XLVII
Colecção
Horas de Leitura

Enrique Perez Escrich

HISTORIA

DE UM

BEIJO

2.ª Edição

1912
GUIMARÃES & C.ª—Editores
68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70
LISBOA

Historia de um Beijo

COMPOSTO E IMPRESSO NA IMPRENSA
DE MANUEL LUCAS TORRES
RUA DIARIO DE NOTICIAS, 93

Colecção Horas de Leitura

Obras publicadas, a 200 réis o volume

1 a 4—Ivanhoé, de W. Scott, (2.ª edição) 800

5—O frade negro, por Clemencia Robert, (2.ª edição) 200

6 e 7—As Semi-Virgens, de Marcello Prévost, (3.ª edição illustrada) 400

8—Werther, de Goethe, (3.ª edição illustrada) 400

9—Madame Flirt, de Jaques Yvel, (2.ª edição) 200

10 a 12—A Taberna, de Zola, (2.ª edição) 600

13—O Vigario de Wakefield, de Goldsmith, (2.ª edição) 200

14—A vida aos vinte annos, de Dumas, filho, (2.ª edição) 200

15—A agua profunda, de Bourget, (2.ª edição) 200

16—O dominó amarello, de Marcello Prévost, (2.ª edição) 200

17—Cortezã, de A Belot, (2.ª edição) 200

18—O Rosquedo, de Delfim Guimarães, (2.ª edição) 200

19—Os Vagabundos, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200

20—A escravidão moderna, de Tolstoi, (2.ª edição) 200

21—Os degenerados, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200

22—A Dama das camelias, de Dumas, filho, (3.ª edição illustrada) 200

23—As Virgens, de G. d'Annunzio, (2.ª edição) 200

24—Na prisão, de Maximo Gorki, (2.ª edição) 200

25 e 26—A Dama das perolas, de Dumas, filho, 400

27—Varenka Olessova, de Maximo Gorki, 200

28—O jardim dos suplicios, de Octavio Mirbeau, (2.ª edição) 200

29—Saudades, (Menina e Moça) de Bernardim Ribeiro, (2.ª edição) 200

30—Na Esteppa, de Maximo Gorki, 200

31—Nami-ko, Tokatomi, 200

32—Um conchego de Solteirão, Balzac, (2.ª edição) 200

33—Sapho, de Daudet, (a sahir 2.ª edição)

34—Um começo de vida, de Balzac, 200

35 e 36—O Paraiso das Damas, de Zola, (esgotado)

37—Amor e liberdade, de Tolstoi, (esgotado)

38—Casamento de Amor, de Theuriet, (esgotado)

39 e 40—Illusões perdidas, de Balzac, 400

41 e 42—Esplendores e miserias das cortezãs, de Balzac, 400

43—A ultima incarnação de Vautrin, de Balzac, 200

44—Mater dolorosa, de Ernesto Daudet, 200

45—O Immortal, de Affonso Daudet, 200

46—Ares do Minho, de Delfim Guimarães, 200

47—Historia d'um beijo, de E. Perez Escrich, 200

48—O intruso, de Gabriel d'Annunzio, (esgotado)

49—A mulher de 30 annos, de Balzac, 200

50 e 51—Germinal, de Zola, 400

52—O crime de Silvestre Bonnard, de Anatolio France, 200

53—Miseraveis, (Cañas y barro) de Blasco Ibañez, 200

54—O Abade Constantino, de L. Halévy, 200

55—O Dr. Rameau, de Jorge Ohnet, 200

56—Agua corrente, de Severo Portella, 200

57—O luxo dos outros, de Bourget, 200

58—O tio Goriot, de Balzac, 200

59 e 60—A derrocada, de Zola, 400

61—O canto do Cysne, de Tolstoi, 200

62—Contos, de G. de Maupassant, 200

63 e 64—Náná, de Zola, 400

65—A Sonata de Kreutzer, de Tolstoi, 200

66—O Padre Maldito, de Silva Pinto, 200

67—Paulo e Virginia, de Sain-Pierre, 200

68 e 69—O Dinheiro, de Zola, 400

70—Confissão d'um Amante, de Prévost, 200

71—A sepultura de ferro, de H. Conscience, 200

72—A musa do departamento, de Balzac, 200

73 e 74—A Obra, de Zola, 400

75—Genoveva, de A. de Lamartine, 200

76—Um filho do povo, de Escrich, 200

77 e 78—O crime do padre Mouret, de Zola, 400

79—Casamentos fidalgos, de Feuillet, 200

80—Amor tragico, de A. Hermant, 200

81—A Religiosa, de Diderot, 200

82 a 84—Ana Karenine, de Tolstoi, 600

COLECÇÃO HORAS DE LEITURA

Enrique Perez Escrich

Historia
de um Beijo

TRADUCÇÃO DE

A. J. LIONE SOUTELLO

2.ª Edição

1912
GUIMARÃES & C.ª—Editores
68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70
LISBOA

{5}

[CAPITULO I]

Uma chavena de café

Um beijo é muitas vezes a esmola que faz uma mulher a uns labios lisonjeiros; outras um pedaço d'alma que se escapa pela bôcca. No primeiro caso o homem é a victima, no segundo é a mulher.

Existem na terra creaturas tão bem organisadas, corações tão generosos, que não necessitam ser correspondidas para amar com toda a sua alma, para terem gravada em seu coração uma imagem querida.

Estes entes soffrem com o rosto sereno e choram com o sorriso nos labios, porque se chora de dois modos: umas vezes deixando correr as lagrimas, outras recolhendo-se ao coração a queimarem essa bella flôr da juventude chamada a esperança.

A vida n'estes casos é um desejo infinito que se afoga em pranto porque se vê a felicidade que se deseja rodeada de uma muralha cheia de impossiveis. Se pudesse conquistar-se a tiro, conhecer-se-hiam os nomes de muitos heroes ignorados.

A incerteza, essa anciedade da alma que tem o poder de reduzir e prolongar o tempo segundo o seu capricho, faz-se sempre sujeita á poderosa magia de uma syllaba. Um sim, resoa docemente no ouvido do namorado e tem a encantadora poesia do mez de Maio com os seus perfumes, as suas flôres, e o harmonioso canto das aves; um não, tem a aridez do deserto, a melancholia da desgraça, a solidão da morte.

Vou, pois, contar-lhes uma historia sentida, um gemido do coração.

Vou dar-lhes a conhecer a protogonista do meu livro{6} e supplico-lhes o perdão para a fraqueza da sua alma: o coquettismo.

Chama-se Amparo, nome cujas seis letras encerram uma promessa de amor nunca realisada.

Procurarei pintar com as côres da verdade o seu rosto, formoso como um sonho da adolescencia; a sua fronte radiante como a luz do sol quando apparece, ao romper do dia, do fundo do mar; os seus olhos claros e expressivos através dos quaes se lêem todas as impressões da sua alma, sensivel como as harpas das filhas de Sião que vibram ao menor sopro do zephiro.

Se os impressionam as scenas terriveis, as grandes catastrophes, as situações inverosimeis, fechem o meu livro, porque em suas paginas só acharão a historia de um coração que se partiu em pedaços.


Ernesto foi para Roma, pensionista do governo hespanhol. Era um rapaz de 25 annos, cheio de vida, de illusões, um genio; muitas vezes nos seus sonhos de pintor julgava egualar-se a Velasquez, Murillo e todos esses grandes homens que brilham em primeiro logar na historia da pintura hespanhola.

Vivia n'uma pequena casa nas immediações da Cidade Eterna, a Deusa da arte; pensando na gloria, trabalhando sempre, porque Ernesto era um sonhador infatigavel, o mundo para elle resumia-se nos seus quadros, nos seus pinceis, na sua paleta.

Nunca amara senão sua mãe, que já tinha morrido, e a gloria, que desejava alcançar.

Coração impressionavel, mas adormecido, as mulheres eram para elle como flôres formosas de um jardim.

N'uma palavra, Ernesto ainda não tinha encontrado o seu bello ideal, o perfume da sua alma.

A mulher formosa, para elle, só era uma bella obra onde o grande artista, que se chama a natureza, derramara os seus mais preciosos dotes.

Vejam, pois, como a casualidade lhe proporcionou o meio de pagar de um modo terrivel o tributo das almas sensiveis, que é o amor.{7}

Como dissémos, Ernesto habitava uma casinha nas proximidades de Roma.

O atelier, situado na parte que dava para o jardim, recebia a luz de duas grandes janellas por onde entravam os caprichos e interessantes braços de algumas trepadeiras.

Era uma tarde do mez de Maio. Ernesto estava retocando uma figura quando veiu o creado dizer-lhe que um cavalheiro e uma senhora desejavam falar-lhe.

—São hespanhoes, disse o criado, e parece-me que o conhecem.

—Hespanhoes? exclamou Ernesto, largando a paleta. Que entrem immediatamente!

Ernesto dirigiu-se para a porta seguindo o creado, quando ouviu uma voz que lhe não era desconhecida, dizendo:

—Onde está este mau hespanhol, que é preciso vir a Roma, á Via Appia para lhe dar um abraço?

—Oh! é o sr. D. Ventura! exclamou o pintor, vendo entrar um sujeito d'uns 50 annos, dando o braço a uma menina tão formosa como elegante.

—Sim, sou eu, querido pintor, sou eu, o D. Ventura do café Suisso, o amigo dos artistas, o enthusiasta pela divina arte de Apollo; eu que, apezar do meu enthusiasmo pela pintura, nunca soube collocar n'um rosto o nariz no seu verdadeiro lagar. Mas, senta-te, querida Amparo, senta-te; os homens do talento são sem-cerimonia como aldeãos, e francos como a verdade—e apoz pequena pausa, continuou:

—Começarei por pedir-lhe duas chavenas de café.

Ernesto deu ao creado as ordens necessarias.

A joven, que se sentara n'uma cadeira d'onde distrahidamente contemplava os quadros do atelier, dispensou um sorriso de cumprimento ao pintor, deixando vêr uns dentes pequenos como os de uma creança, e brancos como o miolo do coco.

Tudo o que é bello attrae irresistivelmente os homens de talento.

Ernesto fitou a joven.{8}

Amparo teria 20 annos. O seu rosto de uma graça attrahente, provocadora, via-se quasi animado por um d'esses sorrisos em que ficamos em duvida se são a manifestação do coquettismo ou a ternura da alma.

Os seus labios bastante vermelhos e humidos pelo constante roçar dos dentes, ficavam ás vezes entreabertos como se fossem a exhalar um suspiro ou a receber um beijo.

Os seus olhos eram grandes e negros como amoras maduras; mas tão movimentados, tão inquietos, tão cheios de vida, tão promptos em manifestar as impressões da alma, que tão depressa se viam enlanguescer com a sombra embriagadora de um amor platonico, como brilhar com todo o fogo da paixão que conduziu Ovidio a um calabouço e Sapho á morte.

Ernesto estudava dissimuladamente aquella joven que tão profunda sensação causava na sua alma, virgem das terriveis tempestades do amor; e, cousa rara, o seu genio de artista, tão depressa encontrava em Amparo a belleza sensual e provocadora das mulheres de Rubens, como o pudor candido das virgens de Murillo.

Emquanto a D. Ventura só diremos que era um homem de 50 annos, calvo, com os poucos cabellos que possuia já grisalhos, um rosto cheio de saude e alegria; n'uma palavra, uma d'estas physionomias que sorriem sempre, até quando choram; o typo, emfim do honrado commerciante que conseguiu, depois de muitos annos de trabalho, reunir um peculio que o livra de necessidades na velhice.

Amparo era filha unica; fôra educada n'um dos melhores collegios de Madrid, e possuia um dote de quatro milhões de pesetas para quando achasse quem a merecesse.

D. Ventura era feliz, revendo-se na filha, nova, formosa, vivaz e alegre; tocava piano com bastante correcção, cantava regularmente e pintava quasi com tanta perfeição como o divino Raphael.

Amparo era, por assim dizer, rainha absoluta, e seu pae um ministro bastante condescendente.{9}

A mulher nova e livre, quando a riqueza lhe permitte emprehender viagens de recreio durante a estação calmosa, precisa de alguma cousa mais do que mudar de paiz para distrahir-se; a viagem torna-se fastidiosa se a alma não toma parte e o coquettismo não esgrime as suas armas, tão deliciosas como traidoras, para matar o tempo.

Fazer uma conquista sem graves compromissos, sem funestos resultados, n'um commodo wagon-lit; trocar olhares expressivos com qualquer mancebo pela praia de Biarritz ou no cume das montanhas da Suissa, tem tantos attractivos para as jovens viajantes!... É tão agradavel ao coração de uma mulher encontrar a duzentas leguas da patria um patricio que se torne seu escravo, que esteja disposto a salval-a, a defendel-a e juncar-lhe de flôres a terra que pisa, que não póde resistir á tentação de pôr em jogo todas as suas seducções.

Demais, a mulher tem a facilidade de comprehender a impressão que causa e sabe aproveitar-se d'ella. Quando volta o inverno, quando as primeiras nuvens do outomno as obriga a recolher aos seus lares, esses ternos bandos de aves emigradoras, com saias de piquet, chapéu de palha e botas brancas, recordam-se então já ao calor do fogão, de todas as loucuras, de todas as innocentes concessões feitas ao ar livre e poetisadas pelo vento da montanha ou pela brisa do mar; e como não ha mulher que não saiba calcular, como o melhor mathematico, pensa se deve acabar ou continuar com os amores do verão.

Amparo, pois, encontrou casualmente Ernesto em Roma. Tinha ouvido dizer que possuia talento; agradaram-lhe alguns quadros que viu no atelier, e não lhe parecendo má a figura do pintor, dirigiu-lhe alguns olhares e sorrisos, d'esses que no coração de um homem sincero e apaixonado causam uma terrivel tempestade.

Não pensava a joven que aquelle coquettismo era condemnado pelo bom-senso. Empregou-o com a mais santa intenção, apezar de começar a sentir-se aborrecida{10} em Roma, onde andava só com seu pae por toda a parte. Ernesto, então, foi olhado, como um recurso, como uma distracção.

Quando Amparo sahiu de casa do pintor, ia convicta de que o tinha captivado.

—Pensará em mim, disse ella, virá vêr-me, falaremos de pintura, de musica e d'esta fórma aborrecer-me-hei menos.

Amparo ignorava ainda as terriveis consequencias que os seus olhares e sorriso deviam exercer na alma do artista. Se o soubesse, indubitavelmente se teria abstido, porque o seu coração era bom, generoso e tão impressionavel, que se commovia ante a mais ligeira contrariedade, como a folha do trémulo alamo ante o mais ligeiro sopro do zephiro.

[CAPITULO II]

Uma noite no Colyseu

Quando Ernesto ficou só, em vez de pegar na paleta e nos pinceis approximou-se da janella e ficou pensando na joven hespanhola que acabava de sahir.

Depois de uma hora de meditação, retirou-se da janella, dizendo para comsigo:

—Se me encommendassem um quadro onde figurasse alguma das tres encantadoras filhas de Jupiter e de Eurinome pediria a Amparo para me servir de modelo.

E, tomado de uma subita inspiração, pegou na paleta e nos pinceis e começou a pintar, n'um pedaço de tela, uma cabeça, mas com tanta rapidez que, em vinte minutos, estava completamente esboçada.

Afastou-se um pouco do cavallete para examinar o seu trabalho, e disse:

—Sim, é ella. Tenho boa memoria.{11}

E como não se contentasse com a sua opinião, chamou o creado e perguntou-lhe:

—Com quem se parece esta cabeça?

—Bravo! Com quem se ha-de parecer? Com a senhora que esteve cá, respondeu o creado sem vacillar. Não é preciso ser muito esperto para a reconhecer.

Ernesto tornou a pegar nos pinceis e retocou o seu trabalho.

Duas horas depois tinha terminado um soberbo retrato de Amparo, que o pintor mais escrupuloso não recearia pôr em exposição.

Tinha promettido a D. Ventura ir no dia seguinte almoçar com elle ao hotel de Londres na praça de Hespanha, onde estavam hospedados.

Ernesto levantou-se cedo, fez a barba, vestiu-se com mais cuidado do que de costume, admirando-se de ter gasto tanto tempo ao espelho.

Assim que terminou a sua toilette, satisfeito de si mesmo, enrolou a tela com o retrato de Amparo, embrulhou-a n'um papel e sahiu de casa dizendo ao creado que tinha o dia livre, visto não voltar senão á noite.

D. Ventura e a filha occupavam dois quartos no primeiro andar do hotel de Londres.

Quando Ernesto subia a escada ouviu os accordes de um piano. Deteve-se: tocavam a magnifica symphonia de Guilherme Tell.

—Será Amparo? pensou elle.

E vendo um creado no corredor, disse-lhe:

—Qual é o quarto do sr. D. Ventura d'Aguillar?

—O seis: ahi onde estão tocando.

Ernesto não se tinha enganado: era Amparo quem tão magnificamente interpretava uma das mais bellas composições de Rossini.

Receoso de interromper aquella brilhante corrente de notas que tão docemente resoavam no coração, esperou junto da porta que terminasse a symphonia.

Logo que ella acabou bateu á porta.

—Entre, disse D. Ventura.

Entrou. Amparo estava ainda sentada ao piano. Por cima d'este estava um grande espelho e no limpido{12} crystal Ernesto viu retratado o encantador rosto de Amparo, que sorria, enviando-lhe um olhar que o perturbou por um momento.

—Bravo, é um homem de palavra, disse D. Ventura. Ahi está uma qualidade que não é muito vulgar nos artistas.

—Então não me esperavam?

—Eu esperava, mas o meu pae, não, disse Amparo, fazendo girar o banco do piano, até ficar voltada para o pintor.

Amparo tinha um vestido tão simples como elegante. O seu cabello negro e frizado, estava atado com uma fita azul que fazia realçar a brancura do seu rosto e o tom rosado das faces.

O pintor achou-a muito mais formosa do que no dia anterior.

De bôa-vontade ficaria contemplando o encantador modelo que tinha ante si; mas isso álêm de inconveniente seria ridiculo.

A donzella, por seu lado, olhava o pintor com o mais seductor dos seus olhares e enviava-lhe o mais bello dos seus sorrisos.

Comprehendera o que se passava na alma de Ernesto. Só D. Ventura não via nada. É bem certo o dictado que diz que os paes são todos myopes.

—Que traz ahi, sr. Ernesto? É algum quadro? perguntou Amparo vendo o rolo que o pintor tinha na mão.

—Como estava distrahido! respondeu Ernesto. Hontem de tarde fiz um trabalho. É um atrevimento que espero me desculpem.

O pintor desenrolou a tela e apresentou-a, sorrindo-se.

A joven não poude conter um grito de assombro, e D. Ventura pronunciou uma interjeição.

—Sou eu!

—É a minha filha!

—É um retrato d'esta senhora, e venho offerecel-o como uma recordação da visita que tiveram a bondade de me fazer.{13}

—São levados da breca estes pintores, exclamou D. Ventura. Como se póde reter na memoria de uma fórma tão completa as feições de uma pessoa e passal-as para a tela com tanta verdade?! Porque és tu! Sim, tão parecida como duas gottas d'agua; muito mais parecida do que uma photographia.

Ernesto sorriu-se das admirações de D. Ventura. Amparo parecia agradecer-lhe com um olhar cheio de ternura aquella recordação tão delicada.

—Pois é a cousa mais facil do mundo, disse o pintor olhando para Amparo, comprometia-me a fazer outro d'aqui a tres annos sem me esquecer do menor detalhe do vestido e do penteado que tem n'esta occasião.

—Pegue-lhe na palavra, papá, disse Amparo, e d'aqui a tres annos, se nos encontrarmos em Madrid havemos de vel-o ficar mal.

—Fica encommendado o retrato. Mas agora parecia-me melhor que nos servissem o almoço e que pensassemos em que devemos entreter o dia.

—Já visitaram as vilas ou casas de campo dos arredores? perguntou Ernesto.

—Já visitámos uma... Como se chama a que vimos hontem? perguntou D. Ventura á filha.

Vila Aldobrandini.

—É magnifica, mas está pouco menos do que abandonada. Deliciosa mansão se se arranjassem os jardins em fórma de amphitheatro. O Dominiquino deixou-nos n'essa casa sumptuosa uns quadros inegualaveis. Faz pena ouvir, no meio de tanto abandono, o cadente murmurio das suas cascatas que se assimilham á harmonia dos orgãos aquaticos da antiguidade como ao mesmo tempo vêr as soberbas estatuas e outros objectos de esculptura de grande merito.

—Com franqueza não a achei grande cousa... como disseste que se chamava, Amparo?

Aldobrandini, papá. Valha-o Deus, que cabeça a sua!

E Amparo trocou um sorriso com Ernesto.

—Podemos vêr outras que estão melhor conservadas, ajuntou o pintor. Por exemplo, é digna de visitar-se{14} a Vila Borghése pelo seu grandioso lago, pelo hypodromo, pelo templo, pelos jardins e, sobretudo, pelo rico museu de numismatica, e se desejarem visitaremos a Vila Albani e o seu celebre museu. Os antigos romanos tiveram grande predilecção pelas casas de campo. Os historiadores d'aquelle tempo contavam cousas fabulosas. Os poetas, esses sonhadores de todas as epochas, esses pobres loucos que não tendo um real de seu phantasiam palacios e cascatas brilhantes, falam com grande entusiasmo das quintas que nos arredores de Roma possuia Cesar, Lucullo, Marcello, Nero, Pompeu, Salustio e muitos outros homens celebres; mas hoje não existem mais do que ruinas. A casa de campo de Mecenas, onde iam Augusto, Virgilio, Horacio, Plocio, Tiscca e Polion descançar das fadigas de Roma, converteram-se hoje em forja de um pobre ferreiro. Que ode tão sentimental escreveria o pudico auctor da Eneida se ressuscitasse ao contemplar as ruinas de Roma.

D. Ventura ouvia Ernesto de bôcca aberta. Tudo isto para elle era grego. Amparo não deixava de se sorrir. Entre elles começava a existir uma grande intimidade, a intimidade que produz as sympathias.

—Sabe o que desejo vêr, sr. Ernesto? disse Amparo. É o Colyseu. Li, não me recordo em que livro, que visto n'uma noite de luar é surprehendente.

—Os viajantes julgam segundo a impressão que os objectos produzem no seu temperamento. Por isso emquanto uns ao percorrer a Palestina a descrevem cheia de frondosidade e poesia que a adornava no tempo de Salomão, outros a classificam de um arido areal, um deserto insupportavel, pobre, povoado por tribus selvagens e ascorosas, mas o Colyseu começado por Vespasiano e acabado por Tito, visto, quer á luz do sol quer á da lua é verdadeiramente admiravel.

—Ainda assim prefiro vel-o de noite, disse Amparo.

—Então aproveitaremos o luar, e hoje mesmo se póde realisar o seu desejo.

—Que dizes a isso, papá?

—Que estou ao teu dispor.

—Fica, pois, combinado para esta noite.{15}

Almoçaram como bons hespanhoes, depressa e sem lhe dar grande importancia, pois não é a Hespanha a terra dos Lucullos.

Do meio-dia ás 5 horas da tarde visitaram algumas casas de campo dos arredores de Roma.

D. Ventura estava encantado. Ernesto sabia tudo; era, como vulgarmente se diz, um livro aberto.

Não encontraram uma pedra, uma columna, um sepulchro do qual o pintor não soubesse a historia.

Amparo escutava-o com prazer. Encostando-se-lhe familiarmente ao braço fazia-lhe perguntas, principalmente quando encontrava alguma inscripção latina.

O dia passou-se agradavelmente para os tres; as horas foram curtas, e os laços de amisade estreitaram-se duplamente com aquelle agradavel passeio.

Ás seis horas regressaram ao hotel. O jantar já os esperava. Depois metteram-se n'um trem que os conduziu ao Colyseu.

A noite estava serena; a lua no seu auge, e a sua clara luz banhava as colossaes ruinas onde em outros tempos oitenta e sete mil espectadores iam gozar o barbaro espectaculo das luctas humanas.

Então, o povo romano pedia pão e circo, e os imperadores tinham o cuidado de satisfazer os desejos da terrivel fera que dormia, lambendo-lhe os pés.

Ernesto levava os dois amigos a um e outro lado, esplicando-lhe com o mesmo conhecimento que poderia fazer-lhe um cicerone do tempo do imperador Claudio, descrevendo-lhe ao mesmo tempo aquellas terriveis luctas, dos adestrados gladiadores, cujo sangue regou com abundancia a arena do circo.

—Assistiram mulheres a esse barbaro espectaculo? perguntou Amparo.

—Ao principio era-lhes prohibida a entrada, respondeu Ernesto, mas depois foi auctorisada, reservando-lhes Octavio Augusto as bancadas mais altas do amphitheatro. Precisamente aqui onde estamos era a tribuna do imperador, e alli a das vestaes, cujo docel era egual ao do imperador. A este sitio chamava-se{16} Spoliarium, para onde conduziam os cadaveres dos gladiadores ou os que estavam mortalmente feridos, puxando-os com um gancho de ferro. Esta obra colossal foi construida no curto espaço de quatro annos. Tinha setenta portas, sem contar com as entradas reservadas para o imperador e a sua côrte. As festas da inauguração no tempo de Flavio Sabino Tito duraram cem dias consecutivos, e n'ella perderam a vida dois mil gladiadores.

—Parece impossivel que tão sanguinolentos espectaculos agradassem a mulheres, exclamou Amparo.

—A vida dos feridos, continuou Ernesto, quando caíam banhados de sangue na arena, ficavam sempre á disposição dos espectadores. O vencedor collocava a ponta da espada no peito do vencido e esperava que o publico lhe dissesse; «Mata» ou «Perdôa». Outras vezes o ferido arremessava as armas e caía ao pé das grades a implorar clemencia. Se os espectadores levantavam o dedo pollegar, concedia-se-lhe a vida; mas se o viravam para baixo, então o ferido apresentava o peito ao seu adversario para que o acabasse de matar.

—Mas perdoavam sempre? disse D. Ventura.

—Algumas vezes. Durante o reinado do infame Caracalla nem uma só vez se concedeu o indulto aos gladiadores vencidos. O povo romano de então, era tão feroz como sanguinario, e só gozava com a agonia dos seus similhantes, pois, como disse o grande poeta inglez Lord Byron, ácêrca dos costumes do povo, assim apparecem singelas e naturaes as cousas mais horriveis e sangrentas.

D. Ventura escutava em silencio o narrador, que lhe contava com a precisão de um bom livro, todas as horriveis scenas que tiveram logar no Colyseu.

Algumas vezes Amparo, para caminhar com mais segurança por aquellas sumptuosas ruinas, dava a mão a Ernesto. Aquellas duas mãos apertavam-se docemente, transmittindo um suave estremecimento.

D. Ventura era um homem de bem, mas um homem todo prosa; e aquillo tudo, apezar do luar e das{17} descripções historicas de Ernesto, parecia-lhe um montão de ruinas, uma toca de lagartos.

Comtudo, para não ser desmancha-prazeres, dizia de quando em quando:

—Soberbo! Magnifico!

Á meia-noite regressaram ao hotel.

Quando Ernesto se despediu, Amparo disse-lhe, apertando-lhe a mão e dirigindo-lhe um olhar cheio de doce esperança:

—Passei uma noite deliciosa. Estou certa de que sempre me lembrarei do Colyseu de Roma.

Para Ernesto aquella despedida foi uma promessa irmã da esperança, essa bella flôr que perfuma a alma.

[CAPITULO III]

Sonhos côr-de-rosa

Ernesto teve aquella noite um sonho côr-de-rosa, porque a bella Amparo foi o anjo do seu sonho.

Os homens de genio e sobretudo os pintores, quando pensam no amor, antes de amar, criam um typo perfeito como todas as sublimes creações da imaginação; uma d'essas mulheres de extraordinaria belleza cheia de luz, sem um senão no moral, sem um defeito no physico, perfeita de corpo e d'alma: mas quando chega o momento de, ou cançados do celibato, ou para pagar esse tributo de que poucos se salvam, chamado matrimonio, se decidem a casar, então já é outra cousa, pois muitas, mesmo muitissimas vezes a poesia se incarna na prosa, e depois... Satanaz toma parte activa na symphonia do matrimonio.

O amor é cego, e os homens e as mulheres devem resignar-se a não vêr bem, precisamente quando deviam ter olhos de lynce.{18}

Ernesto levantou-se alegre e cantando a symphonia de Guilherme Tell; e pensando em Amparo pegou na paleta e poz-se a pintar no seu quadro.

A filha do D. Ventura tinha-se photographado d'uma maneira tão profunda na sua imaginação, que o pintor achou sem saber como que uma das figuras do seu quadro tinha grandes parecenças com Amparo. Admirou-se, mas agradou-lhe ao mesmo tempo.

Ás dez horas largou a paleta, almoçou, e pegando n'uma folha de papel, poz-se a pintar uma aguarella do Colyseu visto á luz do luar.

—Isto será uma recordação dedicada a Amparo, disse elle. Dir-lhe-hei que a colloque no seu gabinete para que nunca se esqueça da noite que representa.

Ernesto esmerou-se marcando com arte e delicadeza todos os detalhes da aguarella. Collocou n'um ponto conveniente um pintor tirando o croquis do Colyseu, e ao seu lado um cavalheiro e uma joven.

Apezar das figuras terem apenas duas pollegadas, o pintor tinha o maximo empenho em que ficassem parecidas com os originaes que representavam. A empreza era difficil; mas por fim, apoz algum trabalho, conseguiu o que desejava.

Satisfeito com a sua obra e com a alegria do homem que sente na alma os primeiros perfumes do amor e julga causar uma surpresa agradavel á provocadora dos seus sonhos, ao cair da tarde dirigiu-se para Roma.

D. Ventura e a filha estavam tomando café. Tinham acabado de jantar.

—Chega a proposito, disse D. Ventura.

—Dou-me por feliz, respondeu Ernesto, cumprimentando a joven.

—Sente-se e tome café comnosco.

—Primeiro que tudo, desejo saber em que consiste a opportunidade da minha chegada.

—Aborreciamo-nos, disse Amparo, Roma é uma cidade morta; nem sequer tem theatros.

—Diz muito bem. Roma é um cadaver que todos os annos ressuscita pelo Carnaval, e vive um mez{19} commettendo as mais excentricas loucuras; depois torna a cahir na soledade da tumba, até ao anno seguinte.

—Quer dizer que errámos a epocha da nossa viagem, disse D. Ventura.

—Justamente. Mas se a sr.ª D. Amparo quizer ir ao theatro, temos actualmente um aberto.

—Qual?

—O do Tiano.

—Dizem que não é bonito.

—Sim, mas em compensação representam admiravelmente.

—Sabe, senhor Ernesto, que esta noite tive uma ideia? disse Amparo, cerrando docemente as palpebras para conservar a luz dos seus formosos olhos fixos no pintor.

—Estou crente, de que foi uma ideia sublime.

—Vaes ouvir, papá; o senhor Ernesto já disse que a minha ideia era sublime; agora só necessito que o papá a ache tambem.

—Olha que os artistas são muito aduladores; não te fies n'elles. Mas vamos, dize qual é a tua ideia.

—Resume-se em deixarmos Roma e irmos passar um mez em Florença; mas com uma condição: que o senhor Ernesto nos acompanhe como nosso cicerone.

—Essa exigencia é uma loucura, filha da pouca experiencia propria da tua edade, disse D. Ventura. Ernesto está pintando um quadro que tem de mandar para a proxima exposição de Madrid, em setembro.

—Sim, o senhor Ernesto tem o quadro muito adeantado e d'aqui até setembro vão ainda quatro mezes, disse rapidamente Amparo, dirigindo ao pintor um olhar supplicante para que elle annuisse.

—Acceito sem vacillar, disse Ernesto, e dou as minhas razões. Preciso só de um mez para concluir o meu quadro. E antes de voltar a Hespanha tinha necessidade de ir a Florença para tirar uns croquis da Venus de Médicis, do Grupo de Niobe e de alguns quadros da escola flammenga que existem no celebre palacio de Pitti. Quero tambem tirar alguns croquis da cathedral de Santa Maria de Fiore, d'essa memoravel architectura{20} da qual Miguel Angelo, disse ser impossivel fazer outra mais bella, pois era digna de servir de frontespicio ao Paraiso, e que o imperador Carlos V devia pôl-a n'um estojo para melhor a conservar. Assim pois, tudo se resume em adeantar dois mezes a minha viagem a Florença. Quando partirem para Hespanha, eu regressarei a Roma para terminar o meu quadro, e prometto que o verão collocado n'um dos salões da Exposição no dia 20 de setembro.

Amparo applaudiu, como uma creança que manifesta sem reserva a sua alegria. A viagem projectada por ella era encantadora. Grande foi o seu contentamento vendo que era acceite o seu plano, porque nada é tão grato ao coração de uma mulher joven, como realisar um dos seus sonhos côr-de-rosa que de vez em quando lhe acariciam a alma.

Na noite anterior deitara-se, pensando no seu poetico passeio ao Colyseu. Como o somno se mostrasse rebelde, recapitulou na memoria até as mais pequeninas cousas acontecidas nas celebres ruinas.

Os olhares de Ernesto, os suaves apertos de mão, a lua que banhava, poetisando, as pardas e as derrubadas galerias do Colyseu, as descripções historicas que com doce e carinhoso accento narrava Ernesto, tudo isto formava um conjuncto agradavel ao coração de Amparo.

Amava Ernesto? Nem ella mesmo sabia que responder a esta pergunta que fez pelo silencio da noite.

O pintor era novo, elegante, bem parecido, com uma educação pouco vulgar, e pelo menos era-lhe sympathico.

Como ha sempre algum egoismo no coração da mulher, Amparo pensou que continuar a sua viagem pela Italia acompanhada de Ernesto tinha muito mais encanto, era mais divertido do que viajar sósinha com o pae.

Amparo não pensou senão em si. Com algum conhecimento mais profundo da vida material dos artistas, isto é, a prosa do talento, teria pensado que talvez Ernesto não se encontrasse em condições de emprehender{21} uma viagem em carruagem de primeira classe, e installar-se n'um hotel de luxo.

É bem certo que Amparo ignorava o valor do dinheiro: gastava o do pae, que era rico, sem se preoccupar com o valor que tem um duro[[1]] para quem não possue vinte reales.

Por outro lado Ernesto, um verdadeiro artista, sonhava que era um principe e julgava os seus sonhos uma realidade... Era mais ambicioso de gloria do que de ouro.

Quando acceitou a projectada viagem por Amparo, sem pensar se o dinheiro que possuia por sua unica fortuna chegaria para occorrer a todas as despezas, só pensou na felicidade de viajar com aquella mulher formosa, por uma terra encantadora, cujo céu azul e o perfume das brisas são o orgulho das filhas de Toscana, a admiração dos estrangeiros.

Combinada a partida para quatro dias depois, Ernesto apresentou a aguarella do Colyseu, que arrancou um grito de admiração e muitos olhares de agradecimento a Amparo.

O pintor regressou a casa já bastante tarde, tão alegre, tão feliz, que não teria trocado a sua existencia por cousa alguma d'este mundo.

A felicidade está ás vezes em tão pequenas cousas!... O pobre artista julgava-se amado, e começava a amar com toda a sua alma virgem e apaixonada.

Quando chegou a casa, pegou n'uma folha de papel para fazer o orçamento das suas despezas.

—Necessito, disse elle, de quatro mil reales para a viagem. Vejamos como estou a respeito de fundos.

Ernesto só tinha seiscentos. Era-lhe preciso arranjar dinheiro.

Procurou na memoria os nomes de alguns amigos pintores que como elle viviam em Roma, mas um sorriso lhe assomou aos labios.{22}

—Todos elles, disse, são tão pobres ou mais do que eu; não devo expôr-me a uma negativa forçada, que é tão desagradavel a quem a dá como a quem a recebe. Melhor será sacrificar alguns dos meus quadros. O senhor Daniel é um judeu, menos judeu que os dez mil que pelo interesse do commercio o papá consente em Roma. Escrever-lhe-hei.

E pegando na penna escreveu:

Senhor Daniel Raithany

«Meu bom amigo

«Vou emprehender uma viagem a Florença e preciso vender alguns quadros. Tenha, pois, a bondade de vir hoje ao meu atelier, onde o espero até ás quatro horas da tarde.

Seu amigo,

Ernesto Alvarez

O pintor chamou o creado e disse-lhe:

—Amanha, quando te levantares, vaes a Roma entregar esta carta ao sr. Daniel, negociante de quadros. Mora no bairro dos judeus; já o conheces.

Depois deitou-se para sonhar com Florença e Amparo.

Ernesto achava-se na ditosa edade dos sonhos côr-de-rosa, e viu durante algumas horas passar pelos olhos da sua illusão um panorama encantador onde a flôr mais perfumada, mais bella, mais resplandecente, era Amparo que, olhando-o com languidez, lhe dizia uma e mil vezes mais: «amo-te! amo-te! amo-te!»

E para que desperta um homem d'estes sonhos encantadores?{23}

[CAPITULO IV]

O pintor e o judeu

Daniel Raithany era um dos maiores negociantes do bairro judaico. Tinha em toda a Europa fama de intelligente e honrado, apezar de ninguem ignorar que vendia caro e comprava barato. Esta qualidade era descupavel, tratando-se de um negociante judeu; mas, em compensação, tinha uma grande qualidade, que era que quando um admirador de pintura, ainda que de Londres, Paris, Vienna, S. Petersburgo, Madrid ou de qualquer das grandes capitaes da Europa necessitava para a sua galeria um quadro d'este ou d'aquelle auctor celebre, escrevia-lhe uma carta, e não olhando a preço tinha o que desejava.

Nunca enganava ninguem, dando uma copia por original. Daniel era intelligente, e apezar de não saber pintura, tão conhecedor era das escolas que mais de uma vez, em casos duvidosos, o chamavam como períto.

Todos os pintores eram amigos de Daniel e era tão difficil enganal-o vendendo-lhe gato por lebre, como vulgarmente se diz, que ninguem tentava fazel-o.

Dizia-se que o negociante conseguira juntar muitos milhões. Comtudo a sua loja apresentava sempre o mesmo aspecto modesto, e a sua pessoa conservava a mesma linha; isto é, usava constantemente uma sobrecasaca verde com grandes abas, calças e collete preto, uma gravata de velludo, um chapéu usado, um chapéu de chuva velho debaixo do braço e uma cadeia d'aço, em cuja extremidade estava preso um modesto relogio de prata.

Daniel era um homem alto, magro e pallido, nariz arqueado, cabello grisalho, olhos verdes, pequenos o encovados; um d'esses typos vulgares, mas em{24} quem, olhados com attenção, se encontra bondade e doçura no semblante.

Ernesto estava pintando. Eram dez horas da manhã quando viu entrar no atelier o judeu.

Daniel entrou como sempre, sorrindo-se, com o chapéu de chuva debaixo do braço, e a caixa do rapé que nunca abandonava, na mão esquerda.

—Bons dias, millionario, disse Ernesto, extendendo-lhe a mão. Muito agradecido pela sua pontualidade.

—Em questão de dinheiro, respondeu Daniel, é preciso sermos pontuaes, e aproveitarmos o tempo. Por um minuto se póde perder um bom negocio.

—Pelo que se vê o senhor é negociante até á medulla dos ossos. Mas vamos falar do nosso.

O pintor deixou a paleta e os pinceis, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se n'outra.

—Preciso dinheiro.

—Já o suppunha.