LENDAS DOS VEGETAES.

DO MESMO AUCTOR:
Os reptis em Portugal.
A fauna dos Lusiadas.
Guia do Naturalista.
Ninhos e ovos.
Á Beira mar.
Notavel transplantação de uma palmeira.
Esboço biographico de Adolpho Frederico Moller.
Jornal de Horticultura Pratica (1889, 1890, 1891, 1892).

Typ. de A. R. da Cruz Coutinho. Caldeireiros, 28 e 30.

LENDAS

DOS

VEGETAES,

POR

EDUARDO SEQUEIRA.

PORTO—1892.

AO AMIGO

ALFREDO FERREIRA DIAS GUIMARÃES.

TIRAGEM UNICA DE 70 EXEMPLARES.

Ex. n.º 26

offerecido

por

INDICE.

[ROSA MUSGO.]

O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.

Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e tão risonhos projectos de felicidade.

Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga, allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus, esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs, esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem amado.

Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta, despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar a manhã.

Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel encontrar em todo o bosque.

Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a madrugada.

Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.

Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo, ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior.

Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e perfume tão distinctamente brilhavam?

Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos lhes não causassem damno algum.

E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da missão de que fôra encarregado.

E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...

[CARVALHO.]

Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no sólo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, espetou a pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo quanto lhe oppunha obstaculo aos seus designios.

Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi noite; procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar d'ella uma pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo, enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo.

Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes possuira.

Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas identicas arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do vigor.

Estas arvores são os carvalhos.

[CHÁ.]

Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta de morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, profundas e completas d'uma legião de crentes que habitam nos misteriosos recessos das florestas da India, d'essa terra das lendas e das maravilhas. Havia annos que vivia n'uma gruta em ardente adoração; de estar sempre de joelhos creara calosidades que lhe não permittiam endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e appareciam do lado opposto.

Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe conselhos.

Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar. Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições, dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno! Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si quantidades enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do ferro em brasa, ou fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu desespero chegou a fazer cortar as palpebras cuidando assim que espancaria para longe o somno, mas a tortura foi baldada. Os olhos permaneciam abertos mas Dakkar dormia!

Uma tarde,—havia dias que estava sem comer—orava o fakir fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...

Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...

Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas.

Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.

Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus esforços. Venci o somno!

Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.

O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador do somno foi o chá.

[PAPOULA.]

N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.

Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de descanso.

Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes, emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia dizer como ninguem.

Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...

Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.

[CHICÓRIA.]

Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á purissima alvura da sua cutis.

Era um encanto.

O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa felicidade.

Porém um dia o amor tudo transtornou.

Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das castas e bellas lendas d'amor.

Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas féramente medonhas.

Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para nunca mais voltar.

A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida.

Mas debalde esperou.

Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos...

Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de paixão.

Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr que pelo bello azul que a tinge faz recordar os castos olhos da candidissima princeza.

[ABOBOREIRA.]

Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia presencear o castigo da cidade maldita.

Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um sol de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do propheta, que este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse, attenuando-lhe de alguma fórma a intoleravel ardencia dos raios solares. Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se erguia do sólo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o propheta, contentissimo e consolado, pensando que poderia gosar da bella frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio prestado. Mas n'isto, tão repentinamente como brotára do sólo, a planta seccou e reduziu-se a pó, deitando assim n'um instante por terra as doces esperanças do santo propheta. Esta planta era a aboboreira.

[CHRISANTHEMO.]

Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e centenas de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza mais seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe Yoshimtsou.

Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com as côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da bella japoneza.

Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas maduras, mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo.

A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e ella tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que mais era digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam abençoando a Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a justa e a santa princeza Tou-Ki.

Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil côres diversas.

Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a população. Tudo era dôr, lagrimas e luto.

A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se ante os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga cruel para que não sabiam remedio.

Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki. Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de quem todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos abandonados, consolando e animando os tristes. E a sua popularidade cresceu tão espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam aos pés, e era adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra.

Mas—crueldade da sorte!—quando a peste terminava, quando já todos, applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu povo estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se esta receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe não deixasse empolgar a bella presa preciosa.

Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do seu bem.

O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro de um extenso e alegre campo de arroz.

Poucos dias depois—caso estranho!—o local onde jasia o corpo da gentil princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas, desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel da sua alma purissima.

De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo, celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz.

[ROSAS.]

As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm a seu respeito.

Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de rosas.

Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.

A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas, a rosa deu o nome ás festas da primavera (rusalija), a Virgem christã que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas e tem tambem o nome de rosario o cordão com contas, primitivamente composto com tractos da Rosa canina, com que as mulheres piedosas marcam as suas rezas.

Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da christandade.

Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem como signal distinctivo uma rosa.

Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas flores preservavam da embriaguez.

A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos cyprestes.

Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal e morte.

Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as vermelhas.

Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.

Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua historia:

«Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as mais illustres allianças.

O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva belleza respondeu aos amantes que a importunavam: Não é facil obter um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me. Quem me quizer ha-de vencer-me.

Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.

Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:

Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este templo. Tiremos Diana do altar.

A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a orgulhosa rainha, mas uma arvore.

Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.

Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos olhos dos adoradores que a amaram.

Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e esforçou-se pola vingar.

Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a prejudicar lhe serviram de defesa.

Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a metamorphose não mudou».

O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:

«Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana, Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.

Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia».

Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por Joseph Balmont:

«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo sêr.

N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no mesmo estado.

Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando melodiosamente, approximou-se da planta.

Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.

Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».

Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava:

«A rosa canina passa na Allemanha por sinistra e diabolica.

Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.

Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.

Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje chamam aos fructos, Judas-beeren (bagas de judas).

[ACONITO.]

O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.

[APAMARGA.]

Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (Achyrantes aspera), uma vulgar planta indiana.

Segundo uma lenda do Yagúrveda negro (II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.

Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herba apamarga, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.

[TRIGO.]

Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como d'elle se fabricava pão.

O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo que lhe forneceu um saborosissimo pão.

[AMOREIRA NEGRA.]

Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico de Morus nigra, tem uma commovente e celebre historia de amor.

Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, que o despedaçou, tingindo-o de sangue.

Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.

Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o corpo do amante.

Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre, negros.

[CEDRO.]

O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.

Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.

Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente deliciosas, uma chinesa e outra egypcia.

Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.

Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do do marido.

O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos, eternisar transformado o seu amor.

A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.

Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.

Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e que é a mais formosa que até então existira.

Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.

Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia.

A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e com elle consegue vencer Batou e obter a mulher.

Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo da vida de Batou.

O cedro então é cortado e Batou morre.

Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.

Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se n'um touro que todo o Egypto venera.

A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, nova transformação de Batou.

O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella assiste jubilosa.

Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova incarnação de Batou.

[MARMELLEIRO.]

O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo considerado como um penhor de amor.

Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade altamente celebrou.

Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á deusa, um marmello com a seguinte inscripção: Pela divindade de Diana, juro que serei esposa de Akontius.

A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.

[ROMÃ.]

A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos que o tinham em especial estima.

Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.

Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes contidas nos fructos.

Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as sementes que d'elle se espalharem pelo sólo.

A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.

Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, e é por isso—diz Oppiano—que estas aves nunca pousam na romanzeira, evitando-a cuidadosamente.

[AÇUCENA.]

Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos chamavam a flôr das flores.

Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e correndo pelo sólo além deu origem á via lactea e á açucena.

A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e feiissimo pistillo.

[PALMEIRA.]

Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.

A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser santificada pelo christianismo.

Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.

Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical.

Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer—como mais tarde fez—a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.

[RABANETE.]

A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.

O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados entre altas montanhas.

Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as donzellas morriam.

A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e, montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do diabo.

[TABACO.]

Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.

Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e crúa guerra.

Para uns era a herva santa, o remedio certo e seguro de todas as doenças, para outros a herva do diabo, a herva maldita, a origem de todos os males.

A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras receitas.

Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.

O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e d'esta para a creança. É uma praga universal.

Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais curiosa é a dos Tchumaches.

Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um escuro bosque.

O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico fumo que ellas desenvolviam.

Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro nauseante, embriagador, egual ao do tabaco.

[MILHO.]

As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da riquesa.

Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a propriedade do sólo.

Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.

Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que tocava.

Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.

Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da egreja não restava nenhum.

As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle momento passava por acaso na rua.

As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ella.

Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha.

Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.

A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro.

[CANNAS.]

Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda colhida em Rebordinhos, Bragança:

Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia:

Toca, toca, ó pastor,
Os meus irmãos me mataram
Por tres maçãsinhas de ouro,
E ao cabo não as levaram.

O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.

Toca, toca, ó pastor,
Os meus irmãos me mataram
Por tres maçãsinhas de ouro,
E ao cabo não as levaram.

[NARCISO.]

Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se orgulhava em extremo.

Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva o nome.

Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.

Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.

[ALGODÃO.]

Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição aos homens brancos.

[CHORÃO.]

N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia, condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais crescessem mais haviam de virar para o sólo.

[LARANGEIRA.]

É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como emblema da castidade, da puresa absoluta e completa.

Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e deliciosos fructos.

Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:

«Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino rico, maravilhoso, é o reino de Portugal; e no Piemonte chamam sempre portogallotti ás laranjas. Portugal é a região mais occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico paix, assim tambem a laranja, o portogallotto e a maçã das Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os gregos como os piemonteses, chamam ás laranjas πορτογαλιά os albaneses protokale e os proprios kurdos portoghal.

Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou na Europa.

O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda edição das suas Nouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine (Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa informação: «Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que devemos um fructo tão excellente».

A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a que apresentamos relativa á laranjeira.

A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego restituiu-lhe a vista.

[CARDO.]

Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e lendario facto:

Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada.

[MAÇÃ.]

A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.

Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.

Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará.

No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.

A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.

Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a romã, ora a laranja, o figo e a maçã.

Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na lua e outra no sol que nos alumia e aquece.

[FIGUEIRA DA INDIA.]

A figueira da India (Ficus religiosa) é venerada na India principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.

Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é considerado local sagrado. A veneração dos indios pelo ficus religiosa, é devida á seguinte lenda:

Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha, sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje téem.

[MAIAS.]

No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 da Revista de Guimarães, o dr. Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:

«Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças menores de dous annos, que encontrassem em Belem.

Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta carnificina,—tal era o odio de morte que votava ao menino—que os prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se informaram logo da sua morada—que tinha á porta um ramo de maias como signal,—mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.

Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.

Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, e pelo milagre das maias, salvou-se milagrosamente o rei dos judeus».

[ABOBORA.]

Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.

A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de que as restantes não são mais que incorrectas variantes.

Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro, cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.

A segunda lenda—lenda americana—explica assim o diluvio.

Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados, deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada.

[ARROZ.]

É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos.

Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem antes ter feito as suas abluções.

Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas ceremonias funerarias.

A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso, com musicas e bençãos dos brahmanes.

Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor intensidade dos seus raios seccadores.

Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma gotta de suor de Mahomet e que o Kuskussú, o querido manjar nacional fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet, sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, comia antes um pouco de Kuskussú.

A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.

Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o, introduzindo-o depois no seu paiz.

Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da abundancia.

[ZIMBRO.]

Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia do Natal.

A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:

Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria annualmente á sua mais doce e sympathica festa.

[NOGUEIRA.]

A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração.

Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados que—ai de nós!—para sempre desappareceram do mundo, e eram estes saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz e prolifico agouro para os noivos.

Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que esperar muito pelo anciado marido...

Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»...

No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a noz o mesmo valor da nossa figa.

Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.

[CLEMATIS INTEGRIFOLIA.]

Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:

«Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta é Tziganca (planta dos Bohemios) ou Zabii kruéa ou Sinii lomonos. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos chefes, que os incitavam á resistencia. O hetman, não os podendo conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a terra dos tartaros.

Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou a Clematis integrifolia. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto pediram a Deus, que este mandou semear a Clematis na Ukranie. E desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se com grinaldas da Tziganka, que passou a ser uma planta nacional».

[MOSTARDA.]

Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos orientaes symbolo da geração.

Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.

A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.

O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos no templo de Ceylão.

O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo coberto d'uma planta até então desconhecida.

Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.

[TILIA.]

D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal portuense Diario do Commercio, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda sobre a tilia:

«O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.

Ah! como são bellas as tilias portuenses!

Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e—confessem! confessem!—nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma elegante toilette pompadour, na Praça de D. Pedro—é o cumulo da audacia e do protesto contra o meio, mesmo em face do domus municipalis, que é o grande laboratorio das coisas sujas.

Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. Pedro.

Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais longe.

Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que era então rei de Portugal.

Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, beijando uma gotta de sangue.

Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra vida, em noites de luar.

Ah! como eu amo as tilias».

[LEITUGA.]

A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.

Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel dissabôr.

Alberto o Grande, no seu curioso livro De secretis mulierum diz que a leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não virgem: Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est corrupta, statim mingit.

Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.

Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos ardores do sol, um massiço de leitugas.

Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle morreu pouco tempo depois.

Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia e outros seis na de Venus.

Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e ficasse livre os restantes quatro.

[OLIVEIRA.]

A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.

Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os livrar do granizo e das inundações.

Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.

As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.

Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte:

Si me vuo' bene, salta salticchia,
Si me vuo' male stá fissa fissa.

Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder completamente a esperança de encontrar marido.

Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal de que no quarto de cama quem manda é a mulher.

Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a Minerva a deusa da sabedoria.

Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á cidade o nome de Athenas.

Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus fabricaram a cruz em que pregaram Christo.

Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou.

O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos moribundos como simbolo da vida eterna.

A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz a origem de toda a vida terrestre.

[MYOSOTIS.]

O myosotis (Hieracium pilosella) a deliciosa florsinha das margens dos regatos, a Nontiscordar di me dos italianos, a Vergissmeinnicht dos allemães, e a Oreja de raton dos hespanhoes, tem sido cantada pelos poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe dedicam particular e especial estima.

E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos.

É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas.

Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do myosotis no nosso globo.

Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava, afogou-se de pezar.

As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram.

[MYRTHO.]

O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento, tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como planta bem amada.