JULIÃO E A BIBLIA
«O pequenito parece que se vae saindo»
EMILIO MARTINEZ
JULIÃO E A BIBLIA
TRADUZIDO DO HESPANHOL
POR
GUILHERME DIAS
3.ª EDIÇÃO
LIVRARIA EVANGELICA
RUA DAS JANELAS VERDES, 32
LISBOA
IMPRENSA LIMITADA
Marianos—Rua das Janelas Verdes
LISBOA
CAPITULO I
A benção de Deus
Ao cair duma tarde de primavera, entramos no pateo duma casa situada na rua dos Embaixadores, em Madrid, onde nos chamaram, desde logo, a atenção duas janelas que, a julgar pelo ruido que delas sahia, uma devia ser a da oficina dum carpinteiro, e a outra a dum latoeiro.
Perto desta ultima janela, uma mulher já de edade, a julgar pelos seus cabelos brancos, estava sentada, lendo com grande interesse um livro, que tinha sobre os joelhos. Não podemos, pela posição em que ela está, ver o seu rosto, porém chama-nos a atenção a seriedade com que lê o livro e o desejo, que se lhe nota no rosto, de aproveitar na leitura os ultimos instantes que lhe restam da luz do dia.
Não sabemos que estranha simpatia nos arrasta para aquela mulher.
De repente, entra no pateo um rapaz, que diz:
—Senhora Josefa, o mestre chama-a.
Então ela levantou a cabeça, porém a surpreza, em que estavamos, não nos deixou ouvir a resposta. Aquele nome, aquelas feições e aquela voz traziam-nos á memoria uma pessoa a quem muito estimavamos, e uns acontecimentos que seguramente se nos tinham apagado da memoria.
Josefa atravessou o pateo e desapareceu.
—Quem é esta senhora?—perguntámos ao rapaz que neste momento recolhia a cadeira em que Josefa estava sentada.
—A mãe do mestre—respondeu-nos ele, e desapareceu por uma porta, que havia no pateo, e que dava passagem para a loja do vidraceiro.
Então sahimos para a rua, e, olhando para a vitrine duma loja que ha ao lado do portal, a nossa vista foi fixar-se no seguinte letreiro, que se lê no cimo dela:
JULIÃO
Vidraceiro, Chumbeiro e Latoeiro
Este nome tambem nos traz á memoria uma pessoa e um facto, e a nossa surpreza foi grande quando a porta da loja se abriu e apareceu nela um rapaz, a quem havia bastante tempo conheceramos quando era ainda menino, disputando com um sacerdote.
Efectivamente, este homem é Julião, e a senhora que lia no pateo era Josefa, a vendedeira.
Mas que mudança! Quem havia de reconhecer neste joven o filho de Josefa?
Pouco depois da epoca em que o conhecemos, o Senhor lhe proporcionou trabalho em casa dum bom mestre, onde, ao fim dum ano, se cativou das suas simpatias.
Era o mestre de Julião de edade avançada, viuvo e pae duma joven de 19 anos, que o tratava com todo o carinho duma boa filha, e a qual se chamava Maria das Dôres.
Ao cabo dum ano, que Julião esteve á frente da casa, progrediu esta de tal maneira que o mestre não deixava de falar em toda a parte no seu oficial. Passados dois anos, depois que Julião estava em casa do mestre, viu-se este atacado duma pneumonia, e, sentindo que os seus ultimos momentos se aproximavam, chamou Julião e disse-lhe:
—Julião, tu tens-te portado em minha casa como um homem de bem... os meus ultimos momentos aproximam-se, e desejo, já que outra coisa não pode ser, que me dês a tua palavra de honra que continuarás em minha casa sendo o que eras até aqui... Lembra-te de que esta casa é o amparo duma orfã, e de que, se tu nos deixares, não sei o que será dela... eu bem queria... mas...
E o ancião deteve-se como se temesse dizer alguma inconveniencia.
—Mestre—respondeu Julião soluçando,—Deus não quererá que morra, mas, se essa fôr a Sua vontade, cumpra-se... eu lhe prometo que continuarei velando pela casa com mais solicitude do que até aqui... e que Maria das Dôres será para mim uma irmã... já que outra coisa não...
—Julião—disse-lhe o seu mestre,—fala claro; um velho que se acha ás portas da morte faz-te este pedido.
—Pois bem—respondeu Julião,—já ha tempo que, comigo mesmo, tenho admirado as virtudes e prendas que adornam sua filha, porém o receio de que me atribuissem fins interesseiros, pela diferença de posições, obrigaram-me a calar e a não dizer palavra.
—Graças te dou, oh meu Deus—exclamou o ancião,—porque coroaste os meus desejos.
E, mandando chamar a filha, depois de consultar a vontade dela e de receber a aprovação de Josefa, Julião e Maria das Dôres se receberam por marido e mulher, na presença do oficial do registo civil. Pouco depois falecia o mestre de Julião.
A benção de Deus se estendeu sobre os dois esposos até ao ponto de conceder-lhes, como fruto do seu matrimonio, um menino, ao qual pozeram o nome de Paulo.
Tal é o estado de Julião e sua familia.
Já que é nosso amigo, entremos na sua loja. Nada ha de extraordinario que nos chame a atenção, excepto um quadro em cartão, colocado numa das paredes, que diz:
Lembra-te de santificar o dia de descanço. Trabalharás seis dias, e farás neles tudo o que tens para fazer; o setimo dia, porém, é o dia de descanço consagrado ao Senhor, teu Deus; não farás nesse dia obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o peregrino que vive das tuas portas para dentro; porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra e o mar e tudo o que neles ha, e descançou ao setimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia setimo e o santificou.
Vamos agora travar conhecimento com um dos visinhos de Julião,—o dono da oficina de carpinteiro.
Chama-se João, homem de 65 a 68 anos. Apezar desta edade, ainda está vigoroso, e, se não fôra por algumas dôres que sofre, em consequencia de ter dormido muitas noites ao relento, no tempo da guerra dos sete anos, estaria forte como um rapaz. O seu caracter é bom, liberal desde a medula dos ossos, e é sargento da Guarda Nacional.
A sua familia compõe-se de Brigida, sua esposa, e uma joven de 18 a 20 anos, chamada Antonia, fresca e louçã como as flores de maio e na qual ele faz consistir toda a sua felicidade.
João está despedindo os oficiaes e aprendizes, dizendo-lhes:
—Vinde ás dez horas; já sabeis que ámanhã é dia de Santo Antonio, e que não se trabalha.
—Porém, mestre—observou um—a obra que ha oito dias encomendaram tem de se entregar na segunda feira.
—Nesse caso, trabalharemos no domingo até ás tres horas da tarde. No dia de Santo Antonio não se préga um prego em minha casa; é o dia do santo do nome de minha filha, e tanto basta. Ás dez horas aqui vos espero para o baile: não esqueçaes as guitarras; até eu hei-de bailar... É Santo Antonio quem vae presidir á festa. Minha filha poz-lhe no altar o docel de veludo, que me custou cerca de dez libras, e se lhe acenderão pelo menos quarenta luzes. Ide ver o altar.
Todos ficaram admirados do bom gosto que presidiu ao adorno do altar, e, pensando já no divertimento que iam ter, sairam alegres, esfregando as mãos de contentes.
Quando o mestre ficou só, avistou Julião, que brincava com o filhinho, e, dirigindo-se a ele, disse-lhe:
—Boas noites, visinho.
—Boas noites, sr. João—respondeu Julião.
CAPITULO II
Devoção e... vinho
O pequenito parece que se vae saindo.
—É verdade, sr. João—respondeu Julião. Depois de guardarem alguns momentos de silencio, disse Julião:
—Porque não se senta, sr. João?
—Com muito gosto—respondeu este, sentando-se num banco ao lado de Julião, e acrescentando: Como vamos com respeito a trabalho?
—Tenho mais do que o que se pode fazer. Acabo de tomar uma encomenda de caldeirões para um regimento de artilheria, e trabalhamos sem cessar, graças a Deus.
—Pois eu tambem tenho muito que fazer. Alem do trabalho da casa, ainda tenho oito obras de fóra.
—Eu—continuou Julião—vou começar a fazer serão de ámanhã em deante.
—Como assim?—perguntou o carpinteiro—vae trabalhar ámanhã, que é dia de Santo Antonio?
—E porque não? Ámanhã, no meu entender, é um dia como os outros.
—Certamente—replicou o sr. João.—Olhe, eu não sou lá muito amigo dos santos; mas no dia de Santo Antonio não consinto que em minha casa se prégue um prego. É santo a quem quero muito, porque é o advogado da minha filha. É verdade que eu devia trabalhar ámanhã, porque na segunda feira tenho de entregar umas travessas! Mas, dia por dia, prefiro trabalhar no domingo.
—Trabalhar ao domingo é coisa que eu não farei, porque Deus assim o manda e é preciso obedecer-Lhe.
Neste momento, Dôres, Brigida e Antonia assomaram á porta das suas respectivas habitações, cumprimentando-se ao mesmo tempo.
Dôres pegou no menino, que estava ao colo do marido, e dirigiu-se para a carpinteria, a cuja porta estava a sr.ª Brigida acenando-lhe para que fosse ter com ela.
Deixemos os dois homens continuar na sua conversação e escutemos o que dizem as duas mulheres.
—Que me quer, sr.ª Brigida?—disse Dôres ao chegar.
—Que nos deixes ver o teu filho.
—Pois está bem gorducho—disse com orgulho Dôres, apresentando-lhe o menino.
—Oh! está lindo como os amores!—insistiu Brigida, tomando o menino nos braços, e acrescentando:—Ah! que se o seu avô o visse!...
—Por fim—interrompeu a mãe de Antonia—tu foste feliz, porque perdeste um pae muito bom mas encontraste um marido tão bom como ele.
—Isso é verdade; não tenho motivos senão para dizer bem do meu Julião.
—Deve querer muito ao filhinho, não é verdade?—perguntou Antonia.
—É cego por ele—respondeu Dôres.
—É natural—acrescentou a sr.ª Brigida—Como é o primeiro e está tão lindo... Santo Antonio o abençôe.
—Senhora Brigida—respondeu Dôres, pegando no menino,—abençoando-o Deus, é quanto basta.
—Filha, e os santos tambem, e porque não?
—É que—disse a filha do carpinteiro—Dôres tem presente o rifão que diz: O que Deus não quer, santos não podem; não é verdade?
—Pois olhe—disse Brigida,—eu tenho muita fé em Santo Antonio, porque é um santo de muita virtude, ou ele não fosse chamado Advogado dos impossiveis. Sem ir mais longe, outro dia perdi uma nota do banco de 100 pesetas; imediatamente acendi uma véla a Santo Antonio que tinha na sala, rezei-lhe um Padre Nosso, e em seguida, remexendo bem na comoda, no terceiro gavetão, onde eu não costumo guardar dinheiro, encontrei a nota; desde então não ha de faltar ao santo, todos os dias, uma lamparina acesa. Já vês, pois, que...
—Pois eu não vejo nisso outra coisa senão que com o andar do tempo perderá realmente as 100 pesetas, gastando-as em azeite com o santo. Demais, se, em logar de haver mal gasto o tempo em rezar e acender luzes ao santo, tivesse remexido bem a comoda, teria achado o seu dinheiro, pois que não estava perdido; se em vez de o ter metido na comoda, o tivesse deixado cair na rua, veria como Santo Antonio não lho traria a casa.
—Filha, és muito incredula!
—De modo nenhum, senhora Brigida, eu creio...
—Em quem crês? Porém não é isso; o que eu pergunto é: Qual é o Cristo da tua devoção? É o Cristo do Prado, da Fé, o Cristo do Perdão, ou, emfim, qualquer dos muitos outros Cristos?
—A nenhum desses, porque não conheço mais do que o Cristo, Filho de Deus, que está nos céus.
Neste momento foi interrompida a conversa, porque lhes chamou a atenção um tropel de gente que vinha rua acima. No meio da multidão, vinham dez ou doze rapazes com guitarras e bandurras, e na frente deles um rancho de mulheres, jovens tambem, e vestidas ao uso do povo, de saias redondas, como eles dizem, porém com luxo. Ao chegar á oficina do carpinteiro, deixaram de tocar, pararam, e o que fazia de director disse:
Vá; siga a seguidilla.
As guitarras deram a entrada, e uma mulher cantou:
Ó Antonio glorioso
Livrae-nos de todo o mal,
Alcançando-nos a vitoria
De toda a força infernal.
—Senhores, lá para dentro toda a gente—disse o sr. João;—porém onde estão essas mulheres?... Brigida... Antonia...
—Ah! mãe!—exclamou Antonia,—vão entrar, e eu não queria que me vissem emquanto não estivesse com o vestido novo.
—Sim?—respondeu a mãe,—pois verás como tudo se arranja!
Brigida dirigiu-se para a porta, e chegou ainda a tempo para dizer ao marido, que vinha á frente dos convidados:
—Alto lá! não é permitida a entrada até que o santo, o presidente da festa, esteja devidamente preparado.
—Muito bem, exclamaram a uma voz todas as pessoas presentes.
A mãe de Antonia entrou, fechando a porta sobre si, e momentos depois, quando a filha já estava com o seu vestido novo, veiu de novo á porta, dizendo:
—Podem entrar.
Homens e mulheres penetraram na sala, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos, cada um procurou logar, ficando algumas mulheres ajoelhadas deante do altar, rezando ao santo.
—Senhores—exclamou João,—emquanto se prepara a ceia, entretenham-se como puderem. Cantem e bailem umas seguidillas.
Oh’ Santo Antonio,
Meu amante coração,
Quer na vida, quer na morte,
Sêde a nossa salvação.
—Bravo! bravo!... venha de lá outra, disseram alguns.
As guitarras continuaram tocando, e outro rapaz cantou:
Ó Antonio glorioso,
A ti chego confiado,
Que nas minhas aflições
Hei de ser remediado.
—Agora, para poder continuar—disse o que tinha cantado—é preciso que venha vinho para molhar as guelas.
—É isso mesmo—exclamou entusiasmado o mestre carpinteiro—tem razão o rapaz. Vinho tinto, sim, porque sem ele não se pode tocar, nem cantar, nem bailar. O vinho é preciso para tudo, e tanto que sem ele os padres não podem dizer a missa. Bem se expressou aquele que disse: «Onde não ha vinho não ha talento». Brigida,—acrescentou ele, dirigindo-se a sua mulher—enche um cangirão com vinho e tral-o cá.
Deixemos agora que se divirtam e festejem o santo portuguez a seu modo. Entretanto vamos visitar o nosso amigo Julião e sua familia.
O nosso amigo, acompanhado de sua mãe, está sentado á mesa, á espera que lhe sirvam a ceia. O pequenito Paulo dorme no seu berço, e Dôres vem da cosinha com a comida, que coloca em cima da mesa.
Á sala, onde estão, chega o ruido que vae na casa de seu visinho João.
—Demos graças ao Senhor—disse Julião, depois que Dôres se sentou á mesa.
Todos inclinaram a cabeça, e Julião dirigiu a Deus a seguinte oração:
—Oh! nosso Deus! Damos-Te graças pelos bens que nos dispensas, dando-nos saude, trabalho e sustento; abençôa a minha familia, e o meu filhinho, abençôa a oficina, e perdôa a esses pobres cegos ali do lado que Te estão ofendendo; lembra-te dos pobres e dos enfermos; o que tudo Te pedimos pelos merecimentos de Jesus Cristo, Nosso Salvador. Amen.
—Conte-nos agora—disse Julião, dirigindo-se a sua mãe,—o que vocemecê leu hoje na sua Biblia.
—Cheguei ao versiculo 25 do cap. 11 do Evangelho segundo S. Mateus, onde Jesus diz: «Graças Te dou a Ti, Pae, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sabios e entendidos e as revelaste aos pequeninos». Meditei sobre isto, e que grande verdade é que Deus nos revelou coisas tão importantes que as podemos sentir mas que nunca poderemos expressar!
—Oh! sim—exclamou Julião.—Deus ensina-nos diariamente coisas muito boas, não é verdade, Dôres?
—Oh! sim—respondeu ela,—a mim tem-me ensinado, por Sua misericordia, muitas coisas; a principal tem sido mostrar-me que sem Jesus Cristo eu era uma pecadora perdida, e que, graças a Ele, agora sou salva; antigamente eu andava fazendo obras que julgava meritorias, taes como dar dinheiro para sufragios, jejuar, ouvir missa, etc.
—E eu—disse a mãe de Julião—que me fiava nos conselhos dos confessores, e mandava dizer missas, acender velas aos santos; que comprava a Bula da Santa Cruzada, para poder comer carne, e a Bula dos Defuntos! E a respeito das indulgencias? Se algum valor elas tivessem, eu ganharia mais indulgencias do que cabelos tenho na cabeça! Quando penso no erro em que vivi, estremeço de medo!
—Pois eu—disse Dôres—ainda me lembro de que não havia dia nenhum, em que fosse ao mercado fazer as compras, que não lançasse dinheiro na caixinha das almas!
—Oh! terrivel conta—disse Julião,—teem que dar a Deus aqueles que se esforçam por manter no erro a gente simples e credula.
—E quanta gente vive por esse mundo enganada!—exclamou a mãe de Julião.
—Eu—interrompeu Dôres—sinto-o por todas as pessoas com quem trato, porém sinto-o de preferencia por Antonia, á qual desejava tornar conhecida a verdade. Tanto ela como sua familia são muito boas pessoas; desde creança quero-lhe como a irmã.
—Sim—disse Josefa;—no emtanto repara como passam a noite, cantando e bailando deante dum altar. O erro dos romanos vae tão longe que lhes faz colocar sob o mesmo teto Deus e o diabo ao mesmo tempo. Bailando adoram, e adorando bailam.
—E o peor é—acrescentou Julião—que não levam geitos de se emendarem. A inobservancia do domingo é coisa muito má, e eu vejo com grande sentimento que o nosso visinho prefere trabalhar no dia de domingo, comtanto que guarde o dia de Santo Antonio; quer dizer: profana o dia do Senhor para guardar o dia dum santo imaginario. A regeneração das classes trabalhadoras deve principiar pela observancia do domingo; para elas o dia do repouso é uma necessidade para se refazerem as forças fisicas que se gastam nos outros seis dias. Eu por mim mesmo tenho observado que aqueles que trabalham os seis dias e não descançam ao setimo gastam-se mais depressa, e gozam menos saude, do que aqueles que guardam o dia do Senhor: e isto sem falar do concernente á saude da alma.
Neste momento, tendo acabado já de cear, chamaram á porta que dava para o pateo. Julião levantou-se, indo abril-a, e Antonia, acompanhada de outra joven, apresentou-se na sala, onde ainda estavam sentadas á mesa Dôres e Josefa.
—Deus lhes dê boas noites—disseram ambas ao entrar, e a filha do carpinteiro acrescentou:
—Venho da parte de meu pae dizer-lhes que teria muito prazer se viessem cear comnosco.
Julião e sua mulher acompanharam a filha do carpinteiro e a sua amiga a casa.
—Mestre, mestre—exclamou o carpinteiro ao ver entrar Julião,—venha cá para o meu lado e sirva-se dalguma coisa.
—Muito obrigado, sr. João—respondeu Julião,—porém permita-me que não me sirva de nada; sua filha é testemunha de que nos viu sentados á mesa.
—Bem, não me importa—disse o carpinteiro,—hoje ha em minha casa carta branca para que cada qual faça o que quizer em honra de Santo Antonio; que todos se divirtam e que ninguem esteja triste.
A ceia continuou sem nenhum incidente, até que á sobremesa o sr. João disse:
—Agora os brindes; que cada qual brinde por quem quizer.
Julião estava sentado na cadeira, pensando no triste estado daquela gente. Dôres falava com Antonia e outras raparigas da sua edade.
—Brindo—exclamou o sr. João—por Santo Antonio, que é o santo de minha filha, pela liberdade, e para que fiquem confundidos os inimigos da ordem.
Ao brinde do dono da casa corresponderam os convidados, bebendo cada qual o seu copo. A este brinde sucederam-se outros.
Um dos assistentes, joven ainda, oficial de confeiteiro, observou que Julião não tomava parte nos brindes, e, fazendo convergir sobre ele as atenções de todos, disse-lhe:
—Então vocemecê porque não bebe? Não gosta de vinho?
—Não bebo—respondeu Julião—porque acabo de cear em minha casa, e eu não costumo beber senão ás comidas.
—Ora—disse o confeiteiro com modos impertinentes—isso será muito bom para a saude, porém eu creio que o vinho é sempre bom.
—Cada um tem as suas idéas, e eu tenho as minhas.
—Pois olhe: o que a mim me parece é que vocemecê tem cara de padre, e que se não brinda é porque não é homem.
—Ai!—exclamou Julião com toda a calma,—por aquilo que eu brindaria seria para que Deus lhe desse mais juizo e menos palavriado.
Uma gargalhada geral ressoou em toda a sala ao ouvirem as palavras de Julião. Este, conhecendo, pelo estado dos convidados, que aquilo não era logar proprio nem para ele nem para sua esposa, deixou a sala, despedindo-se cortezmente de todos.
O baile prolongou-se até á uma hora da madrugada; não havia cabeça que estivesse em si. O sr. João, numa linguagem ininteligivel, disse:
—Senhores... ámanhã... disse... ámanhã... será dia. Proponho que vamos á horta, ao campo... como ha que madrugar... é preciso dormir... com que cada mocho a seu souto... tenho dito.
—Bem, bem!—exclamaram todos com alegria.
—Ordem, companheiros!—gritou com voz um pouco rouca o confeiteiro;—antes de nos separarmos venha mais um gole e dancemos o galope infernal.
—Sim, sim, disseram alguns, vamos ao galope infernal.
Encheram-se os copos e esvasiaram-se, e as guitarras tocaram desafinadamente. Alguns pares começaram a bailar... Bailar? Melhor diriamos que aquilo não era baile, mas sim dança de furias; aquela massa de gente empurrava-se e pisava-se, indo dum lado para o outro. Por fim sucedeu o que era de esperar. O confeiteiro e a sua companheira cairam no chão e aos outros aconteceu o mesmo, por estarem com a cabeça toldada pelo vinho.
Que scena! homens e mulheres, em revolta confusão, rolando pelo chão; o calor sufocava! as vozes, no meio das quaes se ouviam alguns ais, ensurdeciam, e tudo isto diante do santo da sua devoção! Por fim foram levantando-se conforme poderam, os devotos do santo, á excepção duma joven que ficou estendida no chão, por efeito duma pancada violentissima que havia recebido. Então é que foram os lamentos e os ais; uns resavam ao santo, outros abriam roda, e abanavam com os lenços, e finalmente Antonia correu ao seu quarto por um frasquinho de essencia que, aplicado ao nariz da pobre menina, fêl-a voltar a si.
Finalmente, depois do susto que tiveram, o que é muito natural, os convidados sairam para a rua, ficando só a familia da casa. Antonia entrou no seu quarto chorando, porque na ocasião do baile tinha caido, e na queda tinha partido um dos brincos, perdendo tres diamantes que tinha mandado engastar nele.
Que dirão seus paes? Encontrará Santo Antonio os diamantes?
CAPITULO III
No dia de Santo Antonio
Amanheceu o dia 13 de Junho do ano de 18.. puro e sereno. Dois estabelecimentos dos muitos que ha na Rua dos Embaixadores estavam ainda fechados ás cinco e meia da manhã, e dois grupos bem distintos um do outro estavam batendo a cada uma das respectivas portas.
Estes dois estabelecimentos eram: a oficina do sr. João e a oficina do nosso amigo Julião. Á porta deste estão quatro homens e dois rapazes vestidos com a roupa do trabalho, com um pequeno saco na mão, que continha, certamente, o almoço, preparados para se entregarem ao trabalho, apezar de ser o dia de Santo Antonio.
A porta de Julião abriu-se, e aqueles que estavam á espera entraram.
O grupo que aguardava que o sr. João ou alguem da sua casa désse sinaes de vida compunha-se de jovens dum e doutro sexo, com guitarras e bandurras, vestidos com a sua roupa domingueira.
Depois duns minutos de espera, tambem foi aberta a porta, aparecendo o sr. João, que disse:
—Bons dias, senhores.
—Bons dias, sr. João.
—Já veiu o carro?
—Sim, já está á porta.
—Nesse caso, que vá um rapaz buscar a canastra.
O sr. João transmitiu a ordem, e um dos moços do carro entrou, voltando depois com uma canastra á cabeça em que iam as viandas e no cimo uma bateria de garrafas de vinho, o que foi saudado pelo grupo quando o viram, com gritos de entusiasmo, entre os quaes se distinguia a voz dum deles, que disse:
—Viva Santo Antonio, e as Antonias e todos os que estamos aqui reunidos! Sobretudo viva a festa e o prazer!
A conversa interrompeu-se porque o sr. João apareceu na loja, e logo em seguida sua mulher e filha. Ao verem esta, um—viva a filha do mestre!—ressoou na oficina.
Quando estavam subindo para a carruagem, chegou um pedreiro á porta da loja do mestre carpinteiro, dizendo-lhe:
—O senhor vae passar o dia ao campo?
—Sim; que queres?
—Venho do mando do mestre de obras para ver quantos caixilhos posso levar.
—Dize-lhe que hoje não levas nenhum; é dia de Santo Antonio e não trabalho.
—Porém, veja bem, mestre, que um partido de operarios não pode trabalhar se se não levar isso para a obra.
—Pois que vão para o campo assim como eu.
O rapaz retirou-se. Entretanto Brigida e Antonia falavam com Julião e Dôres, á porta da sua oficina. Instavam com eles para que os acompanhassem, porém em vão.
—Nesse caso, se teimam em ficar—disse Brigida,—não deixem de olhar cá pela casa.
—Esteja descançada—disse Julião,—que nós olharemos pela sua casa.
Brigida despediu-se, e a sua filha, aproximando-se de Dôres, disse-lhe ao ouvido:
—Ai, Dôres! mau dia de Santo Antonio vamos ter. A vespera foi má e o dia não será melhor! Depois te contarei tudo.
Como passaram o dia as personagens da nossa historia?
Vamos dizer-vol-o em poucas palavras, tanto quanto nos seja possivel.
Julião passou o dia trabalhando, e tanto ele como sua familia e oficiaes gozaram perfeita tranquilidade.
Quanto ao mestre carpinteiro, vamos encontral-o com sua familia e amigos no campo pelas cinco horas da tarde.
Todos se acham alegres, como é natural, quando se vae passar o dia ao campo, e especialmente á hora de comer.
—Vamos—disse neste momento mestre João,—trinchemos estas aves, como dizem os ricos.
—Quem fala agora aqui de ricos?—Vivam os pobres!
—Viva a liberdade!—gritou João.
—Viva!!!
—Olha—perguntou o confeiteiro—para que queres tu a liberdade?
—Homem... eu... para... que sim... porque meu avô foi muito liberal... e odiava os padres, a religião e os ricos.
—Que não se fale aqui de politica—disse uma mulher.
—Sim, sim, para fóra daqui a politica; falemos antes de religião, o que está na ordem do dia desde que chegaram aqui os protestantes. Falemos, pois, de religião, como falou hontem á noite o mestre Julião, que tem cara de padre.
—Pois falemos de religião—disse uma das pessoas presentes; e, dirigindo-se ao confeiteiro, disse-lhe: Tu que és? catolico apostolico romano, ou judeu?
—Homem—respondeu ele—eu sou hespanhol.
Uma gargalhada geral acolheu esta resposta.
—De que se riem vocês?—perguntou ele—Eu nasci em Madrid, portanto sou hespanhol.
—Isso nada tem que ver. És cristão?
—Sim.
—Catolico apostolico romano?
—Sim.
—Nesse caso crês no Papa.
—Eu não creio no Papa.
—E nos padres?
—Tão pouco.
—E na Virgem?
—Sim.
—Pois então não és católico apostolico romano, porque não crês no Papa.
—Lembra-te de que ele é infalivel.
—Sim, e exactamente agora, porque é infalivel, perdeu ele o poder temporal, e contra ele se levantam os proprios catolicos. Ha pouco li num jornal, de que sou assinante, que o padre Jacinto, esse padre ou frade francez que tanto tem dado que falar, vae casar-se, e o mesmo vae fazer um sabio alemão que se chama... não me posso recordar agora do seu nome; o certo é que eles dizem que os padres devem ser casados.
—Isso é que é uma grande verdade—disse outra pessoa presente,—os padres devem ser casados; assim não se presenciariam certos escandalos...
—Mas é que o Papa—disse outro—é muito provavel que saia de Roma, apezar de toda a sua infa...li...bi...lidade.
—Em vista de tanta trapalhada que ha na egreja e tanta palhaçada—exclamou o sr. João—eu não sou nada; o que me ensinaram meus paes isso ensino eu a minha filha; porém eu... creio que ha um Ser supremo, mas que não intervem em coisa alguma deste mundo; faço o bem que posso, respeito os santos, e não me meto com ninguem; e com isto tenho a certeza de ganhar o céu, se é que o ha.
—Isso sim—exclamaram alguns—isso é que é ser cristão.
Assim continuou a conversação, expondo cada qual as suas idéas religiosas.
Segundo eles, fazer o bem que se pode fazer, crer num Ser que é antes um não ser, visto que em nada intervem, e respeitar os santos, eis o que é preciso para uma pessoa ser cristã e salvar-se.
Que cegueira! E quem tem a culpa de tanto erro? Não hesitemos em o declarar; a culpa tem-na em sua maior parte um clero tão ignorante como fanatico, porém sobretudo tão egoista, que não ergue a voz senão quando se vê ofendido nos seus interesses materiaes.
Ha milhares e milhares de pessoas como o mestre João, excelentes paes de familia, homens honrados segundo o mundo, porém em questões religiosas, já por vezes o temos observado, com o facto de fazerem o bem que podem dão-se por satisfeitos. Erro! lamentavel erro! Aqueles que em tal coisa crêem que escutem o que disse Jesus ao doutor da lei.
«Mestre—disse um doutor da lei a Jesus—o que é preciso que eu faça para alcançar a vida eterna? E Jesus lhe disse: O que está escrito na lei? Como lês tu? E, respondendo o doutor, disse: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, com todas as forças do teu entendimento, e o teu proximo como a ti mesmo.—Bem falaste (respondeu Jesus); faze isso e viverás».
Faze isso e viverás; não basta fazer uma parte, é preciso fazer tudo para a gente se salvar. Porém agora surge esta pergunta: Pode o homem fazer tudo? Não. Para ele cumprir a lei, ganhar a salvação da sua alma, é impossivel; porém temos um Substituto que fez tudo; foi-nos dado um que não deixou nada por fazer. Esse um é Jesus Cristo, e só por Ele temos redenção, justificação e santificação. Sim, pela fé em Jesus temos assegurada a salvação da nossa alma. Sem a fé em Jesus nada temos.
Porém voltemos á reunião.
É já quasi noite, e os amigos do mestre João, este e sua familia, preparam-se para irem para suas casas. Ao subirem para o carro, o boleeiro ria como um perdido na almofada, e por mais que fizessem para o dissuadirem disso não poderam.
O carro partiu, e todos iam alegres e contentes.
O confeiteiro começou a sentir-se incomodado com o movimento do carro, e principiou a gritar:
—Parem! parem! he! he! sinto-me incomodado: quero...
Inclinou-se para um lado, e, sem que ninguem podesse evital-o, caiu do carro abaixo. O cocheiro fez um supremo esforço para parar os cavalos, porém em vão; não o pôde fazer senão depois de terem dado alguns passos.
Toda a gente, soltando gritos de horror, desceu do carro, e foi logo para junto do confeiteiro, que jazia estendido no chão, banhado em sangue, sendo necessario transportal-o para a casa mais proxima.
Houve uma pessoa que, apezar da muita devoção que tinha a Santo Antonio, não pôde deixar de exclamar:
—Se Santo Antonio não tivesse vindo ao mundo, nem tivesse amanhecido o seu dia, não se teria perdido com isso coisa nenhuma. Ao passo que outro acrescentou: «Melhor nos teria sido passar o dia com Julião, trabalhando na oficina, e ganhando para nós e nossas familias».
CAPITULO IV
Consequencias
São decorridos quinze dias desde o dia de Santo Antonio até hoje. Em casa do mestre João deve ter havido alguma coisa de extraordinario. Reina lá uma agitação fóra do costume; as mulheres andam apressadas dum para outro lado e o rosto de mais duma delas está humedecido pelo pranto. Que terá sucedido?
Consequencias duma vespera e dum dia de Santo Antonio.
Quer pela perda dos diamantes, quer pelo susto que recebeu com a queda do moço confeiteiro, Antonia veiu para casa doente.
No dia seguinte manifestou-se-lhe uma febre tão intensa que o medico declarou que não havia tempo a perder, pois via-a ameaçada duma congestão cerebral. Acrescentou que o caso não podia ser mais grave, e que, portanto, seria conveniente que se preparasse espiritualmente.
A pessoa que recebeu esta noticia foi a Dôres.
A mãe de Antonia estava como fóra de si; o pae chorava como uma creança, e para dizer tudo numa palavra—todo e qualquer teria pena daquela familia, tão triste agora como alegre ainda não havia muitos dias.
Dôres transmitiu a noticia a uma tia de Antonia, a qual disse que não a comunicava aos paes dela. Por fim, depois de muita hesitação, resolveram dizel-o a um sacerdote que vivia na mesma casa. Chamava-se Francisco, era ainda novo, um tanto instruido e, apezar de fanatico nas suas idéas religiosas, gozava de bastantes simpatias entre os seus freguezes.
As mulheres despediram-se do padre Francisco, e dez minutos depois um aprendiz de Julião entrou na oficina do carpinteiro, dizendo:
—Sr. João, o meu mestre pede-lhe que vá á loja dele, pois que precisa muito de falar-lhe.
O carpinteiro seguiu o rapaz, e, logo que avistou Julião, este disse-lhe:
—Boas tardes, sr. João. Como vae Antonia?
—Mal, muito mal. Filha da minha alma!
—Senhor João—disse Julião muito comovido—não se aflija. Emquanto um doente tem vida, ainda ha esperança. Venha comigo cá para dentro, que temos que falar.
Quando chegaram á sala e se sentaram, Julião deixou que o seu amigo se tranquilisasse um pouco, e chamou por sua mãe para que trouxesse um copo de agua.
—Então, sr. João!—disse a senhora Josefa, apresentando-lhe o copo com a agua—não se entregue á dôr dessa maneira, tenha confiança em Deus.
—Deus, Deus—exclamou o carpinteiro,—Deus não ouve, Deus está...
A senhora Josefa ia a responder, porém um gesto de Julião indicou-lhe que saisse, e assim o fez, dizendo:
—Jesus está em toda a parte.
—Senhor João—disse Julião quando sua mãe saiu,—ha sucessos na vida mediante os quaes é posta á prova a alma do homem. Quando um pae sofre o que vocemecê está sofrendo, e crê e confia em Deus, não se desespera assim.
—Não sei, Julião, o que teem as suas palavras, que tanto me consolam; porém, não, não, minha filha não deve morrer tão joven... eu proprio a disputarei a Deus.
—Quer disputal-a a Deus?
—Sim, como?
—Pela oração.
—Eu não sei rezar, nem quero; o que quero é minha filha.
—Tão pouco eu quero que reze; o que eu quero é que se volte para o Senhor com humildade, dizendo: «Senhor, não te deixarei se não me abençoares; ofereço-Te minha filha, faze dela o que fôr da Tua vontade; sómente Te rogo que ma deixes, ou que me dês forças para sofre este golpe no caso de ma levares; tem piedade de mim, em nome de Jesus».
—Eu não sei dizer isso; eu não sei orar.
—Não? Pois então diga ao Senhor: «Senhor, ensina-me a orar...» Jesus disse: «Tudo o que pedirdes em oração, tendo fé, recebereis».
Estavam nisto quando bateram de mansinho á porta da sala.
Julião abriu, e o P.ᵉ Francisco entrou, saudando João e Julião, que por sua vez corresponderam á saudação.
—Pois, senhores, deixo-os sósinhos—disse Julião.