A VIAGEM DA INDIA


Poemeto em dois cantos

por

FERNANDES COSTA

A VIAGEM DA INDIA

JUSTIFICAÇÃO DA TIRAGEM


quarto centenario do descobrimento da india


contribuições
da
sociedade de geographia de lisboa


A VIAGEM DA INDIA


Poemeto em dois cantos

por
FERNANDES COSTA

LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1896

A
Luciano Cordeiro
o iniciador
e incançavel propugnador do moderno movimento
geographico portuguez

CANTO PRIMEIRO


A IDA

CANTO PRIMEIRO


A IDA

I

Onde vae, Tejo em fóra, a lusa armada?..

Naus altivas, possantes caravelas!
Vae em busca da India enfeitiçada,
Sobre as ondas azues, pandas as vélas.

II

E quem é, que essa gente assim conduz

A cumprir o prodigio nunca visto?
Accesa levam n'alma a viva luz
Da fé, e nos pendões a cruz de Christo!

III

Mas já vão longe as quatro embarcações...

Parecem quatro pombas a voar,
Em demanda de ignotas vastidões,
Onde vão novo ninho edificar.

IV

Romeiros da romagem longa e vaga,

Que nova Terra Santa, ao longe, alveja?
Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga,
E a vossa obra, eterna e benta seja!

V

Mas nas ondas o sol vae descaíndo,

E quando o manto placido e sidereo
Da noite, o céu cobriu e o mar infindo...
Perdeu-se a lusa armada no mysterio.

VI

Nenhuns olhos humanos a seguiam;

Espantadas, porém, da audaz empreza,
No céu alto, as estrellas repetiam:
«Vae ali a fortuna portugueza!»

VII

E aquella, que apontando sempre o norte,

Sobre a cupula movel, firme está,
Dizia: «Raça ousada! raça forte!
Dentro em pouco, outra irmã vos guiará!»

VIII

E, dentro em pouco, respondendo ao voto

Da irmã polar... lá vem surgindo a chamma,
Sobre as ondas ignotas, astro ignoto,
A divina Akher-Nahr, fanal do Gama!

IX

Porém, agora, que mysterio summo!..

Já sobre o Carro se condensa um véu;
O mar o engole, quando ao alto, a prumo,
Anda o Centauro percorrendo o céu!

X

E, emquanto a Hydra vem subindo, enorme,

Não baixa já, mas demandando a altura,
Longe o Dragão, retorso e desconforme,
Busca do mar a fria sepultura.

XI

Depois, na vaga, a Cassiopêa tomba,

E nascem estrellas, que ninguem conhece!
Lá vem do Sul, a remontar, a Pomba,
Quando ao norte, Cepheu desapparece.

XII

Da armada a gente, a vista leva immersa,

Com pasmo natural, que não surprende,
N'aquella nova cúpula diversa,
Que sobre mar e terra a noite extende.

XIII

Ergue-se, agora, da longinqua esphera,

—Ó Cruz maravilhosa e deslumbrante!—
O symbolo christão, que n'alma impera,
Não vista, mas cantada pelo Dante!

XIV

E ao passo que ante os olhos vão surgindo

Os segredos, que guarda a immensidão,
Dir-se-ía, que da treva está saíndo,
Á voz de Deus, segunda creação!

XV

E por todo o estrellado firmamento,

De cada estrella, esta pergunta cáe:
«Quem viu tal aventura, tal portento?
D'onde vem esta gente, e aonde vae?»

XVI

No emtanto, os rudes peitos temerarios,

Dentro das naves, perguntando vão:
«Astros novos, propicios ou contrarios,
Estes astros do céu, que estrellas são?»

XVII

Onde vae, mar em fóra, a lusa armada?..

Vae em busca do eterno vellocino.
Olhos postos na cruz e a mão na espada,
Leva em si Portugal e o seu destino.

XVIII

O destino de um povo! Assim tranquillo,

Sob a luz das estrellas scintillando,
De Moisés o destino andou boiando,
N'uma cesta de vime, sobre o Nilo!

XIX

Na treva, ruge o mar sinistramente;

Nas almas pésa a noite... Muito embora!..
Avançam para o fulgido Nascente,
Hão de ver, no seu throno, a rosea Aurora!

XX

Vae ali cada um cumprir seu fado,

E Deus fará, que seja bem cumprido;
Em vão ha de rugir o mar irado,
Em vão clamar o céu desconhecido.

XXI

Por todos foi jurado,—e cada um,—

Levar a cabo um feito, ao pé do qual,
Não houvesse, em annaes de povo algum,
Memoria d'outro feito assim igual.

XXII

Hão de tudo tentar que for preciso...

Descer á eterna sombra do profundo,
Escalar os humbraes do paraiso,
Transpôr os proprios términos do mundo!

XXIII

Mal dá logar a crença, que os inflamma,

Ás visões, que o pavor, na mente gera;
Em frente, muito em frente, a India os chama...
Atraz, já muito atraz, a patria espera!

XXIV

Vozes mil o silencio perturbando,

Da treva densa, em côro, vão subindo!
Serão monstros do mar, que estão bramando?..
Ou d'Africa os leões, que estão rugindo?..

XXV

Mas nenhum peito, a vozes taes se atterra;

A armada segue, pelo mar em fóra...
É Portugal, que vae dizendo á terra:
«É tempo já de despertar agora!»

XXVI

As ondas rugem; noite e dia, atroam;

Batem, com furia, nos bojudos cascos;
D'azas abertas, para os seus penhascos,
Corvos marinhos, crocitando voam.

XXVII

Dir-se-íam bandos de crueis harpyas,

No seu dominio temeroso e vasto,
Aves d'agoiro, a reclamar, sombrias,
Aquellas presas para o seu repasto.

XXVIII

Depois a calma, a infinda quietação!

Negro aviso de morte ingloria e lenta,
N'um mar de chumbo, sepulchral mansão,
Que obriga a ter saudades da tormenta!

XXIX

N'isto, uma nuvem, caprichoso fumo,

O azul remoto levemente empana;
Ligeira avança, e traz do norte o rumo...
É bom prenuncio... mas as naus engana!

XXX

Que extranha nuvem, é, porém, aquella?..

Corta a direito, consciente e viva!..
Trará no bojo horrisona procella?
Ou sôpro brando á calmaria estiva?

XXXI

Pasmam de vel-a os arduos navegantes!

Parece palpitar! que vida tem!..
São hostes mil de pombos emigrantes,
Que as terras vão buscar d'onde elles vêm!

XXXII

E os pombos, a quem tarda o quente ninho,

Vendo os mastros da armada festival,
Julgam ser os pinhaes de Portugal
Que foram recebel-os ao caminho!

XXXIII

E n'elles pousam confiadamente...

Pelas enxarcias, nos ovens, nas pontes,
São cachos vivos, são tropeis, são montes...
Que as naus adornam sob o peso ingente!

XXXIV

Descancem ledos, nos humbraes sagrados!..

Ninguem lhes toca, n'um respeito mudo.
Destinos altos! vão assim trocados!
É Deus que o manda, Deus assim fez tudo!

XXXV

Mas quando, emfim, das naves se levanta

Aquella nuvem, que escurece o dia,
—Por que a levem á patria sacrosanta,—
Cada um, sua prece lhe confia!

XXXVI

Que traço argenteo, as ondas illumina?

Uma estrada de luz!.. Talvez a esteira
Deixada pela espuma crystallina,
Da nau do Dias, que as cortou primeira.

XXXVII

Sempre ao Sul, sempre ao Sul, a estrada avança!

De cada lado d'ella, o eterno escuro!
Extendeu-a no mar a mão da Esperança,
Na direcção da Gloria e do Futuro!

XXXVIII

Sempre ao Sul, sempre ao Sul, a estrada segue!

Ao termo d'ella, encontra-se o Ideal!
Em demanda do Sonho, que as persegue,
Navegam quatro naves de crystal!..

XXXIX

Partiram todas d'um paiz de fadas,

As quatro envoltas em celeste alvor;
Vão em busca das Ilhas Encantadas,
Onde dorme o divino Encantador!

XL

O caminho é de luz; porém, infindo;

Tem o termo, talvez, na immensidade!
Quem vae as quatro naves dirigindo?..
Vae o genio immortal da humanidade!

XLI

Anjo indómito, prompto a combater.

Curvado sempre ao seu destino mudo!
Vae a Fé, vae a Força, vae o Querer,
A Vontade, que emfim consegue tudo.

XLII

Inquebrantavel, vae da Historia a lei,

Essa, que aos povos a missão traçou;
O saber, o pensar de um grande rei,
E a tradição, que um rei maior deixou.

XLIII

De noite, recortando o vivo argento,

De dia, sobre as vagas de turqueza,
Lá vae, de Portugal o pensamento,
Ao leme de uma esquadra portugueza!

XLIV

Sempre ao Sul, sempre ao Sul! porém um dia

Hão de as proas dobrar-se ao Oriente;
Então perdida a esteira, que hoje os guia,
Engano e trevas hão de ter sómente.

XLV

Sempre ao Sul, sempre ao Sul! eia! valor!

Na cerração, que ao longe se condensa,
Mal sabem, que os aguarda a voz immensa
Do assombrado gigante Adamastor!

XLVI

Vão entrar nas paragens revoltosas,

—Paragens que ainda hoje o homem teme,—
Onde luctam as ondas alterosas,
E o vento, em turbilhões, contínuo geme.

XLVII

Onde, em furia, tres mares se combatem;

Onde o encontro se faz de tres correntes;
Portas de inferno, onde Cerbéros latem,
De tripla fauce e triplicados dentes.

XLVIII

Portas divinas, onde Archanjos luzem,

Sente-o o Gama, no crente coração;
Portas de luz, que ao exito conduzem;
Portas do Sonho! portas da Visão!

XLIX

Sempre ao Sul! sempre ao Sul! ao largo! em fóra!..

Mas a armada parece que se perde
Nas liquidas montanhas de um mar verde,
Que as naus afunda, e soffrego as devora!

L

E mais e mais ao Sul se aventuravam,

As gastas equipagens consumidas,
Em tal desesperar, que a Deus bradavam,
As almas lhes guardasse, e não as vidas.

LI

Mas em que mares vão agora entrando,

Que o sol, tão pouco tempo ali dardeja?..
É castigo de Deus, que os vae chamando
Aos confins onde eterna a noite seja?..

LII

Ali, a luz do sol se desvanece;

É tres vezes menor que a noite, o dia;
Em este despontando, logo desce
Na treva immensa, cada vez mais fria!

LIII

Não é esse, não é, nem por signaes,

Aquelle grande sol, de intensos brilhos,
Que prateia as madeixas de seus paes,
E aquece as cabecinhas de seus filhos.

LIV

Não é aquelle o sol, de vivos raios,

Que pinta os verdes prados a matiz,
Que faz abrir as rosas dos seus maios,
E que doira os trigaes do seu paiz!

LV

O de lá, illumina com doçura,

Beija a terra, e aquece-a com amor;
Este, aqui, é um sol de sepultura,
Mortiça luz, sem brilho e sem calor.

LVI

Não mais o sol verão da sua terra!..

Com que saudade o dizem! que saudade!..
Aperta-os ali dentro a immensidade!
O espaço, como um tumulo, os encerra!..

LVII

E sempre o Sul demanda a larga volta,

Que nas azas do vento a armada leva,
Para a morte, de certo, á véla solta,
Para o silencio... a solidão... a treva!..

LVIII

Cinco vezes, o Cabo, a armada affronta,

Cinco vezes, a armada o Cabo investe!
A costa retrocede, o céu remonta...
É força as proas apontar a leste!..

LIX

Foi Pero d'Alemquer, que o conseguiu,

Largos dias de teima usando e manha;
O piloto maior que o mundo viu,
O que soube fazer maior façanha.

LX

Mas se foi Alemquer, piloto astuto,

O que a volta avisada ao Cabo deu,
Foi o genio do Gama, resoluto,
Quem dobrou as vontades e venceu.

LXI

Assim o reconhece a armada inteira,

Que em salvas, o saúda, de alegria!..
E Adamastor escuta, a vez primeira,
A grande voz da lusa artilheria!

LXII

E quem desgraças taes prophetisou

Áquellas gentes, mais que tudo ousadas,
Ouviu, em plenas ondas subjugadas,
A resposta, que a armada lhe enviou!

LXIII

Ruge o colosso do que viu e ouviu!

Corre a envolvel-o a cerração distante.
Mudo e quedo, o phantastico gigante,
Humilhado, de nuvens se cobriu!

LXIV

Emquanto ao Sul desciam, mar em fóra,

Tinha visto, de bordo a rude gente,
Das costas africanas vir a aurora,
Caír nas salsas ondas o poente.

LXV

Pasmava a gente, agora, do que via,

Suppondo a natureza ser mudada;
Sobre a terra, á sinistra, o sol descia!
Erguia-se do mar a madrugada!..

LXVI

Vão colhidos na gávea, agora, ospannos;

Baixos os mastros; mas as naus correndo!
Segredos são, que ninguem sabe; enganos,
Com que a mãe natureza os vae mantendo.

LXVII

Vagas taes, ninguem viu, tão revolvidas!

Agora, as nuvens tocam sempiternas!
Depois, as naus inteiras engulidas,
Precipitam-se em lôbregas cavernas.

LXVIII

E as naves, por não serem dispersadas.

Cada uma, na gávea se allumia.
—Como um grupo de estrellas conjugadas,
Umas ás outras são pharol e guia!—

LXIX

Onde vae, mar ignoto, a lusa armada?..

Nem enganos, nem trevas a detem!
Vae á India levar a Cruz e a Espada;
É ali, é ali, Jerusalem!

LXX

Ha contornos da magica visão,

Nos vagos horisontes da miragem!..
Ninguem pense no termo da viagem,
Sem que surja a fulgente apparição!

LXXI

Antes de ao mar a armada se fazer,

Havia o forte Capitão jurado,
De nunca, em caso algum, retroceder
Nem um só palmo do caminho andado!

LXXII

E quando a desesperança algum vencia,

Irado, o Gama, então lhe perguntava:
«Quando elle a mortes cem desafiava,
Quem é que uma só morte ali temia?»

LXXIII

E o mór peso tomando do seu cargo,

Em vendo levantar-se a maior guerra,
Quando a gente dizia: A terra! a terra!..
Gritava-lhes o Gama: Ao largo! ao largo!..

LXXIV

Hão de ver, o que o mundo nunca vira:

Surgir do mar a India abençoada,
Acenando, de longe, á lusa armada,
Em torres de esmeralda e de saphyra!

LXXV

Ou, então, enjeitados pela Gloria,

Figurarem, terriveis e sombrios,
Como espectros, no templo da memoria,
Eternamente, os homens e os navios!

LXXVI

Á nova Terra Santa! em frente! em frente!

Romeiros da romagem longa e vaga!
Ah! Deus vos mostre a India refulgente!
Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga!

CANTO SEGUNDO


A VOLTA

CANTO SEGUNDO


A VOLTA

I

Porém que vejo agora?.. Empavezada,

Sobre as ondas azues, e panda a véla,
Do mar e das tormentas alquebrada,
Vem subindo rasteira caravela!

II

Avança a panno largo, e com vontade;

Na praia, atroam vozes retumbantes;
Tocam sinos nas torres da cidade;
É louvado o Senhor dos Navegantes!

III

Aos pontos altos, prestes e ligeira,

Acode, a mais e mais, a multidão;
Tremúla, á brisa, o regio pavilhão
Sobre o Tejo, nos Paços da Ribeira.

IV

Que gentil! que bem segue a caravela,

Embalada nas aguas crystallinas!..
Tem toda a gente os olhos postos n'ella!
Vão salvando, na borda, as columbrinas!

V

Das naus respondem salvas redobradas:

No castello o canhão tambem resôa;
Por boas vindas dar, alvoroçadas
Ostenta quantas galas tem, Lisboa.

VI

A barca é d'oiro!.. Que deslumbramento!

Envolve-a toda, luminoso alvôr!..
É a barca do eterno Encantamento;
Vem das Ilhas do grande Encantador!

VII

Em que espaço, em que ceus andou voando?

Nunca d'antes, ninguem no Tejo a viu!
Pomba perdida, não pertence ao bando,
Que ha muito tempo do pombal saíu.

VIII

Nave extranha, que o Tejo não conhece,

Traz cruz em pendão branco, por signal;
—Mas traz, tambem, o que a ninguem parece—
Traz a gloria maior de Portugal!

IX

Gloria, que a especie inteira nobilita,

E não sómente o nome portuguez!
Grande empreza, phantastica, inaudita,
Que outra maior jamais alguem a fez!

X

E a barca vae seguindo, rio em frente;

Branca visão, que nada apagará!
Sobre a esteira de espuma reluzente,
O sulco aberto, aberto ainda está!

XI

E a barca vae seguindo, rio acima;

É seu condão a eterna mocidade!
Traz o sopro vital que tudo anima,
Traz o genio immortal da humanidade!

XII

Traz aquelles, que os mares ignorados,

Passaram, com assombro, e sem pavor;
Os que foram ao longe ouvir os brados
E as funestas visões do Adamastor.

XIII