até ao nome que usava!
Apertava a cabeça entre as mãos, achava a vida intoleravel. Se ella mentia—onde havia então a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traição muda. Punha-se um mólho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste! Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaçal! E para que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira, tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma acção de santidade—lhe tivesse dito que não era esposa do snr. Castro Gomes, mas só amante do snr. Castro Gomes—teria a sua paixão sido menos viva, menos profunda? Não era a estola do padre que dava belleza ao seu corpo e valor ás suas caricias... Para que fôra então essa mentira tenebrosa e descarada—que lhe fazia suppôr agora que eram imposturas os seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta mulher, tarifada ás horas como as caleches da Companhia, elle ia amarguarar a velhice do avô, estragar irreparavelmente o seu destino, cortar a sua livre acção de homem!
Mas porque? Porque fôra esta farça banal, arrastada por todos os palcos de opera comica, da cocotte que se finge senhora? Porque o fizera ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doçura de mãi? Por interesse? Não. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens... Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta e prompta outra bolsa rica? Então mais simples teria sido dizer-lhe: «eu sou livre, gósto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.» Não! Havia alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a conhecer!
E então pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes... Sim, não lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao regaço um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o segredo d'aquella torpe farça... Só isso amansaria o seu incomparavel tormento. Queria entrar outra vez na Tóca, vêr como era aquella outra mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem violencia, sem recriminações, muito calmo, sorrindo! Só para que ella lhe dissesse qual fôra a razão d'aquella mentira tão laboriosa, tão vã... Só para lhe perguntar serenamente: «Minha rica senhora para quer foi toda esta intrujice?» E depois vêl-a chorar... Sim, tinha esta anciedade cheia d'amor de a vêr chorar. A agonia que elle sentira no salão côr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os rr, queria vêl-a repetida n'esse seio, onde elle até ahi dormira tão dôcemente, esquecido de tudo, e que era bello, tão divinamente bello!...
Bruscamente, decidido, deu um puxão á campainha. Baptista appareceu todo abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a ser util n'aquella crise que adivinhava...
—Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se já entrou o snr. Castro Gomes!... Não, escuta... Põe-te á porta do Central, e espera até que entre aquelle sujeito que aqui esteve... Não, é melhor perguntar!... Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou está no hotel. E apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, á desfilada, n'uma tipoia... Um batedor seguro, que é para me levar depois aos Olivaes!...
Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era já um allivio immenso não ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas libras, ao portador. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, não lh'o atirava romanticamente ao regaço... Deixal-o-hia sobre uma mesa, sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixão por ella. Via-a já, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas, lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se humedeceram.
N'esse momento Ega, de fóra, perguntou se era importuno.
—Entra! gritou.
E continuou passeando, calado, com as mãos nos bolsos: o outro, em silencio tambem, foi encostar-se á janella sobre o jardim.
—Preciso escrever ao avô a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por fim, parando junto da mesa.
—Dá-lhe recados meus.
Carlos sentára-se, tomára languidamente a penna: mas bem depressa a arremessou: cruzou as mãos por detraz da cabeça no espaldar da cadeira, cerrou os olhos, como exhausto.
—Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso!
Carlos olhou para elle:
—Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser?
—Não foi mais ninguem, menino. foi o Damaso!
Carlos então recordou o que lhe contára o Taveira—as allusões mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que elle devia receber na cabeça... O Damaso, portanto, tinha como certa a vinda do brazileiro, depois um duello...
—É necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso. Não ha segurança, não ha paz na nossa vida emquanto esse bandido viver!...
Carlos não respondeu. E o outro proseguia, transtornado, já todo pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados:
—Eu não o mato porque não tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto, uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!... Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto não póde ficar assim! Não póde! É necessario sangue... Vê tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques do snr. Damaso. Não póde ser. Eu o que tenho pena é de não ter um pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o!
Carlos encolheu vagamente os hombros:
—Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente só tem sido velhaco commigo por causa das minhas relações com essa senhora; e como isso é um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem. Parce sepultis... E no fim era elle que tinha razão, quando dizia que ella era uma intrujona...
Atirou uma punhada á mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um tedio infinito de tudo:
—Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razão!...
Toda a sua cólera revivera, mais aspera, a esta idéa. Olhou o relogio. Tinha pressa de a vêr, tinha pressa de a injuriar!...
—Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
—Não, vou lá eu mesmo.
Ega pareceu espantado. Depois recomeçou a passear, calado, com os olhos no tapete.
Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se no hotel e mandar descer as suas bagagens:—e a tipoia, para levar o menino aos Olivaes, esperava em baixo.
—Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
—Não jantas?
—Não.
D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. Já se accendera o gaz. E inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente cigarettes que não fumava, soffria já a perturbação d'aquelle encontro difficil e doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por «minha senhora», se por «minha boa amiga», com uma superior indifferença. E ao mesmo tempo sentia por ella uma compaixão indefinida, que o amollecia. Diante d'estes seus modos regelados, via-a já toda pallida, a tremer, com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que estava tão perto de as vêr correr, enchiam-no só de commoção e de dó... Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e seccamente! Poderia não lhe mandar o cheque,—affronta brutal d'homem rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de phantasia, e amára-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido, incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito—que se estava prompto a dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonára por paixão, estava decidido a não sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe cedera por profissão. Era mais simples, era terminante... E depois não a via, não teria de supportar a tortura das explicações e das lagrimas.
Então veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O cocheiro não ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, á maneira que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes passára com o coração em festa, quando a sua paixão estava em flôr, uma cólera nova voltava—menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra essa mentira que fôra obra d'ella, e que vinha estragar irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa mentira que agora odiava—vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso enorme, feia e côr de ferro, esmagando-lhe o coração. Oh! Se não fosse essa coisa pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus braços, senão com a mesma crença pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do outro ou amante do outro—no fim que importava? Não era por faltar aos beijos que lhe dera esse a consagração d'um padre, rosnada em latim—que a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura? Mas havia a mentira, a mentira inicial, dita no primeiro dia em que fôra á rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava estragando tudo d'ahi por diante, dôces conversas, silencios, passeios, sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os cortinados côr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella mentira primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos olhos limpidos...
Abafava. Ia a descer a vidraça que faltava a correia—quando a tipoia parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher com um chale pela cabeça fallava ao cocheiro.
—Melanie!
—Ah, monsieur!
Carlos saltou precipitadamente. Era já proximo da quinta, na volta d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que seguisse e esperasse no portão da quinta. E ficou alli, no escuro, com Melanie encolhida no seu chale.
Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que vinha procurar á villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgára a tipoia vazia.
E apertava as mãos, dando as graças, com um immenso allivio. Ah! que felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta, nem jantára, perdida de chôro. O snr. Castro Gomes apparecera lá inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
Então Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o outro? que dissera? como se despedira?... Melanie não ouvira nada. O Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sós no pavilhão japonez. Á sahida é que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito socegado, muito amavel, rindo, fallando de Niniche... A senhora, essa, parecia como morta, tão pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um desmaio.
Estavam proximo do portão da Toca. Carlos retrocedeu, respirando fortemente, com o chapéo na mão. E agora todo o seu orgulho se ia sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixão... Dites toujours, Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no Ramalhete, lhe confessára tudo?...
Claramente que sabia, por isso chorava—dizia Melanie. Ah, ella bem repetira á senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o dito, até já nos Olivaes! Carlos curvava a cabeça na escuridão do muro. Melanie tinha-lh'o dito! Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que andava presa a sua vida! E aquellas revelações de Melanie, que suspirava com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaços d'esse sonho, que elle erguera tão alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em estilhaços, no lodo immundo.
Um momento, com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. Mas para além d'aquelle negro muro estava ella, perdida de chôro, querendo morrer... E lentamente recomeçou a caminhar para o portão.
E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais intimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade?
Melanie encolheu os hombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no Central como madame Gomes; alugára a casa da rua de S. Francisco como madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixára ir, insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os Olivaes... E depois era tarde, já não se atrevera a confessar, toda enterrada assim na mentira, com medo do desgosto...
Mas, exclamava Carlos, nunca imaginára ella que fatalmente tudo se descobriria um dia?
—Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a chorar.
Depois eram outras curiosidades. Ella não esperava Castro Gomes? não suppunha que elle voltasse? não costumava fallar d'elle?...
—Oh non, monsieur, oh non!
Madame, desde que o senhor começára a ir todos os dias á rua de S. Francisco, considerára-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes, nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina chamava sempre ao snr. Castro Gomes petit ami. Agora não lhe chamava nada. Tinham-lhe dito que já não havia petit ami...
—Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora levára o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, nunca mais gastára um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas, entregara-lh'as n'essa tarde... Não se lembrava elle de a ter encontrado uma manhã á porta do Monte-Pio? Pois bem! Fôra lá, com uma amiga franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora vivia agora das suas joias; tinha já outras no prégo.
Carlos parára, commovido. Mas então para que tinha ella mentido?
—Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime bien, allez!
Estavam defronte do portão. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, frouxa e triste. Carlos julgou vêr mesmo a figura de Maria Eduarda, embrulhada n'uma capa escura, de chapéo, atravessar n'essa claridade... Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
—Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coração. Subiu os tres degraus de pedra—que lhe pareciam já d'uma casa estranha. Dentro, o corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mão, veio dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias...
Carlos entrou.
Lá estava, ainda de capa, esperando de pé, palida, com toda a alma concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para elle, arrebatou-lhe as mãos, sem poder fallar, soluçando, tremendo toda.
Na sua terrivel perturbação, Carlos achava só esta palavra, melancolicamente estupida:
—Não sei porque chora, não sei, não há razão para chorar...
Ella pôde emfim balbuciar:
—Escuta-me, pelo amor de Deus! não digas nada, deixa contar-te... Eu ia lá, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vêr-te... Nunca tive a coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, não digas nada ainda, perdôa, que eu não tenho culpa!
De novo os soluços a suffocaram. E cahiu ao canto do sofá, n'um chôro brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros os cabellos mal atados.
Carlos ficára diante d'ella, immovel. O seu coração parecia parado de surpreza e de duvida, sem força para desafogar. Apenas agora sentia quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque—que tinha alli na carteira e que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou com um grande esforço:
—Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, são tantas coisas, são tantas coisas!... Tu não te vaes já embora, senta-te, escuta...
Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
—Não, aqui ao pé de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem és, tem pena, faze-me isso!
Elle cedeu á supplicação humilde e enternecedora dos seus olhos arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sofá, afastado d'ella, n'uma desconsolação infinita. Então, muito baixo, enrouquecida pelo chôro, sem o olhar, e como n'um confessionario—Maria começou a fallar do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes soluços que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas mãos a face afflicta.
A culpa não fôra d'ella! não fôra d'ella! Elle devia ter perguntado áquelle homem que sabia toda a sua vida... Fôra sua mãi... Era horroroso dizel-o, mas fôra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro annos, como sua esposa, tão fiel, tão retirada de tudo e só occupada da sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os allemães, na batalha de Saint-Privat. E ella ficára com Rosa, com a mãi já doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio trabalhára... Em Londres tinha procurado dar lições de piano... Tudo falhára, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com fome! com fome! Ah, elle não podia perceber o que isto era!... Quasi fôra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava perdida...
Lentamente escorregára do sofá, cahira aos pés de Carlos. E elle permanecia immovel, mudo, com o coração rasgado por angustias differentes: era uma compaixão tremula por todas aquellas miserias soffridas, dôr de mãi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais maculada...
Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle, honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era estar quieta em casa. Elle é que a forçava a andar em ceias, em noitadas...
E Carlos não podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mãos, que procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
—Oh não, não me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle anciosamente. Eu sei que não mereço nada! Sou uma desgraçada... Mas não tive coragem, meu amor! Tu és homem, não comprehendes estas coisas... Olha para mim! porque não olhas para mim? Um instante só, não voltes o rosto, tem pena de mim...
Não! elle não queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, já tudo n'elle começava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E então, sem saber, a seu pezar, as suas mãos apertaram as d'ella. Ella cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia.
—Oh, dize que me perdôas! Tu és tão bom! Uma palavra só... Dize só que não me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao menos para mim como d'antes, uma só vez!...
E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Então a fraqueza em que sentia afundar-se todo o seu sêr encheu Carlos de cólera, contra si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
—Mas porque não me disseste, porque não me disseste? Para que foi essa longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu?
Largára-a, prostrada no chão. E de pé, deixava cahir sobre ella a sua queixa desesperada:
—É a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira sómente!
Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de desmaio.
—Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante d'elle, deixando cahir os braços. Eu queria dizer-t'o... Não te lembras, n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te logo: «ha uma coisa que te quero contar...» Tu nem me deixaste acabar. Imaginavas o que era, que eu queria ser só tua, longe de tudo... E disseste então que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto do mundo... Não te lembras?... Foi então que me veio uma tentação! Era não dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois, quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua estima, confessar-te tudo e dizer-te: «agora, se queres, manda-me embora.» Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentação, não resisti... Se tu não fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperança, nem sei que! E além d'isso adiava aquella horrivel confissão! Emfim, nem posso explicar, era como o céo que se abria, via-me comtigo n'uma casa nossa... Foi uma tentação!... E depois era horrivel, no momento em que tu me querias tanto, ir dizer-te «não faças tudo isso por mim, olha que eu sou uma desgraçada, nem marido tenho...» Que te hei de explicar mais? Não me resignava a perder o teu respeito. Era tão bom ser assim estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi está, vejo-me perdida, tudo acabou!
Atirou-se para o chão, como uma creatura vencida e finda, escondendo a face no sofá. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando bruscamente até junto d'ella, tinha só a mesma recriminação, a mentira, a mentira, pertinaz e de cada dia... Só os soluços d'ella lhe respondiam.
—Porque não me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando sabias que tu eras tudo para mim?...
Ella ergueu a cabeça fatigada:
—Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro modo... Via-te já a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi dentro de chapéo na cabeça, a perder a affeição á pequena, a querer pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia «hoje não, um dia só mais de felicidade, ámanhã será...» E assim ia indo! Emfim, nem eu sei, um horror!
Houve um silencio. E então Carlos sentiu á porta Niniche que queria entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu, pulou para o sofá, onde Maria permanecia soluçando, enrodilhando a um canto: procurava lamber-lhe as mãos, inquieta: depois ficou plantada junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeçára a passear sombriamente.
Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento olhando para aquella dôr humilhada... Todo abalado, com os labios a tremer, murmurou:
—Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nós a separar-nos! Não teria um unico dia de confiança e de paz...
—Nunca te menti senão n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella gravemente do fundo da sua prostração.
—Não, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar... Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das tuas lagrimas?
Uma indignação ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez.
—Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas supplicas são fingidas? Que finjo tudo para te reter, para não te perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?...
Elle balbuciou:
—Não, não! Não é isso!
—E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar n'essa grande paixão que me juravas? O que é que tu amavas então em mim? Dize lá! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as toilletes?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braços são os mesmos, este peito é o mesmo... Só uma coisa é differente: a minha paixão! Essa é maior, desgraçadamente, infinitamente maior.
—Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mãos.
N'um instante Maria estava cahida a seus pés, com os braços abertos para elle.
—Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te doidamente, absurdamente, até á morte!
Carlos tremia. Todo o seu sêr pendia para ella; e era um impulso irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus pés, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez a idéia da mentira passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os punhos á cabeça, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa pequenina e indestructivel que não queria sumir-se, e que se interpunha como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!
Ella ficára ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete. Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e tremula:
—Tens razão, acabou-se! Tu não me acreditas, tudo se acabou!... É melhor que te vás embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo para mim, não tenho ninguem mais no mundo... Ámanhã sáio d'aqui, deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de fazer, vou-me embora!
E não pôde mais, tombou para o chão, com os braços estirados, perdida de chôro.
Carlos voltou-se, ferido no coração. Com o seu vestido escuro, para alli cahida e abandonada, parecia já uma pobre creatura, arremessada para fóra de todo o lar, sósinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... Então respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi levado como por um grande vento de piedade. Viu só, offuscando todas as fragilidades, a sua belleza, a sua dôr, a sua alma sublimemente amante. Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se á sua paixão. E, debruçando-se, disse-lhe baixo, com os braços abertos:
—Maria, queres casar commigo?
Ella ergueu a cabeça, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para a fechar dentro d'elles outra vez, como sua e para sempre... Então levantou-se, tropeçando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de beijos, entre soluços e risos, tonta, n'um deslumbramento:
—Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e adorar-te, e ser só tua? E a pobre Rosa tambem... Não, não cases commigo, não é possivel, não valho nada! Mas se tu queres, porque não?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coração! E has de ser nosso amigo, meu e d'ella, que não temos ninguem no mundo... Oh! meu Deus, meu Deus!...
Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braços d'elle, desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o chão, tocados pela luz de tons d'ouro.
V
Rappel, o intimo de Gambetta! Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas austeras de revolucionario...
—Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a snr.a D. Maria?
—De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o Rappel, e morre de fome...
—Mas então, o Damaso?
—O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie que me mandaste, a Corneta? Dize lá.
Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a Corneta. Elle já conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor—o Palma, chamado Palma Cavallão para se distinguir d'outro benemerito chamado Palma Cavallinho. Comprehendeu logo que se a prosa era do Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da Toca... Não era natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o Palma Cavallão no seu antro.
—Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
—Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que esteve associado com elle n'um negocio de Almanachs religiosos...
Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal—o jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a promessa de mais dez...
—É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz...
—Quanto quer elle?
—Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta.
—Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem te parece que seja?
Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da Corneta devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua de S. Francisco; alguem conhecedor da Toca; alguem que tinha, por ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...
—Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.
Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:
—Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza, porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o Palma ás tres horas no Lisbonense... E o melhor é vires tambem. Trazes tu dinheiro?
—Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado. Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô. Quando perto das quatro horas se apearam á entrada do Lisbonense, no largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquetão de velludo coçado e calça de casimira clara collada á côxa, accendia um cigarro. Estendeu logo rasgadamente a mão a Carlos—que lhe não tocou. E Palma Cavallão, sem se offender, com a mão abandonada no ar, declarou que ia justamente sahir, cançado já de esperar em cima diante d'um grog frio. De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...
—Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um gabinete, que se está mais á vontade, e toma-se outra bebida.
Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já visto aquella luneta de vidros grossos, aquella cara balofa côr de cidra... Sim, fôra em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle farejára pelas estradas silenciosas, como um cão abandonado, procurando Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja de saguão. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxão ás calças:
—Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu já disse cá ao amigo Ega, em todo este negocio...
Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da bengala na borda da mesa.
—Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem lhe encommendou o artigo da Corneta?
—Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na parede uma gravura onde havia mulheres núas á beira d'agua. Não nos basta o nome... O amigo Palma, está claro, é de toda a confiança... Mas emfim, que diabo, não é natural que nós acreditassemos se o amigo nos dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragança!
Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar provas. Elle podia ter outros defeitos, trapalhão não! Em negocios era todo franqueza e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a carta do amigo que lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem se devia mandar a Corneta: o rascunho do artigo a lapis...
—Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e então o redactor da Corneta offereceu a «bebida» rasgadamente, puxou mesmo cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram—Carlos de pé junto da mesa onde terminára por pousar a bengala, Ega passando a outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:
—Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da Corneta, apresentados na Boa-Hora, levam á grilheta!... Está claro, este caso é outro, vossê não teve intenção d'offender; mas levam á grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no porãosinho d'um navio, com ração de marujo e chibatadas. Desagradavel, muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre cavalheiros, e em amizade.
Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de assucar dentro do copo de genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...
Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de libras, que começou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um prato. E Palma Cavallão, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de prata sob uma enorme corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o monoculo sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do Damaso!
Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma, curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe «que o apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas que deviam receber a Corneta: vinha lá a Gouvarinho, o ministro do Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...
Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:
—Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o baguinho está ahi a arrefecer!
Então, ao palpar o ouro, Palma Cavallão commoveu-se. Palavra, caramba, se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia não tinha aceitado o artigo! Mas então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lérias, e que era uma brincadeira, e que o Maia não se importava, e isto e aquillo, e muita promessa... Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o Silveira se tinham portado pulhamente.
—Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava agora entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca da vida.
Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da mão: depois esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardára as cartas do Damaso, levantava já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, n'uma derradeira averiguação:
—Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...
O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe fallára apenas em nome do Damaso!
—O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o Damaso e eu não vamos muito na mesma bola. Ficámos exquisitos, desde uma péga em casa da Biscainha. Aqui p'ra nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle embuchou. Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o High-life na Verdade. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais calhados... Mas é traste... E lá o Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador.
Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o cubiculo. O redactor da Corneta ainda baixou a cabeça para a porta; depois, sem se offender, voltou alegremente á genebra, dando outro puxão ás calças. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.
—Vossê agora é que redige o jornal todo, Palma?
—O Silvestre, tambem...
—Que Silvestre?
—O que está com a Pingada. Vossê não conhece, creio eu. Um rapazola magro, que não é feio... Semsaborão, escreve uma palhada... Mas sabe coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que elle chama a sua cabelluda... Que o Silvestre ás vezes tem graça! E sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigações, pulhices... Vossê nunca leu nada d'elle? Chôcho. Tenho sempre de lhe arranjar o estylo... N'este numero é que havia um folhetimzito meu, catita, cá á moderna, como eu gósto, alli com a piadinha realista a bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe agradeço. Quando quizer, eu e a Corneta ás ordens!
Ega estendeu-lhe a mão:
—Obrigado, digno Palma! E adiós!
—Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito homem com infinito salero.
Em baixo Carlos esperava, dentro do coupé.
—E agora? perguntou Ega, á portinhola.
—Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
Carlos já esboçára summariamente o plano d'essa liquidação. Queria mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal que o injuriava. O duello devia ser á espada ou ao florete, um d'esses ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o Damaso. Se contra toda a verosimilhança elle se batesse, Carlos fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse mezes na cama. Senão a unica explicação que Carlos aceitaria do snr. Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples: «Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.» E para estes serviços Carlos contava com o Ega.
—Agradeço! agradeço! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mãos, faiscando de jubilo.
No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e lembrou o Cruges, moço passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar o maestro, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino Victorino não estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de lá um bilhete chamando o Cruges—«para um caso urgente d'amizade e d'arte».
—Com quê, dizia o Ega continuando a esfregar as mãos emquanto a tipoia trotava para a rua de S. Francisco, com quê, demolir o nosso Damaso?
—Sim, é necessario acabar com esta perseguição. Chega a ser ridiculo... E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os termos d'uma carta forte...
—Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por elle na sala das Illustrações. O conde de Gouvarinho e Steinbroken conversavam de pé, no vão d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro da Filandia abriu os braços para o cher Maia, que elle não vira desde a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formára n'esse verão, em Cintra: mas o aperto de mão a Carlos foi sêcco e curto. Já dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurára de leve e de passagem «um como está, Maia?» em que se sentia arrefecimento. Ah! já não eram essas effusões, essas palmadas enternecidas pelos hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonára a snr.a condessa de Gouvarinho, a rua de S. Marçal e o commodo sofá em que ella cahia com um rumor de saias amarrotadas—o marido amuava, como abandonado tambem.
—Tenho tido saudade das nossas bellas discussões em Cintra! disse elle, dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao Maia. Tivemol-as de primeira ordem!
Eram realmente «pégas tremendas» no pateo do Victor sobre litteratura, sobre religião, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por causa da divindade de Jesus.
—É verdade! acudiu o Ega. Vossê n'essa noite parecia ter ás costas uma opa de irmão do Senhor dos Passos!
O conde sorriu. Irmão do Senhor dos Passos não, graças a Deus! Ninguem melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para consolar a alma humana. É o que elle objectára n'essa noite ao amigo Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a mãi que chora? Não. Então...
—Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o relogio. E, eu confesso, uma discussão elevada sobre religião, sobre metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me á philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.
Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho d'alecrim ao peito, tomára as mãos de Carlos:
—Mais vous êtes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia, toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet hiver?
E immediatamente lamentou não ter visitado Santa Olavia. Mas quê! a familia real installára-se em Cintra; elle fôra forçado a acompanhal-a, fazer a sua côrte... Depois necessitára ir de fugida a Inglaterra d'onde acabava de chegar, havia dias.
Sim, Carlos sabia, vira na Gazeta Illustrada...
—Vous avez lu ça? Oh oui, on a été très aimable, très aimable pour moi à la Gazette...
Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada esta affeição sincera que liga Portugal e a Filandia... «Mais enfin on avait été charmant, charmant!...»
—Seulement—ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para o Gouvarinho—on a fait une petite erreur... On a dit que j'étais venu de Southampton par le Royal Mail... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis embarqué à Bordeaux dans les Messageries. J'ai même pensé à écrire à Mr. Pinto, redacteur de la Gazette, qui est un charmant garçon... Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: «Mon Dieu, on va croire que je veux donner une leçon d'exactitude à la Gazette, c'est très grave...» Alors, voilà, très prudemment, j'ai gardé le silence... Mais enfin c'est une erreur: je me suis embarqué à Bordeaux.
Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia desejar, por polidez, que a Historia se não incommodasse. E então o Gouvarinho, que accendêra o charuto, espreitára outra vez o relogio, perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da crise.
Foi uma surpreza para ambos, que não tinham lido os jornaes... Mas, exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as camaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo d'outono?
O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, á noitinha, uma reunião de ministros; n'essa manhã o presidente do conselho fôra ao paço, fardado, determinado a «largar o poder»... Não sabia mais. Não conferenciára com os seus amigos, nem mesmo fôra ao seu Centro. Como n'outras occasiões de crise, conservára-se retirado, calado, esperando... Alli estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a Revista dos Dois Mundos.
Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriotica...
—Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
—Exactamente por isso, acudiu o conde com uma côr viva na face, não desejo pôr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome são necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham pedir-m'os...
Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas coisas politicas, começou logo a retrahir-se para o fundo da janella, limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetravel, no grande recato neutral que competia á Filandia. Ega no emtanto não sahia do seu espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benção da Igreja, a protecção do Comptoir d'Escompte?...
O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razão:
—O ministerio estava gasto.
—Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento. Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...
—Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. É extraordinario! N'este abençoado paiz todos os politicos têm immenso talento. A opposição confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, têm, á parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admitte que a opposição, a quem ella constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustissimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o paiz é uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz governado com immenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a vêr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o charuto no d'elle:
—Que pasta preferiria você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro...
O conde fez um largo gesto d'abnegação. Era pouco natural que os seus amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornára-se sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Além d'isso não sabia bem se as occupações da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos Estrangeiros não o tentava...
—Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessario ter por traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «ha de ser assim», não estou!... Pois não acha, Steinbroken?
O ministro tossiu, balbuciou:
—Certainement... C'est très grave... C'est excessivement grave...
Ega então affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado...
Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
—Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as coisas bellas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma sufficiente noção da moral christã; organisaram-se já os serviços aduaneiros... Emfim o melhor está feito. Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal como elemento civilisador!
N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos—que o snr. Cruges estava em baixo, no portal, á espera. Immediatamente os dois amigos desceram.
—Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
—E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, é um dos melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa branca em linha de conta, este é talvez o melhor!
Acharam o Cruges á porta, de jaquetão claro, embrulhando um cigarro. E Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. O maestro arregalava os olhos.
—É jantar?
—É enterro.
E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso publicára n'um jornal, a Corneta do Diabo (cuja tiragem elles tinham supprimido, não sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um artigo em que a coisa mais dôce que se chamava a Carlos era pulha. Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a vida.
—Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas não entendo.
—Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o sobr'olho. Depois vir commigo; não dizer nada; tratar o Damaso por «v. exc.a»; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o sobr'olho nem despir a sobrecasaca...
Sem outra observação, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro. Mas no meio da rua retrocedeu:
—Ó Carlos, olha que eu fallei lá em casa. Os quartos do primeiro andar estão livres, e forrados de papel novo...
—Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...
O maestro abalára, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mão no fecho da portinhola, gritou aos dois amigos:
—O Gouvarinho? está lá em cima?
—Está... Novidade fresca?
—Os homens cahiram. Foi chamado o Sá Nunes!
E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao portão do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava n'essa tarde das corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vêr aquellas janellas: ia então escurecendo, por traz dos stores fechados surgira uma luz, elle contemplára-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo passa!
Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se á pressa para dentro da caleche que esperára. Ega parou, deixou cahir os braços:
—Lá vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a Dama das Camelias no sertão! Deus se amerceie de nós!
Mas o Cruges appareceu emfim de chapéo alto, entalado n'uma sobrecasaca solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado «do chinfrin», no jardim da Estrella, junto ao coreto.
—Sêde rapidos e medonhos!
A casa do Damaso, velha e d'um andar só, tinha um enorme portão verde, com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse, arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre de Carlos e das suas pompas) já não trazia torturado em botins crueis de verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal, que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.
O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a môfo. Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de lá:
—Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a vestir...
Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a voz da sombra do corredor, gravemente:
—Não tem duvida, nós esperamos...
O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os suspensorios:
—Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de calças!
—Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso comprára no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia d'amor...»
Sob estes retoques de chic, dados á pressa sob a influencia do Maia, impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de convites para soirées. E Cruges ia examinar estes documentos, quando os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo, com o seu chapéo alto na mão.
Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul, florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar:
—Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de Christo!...
Ega atalhou, muito sério:
—O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado e grave, Damaso.
Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o sorriso se lhe apagou na face.
—Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...
A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou esperando, n'uma anciedade.
—Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...
Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra, attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.
Ega proseguiu, lento, direito no canapé:
—O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma senhora das relações d'elle na Corneta do Diabo...
—Na Corneta, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que Corneta? Nunca escrevi em jornaes, graças a Deus! Ora essa, a Corneta!...
Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico volume da Biblia de Doré.
—Aqui está a sua carta remettendo ao Palma Cavallão o rascunho do artigo... Aqui está, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a quem se devia mandar a Corneta, desde o Rei até á Fancelli... Além d'isso nós temos as declarações do Palma. O Damaso é não só o inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas...
Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado—que involuntariamente Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas já o Damaso estava no meio da sala, esgazeado, com os braços tremulos no ar:
—Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim é que me pregou uma partida!... Foi elle, vocês sabem perfeitamente que foi elle!...
E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fôra Carlos, Carlos, que o desfeitiára a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito chic, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como era, promettia, dizia: «Deixa estar, eu te apresento!» Pois, senhores, que faz Carlos? Aproveita uma occasião sagrada, um momento de luto, quando elle Damaso fôra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do marido, intimo de tu! Caramba, elle é que devia mandar desafiar Carlos! Mas não! fôra prudente, evitára o escandalo por causa do snr. Affonso da Maia... Queixára-se de Carlos, é verdade... Mas no Gremio, na Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos préga-lhe uma d'estas!
—Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mão, observou placidamente que se desviavam do ponto vivo da questão. O Damaso concebera, rascunhára, pagára o artigo da Corneta. Isso não o negava, nem o podia negar: as provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham além d'isso a declaração do Palma...
—Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada d'indignação que o fez redemoinhar, estonteado, tropeçando nos moveis. Esse descarado do Palma! Com esse é que eu me quero vêr!... Lá a questão com o Carlos não vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com o Palma é que é! Esse traidor é que eu quero rachar! Um homem a quem eu tenho dado ás meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um ladrão que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e pôl-o no prégo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde é que você o viu, Ega? Diga lá, homem! Que quero ir procural-o, hoje mesmo, correl-o a chicotadas... Traições não, não admitto a ninguem!
Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prêsa certa, lembrou de novo a inutilidade d'aquellas divagações:
—Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto é este: o Damaso injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou dá uma reparação pelas armas...
Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que se não movera do sofá de velludo, esfregando, um contra o outro, com um ar arripiado e de dôr, os dois sapatos novos de verniz.
—Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que fazia de mim tudo! Até lhe copiava coisas... Você bem viu, Cruges. Diga! Falle, homem! Não sejam vocês todos contra mim!... Até ás vezes ia á alfandega despachar-lhe caixotes...
O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega, por fim, já farto, lançou uma intimação derradeira:
—Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
—Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforço de dignidade, a tremer todo. E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem que me desdiga!
—Perfeitamente, então bate-se...
Damaso cambaleou para traz, desvairado:
—Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a sôcco. Que venha para cá, não tenho medo d'elle, arrombo-o...
Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os punhos fechados e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! Não lhe faltava mais senão bater-se... E então duellos em Portugal, que acabavam sempre por troça!
Ega no emtanto, como se a sua missão estivesse finda, abotoára a sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a Biblia. Depois, serenamente, fez a ultima declaração de que fôra incumbido. Como o snr. Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparação pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe escarraria na face...
—Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro já viesse no ar.
E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre o Ega, agarrando-lhe as mãos, n'uma agonia:
—Ó João, ó João, tu, que és meu amigo, por quem és, livra-me d'esta entaladella!
Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava só o camarada, como no tempo dos Cohens e da villa Balzac. Queria pois o amigo Damaso um conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera publicar na Corneta sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fôra invenção falsa e gratuita. Só isto o salvava. D'outro modo, Carlos um dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse desastre, Damasosinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um incomparavel cobarde, tinha de se bater á espada ou á pistola...
—Ora, em qualquer d'esses casos, você era um homem morto.
O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braços, murmurou da profundidade do seu terror:
—Pois sim, eu assigno, João, eu assigno...
—É o que lhe convém... Arranje então papel. Você está perturbado, eu mesmo redijo.
Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago por sobre os moveis:
—Papel de carta? É para carta?
—Sim, está claro, uma carta ao Carlos!
Os passos do desgraçado perderam-se emfim no corredor, pesados e succumbidos.
—Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a mão aos sapatos.
Ega lançou-lhe um chut severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso papel de monogramma e corôa. Para envolver em silencio e segredo aquelle transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo, desdobrando-se, mostrou o brazão de Salcede, onde havia um leão, uma torre, um braço armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa, abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso...
—Eu faço o rascunho, você depois copía...
—Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenço pelo pescoço e pela face.
Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle silencio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando até ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os documentos do chic a valer que era a paixão da sua vida: bilhetes com titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey Club, de membro do Tiro aos Pombos:—até pedaços cortados de jornaes annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, «um dos nossos mais distinctos sportmen».
Desventuroso sportman! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava, ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha bastaria:—«Meu querido Carlos, não te zangues, desculpa, foi brincadeira.» Mas não! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas! Já mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem escorrer sem cessar coisas humilhadoras! Não se conteve, estendeu a face por sobre a mesa, até o papel:
—Ó Ega, isso não é para publicar, pois não é verdade?
Ega reflectiu, com a penna no ar:
—Talvez não... Estou certo que não. Naturalmente Carlos, vendo o seu arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta.
Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente entre amigos! Que lá isso, mostrar o seu arrependimento, até elle desejava! Com effeito o artigo fôra uma tolice... Mas então! Em questões de mulheres era assim, assomado, um leão...
Abanou-se com o lenço, desanuviado, recomeçando a achar sabôr á vida. Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se do Cruges—que, coxeando através das curiosidades da sala, encalhára sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pé dorido no ar.
—Então tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
Cruges, muito vermelho, resmungou que não tinha feito nada.
Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um olhar inquieto á mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou, sobre o hombro do maestro:
—Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente conhecida... Senão não me importava! Mas veja você tambem se arranja as coisas e se o Carlos deixa aquillo na gaveta...
Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava para o piano, devagar, relendo baixo.
—Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma de carta ao Carlos, é mais correcto. Você depois copía e assigna. Ouça lá: «Exc.mo snr....» Está claro, você dá-lhe excellencia, porque é um documento d'honra... «Exc.mo snr.—Tendo-me v. exc.a, por intermédio dos seus amigos João da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignação que lhe causára um certo artigo da Corneta do Diabo de que eu escrevi o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a v. exc.a que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica está em que o compuz e enviei á redacção da Corneta no momento de me achar no mais completo estado d'embriaguez...»
Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os braços, rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, entalando o monoculo:
—Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e habil—emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica) declarasse «que calumniára por ser calumniador». Era necessario, pois, dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a responsabilidade ás acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha para ninguem embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em Inglaterra era tão chic, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na Camara dos communs senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra ficava salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que commettera uma indiscrição... Nada mais!
—Pois não te parece, Cruges?
—Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
—Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso?
—Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado.
Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim reconheço, como sempre reconheci e proclamei, que é v. exc.a um caracter absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento d'embriaguez ousei salpicar de lama, são-me só merecedoras de veneração e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu alguma palavra offensiva para v. exc.a, não lhe devia dar v. exc.a, ou aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se dá a uma involuntaria baforada d'alcool—pois que, por um habito hereditario que reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em estado de embriaguez... De v. exc.a, com toda a estima etc....» Rodou sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa—e accendendo o charuto ao lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinára áquella confissão de bebedeira incorrigivel e palreira. Fôra ainda o desejo de garantir a tranquillidade do «nosso Damaso». Attribuindo todas as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperança hereditaria, de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o Damaso punha-se para sempre ao abrigo das provocações de Carlos...
—Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio, sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá lhe escapa uma palavra contra Carlos... Sem esta precaução, ahi recomeça a questão, o escarro, o duello... Assim já Carlos não se póde queixar. Lá tem a explicação que tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice hereditaria... Você alcança d'este modo a coisa que mais se appetece n'este nosso seculo XIX—a irresponsabilidade!... E depois para a sua familia não é vergonha, porque você não tem familia. Em resumo, convem-lhe?
O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas roncantes phrases sobre «a hereditariedade», sobre «o seculo XIX». E um unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem força:
—Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço.
Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa. Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um resto escondido de dignidade, Damaso alçou para elle os olhos embaciados:
—Embriaguez é com n ou com m?
—Com um m, um m só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito bem... Que linda letra você tem, caramba!
E o infeliz sorriu á sua propria letra—pondo a cabeça de lado, no orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era necessario que o documento fosse chic e perfeito.
—Quem é o seu tabellião, Damaso?
—O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
—Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está d'appetite a cartinha!
Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte», sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e leve:
—Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas, n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus... Não se incommode você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein! Não venha cá, homem... Adeus!
Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára:
—Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega?
Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!
Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
—E chamei eu áquelle homem meu amigo!
—Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observação do Ega, saltando alegremente os degraus.
Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na Toca. Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.
—E então, meus senhores, temos sangue?
—Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o enveloppe.
Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
—Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
—O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? Que elle se batesse?
—Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto?
Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo em torno do artigo da Corneta que custára trinta libras a suffocar. Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso, tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.
—Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra tua, usa-o como quizeres...
Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra...
—Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato...
—Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde n'um tormento!
E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho suspiro de consolação.
No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no fumoir, enterrado n'uma poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a pouco subia n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo effeito se aquella confissão do «nosso distincto sportman» surgisse um dia na Gazeta Illustrada ou no novo jornal A Tarde, nas columnas do High-life, sob este titulo—Pendencia d'honra! E que lição, que meritorio acto de justiça social!
Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo, desde Cintra, de que elle era o amante da Cohen—e de que, por esse imbecil de grossas nadegas, esquecera ella para sempre a villa Balzac, as manhãs na colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que lhe tornára o Damaso intoleravel—fôra a sua farofia radiante de homem preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com um dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára sempre o desejo d'uma vingança—pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balão furado...
E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente se declarava bebedo. «Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil de cão gôso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão decisivo documento no fundo d'um gavetão?
Publical-o na Gazeta Illustrada ou na Tarde não podia, infelizmente, por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira que, resentido eternamente da questão com o Damaso em casa da Lola Gorda, correria a lêl-a em segredo na Casa Havaneza, no bilhar do Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a snr.a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração era por confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.
Carlos appareceu n'essa noite, já tarde, transido de frio, com um monte de bagagens—porque abandonára definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mãi Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da Toca. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do marquez, as longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas d'agua, sob o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
—Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por fim Carlos, já não havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
—Immensa! murmurou Ega lugubremente.
Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de boné agaloado que lhe offereciam o Hotel Terreirense e a Pomba d'Ouro. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapéo alto, trazia o cesto em que viajára o reverendo Bonifacio.
Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua robustez de patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde o fim do verão vertigens, um cansaço vago...
—Vocês é que estão excellentes, acrescentou abraçando outra vez Carlos e sorrindo ao Ega. E que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui todo um verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que têm vocês feito?
—Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos sobretudo o projecto d'uma Revista, um apparelho d'educação superior que vamos montar com uma força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe conta tudo ao almoço.
E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas occupações em Lisboa, fallaram da Revista como se ella já estivesse organisada e os artigos a imprimir na officina—tanta foi a precisão com que lhe descreveram as tendencias, a feição critica, as linhas de pensamento sobre que ella devia rolar... Ega já preparára um trabalho para o primeiro numero—A capital dos portuguezes. Carlos meditava uma série d'ensaios á ingleza, sob este titulo—Porque falhou entre nós o systema constitucional. E Affonso escutava, encantado com aquellas bellas ambições de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer á arena, lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia. Então o velho riu. O quê! compôr prosa, elle, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em tres phrases: aos politicos—«menos liberalismo e mais caracter»; aos homens de letras—«menos eloquencia e mais ideia»; aos cidadãos em geral—«menos progresso e mais moral».
Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feições da reforma espiritual que a Revista devia prégar! Era necessario tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no frontispicio—porque Ega queria que a Revista fosse original logo na capa. E então a conversação desviou para o exterior da Revista—Carlos pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma cópia exacta da Revista dos Dois Mundos, n'uma nuance mais côr de canario. E, levados pela sua imaginação de meridionaes, já não era só para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle confuso plano.
Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados:
—Isto agora é sério. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a redacção!
Ega bracejava:
—Pudera! E moveis! E machinas!
Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis, se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas já as difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico e parnasiano de que elle desejava que a Revista fosse o impeccavel modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam impossiveis—sem querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de linha e o fato mal feito...
Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum bric-à-brac da Toca: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a taboleta de verniz preto, com Revista de Portugal em altas letras a ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros, discutida nas soirées do Gouvarinho, folheada na camara com espanto pelos politicos...
—Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle atirando um gesto immenso até ao tecto.
E o mais contente era o velho.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S. Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, Ega não quiz subir.
—Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e fallar-lhe da Revista.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do Hotel Alliança:
—Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot.
—Que é isto?
—Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha você d'ahi ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o Fructo prohibido. Então Craft propôz «botequim e genebra».
—E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigára desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!»
—Canalha! rosnou Ega com odio.
Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição de Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
—Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai receber.
Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da Toca.
—Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora.
—Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar tão sympathico!
—Encantadora! repetiu Ega.
Mas o Fructo prohibido findára, os homens enchiam o peristylo, n'um rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim.
Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo—avistou defronte, na primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, correndo os dedos tremulos pelo bigode.
No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega: outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s. exc.a Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia.
Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde só a via de longe, com vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu collo, ella era outra vez a sua Rachel, dos tempos divinos da villa Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado de felicidade. Lá tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro. Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como então os seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de recordações que o suffocava, o grande leito da villa Balzac, certos beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa á borda do sofá, e a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente, coberta de véos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do quarto, cantarolando a Traviata...
—V. exc.a dá licença, snr. Ega?
Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho á Plateia, fazia confidencias sobre a patrôa, de espanejador debaixo do braço. E Cohen, agora de pé, enchia o meio do camarote, cofiando [as suissas] com um correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um diamante.
Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro, meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de amal-o sempre!»
Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra, cochichavam n'um sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal, gritava pela sua tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se debruçára no camarote com as mãos de fóra, calçadas de gris-perle, descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrára ás mãos, tremendo todo, a gritar «que o salvasse!...»
Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na vespera guardára a carta do Damaso... «Eu t'arranjo!» murmurou elle. E abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que rola, enfiou, ao fundo da praça de Camões, n'um grande portão que uma lanterna alumiava. Era a redacção da Tarde.
Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da Tarde, fôra, havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára sempre devendo tres moedas, os dois tratavam-se por tu.
Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo, sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapéo para a nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de pé, n'um respeito de crentes. N'um vão de janella, com dois homens d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já calvo rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacção, n'aquella noite de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos, tão inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
—Nada de politica, negocio particular... Não te interrompas. Depois fallaremos.
O outro findou a injuria que estava lançando ao José Bento, «essa grande besta que fôra metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do reino»—e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega arrastando-o para um canto:
—Então que é?
—É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na Corneta do Diabo, por uma questão de cavallos... O Maia pediu-lhe explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que vocês publiquem.
A curiosidade do Neves flammejou:
—Quem é?
—O Damaso.
O Neves recuou d'assombro:
—O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta tarde jantei com elle! Que diz a carta?
—Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que é de profissão um bebedo...
O Neves agitou as mãos com indignação:
—E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo politico!... E que não fosse, não é questão de partido, é de decencia! Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa, explicações dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! Tu estás a mangar!
Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na face, teve ainda uma revolta áquella idéa do Damaso se declarar bebedo!
—Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha historia... Deixa vêr a carta.
E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga assignatura floreada, rompeu n'um alarido:
—Isto não é o Damaso nem é letra do Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é «Salcede»? Nunca foi o meu Damaso!
—É o meu Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
O outro atirou os braços ao ar:
—O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não ha outro! Que diabo, quando se diz o Damaso é o Guedes!...
Respirou com grande allivio:
—Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se é o Salcede, bem, acabou-se! Espera lá... Não é um gordalhufo, um janota que tem uma propriedade em Cintra? Isso! Um maganão que nos entalou na eleição passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi uma carta para sahir ámanhã, na primeira pagina, typo largo...
O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a «Reforma das Pautas».
—Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de tudo!
E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho, saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu vozeirão de chefe, affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise arrastára a Lisboa, arrancára á quietação das villas e das quintas. O mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia, perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ás noites, áquelle jornal do partido, saber as novas, beber do fino, uns com esperanças de empregos, outros por interesses de terriola, alguns por ociosidade. Para todos o Neves era um «robusto talento»; admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da Tarde... Mas, através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do touro! E era a grande coisa na Camara—ter a farpa, sabêl-a ferrar!
—Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro.
O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá:
—A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio». Fôra na Camara dos Pares, na reforma da instrucção. Estava fallando o Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe esta:
«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!»
—Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido—o do rapaz mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota na bochecha côr de tomate:
—Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz. Mas já o Neves, de pé, bravejava:
—Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que é a estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega?
Ega murmurou, através do fumo do charuto:
—Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. João da Ega—que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro...
Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão querido de todos:
—Então, na grande faina, Melchior?
—Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os Cantos da Serra, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de dizer!
Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o Melchior:
—Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores. D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se vende e quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da nuca:
—Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes—que fossem jornaes, não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez por baixo e o resto cheio com «annos», despachos, parte de policia e loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios nem Revistas Criticas—que se não fallasse em parte nenhuma.
—Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece pensar em nada...
E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante! Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica, de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem por isso a sua incompetencia...
—Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem incompetentes...
O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
—Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa...
Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr. conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos High-lifes, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez cretinos—mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito alto—nós chafurdamos aqui muito em baixo...»
—E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes, o côro dos jornalistas!
Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa:
—Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era, para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!»
E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o charuto—Melchior arrebatou a penna:
—Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o livro do Craveiro?
Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas tres linhas: «Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo termo—activos. Ega então suggeriu—emprehendedores. Melchior emendou, leu:
—«...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima!
Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em verve. E além d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...
—Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra! Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e demais a mais pertence cá ao partido!
Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal—quando entre elles surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
—Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
—Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande phrase do Gouvarinho...
O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio esperto.
—A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:
—É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe! É uma coisa da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Você não foi á camara quando se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
—Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
—Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz—esse immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o Gouvarinho um imbecil...
—Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
—Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella rinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:
—É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle...
Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
—Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito—o outro, faiscando todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
—Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal tambem se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Historicos a politica era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrorio... Nós mudamos tudo isso. Hoje é o facto positivo,—o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!
E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio—onde o seu grito de «dinheiro! dinheiro!» parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, com a prolongação de um toque de rebate acordando as cubiças, chamando ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou nos tacões, desappareceu tambem, abraçando ao passar um dos padres a quem tratou de «malandro!»
Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, já mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A «questão de cavallos» com que o Neves se contentára promptamente, distrahido e absorvido n'essa noite pela crise,—ninguem mais a acreditaria... O Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações, desesperos que elle assim estivera preparando a Carlos—por causa d'um odiosinho ao Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega decidia correr depois d'almoço á redacção da Tarde, suster a publicação da carta.
Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroça de bois, sobre um enxergão onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha de setim preto da villa Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os céos!
Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o Damaso resurgiu, mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Além d'isso chovia. E decidiu não voltar á Tarde, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, o que dissesse o Damaso? O artigo da Corneta estava extincto, o Palma bem pago.—E quem jámais acreditaria n'um homem que nos jornaes se declara calumniador e bebedo?
E Carlos assim pensou tambem—quando, depois d'almoço, Ega lhe contou a sua resolução da vespera ao vêr o Damaso no camarote, d'olho trocista posto n'elle, a segredar com os Cohens...
—Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da snr.a D. Maria, de nós todos, contando horrores... E então acabou-se, não hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiça de Deus! Não tinhamos paz emquanto o não aniquilassemos!
Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o avô, sabendo o escandalo, se desgostasse de vêr o seu nome misturado a toda aquella sordidez de Corneta e de bebedeira...
—Elle não lê a Tarde, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, é já vago e desfigurado.
Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltára no Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarára depois n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinião do velho foi—que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
—Por esta não esperavamos nós! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. O Damaso torna-se um justo!
De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da Corneta, approvavam a aniquilação do Damaso. Só o Craft sustentou que Carlos lhe devia ter antes dado «bengaladas secretas»; e o Taveira achou cruel que se dissesse ao desgraçado, com um florete ao peito—«ou a dignidade ou a vida!»
Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fôra formado, finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha—Neves no Tribunal de Contas. Já os jornaes do governo cahido começavam, segundo a pratica constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao rei com azedume... E o derradeiro, esvaído echo da carta do Damaso foi, na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria Tarde onde ella fôra publicada, n'estas amaveis palavras:
—«O nosso amigo e distincto sportman Damaso Salcede parte brevemente para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante touriste todas as prosperidades na sua bella excursão ao paiz do canto e das artes.»
VI
Pâle et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Era n'um parque. O luar
Sobre os vastos arvoredos,
Cheios de amor e segredos...
Os raios do sol se somem,
O vento triste se cala...
E as aguias revolteando
D'entre as nuvens estão olhando
Morrer o filho do Homem!
Martyrio do coração!
Espanto da consciencia!
Que toda a humana sciencia
Não solva a negra questão!
Que os tempos passem e rolem
E nenhuma luz assome,
E eu veja d'um lado a fome
E do outro a indigestão!
Pomba da Fraternidade,
Que estendendo as brancas azas
Por sobre os humanos lodos,
Envolve os seus filhos todos
Na mesma santa Igualdade!...
Receaes a grande luz?
Tendes medo do Abecê?...
Então castigai quem lê,
Voltai á plebe soez!
Recuai sempre na Historia,
Apagai o gaz nas ruas,
Deixai as crianças nuas,
E venha a forca outra vez!
Á espada succede o arado,
A Justiça ri da Morte,
A escóla está livre e forte,
E a Bastilha derrocada.
Róla a tiára no lodo,
Brota o lirio da Igualdade,
E uma nova Humanidade
Planta a cruz na barricada!
As rosas têm mais aroma!
Os fructos têm mais doçura!
Brilha a alma clara e pura,
Solta de sombras e véos...
Foge a dôr espavorida,
Foi-se a fome, foi-se a guerra,
O homem canta na terra,
E Christo sorri nos céos!...
VII
Señor Alcalde mayor,
No prenda usted los ladrones...
—Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este desgraçado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Affonso da Maia! Parece que o estou a vêr, á janella do palacio em Bemfica, com a sua grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E lá vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, até se me faz a alma negra!
Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
Ega, depois de beber um gole de café, voltára ao escriptorio, onde o cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado no sofá, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre os braços cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. Os dois velhos amigos, depois d'um abraço a Carlos, partiram na mesma carruagem, com os charutos accêsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem abraçar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoção, lamentando ainda o passado, os companheiros desapparecidos:
—O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem á margem! Senão, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao cemiterio. Adeus, não apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia, á uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o Sequeira levaram o caixão até á porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mão uma corôa de violetas. Na calçada estreita os trens apertavam-se, [n'uma longa] fila que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos véos de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupé. O correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o portão do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as mãos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde havia lume.
Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
—Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
—Não. Para que?... Para lhe dizer o que?
—Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chaminé, despertou as brazas. E Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
—Além d'isso, desejo que ella parta, que parta já para Paris... Seria absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se não liquidar o que lhe pertence, ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaça vem d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ámanhã, para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
Ega murmurou:
—Talvez para essas questões de dinheiro fosse melhor ir lá o Villaça...
—Não, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer córar a pobre creatura diante do Villaça?...
Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
—Custa-te muito, não é verdade, meu pobre Ega?...
—Não... Começo a estar embotado. É fechar os olhos, tragar mais essa má hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão á rua de S. Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais tarde era necessario trasladar para lá o corpo do avô...
—E passado isso, vou viajar... Vou á America, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama distrahir...
Encolheu os hombros, foi devagar até á janella, onde morria pallidamente um raio de sol na tarde que clareára. Depois voltando para o Ega, que de novo remexia os carvões:
—Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava bem, mas não me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braços para Carlos, commovido:
—Atreve, que diabo... Porque não?
—Então vem!
Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraçar o Ega corriam-lhe na face duas grandes lagrimas.
Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma romagem á quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar á mãi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter «bastante para o luxo d'ambos», Ega atalhou muito sério:
—Não, não! Minha mãi tambem é rica. Uma viagem á America e ao Japão são fórmas de educação. E a mamã tem o dever de completar a minha educação. O que acceito, sim, é uma das tuas malas de couro...
Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaça, Carlos e Ega chegaram á estação de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de saltar para o seu compartimento reservado—emquanto o Baptista, abraçado ás mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se içava desesperadamente para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O trem immediatamente rolou. Carlos debruçou-se á portinhola, gritando ao Ega:—«Manda um telegramma ámanhã a dizer o que houve!»
Recolhendo ao Ramalhete com o Villaça, que ia n'essa noite colligir e sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas libras que elle devia entregar na manhã seguinte a Maria Eduarda. Villaça recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, entre amigos, não lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Além d'isso Carlos fallára em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro mil francos, cento e sessenta libras! Não achava tambem exagerado? Para uma mulher, uma simples mulher...
Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
—Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem ainda de ser muito estudado. Não fallemos n'isso. Eu nem gósto de fallar d'isso!...
Depois como Ega alludia á fortuna que deixava Affonso da Maia—Villaça deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. Só o que viera da herança de Sebastião da Maia, representava bem quinze contos de renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que lá fizera o pai d'elle Villaça, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma despeza. Mas as quintas ao pé de Lamego, um condado.
—Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfação, batendo no joelho do Ega. E isto, amigo, digam lá o que disserem, sempre consola de tudo.
—Consola de muito, com effeito.
Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagára. Na ante-camara, os seus passos já lhe pareceram soar tristemente como os que se dão n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz só e dormente.
—Já anda aqui um ar de ruina, Villaça.
—Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um olhar ás tapeçarias e aos divans, e esfregando as mãos, arrepiado da friagem da noite.
Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove horas—depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e morreu. Villaça preparou-se para começar a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final de dois annos de mocidade...
Subiu. E pousára apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiçal na mão tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fôfa a roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o d'uma dôr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e que não tornára a apparecer.
Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaça que dormisse essa noite no Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do gato a chorar. Deixára o montão de papeis sobre a mesa, voltára a aquecer os pés ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentára, ainda todo pallido, no sofá bordado a matiz, antigo logar de D. Diogo, murmurou devagar, gravemente:
—Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros e lendas... Pois fataes foram!
No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Villaça lhe entregára á porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousára apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte—quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.
—Então Carlos?
Ega balbuciou:
—Como v. exc.a póde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, assim de surpreza...
Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella não conhecia o snr. Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o avô!
—Foi de repente, não?
Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corôa que ella mandára. Contou os gemidos, a afflicção do pobre Bonifacio...
—E Carlos? repetiu ella.
—Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ella apertou as mãos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a mais, diante d'aquella partida tão arrebatada, quasi parecida com um abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignação e de confiança que não sentia:
—Sim, com effeito, n'este momento não se pensa nos outros...
Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dôr, tão humilde e tão muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim ergueu-se, foi á janella, voltou, abriu os braços diante d'ella n'uma afflicção:
—Não, não é isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra coisa! Tem sido para nós dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
—V. exc.a lembra-se d'um Guimarães, que vive em Paris, um tio do Damaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
—Esse Guimarães era muito conhecido da mãi de v. exc.a, não é verdade?
Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraço que o dilacerava:
—Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... Deus sabe o que me custa!... E é horrivel, nem sei por onde hei de começar...
Ella juntou as mãos, n'uma supplica, n'uma angustia:
—Pelo amor de Deus!
E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do reposteiro, com Niniche ao lado e a sua boneca nos braços. A mãi teve um grito impaciente:
—Vai lá p'ra dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os lindos olhos de repente cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande chôro magoado.
Então Ega teve só um desejo, o desesperado desejo de findar.
—V. exc.a conhece a letra de sua mãi, não é verdade?... Pois bem! Eu trago aqui uma declaração d'ella a seu respeito... Esse Guimarães é que tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas vesperas da guerra... Elle conservou-os até agora, e queria restituir-lh'os, mas não sabia onde v. exc.a vivia. Viu-a ha dias n'uma carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pé do Aterro, v. exc.a deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da Toca... Pois bem! o Guimarães veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe esses papeis, para que os entregasse a v. exc.a... E nas primeiras palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que v. exc.a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
Atabalhoára esta historia de pé, quasi d'um fôlego, com bruscos gestos de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. Só pôde murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo emmudeceu, assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruçado sobre o sofá, desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou para ella com um papel na mão, atropellando as palavras n'uma debandada:
—A mãi de v. exc.a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave... Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim brutalmente, perdôe-me v. exc.a, mas não é o momento de attenuar as coisas... Aqui está! V. exc.^a conhece a letra de sua mãi. É d'ella esta letra, não é verdade?
—É! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
—Perdão! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho! E v. exc.a não se póde inteirar de tudo isto emquanto eu não sahir d'aqui.
Fôra uma inspiração providencial, que o salvava de testemunhar o choque terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe alli todos os papeis que eram de sua mãi. Ella lería, quando elle sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os dois pesados rôlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre Paris, pôz tudo em cima da mesa, com a declaração da Monforte.
—Agora só mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.a deve fazer já é partir para Paris. V. exc.a tem direito, como sua filha ha de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora é a sua... N'este masso que lhe deixo está uma letra sobre Paris para as despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou já um wagon-salão. Quando v. exc.a decidir partir, peço-lhe que mande um recado ao Ramalhete para eu estar na gare... Creio que é tudo. E agora devo deixal-a...
Agarrára rapidamente o chapéo, veio tomar-lhe a mão inerte e fria:
—Tudo é uma fatalidade! V. exc.a é nova, ainda lhe resta muita coisa na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais nada!
Suffocado, beijou-lhe a mão que ella lhe abandonou, sem consciencia e sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um marmore. E fugiu.
—Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
Foi só na rua do Ouro que começou a serenar, tirando o chapéo, respirando largamente. E ia então repetindo a si mesmo todas as consolações que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o seu peccado fôra inconsciente; o tempo acalma toda a dôr; e em breve, já resignada, encontrar-se-hia com uma familia séria, uma larga fortuna, n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil francos, têm sempre um reinado seguro...
—É uma situação de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no coupé. Ha peor na vida.
Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do dia de inverno, recolheu a pé para o Ramalhete, a escrever a longa carta que promettera a Carlos. Villaça já lá estava installado, com um boné de velludilho na cabeça, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, alguma resolução desesperada. Villaça ainda teve a esperança d'ella trazer alguma nova revelação, que tudo mudasse, salvasse da «bolada»... Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praça, abafada n'uma grande ulster, com uma carta de Madame.
Á luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cartão branco, com estas palavras a lapis: «Decidi partir ámanhã para Paris.»
Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo as escadas: e seguido de Villaça, que ficára na ante-camara á espreita, correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado de luto dizia-lhe (além de detalhes sobre bagagens)—que o wagon-salão estava tomado até Paris, e que elle teria a honra de a vêr em Santa Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um embaraço. Devia pôr «Madame Mac-Gren» ou «D. Maria Eduarda da Maia?» Villaça achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda não era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem já não era Mac-Gren...
—Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a no regalo. E, debruçada á portinhola, entristecendo a voz, desejou saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avô do senhor...
Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma indicação. Era nos Prazeres, á direita, ao fundo, onde havia um anjo com uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. Villaças.
—Merci, monsieur, bien le bonsoir.
—Bonsoir, Melanie!
No dia seguinte, na estação de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o Villaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria que entrava trazendo Rosa pela mão. Vinha toda envolta n'uma grande pelliça escura, com um véo dobrado, espesso como uma mascara: e a mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laço sobre a touca. Miss Sarah, n'uma ulster clara de quadrados, sobraçava um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos, segurava um rôlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que levava Niniche ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo braço, em silencio, ao wagon-salão que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda, estendeu-lhe a mão.
—Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vêr sumir-se n'aquella carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia tão bella, d'ar tão triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o da Tarde e do Tribunal de Contas, rompeu d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braço com sofreguidão:
—Quem é?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, já muito adiante, tragicamente:
—Cleopatra!
O politico, furioso, ficou rosnando: «Que asno!...» Ega abalára. Junto do seu compartimento Villaça esperava, ainda deslumbrado com aquella figura de Maria Eduarda, tão melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma rainha de romance.
—Acredite o amigo, fez-me impressão! Caramba, bella mulher! Dá-nos uma bolada, mas é uma soberba praça!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenço de côres sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso, vendo o Ega á portinhola, atirou-lhe de lado, disfarçadamente, um gesto obsceno.
No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salão que se conservava fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um canto, com a cabeça n'uma almofada. E Niniche assustada ladrou.
—Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
—Não, obrigada...
Ficaram calados, emquanto Ega com o pé no estribo tirava lentamente a charuteira. Na estação mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salão, com olhares curiosos e já languidos para aquella magnifica mulher, tão grave e sombria, envolta na sua pelliça negra.
—Vai para o Porto? murmurou ella.
—Para Santa Olavia...
—Ah!
Então Ega balbuciou com os beiços a tremer:
—Adeus!
Ella apertou-lhe a mão com muita força, em silencio, suffocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracollo que corriam a beber á cantina. Á porta do buffete voltou-se ainda, ergueu o chapéo. Ella, de pé, moveu de leve o braço n'um lento adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, á portinhola d'aquelle wagon que para sempre a levava.
VIII
Luz d'esperança, luz d'amor,
Que vento vos desfolhou?
Que a alma que vos seguia
Nunca mais vos encontrou!
Minh'alma em tempos d'outr'ora,
Quando nascia o luar,
Como um rouxinol que acorda
Punha-se logo a cantar.
Pensamentos eram flôres,
Que a aragem lenta de Maio...
FIM DO SEGUNDO VOLUME
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| Vol. I | |||
| [#pág. 11] | d'um planta | ... | d'uma planta |
| [#pág. 25] | n'eses | ... | n'esse |
| [#pág. 64] | dehruçando-se | ... | debruçando-se |
| [#pág. 71] | mesmo olhos | ... | mesmos olhos |
| [#pág. 82] | o o que | ... | o que |
| [#pág. 151] | appproximava | ... | approximava |
| [#pág. 220] | ningnem | ... | ninguem |
| [#pág. 222] | pararello | ... | paralello |
| [#pág. 290] | quas? | ... | quasi |
| [#pág. 326] | pohre | ... | pobre |
| [#pág. 345] | extraordinrio | ... | extraordinario |
| [#pág. 416] | luvar | ... | luvas |
| [#pág. 423] | hespanhla | ... | hespanhola |
| [#pág. 428] | o os deus | ... | e os seus |
| Vol. II | |||
| [#pág. 84] | ?uvas | ... | luvas |
| [#pág. 276] | o o monoculo | ... | o monoculo |
| [#pág. 324] | a? suissas | ... | as suissas |
| [#pág. 343] | n'um voz | ... | n'uma voz |
| [#pág. 432] | moresse | ... | morresse |
| [#pág. 456] | Celerico | ... | Celorico |
| [#pág. 475] | n'um longa | ... | n'uma longa |
As variações de vôvô (vôvo ou vovô) foram mantidas de acordo com o original.
As variações de nomes próprios foram mantidas de acordo com o original.
No original estão presentes dois capítulos VII (no volume I), rectificados nesta versão.
No volume II verificamos que se passa do capítulo IV para o VII e
a numeração dos capítulos fica alterada a partir desse momento.
Uma vez que não há páginas em falta, rectificámos nesta versão.