Notas de transcrição:
No texto impresso o tradutor, ou o impressor, não colocaram as marcas dos capítulos XXXIII e XLIII. Esta tradução foi comparada com o texto original, em francês (Paris, 1859), e as marcas de capítulo colocadas em conformidade com a intenção do autor.
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OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
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EDIÇÃO PARA BIBLIOPHILOS
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XVI
FANNY
VOLUMES PUBLICADOS
I—Coisas espantosas.
II—As tres irmans.
III—A engeitada.
IV—Doze casamentos felizes.
V—O esqueleto.
VI—O bem e o mal.
VII—O senhor do Paço de Ninães.
VIII—Anathema.
IX—A mulher fatal.
X—Cavar em ruinas.
XI, XII—Correspondencia epistolar.
XIII—Divindade de Jesus.
XIV—A doida do Candal.
XV—Duas horas de leitura.
XVI—Fanny.
FANNY
ESTUDO
POR
ERNESTO FEYDEAU
ROMANCE
TRASLADADO PARA PORTUGUEZ, DA DECIMA OITAVA EDIÇÃO
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Aquelle, que cavar um fosso, cahirá n'elle; aquelle, que derruir uma muralha, será assalteado por uma serpente.
ECCLESIASTES.
TERCEIRA EDIÇÃO
LISBOA
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 50, 52 e 54
1903
Officinas typographica e de encadernação, movidas a vapor
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º
LISBOA{5}
I
A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal, seis janellas, e uma chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do telhado.
Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me o coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas desmantelladas. Gemia a porta a cada bulcão do vento que a embatia contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um sudario, a nebrina que a envolvia.
Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas, marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de mistura com entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da{6} porta. Do outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que invadia o antigo jardim.
Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz, conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel aspecto, se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de chumbo, pendida da cornija, e açoitada pelas refegas oppostas, rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaços.
Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria, que meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim alli procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta, nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o asperrimo furacão das noites do outono. Não chumbei o gonzo do portal. Não levantei a goteira de chumbo. Não me amiserei da velha arvore que se estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte não se amiserára de mim.
Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar, foi o meu leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão negro e duro dos marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna.
E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais sahi da casa triste. Prostrado{7} sobre a folhagem dura, sentado no banco estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as mãos inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente. Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas remeniscencias.
Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da minha habitação maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vêr em pé, gemebunda, sob os açoites do vento que a verberavam.
Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes, alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas, ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande braço minacissimo.{8}
II
Se voluntariamente me exilei n'esta horrida solidão, é por que, por desgraça minha, amei, e amo ainda. Não cuideis, porém, que algum terrivel successo me distanciou, a meu pezar, da mulher que amo. Prouvera a Deus!... Poderia ainda abençoal-a!
Desde muito que eu a amava sem ousar dizer-lh'o. Separavam-nos tantos estorvos, que o combatel-os me atemorisava. Tinha eu então vinte e quatro annos, de mais a mais! Eu corava quando nossos olhos se encontravam. Diante d'ella, tremia, commovido pelo extasis. Comprehendeu por fim que eu a amava, e serenamente, como quem se arremeça a transpôr uma barreira, ella mesma, com sua mão gentil, removeu todos os obstaculos.
Oh! era por isso mesmo, sobre tudo, que a eu adorava. E, depois, tão meiga e linda! Aos trinta e cinco annos, conservava toda a frescura e jovialidade da meninice, e a estes encantos alliava um não sei que de serêno que as mulheres adquirem na experiencia e costumes da sociabilidade.
Era alta, elegante, e de leve delgada nas espaduas, breve a cintura, os encontros modestos; e o pizar mesurado denotava na sua firmeza uma alma activa em agil corpo. Por costume, deixava cair os{9} braços de rainha, e nus os ajuntava cruzando as mãos, quando estava em pé: então, as grandes dobras do seu vestido de veludo-granada, caíam-lhe verticaes sobre os pés arqueados, e a cauda firmava-se no chão; e, quando caminhava a passos solemnes, erguia um pouco a formosa cabeça, radiosa sobre colo de cysne, suavemente inclinado.
Sentada, gostava de encostar a face á mão direita, repousando o braço esquerdo sobre o setim brilhante da cadeira que seus dedos afilados como franjas de marfim, rossavam de leve. Tinha cabellos loiros e lustrosos, que desciam em espiraes ao longo das fontes, das faces pallidas, e em redor do colo. Fronte pequena, nariz d'uma exquisita e suave belleza, a barba liza, tudo em harmonia com as sobrancelhas arqueadas, e os labios finos e justa-postos. Os olhos azues, em fim, d'um azul sombrio e meigo, e amplas pupilas negras, languidamente envoltas em palpebras salientes franzidas de cilios espessos, tinham uma expressão de ternura, de candidez, de spasmo, de pureza que me irritava e endoudecia!
Amei-a perdidamente, e assim a amo ainda. E ella... amava-me como sabia amar, com interior reserva, calculadamente. A naturalidade do seu ar acanhava-me. Ainda quando me apertava em seus braços com transporte, parece que me distanciava de si. As rainhas e imperatrizes devem amar assim os seus amantes. Foi por isso que eu, desde o principio, soffri, e vim até este extremo em que me vêdes.
Como eu quizera passar com ella os instantes todos{10} da minha vida, procurava todas as occasiões de encontral-a. Não podia contentar-me com as duas horas que ella me dava de cada semana. Eram tantos os seus encargos domesticos! E eu imprudentemente a perseguia por toda a parte, ficando muitas vezes horas inteiras, com o rosto ao vento e os pés no gêlo, só para vêl-a, passar, graciosamente encapuzada no capuz de sêda côr de rosa, atravez do vidro de sua rapida carruagem. Todas as noites, com o coração angustiado, errava eu, por entre os nevoeiros, debaixo de suas janellas luminosas, ou, rebuçado e confundido com a gentalha, lhe expiava a saida do peristylo do theatro dos italianos; ou, encostado á couceira de uma porta, a esperava longo tempo para vêl-a entrar no baile, com os cabellos enlaçados de flôres, as espadoas nuas até aos seios, e então observa se o «corpinho» de setim branco tremia sobre a pressão anceiada de seu peito, quando me via. Custava-me a não me ajoelhar aos pés d'ella, quando a cortejava respeitosamente.
Ahi, no baile, n'esse ambiente pesado e saturado de acres perfumes, sob os raios deslumbrantes que irradiavam como flechas do coração dos lustres, eu a contemplava movendo-se graciosamente. Seguia-a com os olhos, encostada ao braço d'um ancião cravejado de medalhas, que a denominava affectuosamente pelo seu pronome. Distinguia-se entre todas, quando, de fronte soberana, e pisar magestoso, circulava por entre os grupos. Contemplava-a ainda, quando meio recostada ao espaldar d'uma cadeira ampla, cortez sem frieza, acolhia os preitos dos mancebos graves; ao passo que, unida ao hombro{11} d'um walsador infatigavel, immovel a cabeça e o tronco, redemoinhava em ondas de gaze e rendas, aos accordes melodiosos das flautas e violinos. Coruscavam-lhe então os olhos como estrellas, sob as flôres que se desinastravam das espiraes dos cabellos. Desjunctavam-se os labios para se verem as perolas dos dentes. Purpureavam-se-lhe, como ao contacto dos meus labios, as faces pallidas, e as alvas espadoas.
E a cada rodopio, a ponta do pequenissimo pé, mostrava-se á orla do vestido que a rapidez do movimento fazia recuar. Mas nem as seducções das homenagens, nem as excitações da walsa, nem a minha mesma presença, conseguiram excital-a! Com semblante alegre tudo acolhia com tranquilidade egual de aspecto. Isto, mais que as sollicitações do olhar, turvava e empallidecia aquelles, cujos olhos encontravam os d'ella. Com tudo, nunca lhe surprehendi essas maneiras meio-zombeteiras e seductoras que são a falsa linguagem da lucta de um coração abalado com um espirito indeciso; maneiras que desfarçam e colorem as concessões, e irritam a esperança sem desanimal-a.
Mas como é que a presença do seu amante a não perturbava nunca? Bem podia eu fital-a até cegar na fixidez do olhar, que ella parecia não me vêr nunca.
Era mulher até ás pontas dos cabellos!{12}
III
Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas flôres; baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados de flôres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e alizava com as mãos o tapete de cadarço do meu leito. Regulava o relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. Sobre um bofete de páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de fructa, pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito inquieto o dôce ninho dos seus amores.
Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo. Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que ella usava para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus{13} dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava entre as cinzas. Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais ouvir soar a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia eu pé ante pé, da porta á janella, como vae e vem o cão fiel, atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono.
E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre a fronte pura. Involve as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os olhos negros accumula as dobras do véo tambem negro. Atravessa as salas desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas. Vou vêl-a!
E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um filho! Que desgraçado sou! não virá ella? Já se demora!
E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto tão bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom tocar-lhe as mãos, os cabellos,{14} e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical!
IV
Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas lagrimosas, e, sem erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda ao peito, cingia-me o pescoço, e, timorata e assustada como um passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que se fazia na casa ou na rua.
E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor o limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a camara fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias e taciturnas.
Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas dos cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras, postas deante das janellas, desfolhavam{15} uma a uma, juncando o tapete das suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes, contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa e entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas estas expansões; nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes discretas do quarto silencioso. Para nós o mundo todo estava alli.
E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás mãos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a pela cintura quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços compressores, tomava-me a face entre as suas mãos, affastava-a com meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a aterrassem.
E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella, beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles pés infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de plumas de cysne, a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação meio involto na plumagem de suas azas!{16}
V
Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no explendor de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus os braços, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais enleada que eu mesmo, estava tão senhora sua como se estivesse recostada na cadeira de veludo ao pé do fogão de sua casa. Eu não sei o que ella não fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia nem a molestava.
VI
De cada vez, tinhamos sempre que trocar um mundo de pensamentos novos. Recontava-m'o-nos fadigas da espera, tristezas da auzencia, aspirações da esperança, e o quanto era consolativo para amantes separados, o pensar incessante um no outro.{17} Fanny sobre tudo se deixava levar desta união espiritual com toda a expansão d'uma alma juvenil. Recebia as confidencias da minha ternura, como efluvios de incenso, que a immergiam n'uma especie de torpor dulcissimo. Com mudos raptos de gratidão, rosadas as faces, palpitantes as azas nazaes, sorrindo no olhar embaciado, maravilhava-se ella da abundancia de minhas palavras, como imagens graciosas que volitassem dos meus labios. Não a fatigava o ouvir-me.—Mais, mais, ó meu Roger!—dizia ella. E, encostando o cotovelo á almofada, inclinada a fronte na mão, requebrado o corpo, os pés a resvalarem, anediando-me a testa e os cabellos, olhava-me com tanta fixidez, como se quizesse esmirilhar os mais subtis lineamentos da minha alma. Entretanto, eu, de joelhos, com as mãos juntas, sorria de prazer como creança amimada, e cuidava que assim era o identificarem-se nossas almas n'um apertar vago e dôce, com estremecimentos voluptuosos.
VII
No instante em que ella ia sahir, era então o irromper minha alma em explosões de amor e angustia. E ella, pensativa, fitava nos meus, com ternura, seus olhos azues e lympidos. Tomava-me affectuosamente{18} as mãos, que eu lhe disputava, voltando-me arrufado. Fazia-me graciosamente sermões maternaes. Acariciava-me com bondade, abraçava-me, ia e vinha para abraçar-me ainda.—Tornarei a vêr-te?—exclamava eu com tristeza.—«Cala-te, Roger,»—respondia-me, abafando a voz n'um beijo. Por fim, comprimia-a longo tempo ao coração; e, quantas vezes, ao apartar-m'o-nos assim, sentiamos calidas lagrimas a cahirem nos labios de ambos!
VIII
A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.
Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado a face.
A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o movimento. Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as dobras da cachemira que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e{19} eu atirava-me sobre o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando, hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me illudir com possuil-a.
IX
A primeira vez que ella ahi veio, não se espantou, mas examinava tudo o que a rodeava, e em tudo bulia, com certo acanhamento. Havia lá espadas de combate dispostas em tropheu. Lembra-me que ella reparou n'isso.
Tambem se deteve diante de um retrato de minha mãe, que tinha sido formosissima, e deante da minha escrivaninha, coberta de livros e de cartas. Mas, com discrição cheia de graça, passou, sorrindo, sem tocar nas cartas.
X
Eu era feliz! Desprezava quantos não eram eu, porque ella os não amava! De longe e de cima olhava{20} o mundo. De tudo segregado, tudo via d'alto, mas com indifferença, tumido de orgulho. Parecia-me que sobre mim convergiam os perfumes todos da terra e sorrisos do céo. Nos olhares que se encontravam com os meus, chammejavam os fulgores da inveja; e o murmurar confuso das turbas agitadas, rumorejava aos meus ouvidos como acclamações longinquas.
A imagem de Fanny absorvia-me a memoria, e desprendia-se de meus pensamentos todos. Era, a um tempo, mais irritante que um sonho, e mais consoladora que a esperança. Nunca eu antevera seduções tamanhas em humana creatura, tantas delicadezas n'um coração, tanta graça na reserva, tanto pudôr na renuncia de si!
Mescla de enthusiasmo e arrobamento, de illusões e desalentos, de melancolia e criancice, fôra o bastante a conquistar-lhe o amor. Parecia-me, todavia, pouco esmerada em attenções e cuidados. Tão amada, por certo, tinha sido ella! Bella ainda, mais bella do que talvez se cria, augmentava cada uma das suas graças com o esforço timido que punha em evitar a apathia, que presentia de longe, com a vinda dos novos annos.
Dias tinha ella em que era possivel traduzil-a nos olhos, quando cerrava os labios n'uma expressão de meditar mais affectuoso, quando seus cabellos, fluctuando-lhe sobre as fontes emaciadas, em flacidas spiras, as envolviam com uma especie de suave piedade. Contemplava-lhe eu então as mãos candidissimas, e figuravam-se-me duplicadas, para que suas ultimas caricias fossem mais copiosas e maternas.{21} Escutava ancioso os suspiros que lhe sahiam do peito opprimido: tinha-os como protesto surdo do coração que reagia ainda á indifferença, desejando-a acaso como repouso, e expedia a sua mais bella flamma, antes de retrahir-se em si para morrer.
XI
Eu era feliz! Mas a desgraça já vinha perto. Até então com a delicadeza mais de incarecer, Fanny poupara-se sempre a fazer, diante de mim, a menor allusão a seu marido. Com uma pouca de bemquerença, conseguira eu phantasial-a livre e minha, sem partilha. Tão pudicamente se me déra ella! Foi como rainha, sem nada mercanciar do que não podia ser vendido.
Um dia, porém—como isto foi, não sei!—ressoou suavemente nos labios d'ella o nome de um filho seu, e, em seguida, não pôde deixar de fallar-me d'elles.
Adorava-os com tão furioso amor, que me abandonaria se me eu não comprazesse em ouvil-a repetir-me mil cousas pueris, tocantes a seus filhos. Por mim fingia-me vivamente interessado n'esses contos, que ella contava como abundancia extraordinaria de coração; eu, porém, escutava-lhe mais a musica das palavras que as idéas. Eu adorava-lhe a{22} voz magica e melodiosa. E, de mais, eu era um tanto cioso de tudo que ella amava.
Fallava-me, pois, de seus filhos. O mais novo soffrêra d'uma epidemia passageira, e eu quasi que odiei essas criancinhas pelo unico delicto de se aconchegarem comigo no ninho de amor do mesmo coração. O que ella então fez forçou-me a reflectir mui amargamente sobre a affeição que uma mãe póde dar a um homem. Esteve sem me vêr seis semanas. Não desamparou esse berço sobre o qual se estorcia o dôce thesouro vivo, formado do proprio sangue do seu coração. Escreveu-me quatro linhas apenas, admoestando-me a soffrer com ella. Homem orgulhoso que pertendes dominar, unico, sobre o coração d'uma mulher! aos menores vagidos de uma creança, vê que lição te dá a natureza!
Á força de pensar n'esta creança, entrei a pensar no marido de Fanny; e, a meu pesar, d'ahi a pouco, já não pensava senão n'elle. Nunca o tinha visto. A mim que se me dava, n'outro tempo, de vêr o homem que lhe dava o braço, para entrar no baile, e discretamente se sumia na multidão logo que um circulo de admiradores a compelliam a isolar-se d'elle?
A ella amava, a ella sómente eu via, por ella vivia... que me importava o marido d'ella?
Restabelecido o menino, Fanny, mais affectuosa e linda, ao primeiro dia que me vio não percebeu que em mim havia um novo homem; adivinhou, porém, que uma preoccupação secreta me alvoroçava, emquanto eu, silencioso, lhe corria a mão sobre o braço nu. De repente, varada por cruelissima suspeita,{23} repulsa-me, ergue-se, e, voz em grita, jura que eu a atraiçoara.
Sorri com doçura a esta louca arguição; e, tomaado-lhe a mão como convite a sentar-se, simplesmente lhe disse que hesitava em pedir-lhe novo favor, com receio de ser indiscreto.
—Que é?—disse ella, affastada ainda, e cravando-me um olhar de surpreza.
Respondi que as seis semanas de solidão me haviam feito reflectir tristemente sobre a nossa imprevidencia; que sem suspeitarmos que incidente algum podésse apartar-nos, nunca nos cohibiramos de nos aproximarmos. Finalmente, com um embaraço que eu não podia dominar, balbuciei:
—Por que não sou eu admittido em tua casa? Bem sabia ella que eu dissimulava a minha idéa, fallando assim: por que, de subito, resplandeceu de sorrisos, e lançando-me ao pescoço ambos os braços com vehemencia, confessou, córando, que, desde o primeiro dia, anciára sempre o vêr-me em sua casa.
—Por que m'o não dizias? repliquei eu, acariciando-a. Respondeu-me, fazendo gesto pueril de amuada, expediente malicioso das pessoas que querem ser adivinhadas. E eu, doido com os projectos da convivencia, communicava-lh'os aos labios por entre beijos... Vêr... amar os filhos d'ella...
Já Fanny redobrava de elegancia o salão mais intimo em que seus amigos eram unicamente recebidos. Que ventura poder, quasi todos os dias, reunir em volta de si, os objectos todos de sua mais viva affeição! D'ora em diante não seria obrigada{24} a tirar o pensamento de seus filhos, para ir em busca da minha imagem atravez do espaço, trazel-a para o meio d'elles, e fazel-a docemente resplandecer n'esse recinto delicioso, decorado por ella só, a seu bel-prazer. Eu de mim terei d'ora avante um maior logar—não em seu coração que não é possivel—mas em sua vida, e tomarei quinhão immediato em todos os seus jubilos, como em todas as suas maguas. Era um bonito sonho!
XII
Concordamos em acceitar eu o convite de uma amiga d'ella, que, todas as semanas convidava a jantar.
—Ahi nunca vae muita gente—disse ella—poderás facilmente ligar-te comnosco.
Comnosco!... Era a primeira vez, que, n'uma só palavra, ella associava comsigo innocentemente o marido, sem dar fé da angustia que esta alliança me causava. Querida Fanny! eu sentia-me empallidecer sob uma oppressão indefinivel, e ella purpureava-se de contentamento. Depois d'aquella palavra, terrivel para mim, e sem valor para ella, ergueu-se. Tinham decorrido as duas horas. Separamo-nos. Com ella foi a confiança; comigo ficou a esperança horrivel.{25}
XIII
Sim, esperança horrivel! porque eu não sei exprimir o que reluctava em mim de duvida, anceio, e azedume meditando que ia vêl-a emfim sob os olhos de quem lhe governava a vida.
Tudo isto se misturava em meu coração como venenos e contra-venenos, e d'esta abominavel mistura, fumavam vapores d'um travor tal, que eu me sentia na cabeça latejar o cerebro, e os joelhos vergavam sob mim.
Isto nada era, comparado ao que eu devia experimentar n'essa estreitissima meza, onde á claridade dos globos, nenhum conviva poderia esconder os pensamentos que lhe franzissem a fronte. Ao principio, nada vi, e respondi ao acaso ás perguntas que me fizeram. Comia machinalmente. Esforçava-me por ser attencioso e polido; mas denotava mais inquietação que o assassino que se vê em risco de ser descoberto.
Atordoado pelo tinido dos copos, pelo estrepito da baixella, pelo atrito das porcelanas, pelo reverbero das luzes nas tampas brunidas das terrinas, pelo vai-vem dos creados pressurosos que serviam, sem dizer palavra, e se moviam sem rumor d'um passo, como sombras negras de luva branca; e suffocado pela athmosphera calida da sala impregnada de evaporações penetrantes, misturadas com o odor do vinho e o das flôres, eu não olhava Fanny, nem mesmo a escutava. Tornou-se-me insopportavel a par de mim a presença d'ella: era como um peso que me abafava.
E tambem o não encarava a elle, elle, que eu viera procurar, de tão longe, com o desejo e terror{26} de conhecel-o. Inceguecido por visões funebres, eu não podia vêl-o, com quanto elle estivesse defronte de mim.
De repente recobrei a minha lucidez sentindo um pé de mulher rossar o meu, e comprimil-o brandamente. Era ella a prevenir-me da minha preoccupação visivel de mais. Dirigi-lhe um lanço d'olhos agradecido; e, encostando-me ao espaldar da minha cadeira, contemplei detidamente aquelle que mal sabia que possante interesse ingendrára em mim o estudo da sua pessoa.
XIV
Era uma especie de touro com face humana. De estatura mediana.
Quando comia, atirava para diante, as espaduas robustas, e a cadeira gemia sob a gravosa flexão dos seus encontros quadrangulares. Eu via-lhe do meu logar, na testa, os arcos carregados das sobrancelhas hirtas de cabellos grossos, e abaixo fulgurava-lhe um olho pardo e luzidio d'aquelle brilho metalico que reluz na pupila impassivel dos carnivoros.
Comia, ás mãos juntas, mãos carnudas e curtas, e levantava os cotovêlos para melhor pezar sobre a faca brilhante, e sobre o cabo do garfo. Entre{27} cada prato respirava largamente, limpava a boca, e bebia a longos sorvos grandes copos de vinho estreme.
Não tinha má cara, nem vulgar. O aspecto era de força. Todo elle denotava pujança extraordinaria de musculos. A superficie das faces e queixo perfeitamente escanhotado, apparentava regidez marmorea, e a fronte rasgada, limpida, cercada de cabellos negros já betados de russas, revelava um espirito de vontade cheio de rectidão e persistencia.
Era affectuoso o sorrir d'elle, e o olhar desmalicioso, porém claro como cristal. Incarava-vos de face, nos olhos, de um modo tal, que vos julgarieis felizes, evitando esse espelho de aço incommodativo á força de franco. O que elle tinha era dar cascalhadas estridorosas, repuchando em sacões os peitoraes acima da cintura apertada, e descompondo para traz a cara vermelhaça. Era grave e sonora a sua voz; o gesto tranquillo, e um pouco sombrio. Tinha bonitos dentes, unhas rosadas, brilhantes e bem feitas; em fim, dominava n'aquelle todo um ar de inteireza e aceio.
Pareceu-me ter quarenta annos.
Primeiro, ao vêl-o, fiquei como humilhado: corri-me de entrar em rivalidade com natureza tão possante. Involuntariamente me confrontei com elle, eu, a par d'elle tão franzino, como o seriam quasi todos os rapazes da minha idade. O que havia em mim de debilidade nervosa, e fineza de raça, e de elegancia, amesquinhava-se em comparação d'aquella riqueza de sangue, pujança de fórmas, e virilidade{28} fria e pacata. Eu era como um sylpho contemplando, assombrado, a estatua d'um gigante. Ao pé d'elle que homem era eu? Forte e gentil expressão de homem era sómente elle, eu não.
E, mais cruel ainda para commigo mesmo, passava depois a comparação de mim para ella. E, vendo-a sentada ao meu lado, dôce e loura como Eva, candida como uma virgem, com aquella cintura de fada, e aquelle colo requebrado em languor, e todo aquelle ar de timidez que lhe impanava a face adoravel como a sombra d'um vapor... vendo-a assim, e tão delicada no pensar, perguntava-me, eu, phrenetico, como é que ella poderá amar tal homem? Violenta associação de duas naturezas que entre si não tinham um ponto só de contacto! Irmanavam-se com a seda e com o ferro!
Oh! Desdemona!—me dizia eu—que Othello escolheste! Mas mal sabia Fanny que furor raivava ao seu lado! Dirigia-me placidamente a palavra, olhando-me com ar de simples, e affastando com sua mão alvissima os louros anneis que lhe volteavam como plumas sobre a fronte. E fallava-lhe a elle, sem turvação nem embaraço... e dizia-lhe: meu amigo, deante de mim.
E elle, com menos embaraço ainda, lhe respondia, todo attenções e deferencia, com ar, porém, de grande superioridade.
O Hercules via n'ella um ser perigrino, mas absurdo: e por isso o que lhe dizia eram bagatellas, com ar amavel e paternal, como os pais as dizem aos filhinhos curiosos.{29}
XV
Terminado o jantar, e passados os convivas á sala grande, e sentados em redor das bancas do whist, avisinhei-me lentamente de Fanny que aquecia os pés ao fogão.
Encostei-me ao rebordo da chaminé; e, com palavras de ternura que lhe dizia a meia voz, intrometti coisas frivolas ditas em voz alta. Deste logar via eu as costas dos jogadores inclinados sobre as bancas em que flammejavam as velas, involtas dos seus quebra-luz, e incravadas em magnificos castiçaes de prata; ouvia o ruido dos tentos de madre-perola, e o murmurio dos equivocos que os parceiros se trocavam. Cuidava eu que estariamos assim a seguro de reparos, com alguma astucia, até porque a dona da casa fôra para o fundo da sala dedilhar no teclado do piano. Novo encanto unido a outros tantos era aquelle dos accordes ondeando o ar, a um tempo que as secretas melodias do amor, mais melodiosas ainda, cantavam em nós. Porém, separando-se do grupo dos jogadores junto ao qual até então estivera de pé, o meu rival dirigiu-se a nós com semblante gracioso, e o mais natural possivel, e perguntou-nos em que fallavamos. Com melindrosa urbanidade, que excluia todas as{30} maneiras familiares e nos distanceava um do outro, mas com serena voz e ares cortezes, entrou elle a dirigir a conversação e eu não pude deixar de acompanhal-o.
Por entre as melodias da muzica, e a ternura das vibrações, de que elle não dava fé, fallou-me de caça, theatros, cavallos, que sei eu! não deixando mesmo de entrar no amago dos assumptos banaes que eu imprudentemente escolhêra, mas que o interlocutor me condemnava a repetir, como se elle os julgasse unicos dignos de mim.
Dei-lhe duas ou tres respostas bastante arguciosas, e elle applaudiu-as com os olhos, honrando-me com um gesto de assentimento.
Assim pois que era eu para elle um instrumento assaz futil com cujas cordas brincava rossando-as com as pontas dos dedos. Se elle soubesse que em meu coração havia uma d'aquellas cordas, cujo som horrivel podia restrugir-lhe nos ouvidos, e insurdecêl-o!
Mais tarde, vi-o assentado ao lado d'ella, na sombra que fluctuava em redor do clarão dos castiçaes. Sem me vêr a mim, nem a outrem, nem a ella, apertava-lhe machinalmente a mão, scismando talvez em não sei que. E eu, contemplava aquillo, como o mais estranho e monstruoso dos espectaculos. Em quanto a ella, fixando os olhos nos meus, estava livida como uma estatua de marfim; mas não ousava balbuciar, nem fallar, e consentia.{31}
XVI
Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou—dissipar do meu cerebro a imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo que me humilhava e esmagava o coração. Como eu me castigava do que fizera! Absurda cubiça de conhecer o que ella tão de siso me escondera, e que eu devia ignorar sempre!
—Oh! não—me dizia eu—nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel; nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos hão-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de mim, ha-de a mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil!
Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas dôr era esta que simulava a quietação da paz.
Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no coração, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a preoccupava,{32} Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma dôr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com amargura:
—Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny, tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira.
Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a sua casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces e queridos que lhe decoravam o coração!...
—D'onde vem essa mudança, Roger?—murmurou ella com penoso esforço.
«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos joelhos, disse-lhe brandamente:
«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram ciumes...
Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente, explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio, exclamou:{33}
«Filho, meu pobre e querido filho!»
E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.
Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder abster-me de o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me. «Perdes o tempo»—dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu detinha muito na exposição das minhas tristezas. E seus braços se me inroscavam no pescoço com ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus seus labios. Mas tudo em vão. Já se não franziam meus labios para saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluçando gemidos.
XVII
Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse, não havia dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse elle ridiculo, mas aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos, trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade.
O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama{34} começado por transportes de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores, desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido!
Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!
E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!
A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este papel de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu Deus! se eu a não amasse!...
Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que flagellações me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então, se deante do fogão, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma da dôr presente, levando-a ás memorias de amores passados; ou esporeando á redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro, ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, n'um só lanço de azar, expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação diversa daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me, invocando os phantasmas dos{35} seres adorados que perdi: nunca, nem no sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a serpente que me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado; zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha mãe. Á flôr de minhas recordações todas, scenas incantadoras, affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras imagens que espancavam aquellas.
E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças; affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso violentado; venciam-me, e eu então, encarava-as!
Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.
Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo do fogão em sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções delicadas para todos, attenções que são a magica linguagem da graça do coração. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe forçoso prevenir suspeitas de homem tão prespicaz:{36} como não seria ella carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas coisas—interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expansões naturaes!... Era elle o leão dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido, e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a uma bala, o roubava nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinhão.
Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer. Então se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá fumegava nas chavenas, ao suave clarão da lampada, ao pé do lume que docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil, fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convém á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. E não cuideis que eu ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.
Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde, agonisava a chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus lampejos no quebra-luz, callavam-se{37} todos os rumores na casa e na rua; o passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles sosinhos. E eram esposos!...
XVIII
Chegado até este ponto, tornava-me pallido. No mais recondito de minha alma, alguma coisa se estorcia e agonisava em convulções desesperadas. Estas imagens, evocadas cada noite, tornavam-me mais desgraçado, que se eu tivesse visto a mulher adorada cuspida em minha presença. Erguia-me, e via as horas; depois, despregava a rir, como doido, ou, involvendo a cabeça nos braços, lançava-me a chorar sobre o leito.
XIX
De madrugada emergia do meu pesadelo, mais quebrantado que o ferido d'um tétano.
E se me arrastava á janella, para aspirar um pouco{38} de ar puro, a mesma pergunta me desabrochava nos labios calcinantes como flôr venenosa:
Por que o amou ella n'outro tempo? Que ella o amou, já m'o disse; foi por elle tirada á familia que a não queria ligar a um homem sem posição e sem riqueza. Enriqueceu depois, por que é energico e paciente. Sabe querer. Mas por que o amou ella? E, depois, por que me ama ella hoje a mim? Somos tão differentes um do outro!
Um dia, finalmente, á força de moer n'esta ideia, e joeirar-lhe no espirito os venenos todos, julguei que ia penetrar o proceder de Fanny. Lembrando-me quanto ella era sensivel ás caricias; figurando-me as scenas mais deleitosas do nosso amor, e comparando-me ao marido, invergonhei-me e alguma coisa mais acre que o desgosto, mais amarga que o despreso, mais peçonhenta que o odio, me subiu do coração aos labios.
—Ora ahi está por que ella me ama hoje—me disse eu sacudindo a cabeça. Veio depois auxiliar-me a analyse mais uma vez, mas para ferir-me covardemente com uma nova punhalada.—Ama-me para variar—disse eu amargurado—para satisfazer, um contrario exagerado, um desejo mais sentimental, mais delicado. A não ser para completar o seu ideal... accrescentei eu sem reflectir na crueldade da supposição.
Mas em tal caso—grito eu com terror indisivel—eu não sou para ella mais que metade d'um homem! Encho apenas metade d'um coração! Fui medido. Acharam-me incompleto. Sou escassamente uma addição! Não passo d'um complemento.{39}
XX
Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de julgar-me tão absolutamente miseravel, e classificava de creancice as mais monstruosas hallucinações—É o ciume—dizia—que me torna absurdo. Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:—Quantas mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher...
Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para saber que não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu marido,{40} amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar esse dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o homem indispensavel. Eu vaticinava—se as suspeitas alguma vez o molestassem—quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para destruil-as. E para aviltamento já bastava! D'aqui avante não passo—protestava eu—já é de mais o lamaçal do meu caminho.
Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das multidões ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da minha soledade.
XXI
Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos crueis, nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos. A duvida resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro.
Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica da{41} minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo, vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para empeçonhar nossas caricias.
Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração, estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias de Fanny, se infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás francas gargalhadas das mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braços abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles—dizia eu lastimosamente—soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos não fatigas, deshonras-nos.
XXII
Em fim contristava-me o desapreço que, a meu pesar, soffrêra o idolo em minha alma. Até ahi, era{42} um verdadeiro culto o que eu sentia: a realisação de quanto eu sonhara puro e angelico, era ella: affizera-me a vêr em Fanny alguma coisa sacratissima, impossivel de deperecimento ou macula. Agora, via-a voluntariamente cahida do altar em que a minha piedade a erguêra para manchar seus pés no contacto da terra, e confundir-se no vulgo. Era isso o primeiro e mais cruente effeito do ciume, que principia sempre por nos incutir uma horrivel mescla de adoração, odio, furor, e desprezo.
XXIII
Comprehendi logo que estava travado para sempre, entre mim e Fanny, um duelo de morte. Todos os meus pensamentos me vinham do fundo do coração inficionados d'uma certa grosseria. Morrêra o respeito em mim. Dominavam-me ideas brutaes de lucta. Esporeava-me o desejo acerbo de castigar rudemente aquelle ente inoffensivo e graciozo que eu amava pela vida! Eu queria invilecêl-o diante de mim ainda mais do que a sua imagem se invilecêra na minha memoria.
Como pôde ella resolver-se a isto!—exclamava eu inraivecido!—Oh! que execravel zombaria é isso de pureza de mulheres! Parece que os beijos são coizas fugitivas, dos quaes nada lhe fica nos labios logo que os enchugam.{43}
Não podia mais. Fanny entrou na partilha das torturas que até então eu guardava comigo só. Os homens não sabem soffrer longo tempo, sem descarregar covardemente o pezo de suas penas, sobre quem elles mais amam.
XXIV
Tu sabias que eu era cazada!
Foi a suprema razão que ella unicamente oppoz, com ar timido, aos meus primeiros queixumes, ainda moderados.
Eu respondi:
«Não sabias tambem tu que eu podia ter uma alma dedicada, e não podias prever, sendo minha, que tormentos me deviam cauzar o teu amor?
E depois, perguntei-lhe, sem preambulo, e violentado:
«Como viveis juntos?
Ella corou: estava offendida.
Não devemos fallar d'isso, Roger—respondeu com frieza.
Mas tão desgraçado me viu, que, por commiseração, fallou, violentando os seus mais castos sentimentos. Era redobrar-me o supplicio.
Ella, porém, não me disse tudo. Aguilhoado pela cruel necessidade de conhecer a extensão da minha{44} desgraça, querendo saber, á custa de tudo, onde ella acabava, instei, ferindo-lhe o pudor. Eu estava enfiado e sem ar. Poz-me a mão na bocca. Ficamos silenciosos. Fanny contemplou-me longo tempo. Chorava, e ella tambem. E, por fim, tragando o calix até á derradeira gota, disse-me que ia responder-me.
Eu, chegado a este extremo, com embaraço imprevisto, com uma hesitação que obscurecia as minhas palavras e abafava na copia d'ellas a froixa luz da intenção que eu tinha; com uma turvação doloroza, que augmentava a angustia do coração animozo; illaqueando o pensamento na rede das divagações e periphrases, como se eu quizesse demorar o momento de conhecer o que eu temia saber—interroguei-a ácerca de mil coisas tendentes a velar de mim a existencia intima d'ella. Respondeu-me com simplicidade, tão embaraçada como eu, vencendo, porém, intrepidamente a vergonha deste estranho interrogatorio, com o fim de mitigar-me as dôres, e dar-me um exemplo de desgostos que póde vencer a mulher que ama, quando é desgraçado quem ella ama.
E deu-se então em mim uma successão monstruoza de caricias e golpes; mistura sem nome de balsamos e venenos; associação horrivel de martyrios e glorificações. O facto execravel, cujo desmentido era impraticavel, permanecia em toda a sua plenitude; porém, quantas consolações podiam modificar-lhe o corrosivo e humilhante, todas ellas carinhosamente me prodigalisou, espiando com sobresalto em meu rosto o effeito das palavras confusas{45} mas comprehensiveis, que pronunciava. A uma derradeira pergunta, mais brutal que as outras, que eu de golpe lhe fiz, deu-se n'ella uma soberba explosão de revolta, que me fez cahir a seus pés, pedindo perdão. Eu devia crêl-a. Muito ávante tinha eu ido nas conjecturas do meu ciume. Fanny repartia-se; mas não pensava sem horror n'essa repartição.
Se eu a amasse menos, decerto me sentiria exaltado pela dolorosa confusão que ella acompanhava de tantas consolações, pelas lagrimas que lhe derivavam na face, quando me descobria a chaga sangrenta da sua vida; eu poderia ficar altivo e grato, ou compungido ao menos d'aquella tamanha dôr e humildade; mas, em meu espirito, havia uma só preocupação, que me alheava de mim mesmo. Fóra d'ella nada comprehendia, não pensava em nada.
Não tive pois palavra boa que lhe dissesse; satisfiz-me mostrando-lhe receios pela sua tranquilidade.
«Teu marido deve suspeitar, vendo-te mudadada; por que tu amaste-o n'outro tempo.
A esta monstruosidade, encolheu os hombros, e não enchugou as lagrimas. Roger! Roger—disse ella—é pena que tu sejas sempre creança. Ouves, e não comprehendes. Pois por ventura os nossos maridos pensam em nós? Que mulher tomaria um amante, se o marido lhe desse o que um amante lhe dá? Já não digo os cuidados, as attenções, os bons modos, a amizade; mas um pouco desse balsamo que é a essencia da nossa vida toda—um pouco d'amor!{46}
XXV
Esta penosa discussão avantajou Fanny na minha estima, mas não me consolou. Que me importa a mim para o essencial o modo imperceptivel da intenção! O facto brutal era o mesmo. Não obstante, reprehendi-me da curiosidade do meu ciume, que até me roubava a sombra da duvida que eu, por momentos, affagava ainda.
Não podia, pois, atenuar a minha dôr o effeito das ultimas palavras de Fanny. O que eu queria era vencer o invencivel, por que era oppressiva a mesma angustia.
Eu espiava o olhar de Fanny como querendo calcular-lhe as forças, antes de aggredil-a de novo. Mas os nossos olhos tinham-se encontrado, e não podemos mais tempo resistir a nós mesmos. Fugiu de minha alma a menor idea de lucta; do coração d'ella fugiu o menor desejo de resistencia; e o abraço que nos apertou era tão forte, que, mais uma vez, gostamos um minuto de verdadeira felicidade.{47}
XXVI
A confissão, que eu arrancara a Fanny, devia fazel-a soffrer tanto como a mim. Ella, porém, tão pouco se individualisava na offensa, que, desde esse dia, em que eu lhe patenteei as minhas dôres, todas as suas escondeu de mim, e risos me trouxe sempre, como a convidar-me graciosamente a dominar os impetos do meu carater. Pobre mulher, que vinha visitar-me por tempo horrivel, e a sua mais instante preoccupação devia ser o urdir mentiras que legitimassem a sua ausencia de duas horas em cada semana. Apesar d'isso, resistia aos aguaceiros da primavera, como ás nevadas do inverno. Nem mesmo fallava dos incommodos que precisamente devia soffrer para arrancar algumas horas de liberdade ás estreitesas da escravidão da familia. Ria gentilmente dos seus vestidos molhados, despindo a muito custo as luvas, ageitando os cabellos desanelados, e chegando ao fogo a biqueira das botinhas fumegantes. Tinha como brio de se vêr em minha casa depois de haver-se exposto a perigos tamanhos, feliz por a não terem encontrado, contente porque me via menos triste. O vencer obstaculos, a conservação do segredo, manter a estima da sociedade, o cuidar do meu repouso, tudo isso não a deixava sentir o cansaço. Não ha felicidade perfeita—dizia-me{48} ella enternecidamente com um suspiro—ambos pagamos á tristeza o tributo do nosso amor; mas este amor é tão bom que o tributo que a tristeza recebe não me parece uzurario.
Nunca suggeria discussões; nunca foi a primeira a fallar-me dos seus deveres, que muito apreciava, e dos quaes me sacrificara a melhor parte. Com seu maravilhoso instincto de mulher, adivinhava que não podia fallar-me de seus deveres sem me irritar o orgulho, e ella respeitava o meu orgulho, como cauza de soffrimento, quando mesmo o feria. Nunca pude surprehender-lhe sombra de remorsos. Mas têl-os-ia ella?...
Quando eu estava sósinho, pensava assim:—Que cautellas terá ella tomado para dissimular este amor? que invenções! que calculos! que ardis! para se furtar a discussões sobre as suas sahidas! Quantas concessões para não ser descoberta! E tanto que arrisca! Pobre mulher! Tanto tem que perder! E eu tão pouco! Ah! que mau homem sou em atormental-a!
Tratava-me ella por creança, e, com franqueza, eu o merecia bem. Quantas coisas eu sabia do seu viver que ella me occultava, com medo de penalisar-me!
Eu não queria comprehender nunca que havia dias em que lhe era completamente impossivel sahir, e a mais banal visita era bastante a retêl-a em casa. Desconfiava então de abominaveis calculos. Affirmava que ella me mentira. Cuidava que procedia a falta de excitações e fadigas na partilha que ella devia detestar. Odiava-a.{49}
«Fases-me piedade! dizia ella quando eu lhe deixava vêr os horrores do meu infermo espirito.
Todavia, algumas vezes, meio esquecido de minhas magoas pessoaes, para entrar ás profundezas da consciencia, dizia em mim: «Quando a tenho torturado bastante, quando ella d'aqui sae chorando, attribulada, golpeada no coração, perguntando-se se me tornará a vêr em sua vida, que fará ella na rua para disfarçar o tormento que a aperta, e mascarar o rosto com o gesto de habitual tranquilidade, para volver á mulher risonha que eu conheço? Será á custa de carinhos que ella affasta as suspeitas de um marido difficil de enganar? Ah! que lagrimas ella deve chorar com seus filhos! São tantos os esforços dolorosos que elles lhe custam!
E como sei bem que elles adivinham o segredo das lagrimas d'ella! E quão certo é que, semelhantes á mãe, tão bons, tão discretos, com suas mãosinhas lhe enchugam os prantos, sem lh'os trahirem.
Fanny soffria horrivelmente. Via-se-lhe o amarellecer da tristeza.
Eu, sem lh'o dizer, observava o circulo negro que marmoreava a circumferencia de seus olhos elanguecidos, e lhe dava ao olhar estranha expressão de piedade.
Via-lhe contrahidos os labios; e as rugas que subiam da fronte perderem-se sob os cabellos sedosos como symbolos visiveis de dolorosos pensamentos. Consternava-me este ar de desleixo que a definhava.
Diante de mim sómente ella affrouxava a rigidez{50} do seu porte, e eu da melhor vontade lh'o perdoava: devia estar cansadissima de representar de senhora feliz!
Quem lhe dera a ella poder tudo confessar, e viver francamente commigo, sem ignominia!
«Não me deixes—dizia-me ella por vezes—Tu es-me necessario como a luz!»
E outras vezes accrescentava:
«O que me prova que eu te amo, é que eu amo tudo que é teu, o teu dôce egoismo até, até a tua colera, mesmo as tuas sublimes injustiças!
Depois, ficava subitamente callada, como se algum funebre pensamento, que não ousava confessar, a angustiasse sem desabafo.
Eu observava-a, e ella sacudia a cabeça. Depois, retorcendo os dedos, exclamava:
«Trahir! trahir sempre! Eis aqui o horror que tudo me invenena, mesmo a idea da minha felicidade. Eu sou a mais miseravel das creaturas. Deus negou-me força, e, por toda a vida, cumprirei a sentença da minha fraqueza. Tenho vivido sempre diversamente da vida que quizera ter; tenho visto sempre ao pé de mim o que eu quizera fazer. Trahir! meu Deus! como eu me detesto!
Tomava-a então nos meus braços para applacal-a; mas não achava que responder-lhe—De que quer ella fallar?—Perguntava-me eu estupidamente.
Devia de ser do facto da perfidia; mas eu conhecia-a ainda mal, e attribuindo-me as palavras fugidas á consciencia d'ella, sentia-me feliz e orgulhoso.
Isto ás vezes fazia-me chorar, e tomar corajosas resoluções—Guardarei para mim os males todos,{51} e as consolações para ella—propunha eu comigo.
Por compaixão, pois, esquecia eu momentaneamente os meus desgostos; sacudia o cansaço do meu pesado scismar, por me deixar levar dos transportes ardentissimos da paixão. Refazia-me em meiguice e ternura e sujeição, mais affectuoso que o molosso fiel que, apoz longa auzencia, encontra o olhar do dono querido.
Vertia a fluxo nectar dulcissimo da lisonja á mulher estremecida; tornei-me frivolo, fallador, volitando por sobre vinte assumptos a um tempo, rindo desentoadamente, evitando sobre tudo proferir palavra que dissesse respeito directo ao assumpto uzual dos meus tormentos.
Mas esta missão heroica, de que dei má sahida, não a enganava. Olhava-me ella com spasmo. Escutava-me meneando a cabeça. Cuidaria ella, em consciencia, que, extincto o ciume, seria o mesmo extinguir-se o amor?
Estes accessos de heroicidade não podiam durar em mim longo tempo. Suspirando, como pessoa aliviada d'um peso grande, viu ella que eu recobrava o meu aspecto triste.
XXVII
Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella situação. Mas, d'ahi em diante,{52} havia entre nós alguma coisa, que não podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que, mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os labios para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito bastava então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente, esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que me devorava. Não queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia. Fanny formalisava-se então; meditava largo tempo antes de responder-me, para não se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o sobr'olho.
Os homens são insaciaveis—dizia ella, com grande espanto meu—Não podes contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se passa em minha caza?
Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias, esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e comprimia-a convulsivamente ao meu coração.
O que muito me espantava e irritava acremente{53} era a docilidade com que ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr, era tudo o mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e não dizia palavra.
«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia.
Fanny encolheu os hombros.
«E se algum incidente imprevisto nos separasse?»
—Que queres que eu te faça!...—disse ella, e em seguida entrou a chorar.
Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de modo que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra comprehendia ella a minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E dizia-me:
«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.
Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui.
Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:
«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!»
Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella anteposesse a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de baixeza, que, irritado por ser eu só a penar, empregava toda a minha influencia para exigir d'esta{54} desgraçada mulher que seguisse uma norma de proceder deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem sabia, eu, com isto, que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho. Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o coração.
Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de inteiresa, disse-me:
«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o repouso.»
Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de martyrio, por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se em defensora de seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas disputas aviltantes e penosas.—Tenho medo de infastial-a—disse-me eu um dia.
XXVIII
Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para me irritar. Tomei a peito{55} depraval-a, buscando abafar este amor nas cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais esquecer os olhos d'ella?...
Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.
«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos; porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de leve as faces.
—Não posso viver sem amar—respondeu ella pausadamente—Não posso viver sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas{56} secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é exclusivo meu, é a minha paixão.—E com leal exaltação, ajuntou: «comprehendes-me?»
XXIX
Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida; eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia «Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que eu lhe indicasse.—Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques—disse-me ella, entre dois beijos, retirando.
Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.
Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e fui ter a um pavilhão,{57} cujo local me havia indicado Fanny. A vinte passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo. Fechei a porta. Estávamos ás escuras—Não falles—segredou-me ella, com extraordinaria agitação—elle está desconfiado ha tres dias; anda triste; deve ter suspeitas.
Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não contava.—Ouve—murmurou ella, com a voz tremula de mêdo—é preciso que elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem, a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.—E sentindo-se desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:—Eu tinha esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te fallado como a um homem.
«Fanny,—disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a sentar ao meu lado—serei talvez creança, mas tenho coragem de homem. Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer: submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a terra.
Não quero que morras—disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas{58} o ruido de passos que rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.
Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado arvoredo.
Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu—teu marido nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.
—Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.
«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias, tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta; mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem ciumes.{59}
XXX
Logo que ella partiu, fui impetuosamente no encalço do solitario passeador. Via-o outra vez na volta d'uma rua. Passou, como primeiro, deante de mim, sem me perceber, sempre sombrio, sempre meditativo. Curei de surprehender alguma involuntaria palavra que me revelasse a causa da sua concentração. Mas tinha cerrada a bôcca, e impassivel a fronte. Subindo para casa, accelerou o passo. No patamar, parou, olhou o céo estrellado com sombria seriedade, e alongou para elle os braços, como se do coração lhe fugisse alguma prece ameaçadora. E eu exclamei mentalmente: «É elle, pois, desgraçado tambem!»
XXXI
Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,{60} como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.
Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para{61} isso, decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão vulgar me esperava!
XXXII
Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.
«Que aconteceu?—perguntei, levando-a para debaixo das arvores.
—Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes—disse ella—Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã{62} partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande—ajuntou Fanny suspirando—por que nunca foi commigo tão expansivo.
Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu represava-os.
«Nada respondes, meu amigo?—disse Fanny.
—Que heide responder?—exclamei, perdida a consciencia da minha brutalidade.—Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou ella.
—Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te achares hoje mais livre que nunca para amar-me.
Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão de piedade, e disse brandamente:
«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.
Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:
«Roger, por que não fallas?
—Não tenho consolações que dar-te.
«Por que?{63}
—Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.
«Pois que te succedeu?
—Nada.
Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.
—Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle—disse eu de repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.
O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.
—Quem sabe—pensava eu commigo—se a sua ruina fará o que a minha dôr não pôde fazer?
XXXIII
Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade, prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões{64} d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação, mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava fé dos meus enfados. Isto desesperava-me.
Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher, que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias; indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me; mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a deu.{65}
XXXIV
«Uma mulher que se aliena—disse-me ella, uma vez, sem nexo que explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso—Uma mulher, que se aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes, com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.
Commovido por este exordio, respondi balbuciante:
—E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.
«Sim—disse ella amargurada—O que ha de mais entre nós é o amor.
O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem as sente.
E suspirou. Respondi assim:
—Vou mais longe que tu, Fanny.
Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas torturas. Uma amante, qualquer{66} que seja o seu theor d'amar, conhece sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz, não conhece a existencia do amante.
«Isso é ir longe de mais—disse ella a meia voz; depois, alçando os hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:—Que é o amor proprio, Deus meu?