[Nota do transcritor: Esta obra apresenta algumas inconsistências ortográficas.]
Obras de Faustino da Fonseca
Lyra da Mocidade (primeiros versos) 1892. Exgotado 1 vol.
Tres mezes no Limoeiro, 1896, 1.a edição com illustrações de Leal da Camara. Exgotado 1 vol.
Segunda edição (popular) 1 vol.
O descobrimento do caminho maritimo para a India 1 vol.
A descoberta da India (Drama historico em 5 actos) 1898 1 vol.
O escandalo dos dramas do concurso do centenario da India, 1898 1 vol.
Regresso ao Lar, romance, 1896, com illustrações de Roque Gameiro (folhetim em O Seculo.)
A descoberta do Brasil, 1900, com illustrações de Roque Gameiro, cartas, mappas, fac-similes de documentos. Exgotado 1 vol.
Pedro Alvares Cabral, 1900 1 vol.
Ignez de Castro romance historico, 1900. 1.a edição com illustrações de D. Virginia da Fonseca, Augusto Pina, Bemvindo Ceia. Exgotado 4 vol.
Segunda edição (popular) com illustrações de Alfredo de Moraes 2 vol.
Escravos, romance, 1901 (folhetim em A Folha do Povo.)
Padeira de Aljubarrota, romance historico, 1901, com illustrações de Bemvindo Ceia 2 vol.
As mulheres portuguêsas na Restauração de Portugal, romance historico, 1902, com illustrações de Roque Gameiro 3 vol.
El-rei D. Miguel (chronica popular do absolutismo) 1905. Illustrado com retratos e monumentos 1 vol.
Os filhos de Ignez de Castro, romance historico, em collaboração com Joaquim Leitão, 1905 1 vol.
Anedoctas de reis, principes e outras personagens portuguêsas e estrangeiras, extrahidas, traduzidas, compiladas e prefaciadas, 1905 1 vol.
Bons ditos de reis, principes e outras personagens portuguêsas e estrangeiras, extrahidas, traduzidas, compiladas e prefaciadas, 1906 1 vol.
Beijos por lagrimas, romance historico. 1906 (folhetim em A Lucta).
FAUSTINO DA FONSECA
OS BRAVOS
DO MINDELLO
ROMANCE HISTORICO
LISBOA
Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso
5—Largo de Camões—6
1906
I
Ao tiro de peça acordou João de um inquieto somno de namorado e, apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, prestou attenção.
Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as aprehensões dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao caloroso enlace dos seus braços, e um subito quebranto o impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
Não se repetiram detonações que o tranquilisassem e, no brando rumor cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros um capote azul de cabeção, e fechos de prata, apagou a candeia de ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de cedro da janella de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhan.
Então destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, puchou para si os dois pesados batentes e debruçou-se com avidez.
—Muito madrugaste hoje—disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de dormir apanhando os cabellos brancos.
Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o focinho bronco farejando por cima da cancella.
—Não ouviu uma peça, tia?
—Ha de ser navio de Lisboa.
Em passo miudinho, muito activa, a arregaçada cheia de milho, acudia ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito, misturado ao chapinhar na agua de semeas.
Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim dando o signal do batalhão, e o terno de cornetas atacou as notas baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.
Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do Pisão.
Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, pé descalço, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa no pescoço por botões de oiro, carapucinha preta com orelhas vermelhas, pequena como a palma da mão, posta á banda n'um elegante equilibrio, batendo o bordão com rendilhados na ponteira; rolhas de pasto no bico negro das cabaças defumadas, com pontos a cordel em fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao hombro esquerdo.
Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores, anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.
Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos latidos os cães das quintas.
Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse toque de sino, impregnado ao pôr do sol pela melancholia da tarde; seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das almas.
Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia Pulcheria.
Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque, onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando viço aos cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da arquinha onde se espetava a bica de ferro.
Recolheu-se, para o não verem faltar á oração matinal e, assim de pé, varejava-lhe o olhar o braço d'agua que dera o nome d'Angra á sua cidade.
Mas não avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro alarmante vinha findar-lhe os devaneios.
Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de garça; vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas pernas a fugirem no calhau.
Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.
Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos, cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse el-rei D. Sebastião no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á inextricavel vegetação de sargaços d'esse mar de inferno.
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar largo, essas terras onde tudo se decidia: a França, mãe da liberdade, regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as instituições de Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolução de 24 de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisição; a Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e decerto auxiliaria a revolução de 18 de maio contra a usurpação de D. Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda não havia um mez; o Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; Lisboa, de onde uma embarcação traria um primo para lhe arrebatar a mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorpção do mar largo e das terras aonde conduzia, surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo detraz do Monte Brasil, a fragata Princesa Real, mostrando no balanço a bateria rasa, cintada de peças negras em carretas vermelhas abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem lanchas e escaleres.
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que trazia no forte bojo, e espicaçava-o o impeto de sair d'essa dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas esperanças, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, adivinhando, no palpitar de um lenço, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casarão onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e o carroção de coiro bolorento, baloiçando-se nas grossas correias, de largas fivellas areiadas, arrastado á força da aguilhada por duas juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte apoiada na mão esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, anediando o ligeiro buço, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, começou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almoço, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da louça da India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado armario de madeira do Brasil, com guarnições tremidas e remates arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o avô presidiam á grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educação mulherenga, creado entre rabos de saias, adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de dôr se lhes faltasse.
E as ambições de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se no resignado aniquilamento, na tendencia para a meditação, de que o haviam adoecido os dias abafadiços e humidos.
—Já saes?—perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de tartaruga.
Dorotheia accrescentou que não era dia de lição, e o dominio das velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de lagrimas quando voltava tarde «do caminho da perdição!»
Não resistia, não se insurgia, não protestava, mas nem por isso deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
—Nem que fosse dia de lição irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do navio de Lisboa, sublinhando com intenção.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
—Não te vás meter em trabalhos.
—Não se fala senão de vinganças, de prisões, credo!—apoiou Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado economico das perturbações:
—Tudo mais caro. Os ovos já estão a quatro por um vintem, e querem uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de entrar na cidade, e não passam do Desterro onde açambarcam a manteiga, os ovos e as gallinhas os revendilhões, que põem tudo pela hora da morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os preços. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que veiu para ahi de tamancos! Já não se pagam fóros, ha que tempos não entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capitão Toledo das Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que não se acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em chôco, mas logo na noite da revolta, com os tiros dos soldados do Lobão contra os milicianos, foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que põem duas vezes por dia! É o que se ganha com essas façanhas dos constitucionaes.
—Ó tia!...—interveiu sorrindo.
—Se não has-de defendel-os, não fosses todo do Juvencio!—commentou Pulcheria, mais directamente ferida pelo gôro.
Dorotheia censurou, muito sentida:
—Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria.
—Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabeça.
Pulcheria reprimiu João n'um olhar.
—Não te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles são do senhor D. Miguel.
—Estão no seu direito.
Dorotheia acudiu com a questão do dinheiro:
—Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escripturação dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matanças manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu avô foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.
E reparando na distracção d'elle:
—Não comes nada? Grande coisa tens hoje!
Pulcheria observou-o tambem:
—Naturalmente os pedreiros livres estão falados para a chegada do navio de Lisboa.
Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos contos, e João surprehendeu a creada, a velha Maria da Assumpção do Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos braços inchados de veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a testa encarquilhada, o nariz acavallado, os beiços pendentes, mascando a sua maneira especial de se benzer:
Eu me benzo c'os tres cravos
Abraçados n'uma cruz
Para que possa dizer
Santo nome de Jesus:
A cruz desça do ceu
E se deite sobre mim
O Deus que n'ella padeceu
Elle responda por mim.
Por fim o dedo pollegar da mão direita, tornado bento pela tarefa redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para o lar.
Dorotheia commentou, compadecida:
—Dão com ella em doida as innovações dos constitucionaes. Demora-se toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé pôr-se de empada, a rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos.
Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:
—É para o que servem os pedreiros livres!
Elle riu n'uma explosão juvenil.
—Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem graça!
—A senhora Joaquinina do Ó vê-te sempre no falatorio da botica, e toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia noite.
—Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o cordão de São Francisco á cinta, não diga que tambem lá vê, a jogarem o gamão, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do bispado.
—Esses são pedreirões dos grandes!
—Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do Ó.
Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que escolhia a pelle torriscada, o affonso de lapas em que o marisco guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sabôr do mar; e tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se entretinham as tias.
De olhos no tecto e mãos postas, repetiam tres vezes as velhas, junto da meza «Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer», notando desgostosas que João se esquivava ultimamente á acção de graças, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o Demonio.
Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lançando um olhar irritado ao convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando comprometter-se para com o morgado, não entrou a perguntar novidades de Lisboa.
Voltou á rua do Convento da Esperança, e passou por diante do collegio dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a fachada com dois grandes braços cruzando-se de punhos fechados contra a cidade—as armas de S. Francisco.
Virando a esquina entrou na praça, e foi direito á botica, ao canto do Passo onde parava a procissão e se cantavam motetes.
Para ir ali tinha a justificação de falar ao mestre, e trazia-a engatilhada para alguma pergunta do morgado.
Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:
—Aqui não se recebem ordens do Miguel! Isto não é terra de burros nem de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto, o capitão general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da camara convocou uma reunião extraordinaria, a que concorreram as principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e resolveram não cumprir as cartas regias por falta das formulas da carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou não sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma Princesa Real!
Não iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe importava.
Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a lição, e não ficaria sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o. Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da lição de latim do conego Penedo, um alto vermelhaço, de cabello branco com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a mão fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres.
Como no momento de libertação em que a garrida chamava os conegos á Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira do côro, cabeceando, a remoer o ripanço em voz roufenha, ia João na doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.
Sentia-se tão livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas, portões de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a admirarem as vinhas, n'um culto pagão mais sincero do que aquelle em que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.
Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio, para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua situação para com Maria, antes que surgisse outra ameaça.
Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a questão politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destroços de naufragios, pranchões crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.
Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha, onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a fundura da rocha viva.
Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e vermelhos de peixes-reis e bodeões. Acudiam engodados, vinham em cardume á çaga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios arrastada pelo mar para o recanto da angra.
Á picada no anzol correspondia a saccada lesta do caniço; saltava um peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador adentanhando a guelra; lançava-o ao cesto, onde a frescura dos mais emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.
Mas o cação voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.
Subiu a Rocha até ao Relvão.
Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de prôa dos barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a bordo da fragata, alando os ferros.
Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. João Baptista, encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse castello que fôra o symbolo da oppressão hespanhola e se tornára a unica esperança da liberdade portuguesa!
II
Com alegre surpreza das tias, João entrou á hora do jantar, ao meio dia em ponto; mas em breve lhes tirou toda a illusão de que não o interessassem os acontecimentos cujo echo já chegava á Pereira.
Comeu á pressa, foi aperaltar-se para vêr Maria, e saiu logo, de chapeo alto de aba direita, casaca de briche nacional côr de castanha de quatro botões nas abas, collete de grande gola, alta gravata em volta ao collarinho, calça branca e botas altas de canhão amarello.
Merendaria na quinta, não contassem com elle.
E d'ahi a pouco estava na botica, sabendo os ultimos boatos, occultando-se da Joaquinina do Ó e de outras beatas bisbilhoteiras, que rondavam o Juvencio, embiocadas no manto negro dos pés á cabeça, saia de merino preto, o capuz envolvendo-as do taboleiro de cartão até á cintura, onde passava pregueando-se, estreitamente cingido; os braços apanhando os extremos do involucro e rebuçando-o na frente, por fórma a só ficar aberto um pequeno oculo, no extremo do canudo de cartão, que se movia como um bico de passaro, apontando-se sinistramente no faro da curiosidade, permittindo-lhes verem sem serem vistas, para irem delatar no confessionario.
D'ahi a pouco caminhava pelo campo, ao longo de muros de pedra solta, evitando a poeirada, contrariando n'uma marcha de automato o seu incorrigivel acanhamento.
Lembrava saudoso a infancia em que, fugindo á escola de primeiras lettras, saltava paredes á cata de ninhos, de gafanhotos, de cigarras; revolvia os restolhos á procura de grillos, que levava no lenço para casa, para os ter a cantar dentro de um copo.
Puzera termo a essas esturdias a preoccupação absorvente de Maria.
Ao principio, quando de tarde ia trabalhar na escripta, por ter presa a manhan pelos estudos, lamentava essa prisão, impedido de retoiçar no areal, deitar-se á agua, nadar, apanhar conchas, enxugar-se rebolando na areia quente, e ir depois, noite fechada, para a praia das mulheres, no recanto do Castellinho, vel-as metterem-se na agua aos gritinhos, compondo as saias enfunadas pelo mar.
Despertára-lhe novas impressões a intimidade de Maria, e os passeios com ella sob as arvores substituiram d'ahi em diante todos os entretimentos de rapaz.
Escutava-a encantado, admirava-lhe os movimentos, esquecia-se a contemplal-a e, quando retirava ao pôr do sol, voltava-se para traz a vêr se ainda a descobria.
Ia já perto da quinta, mas sempre na mesma indecisão, ora desejando não chegar nunca, ora querendo precipitar o termo da anciedade que o torturava.
Avistou por fim a vivenda dos Folhadaes, os altos telhados em pyramide, a fachada ennegrecida pelo tempo, as janellas com grades de convento, o escudo de armas por cima do grande portão de carro, o extenso muro torreádo por mirantes e caramanchões.
Entrou pelo postigo aberto no grande portão de cedro, pesado de trancas e tranquetas, ferrolhos, corrediças e argolões, e o coração batia-lhe descompassado.
Saccudiu o pó na banqueta de pedra, de onde subiam as senhoras para as andilhas, e trepou a escada exterior, que começava na parede do fundo e cortava em angulo para a da esquerda, receiando uma vertigem, sentindo fugir-lhe a luz dos olhos.
Sentou-se no poial do alpendre, a descançar um momento, a dominar o tremor nervoso, e descobriu Maria ao fim da cerca, com a prima D. Josepha da Esperança e o primo Jorge.
Inclinou-se, descobriu-se, ella correspondeu n'uma venia exagerada, curvando-se muito, no que foi imitada pelos primos, e depois arrancando o chapeu de palha, rustico, de grandes abas, enfeitado de espigas, papoilas e malmequeres colhidos pela quinta, imitou-o cumprimentando como um homem.
Repetiram as raparigas as zumbaias, e o primo deitava-lhes as tranças para a frente, ao que, irritadas, respondiam com palmadas e beliscões.
E quando a creada, de dentro da casa, o convidou a entrar, elle tornou a saudal-as, e as raparigas responderam rindo ás gargalhadas, fazendo-lhe figas.
Transpoz humilhado a porta de imponentes almofadas; nunca lhe parecera tão triste o casarão onde passava horas enfadonhas, junto de um frade tresandando a vinho.
Sabendo os cantos á casa ia encafuar-se no escriptorio, quando a creada lhe disse que o senhor ainda estava á meza, e o guiou á casa de jantar.
—Entra, entra, pequeno—convidou em voz entaramelada o morgado—tu és como se fosses da familia, aqui como o mestre Jacintho, por parte de teu avô. Aquillo é que era um homem, o capitão Silveira! Gente de outro tempo! Hoje só ha fedelhos como tu.
Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a estoirarem os calções de ganga amarella, copiados de D. João VI, que usava com meia branca e sapatos de fivella de prata.
Já pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho affirmavam o abuso da bebida, e a mão tremula derramou-lhe o copo, que empunhava de pé, virado para João.
—Á tua, em memoria de teu avô!
Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se á borda da meza e á grande cadeira de braços, de coiro negro e pregaria amarella, em que presidia á cabeceira, na velha tradição senhorial.
—Grande homem que elle era!—apoiou mestre Jacintho—sem desfazer em quem está presente.
Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho soldado denunciou-se no cabello á escovinha, na colleira de coiro negro que no pescoço escanzelado saia da camisola de linho de pastor, na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao lustre das mochilas.
Tomou com toda a confiança um copo, bebeu e, sempre de pé, disciplinado até a escravidão, voltou-se para Martinho Vasques:
—O que nós fizemos n'aquelle Russillão!
Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o beiço inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz destacava-se-lhe rubro, da côr de telha do rosto apopletico, onde as sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasiões normaes a marca da rudeza, da selvageria.
—Se não fosse teu avô não estava eu aqui! Se não me tivesse deitado a mão quando eu caí ferido na retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a vida a elle e a este velho!
Mas a lingua emperrava-se-lhe, a sensibilidade engasgava-o de todo.
Ancioso sempre de contar façanhas, no orgulho profissional, o ex-soldado do Roussillon ergueu as mãos á altura dos ouvidos, como a pedir que o escutassem, e começou n'um bom ar de velhinho, tremendo-lhe o bigode branco em escova:
—Quando aquelles malditos franceses caíram sobre nós, eu, mais o meu capitão e mais vossa excellencia, senhor morgado, fomos para cima d'elles como leões, e eram cutilladas de alto a baixo, golpes de rachar de meio a meio...
Ganhava-o pouco a pouco a furia de assassino profissional: passavam-lhe no olhar relampagos sinistros; arregaçavam-se-lhe os beiços, mostrando os dentes pôdres ainda promptos a morder; crispava-se-lhe a mão esquerda em fórma de garra, o pollegar muito desenvolvido, erguido acima dos outros dedos, na ameaça de premir a guela do inimigo; e na mão direita brilhava-lhe uma faca de meza, brandida com furôr, como nos assaltos á arma branca, em que, com as mãos a escorrer em sangue, degolava soldados agarrados ás peças, apertados uns contra os outros, sem espaço para se defenderem no recanto de uma trincheira. Tinham ás vezes que abrir-lhe a mão á força para lhe tirarem a podôa de jardineiro, a que se soldavam os dedos quando brigava com os cavadores, e renovava-se a lição do mal; ou quando o vinho lhe obliterava a consciencia de homem grato, generoso, humilde até á servidão.
Sobresaltado frei Angelico na languidez da digestão, arrotando empanturrado, flatulento, ergueu-se, arredou o habito pardo de franciscano n'um meneio feminil, adquirido em menino do côro; o que ainda parecia, apezar dos quarenta annos, pelo effeminado dos ademanes de aprendiz de clerigo, pelo tom rosado da face gorda e oleosa, a que a larga tonsura dava uma frescura de novo; e desapertando o cordão de nós, clamou na voz de canna rachada, em que outr'ora cantava de falsete, limpando o suor ao lenço de Alcobaça sujo de rapé:
—Veja e aprenda, Joãosinho, como se pratíca a verdadeira egualdade, não a d'esses malditos clubs, mas a que é agradavel ao ceu! Aprenda, que está em edade. N'esta velha casa fidalga fraternisam, libando o vinho de Deus, dando graças ao Altissimo pelas suas obras, a nobreza representada no excellentissimo senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, morgado dos Folhadaes, o clero n'este humilde servo do Senhor, e o povo n'esse villão, esse ninguem, esse bicho da terra, esse pó da estrada!—e apontava mestre Jacintho.—Exemplos d'estes, só na educação religiosa se encontram. E para isto não é preciso ser jacobino, nem republicano, nem pedreiro livre, nem cuspir na hostia consagrada!
Benzeu-se horrorisado e, sem transição, desceu do tom de prégador:
—Mas o Joãosinho não bebeu nada. Vá lá. Um só não faz mal.
Encheu-lhe um copo, derramando vinho pela toalha, e deitou outro para si.
—Beba á saude do senhor morgado, e vamos para o terraço, que se abafa de calôr.
Habituado áquellas scenas, bebeu satisfeito João. Talvez lhe désse o vinho o animo preciso.
Saíram, o morgado á frente, equilibrando-se ao bordão de marmeleiro polido, no apparato de uma vara de juiz, em gravidade processional; depois o frade, arrastando as sandalias, conchegando a proeminente barriga, levando no regaço o cordão e o rosario, que desapertara; João pisando respeitoso, ao de leve; e por fim o mestre Jacintho, muito curvado, rindo e falando comsigo mesmo.
Assentaram-se a nobreza e o clero na banqueta de azulejo, que corria ao longo da empêna da casa, no terraço voltado para S. Matheus. Sentou-se João sem esperar convite, por direito proprio, considerando-se tanto ou quanto nobre, pelos fóros de fidalguia da espada do avô; e n'essa decisão já reconhecia o effeito do vinho fazendo-lhe perder a usual timidez, e já acariciava a proxima entrevista com Maria. Disciplinado como soldado, e tão firme quanto lhe era possivel, conservava-se mestre Jacintho de pé ante os seus superiores hierarchicos, chalaceando, contando historias de caserna, as mãos perto dos ouvidos, o rosto expandindo-se n'um sorriso de bom velhote.
Depois saíu Martinho Vasques com o jardineiro, a vêrem os trabalhos da quinta, e frei Angelico e João foram para o escriptorio.
Dobrado para a meza de saia de baeta vermelha, limpando no cabello a penna de pato, olhava a furto, pela janella fronteira, a varanda de pedra do fundo da quinta, onde passeavam á sombra da parreira, Maria, a prima que ia jantar com ella e passar a tarde, e Jorge da Feteira, namorado de D. Josepha da Esperança, que apparecia para a merenda.
Tinha ciumes do fidalgote que levava a confiança de primo a beijar Maria á entrada e á saída, e invejava-lhe a liberdade em que andava com as duas raparigas ao fresco da tarde, pela recatada vastidão do pomar.
Afastavam-se, mas elle espionava o quadro recortado pela janella na parede nua, e tornava a vêl-os notando a impaciencia com que o observavam.
Orgulhava-o esse interesse. Sabia que o estimavam, que o esperavam para a merenda, mas não deixava de reconhecer, por parte dos primos reunidos para falarem, o motivo d'essa espectativa, poderem afastar-se deixando Maria entretida com elle.
Deitado em cima da papeleira encetára o frade diversas folhas de papel, mas a penna de pato, rangendo muito, fazia-lhe uma lettra incerta, incomprehensivel, e a mão tremula deixava cair borrões que impossibilitavam a continuação. Deitava-lhe areia, encanudava a folha e despejava-a no recipiente de chumbo, mas os pingos de tinta lá ficavam. E na atarantação de poupar meia folha de garatujas despejou-lhe por cima o proprio tinteiro, borrando o lenço, as mãos, todos os papeis do alçapão.
Rendeu-se então á evidencia, reconheceu-se incapaz de escrever, e lançando-se para o hirto canapé de palhinha, tomou rascunhos de cartas e poz-se a ditar a João.
Entretido com a janella, elle escrevia machinalmente, repetia distrahido, errando o ditado; e fr. Angelico, sentindo a cabeça pesada, crendo seu o engano, envergonhou-se do rapaz e deu por findo esse tão pouco proveitoso trabalho.
Ia emfim desabafar!
Mas o acanhamento assaltava-o de novo, e ainda pensava adiar para mais tarde essa urgente expansão.
Desceu ao pateo de entrada, abriu a cancella que dava para as trazeiras da casa, onde as gallinhas debicavam montes de estrume, e os filhos do quinteiro pulavam nos picos de matto roçado para o lume; passou por entre os chiqueiros, atravessou o jardim, rodeiou o repucho, contornou os taboleiros de onde vinha o cheiro penetrante dos cravos; e ao fim das ruas de buxo, abriu outro portal, e internou-se na quinta, por debaixo da latada que em pilares de pedra a dividia ao meio, deixava dois grandes rectangulos destinados a alfobres e á horta, e continuava contra os altos muros negros de pedra solta ensombrando os passeios lateraes.
Reuniam-se todas as tardes no pomar, ao fim das larangeiras, das nespereiras, por baixo das quaes nascia silvestre a hortense, e conversavam até ao escurecer.
Só encontrou D. Josepha da Esperança e Jorge da Feteira sentados muito juntos, de mãos dadas, indolentemente reclinados no grande banco de pedra, com recosto de azulejos onde caçadores, de chapeo tricorne, perseguiam lebres, acompanhados de cães, quasi de pé como pessoas.
A falta d'ella permittiu-lhe serenar, confirmar-se no proposito de dizer-lhe tudo, de sair por uma vez do equivoco em que vivia.
N'uma aspereza que a tornava mais apetecivel, entrou Maria, saltando irrequieta, o chapeo deliciosamente deitado para os olhos, n'um simples vestido vermelho inteiro, de cintura alta, o collo a descoberto, de tres folhos na saia um tanto curta, deixando vêr o sapato branco, atado por fitas brancas, sobre a meia branca, no tornozêlo.
A sua simplicidade contrastava com o requinte de secia de Josepha, a opulenta juventude trasbordando de um rico vestido verde, de cinco folhos, com capoteira de renda em bicos, sapatos de duraque preto, cabello penteado atraz em cuia, apartado ao meio na frente, grandes tufos nas fontes, um fio de perolas na testa, desvelos de toucador destinados ao primo Jorge, que por sua parte caprichava em vestir grosseiramente á D. Miguel, jaqueta de alamares, cinta, calção, botas de prateleira, bóné azul, cabello puchado para as fontes, cara rapada, porque o bigode denotava á legua constitucional.
Andava pela edade de João, mas parecia mais nova. As doenças da meninice, as convulsões com que a dotára o alcoolismo paterno, as impurezas do sangue azul dos casamentos consanguineos tinham-lhe dado a fragilidade ainda transparente na pallidez, nas fundas olheiras, no descorado dos labios. Por volta dos onze reagira, ganhára forças, mercê do longo tratamento com que o pae gastára muito, na teima de assegurar emfim um herdeiro á casa, depois de tantos morgados e morgadas, cheios de pustulasinhas, mortos no berço.
Eram d'elle os olhos azues, desmaiados, o cabello castanho, e a expressão de aspereza que as sobrancelhas, contrahindo-se, ás vezes denotavam. Mas na boca pairava-lhe a terna brandura com que a mãe outrora se resignava aos beijos roubados por infindaveis legiões de primos.
Afogueada pela pressa com que viera, Maria falou a João, e sentaram-se todos, encruzados, na relva, a comerem maçãs e marmelos assados no forno, trespassados de assucar, que ella trouxera no regaço.
Falou-se da imprevista partida do navio, dos actos do governo da ilha, dando elle noticias com simulada indifferença.
Finda a merenda foram beber agua á pequena cascata do recanto da quinta onde se abrigavam a estufa de ananazes, e as largas folhas das bananeiras; amadureciam maracujás do tamanho de ovos côr de chocolate; desenrolavam-se fetos de entre as pedras negras e vermelhas, fundidas pela lava em filigranas, em lagrimas; abriam em guarda sol as largas folhas ovaes do inhame por cima da valla onde escoava o regueiro, empoçado em nodoas de agrião.
Satisfeita a gulodice, que já lhe ameaçava de pontos negros os dentes miudos e mal implantados, Maria lançou-se para a rêde, que pendia indolente da ramada dos castanheiros, e juntando as mãos sob a cabeça, fez d'ellas e dos braços, a sairem nús da manga arregaçada, o travesseiro em que se reclinou indolente, cerrando os olhos, sorrindo a João.
Elle puchou uma cadeira de vimes e poz-se a baloiçal-a brandamente.
Ganhava-os o odôr estonteante das magnolias, o morno perfume adocicado recendente da estufa.
De mãos dadas afastavam-se pouco a pouco, os primos namorados até, como de costume, desapparecerem de todo.
Correspondia João ao infantil sorriso de Maria, e ha dois annos que não passavam d'ahi.
Estiveram muito tempo sem falar, no prazer mudo de se contemplarem, até que João estremeceu á ideia de a perder.
—Teve noticias do primo?—perguntou-lhe de repente, indo direito ao assumpto, sem preparação.
Ella respondeu indifferente, transportada no brando oscillar da rede:
—Sim. Está bem.
Apparentou desinteresse, mas insistiu:
—Sempre casam?
N'um movimento de contrariedade, que o animou a ir mais longe, disse Maria:
Ficaria outra vez interrompida a conversação, se elle, animado pelo que crêra adivinhar, não se arriscasse mais:
—E gosta?
—De quê?
—De casar.
N'um visivel enfado murmurou:
—Sei lá!
Muito nervoso, repetiu:
—Quero dizer se gosta de casar com elle.
Tirou-se da rede que, preoccupado, João deixára parar e n'um encolher de hombros:
—Se nunca o vi.
Foi lançar-se descontente no banco de pedra, a fronte ensombrada, no gesto do pae.
Ficou João um momento indeciso, e depois approximou-se vagaroso, offendido:
—Vejo que não é minha amiga.
—Porquê?
—Fala-me com mau modo...
—Eu?
—Com frieza, com indifferença...
—Para o que te havia de dar hoje!
E como elle se sentasse, succumbido, soltou uma risada, n'um impeto de volubilidade, e beliscou-o, no seu agreste feitio infantil.
—Isto então é mau modo?
Ergueu-se elle corando, e supplicou:
—Por amor de Deus não brinque commigo!
—Estás amuado?
—Pelo menos agora não graceje, e diga-me só: Gostava de ir para Lisboa?
Abrangeu n'um olhar a casa, o campo, a vida que levava enclausurada, e respondeu:
—Isso gostava.
Retorquiu João em voz estrangulada:
—Não se importava então de me deixar?
Irritada pelo interrogatorio, Maria exclamou, sem o fitar:
—Que pergunta essa!
Elle approximou-se, muito commovido:
—Era uma separação para sempre! para sempre!
—Sim, talvez!
E d'olhos no chão encarava agora as consequencias.
Vendo-a impressionada, João aqueceu:
—E não levava pena nenhuma?
N'um repente de sinceridade, Maria accudiu ingenuamente:
—Mas não tinha ainda pensado em mim!—queixou-se elle, muito sentido.
—Realmente ainda não pensára.
Começava a sentir-se compromettida, olhava em torno a procurar os primos.
João deixara-se arrastar pela arrebatadora emoção d'esse momento tanta vez sonhado, e tanta vez crido impossivel:
—É porque nunca me quiz bem!
Ella via embaciarem-se-lhe os olhos, tremerem-lhe os labios.
Desculpou-se para não o affligir mais:
—Como querias que pensasse em ti, se isto tem sido uma coisa no ar?
—Mas estão preparados para o embarque...
—É certo que o pae anda com isso ha muito. Mas elle faz e diz tantas coisas sem fundamento, que eu nunca o tive por decidido.
—Nem mesmo o casamento?
—Não pensei a serio em coisa alguma.
E n'um arremesso de creança que os mimos tornaram voluntariosa:
—Mesmo isso do casamento com o primo ha de ser se me agradar.
—Ah! Então ainda é possivel?
—Só Deus o sabe. Mas se não sympathisar com elle, não ha forças humanas que me obriguem.
—Quer dizer que ainda póde vir a agradar-se?
—Quem sabe!
Cria-o então possivel? É que nunca sentira por elle nenhuma affeição? E a custo João comprimiu um soluço, que não lhe passou despercebido.
—Que tens tu?
Bailando-lhe lagrimas nas pestanas, desabafou:
—Ando como um doido! Perco as noites a pensar que não nos tornamos mais a vêr. Toda a minha vida hei de chorar esta casa...
—Coitado! Faz-te falta o que o pae te dá a ganhar.
Magoou-o a apreciação. Pois não presentia n'elle outro sentimento? Não interpretára nunca o verdadeiro culto que lhe votava, olhando-a absorto, como ás imagens.
Pensou ainda em manter-se incomprehendido, em calar essa revelação. Vinha muito tarde! Não o comprehendera em dois annos de intimidade, não ia agora corresponder-lhe de repente. Mas revoltou-o vêr accentuada a situação de dependente.
—Não ia ali por interesse—protestou.—Os seus deixaram-lhe alguma coisa. Tinha com quê. Era só por ella, para estar ao seu lado, que acceitava o sacrificio do escriptorio.
Impressionou-a a paixão com que falava.
Ainda em tom de gracejo, mas com a voz um tanto abafada, disse sem o fitar:
—Querem ver que te deu para me namorares?
Ficou olhando para a areia vermelha. E como elle permanecesse calado, insistiu, evitando-o sempre:
—Não respondes?
—Fica zangada commigo?—perguntou a medo.
—Não.
—Isso é que fica.
Ella virou-se de repente, e fitou-o com franqueza:
—Zangada porquê?
Intimidou-o essa expressão, que não comprehendia; mas era tarde para recuar. Muito envergonhado, rendeu-se:
—Pois é verdade.
Maria ergueu-se n'um riso forçado:
—Tu, namorado de mim? Tu, meu fedelho! Ora! Não sabes o que dizes.
Ia afastar-se, mas João supplicou:
—Já que me não ama, diga ao menos que me perdôa!
—Tens medo? Descança, não faço queixa ao pae?
—Não se ria de mim, quero-lhe muito, muito!—soluçou elle.—E quando soube que a pretendiam casar em Lisboa, chorei de desespero, porque me costumára a pensar que havia de ser minha mulher.
Ella encarou-o, franzindo as sobrancelhas, como irritada pelo atrevimento do plebeu, do insignificante, irrespeitoso para com o idolo que para todos julgava ser.
—Estás brincando! É lá possivel!
Elle enxugou as lagrimas, conteve se:
—Sinto-o agora, pelo desdem com que me trata.
—É uma creancice.
—Sim. Mas que me perdeu para sempre.
Irritada procurou convencel-o:
—Pois tu não vês que o pae nem quer que eu fale com o primo Antonio, nem com o primo Sebastião desde que se lhes metteu em cabeça pretenderem-me, porque são pobres? E que és tu ao pé d'elles, quasi tão fidalgos como nós? O que diria o pae se soubesse d'isto!
—Que digo? Não me estás ouvindo?