Obras do mesmo auctor


O crime do padre Amaro. Quarta edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume1$200
Os Maias. Segunda edição. 2 grossos volumes2$000
A Cidade e as Serras.800
O Mandarim. Quarta edição. 1 volume500
O primo Bazilio. Quarta edição. 1 grosso volume1$000
A Reliquia. Terceira edição. 1 grosso volume1$000
Contos. 1 volume600
As minas de Salomão. 1 volume600
Correspondencia de Fradique Mendes. 1 volume600
Revista de Portugal. 4 grossos volumes12$000
A Illustre Casa de Ramires. 1 volume1$000

No prélo:

Cartas de Inglaterra.
Echos de Paris.
S. Christovam (inedito).

Monumento erigido a Eça de Queiroz
Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes

Eça de Queiroz


Prosas Barbaras

Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
Lello & Irmão, editores


1903
Todos os direitos reservados.

Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.ᵒ da mesma Lei.


Porto—Imprensa Moderna.

INTRODUCÇÃO.

Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.

I

Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se escreveu e se denominou.

Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,—as circumstancias e os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do genio d'Eça de Queiroz.

Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus Folhetins na Gazeta de Portugal, que fôra fundada por Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos antes da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,—em rivalidade com a Revolução de Setembro, dirigida por Rodrigues Sampaio,—o mais brilhante periodico do tempo. A Gazeta de Portugal publicava, além das do seu fundador, frequentes producções de Antonio Feliciano de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz Ribeiro, Zacharias d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,—quasi todos os consagrados de então. Os Novos que ahi escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro appareceram no folhetim, triumphalmente, Matheus de Magalhães, Pinheiro Chagas, Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.») Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, sem contrastes nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas acceites e classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente satisfeito.

Em 1866 a Gazeta de Portugal entrára porém em decadencia; começava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A 14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo, romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,—para muitos, «o mestre», legitimo successor de Almeida Garrett,—despedira-se da direcção litteraria que até então, pelo menos nominalmente, exercera. Os collaboradores litterarios mais assiduos, mais legitimamente representantes do gosto geral, eram já então, no folhetim da Gazeta de Portugal, Santos Nazareth e Luiz Quirino Chaves. Por essa epoca Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o seu romance A Ermida de Castromino, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por O Diamante do Commendador do visconde Ponson du Terrail...

Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns Folhetins assignados «Eça de Queiroz».

Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum tempo, se suppoz serem um pseudonymo.

Os Folhetins de Eça de Queiroz foram todavia notados;—mas como novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a Redacção da Gazeta de Portugal, até aos centros intellectuaes reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então se chamava «a Escola Coimbran»,—centro litterario e philosophico dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente, as scenas, as imagens, os epithetos d'esses Folhetins, lidos em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,—o Severo dos Anjos,—principal e celebre Noticiarista da Gazeta de Portugal, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus Folhetins, epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos, exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:

—Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, que seja inteiramente doido, que haja nos seus Contos, sempre, dois cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em francez.

Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses Folhetins,—em Dezembro de 1867,—já ninguem pensava no author d'elles.

Que importava ao Café Martinho, ao Gremio supposto litterario, e aos circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que; os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.

II

Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias que é inutil mencionar frequentava a Redacção da Gazeta de Portugal, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos.

Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto intenso e amarello desmaiado:

Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo XVI que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II de Hespanha, ou de Henrique III de França.

Era o Eça de Queiroz.

Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente, dando a espaços gargalhadas—ricanements, como se diria em francez,—curtas, e sinistras.

O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda, amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.

Saí n'essa noute do Escriptorio da Gazeta de Portugal com o Eça de Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por annos, não nos separámos quasi.

O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos, deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos, fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo um Escriptorio em Lisboa.

Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.

Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do predio n.ᵒ 26. O seu quarto—pequeno, com uma mesa ao centro e uma estante para poucos livros,—dava para a rua do Principe. Ahi foram, em parte, escriptos os Folhetins das Prosas barbaras.

III

Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:

Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.

Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa continuar a beber café, ás vezes até madrugada.

N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos Contos agora reunidos em volume.

Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.

No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros, cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam, pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o Eterno feminino.

Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com um rolo de papel na mão, dizendo:

—Sou eu, sim, amigo.

E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia, phantasticamente appareciam nos seus Contos, accrescentava:

—Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!

Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:

Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41 da rua larga de S. Roque.

Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso, antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.

Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava, murmurando em voz cava:

—É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!

A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o abat-jour, com longas tiras de papel.

Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa para ir, cuidadosamente,—interrompendo a composição, mas recitando em voz alta as phrases que tinha escripto,—lavar as pontas dos dedos.

Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o papel que olhava muito de perto.

E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não attendia a cousa alguma,—embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.

Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco: As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma, acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe occorria.

Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus Contos, a figura e a voz completavam-lhe as phantasticas creações:

Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica, livido,—na penumbra das projecções do candieiro,—os olhos esburacados por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e espanto, a voz lugubre, sentimental,—emphaticamente pathetica, ou gargalhando sinistramente,—declamava.

Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,—ou estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então, n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.

—Ás casas sem luz,—escreveu Eça de Queiroz,[4]—teem o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.

D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis... Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de se dispersarem pela cidade.

Nas noutes mais serenas,—nas noutes de luar,—saíamos da cidade e íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, conversando, improvisando, até nascer o Sol.

De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, respectivamente, e dispondo as botas á porta,—para que o meu creado as limpasse, sem nos acordar,—tambem, pelo mesmo methodo, ordenadamente emparelhadas.

E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos supersticiosos, murmurava persignando-se:

—É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas: Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.

Na epoca em que se publicaram os Folhetins da Gazeta de Portugal, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo era, por esse tempo,—além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores das origens do Christianismo.

De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:

—Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto humano,—inverosimil, se fôr possivel tanto,—a aventura, a lenda em acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,—o João de Sá Nogueira,—d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.

E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar, que á ceia nos contava,—durante o bacalhau com batatas, o meio biffe, e o Collares,—as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.

IV

Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor historico.

O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores mestres da especialidade em Lisboa.

N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o Pot-pourri e as Variações. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero de Rêveries. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao piano, attingia-se com os Nocturnos de Ravina e Döhler. Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.

Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio de estudo, os Preludios e Fugas de Bach, as Sonatas de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.

Os Folhetins de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos grandes creadores da musica moderna.

Esses Folhetins pareceram-me uma grande novidade,—não tanto nos assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura portugueza, insufficientissimamente revelados.

Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses Folhetins eram, ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua portugueza;—como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição do Romantismo francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas ideias e estylos semelhantes.

N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que geralmente se denomina um Romantico. Elle proprio dizia da epoca immediatamente anterior:

«N'aquelles tempos o Romantismo estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]

E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» que leva ao «hospital romantico...»[6]

Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do espirito perfeitamente determinados,—só as ideias e os sentimentos susceptiveis de clara determinação,—eram n'essa Litteratura expressos. Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, os generos litterarios,—tudo parecia claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII.

Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o branco descobriram-se gradações infinitas.

Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns que podiam ser nitidamente,—como que linearmente,—desenhados, inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das almas.

Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas as nevroses.

Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,—por isso quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.

Toda esta revelação espiritual,—toda esta descoberta de regiões ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,—pareceu ser, ás gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.

A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o nome de Romantismo,—facto esthetico, ainda hoje em busca de sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece poder essencialmente definir-se, como a procura directa de fórmas de expressão, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, para as mais intimas ideias e os mais vagos sentimentos do espirito humano.

Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio e saude normal.

O Romantismo pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa «Edade media».

É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças humanas,—com o integral resultado de forças naturaes que são,—deram fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações de espiritos e actividades.

Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos Romanticos, cuja rasão de ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.

Mas o chamado Romantismo deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o romantico Eça de Queiroz aos Romanticos portuguezes de 1866?

É o que vou explicar:

O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres elementares.[7]

N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, definição, brilho,—e correlativamente perdendo meias tintas, claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os Romanticos das raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.

Eis porque tantos romanticos portuguezes,—no extremo dos paizes claros do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos.

Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do explicavel,—como que para preencher as lacunas deixadas no completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do comprehensivel,—existem com effeito, infinitamente, as necessidades mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.

É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.

Essas fórmas constituem a Arte e a Litteratura mystica e phantastica.

A França,—a mais norte das Nações definidoras,—recebeu, em grande parte, a sua Litteratura phantastica da Allemanha. Da Allemanha, por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.

E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades intimas e latentes, me commoveu ella,—a mim e a outros espiritos contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos das raças e dos climas claros e definidores do sul.

V

Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de Queiroz,—aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu posso dar testemunho,—fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.

A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,—a de Heine,—foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por Anthero de Quental sob o nome de Primaveras romanticas, e no que este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se tambem nas poesias primeiro escriptas para o Seculo XIX de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de Lyra meridional, por Antonio de Azevedo Castello Branco.

Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas traducções francezas,—algumas feitas pelo proprio author, outras por este em collaboração com Gerardo de Nerval,—um caracter novo.

Heine é para mim,—e não é para todos ainda hoje, mesmo na Allemanha,—um dos maiores escriptores das linguas germanicas. Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos biblicos.

Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,—que eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,—quando Eça de Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos Reisebilder onde Heine,—a quem a musica sempre suggeria fórmas e côres definidas,—conta as transformações phantasticas porque a seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos auditorios.

Em muitas paginas das Prosas barbaras se encontra a influencia d'esta lenda phantastica de Paganini.

O conto a Ladainha da dôr, que tem o proprio Paganini por assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As Notas marginaes[12] parecem estancias do Intermezzo ou do Livro de Lazaro.

Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da França no Romantismo germanico. Foi elle o primeiro traductor francez do Fausto de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.

É evidente, nas paginas das Prosas barbaras, a influencia dos proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:

Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...
Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé
Porte le soleil noir de la mélancolie!...[13]

Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição mythographica e profunda,—sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua Historia de França,—da Edade media, da Renascença e da Reforma,—e, na Sorcière, pela materialisação sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do Diabo,—foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz.

H. Heine,—allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um espirito francez,—Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e completa das suas obras, que o Romantismo phantastico principalmente impressionou a Eça de Queiroz.

Por toda a parte, nos escriptos das Prosas barbaras, se encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma pelo segredo da circulação do sangue»,—que passam de continuo nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os Minnesingers errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua Melancolia, onde correm as caçadas phantasticas do Freischütz e passam os Imperadores do Santo Imperio, Fausto, Mephistopheles, Margarida, Luthero... Spohr Weber...

O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em volume das Flores do Mal só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado.

Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, impassivel, correcto de maneiras e toilettes, sempre preoccupado com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas methodisada. Cria na arte o frisson nouveau que Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a vibração.[15]

São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de transição, quando, gradualmente impressionado pelo Realismo e por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de escriptos.

Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan Poe, que Eça de Queiroz,—ainda então ignorante de inglez,—só conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com que o espirito americano determinou o nevrosismo das Historias extraordinarias, accentua-se ainda mais,—privado, em todo o caso, da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,—nas fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.

Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,—Musset, Gautier, Mallefille,—é sensivel n'este primeiro periodo da vida litteraria de Eça de Queiroz.

As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se são pouco numerosas e superficiaes:—quasi sómente as da poesia popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,—João de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o Milhafre[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas poesias.[18]

Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que nova lingua portuguesa.

Mas esta Introducção ás Prosas barbaras tem por fim explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas reunidas n'este livro.

VI

Na intenção d'Eça de Queiroz os Folhetins da Gazeta de Portugal,—apesar da sua desconnexão episodica,—formavam serie, obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica, cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas, pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:

A

Symphonia de abertura[19]1866Outubro7
Macbeth»»14
Poetas do Mal[19]»»21
A Ladainha da dôr»»28
Os mortos»Novembro4
As Miserias: I Entre a Neve»»13
Farças[19]»»18
Ao Acaso[20]»»27
O Miautonomah»Dezembro2
Mysticismo humoristico»»23

B

O Milhafre[22]1867Outubro6
Lisboa[23]»»13
O Senhor Diabo[24]»»20
Uma carta (a Carlos Mayer)»Novembro3
Da Pintura em Portugal[21]»»10
O Lume»»17
Mephistopheles (J. Petit)[25]»Dezembro1
Omphalia Benoiton[21]»»15
Memorias d'uma forca»»22

O primeiro Folhetim em data,—março de 1866,—as Notas marginaes,—tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma trova á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na Gazeta de Portugal, fóra do seu logar.

Porque os Folhetins teem uma introducção formal,—uma Symphonia d'abertura, que se publica a 7 de outubro de 1866,—e continuam, quasi sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do mesmo anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a publicação: Dos primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside no Alemtejo, onde funda e redige o Districto d'Evora, periodico politico, litterario e noticioso. Os folhetins da Gazeta de Portugal recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo anno de 1867.

A Symphonia de abertura[26] prepara, com efeito, o espirito para a ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles a phantasia,—livremente, irregularmente, fragmentariamente,—esboça, suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:

Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde os templos de Ellora,—onde elles andavam ferozes por entre os Elephantes,—até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».

N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente estabelece a sua communicação com os homens,—a Arte.

Da historia visionaria d'esta,—na longa peregrinação divina,—a Symphonia de abertura, faz-nos ouvir,—adagio ou vivace, piano ou forte,—alguns trechos maravilhosamente instrumentados:...

«Quando» os povos—na Chaldea, no Egypto, na Grecia,—«plantavam tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo mysticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as proprias estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»[27]

Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:

A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».

A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, dissipando-se nos amollecimentos divinos...»

«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos silencios que se exhalavam divinamente no canto...»

Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos versiculos...»

«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»

Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões da carne...»

Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»

Chega-se assim aos tempos modernos:

«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e Shakespeare. A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para colher a flôr do ideal.»[28]

A melancolia dá côr ao Romantismo...

«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: Fausto, Manfredo, Lara, Antony, Werther, Rolla, D. Juan...» que saem então de «toda uma mocidade pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»

«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,—eis ahi a Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29]

Constitue-se emfim a Musica moderna:

«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor da Arte...»

E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do palpavel... d'ondeante como seda invisivel».

Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da Symphonia de abertura.

Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os Cantos fragmentarios d'um immenso Poema:

O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes, e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.

Com este vago thema geral, o Poema em prosa d'Eça de Queiroz propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,—todas as vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados d'uma escala musical;—era a phantasia tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do christianismo,—a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria pallida e doce figura de Jesus,—vão egualmente perder-se e ser esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o calculo demonstravel.[30]

Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32] recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo ao apparecer de novas crenças.

O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então, a ironia,—que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do seu espirito,—fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é illusorio, que só parece povoado por metaphoras,—e enternece-se, e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade, vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]

Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente reaes,—da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em Coimbra,—é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que o seu espirito procura expressão.

Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da arte.

VII

Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a necessidade de metrificar,—quasi que o mesmo genero de necessidade de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas das mais patheticas inflexões.

Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos technicos da metrificação.

São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos alexandrinos:[35]

Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,
Tu vencerás em mim o intimo Deus bom
Não com as armas biblicas com que bateste os astros,
Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.

Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36]

Serenata de Satan ás estrellas

Nas noites triviaes e desoladas,
Como vos quero, mysticas estrellas!...
Lucidas, antigas camaradas...
Gotas de luz no frio ar nevadas,
Podesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,
Que Christo estaes no Céo crucificando?
Quem triste pelo ar vos foi soltando
Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
Doces serões do Céo entre as estrellas!
Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
Ai! sementes de luz mal semeadas,
Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!

Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
Quando vos eu dizia soluçando:
—Afastai-vos de mim cardos de luz!—
Podesse eu ter agora os pés bem nus,
Inda por entre vós i-los rasgando!


Hoje estou velho, e só, e corcovado;
Causa-me espanto a sombra d'uma estola;
Enche-me o peito um tedio desolado:
E corro o mundo todo, esfomeado,
Aos abutres do Céo pedindo esmola.
Eu sou Satan o triste, o derrubado!
Mas vós estrellas sois o musgo velho
Das paredes do Céo deshabitado,
E a poeira que se ergue ao ar calado,
Quando eu bato com o pé no Evangelho!
O Céo é Cemiterio trivial:
Vós sois o pó dos deuses sepultados!
Deuses, magros esboços do ideal!
Só com rasgar-se a folha d'um missal,
Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
Eu sou expulso, roto, escarnecido;
Mas a vós já ninguem vos quer as leis
Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!
Lembrae-vos que sois pó enegrecido
E cedo em negro pó vos tornareis.[37]

Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de improvisação poetica:

Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.

A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.

Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.

Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré enchente fez-nos fluctuar.

Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.

Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo, continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle apenas pagaria um insufficiente repasto.

Que fazer?

—Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,—fazendo o gesto consagrado de bater na testa.—Tenho uma ideia genial,—accrescentou, erguendo tremulamente os braços ao Céo:—Sigam-me.

E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á calçada que leva de Belem á Ajuda.

Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.

Seriam quasi 5 horas da manhã.

Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janellas cerradas, e bateu.

Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus somnos.

O Eça de Queiroz explicou-nos:

—Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um tiro. Só elle nos póde salvar, n'este deserto.

E continuou a bater durante minutos.

Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.

—Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello, com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,—sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...

O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.

—Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,—disse o Eça de Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.

Voltámos a Belem.

E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:

Christo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos tres pintos:
Qual d'elles deu a verdade?

O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera jámais fazer versos,—mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas humanas.

Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.

Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz, eram d'uma graça scintillante.

D'outra vez dois dos nossos amigos,—o capitão João de Sá e o Zagallo,—convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.

Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego. Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares, um dinheirão que não tinhamos na algibeira.

Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.

O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.

Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno, rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormiramos eram caiadas. Então,—depois de almoçarmos ainda a credito,—com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo e hilariante, mixto, como genero, do Childe Harold e D. Juan de Byron, do Mardoche e Namouna de Musset, do Intermezzo de Heine, e da Fabia de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de versos.

Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela phantasia, pela graça, pelo inesperado.

VIII

Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa, quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes louros, bigode lourissimo pendente.

Acordámos.

—Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.

—Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.

Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza Chavarro.[39]

—Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de Rezende.

N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,—um Restaurante celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de assumptos inintelligiveis.

N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do Romantismo, descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o Realismo na arte, fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade, da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no estylo, na toilette,—a apotheose de todas as correcções. Terminámos, depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,—o inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.

Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de Rezende:—Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le chevalier de Queiroz,—diziam jornaes do Cairo. Assistiram á inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.

Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,—o Anthero de Quental e eu,—na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda não viramos:

Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, um plastron que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um collarinho altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento. Tinha na cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E olhava-nos com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle por isso, abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no canto do olho direito.

Abraçámol-o com enthusiasmo—e cobrimol-o de epigramas.

Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos bazares do Cairo, no deserto egypcio,—os guias, os cheiks, e á noute, em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica, sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador, por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados.

Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso do Haschich, e as visões phantasticas que nos preparava,—por que elle e o conde de Rezende haviam trazido Haschich em geleia, em bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes.

Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o monoculo e exclamar em voz desmaiada:

—Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu apoplêté! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus saes?!...

E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que aspirava soffregamente.

Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma lingua nova.

Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,—não o podiamos largar.

As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo, profundamente modificado.

Citava especialmente a Salammbó e a Tentação de Santo Antão de Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, com a realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a Vida de Jesus, o São Paulo, de Ernesto Renan, e as Memorias de Judas, de Petrucelli della Gattina.

Foi sob estas influencias que,—com as impressões locaes da sua recente viagem á Palestina,—começou em Lisboa, a escrever a Morte de Jesus, publicada em folhetins, na Revolução de Setembro, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870.

Mas havia escripto, além do que se publicou,—uns capitulos que elle me leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.

IX

Entre os Folhetins da Gazeta de Portugal e a Morte de Jesus na Revolução de Setembro, medeiam quasi 3 annos.

Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de Queiroz continuava.

Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro esboço, muito desenvolvido,—tão extenso que levou varias noutes a ler,—d'um romance intitulado Historia d'um lindo corpo.

Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra era, até certo ponto, se bem me recordo, a do Affaire Clémenceau de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida á influencia dos processos da Madame Bovary, e da Educação Sentimental de Gustavo Flaubert.

Pouco depois,—em 1871,—Eça de Queiroz descrevia n'uma das Conferencias democraticas do Casino, o Realismo na arte, expondo as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente descriptas, por Proudhon, no livro Do principio da arte e do seu destino social.

O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso de sentimento.

Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos antigos Contos phantasticos da Gazeta de Portugal e lhe reli, se não me engano, As memorias d'uma forca.[40]

Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo—dizia elle,—na construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.

Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:

—Tens talvez razão,—está claro, tens razão. Talvez se deva republicar isso em livro;—mas sob o titulo critico e severo de Prosas barbaras.

Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,—e de todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.

Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:

Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão maravilhosamente vivêra.

Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,—por esse tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:

—«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no phantastico,—n'aquelle velho phantastico da Gazeta de Portugal, feito agora com menos abutres, e em prosa talvez menos barbara que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa de São Frei Gil;—e por signal,—dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos achamos sob arvoredos,—que a nossa riquissima lingua portugueza me parece deficiente em côres com que se pintem selvas;—e tambem te confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o santo bruxo n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».

Cintra, Setembro de 1903.

Jayme Batalha Reis.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Hoje, travessa do Gremio Luzitano.

[2] Veja-se Eça de Queiroz. Um genio que era um Santo. Anthero de Quental. In memoriam—Porto, 1896, pp. 499-502; J. Batalha Reis, Annos de Lisboa, Idem, 442-445.

[3] Hoje, rua do Diario de Noticias.

[4] Pag. 107 do presente livro.

[5] Veja-se p. 133 do presente volume.

[6] 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se tambem a Carta a Carlos Mayer, pp. 133-145.

[7] «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior, como o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, Da Pintura em Portugal, Gazeta de Portugal, 10 de Novembro de 1867.

[8] «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra portugueza, com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, Symphonia de Abertura, Gazeta de Portugal, 7 de outubro, 1866.

[9] «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental, Carta a Wilhelm Storck, 14 maio 1887.

[10] Pp. 27-43 do presente volume.

[11] H. Heine, Reisebilder. Les nuits florentines, II, 316-330, (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).

[12] Pp. 2-13 do presente volume.

[13] Veja-se pp. 8, XV; 10, XX; e passim, no presente volume.

«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» Symphonia de abertura, Gazeta de Portugal, 7, outubro, 1866.

[14] Veja-se pp. 5, VIII; 89, 98 e passim do presente volume.

[15] «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de Queiroz) Leituras modernas. Districto d'Evora, 6, janeiro 1876, p. 2.

[16] Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131.

[17] Vejam-se pp. 93-101 do presente volume.

[18] O Monge, destruida pelo author e nunca publicada.

... aux voûtes gothiques
Des portiques,
Les vieux saints de pierre athlétiques
Priant tout bas pour les vivants!

A. de Musset, Premières Poésies, Stances, 1828.

[19] Não incluido no presente volume.

[20] Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.

[21] Não incluido no presente volume.

[22] Tem uma Introducção omittida no presente volume.

[23] Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente volume.

[24] Tem uma pequena introducção omittida no presente volume.

[25] Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit omittida no presente volume.

[26] Gazeta de Portugal. 7 de outubro 1866.

[27] «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente livro.

[28] Veja-se Victor Hugo, William Shakespeare; principalmente, Livre II; Les Génies, II. Veja-se tambem p. 22 do presente volume.

[29] Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de Musica.

[30] «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça de Queiroz, O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal, 6 de outubro de 1867.

[31] De l'Allemagne. Les Dieux en exil, IX partie, pp. 181-242 (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).

[32] La Sorcière.

[33] Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.

[34] As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas que a sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.

«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.

[35] Omphalia Benoiton, Gazeta de Portugal, 15 Dezembro, 1867.

[36] Os versos citados na Revista Moderna (20, Novembro 1897, p. 324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na Revolução de Setembro, em folhetins,—como tambem na Revista Moderna se affirma,—os primeiros cantos d'um poema, A tentação de S. Jeronymo. Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas inedito, um poemeto sobre este assumpto.

[37] Revolução de Setembro, 29 de Agosto de 1869.

[38] Hoje conde de Rezende.

[39] Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul geral de Portugal nas ilhas Sandwich.

[40] Vejam-se pp. 161-172 do presente volume.

PROSAS BARBARAS