A CIDADE DO VICIO

Porto: 1882—Typ. de A. J. da Silva Teixeira
62, Cancella Velha, 62


FIALHO D’ALMEIDA

A CIDADE
DO VICIO

PORTO
Ernesto Chardron, Editor
1882


A
Joaquim Xavier de Figueiredo e Mello Oriol Pena


Segundo Livro
DE
CONTOS


SYMPHONIA DE ABERTURA

Insupportavel, em Lisboa—o thermometro subindo sem attender a supplicas, subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterraneos e a frescura das mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer, os artigos dos jornaes diarios e os artigos alimenticios. Em Lisboa transpira-se muito, pela pelle e pelos criados. E ás vezes, sob o influxo de uma hora de sol ou publicidade, qualquer pessoa se arrisca a ficar com a roupa alagada, e com a reputação em fanicos.

No verão, similhante phenomeno exagera-se com violencias equatoriaes; nem gelados nem discrição, logram attenuar-lhe os impetos—é soffrer ou partir. Eu parti.

Não imaginam que simplicidade hollandeza de toilette e que frescura de linhos, expendidas em vestons sem forro e pantalonas sem feitio!... Botões de madreperola do diametro de relogios, altas polainas atando na perna por correias em cruz, o cinturão de coiro com cabaça para agua, chapeu tyrolez e bordão ferrado, tendo a mochila dependurada na ponta. Sobre isto, excellente saude, pouco dinheiro, muita alegria e nenhum peso de consciencia. Magnifico ser novo e saber desprezar os tolos, pois não? N’estas digressões de andarilho só me entristece não levar alguem ao lado.

Tenho amigos, mas são os peores inimigos de que dou signal—e por esses cafés, tabacarias e alamedas, dando-nos o tu da leal camaradagem, trocando charutos, rindo e enlaçando os braços, é de vêr com que risonha perfidia nos sabemos detestar reciprocamente. Esta hostilidade sagaz, enluvada e fina, que se chama ahi confraternisação litteraria, e sob cuja egide se dão jantares no Gibraltar, elogios nas gazetas, e impagaveis desandas em conclaves reconditos, não passa d’um voltarete elegante, ganho pelos que sabem rir, e sempre pago pelos que esverdeiam de coleras refreadas. Resumindo, parti só. Junho, sabem, quando empalidecem os trigos espigados e seccos, as cigarras chiam nas oliveiras, e o azul é caustico. Começam pela provincia n’esse tempo romagens aos rusticos eremiterios, e as feiras de gado chamam a turba-multa dos lavradores e maioraes.

Portas fóra, as mobilias da Baixa abalavam raras ainda, caminho dos oasis burocratas, Sete-Rios, Campo Grande, Bemfica e Lumiar, em que todo o bom official de repartição, merceeiro ricaço e tisico pobre, vão tonificar-se pelo bom ar dos campos, sem deixar todavia os seus mesteres intramuros.

O typho fazia já propaganda por esses bairros, nas azas do miasma evolto de toda a banda, das portarias surdas, das consciencias gangrenadas, das loterias da Misericordia, dos quarteis, dos tribunaes e dos canos.

Theatros fechados, livrarias ás moscas, tudo esbaforido, e soldados parando ás esquinas a soletrar grandes cartazes, annunciando—O Hereje, as Machinas de Familia (?), A Orgia, e o Fiacre n.º 13, que segundo me contam é revolucionario tambem—e modonho, c’os diabos!...

O campo em junho, despoetisa-se no paiz cerealifero. Grandes zonas amarellecidas de seara, pastos seccos vestindo a charneca, barrancos sem poça d’agua, silvados deixando pender as amoras em cachos, e toda a legião de migradores que veem de cruzar o Estreito, rolas, cegonhas, cucos... Nos montes de rocha, murtaes irrompem d’entre penedos calvos; os alecrins dão flôres em espiguilhas esguias; ascende a vinha arvores acima, vestindo os troncos em pampanos esplendentes; estão copadas, metallicas e redondas de folhagem, as figueiras picadas dos primeiros capa-rôtas. E á margem das ribeiras, nas terras gordas e marnosas, os meloaes expandem-se em fructos de meridianos finos, traçando de antemão as bellas talhadas a partir nas melancias rubras e frescas, e n’esses ricos melões de cheiro, que em jantares de ceremonia tanta pessoa séria teem compromettido. Depois aboboras, frades, gilas, descançando em feno á borda das rigueiras, e picando a monotonia dos caules cellulosos, que rastejando vão na terra sequiosa das hortas. Todo o pomar maduro—laranjaes florindo para os fructos novos, e mostrando ainda pendentes os fructos velhos; a interminavel colonia das ameixas e abrunhos; os damascos de fallas mansas e contactos velludosos; a pera ventruda e monotona de casca; a ginja e a cereja tão pittorescas e picantes á paizagem e ao paladar. E fechando cortejo...

Os pecegos!...

Adorei já uma mulher que gostava d’elles, e tinha uma graça infinita a mordel-os com os seus brancos dentinhos de roedora. Se tomando-lhe a barba com as pontas dos dedos, dôcemente a forçava a vergar-se toda nas costas da cadeira, para na concha rosea da orelha lhe depôr algum segredo irritante, a sua vermelha bocca gottejante dos succos perfumados, matava-me de sêde e endoidecia-me d’amor. Pobre quinquilharia loira!... Tamanha voracidade a possuia ante esses fructos voluptuosos e quentes, que d’uma vez enguliu os caroços e partiu para o cemiterio.

Na sua cova, como lição a incautos, viridente pecegueiro todos os annos carrega de fructos, brotado d’esse corpo que foi vaporoso como uma nudez de Fragonnard, e branco da inexplicavel brancura que dir-se-hia feita com primeiras nuances de hortensia, pennugens ventraes de cegonhas, e corações de rosas brancas.

Como peregrino, que de logarejo em logarejo e cabana em cabana, vai seguindo em busca de alguem que lhe foge, assim de bordão e esclavina como a bella D. Auzenda, eu me aventuro por esses campos e terreolas, fazendo sésta nos moinhos, convivendo com as boiadas leaes, pernoitando nas eiras sob o olhar das estrellas, passando a vau os rios, cruzando estradas, e detendo-me a colher ás horas de sêde torrida, os medronhos bravios das espessuras. Esta existencia de cigano reconforta-me e endurece-me. Tenho a pelle tostada, crescida uma grande barba, e os musculos das pernas e braços, estriados como um aço de rija tempera. Janto o rolão corneo dos cavadores, sardinha salgada com um pichel de vinho alemtejano por cima. Não leio jornaes, o que explica a singular lucidez que em mim refloresce a espaços.

Todas as manhãs, o sol me encontra de chapeu na mão e assobio de melro, nas chapadas adustas que os valles dominam, como pulpitos sobre as naves rumorosas dos templos. De redor de mim, esfarrapam-se as gazes da nevoa matinal; serranias confusas nos longes; faias, salgueiros e platanos desenham a curva sinuosa das ribeiras, onde o rebanho converge a beber manso e manso, n’um rhythmo de chocalhos distantes. E sobre laivos verdes de vegetaes rasteiros, tons pardos de olival, pedaços de seara madura, cannaviaes e hortejos, andam esparsas em pulverisações de branco, as casinholas de montes, aldeias, moinhos e conventiculos.

Os gallos tocam alegremente a alvorada; vão lá baixo trabalhadores de chapeirão e alforge; tudo canta, sol, gallos, velas de moinhos, gente que passa, quem vôa nos ares, quem saltita nos ramos, quem de pedra em pedra corre no fundo dos limos verdes, quem nos fios telegraphicos vibra, e até quem chora—tão phantastica a resonancia d’esta cupula cérula, extasiada na luz do sol occidental!

Na travessia emprehendida, aponto as differenças do typo, os usos, a emphase de linguagem, os vestuarios, as habitações, os processos decorativos de interior, a hospitalidade para estranhos, côr de pelle e vivacidade ingenita de cada povo e provincia. Ha contos populares, que começam devotos no Minho e acabam equivocamente no Algarve.

O tom das cantigas, em que se surprehende a indole, crenças e viver intimo das gentes, decresce em alegria de norte a sul, e occidente para oriente, á medida que nos vamos afastando da agua, que a vegetação é mais secca, a terra arida, menos profusos os rios, e mais distante o oceano.

Comparo a Canninha Verde, o Verde-Gaio e as farandoles das romagens do Minho e Douro, com a monotonia repassada de tristeza, vagarosa e funebre, das cantigas do Baixo-Alemtejo; e sinto através d’ellas o paiz extremando-se em zonas de cultura menos e menos profusa—no Minho as risonhas veigas ensopadas de agua, inteiramente em cultura, verduras radiantes á luz de um sol claro, humidas de bruma matinal, toda a erupção da vida esparsa em fremitos por uma população enorme e fecunda, que é bella e sadia, com o instincto colorista que em vestuarios garridos, dá a essa paizagem exuberante, accessorios maravilhosos—no Alemtejo, charneca quasi sempre, arida, interminavel, retalhada a siroco, reverberando no verão ardores mortaes, n’uma luz crua que vai crestando implacavelmente as epidermes e os olhos. E aqui começam as difficuldades da vida pela inclemencia hostil do meio, faltam as pescarias que são fartura e felicidade, falta a carne, as ricas hortaliças, grande parte dos fructos.

Diluida n’essa área formidavel a população rareia, deixando a agricultura sem braços. Em pontos a raça é mal cruzada pela fatalidade dos casamentos consanguineos, impostos pela distancia que medeia entre povoado e povoado, e ainda porque quasi sempre, aldeias e villas tiveram por nucleo uma familia ou duas, enfraquecendo-se a descendencia pelo mau passadio, e regressão a um mesmo typo uniforme, de certas em certas gerações. Outra vegetação implantada n’outro solo, começou porém a surgir passo a passo, um dia, não sei quando, depois de longo caminhar. Scintillava ao largo um espelho caustico, movediço e sem balisas. Veio o pinhal em massas desconformes primeiro, e após rareando em avançadas, contra a grande areia relampejante das dunas. Mudava o clima, adoçando-se de humidade salgada, dos cheiros da maresia e resinas da floresta. E sempre ante mim essa coriscação da agua sem termo, espumando nas cristas, e tendo a bocados, mosaicos de azul e ouro. Na altura em que ia detive-me então commovido, a olhar por tempo a feerica decoração assim extraordinariamente atravessada de luz. E tirei reverente o meu chapeu, para cumprimentar o Oceano.

A convivencia do mar, profunda e larga, faz o homem bom, e simples o espirito, pela contemplação d’essas superficies tranquillas e azues, imagem da pureza e da força, sobre que os olhos vogam idealmente, como medreporas em villegiatura. No mar ha um extraordinario mundo de sêres pittorescos e fecundos, cortados nas fórmas mais caprichosas, e cheios dos mais bellos cambiantes. E as povoações littoraes, risonhas na penedia e na areia, com as succursaes fluctuantes dos barcos de pesca e das rêdes, offerecem aos nervos do touriste, finas sensações que o desenervam d’essa vida cardiaca e brusca dos centros cultos, que faz velhos os homens de trinta annos, e cynicos os que não teem ainda barba. Porque estamos n’um periodo secco, analysta e vertiginoso, que leva á loucura os mais delicados, e a desalentos senis os mais robustos. Não contentes de disseccarmos os outros, de os desfibrarmos por uma especie de sensualidade, no intimo das suas sensações, das suas ideias, dos seus vicios e dos seus males, vamos tambem pondo a nú pelo escalpello o nosso organismo, viscera a viscera, nervo a nervo e vaso a vaso, buscando o segredo da vida nas experiencias do amphitheatro, querendo sentir pelo requinte de descrevermos a impressão, querendo soffrer para viviseccarmos as nossas dôres, n’uma crueldade consciente que fatiga e mata. Vejam as obras de arte modernas. Foi-se a idealisação translucida dos bellos corpos perfeitos e brancos, foi-se o requinte aristocratico das paixões academicas e nobres, em que as figuras ostentavam, nos quadros, nas estatuas, nos poemas e romances, attitudes gloriosas, harmonicas, reguladas e altivas. Por ellas, só o bello vivia, eram heroes os homens, a vida não se convulsionava em miserias torpes, o proprio vicio era bello e a desgraça sympathica. Agora não! Cada artista fixa na tela, no livro ou no marmore, o que vê, e ás vezes o que só consegue attingir por um illuminismo interior, posto ao serviço de resolver algebricamente o complicado problema psychologico.

Deixando de consagrar-se exclusivamente aos regalados do mundo, nobres, opulentos e reis, para descer á generalidade das massas e baixas classes, a obra de arte tem, para ser util, de ser sincera—e para ser sincera, de copiar a vida laboriosa, mortificada e doentia das populações modernas, os ateliers, as fabricas, os bordeis, a rua, ménages tristes de burocratas, e todos os enrodilhamentos da promiscuidade mendicante, coberta de vermine e de pustulas—essa vida que calleja as mãos, atrophia os membros, escava as physionomias, macera as epidermes e perturba o jogo da circulação, que faz do cerebro uma monstruosidade pathologica, pela actividade sem repouso que lhe imprime, definhando as mais visceras em proveito da sua avidez de funcção, fazendo chispar de encontro a tudo, essas centelhas que a certo ponto condensadas são o genio, de cujo exacerbamento resultam a loucura e a morte.

Esta violencia de arte embota os sentidos depressa, gastando precocemente as molas intimas dos espontaneos impulsos, da dedicação, da abnegação, do amor e da coragem, tornando o homem n’um sêr artificial e mecanico, com pontos de vista scenicos nos seus movimentos e discursos, desconsoladamente egoista e cynico. Não ha força nervosa que resista a este abuso de vibração, e dias ha em que as ideias se nos varrem, uma ignorancia imbecil nos estrangula, e brumosas tristezas de carcere vem descendo aos nossos olhos e aos nossos labios, no lethargico cansaço que chega sempre, após semanas de mentalidade exagerada. Ficamos então com ar de sonambulos, olhamos sem vêr, tudo doe, um desespero surdo nos tortura. E o estomago não digere bem, o pulmão recusa-nos a sua mecanica de folle, o sangue é tumultuoso, um pulso cortado de silencios, doem as articulações, doe-nos a cabeça, doe-nos tudo—é um aniquilamento sombrio, um odio contra livros, contra deuses e contra homens!

N’estas crises morbidas da alma na besta, nada como a intimidade das aguas, para reconstruir, para reconduzir, para repousar. Faz-se em nós uma limpidez provocada pela serenidade impeccavel do mar, extenso e liso como um espelho magico. Quando muito ás vezes, uma ellipsoide de espuma fervilha no dorso de alguma aspiração mais rebelde, desejo, orgulho refreado, dissabor ou paixão—como a vaga que destacando pura da granda massa, se orla de branco ao rebentar na praia.

Com que quietação interior me não estendi então nas areias, coberto de poeira, coberto de azul e bemdizendo tudo! Não me lembro em que ponto da costa isto foi—mas era magnifico.

Que vastidão de paizagem, que deboche de azul, que luz irradiante!... Para um lado iam agrupamentos plutonicos, penedias a prumo, esburacando em cavernas sonoras da onda que ia e vinha, chapinhando e refluindo. Promontorios irregulares sahiam da grande mole côr de ferrugem, em trombas que se alongavam para beber. Da esquerda, planuras de areia faiscavam em circo, a chicotadas de sol. Deante o mar, e a duna cortando a retirada por ultimo, onde phalanges de pinheiros socegadamente bivacavam. Sobre uma insula escalvada em pinaculo, o pharol sahia da agua, negro no ceu luminoso, e expandia-se na plataforma da lanterna em setteiras aluidas, com agudas torrelas nos cantos.

Era assim um dedo de colosso, sobre cuja unha roida aos gritos, vortilhando por centenas, aves marinhas vinham pousar com tremuras de azas, goelanos, alcyons, gaivotas, andorinhas do mar... Os pescadores lançavam cantando ao largo, as suas rêdes. Vinham sobre a agua badaladas de algum sino mysterioso. Todo esse viver feliz, sem rebeldias nem artificios, me commoveu pela simpleza, pela probidade, e graça primitiva e rude. Tive uma saudade aspera, não sei de que outra existencia vivida por mim, por meu pai, ou qualquer da minha raça, em não sei que tempos historicos e esquecidos. Sentia como uma volta á patria, reconhecia as fórmas, e tornava a respirar nos ares perfumes amigos, que me extoxicavam de uma especie de innocencia e de uma especie de alegria. A minha actividade era repartida entre as companhas dos barcos de pesca, longas palestras no barracão do salva-vidas, ou a concertar rêdes á porta das cabanas. Assim eu aprendi a vêr e a recompôr esses grandes typos do mar, fulvos e crentes, com os seus olhos pequenos de pupilla inquieta, japona azul nos hombros quadrados, pernas nuas, barba rara, ageis e gigantes, com uma profunda melancolia de face. As linguas da onda vinham lambendo a praia humildemente, como um cão fiel que afaga o dono. Em bandos, os pequenos nús rolavam-se na areia, ou faziam de mergulho espadanar a agua. E eu sem saber qual mais puro e transparente, se o céo se o mar! Á noite recolhia as minhas impressões rabiscando o carnet, e no palôr sonambulo da lua, dormiam as cabanas acalentadas pela voz do Oceano e a lanterna girante do pharol encandeava as aves do mar, fazendo-as suppôr que era o dia a romper.

Tres mezes assim. Quando uma noite despertei ao estrepito das vagas. A bruma viera, fazendo deslocações de fumarada compacta, cinza claro pelos effeitos da phosphorencia, que fazia do mar um punch em flamma, que a colhér do vento fosse remexendo procellosamente. E em revolta a agua urrava, tripudiava nas cavernas, soluçava, cantava e ria. Praia fóra, despertados de chofre, os pescadores gritavam em côro, não achando os barcos na amarra. Ia começar o mau tempo. Eu tinha alinhavado este livro nos ocios da bella estação que se morria. E n’essa manhã parti.


OS NOVILHOS

Vespera de S. João, na aldeia.

As doze pancadas do sino acabavam de dar por uma quente noite de estio, luminosa de lua e perfumada de fenos. Nada mais dôcemente calmo, que a contemplação da paizagem de vinhas e olivedos que se gozava na ladeira da aldeia, caminho da fonte. No cimo da encosta, a fachada da egreja estendia sobre o azul pallido, as agulhas brancas das torres, onde, attenta a santidade da hora e da vespera, nem as corujas soltavam pio.

Conforme o uso, quando a ultima badalada tocou, as raparigas em cabello, capellas de jasmins no penteado, de que pendiam pequenas ameixas rosadas e peras de Santo Antonio, saias curtas garridamente enfeitadas de vermelho, pés ligeiros e um borboletear de cantigas que envergonhavam nos campos os rouxinoes das balseiras, puzeram ao quadril as quartas de barro, e aos pares, trocando confidencias, desceram pelo corrego até á fonte. A fonte era o monumento da aldeia, com o seu largo boccal de feição biblica, boa pedra vincada pelos fundos dos cantaros, amplos cadeirões de granito em redor para quem chegava cansado, uma dorna inclinada onde bebia o gado, e meia penumbra tremula, de chorões e pimenteiras.

Vespera de S. João á meia noite, a agua das fontes é santa, santa como os remedios efficazes, como a benção nupcial que um velho padre estende aos noivos, como os vestidos e os bentinhos das imagens, como a cruz dos adros desertos, como os mentrastres das ermidas distantes e os cordeiros dados de fogaça pelas festas da paschoa. Quem a bebe, viva áquella hora, junto da fonte onde o luar se espelha, e em cujo fundo dormem suavemente os reflexos das estrellas, é feliz todo o anno, fecundo se é mulher e bom trabalhador se é homem.

Bom S. João, todo risonho e nú, no seu altar da egreja, cordeirinho branco a um lado, bandeirola do outro, e a polpuda mãosinha de creança abençoando com graça innocente as cabeças que se lhe curvam deante!...

As raparigas passavam em volta das quartas de Extremoz, os baraços de tirar agua, e na limpidez da fonte, sentia-se o plhau! sonoro de vasos mergulhando. Tão fresca a agua, tão sapida de philtros de luar e perfumes de amor! Oh, como é bom ser novo!

Toca a encher as enfusas. Algumas das moças entravam nas vinhas a colher parras para ornar de grinaldas as cintas finas, as cabeças loiras e os bojos porosos dos cantaros arabes. E aos pares, ondulando os quadris, iam subindo a encosta cheias de esperanças e radiosas de sonhos, e o rumor das cantigas fluctuava no tranquillo ar da meia noite, em cuja limpidez o S. João benevolente, estendia as suas mãos cheias de promessas.

Ora a Rosaria só desceu da herdade á uma hora, a grande preguiçosa! E sósinha por entre as arvores, n’uma pallidez de audacia que lhe ficava bem! Tudo no monte ficára a dormir, o pae estiraçado na eira, a mãe resonando na alta cama de casamento, os rapazes por cima das moreas de trigo, bois deitados por baixo das azinheiras da pastagem. Dois novilhos sómente, quasi bois feitos, retouçavam nos fenos, pulando, rebolando-se, furtando-se os corpos vigorosos, n’uma alegria de titans em bacchanal. E todos brancos, mansissimos e perfumados, dir-se-hiam principes encantados, esquecidos dos seus palacios de oiro, n’aquella metamorphose exigida por alguma velha fada rabugenta.

Rosaria ainda esteve um bocado a miral-os.

Era o novilho da vacca Mourisca, mais a novilha do visinho Pedro, pastor da herdade proxima.

—Diacho, disse ella a rir para comsigo, cantaro ao quadril, tão novitos ainda, e já namorados. E a cantar desceu a ladeira. Que luar que fazia, que silencio se alastrava!... Nem um ai de rouxinol noctivago, nem um echo de cantigas esmorecendo nas quebradas. Um pouco além, no cabeço do outeiro, o portal formidavel de um dolmen negro, desenhando como um branco de olho malicioso, rebolado em fervores de lascivia. E atravessando n’um feixe esse portal, a poeirada fina da lua, vinha em aureola cercar de uma vaporisação phantastica, esse perfil de zagala israelita. Quando chegou á fonte viu a clareira coberta de ovelhas, que empurrando-se em silencio, furando, cahindo e mordendo o pó que levantavam, tinham pressa em chegar á grande pia de pedra, para beber. Em pé sobre as lages da fonte, o pastor tirava agua com um grande balde de cobre, enchendo a pia, que logo tornava a ficar sem gotta. Rosaria ergueu a voz:

—Eh lé, visinho Pedro.—O pastor parára de chapinhar na agua. Gritou-lhe:

—Eh lê, Rosaria!

E ambos immoveis, sem querer avançar, ficaram a olhar-se no turbilhão do rebanho.

—Bonita noite, disse um.

—É verdade, fez o outro.—E um grande silencio.

—Então vens á de S. João?

—Tal e qual!

—Pois isto é tarde por aqui, juntou vagarosamente o pastor.

Rosaria teve um sobresalto, o monte ficava longe, não andava viv’alma, e tão fóra de horas!... Então olhando para si, reparou que estava em collete, braços nús, pernas núas, as primeiras redondezas do seio em evidencia. N’isto, os novilhos brancos romperam na clareira, ás cambalhotas.

—Tambem!... disse o pastor. E sobre o lagedo da fonte, ficára immovel, bebendo o largo, narinas frementes, circulação de novilho nas fórmas athleticas que tinham á lua, soberbos detalhes de musculatura.

As ultimas ovelhas tinham já bebido, e ainda por duas vezes, o Pedro mergulhou na agua santa o grande balde de cobre, para encher o cantaro de Rosaria. Tremula e muda, a pobre achegava-se sem ousar fital-o, receando a primeira palavra, qualquer ousadia permittida pelo abandono do sitio. Eram quasi da mesma edade, tinham brincado creanças, esfarrapados e trigueiros, rolando-se nas relvas com essa alegria selvagem dos que convivem longo tempo com o gado, e sem saber o imitam nas suas cabriolas. Sem o menor resaibo de amargura, a voz do Pedro disse-lhe:

—Hontem estavas a fallar com o boieiro do Monte-de-Trigo. Diz que não?

—Estava, sim. A irmã tem andado doente. E como é rapariga da minha aquella...

—Olha cá, para que vieste só, a esta hora? Diz, anda.

—Estava a dormir. E vai, fez-se tarde.

—Sabes, moça? Se encontrasse ahi algum, não o deixava comer mais pão. Não me salve!

—Não ha medo, homem. É procurar!

Á medida que através as interpellações bruscas do Pedro, ella lhe sondava os receios, adivinhando o culto em que era tida, ia recuperando socego. Sentindo-o vencido então, a deixar vêr nas ameaças surdas o receio que o esmagava, era Rosaria quem fallava alto agora, pujante da sua felicidade e orgulhosa de dominar. Assim estiveram encostados no boccal da fonte, immoveis, olhando sem scintillas um para o outro, como se já tivessem dormido. Em roda, as ovelhas ajoujavam-se aqui e além, fartas do repasto da noite e cansadas de cabriolar nas encostas. Vigilantes, nos longes do arraial, os dois rafeiros iam e vinham, encalmados e tropegos, fazendo tilintar enormes colleiras erriçadas de gumes, e farejando os mattos, de orelha fita, á procura.

—Já fallei c’o teu pai outra vez, disse o Pedro.

—O anno vai mau, aventurou a rapariga, sabendo o que elle ia dizer.

—E a gente fica assim toda a vida?

—Ai, não! Mas quem faz casa, necessita que lhe metter dentro. Tu bem sabes, Pedro. Inda que uma creatura, sim, seja pobre, ninguem casa sem arranjos. Cá da minha banda, pouco falta.

E ia dizendo, uma por uma, as peças do enxoval—lençoes de estopa, duas fronhas de renda, coberta encarnada, seis toalhas, dois vestidos, e camisas, uma arca nova...

O Pedro não ia tão bem, não! Todo o anno a velha estivera de cama, algumas seis cabras mortas, a damnada inverna sem largar a sementeira, o favalito cheio de alforra. Quem nasce para burro, com licença, nunca chega a cavallo. E os dous suspiravam. Mas cada vez mais perto, os novilhos se perseguiam e acariciavam, n’uma febre de primeiro amor, espicaçado pela resistencia da femea, que de patas estendidas se punha á espera que o macho formasse salto. E sentindo-lhe o focinho nas ancas, furtava de repente o corpo para deante, fazendo-o cahir nos pastos. Aquillo succedia-se por dezenas de vezes. Cansado então, o novilho parava afastando as pernas, resfolegar sibilante, a baba correndo em grandes fios da focinheira, que um laivo rosa sombreava em tons de carne sadia. E de cabeça alta quedava-se a fital-a, mugidos surdos, repassados de uma ternura physica que parecia deleitar a femea, cuja cauda voluvel açoutava de manso, a bella anca roliça. Nada era mais lascivo, ondulante e gracioso, que a anatomia agil da vaquinha branca, orelha e narina moveis, esboçando attitudes de uma graça infinita, saltos de pequena fera, bruscas contracções de pannos musculares, espreguiçamentos de desafio e vagas ternuras de esperança. E essa scena de tentação, que primeiro passára desapercebida ao pastor, ia-lhe agora despertando attenções minuciosas e complicadas ideias. De olhos avidos elle seguia o jogo teimoso da novilha, que se difficultava á medida que a raiva do macho ia crescendo, crescendo. E um alvoroço interior acudia-lhe em remoinho, fazendo-lhe bater as fontes e pondo lhe a saliva espessa. Não era bem Rosaria, a imagem com que elle, mentalmente, reproduzia a scena que estava vendo. Deante da rapariga, as suas audacias de homem quebravam-se, e as suas raivas de novilho mordiam o freio de uma virgindade montanheza e feroz, que os tinha defendido a ambos da culpa. Era sim, uma femea meio mulher meio vacca, constructura toda animal, harmonica com o seu instincto brutal de pastor, capaz de sentir e incapaz de pensar, vida rudimentar em corpo de redondezas duras e contactos bovinos, imposta pelas fatalidades da procreação. Rosaria que se contrahia sob a descarga das fulvas scentelhas, que saltavam dos olhos d’elle, dilatados em colera sob sobrancelhas frementes, teve um medo algido a invadil-a toda. E ao mesmo tempo, do fundo do seu sêr e do coração das mais pequeninas regiões do seu corpo, um esbrazeamento, uma angustia, uma incoherencia de gozos innatos, subiam-lhe á epiderme, alargando-se, chispando, occultando as suas vibrações fulminantes sob a mascara da tranquilla postura que tomára.

Pedro chegára-se mais contra ella. Os novilhos tinham-se enlaçado afinal e rolavam nos fenos, mugindo no exhuberante prazer de uma força esbanjada. Então Rosaria que o encarou de face, viu-lhe bem a rijeza das fórmas negras, o tronco arquejante, que pinhas de musculos disformes enfloravam, a redondeza núa dos deltoides cinzelando-lhe magnificamente os hombros de titan, bicipedes formidaveis contrahidos sob a tortura de um desejo esmagado, e na rude face de fundibulario celta, uma rigidez que apenas de longe em longe, o fulvo corisco das pupillas conseguia desmentir. Ella não pôde mais, e na meia nudez em que viera, atirou-se-lhe contra o peito, beijando dôcemente esse bronze latejante, mesmo sobre o coração. As mãos de Pedro apanharam-na pelas espádoas e cingiram-na pelos rins, hesitantes n’um delirio que o fazia cambalear como um touro ferido entre os cornos, e não sabendo se cingil-a até lhe fazer estalar os ossos, se arrojal-a lá para o largo, onde a não visse mais n’aquelle abandono desleixado.

Aquillo durou um instante, no final do qual os braços do hercules tinham novamente cahido, a iris ficára tranquilla e toda essa torre cessára de tremer.

—Adeus, disse-lhe elle um pouco triste. E baixo, n’um segredo de infinita ternura, em que chorava a rude voz, transfigurada pelos ardores da juventude:

—Quando formos casados, sim?

Agarrou no balde, esteve a enrolar a corda á cintura por um bocado, metteu dois dedos na bocca para assobiar aos rafeiros. E voltando as costas á fonte, poz-se a arrebanhar as ovelhas, enxotando-as com o grande cajado, pelas pastagens acima. E mais além a sua voz de montanhez cantava já, n’uma toada dolente, em que transparecia a tenacidade de um mesmo amor, idealisado por uma vida inteira de esperanças e sonhos castos.

Rosaria inda ficou a vêl-o, ladeiras acima, de manta ao hombro, desolada pela recusa e quasi cheia de desprezo por similhante honestidade. E caminho do monte ia furiosa, com ganas de se dar ao novilho branco da Mourisca. Ao passar na eira, entre duas moreas, o boieiro do Monte-de-Trigo, que estava de guarda aos calcadouros ergueu a cabeça.

E alli mesmo, esfaimada como uma bacora, Rosaria se entregou.


NOITE NO RIO

Tinha-se afogado de todo no poente a ultima tinta paludosa da tarde, e uma sombra egual, atravessada de scintillas de estrellas e palpitações de atomos, cahia de cima dissolvendo os contornos das coisas, e escorregando na agua do rio, que se fizera densa e viva como uma carne de annelideo, gelatinoso e murmuro. A guiga em que nos mettemos, leve como uma penna, toda esguia ondulando á menor arfagem da onda, dir-se-hia um pequenino tumulo branco e ouro, em que seria delicioso partir coroado de lichens e algas, para os reinos do coral, no fundo d’esses paizes submarinos, em que as cidades são feitas de galeões submersos, as cupulas de conchas côr de saphira, e as columnatas de phantasiosas incrustações de molluscoides. Emquanto Lia se punha ao leme, n’um deshabillée de noite em crepe da China, a alta golilha afogada acolchetando no pescoço por alamares de contas e rasgando fenetre no seio, uma nudez de braços polida, cinzelada na brancura das carnes hystericas, e abrindo alabastros luminosos entre a dragona a contas do corpete e canhão rugoso das luvas de ponto, ia eu de remos em punho, aventurando o barco bem para lá do caes, áquella hora adormecido. O meu vestuario não era bem o d’um barqueiro, nem era bem o d’um banhista. A camisola escarlate sem mangas, deixava-me os braços livres e nús; tinha o chapeu de palha, com abas reviradas, cahido á banda, e descoberta uma pouca de espadua fulva, onde pannos musculares contrahidos, avincavam por vezes a sua estriada dentadura, de luctador glorioso. O homem é vaidoso da sua força, se dos olhos da mulher que adora, desce uma especie de radiação voluptuosa, como a vestir-lhe a nudez. Lia, que era ardente pelo sangue da sua raça, tinha pela fórma mascula o culto altivo das zagalas biblicas, que nos velhos tempos atravessavam sósinhas desertos e tribus hostis, para vir desposar o sonhado do seu coração, pastor como ellas, herculeo e timido, olhos obliquos e dôces, onde n’um fulgor amoroso se rimava todo o poema do paiz das palmas, dos figueiraes e dos lagos. Fôra a sua agulha que espalhára na flanella que me cobria o peito e o ventre, esses relevos exoticos de flôres vivas, n’um labyrintho de grinaldas, que se enroscavam em torno de ninhos, symbolisando dizia ella, a tenacidade do seu amor e a aspiração infinita da sua alma, que era ser mãe. E era ella quem, na ferocidade da sua ternura, se entregava comigo ás ondas por aquella noite calida, na leve guiga branca, que os meus remos faziam voar. Não imaginam talvez, que orgulho eu tinha d’aquelles ciumes de leôa fecunda, em cujos dedos a certas horas, sentia crispações de garras, e em cujos olhos inexprimiveis, de tão singular expressão, que n’elles podia lêr a emoção mais vaga, desde a que se traduz na voz pelo grito, pela palavra ou pela phrase, até á que a linguagem articulada não póde dar, e quando muito se crystallisa dos labios pelo sorriso, dando uma perola ou uma estrophe—em cujos olhos, dizia eu, ás mesmas horas vibrava n’um galvanismo instantaneo, a intima dolora de uma alma perlada de juventude e paixão. Sabia bem quantos ficavam para sempre feridos no rastro da sua belleza e quantos desejariam apunhalar-me n’um antro, dizendo-me criminoso, porque era feliz.

Lia não tinha nada da esculptura antiga, linhas consagradas de modelo napolitano, seios altos, tinta baça, nariz grego, cabeça de Juno, onde torvelinhassem cabellos de noite. Era uma rapariga tão fresca como uma creança e tão branca como uma camelia. As linhas do seu corpo instrumentavam uma symphonia purissima, sem relevos superabundantes ou energias lubricas. Musical, toda essa organisação de que um tepido perfume de morbideza excentrica, se escapava em risos, sobresaltos e canções! Sob a coloração da sua pelle luminosa, tão fina que me dava calafrios ao contacto, e sob a fragilidade etrusca da sua cinta tenra e dos seus punhos magnificamente moldados, ninguem podia sonhar sequer a tenacidade altiva, a rija vontade e teimosia d’esse espirito jactitante, todo incoherente de pequenos requintes e anckilosado dos mais estranhos prejuizos. De feito, era necessario vir de uma raça atormentada e tenaz, grandiosa na sua miseria e filtrando por seculos sem numero, através dos cataclysmos da terra e das maldições do Deus irado, hoje errante nas asperezas do captiveiro, depois prosperando sob os reinos da edade gothica, após azorragada para o exilio, logo entregue ao carrasco e á fogueira, roubada, espesinhada e maldita, para assim engastar como joia rara, no fragil involucro de um corpo adolescente, esse genio caprichoso, que parecia tecido dos vôos da andorinha, do angelus de Massenet, de gottas de luar, e do travor bravio dos fructos silvestres, genio que era bom e mau ao mesmo tempo, luminoso e negro, leve, rhythmico, vivo até á doidice, mas que por vezes, vinha bater a aza de uma melancolia negra—talvez a hereditaria saudade d’essa patria ideal, perdida na bruma dos longiquos continentes, onde contemplativas repousam as ruinas dos templos, sobre cujos capiteis destroncados eternamente dorme a sombra do Sinay!

Pela agua irritada de fremitos, a guiga corria em silencio, fóra do quadro aduaneiro. Lia tivera a ideia de uma pescaria nocturna, que nos furtasse n’aquella noite de Casino, á convivencia de banhistas pretenciosos e mulheres fatigadas. A noite estagnava n’uma quietação abafadiça, sem brisas e toda uniforme no seu lucto. Da cidade, o gaz traçava na sombra como um plano de edificio monstruoso, pontuações vermelhas que se alongavam em formidavel escala, desde a Torre de Belem cravada na ponta de uma linha arenosa e curva, até á outra balisa, que o accumulado das casas de Alfama parecia occultar. E de tamanha fabrica, vinha um fervor de respiração convulsa, que á flôr da agua se afinava com subtilezas acusticas, estremando cada ruido na sua gradação, e decompondo por espaços através dos sons, toda a vida complicada da cidade, desde o hausto de uma valvula de fabrica, até ao grito indistincto de um vendedor de jornaes. Olhada assim de longe, d’aquelle fundo de sombra salgada, Lisboa tinha o ar de uma grande cidade entregue á nevrose tragica do vicio, pois que se apagavam na noite as frontarias dos edificios burguezes, as architecturas hybridas dos palacios e dos templos, a uniformidade das ruas geometricamente alinhadas, e no tremeluzir dos lampeões se podia evocar alguma d’essas necropoles torvas, onde as festas resumiam a vida, as carnes das mulheres se cobriam de lhamas de ouro em purpuras radiantes, a musica embalava a embriaguez dos soldados e capitães, e do homem nada vivia senão a besta, tripudiando em concupiscencias phenomenaes.

Em meio do rio e nos torvos concavos na nevoa gordurosa, esgarça aqui e além pelos caprichos do ar e da noite, os barcos ganhavam dimensões temerosas, e de vela frouxa sobre as varas curvas dos mastros, faziam pensar em azas mortas de albatrozes escorregando na agua negra, que se ia somnolentamente contra o mar.

Á força de prescrutar as sombras, a retina falseava as imagens alargando-as, enchendo com ellas os ares, fazendo-as mover entre crepes n’um rhythmo funebre, e esboçando assim carvões rembranescos, d’uma energia desconforme. N’esse pavor do negro, perdia-se ao leme o perfil de Lia, n’um fugitivo albor, immobilisado em singular recolhimento.

Ás vezes as suas mãos mexiam distrahidamente no regaço, havia o resoar das contas agitadas—e se o froco descahia um pouco, o marmore dos braços abria claridades eburneas no lucto do deshabillée.

Em espiralitas claras, cortados muito curtos, os cabellos faziam-lhe capoul á banda, sobre a testa baixa, d’onde o nariz serio e sem proeminencias, um pouco obliquo de azas, nascia dôcemente, como n’uma mascara de sphinge. Em volta, no drama errante das sombras, as arestas tocavam-se ás vezes de uma luz, filetes tenues de phosphorencia rolando no dorso da onda, reticulos argenteos espelhados das estrellas, gottas perola vogando como algas de luz nos palpos da maré, alguma coisa de fogos-fatuos ou pyrilampos d’agua, esvoaçando n’uma vida abrazada e inquieta, de vertice em vertice e foco em foco, para subtilmente bordarem como inconstantes melodias, por todo esse claro-escuro. No entanto o ceu tinha formigueiros de estrellas, retalhados com os regatos de tinta das nuvens lançadas por camadinhas obliquas. E a cada passo ella dizia uma palavra guttural, vestindo n’essa estranha musica a fugitiva ideia que lhe pipiára na mente. O estranho dialecto, sifflante, torvelinhando, cheio de breves, do aspirados em ah, e eth, vibrava na voz de Lia com expressão metallica, fina, viril, cheia de paixão. Era a lingua em que ella me insultava nos seus periodos de orgulho judeu, de ardencia, de desejo, de embriaguez e de amor. Cahida do meu pescoço pelos seus braços em collar, quasi núa e cingida a mim, os pés rojando, crespos cabellos em nimbo na pureza impeccavel da testa, narinas debatendo-se d’ancia, e a bocca em momo escaldando n’esse terrivel escarlate dos sangues orientaes, muitas manhãs eu lhe ouvira palavras d’aquellas, primeiro ciciando divinos segredos, e a cabecita escondia-se na minha, cahindo-me no hombro desnudado. Depois a respiração subia n’um começo de cyclone, estrangulava-lhe a voz, e o seu dizer era offegante e frenetico. E d’alli para cima, que coleras fuzilavam por ella! Cada molecula da sua pelle era um centro de sensação tumescido em fluidos de amor e rebentando por descargas de gozo, sob a fecundação de cada beijo.

Essa radiação de mulher adolescente transfigurada ao calor de um homem, ganhava de subito energias do deserto, reminiscencias de estado barbaro, sensualidades tigrinas, cujo ardor a agua do baptismo parece ter resfriado nas christãs. E como faisca espadanando no embate violento das fragas, aquella linguagem mesclada, indefinivel, obscena talvez, e encantadora, fazia-me lavas no sangue como um ultimo requinte de voluptuosidade!

E a guiga vogando manso, como n’um pedaço de lenda rhenana, sem ruido, tendo a mulher de negro ao leme...

Evitavamos os navios ancorados, como conspiradores em perigo; uma vez ou outra porém, tinhamos de contornar alguns d’esses cetaceos immoveis, que affrontados pela prôa pareciam crescer desmedidamente nos ares, multiplicando a confusão de vergas, escadas e cordagens, e accendendo pelos oculos das camaras, fulgores sanguinolentos de olhos estoirados, sem movimento e sem palpebra.

—E a pesca? disse Lia, em voz baixa. Aproximámo-nos da outra margem. Cahiam de cima as arestas dos montes, fazendo trevas na sombra. A maré descia vagarosamente, embalando no dorso das ondas alastramentos de algas verde-negras. Accendi á pôpa um archote, e fizemos alto. Em volta, a chamma abria uma photosphera geometrica, raios que se quebravam na agua, torvelinhando em rêdes de sangue, e na penumbra da noite se amorteciam, á medida que se alongavam. Immovel no seu banco, Lia tinha a cabeça distrahida, envolta n’um froco atado por baixo da barba, a narina quieta, e uma serenidade de face a cada passo desmentida pela caustica dos seus olhos de hebrêa.

—E a pesca?—foi em toda a noite o unico portuguez que disse, n’um fluido de abstracção monotona, sem sentido e sem alma, com voz que era antes um echo. Nem um instante porém, esses olhos me largaram, spasmos n’um deslumbramento de luz, a principio tranquilla e dôce, depois tenaz, depois feroz, e inquietadora por fim. Não sei explicar, nem ha coisa alguma que o explique, por que vibrações infinitesimas iam passando as fibrilhas d’essa iris, que dentro de mim illustrava com illuminuras divinas todo o fulvo poema de uma paixão selvatica. Parecia-me, na incoherencia em que oscillava, o seu amor uma serpente que se enroscava frenetica a mim, inoculando peçonhas no meu sangue e loucura no meu cerebro, invertendo a polarisação dos meus instinctos e contaminando a nobreza dos meus ideaes, tornando-me feroz, grosseiro e cobarde, e deixando pela algidez da minha vida, um rastro de maldição e estupor! E por mais esforços que fizesse, a contemplação d’esse typo de Herodiade, embaraçava-me, cançava-me, fundia-me! Em pleno rio e longe do bulicio, a sua figura transfigurava-se de immovel, e através d’ella eu via irem desfilando em procissão phantastica, tunicas de linho ao vento, cabellos ornados de sequins, e olhos de terrivel belleza, todos os estranhos typos da judia lendaria, desde Maria, a suprema innocencia, até Thamar, a suprema culpa!

—E a pesca? hão de os senhores perguntar. Bom Deus, nem me recordo!... Nem sei inda agora explicar, porque o archote se apagou sem nós sentirmos, e o primeiro sol nos veio surprehender abraçados no fundo da guiga!

Oh! a deliciosa pescaria!...


ABANDONO DO POMBAL

O Domingo tinha sido uma loucura para Maria de Jesus. Houvera festa em Santo Antonio, branco oratorio que de cima do outeiro sorria de ingenuo, aos arvoredos e aos cevadaes. E Maria de Jesus que era buliçosa e sadia, no pleno desabrochar de uns dezoito annos magnificos, tinha ido mais as primas, gozar no adro sonoro de bailados e cantigas, da estranha harmonia perfumada e larga, d’aquella tarde primaveral. Em março, o cahir do sol deixa nos campos ainda, reminiscencias humidas do longo inverno, tão enfadonho de passar nas herdades e aldeias; o chão está esponjoso ainda pela infiltração da agua; relvas perladas afogam os pés em frescuras doentias; passa um friosito cortante nas ramadas nuas das figueiras e sobreiraes, e o mesmo luar de pallor indefinivel, tem o quer que seja de um gelo de sudario estendido sobre o cadaver da terra, e todo pregado com alfinetes de estrellas. O bando de raparigas desceu tarde do outeiro, quando já os bailaricos desmanchavam e os ceus esmaeciam de amor. No silencio da vereda, que entre piteiras e silvados, vinha entroncar na estrada da villa, as vozes timbradas de juventude e cascalhando em risinhos, tinham um acalentar gracioso, e quebrando-se, subindo, smorzando, saltitavam de valle em valle e corrego em corrego, tornando musica a exhalação torporosa das plantas. Maria de Jesus pouco afeita áquelles passeios do campo, deixava-se penetrar do encanto tonico d’essa frescura que lhe fazia picadas nos pulmões, dando-lhe uma embriaguez de vida sem egual.

Chegaram á villa já noite, em tropel, chailes nos braços, tranças cahidas e braçados de flôres, um remoinho de palavras e risos, que não era já palestra, mas lhes vinha como resultante d’aquella avigorentação de seiva e mocidade, provocada pela travessia dos campos. Só em casa, ella reparou que molhára as botinas, tinha a garganta presa, e por vezes sentia um peso estranho de cabeça.

—É fadiga do passeio! dizia a rir, contando a alegria da festa, os promenores dos bailaricos e a garridice sem exemplo do Santantoninho da ermida. Precisava porém de ouvir-se para estar bem, e a cada silencio sem saber porque, cerravam-se-lhe as palpebras, a espinha dorsal cahia-lhe dorida, e uma tristeza vaga, feita de estupor e devaneio, entorpecia-a toda, em narcotismos de banho russo.

Foi agitado o dormir, essa noite. O Santo Antonio tomava-lhe no sonho dimensões colossaes, e de olhos estoirados, barretina na cabeça, corria a ameaçal-a com a cruz, bramindo com a sua rude voz de pregoeiro.

Não podia estar na cama, voltava-se, sentava-se, bebia agua, e vinham-lhe oppressões teimosas, pasmos fugitivos, um tremor febril de membros. Por duas vezes cuidou que estava um vulto embuçado aos pés da cama, a encaral-a do fundo de um grande capuz negro, barba fulva, onde lagrimas corriam.

E de manhãsinha, annunciou-se a tosse, a grande fadiga continuava, e um fio de sangue correu-lhe a um canto da bocca. A mãi fizera-se branca áquelle terrivel signal, que ia dizer com outro mais terrivel ainda, apparecido no dia anterior sobre o leito da pobre pequena—uma pennita de pombo, toda negra, immovel sobre o travesseiro.

Queriam dissuadir a pobre velha e chamal-a ás coisas praticas, não haveria nada, tolice acreditar em signaes... Mas os olhos d’ella, fitos no pombal não viam senão esses casaes brancos ou cinza, alguns manchados de côres, alguns de pescoço irisado, dois ou tres todos negros, enormes como corvos, arrulhando altivamente nos beiraes da casa, voando contra as ventanas do pombal, ou vindo a espaços bater nas vidraças, com azas funestas, de que abalavam ao vento, pequeninas plumas agourentas.

—Os pombos, os pombos!... dizia n’um fundo d’assombro a pobre, como se ante ella surgisse alguma evocação pavorosa.

Dia agreste, cheio de incertezas no alto, com alternativas de sol e contramarchas de nuvens, que muito baixas, deixando farrapos pelos cabeços, a espaços truncavam a cordilheira, embaciando a transparencia viva das verduras. Nos esqueletos das arvores punha a rajada volitações de folhas, vinha um frio doloroso dos longes; e por massas, na opacidade do ar, troncos cruzados, ramadas vibrantes na symphonia dos ventos, toda a confusão regelada dos bosques que vão rebentando a medo, davam uma sensação de amargura e d’abandono. Como iam grossas as aguas por esses barrancos e corregos, alagavam-se os terrenos baixos, exhumavam-se radiculas tortuosas côr de ferrugem, das barreiras que resistir queriam ao turbilhão, e vinha das relvas zurzidas pela enxurrada, das attitudes contrafeitas e bruscos gestos do arvoredo, uma fadiga imbecil e attonita dôr, que quasi trahiam impotencia. Terrenos fóra alastravam-se ainda calvas aridas, bocados de chão velho hirsutos de cans vegetaes, aqui e além pintalgados de germinações timidas, pallidas, finas, caminhando em filões, com o effeito de pinceladas ao acaso. Por toda a banda começava o cevar de hyena, da herva nova que se lustra, engorda e alimenta do cadaver da herva velha, e em vaidades de debochada, a vai pisando, humilhando e roendo, com uma especie de implacavel ciume.

Cada pequenina folha rebentando, trazia ao mesmo tempo, herdadas lascivias secretas, como uma ancia nupcial que alongava os peciolos em pescoço para os beijos do amor frenetico, revirava os apices como linguas á descoberta d’alguma nova sensação, irritando em titillações mysteriosas sobre os reversos das folhas, as villosidades e pellos, no doido prazer esbanjado de uma kermesse. Do entresolo dos bosques vinham susurros de catadupas, azenhas trabalhando, gemidos de caules vergastados, ou ultimos idyllios de folhas outoniças que esvoaçam já mortas. N’essa transição de quadra, a natureza chorava melancolias lyricas, e se o bocejo da nevoa rasgada, deixava contemplar por momentos algum florão de ceu brunido a reverberos de sol, viam-se no azul pallido, sobre o engaste do horisonte, os dulcissimos furta-côres que teem certos nós da madreperola, tons de nacar, junquilho, turqueza e oiro, fundindo em maravilhosos reflexos.

Nas setteirás da grande chaminé provinciana, larga e alta como um torreão de solar, o vento bramia em todos os tons, da raiva á supplica, querendo a todo o transe assaltar a vivenda, implorando, dizendo segredinhos, batendo pancadas humildes, e quedando-se após como salteador, na esperança que fossem abrir.

De noite, uma chuva batera as vidraças e cahira sonoramente nas telhas, sob os golpes da ventania inclemente. Tempo que desalentava os trabalhadores e embebia de tristuras a alma fragil das mulheres!

Pelos vidros da alcova, via-se um bocado do jardim, pimenteiras verdes fazendo oscillar ao vento o seu pranto de folhitas oblongas, eloendros sem flôr, cedros anões, pyramidaes e bojudos, canteiros de anemonas, rainunculos, goivos, rosaes e alfazemas, toda a flora chinfrim dos quintalorios de provincia. E alongando os olhos, Maria de Jesus via mesmo deitada, os queridos arbustos que os pardaes debicavam, e todas essas flôres mal abertas, que nos canteiros punham mosaicos de irregulares coloridos.

A casa ficava d’alto, sobre uma ondulação dos saibros, por fórma que das janellas acima mesmo da parede do quintal, podiam dominar-se todas as perspectivas agricultadas do valle. Eram renques de castanheiros á orla do rio barrento, que a planura repartia em veigas ferteis, laranjaes, olivaes, latadas e quintarolas cingidas por sebes de piteiras e sabugueiros, cantos de courella onde pascia a indolencia fulva dos bois, jumentos e ovelhas roendo pellugens nos vallados. Mais para lá, grandes amphitheatros de outeiros, hirsutos de matto e crenelados de penhas lugubres, armavam escadarias de cyclopes contra a nevoa ondulosa dos ceus—e nitidamente cortados em brancos de caliça violentos, sem claro-escuro, fins de aldeia iam-se esbatendo nos primeiros planos, collina abaixo, casas terreas com chaminés sahindo em torrella das frontarias, esbracejos de parreiras por cima dos muros, medas de azinho e serras de palha em cathedral, carros de matto erriçados de fueiros, portões de adegas com mariolas provando o tinto, mulheres fazendo meia nos poiaes das portas, gallinhas e porcos revolvendo as estrumeiras podres, ruidos de bigorna, cantos de gallos, e no cotovêlo da estrada, já distante, dois paus em cruz historiando um assassinato.

No quintal, por cima do palheiro, a um lado, havia um mirante com balaustrada de louça, a que se subia por uma escada de tijolo, orlada de craveiros e cachos de fuchsias. Entre palheiro e mirante era o pombal.

A cama da doentinha ficava n’um angulo da alcova, e por entre as cortinas podia ella, mesmo deitada, alongar a vista contra a residencia das queridas aves, que em grupos na cimalha do mirante, nos angulos do telhado, ou á porta das pequeninas moradas, se agachavam tristes, pennas em tufos, cabecinhas debaixo da aza, ou bico alto, espreitando a hostilidade parda do ceu. Um ou outro pombo audacioso voava ás vezes por cima do mirante, em arrulhos timidos, saltitando nos balaustres, cauda em leque n’um gracioso movimento de subida e descida, e esse debicar de volatil ocioso, que procura distrahir-se fazendo mal.

A rajada porém fazia-o volver logo ao ninho, impotente para o vôo, de cabeça baixa e azas molhadas. Mesmo tossindo, face irritada de rosetas funebres, guela secca de febre, Maria de Jesus seguia as sortidas dos seus amiguinhos, cheia de dó porque elles soffriam.

Esse dia foi cruel para todos! Ás duas horas, a febre trouxera desvario, e o Santo do Outeiro, com a barretina ao lado e cruz em riste, mais o embuçado de aos pés da cama fazendo rolar pela barba fulva, grandes lagrimas silenciosas, volveram a encher de scenas tragicas a mente da pobre criança, walsando, passando, estacando, esgrimindo gestos de todas as fórmas, e descobrindo á luz uma face em que se repintavam todas as emoções e momices. Tão alto o resfolegar, que se ouvia nos quartos proximos, arquejante, estriduloso, acabando por vezes em silvo. A pelle secca, de contactos asperos, queimava como se fôra uma braza, e no peito que tomára tons amarellos, o animal feroz do coração, comprimido na jaula, batia de encontro ás paredes, pondo na carne solavancos temerosos de vêr. Ao mesmo tempo, espicaçava-lhe o tronco o cinto de causticos que lhe fôra applicado; machinalmente os seus beiços diziam—agua!—e escancarados n’um pasmo vitreo, os olhos erravam no tecto á procura de um ponto tranquillo, onde não chegasse em galope o djerid de phantasmas traiçoeiros. Bateram Trindades, já os ultimos ares do dia eram absorvidos na sombra dos aguaceiros, e da alcova esclarecida a luz de lampada, nada se descortinava sobre o pombal ou sobre o jardim. Mas os vidros da janella tremeram de leve, uma grande mão de dedos esguios bateu devagarinho, bateu...

Dôces e tristes, os olhos da velha mãi reconheceram na treva, a aza do pombo negro fatidica e implacavel, a que o indeciso da noite dava proporções desmesuradas. A tremer chegou-se á filha, viu-lhe um riso suavissimo, espiritualisado de angustia e todo luminoso de innocencia. Cahira o arquejar da respiração, as palpebras cerravam-se-lhe repousando, e no desenho do corpo indeciso nas penumbras do quarto, a pallidez da cara sómente, punha em redor o divino clarão de uma aureola de martyrio.

—Os pombos! tornava surdamente a velha, os pombos!...

E era toda a sua queixa.

Pelo dia seguinte a esperança estava perdida. Os tecidos flaccidos abandonaram-se a uma lassidão tenaz, sem resposta a estimulos de qualquer ordem. Mal se sentia a respiração da doente, e como um pendulo que faz em cada vez oscillações de menor arco, assim o impulso do coração, successivamente enfraquecia. Ao chegar de manhã o velho doutor Patricio, inda sentiu sob os dedos nodosos, o pulso vermiforme que ondulando fugia n’um fio tenuissimo. Ás dez, a onda partida do coração era menos viva já, e mal chegava abaixo do cotovêlo.

Depois fez-se inda mais curta, e lembrava assim o exercito em retirada que lentamente desguarnece um acampamento. Mal lhe sentiu frias as extremidades, e n’um desvairamento de morte, pôde estudar no rosto da filha a anatomia mortificada e plumbea, que é o toilette do corpo para as bodas do cemiterio, a pobre velha desatou a bradar pelas casas como doida, tropeçando nos moveis e despedaçando as roupas da sua misera viuvez.

Corriam ao appello os velhos amigos da casa, e as santas mulheres que tinham visto nascer a pobre Maria. E um chôro cortado de lamentos, enchia a casa, fazendo alarme nas ruas. Alguem notára desusada actividade no pombal. Os chefes entravam pelas casinholas e picavam raivosamente as femeas no agasalho do choco, fazendo-as abalar dos ninhos; e em revoadas doidas por cima do mirante, a turba frenetica afugentava alguma coisa dos ares, parecendo perseguir um inimigo occulto, sem arrufos, sem arrulhos, mas por uma fórma incansavel. Na vertigem da debandada eram profanados os ninhos, rolavam os ovos do alto, ou vinham-se esmigalhar nos tijolos da escadaria os pobres borrachos, brutalmente investidos pelos paes. Por vezes toda a buliçosa legião pousada nos cimos do mirante, armava linha de batalha com graça marcial, em que faziam mosaico as armaduras de plumas dos peitos, e o furta côres dos pescoços levianos. O pombo negro, que dir-se-hia ter crescido pela noite, parecia commandar o veloz regimento, e no extremo da fileira, cabeça alta e olhos inquietos, estudava o horisonte tumultuoso das nuvens, que um dardo de sol ensanguentava a espaços.

Ia pela abobada uma decoração dantesca, profusa em contrastes de negro e branco, com fumaradas errantes que o vento acossava de onde a onde. Por instantes condensada em cupula, ou rachando em zig-zagues de oiro sob o choque dos bulcões em peleja, uma felpa de negro electrico, pastelava ameaçadoramente a amplidão, n’um tom unido azul d’aço, felpa que era como o grosso do invencivel exercito de nuvens. Não havia ainda trovões, e o ar rarefeito transmittia sons difficilmente. Além d’isso, dava-se nos sêres e nas coisas uma suspensão de assombro, recolhimentos de plateia á escuta d’um lance tragico.

Viam-se chegar galopando os ultimos esquadrões da tormenta, ao de manso, n’um pittoresco de emboscada, com as suas provisões d’agua e fogo. Aquillo galgava por cima das montanhas, ennovellando-se em musculaturas titanicas como nos despenhados de Milton, e subindo a tomar fileira na formidavel ordenação da batalha. Alguns medonhos athletas ficavam por momentos em pé sobre os morros crenelados da cordilheira, alongando os braços n’uma selvageria de fórmas. E arrojando ao largo os capacetes e escudos, pousavam de cabelleira em floresta, a provocar em volta esses anões terrenos que se agachavam de medo.

Mas outros mais arrogantes, vinham logo atraz d’esses na escalada emprehendida, cavalgando-os, cingindo-os em lucta singular, e subindo ás costas dos que vinham depois. E bagagens, animaes de ataque, leões em rebanhos, jaguares e pantheras, carbonosos elephantes armados de torres, carros de guerra com panoplias de tridentes... Ante essa invasão sem barreiras, a natureza amedrontada retrahia-se em fremitos. Nem um vôo, de arvore a arvore. Nos pinheiros, castanheiros, e oliveiras de troncos rocados, havia gestos de supplica e dôr centenaria. Por baixo da sua velha ponte romana, e todo cosido com os pedregulhos e juncos do leito, desertava o rio sem rumor. Um trovão principiou em surdina do extremo horisonte, veio vindo, vindo mais retumbante, como se quizesse fender essa basilica armada em funeral. O pombo negro abria n’esse instante as azas a pairar um segundo, e no mais alto do mirante pousou-se n’um grande vaso de cactos, como n’um miradouro de fortaleza cercada. Tinha a cabeça vibrante, bico no ar, o peito rufado—e com os seus olhos castanhos observava os ceus de lado, altivamente, no seu posto. Cahiam já grossas gottas de chuva, que o ar riscavam de arames parallelos, rolando pelo terreno em espheroides vestidos de poeiras fulvas.

Em magotes por essas azinhagas, enxada ao hombro, ramos de trovisco nos chapeirões, jumentos pela arreata, os trabalhadores recolhiam-se á villa, amedrontrados, recomeçando a Magnifica, um ar de deslumbramento estupido. E alongando os pescoços n’uma angustia, as vaccadas mugiam fundo, sob o peso da asphyxiante atmosphera. Branca de encontro á fuligem do ar, a villa resahia agora n’um minucioso desenho de casas lavadas, chaminés aggressivas, e portas carreteiras fechando por cancellões de ripa, como se um grande reverbero em meio da sombra a rembranisasse. Começavam ruidos subterraneos, vertigens bruscas de relampagos... Nuvemzinhas pallidas, gazes de tessitura fragil, punhos de valencienne, e plumas de leques rasgados em crispações de raiva, corriam, pousavam, debandavam, damasquinando os negrumes com phantasias niveas.

E o pombo negro não descançava nunca! Viam-no voejar em ellipsoides cada vez mais largas, investir bruscamente pelas ventanas do pombal, cuspindo de dentro a palha dos ninhos com turbilhões de pennugem.

A sua actividade tinha coleras e vertigens. Elle fazia debandar o batalhão dos guerreiros, ia e vinha allucinado, mais negro que nunca, reflexos de aço nas azas, e um alvoroto de pennugens na raiz do bico.

As mulheres menos maguadas, que para distrahir-se vinham olhar pelos vidros as arvores do jardim e a vida do pombal, espantavam-se de similhante tumulto de aves.

—Que terão os pombos? Que adivinharão os pombos? perguntavam fingindo ignorancia. Todas porém sabiam a historia da deserção. Era o agouro realisado, toda a familia de almas que ia emigrar, acompanhando ao céo a sua irmã, envolvendo-a na jornada, defendendo-a com as azas, alimentando-a com arrulhos, vestindo-a da brancura divina da sua pureza, e emittindo-lhe o esplendor da sua graça.

Quando o velho doutor chegou, a face de Maria cavára-se de todo, havia na sua testa diaphaneidades de cera, e um tom verde-negro raiando-lhe das fontes, afogava-lhe as feições n’um como luzeiro phosphorente. Nas azas do nariz vincadas a ferro, pontos fulvos depunham-se em crystallisação microscopica, como o pollen de uma funerea flôr desmanchada. E os olhos abertos, gelados de humores, perdida a transparencia, davam á physionomia uma singular expressão de acabamento, angustia e suavidade idiota, deixando vêr no terrivel relance, como o animal se ia transfazendo em coisa.

—Rezem, disse o velho em voz alta, pondo o chapeu para sahir, no meio dos choros renovados.

Os ultimos pombos abriam as azas, abalando por sua ordem, a installar-se na enorme serpente, que se desenrolava palpitando sob a irisação de um ultimo raio de sol doentio.

—Os pombos! os pombos!... dizia agora toda a gente.


O ROUBO

Á porta da enfermaria pousaram a maca, á espera.

—Eh Ramon! gritou o enfermeiro, do fundo. Um servente já velho, olhou na direcção da voz, e de venta no ar, mangas arregaçadas, o labio estupido, farejava. O enfermeiro juntou:

—Cama do canto, vá!

E com o seu geito vagaroso, abria em volta de um que expirava, o biombo isolador, papel azul e verde, com ramitos de rosas e borboletas.

Alta e interminavel, a enfermaria recordava ainda o claustro d’onde nascera, com as suas pilastras de cantaria bruta, a abobada caiada de que os lampeões cahiam symetricamente, e janellas d’uma banda e outra, encimadas de respiradouros circulares. Tinha talvez cem doentes a caserna desconforme, em cujo circuito se viam pequenas bancas de pinho com escarradores de folha, boletins clinicos pendendo a cada cabeceira, e na brancura amarellenta das fronhas, cabeças lividas de olhos estoirados, que se sentiam sós entre tanta gente, e mais soffriam de contemplar os males circumvisinhos. O enfermeiro era um de olhos biliosos e barba dura, cuja rude voz destillava monosyllabos roucos. O seu ventre abahulava-se em obesidades balôfas e a face livida, picada de variola, tinha uma expressão cobarde, espesinhada por esse longo mister de humilhações. Os ajudantes, gallegos velhos, não eram mais dôces de modos, e dia e noite altercando sobre qualquer coisa, batiam os sapatorros no sobrado, mostrando pelos descosidos da camisa, musculaturas de toiro sob epidermes de gallinha cozida.

Era quasi noite, e estagnava á flôr das coisas, uma penumbra morna em que se multiplicavam as larvas da febre, na atroz labuta da podridão. Tinham descoberto a maca no entanto, o enfermeiro viera vêr pachorrentamente, e com um dedo mostrára aos serventes a cama do canto, já prompta a receber hospede. Cada um d’elles então, foi a seu lado da maca; o mais baixo agarrou nos varaes da frente, o mais secco nos de traz. O enfermeiro disse—upa!—e em direitura á cama, a maca atravessou a enfermaria. O doente que vinha de entrar, era um rapazito enfezado e triste, cabeça oblonga toda rapada, um geito de dizer provinciano, e essa doçura de olhar em que se estrellam todas as resignações. Devia contar treze annos, e viera aos dez de Santa Comba, recommendado ao Pinto por um lojista da terra. A vida na loja, durante os tres annos, fôra uma aspera peleja, de madrugada ás onze horas da noite, dia a dia, sem repouso. Era elle quem varria, como marçano mais novo, quem punha os taipaes, e manhãsinha abria a porta, limpava o pó e moía o café. Mettido no saguão de lagedo ou na cozinha tenebrosa da loja, onde de verão e inverno, uma baba salitrosa e gelada chorava da cantaria immunda e das paredes pulverulentas, ahi passava os dias, só com uma triste camisa coberta de nodoas, arregaçada nas mangas e rota por toda a parte, calças de cotim sobre as pernas núas, e tamancos nos pés sem meias, engordurados e torpes. Os invernos tinham sido implacaveis n’esse antro, mesmo para o montanhezito afeito aos gelos das serras beirãs. Como os portaes não tinham portas, um ventinho horrivel cortava pelo corredor, da loja ao saguão, zebrando nas carnes listrões arroxados, pondo frieiras nas mãos dos caixeiros, e tornando a cozinha inhabitavel e mortifera. O marçano não se queixava. Nunca na sua vida tivera jaleca, as calças de cotim safado, luzentes de sebo, não lhe resguardavam as pernitas esqueleticas, e cortado á escovinha, o cabello não podia resguardar-lhe a pelle do craneo. Quando chovia, peor ainda. A agua inundando o saguão, golfava na cosinha, escorrendo pela anfractuosidade das pedras, e vindo molhar os fardos do armazem.

Era então preciso desarrumar aquillo tudo, carregar saccos de assucar, costaes de bacalhau, barricas de peixe secco e manteiga, caixotes de golozeimas, lavar o chão, todos os preventivos exigidos. E sempre elle, o mais fraco e pequeno de todos, carregava com esses trabalhos pesados, e aturava os ralhos. Duas ou tres vezes, o Pinto insinuado pelos caixeiros, lhe batera com uma corda molhada, porque se queimava o café, porque tinham bolor os rebuçados, e algumas vezes, porque as arganassas invadiam os caixotes da fazenda. Era o joguete das intrigas do armazem, o ponto obrigado das chacotas villãs dos caixeiros, o alvo dos ralhos e a victima dos delirios viciosos, d’esses tres ou quatro encarcerados brutaes, que só podiam deixar a loja tres horas por quinzena.

Nos dias agrestes em que era forçado a residir no saguão, sentia por vezes já nos ultimos tempos, a cada lufada de vento, picadas interiores, ardencias mortaes no peito, oppressões vagas, um mau estar indefinido. E aquillo coincidia com uma sensação de fraqueza geral, dôres nas articulações, esquecimentos de membros e vertigens frequentes. O terceiro inverno foi o mais terrivel, e n’uma manhã em que a febre o calcinava e o delirio lhe fazia dizer incoherencias, quando furiosos os caixeiros o iam tirar da cama a pontapés, deram com a sua respiração arquejante, viram-lhe os olhos sem luz, e desceram com medo. E quando anoiteceu, mesmo em mangas de camisa e calças de cotim, o pobre dava entrada no hospital, na maca da esquadra proxima, e aos hombros de quatro gallegos.

Essas primeiras horas de enfermaria foram para o rapazelho um desconforto mortal. Estrangulava-o uma sensação glacial de abandono e de pavôr, a ideia de matadouro onde se morre abandonado ao som de risadas, entre agonias atrozes, sem sacramentos e sem palavras de piedade. Dos fechos da abobada penumbrosa, os lampeões quadrados cahiam com luz triste, immovel na atmosphera podre do ambito, clarões que se amorteciam nos angulos da peça, em cujas muralhas, sombras de pilares traçavam fórmas de arvores colossaes.

No amontoado de leitos, e no sonho phantastico d’aquella luz amarellenta de craneiro, o marçano mal pôde no fervor da febre que o minava, reconstruir com verdade pelo que via, a vida purulenta do estabulo, para onde a cidade varria os seus tumores e as suas miserias. Pareceu-lhe que o deitavam ao pé de uma grande janella, n’algum canto de sombra luctuosa. Duas mãos enormes ergueram-lhe a cabeça para lhe metter o travesseiro, sentiu as coberturas comprimidas aos pés, e erguendo a vista, deu com uma cara gordalhuda e chata de enfermeiro, bigodes cahindo aos cantos da beiçada horrenda, e esse ar de enfado ainda peor que a raiva, que pronostica a indifferença e o embrutecimento, de corações onde todas as cordas estão partidas. Cahiu então n’um estupor profundo, e assim ficou como os outros, arquejando, a pelle secca, bocca aberta e lingua cornea, pequenos gritos afflictivos, que a espaços marcavam as visões do delirio, que ia evocando. Nunca soube dizer os dias e as noites, que assim esteve atolado em modorra sinistra, com listrões plumbeos na face, carnes flaccidas, e sempre aquella oppressão que o afogava com teimosia cruel, se abandonando os travesseiros altos, procurava estender-se um momento sobre algum lado. Ás vezes, alguem lhe chegava ao pé, faziam-no sentar bruscamente na cama, com perguntas rapidas, se estava melhor, que voltasse a cabeça, estivesse socegado, ou erguesse o braço, para lhe cortarem as bolhas que o cinto de causticos abrira, pondo vermelho e doloroso no thorax, todo um circuito de carne viva. O que o atormentava eram as percussões que sobre chagas abertas lhe faziam, de manhã e á tarde, á hora da visita clinica. Se pedia mais devagar, o enfermeiro impunha-lhe silencio, e aquelles olhos de bilioso, vitrificados como n’uma porcelana chineza, davam um calefrio ao pobre rapaz. Noites atrozes, crescia-lhe a febre, e perdido o tino, punha-se a disparatar. Todas as scenas dos tres annos de loja se desmanchavam e reproduziam n’esses desvarios escandentes—a noite em que fôra roubado o armazem, e d’uma vez que ficára a zorra da mulata portas a dentro, batuqueando co’a malta, e ainda as sovas do Pinto com uma corda molhada, por não ter apparecido o gato. Nada volvia a agitar-se com mais frenetica insistencia, n’esse pequeno cerebro atormentado pelo mal, que o roubo da loja. Os caixeiros tinham-se escapulido ao fechar da porta, e elle ficára só, em noite de S. João.

Deitado na enxerga do subsolo, barriga para o ar, as roupas fóra, mãos acima da cabeça, o pobre, sósinho no armazem enorme, pensava com saudades, na fogueira que em Santa Comba, deante do casebre natal ardia a essas horas da noite, e os irmãositos saltavam alegremente em cabriola ruidosa. Pela rua fóra, tudo seriam fogueiras, colmos em montes, canavouras de favas estalando na labareda rubra, e em torno dos mastros verdes, bailaricos alegres, bichas interminaveis de rapazio, rumorejos de guitarras e explosões de pandeiretas. Sobre a villa acordada em descantes, uma corôa de luz poria nas nuvens, o oiro-rosa das alvoradas de maio. As frontarias esclarecidas seriam alegres, e o relogio da egreja iria badalando a meia noite de S. João, quando o chavelho da lua mingoante, symbolico e triste, se fosse a sumir por traz de cabeços solitarios, vestidos de pinhaes sem termo. E abandonado para alli, emquanto escamugidos da loja como larapios, os outros andavam gozando pela cidade, elle fazia por dormir, sem poder. A porta da loja ficára unida, para quando os senhores entrassem. Que triste ser pobrinho e desgraçado!

Em tres annos de mourejar, apenas para comer tinha ganho. E tinha já vergonha de se vêr sebentão pelo armazem, e ao levar aos freguezes de estima no grande cabaz da loja, as mercearias encommendadas, ficava-se acabrunhado e tremulo antes de bater á porta, receoso que o expulsassem, cuspissem de nojo ao vêl-o, e o descompuzessem pelos rasgões da camisa, pelos calçotes de cotim gordurento, tão curtos que se lhe viam as canellas, vergastadas pela orla de coiro dos sapatorros montanhezes. Duas vezes ou tres, pela alta manhã, lhe quiz parecer que andava gente no armazem. Inda chegou a erguer-se da cama. Procurou os phosphoros, tinham-lhe esquecido na cozinha. E pondo o ouvido á escuta, apenas percebeu que as arganassas roiam nas cestas do macarrão, ou pelo lagedo arrastando papeis, armavam as correrias das mais noites. Demais, ia-o embebendo a modorra da madrugada. Fôra penoso o dia—moer café toda a santa tarde, arrumar garrafas que tinham vindo, limpar o bolor dos queijos...

E os olhos fechavam-se-lhe no amortecimento de uma enorme fadiga, quando muito ao de manso outra vez, as taes passadinhas soaram abafando ruidos, como de alguem que fosse, encostado ás paredes, tacteando as coisas na escuridade. A vontade d’elle era gritar—quem anda ahi?—procurava os phosphoros, mas vinha uma cobardia fundil-o todo, batiam-lhe os dentes—se fossem ladrões!... E na sua mente lendas de malfeitores tomavam relevo, attitudes tragicas, em que brilhavam navalhas e corria sangue. E os seus ouvidos zumbiam no terror d’aquella espectativa, e um phosphoro raspado na parede, abria clarões tibios, a cuja luz, a figura do larapio tomava relevos de sinistra audacia, o tic sagaz de um animal feroz, pescoço estendido, á escuta para dentro, e cabeça chata, de um desenho de carnivoro, a que duas grandes orelhas despegadas das temporas, davam o aspecto de um mocho, esgalgado e lugubre. Ó Jasué! Ó Jasué!... E a voz que assim dissera, abafava-se em segredar entrecortado, parecendo voar por todos os pontos da casa, da abobada da loja á escadinha da cava: quando da rua um silvo discreto, lá longe, na precaução de um plano estudado, fazia cahir o phosphoro e correr a sombra do larapio, aos encontrões nas trevas. O marçano fazia então para gritar esforços desesperados; levavam o dinheiro da loja e a fazenda, o Pinto matal-o-hia em sabendo... E aquella suprema ideia galvanisando-o todo, fazia-o saltar da cama com um berro rouco, braços no ar, incoherencias de possesso... O larapio porem voltava, tinha-se-lhe atirado ás guelas, sacudia-o—quatro da manhã! Era o ajudante de quarto, com o remedio n’um copinho de folha.

Afinal, abrindo olhos conscientes, ao fim de não sei quantas semanas de parvoice morbida, conseguiu dar fé com tranquillidade, dos seus companheiros de camarata, os visinhos mórmente. Era já n’uma manhã de maio, nos dias em que a humidade das ruelas profundas e o frio dos interiores desabrigados, fazem parellelo ingrato com a tepidez da luz exterior, tão benefica que pelos troncos entorpecidos na hibernagem faz subir revigoramentos de seiva, e vae brotando dos bolbos decorações patheticas de folhas, como accende nas faces rubores de saude, e nos corpos rodopios de alegria insaciavel. Essa magnificencia gradual da terra paramentada de coloridos finos, relvas mosqueadas de malmequeres, papoilas e maios, as transições infinitas do verde que ondula do amarello ao anil, bosquejando fundos de oasis ás casinholas rusticas das hortas, feria pelo contraste os habitantes da velha enfermaria, de paredes impenetraveis, pilares gigantescos, e esse calor insipido de fogões que ardem, noite e dia, com intensidade prefixa n’uma escala, amollentando corpos e favorecendo as fermentações. Alguns hospitalados que melhoravam, derreados ainda pelo assedio de longas enfermidades, iam de janella em janella e cama em cama, espreitando a agitação da cidade alastrada em baixo, na expansão irregular de um bairro pobre, predios esguios, beccos de escadinhas, quintalorios afunilados, ou a coragem dos infelizes que em crise hesitavam, entre a franca convalescença e o franco paroxismo.

Um velho camponez de Chellas por exemplo, ingenuo e palreiro, era d’uma solicitude tocante. Tinha a face rude e calcinada das intemperies do campo, mãos disformes com dedos curvos, que a convivencia da enxada já não deixava endireitar, suiça amarella e raza imbecilisando o riso, e um sincero interesse pela sorte dos companheiros de doença. Curvado no capotão de briche da casa, barretinho branco atado no coronal, elle ia encostado ás camas, todas as manhãs saber dos seus doentes, ajudar os moços no serviço das rações e distribuição dos remedios, contar a sua vida aos que já iam melhor, dizer brejeirices aos que se punham á janella, alentar os que se amarguravam ou rezar pelos que já não sentiam.

E uma noite em que o da cama 24 morreu, o de Chellas sentado na cama, olhos nos dois punhos, chorou umas poucas de horas, como se fosse da familia, o que fez escandalo nas gentes do serviço, o enfermeiro principalmente, que chupando o cachimbo, olho morto, lhe chamou em voz alta—grande pantomineiro! O marçano tinha um amor pelo bom homem, ingenuo como elle, fallando n’um tom descansado que lhe recordava as gentes de Santa Comba, e que sabia esses proverbios rudimentares, sobre estados de tempo ou saude, signaes de colheitas ou fortuna pessoal, em que o povo usa synthetisar o seu patrimonio de observações seculares e anonymas. Era o velho de Chellas a unica pessoa que lhe mostrára interesse, querendo saber d’onde era, que fazia, o nome do pai, se na loja era bem tratado, e que tal de paparóca...

Assim, na manhã em que a melhora se esboçou lealmente no marçano, pelo espirito lucido que volvia ao cabo de um periodo agudo, em que a febre lhe vedára de todo, percepções fieis e coherentes juizos, a primeira cara que afrontou, abrindo os olhos de um somno reparador, foi a do camponez que lhe sorriu, da cama do visinho do canto, a cujos pés estava assentado. E foi elle quem, no fim de uma grande parlenda sobre a doença de ambos, com o braço estendido lhe foi apresentando a enfermaria toda, com a historia de cada doente, as respectivas manias, as gracinhas dos moços, as invasões bruscas da estudantada, que escancarava as portas do guarda-vento, para em risos e replicas se espraiar depois, em volta de cada caso clinico mais curioso. De tudo, n’essa estufa de efflorescencias morbidas, havia um typo—velhos paralyticos, doenças febris, uma collecção completa de tisicos em todos os graus, classificados por ordem, cardiacos de face terrosa e respiração intermittente, enfermidades viciosas que eram a hilaridade dos convalescentes, anemias, bocios, tumores, um museu de torpeza physica, fazendo o orgulho de uma população e o delirio de um clinico. E reproduzindo o riso, a voz e o gesto do doutor, o velho de Chellas em pé junto ao leito do marçano, arremedava aquelle, d’uma vez que mostrando a enfermaria a um collega da provincia, dizia alegremente:

—Faz-se o que é possivel para haver de tudo, meu caro. Dá trabalho, não nego, mas com boa vontade...

—Bento nome de Deus! fazia amedrontado o rapazito, em quanto radioso da emoção que produzia, o outro tomava folegos, n’um orgulho de contar tão bem.

—Vê vossê o do numero 13, vê? dizia elle.—Esboçava o typo, detalhando devagar—aquelle gordo, todo calvo, passando o fogão... Anda por dois annos que mora cá, entrevadito de todo, e fôra do matadouro. Mau, santinho, como nunca vi! Desde que entrou, não diz senão agua!—quando tem sede. Cova!—se os colchões vão abaixo c’o peso do corpanzil, e assim. De estar para o mesmo lado, semanas e semanas, faz-se-lhe o corpo em chaga viva; e teem-lhe uma raiva na casa!... Nem admira—não arranjando recommendações, não avezando gorgeta, nem bom ar ao menos... A principio vinha a filha, domingos e quintas, com lembranças, sua fruta, e umas certas pratinhas... Eram descomposturas de morte na rapariga, que por fim mudou de bairro, entende? aborrecida do trambolho ruim. E o que fica de contente, em alguem morrendo!—Á força de viver aqui, já conhece o estado da creatura pelo fungar da respiração. Estando para haver carne fresca, avisa logo, a rir, como vingado d’alguma birra velha.

Aquelle contar, dava calefrios ao marçano, cuja phantasia ensopada em toscas superstições de provincia, creava no leito 13, uma incarnação de diabo sarcastico, vivendo da tortura alheia, perto dos delirios, na allucinação das febres e no coração das dôres, batendo a therapeutica, fazendo as crenças debandar, e no crepusculo da agonia alongando sobre os corpos, azas de morcego, farpadas e verdes, faminto das almas côr de luar. Mas na sua monotonia implacavel, o velho ia para deante, verboso e contente, insistindo no caso, biographando uns e outros, referindo as rações de carne assada, as fomes tradicionaes da dieta, os grandes desalentos de quando tombava a noite na enfermaria enorme, á hora em que os accessos vem accelerados, o rhythmo das respirações se turba, uma afflição convulsa esmaga peitos e coragens, e ás janellas fumando, os lividos enfermeiros bocejam de tedio e mau humor. Cabisbaixo então, o velho pensando na sua velha e o marçano em sua mãi, sorriam um para o outro de tristes, com um desejo no bello sol dos prados, e nos tectos humildes sob que tinham dormido n’outro tempo. Quando a narrativa chegou á cama em que o de Chellas estava assentado, o marçano pôz a vista pela primeira vez no vulto do doente seu visinho, atufado em roupas até ás orelhas, e immovel como se fôra morto. Tinha entrado com facadas no lado esquerdo, ia em mez e meio, conforme o velho contou. Poucas palavras, olhos sempre fechados—quer vêr?

E destapando a cara do intractavel companheiro, o de Chellas gritou-lhe:

—Eh camarada, dê os bons dias á gente!...

O doente virou dolorosamente a cara para o lado d’onde partia a voz. O movimento que fez, instinctivo quasi, arrancou-lhe das profundezas do peito um gemido extincto, e o marçano pôde vêr entre a dobra do lençol ensanguentado e o algodão do barrete de dormir, uma face chupada e rôxa, cujo olho parecia dormir sob a palpebra cahida, pelle de elephante com barba rara, enormes orelhas que despegadas do craneo davam a esse todo, a expressão nocturna e lugubre de um mocho derreado. Deu um repellão na cama, uma especie de grito brusco que poz em alarme a população proxima.

—Alguma dôr? quiz saber o de Chellas.

—Nada! nada!—e confuso, tremulo de susto, o marçano tinha desejos de reatar palestra, readquirir sangue frio, rir mesmo do que o outro contava, mas voltavam-lhe ideias negras, parecia-lhe aquillo um carcere, os homens sêres ferozes devorando-se em eternas luctas e eternas intrigas, toda a cidade um covil, e a enfermaria um monturo. E aproximando reminiscencias, comparando feições, dizia para comsigo ter já visto aquella face terrosa. Onde? Fosse lá saber! Mas ficára inquieto, peor, uma coisa parecia estrangulal-o, roubar-lhe o socego e o calor do corpo. Olhava á roda, vazio de consciencia, opprimido, as mãos errantes nas roupas.

Fazia magnifico sol n’essa manhã, quinta-feira de Ascensão por signal, e era de vêr como os convalescentes, abandonando jornaes e palestras, vinham apinhar-se por traz dos vidros da enfermaria, alongando os olhos pela paizagem fronteira. Avistava-se já no arrabalde, um pouco das montanhas da Graça e do Monte, e além, no pendor do valle que se estende contra a Penha, searas a espigar, picadas de vivos pontos de flôres.

Como era dia da espiga, pelas veredas que as terras demarcavam, os grupos da gente operaria com exercitos de pequenada, iam entre as searas, serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramilhete de papoilas e espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz. Logo de manhã, o paralytico que na velha cadeira de rodas corria tudo, pedira ao de Chellas para lhe deslocar o vehiculo contra a janella, saudoso dos tempos em que, como aquella gentana toda, espairecia os ocios do dia santo, blusa nova, madama ao lado, e o fedelho trotando no bengalão do pae. Tambem esse foi apontado pelo de Chellas ao marçano.

O rapaz olhou-o de longe, viu uma cara grave expressando saudades de venturas mortas, e estupida indifferença pelo que em volta vivia.

Tempos! Tempos! E o velho abanava a cabeça todo grave, de olhos no chão.

—Já tem a companheira no cemiterio, contava. O rapaz fez-se-lhe homem, e foi degredado por navalhadas. Ninguem herdaria o nome do ferreiro honrado, nem a ferramenta do officio, que por cincoenta annos, as mãos d’elle haviam puído na bella coragem de um labor sem treguas. Tudo n’esse hospital era pois triste, cheirando a tumba—miserias, desgraças, quedas!... Tremia a alma com frio. E tambem pensativo, o velho de Chellas, erguia o olhar sobre a paizagem fronteira, viva de mundo e penetrada dos fremitos da aura e do sol, que manso, mansinho, iam fazendo ondular os colmos das searas e as folhitas das oliveiras. Áquella hora, tudo abriria no seu pobre logarejo, corollas de risos matinaes, simples e sinceros como a alma dos prados verdes, exhalada no cantico dos passaros e na bruma cerula do entardecer. Iria chamando á festa o sino da egreja; gente de casaes aos ranchos, entrava talvez o velho portal de ogiva, gothico da primeira dynastia, e no arraial flautins e bombo, animariam o bailarico de cochopas com moleiros, espessos como bezerros. D’uma banda o rio espelhado, e da outra collinas verdes picadas de pomares em flôr, altas noras ronceiras, e moinhos de vento em rodopio, enquadrariam a paizagem n’uma suavidade casta, cheia de fecundos sonhos, nupcias, beijos, atomos de sol e borboletas sacudindo o iris das suas azas turbulentas. Cada corolla seria um ninho, e uma fuchsia cada insecto bicôr. Nas colmeias das hortas, abelhas iriam fazendo pacientemente, cathedraes de favo, gothicas e fulvas, com o perfume de todas as flôres e a doçura de todas as nectareas. Um deus coroado de folhas, crinas ao vento e riso de auroras, baccho pelos cachos do carcaz, meio homem, meio monstro, esculpido nas troncagens das cepas, entre tufos de parras e cannaviaes, ou nos farrapos de nevoa, á hora em que espadana o sol das cordilheiras, espargiria sobre a natureza ebria, a munificencia das suas graças sem par. E na ponta da aldeia, á porta da casinhola terrea, a velhota de roca hirta no cós das saias, faria bailar o fuso nos dedos, longe do fuso e da roca porém, tendo o pensamento no seu velho do hospital, e chorando por isso mesmo. Ah, pae do ceu! Que seria das vaccas, das leiras de repolho, do batatal e da jumenta parida!... E campo fóra, apanhando espigas, chapeu largo e cantiga prompta, elle via a gentana trepando, serpenteando, correndo, e ficava-se amuado de estar preso, de se vêr doente, espectador de tantas miserias e de tantas dôres!

Assim estiveram calados, deu uma hora no cuco da enfermaria, e o marçano attento no das facadas, via-lhe a immobilidade do corpo afogado em roupa até aos cabellos, e o quebramento da postura, sempre a mesma, vazia e morta. Fazia-lhe um medo algido aquelle homem tão quieto, a que nenhum remedio arrancava melhoras, sempre na mesma, sempre na mesma, não dando palavra, não respondendo ao medico, nem ao menos deixando vêr uma pagina sequer do que fazia por fóra.

—E como vae elle? perguntou o marçano, indicando ao de Chellas o vulto, de soslaio.

A resposta do velho foi:

—Diz que marcha.—E tão laconicamente dita, a sentença de morte deu allivio ao pequeno, que muito baixo para dentro de si, ousou dizer—ainda bem!—como se o mundo lhe ficasse aberto, por se fechar mais aquella cova.

Permittia-se áquella hora entrada na enfermaria, e em quanto com esmeros postiços, os moços alisavam a roupa aos protegidos, refazendo as dobras, achegando á cama bancas de cabeceira, e pondo a geito os escarradores,—pessoas da rua, acanhadas, passeando os olhos de cama em cama, á procura do seu doente, iam entrando receosas, as mulheres sobretudo, de tanto homem estiraçado. Os que na vida ainda tinham pessoa chegada, velhos paes ou maridos, irmãos, amigos, companheiros de predio ou de officina, levavam os olhos para o guarda-vento, á espera d’um rosto conhecido, que lhes viesse sorrir e fallar. O entrevado deixára-se ficar na eterna attitude de dois annos, indifferente ao que ia, n’um egoismo imbecil em que fuzilava rancor. E da janella mettia dó tambem, a face do paralytico, pintando uma d’essas tristezas planturosas e mudas, que até fazem pena ás creanças, e de que a gente toda a vida se lembra. Nenhum d’elles tinha quem lhe quizesse já, e as affeições dispensadas aos outros, mulheres revendo maridos, filhos beijando os paes, irmãos beijando irmãos, e amigos dizendo o que ia por fóra, escandalos de rua, casos de officina, projectos e desastres, faziam na alma dos dois como um estridor de bofetada, insulto que se não perdôa, e traz odio como reacção. Mas de repente, atraz do velho de Chellas, alguma voz atabalhoada disse:—Eh, marido!...

Voltou-se elle logo áquelle timbre conhecido, braços abertos, querendo erguer-se d’onde estava sentado e sem poder. Era a sua velha saloia, de botas crúas e lenço amarello.

—Eh, companheira!...—Largando o chalito de baetilha, a pobre tinha-lhe cahido em cheio no peito, chorando sem fallar, e toda alegre por vêl-o já de pé.

Riam em volta d’essas ternuras de setenta annos, vivas e sãs, que tinham, tão simples, um perfume casto de bodas de oiro, ao tempo em que um moço, apontando o leito do marçano, disse para um senhor—é aqui! E inesperadamente, o pobre rapaz deu de cara com o Pinto, solemne no frack preto dos dias santos, suiça rasa e cabello á escovinha, o alto ventre liberal, d’onde medalhão e corrente escorriam, n’um pus de riqueza gorda e chinfrim. O merceeiro adeantou-se, face austera de patrão, chapeu alto pendente, e mantinha de pavões bordados. Entrou logo n’uma lenga-lenga nasal e rapida, sem deixar fallar, onde pesava a nota hostil da sua posição superior. Como estás? Como não estás?

Que lhe tinham botado causticos—quantos, mesmo assim? E proseguiu—se purgavam? Era essencial, para puxar os humores.

Deixa doer quem doe! Elle bem lhe recommendára na loja, tivesse resguardos. Advertir um homem casmurros, é malhar n’um ferro frio. E quasi o mandava ficar bom no dia seguinte, impacientado, embirrativo, pela falta que fazia na loja.

Veio o senhor enfermeiro de mãos nos bolsos, o grande avental com chapa da casa, bonnézito á banda. E sabedor da alta posição que occupava aquella figura, o Pinto fez-lhe a reverencia, estendeu-lhe a mão com o grande riso de receber visitas, deu-lhe—bossa senhoria. Entraram a conversar na vida, tão trabalhosa para quem não queria andar á dependencia. E o Pinto disse o seu negocio, como tinha começado na rua dos Vinagres com a tendinha do canto, de sociedade com outro. E como subira pouco a pouco, sempre com honra, felizmente. N’um entorpecimento, o outro escutava, olhando por cima a chafra-nafra da enfermaria, tão pittoresca pelos visitantes que entravam, e pelo barulho das vozes que se embatiam. O merceeiro então, para lisonjear tão precioso donato, fallou nas doenças do tempo, na sabedoria dos enfermeiros, tão entendidos que chegavam a embrulhar cirurgiões—e pela primeira vez, o funccionario teve um gesto de concordancia, e disse com magestade batendo o avental—sim, sim!

—Se a doença do rapaz daria para muito ainda?

—Conforme, disse o enfermeiro. E com ares profundos:—Não se póde prevêr. Logo por conseguinte, póde estar um mez, dois...

—Dois! disse o Pinto com espanto.

—Tres, ou mais. Conforme. Vae melhor, vae melhor. Mas o Pinto já não o attendia. Dois mezes! E encarava duramente o marçano, como se o estivessem roubando.

O pequeno lamentava, de cabeça baixa:

—Que por sua vontade não estava alli. Se o snr. Pinto cuidava que era fortuna, a vida de doente... Ah! elle não tinha culpa, por sua desgraça, não tinha culpa...

Mas o merceeiro sem attender, voltava á carga, atacando, fazendo-se ouvir. E o tom secco, cerrado e baixo da sua voz, opprimia pela dureza, vinha em saraivada cortando respostas e lamurias, alquebrando mais o pequeno, e pondo-lhe nos dedos e na espinha, a frialdade cruel do medo.

—Nem todos teriam esperado como elle, tres semanas assim. Era mesmo abusar! E que se a coisa dava para tarde, não teria remedio senão tomar outro. Meu rico, dizia-lhe enterrando a cabeça nos hombros, com um brusco movimento ascensional de espaduas; custa! Mas é marchar para a terra.

Reprehendia-o como de costume, pela fraqueza physica, a miseria dos ossitos cambados, a carne molle que cedia prostrada ao mais leve esforço, caniculas de braços, peito para dentro, amarellidões de uma lesma. E a sua carne triumphante e rubra, que a fartura da mesa regalava e mantinha, cuspia desprezos aridos n’essa miseria de fedelho chupado, que vergava em cobardias de vime. Servia lá, nem o diabo! E vendo-lhe lagrimas, temendo que tivessem reparado, fazia a voz alta, amansando a expressão do dizer.

—Cura-se, deixa. Com descanso e tempo, inda vens a dar ahi um granadeiro.—E queria rir; era hediondo a rir! Por fim tirou a bolsa, ficou-se a olhar á volta para que vissem, mexia nas meias corôas novas, fazendo-as tenir, e uma a uma, deixou-lhe cahir cinco na roupa, que telintaram chamando as attenções de toda a casa, pessoal e doentes. Os que ficavam perto, ergueram um rumor de admiração sympathica—que rico patrão, a bella pessoa, feliz de quem servia homens assim! E pediam de mão estendida, o ar exhausto, para tabaco. Ao tenir da moeda, o das facadas abrira olho, immovel nas roupas, e pelo canto via attentamente o rapaz entretido nas meias corôas generosas, e o Pinto a distribuir os meudos que tinha, fazendo alargar o côro de bençãos, oleoso de orgulho, o medalhão oscillando no seu ventre burguez. O episodio fizera esquecer o par de Chellas, velho ao pé da velha, isolados dos mais, e referindo negocios de casa, esperanças no anno e o pequeno lucro das vaccas. Tinham sido abençoadas as aguas de abril, a sementeira enchia olho, nascera um burrico, e na venda do leite, o rapazote tinha dias de seis tostões e mais. O velho impacientado, mexia a perna doente, como a infiltrar-lhe vigor.

—Esta maldita que não enrija! dizia. Esta negregada sempre na mesma!—E procurava quedar-se de pé firme, por minutos, até que forçado a sentar-se rogava pragas, zangado da edade, da fraqueza e da demora.

—Paciencia, volvia a velha. É já por pouco!

E arregaçando o saiote azul, de estamparia pobre, tirou da enorme algibeira de retalhos um queijo fresco, as primeiras cerejas do hortejo, quatro ricas laranjas, e o pé de meia do dinheiro, para se abrir c’os enfermeiros em tendo alta. Um no outro, repousavam olhos tranquillos, na tocante amizade d’essa ligação tão longa, que a velhice despira já de erupções e arrulhos. E fallavam de tudo ao mesmo tempo, para aproveitar bem a visita—quando elle sahisse, não era verdade?... e as dôres que tinha soffrido, passeios ao sol, na cerca, por ordem do doutor, as chuvas, e das manhãs que vinham brumosas ainda, e da vida de cada qual na enfermaria... Interessada, a velha ria para os lados, a um e a outro, feliz por dar a sua piedade de mulher ao infortunio dos tristes, que sobre enfermos eram ainda por cima desamparados de affeições. Por descuido ficára entreaberto o guarda-vento, e como estivessem voltados para lá, viram passar no corredor um padre, de barrete e estola negra, e atraz, pouco depois, o sacrista que levava uma grande lanterna accesa e cruz alçada.

Encararam-se brancos, adivinhando a mesma coisa funebre. O queixo da velha tremia, e na crise nervosa que viera, os seus braços apertavam a cinta do velho, como a furtal-o a perigos. Era a Uncção, a alguem que partia d’este mundo.

—Adeus, disse ella tristemente.

Tornou o marido—adeus! E a olhar se ficou, bestificado nos aspectos sepulcraes da catacumba, a reconstruir aos pedaços, scena por scena e grito por grito, o lugubre drama da vida hospitalar, que desgrenhadas visões alumiavam, a labaredas de horror. Essa passagem do padre no corredor, lançára um calafrio nos catres—parecia menos triste o paralytico, e da sua cama o entrevado ria alto, com um gargalhar imbecil que era diabolico, exprimindo deleites de uma vingança, sinistra de vêr. Desentoada, sem modulações, como sahindo de uma larynge sem cordas, a sua voz cascalhava a espaços, acima do borborinho geral.

—Lá vae padre, lá vae padre! Carne fresca para hoje!...

Já a saloia ia á porta, dizendo ao marido adeus com a sua mão nodosa, muitas vezes, e ao descer parou, esteve a olhar saudosamente ainda, e foi-se. O velho enternecido, ria já tranquillo, recolhendo de sobre a cama do esfaqueado, os presentes da companheira. Ia repartir a sua fruta mal-o queijo, com o amiguito de Santa Comba. Laranjas quatro; eram seis molhitos de cerejas; e o rico queijo sem sal, muito branco, vinha embrulhado n’uma folha de couve. Ia mettendo tudo nos grandes bolsos do capotão de briche. O ultimo molhito de cerejas era magnifico e rubro, inda humido das parras em que viera envolto; e de braço erguido, cerejas contra a luz, o de Chellas mirava-as muito—eram da cerejeira de ao pé do tanque, não se enganava. Os olhos riam-lhe de felicidade para os fructos, como para queridos filhos. Plantára elle a boa arvore, ha dez annos, n’um dia de orago, estando a mulher de parto. Tão graudas e vermelhas!... Trincava-as uma por uma, mascando vagarosamente, de olho pisco. De estalo, meu homem! Cuspia os caroços com orgulho, saboreando a sua fructa, que viera da sua horta, colhida pelo seu rapaz e trazida pela sua mulher! N’aquella embriaguez esquecera-se do pé da meia, em que o dinheiro vinha. Estendeu a mão para a cama, machinalmente, á procura. O pé de meia! O pé de meia! E não dando por elle, affirmava-se, mas não o via, o rico pé de meia das economias... Baixou-se custosamente então, a vêr debaixo da cama, e aos lados da banquinha, nas dobras da coberta, em toda a parte—nada! Os seus olhos erravam por uma banda e por outra, exprimindo um pasmo afflictivo agora, e o ar oppresso de quem quer gritar e não póde. Fez para o marçano:

—Vossê viu por aqui, o pé de meia da companheira?

O outro fez não, com a cabeça. Não tinha visto! Que era? O pé de meia da companheira? Por seu lado, o velho reflectia, olhando á roda. Ninguem podia ter-lh’o assim furtado, não se salvasse! Entre a cama do esfaqueado e as mais, abriam amplos intervallos—da direita era a janella, da esquerda o canto. E o amigo das facadas nem se movera!... Diabo! Surpreso, o marçano encarava-o de face, á espera, sem saber.

—É que o levou por engano, tornou o velho afinal.

—Levou quem?

—A companheira, homem! Aquillo é que se esqueceu, a cabecinha de vento, e guardou o pé de meia. Pega cerejas. Deixal-a!

Pelo cahir da tarde, tinha-lhe voltado abruptamente o accesso de febre, trazendo comsigo o desvario. Jactitante e curta, a respiração vinha sifflante na guela, cornea de seccura. Acrescia a difficuldade de estar deitado, parecendo que uma gargalheira de bronze o afogava, pondo-lhe zumbidos no pavilhão, e deslocando-lhe as coisas aos circulos por deante dos olhos, n’uma walsa lenta, em que os contornos e as côres, se apagavam e fundiam. A espaços, despertando dos lethargos profundos em que amodorrava horas e horas, ouvia o entrevado prégando mortes, que já nas sombras da egreja velha, o riso das corujas tinha predicto noites e noites. Com seculos de intervallo batiam horas no cuco da enfermaria, alargando n’uma tortura livida, sem fim, as dôres e as insomnias, e moendo os corpos pela vida morta em que os agitava. Por vezes o enfermeiro de quarto, de varino, capuz derrubado e lanterna á cinta, sahia ao guarda-vento para gritar—Dez horas! Duas horas! Seis horas!—Seguia-se o barulho de passadas somnolentas, vozes que trocavam ordens, pontos vermelhos de cigarro scintillando na treva do corredor—eram os moços que se rendiam nos quartos, gente que batia custosamente o lagedo, e outros levando em padiolas cobertas de negro, quentes ainda, para o deposito, os miseraveis que vinham de expirar nas enfermarias. Outra noite então começava, eterna, sem guarida, sob a calma densa do ambito, que a bassa luz dos lampeões enchia de oscillações mortiças, que docemente, em franjas vagas, vinham quebrar-se na sombra tremula dos oito pilares da abobada.

Aqui e além, dois ou tres sonhavam co’a vida livre dos seus mesteres, nas ruas, nos campos, nas fabricas e no lar, recompondo as scenas quotidianas, dialogos de atelier, as pequenas birras de familia—e d’alli para cima entrava um fervor afflictivo, subindo, descendo, intercalado de haustos fundos, de suspiros oppressos, spasmos de asphyxia momentanea, cansaços, impaciencias, raivas—depois era ainda a série dos que não podiam dormir, e para todos os lados rolavam n’um esbrazeamento de sêde, deitando os braços de fóra, pedindo agua, n’uma irritabilidade de sentidos que os punha fulos ao menor ruido, ao attrito mais debil, ao leve ondular de uma luz. E as respirações fundidas com esses movimentos desordenados davam um concerto informe, alguma coisa como fervores de cratera activa, ralos que em espira fugiam do rumor geral para morrer em silvo, n’uma especie de sopro apagado, por vezes n’um ronco até.

—Carne fresca para esta noite! Carne para esta noite!—Que as maganas estão-se a rir...

Uivo de besta-fera que alarmava de lugubre, a deshoras, zangando uns, mortificando outros. Sómente desprezando a sucia, indifferente aos gritos e aos terrores, o enfermeiro estava na cadeira de braços para o quarto da madrugada, Rocambole na mesa, lanterna ao lado, cachimbo acceso para matar o somno, e certa idéa gulosa em dois dedos de carne, feminina e sadia.

A sua sensação dominante, era um odio da vida negra eivada de miserias, em que amortecem affectos e bons impulsos, todas as lealdades da estima, abnegações do sangue, e os fluidos de uma sympathia que ás vezes, instantaneamente, se contrahe. Porque o tirocinio da profissão deserta de risos, constantemente em face do estertor, da allucinação e do soffrimento, o eterno espectaculo de corpos doentes, pondo a nú as podridões do temperamento e das faculdades, a crueza dos instinctos e os urros da cubiça e do odio, aluira-lhe o ideal de generosidade, estancando as fontes do bem, da pacienca e do amparo, quanto é inherente á intelligencia e se bebe de salutar na educação.

Oh, a Julia, que sobrolho promettedor!...

E rolava todo amoroso, n’um espreguiçamento lubrico, cabeça para traz, na molleza somnolenta que faz para assim dizer, atmosphera ao desejo. Bocca aberta, cahidos os braços, cachimbo em ala esburacando o capote, ficou a resonar espapaçado como um odre, e via-se o bigode cahido nas commissuras, pondo-lhe na cara o laivo despotico de um mandarim feroz.

N’um sobresalto então, o marçano viu uma fórma núa que se debruçava para elle, de olhos estourados, os braços em arco pintados de figuras azues, ancoras, letras, cruzes, datas, e de mãos tremulas tacteava as roupas, por baixo do travesseiro, á procura. De medo, nem pio deu. Olhava a estranha cabeça, muito chata de fronte e alongada ao alto, pequenina, afocinhada, de orelhas salientes. Apenas se mexeu, a fórma recuára sem ruido, como se escorregasse, e as suas mãos buscavam sempre, com incisão subtil e fina, pelos colchões, abaixo dos lençoes, sob o travesseiro. Que é? Quem está? Que quer? A adunca fórma vinha com precauções minuciosas, parecia crescer endireitando subitamente o tronco de livida magreza, em que saltavam costellas, e a enorme ligadura passava cingindo-a desde os sovacos até aos rins, com discos de sangue secco. Trespassado de terror, o pequeno fazia tudo para gritar, em lucta com o pesadêlo das mais noites—primogenito das grandes febres, em que mesmo acordado, tresvairava. E a catalepsia era implacavel, completa, prendia-lhe os braços, prendia-lhe as pernas, gelava-lhe a lingua, estrangulava-o pela garganta. Via essa aranha de nodosos membros, amarellos, terrosos, cheios de lanugem parda, cujos ossos davam estalos, indo e vindo, palpando o leito dos pés á cabeceira, escorregando-lhe as mãos ao longo do corpo, de olhos fixos, carcomido, atroz, cheirando a raposo e a mattagal. E não partia, a gargalheira de aço que o estrangulava!...

Transparente da extraordinaria magreza, o larvado sêr dir-se-hia movido por uma idéa fixa, procurando aqui e além, palpando tudo sem ruido. De cada vez que as suas mãos tocavam a carne do rapaz, sentia elle uma frialdade de reptil, pelle escamosa e aspera, que ao contacto dava irritações doridas. Cada articulação lhe fazia uma massa redonda e enorme, na linha torta dos membros.

Era todo anguloso e torcido, inutilisado por uma degenerescencia trahida nos mais simples pormenores organicos, desde os musculos que mal avultavam comidos de cachexia, até ás phalanges dos dedos, filiformes, agitadiças, tendo o ar de vermes.

Afinal o estado fez crise, pela condensação de uma grande força nervosa—e o pequeno deu um berro roufenho e brusco, muito curto, mas ao erguer-se sentiu a guela oppressa pela pressão de uns dedos crispados. A aranha cahira-lhe em cheio sobre o peito, tinha-se-lhe aferrado ás guelas, de pupilla accesa, calada por cima d’elle, e toda inteiriçada na sua magreza funambulesca. O pequeno debatia-se em vão; mas tinha os braços livres e atirava-lhe murros ao focinho, dando pontapés sob as roupas, e furtando o corpo a cada solavanco da guerreia. Luctaram dois segundos assim, n’um silencio lugubre em que os halitos sifflavam; e o espectro mordia nas mãos do garoto, aos pulos sobre a cama, furioso, tentando arrancar-lhe o quer que fosse, mão nas guelas, e a outra mão aggredindo sem descanso. Afinal conseguiu tirar-lhe o que era, pôz um pé no sobrado, deixára-lhe as guelas livres. A lucta porém não cessou, era o marçano quem atacava agora, aos gritos, agarrado ao pescoço do espectro. Tinham acordado em volta, no entanto, chamavam por gente, estremunhados, sem saber o que havia. De braços tisicos, o rapaz retinha a fórma núa, sem largar, arquejando, implorando—dê-me isso! dê-me isso! Mas o disforme sêr parecia de pedra, olhando de pé a creança que implorava. Tinha já ensopada em sangue a ligadura, e dobrado para a frente queria avançar um passo, dizer o quer que fosse, acenar com as mãos talvez; mas ao tempo corriam, e o enfermeiro atirou-lhe um empurrão—seu malandro! seu assassino!

Tinha-se reconhecido o das facadas, o que nunca mexia do seu lugar: e como elle vinha para aggredir, o enfermeiro injuriando-o, n’um chuveiro de infamias vertiginosas—que viera do Limoeiro para alli, era um degredado por toda a vida, um assassino, um pulha e um ladrão!—descarregou-lhe a bofetada em cheio, e com uma cara hedionda viu-o cahir desamparado, todo um, vomitando sangue negro, que cheirava a pôdre. Então disse alto, contra o guarda-vento:

—Eh, carreguem o canalha!

Os moços agarraram n’elle, um pelos pés, outro pela cabeça, e a custo ergueram-no do chão. Ensopada, a enorme ligadura não podendo reter o sangue das facadas abertas no esforço de luctar, pelos intersticios deixava-o correr em fio, muito escuro, crepitante, espumoso, nas tabuas, e pelas roupas, alagando tudo. Esse corpo resequido, sob cuja pelle tendões sahiam retesados como varas, jogava solavancos para toda a banda, com os braços, com as pernas, dando urros de touro agonisante. A enfermaria estava agora em balburdia, e todos fallavam n’um fundo de pavor, esbracejando, commentando o caso, fallando ao mesmo tempo.

Os moços vinham de atirar sobre a cama o rebelde, que a morte estorcia em repellões profundos. Viram-se essas pernas flectidas como para um salto, erguerem as rotulas juntas, contra a bocca torcida, d’onde um sangue denso golfava ao de manso. E dobrado pela cinta, todo aquelle sêr mexia, rolava, uivando, procurando apoio nos hombros, nos cotovêlos, nas nadegas, alçando a cabeça, cahindo outra vez, e erguendo-se ainda para luctar de novo, na ancia do ultimo arranco. Tinham chamado o interno de serviço, que veio ao pé da cama, e seccamente, chupando o cigarro disse—prompto!—e abalou de mãos nos bolsos. O fervor da respiração que subira mal viera a agonia, cahia lento, com o ruido d’um comboio que chega, e a mascara ficára rigida e baça, listrada de um bistre singular, ao ultimo rolar convulso dos olhos. Coincidia com o aniquilamento da face, a geral prostração dos membros—as pernas abatiam-se n’uma rigidez de pedra, mettera-se-lhe o peito para dentro como sorvido, e pendida do leito, a mão que estava fechada relaxou-se, deixando cahir no sobrado sonoramente, umas após outras, as cinco meias corôas do marçano, que condensando afinal as suas lembranças, acabava de reconhecer no morto, o ladrão do armazem.


O HOMEM DA RABECA

A casa para onde me mudei nada tinha de confortavel e resguardada. Sómente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

Devia já ser velha; os tectos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinellos arrastando. Pelos buracos do roda-pé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava—rompia alegremente o sol, como um companheiro folgasão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette de cabecinhas graciosas, em que parece viver todo um mundo de pequenos segredos de boudoir. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corollas roseas n’um candido aroma de beijos, e em amphitheatro, alargando-se da Baixa ao cimo das collinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos ultimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janellas, sobre que os tectos cahiam em pyramides alongadas, e de que as chaminés furavam aggressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recem-nascida.

A primeira coisa que pude notar na visinhança, foi que não havia uma cara bonita. Em baixo na loja do predio fronteiro, a mulher do logar, suja e gasta, era repellente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado, mostrando a carne trigueira e chuchada dos seios. No primeiro andar, engommadeiras com cara de homem, cabelludas e amarellas, vinham raro á janella para lançar olhares obliquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra—ao lado um veterano eternamente á janella, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; creanças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janella para janella sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos—e o mesmo padeiro servia as familias, demorando-se de palestra pelas escadas.

Ás dez horas, em quanto fazia o almoço, sentia um rumor de passos cansados, e uma voz dizer de quando em quando—espera, homem, vae devagarinho. Alguma vez dás comigo pela escada abaixo!

Era o visinho do lado, o cego da rabeca, descendo com o pequeno. Iam para o giro do dia, em quanto a velhota ficava enrolada em cobertores e meio paralytica das pernas. Succedia topar com elles pelas ruas. O pae era velho, typo commum dos cegos famintos, com a saccola pendente, rabeca a tiracollo por um cordão verde e sujo, o chapeu amachucado, véstia de saragoça. O habito de cantar para as janellas havia-o deitado um pouco para traz, os olhos escancarados tinham uma serenidade vitrea, a bocca era um nada atormentada aos cantos...

Em certos dias corriam a cidade inteira, beccos lobregos e ruas humidas dos antigos bairros, onde parece errar ainda agora uma legenda de facadas e a bulha de altercações vadias.

Á noite, internavam-se pelos baixos cafés de operarios, Alfama, Mouraria e Bairro Alto; e alli amachucados a um canto, em quanto gemia a rabeca, o rapaz erguendo a voz dizia as desgraças dos degredados e as lamentações do Vimioso, terminando por estender o chapeu á esmola dos que bebiam. Eram os unicos tristes da rua aquelles expulsos da fortuna, a velha que ninguem via, o cego e o rapaz macilentos.

Voltavam tarde, extenuados.

—Vá homem, vá, parece que não tens força nas pernas! dizia o cego ao pequeno.

Succedia, por vezes, Miguel recordar que não havia petroleo em casa, que as provisões estavam por pagar no João tendeiro, e não seria fiado real na manhã seguinte se não fosse de logo paga a pequena despeza. Detinham-se então na escada ou á bocca de alguma loja. O pequeno estendia a mão tenra e roxa, e n’ella o pae ia deixando cahir vagarosamente e com pena, uma a uma, n’um tlin-tlin methodico, as pobres moedas recolhidas no trajecto do dia.

Ás vezes era pouco, tres, quatro vintens.

—Bemdicto seja Nosso Senhor! suspirava o cego, e passavam sem luz essa noite.

Era nos domingos mais prospera a esmola e triplicava a receita.

Dizia o cego:

—Sempre é dia em que Deus Nosso Senhor descansou.

Por vezes até, uma pobre senhora, compassiva ante a velhice d’aquelle homem, sem queixa mordendo as miserias do desamparo, offerecia-lhe um pouco de fato, restos de refeição. Era um prazer, que se poupava o jantar d’aquelle dia. E deante do pequeno Miguel, cujos olhos vagos e interiores pareciam absortos n’uma contemplação lunatica, o cego desenrolava carinhos doces e meigas insistencias para que trincasse os melhores bocados, perguntas repetidas sobre se tinha frio, dôres de cabeça, os pés molhados... Rareavam de inverno as esmolas; mal se podia andar na rua, que a lama cuspida dos trens enchia tudo, e eram inclementes e eternas as gotteiras dos telhados pingando sobre quem passava sem cobertura. Em tempos d’aquelles nem os garotos da rua queriam musica—as creanças dos varios andares, as melhores freguezas das pobres valsas e cantigas que o velho executava na rabeca não podiam chegar á janella; se pediam esmola, respondiam logo—Tenha paciencia!

Além d’isso um horror que a policia os fisgasse em flagrante mendicidade... que seria depois, da velhota? O asylo glacial em que as cabeças estão cheias de parasitas e os estomagos vazios de alimento, seguir-se-hia enquadrado na pressão soberba e fria dos fiscaes e administradores; separal-os-hiam brutamente, o velho para a caserna com outros invalidos, como elle sem valia, a creança para a Correcção, em que a lividez é patibular. N’esses amargurados dias era necessario comer a rações. D’uma vez tinham feito um pataco. E a velhota, coitada, sem remedio!...

A hora do jantar retardou-se n’aquelle dia. Quando era noite, o velho fallou em irem comer alguma coisa. Queixou-se de não ter vontade, e deu ao Miguel o dinheiro para que fosse comprar pão. A creança olhou-o com uma especie de surpreza ingenua; á luz do gaz d’uma loja viu lagrimas nos cilios tremulos do pae, cuja face cavada tinha uma côr terrena de angustia. E sem saber porque poz-se a soluçar á esquina, longe d’elle, para que não fosse ouvido. Ah! era bem negra aquella vida, era!


MATER DOLOROSA

A noite fôra surprehender o rebanho nos cabeços de Montalão, avançadas da cordilheira adusta, que fechando valle pelo norte, vinham morrer pouco a pouco em outeiros já cultivados, e mais raros á medida que em volume e redondeza decresciam. Ia um d’esses verões alemtejanos, calcinantes e sezonaticos, em que o sol arde desde o nascente ao occaso, não bole folha a cicio imperceptivel, e todos os leitos de ribeiras sugadas e corcovas de caminhos, faiscam sob a luz, em reverberações implacaveis; tempo em que se trabalha de noite, as perdizes fazem ninho, figueiras e vinhas dão fructos, e nos cantos das hortas, os ouriços se rebolam por baixo de abrunheiros e damascos, a espetarem nas puas da sua armadura a provisão de uns poucos de dias. Outeiros e courellas iam já ceifados; viam-se restolhos amarellecidos rompendo da terra esboroenta, como barbugens brancas em face de velho. De longe em longe, no paiz cerealifero, uma ou outra oliveira derreada, cortava um gesto afflicto na crueldade do céo. E para a banda, em esquadrão cerrado, as azinheiras desfilavam em negrumes guerreiros e formidaveis, cobrindo o solo por leguas e abalando em silencio, como para alguma surpreza. Durante o dia inteiro o rebanho percorrera a pastagem comida e recomida de Montalão, tendo acampado de manhã nas planuras e faldas da cordilheira, subindo lento por corregos e ladeiras, e topando as cumiadas por fim. Com similhantes calmas, impossivel de dormir nos curraes; morriam ovelhas de asphyxia e morrinha, pelas inclemencias do clima e putrilagens da agua—e a penuria dos pastos trazia os gados magricellas, atrazava as crias e consumia os lavradores. Desiderio Jacintho, pastor do rebanho ia em bons annos, nunca tinha visto mortandade assim—nem que fosse coisa de Deus, para castigo dos nossos peccados!

Não era o amo só que soffria os azares da calmaceira; que se as perdas d’elle eram maiores, mais alentados tambem os lucros vinham, havendo occasiões de lhe trazer pr’o monte soberanos aos saccos, das feiras onde o mandavam vender cabeças.

Mas o pastor soffria por cima de todos—das onze ovelhas que no rebanho tinha de seu, tres eram já mortas de gafeira e as outras Deus sabe!

Ora essa noite de restolho nos outeiros tinha sido mal dormida por elle, e quasi levada no calculo dos mezes de trabalho, que havia de cumprir para rehaver o triste dinheiro empregado nas suas ovelhas mortas. A um occaso de extraordinario escarlate, intenso, gradual e enorme, rosando arestas de fragas com fugitividades de ribalta, fórmas nuas de troncos, eremiterios e clareiras, succedera uma reviviscencia de rumores, desde a manhã interrompida—vôos de rolas e pombos, gritos de melros, codornizes, papa-figos, e o gri-gri dos melharucos, vivo e musical na altura, predizendo a aura da tarde e pelo canto espaçado antecipando as Ave-Marias rusticas dos campanarios. Vagarosamente, os cimos escureceram. Foram-se as arvores fundindo em penumbras errantes, á medida que se tornava plumbea e baça a calote incendida do ceu; e por fim, tambem o ultimo riso da luz se foi, já serenamente dormia o campo, fatigado do dia torrido e a espaços resonando no borborinho doce da folhagem. O rebanho annunciára gradualmente esta transmutação de horisontes e emmurchecer de tintas, pelos tons e duração dos balidos.

A cada vez que esbotava nas nuvens alguma d’essas glorias ephemeras côr de bronze tonkin, esboçadas de acaso como em fins de tela impressionista, deixando filtrar no erradio da perspectiva lentamente, uns filamentos mais noctivagos de sombra, sahia d’essas gargantas um côro funebre modulado em tremulos de pranto, absorvencias de elegia, rythmos de ballada, e todo convulso ás vezes na afflicção dos mudos, que ao expirar do amigo ou do irmão, querem blasphemar e têem a lingua impotente! Esse côro dizia a tristeza de captivos, longe da patria, erguendo braços supplices, entre vagalhões de sombra tragica e membros flagelladores de espectros. E ás vezes de mansinho, como se fosse em segredo, fazia palavras articuladas de queixa, e ia-se apagando, apagando... Correndo a vista, poder-se-hia contar por corpos, esse exercito armado de chifres e todo ruidoso dos chocalhos. Iam na frente os guias barbados, chibatos enormes de pello fulvo e andar solemne, cornos altos, os grandes chocalhos badalando. E de pescoço erguido, um ar mephistophelico de barbas, toda a lanugem fluctuante no ventre, esses grandes bodes corriam na pastagem adeante das mais cabeças, farejando, retouçando, trepando pelos troncos baixos, subindo aos penedos e fazendo para assim dizer no seu giro, o quadro graphico do acampamento a occupar. Após seguia a grande massa das ovelhas, carneiros e cabritas, toda a pacifica e fecunda legião das femeas e procreadores do rebanho, de cabeças rasteiras, a lã negra, encarriçada e fofa, e a cornadura transversalmente estriada... Tinha já soffrido tosquia a maior parte; de fórma que sob a pelle vincada de tesouradas, os ossos de cada um saltavam na magreza angulosa, ao menor solavanco dos corpos. E por entre a turba furavam os pequenos mais velhos, brincalhões e vivos, cabriolando e cahindo, apoiados nas ancas das mães, ou sugando as tetas com furia de esfomeados. Muitas ovelhas, enfraquecidas de parto, seguiam devagar, parando a dar mama ás crias novas, ou cortando gramineas n’um abatimento triste. E atraz de tudo era a pequenada de meio dia, de um dia e de dois, pequeninos informes cambaleando esmagados sobre altas pernas vestidas de pellugem fina e longa, e abanando ao vento as orelhas espalmadas, sem curvatura e sem meneios. Na vanguarda então, como a luz cahia mais, os bodes erguiam o focinho parando de comer, viam de lado os ares embaciados, e as ultimas franjas de oiro das nuvens acertadas ás tiras, sobre um ceu côr de perola, palpitando nas ultimas radiações do sol. Para baixo, nas chapadas, era uma confusão sombria de laivos que se deslocavam e fundiam, tornando a espessura lobrega. E esbatiam-se as ramadas, perdida a noção das distancias; um diluvio de treva vinha dos valles lento e sem rumor, submergindo as aldeias, as florestas e as montanhas. Vendo a noite cerrada, Desiderio Jacintho poz-se a ajuntar colmos, palhoças esquecidas, fenos que estavam hirsutos á beira de uma alverca ou outra. Depois cortou ramadas nos zambujeiros que havia, esteve a cardar nos dedos nodosos o seu pedaço de isca, chapeu de borla para a nuca, a volta do cajado apoiando o sovaco, um lenço amarello enrolado na cabeça e alforges ao hombro.

Poz a isca no gume da pederneira desconforme, com o fuzil feriu fogo... Os cães percebendo, vinham mansamente para elle de olhos doces, ondulando as caudas alvadias. Desiderio Jacintho ajoelhára ao pé dos pastos em monte, que tinham por cima a lenha cortada das arvores. Metteu pacientemente a isca accesa por baixo de tudo, esteve assoprando até apparecer labareda. Restolhos fóra, o rebanho estramalhava-se a fazer cama, escolhendo para dormir os terrenos declivosos e desamparados, onde a aragem désse de chapa. E como para além do lume tudo se perdia em escuro, e a flamma da fogueira encandeava o pastor, ninguem viu uma pobre ovelha, que extraviada do rebanho conseguia alfim encontral-o, extenuada e esqueletica, trazendo de rastos com os dentes, o borreguinho parido de manhã.

No campo e de verão, rompe o dia ás tres e meia, quando a cotovia faz a primeira ascensão nos ceus, para dar do alto, aos volateis emboscados nas folhas, nas hervas seccas das barreiras, nas tocas, nos cannaviaes e nas balsas, rumor para a grande pastoral beethovnica da manhã. Accesa na pallidez do horisonte, a estrella d’alva tem fremitos de palpebra somnolenta.

Vae-se rasgando a nevoa das alturas, de envolta com exhalações silvestres dos valles—e cardumes de nuvemzinhas brancas ondulam as barbatanas de renda, por toda essa piscina cerula, que é desconforme como uma ambição de rapaz. Foi quando Desiderio Jacintho, retomando os alforges e a manta, assobiou aos rafeiros e fez partir o rebanho pela encosta da montanha. Mesmo no cabeço, alastrava-se uma clareira redonda, entre pedregulhos e restos de um moinho abandonado. E deitada n’uma attitude indifferente, cabeça no chão, o focinho coberto de mucos, a pobre ovelha viu partir as companheiras e deixou-se ficar de guarda ao cadaver do pequenino borrego, das suas entranhas nascido. Prolongou-se a manhã, acordaram os arvoredos e os passaros, passaram n’um vôo pesado, bandos de perdizes a matar a sede lá baixo, nos raros pégos da ribeira... Veio o sol, abelhas zumbindo, bandos de borboletas fulvas, gafanhotos e sardonicas nervosas, tudo o que começava o seu dia alegremente, luctando, trabalhando, cantando.

E o rebanho já longe, fazia no toque dos chocalhos plangente, uma poesia rustica, simples e penetrada de melancolias.

Quando de repente, dois corvos pousaram nos alicerces do moinho. Eram enormes esses corvos, com pennas azuladas luzindo de cerumen, crespas e afiadas como cutelos de bom aço. E impertigavam-se um para o outro, chegando os bicos n’um quasi beijo de alliança, aos saltinhos nas pedras, firmando patas, balanceando os rabos, com olhos obliquos sobre a mãi e sobre o filho. E estendendo os bicos corneos, dentados meudamente no bordo, longos e negros, quedavam-se n’uma especie de consulta, sem grasnar, sem mexer, como planeando campanha. O maior então atreveu-se a olhar de perto os dorminhocos do rebanho, e veio marchando clareira fóra contra o borreguinho morto, com sobrecenhos de inquisidor, sinistro e fero—em quanto o outro ficava á espera, todo inquieto, voejando, consultando as visinhanças, mais cobarde talvez! A ovelha nem dera rumor.

Conservava a cabeça inerte para a terra, as pernas dobrando sob o peso do corpo, orelha cahida e molle, e sem movimento a cauda, parecendo morta. Aquella postura extincta animou o carnivoro, que veio mesmo ao pé do grupo, se poz a andar deredor mansamente, assentando a pata com uma especie de precaução, geitos desdenhosos de cabeça e surdos ruidos de serra no bico poderoso. Mas nos alicerces afastados do moinho, dois corvos mais acabavam de pousar, inda maiores e mais negros.

Já o sol causticava nos saibros e vinha secco um chiar de cigarras nas arvores. Attrahidos uns pelos outros agora, os malditos abatiam-se aos bandos, depois de voejar em ellipsoides muito alto, por cima da presa. E ás duzias, as cabeças funebres surgiam por traz das rochas, armando conclaves de momento, debandando como fantoches, vindo de novo remoinhar aos saltinhos, ondulando, subindo, descendo e quebrando circuito, como n’uma dança selvagem.

O ataque parecia ordenar-se, á medida que se espessavam fileiras. Havia já um chefe, velho corvo sem cauda, ferozmente faminto e audaz, que afinal com um grande pulo, cahiu no cadaver ás bicadas. Os mais cerraram-se, apertando circulo, cingindo os dois corpos immoveis, batendo o chão compassadamente, com rythmos de marcha guerreira. E mal um d’elles grasnou não sei que ordem de batalha, grasnaram tambem os mais, n’um côro estridente e lugubre, que abria em risada, terminando em uma especie de uivo, guttural e rouco. N’esse momento, a ovelha ergueu a cabeça devagar, firmou meio corpo nas patas dianteiras, e esteve a olhar de narinas altas, sanguinolentas pela mordedura dos moscardos gangrenosos.

Aquelle movimento fez uma hesitação no exercito de grasnadores fatidicos cujo circulo se alargou, vergando em receios de castigo. Viam-se os bicos alinhados, convergindo sobre a ovelha e cria examine em ar de pontaria, e fazendo para dentro do circulo uma golilha negra de punhaes. E se ao mesmo tempo as cabeças voltavam, d’esses olhos chammejantes, inquietos e febris, fuzilava um sardonismo feroz, uma como certeza de victoria e provocações mudas, em que havia intelligencia. Quando a ovelha fitava um grupo, esse grupo immobilisava-se com attitudes marciaes, as pernas em fila, caudas em fila, e azas pendentes como abas de casaca, n’um enterro. Mas o resto convergia por detraz da mãi afflicta, de mansinho, aos encontrões, com fremitos de impaciencia já, mas preferindo cansal-a pelo cêrco, deixal-a agonisar para alli de impotencia, junto do filho coberto de moscardos verdes. E como se sentiam fortes pelo numero, longe das vistas de homem, senhores do campo e espicaçados de calma, entravam já de escaramuça, armando sortida, aos pulos no mesmo sitio, enfunando as azas como para aligeirar os corpos, e promptos ao primeiro signal. O corvo velho estava na frente, contemplando o cadaver de cabeça reflexiva, com idéas talvez na presa do leão. E muitos picavam o terreno ao acaso, como a disfarçar os intentos, em quanto a ovelha se levantava custosamente, e com o corpo mirrado, pernas oscillantes e narina afflicta, vinha cobrir os restos do seu pequeno defunto.

Chovia fogo do ceu embaciado e calmo, como d’um capacete em braza. Fumos sujos de queimadas, subiam direitos d’onde a onde; e era a hora terrivel em que a paizagem não tem sombras, nem correntes o ar, e vem scintillas cruas de todos os angulos e superficies.

O borreguito morto estava de olho esbugalhado, n’uma especie de extasi á luz, meios risos na bocca entreaberta, onde já havia larvas de insectos. E a ovelha guardava-o entre as patas, girando com a cabeça por um e outro lado, á medida que a petulancia dos corvos recrudescia. Os seus balidos frouxos, vindos do fundo do peito, tinham modulações de desespero mortal, e umas vezes imploravam graça debalde, vibrando em lagrimas de sangue, referindo que era aquelle o seu filho, contando a vida do rebanho, querendo abalar pela commoção: outras vezes perdida a esperança, eram uma imprecação á insensibilidade de Deus e do ceu, e rouquejavam de angustia. O corvo velho por fim saltou de vez, e com uma bicada gulosa arrancou um olho ao cadaver. Então os mais vieram em turbilhão, esbofeteando a mãi com as azas metallicas, grasnando de voluptuosidade na disputa de algum bocado. Com esforços desesperados, a ovelha resistia, marrando nos algozes com a sua fronte sem cornos,—e recuava, punha em rotação a anca e os membros posteriores, saltava bruscamente espicaçada, n’essa grande lucta desegual. Apenas, esses bicos todos lacerando a pelle do cordeiro, lhe desnudaram a vermelhidão da carne, não houve mais resistencia possivel, tamanho o impeto da investida! Agonisando então, por todo o corpo ferida e escorrendo sangue em borbotões, a ovelha já não sabia que fazer. Balava rijo, erguendo o focinho coberto de mucos rutilantes, perdera um olho na peleja—mas investindo sempre, a desgraçada!

Quando era já tudo impossivel, e o borrego pelos rasgões do ventre, bolsou os intestinos n’um começo de podridão, nada póde dar ideia da alegria selvagem e pantagruelico appetite, d’essa canalha sem freio. Disputavam-se os bocados de bico para bico; e os mais atrevidos alojavam-se por baixo da ovelha, no intuito de se banquetearem melhor.

N’um derradeiro balido, em que se exhalava tambem o esforço derradeiro, deixou-se a mãe cahir para cima do filho, aniquilada, resignada, sem queixa—e até á ultima convulsão defendeu o cadaver, offerecendo o triste corpo da mumia em resgate por aquelles queridos despojos. Já se não sentia ao largo o rebanho, e no silencio adusto do calvario, por todo o dia á vontade, os corvos tiveram festa.