CONTOS

Porto: 1881—Typ. de A. J. da Silva Teixeira
62, Cancella Velha, 62

Fialho d’Almeida


CONTOS

Livraria Internacional
DE
ERNESTO CHARDRON, EDITOR
Porto e Braga


1881

Indice

Pag.
A Camillo Castello Branco [5]
A Ruiva [9]
Sempre amigos [119]
O tio da America [157]
A idéa da comadre Monica [175]
Historia de dois patifes [189]
A desforra de Baccarat [205]
Quatro épocas [221]
O funambulo de marmore [241]
O milagre do convento [257]
Dois primos [323]
A expulsão dos jesuitas [341]
O ninho d’aguia [357]
A dôr [373]

A
Camillo Castello Branco


Acabo de relêr toda a sua obra. Quanto no artista e no escriptor, o talento tem de malleavel, de voluntarioso e de grande—a ironia na sua expansão facetada e cortante, o estylo na elastica elegancia nervosa dos seus moldes plasticos, e a observação no seu processo tenaz de analyse e de critica—tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas, com uma opulencia que deslumbra.

Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lh’a recusarão com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista os seus trinta annos de gloriosa e efflorescente actividade.

Peço-lhe que aceite a dedicatoria d’este livro mediocre, que pude elaborar nos ocios de uma vida, cortada de trabalhos e dissabores. Duas cousas me levam a consagrar-lh’o—o intento de amortisar uma divida de gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de tirar o chapéo diante do que é superior.

PARTE I
OS DOENTIOS

A Ruiva

A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemiterio dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruido.

Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a fachada opulenta da gelida cidade de cadaveres; na planura que medeia entre o cemiterio e as terras, o terreno via-se revolto; os carros de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miudas e de argamassas antigas tornavam penoso o transito. Na lama constante do caminho, eram profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até á porta do cemiterio, escancarada sempre, como a guela d’um plesiosauro faminto.

Em anoitecendo, tudo aquillo era de uma contemplação lugubre e mysteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas; o ladrar dos cães tinha um echo desolado, que tornava depois mais sinistro o silencio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos cyprestes e dos tumulos, diante de um santuario deserto, onde o Christo, do alto, olhava vagamente o guarda-vento.

Começavam então a chegar á tasca os guardas encanecidos no mister de receber enterros, graves nos seus uniformes fatidicos, os coveiros angulosos e vesgos lançando de si um fetido deleterio; e cada um, dando boas noites á tia Lauriana, ia sentar-se á banca, no seu lugar, chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa se enchia, e o aspecto era sempre o mesmo.

Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosario de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto turbulento e intelligente.

Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo, com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a sombra.

—Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!

—A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!

—Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!

E insistentes, aos zig-zagues:

—Persegue-me anda, persegue-me, que levas dois butes.

—Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso, não digo eu... Que elle ha um Deus que nos governa: é boa!

Eu entrava, comprimentando os velhos conhecimentos.

—Ditosos olhos, estudantinho! dizia um.

—Ó seu casaca! fazia outro.

—Seja bem apparecido e pague-nos dois dedos de marufo.

Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicario experiente, tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo:

—Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco que é uma reinação! Com um pastelinho, não lhe conto nada...

Aquelles eram os meus amigos, perigosos amigos contrahidos na intimidade do vicio e no surdo deboche das tascas.

Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas azas do seu amor quente e brutal, de uma infamia cheia de mercancia. Ouvindo-me pedir qualquer cousa, o olhar adoçava-se-lhe como o d’essas gatas a quem coçamos o craneo; e eu sentia exhalar-se d’ella um fartum de gorduras fundidas, que me perturbava. N’essa noite chegou o tio Farrusco.

Era coveiro e o mais asqueroso,—o da valla; aspecto repellente, perfil aspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas, cheias de terra e de cabellos.

Sobre a testa, de uma pollegada de largo, cahiam grenhas fermentadas; as orelhas desappareciam-lhe sob a lã sebacea d’um barrete cinzento; por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabellos hirsutos, brancos como um pé de junco sêcco, nascido entre as pedras d’um muro arruinado de azenha decrepita. Quasi lhe ficavam pelas esquinas a que se encostava, os farrapos em que embrulhava o corpo esqueletico e lustroso, como de couro curtido.

Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no hombro.

—Tio Farrusco!

O outro tentou aprumar a estatura, lassa na molleza da embriaguez e resmungou:

—Que é lá isso, patêgo?—O seu olho envidraçado não podia fitar; fios de baba desciam-lhe lentos, aos cantos da bocca.

—Olá, fez o cabouqueiro; a maré encheu. E sacudia-o.

—Mais bebedo é vossê, grande cavalgadura!

Tentava caminhar; a sua sombra oscillava amplificada na parede, como a d’um ante-diluviano phenomenal, e quasi se não comprehendia bem como aquella cousa era um homem. Arrastou-se custosamente para um canto; ao passar por Zé Claudino tomou-lhe o copo, levou á bocca o vinho e esteve bebendo devagar. As gotas, d’um roxo sujo, cahiam-lhe pelas barbas. O nó da garganta subia-lhe e descia com vagarosos movimentos de embolo no cylindro d’uma bomba. Pousou o copo com ruido, com a manga da jaqueta limpou os beiços.

—E a filha? perguntaram-lhe. A Ruiva... O tempo tem estado famoso para doentes. Um sol quentinho que é um forno.—Do fundo, alguem disse para Zé Claudino:

—A Ruiva inda é viva?

E um trolha curioso:

—Não era essa que deitava sangue pela bocca? Na tenda do Malaquias vi eu... foi pelo Santo Amaro, faz agora annos...

Mas cada um procurava informar-se:

—Uma gaja de grenha encarnada, um signalzinho de cabellos no pescoço... o que? Era filha d’aquillo? E apontavam o coveiro.

—Bem sei, diziam; que peça! A que estava com o Nicolau das seges d’enterro. Contem-me cá quem isso era. Bebeda, como ratos! Ora esperem. Ella era tambem da sucia da Panasqueira. Lembras-te, Zé Claudino?

—Bons tempos, fez o interrogado do fundo da sua saudade dissoluta, aquella noite no palheiro do Panellas. Vinte raparigas dos casaes, todas pimponas, vieram dormir á granja. Alta noite, piscava o olho; alta noite...

—Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva tambem era...

—Uma mulher dos diabos! Enfezadita dos nervos, mas coragem que tinha diabo. Quando ella se deitou ao Nicolau, aquella vez pelo Entrudo, além ao Quintalinho! Prega-lhe duas taponas, que nem eu sei como o não virou!

O coveiro olhava, sem comprehender, um pasmo idiota na face. Na penumbra da taberna, aquelle asqueroso vulto tinha uma expressão rembrantesca e crua, que fazia medo. O deboche nunca se concentrára tanto, podia-se jurar.

—Mas, tio Farrusco, a Ruiva vai melhor, hein?

—Melhor, melhor, gaguejou elle. Esta manhã vi-a estar dormindo... mais branca!—Pagas cambrainha[1], ó tyranno? Uma pessoa, c’os diabos, gosta de molhar a palavra. Quero lá saber!...

[1] Aguardente.

Tentava apoiar-se na banca, com as duas mãos tremulas. Ouviam-no cantarolar baixo, babando-se:

Foi fazer uma caçada

Á serra de Montalvão!

E com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como o grito do estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com circulos de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçal-o com uma chufa. Blasphemava-se em voz alta, uma riqueza inultrapassavel de obscenidades.

—A minha filha, resmungava o tio Farrusco. Querem saber da minha filha, da Ruiva... Sucia de tarimbeiros!...

Foi fazer uma caçada

Á serra...

Ainda hoje, o Nicolau que atira á valla as rezes que se abatem no hospital[2], me disse que a trazia alli. É boa! Se eu bem vi o sacco... e cosido que elle vinha.

[2] É no Alto de S. João que se sepultam os cadaveres do hospital; para o nosso caso, porém, isso não importa.

A Ruiva em postas!—Ria-se. Cahira tudo n’um silencio algido.

Calou-se, e depois:

—Tambem eu hei-de morrer. Quero lá saber nada d’aquella grande velhaca!

—Vamos, disse eu. Ha una cousa peor que um cão damnado: é um coveiro bebedo. E sahi.

Um dia antes, o meu escalpello penetrára o corpo d’essa perdida creatura, que veio a fornecer subsidios notaveis á minha these inaugural.


Inquiri pormenores. Disseram-me que o tio Farrusco fôra casado com uma vendedeira, a Martha, muito conhecida por Buenos-Ayres. Soube-se depois que as hortaliças que esta mulher vendia, eram pelo marido plantadas no cemiterio, para lá da valla e longe das vistas dos indiscretos, hortaliças que com o tempo e o bello tempero da terra adquiriam grande desenvolvimento.

Se lh’as gabavam, Martha retorquia:

—Ai! bom dinheiro custam, fregueza. Vem todas as manhãs de Odivellas, uma estopada que eu sei!...

E explicava que um cunhado, da quinta do snr. marquez de Borba, tinha seu vintem e um bocadinho de terra onde se faziam os bellos nabos e aquellas lombardas folhudas. Caro, tudo pelas ultimas, dizia pondo a sogra, os cordões a luzir no peito.

Carolina nasceu no dia da morte da mãi. Até alli, o coveiro vivera sem miserias, mas, morta a mulher, descobriu-se d’onde vinham as couves e ninguem mais lh’as comprou. Não se sabe como a pequena se creára, mas aos doze annos era bonita, franzininha, o nariz arrebitado, descalça e cheia de remendos.

E sem consciencia do que via, acompanhava o pai na sinistra occupação de sepultar os mortos. Assim crescera. N’aquella miseranda existencia entrára a crear predilecções. Começou a amar principalmente os mortos que paravam á porta do cemiterio em ricas berlindas douradas, entre filas de gatos pingados lugubres de tochas accesas, e puxados por seis parelhas cobertas de crepes. Visitava-os na casa da observação, acocorada a um canto com o olhar absorto, durante as vinte e quatro horas que os caixões alli passavam abertos, e onde contemplava, deitados na petrea immobilidade derradeira, os que na sua vaidade egoista, corruptos e miasmaticos, iam habitar em sepulchros de marmore, com figuras sentimentaes na fachada e pomposas inscripções nas lapides. Póde dizer-se que aprendeu a lêr no cemiterio, quando curiosa na sua pobreza esfrangalhada queria saber os nomes e posições occupadas no mundo pelos que habitavam aquella branca cidade de marmores, de que se julgava rainha.

Uma tarde, passeando na grande rua que corre ao longo da fachada do cemiterio tinha parado a contemplar, no alto d’um pedestal glorioso, a estatua do conde das Antas. E fallava ainda nos seus ultimos dias, d’aquella energica figura de soldado, grande barba sobre o peito e cabeça de um vigor leonino, a mão apertando o punho da espada... e desde então, a sua ancia pedia-lhe militares, que arrastam nas ruas os sabres prateados e destacam, na agitação dos enterros, d’entre os graves toilettes negros com a alegria embriagadora dos seus vivos rutilantes e das suas divisas sanguineas, côr dos desejos insaciaveis. Nos seus devaneios passavam pallidas figuras de alferes, dos que tilintam esporas no lagedo dos passeios e retorcem bigodes frisados, contemplando as janellas, em domingos de procissão. Todos os dias visitava a casa das observações: alli, sobre bancas expunham-se caixões abertos; ella mesma mettia nas mãos dos mortos as argolas de alarme, e tal emprego quotidiano permittia-lhe vêr gentes de todas as castas e profissões. Meninas ricas, filhas de millionarios e nascidas entre velludos, aureas meninices em berços de renda, acalentadas por amas normandas de cachos louros, iam alli dormindo nos seus caixões de setim, victimas de tisica galopante, olhos vitreos e face cavada, labios brancos em listras lividas e o gelado sorriso dos martyres, clareando em reflexos os rostos, de uma rigidez de esculptura.

Rapazes pobres, dos que ao clarão das forjas crestaram a vida, figuras seccas de famintos, torciam nos rostos expressões de soffrer infernal e gelavam-se na nudez miseranda da morte, ao lado de reverendos, com a barba bem feita, a batina nova e grave, quebrada em pregas symetricas, finas camisas de bretanha, tiras de folhos e sapatos de fivela, cingindo, á força de apertadas com uma fita, contra o peito, cruzes de marfim bento, symbolo d’uma fé que nunca os caracterisou na vida.

E os grandes devassos, os magros adulteros que nos foyers das operas e nos camarins das cantoras, nas casas de batota e nas alcovas faceis fazem publica a sua dissolução e deshonra, vinham tambem, diante da pequena, exhibir a ultima elegancia.

Carolina, pelo numero e aspecto dos convidados d’um enterro, chegára á perfeição de fixar a posição social de qualquer defunto.

Os conselheiros reuniam graves figuras circumspectas de velhotes de luva preta e grandes pés, folgados em botas macias. Os condes faziam-se acompanhar dos coches da casa real, riqueza oxydada e rota, em que se sentiam os annos, os ratos e o oleo dos cabellos reaes.

Os escriptores arrastavam figuras chupadas, de luneta, vastas cabelleiras polvilhadas de caspa, expectoração de discursos com gestos amplos e eloquencia estrondosa. Conhecia o bombeiro, o policia, o correio e o juiz de irmandade. E odiava quem vinha só para entrar na cova, os que embarcavam para o outro mundo sem deixar, na gare, alguns amigos da infancia, ou herdeiros capazes de guardar conveniencias. Ouvia n’esses momentos dizer ao pai:

—Sucia de vadios! quando tinha de abrir cova sem receber gorgeta.

E aprendera a dizer com elle esta phrase profunda:

—Até morrem pelo amor de Deus; cambada!...

Havendo enterro grande, punha uma garibaldi vermelha, azeite nos cabellos ruivos, sapatos de duraque preto, sem tacões e chatos como linguados. Toda risonha ajoelhava-se na passagem do prestito, movendo os labios como quem reza. Depois, na volta:

—Uma esmolinha por aquella alma de Deus!

E comprava pevides, amendoim torrado e alfeloa, á tia Palma, uma de capote verde, sem um olho, que vinha vender á porta n’um taboleiro velho, seccas golodices de arraial. O que a abalava era aquella vida na casa das observações. Olhava já sem terror os cadaveres, como se fossem pessoas adormecidas no mesmo quarto, cada qual na sua maca de estalagem. Os homens sobretudo. Alguns eram ainda novos, louros, pallidos e bem feitos; alguns ricos, tinham a pelle fina, de um contacto setinoso e bom.

Nas horas de calor, de verão, quando sob os cyprestes, os empregados do cemiterio dormiam, ia devagarinho sem ser presentida á casa dos depositos, escolhia os cadáveres dos moços, dos bellos, se os havia e como um pequeno vampiro sequioso entreabria as mortalhas, despregando com uma navalhinha as camisas; mettia a mão devagarinho, pelo peito, mettia, escorregando-a ao longo das carnes, beliscando-as levemente, com prazer; o olhar dilatava-se-lhe, havia na sua face uma mancha de excitação, mordia os labios exaltada; e palpando, estudando, comprehendendo e adivinhando, ficava absorta, um pouco curvada sobre os corpos, o halito ardente, uma palpitação larga e cheia de impeto. A sua imaginação rasgava as nevoas indecisas que diante da intelligente maldade, a sua inexperiencia despregava como uma mascara casta e limpida, cheia de placidez. Estas explorações fizeram-a muito cedo mulher, preparando-a a comprehender mysterios e umas meias phrases que ouvia aos gatos-pingados, se passavam por ella. Ás vezes, eram rapazes de quinze a vinte annos que jaziam.

Carolina em os vendo exaltava-se, todos os nervos se lhe distendiam na ancia d’um desejo que jámais formulára. D’uma vez tinha beijado sôfrega uma fronte, com balbuciações afflictas, ardendo em peccado, como uma alma de reprobo.

Não conhecera mãi, nunca uma boa mulher a beijara e o coveiro não reprimia diante da filha as suas expansões brutaes. Entregue a si propria, chamuscada por caricias perfidas de homens entregues á rota corrente da sua bestialidade, fizera-se n’isto. Havia no entanto dentro d’ella ainda, uma cousa ideal e inexplicavel, certa virgindade infantil: de noite rezava! Vinham-lhe tristezas intimas, a insomnia triturava-lhe por vezes a saude, como n’um almofariz de bronze. Sem saber porquê, era desgraçada. Desejaria ser como uma pequena que vira um dia costurando á porta fuma carvoaria, com uma rosa nas tranças. Mas de subito, alguma cousa a arremessava á lembrança condemnada dos homens adormecidos na casa de observação, e via-os surgir das suas mortalhas alinhavadas, sorrindo, com vida; estendiam os braços a procural-a; roídos de vermes, muitos vinham, como na dança do Roberto, roçar-lhe pelos quadris os membros esqualidos e podres.

E estonteada, fitando no vacuo aquella visão candente, miseravel nos seus quinze annos, sentava-se extenuada e languescida, á sombra dos cyprestes annosos e dos tumulos soberbos, com a cabeça aos baques, revolta a alma por criminosas commoções. Era já noite muitas vezes, quando ia só para casa, fóra do cemiterio. O pai ficava embrulhado n’um cobertor, com um gorro de lã preta por cujos rasgões lhe furavam os cabellos; deitava-se no concavo d’algum velho tumulo vazio; se cahia geada, erguia a tampa d’um jazigo de familia para ir estender-se nas gavetas, entre caixões de chumbo.

Já estava acostumado áquella folia, e depois, assim não dormia as manhãs na cama, e podia começar cedo o trabalho, regando logo de madrugada da os canteiros dos tumulos das familias que lhe pagavam esse trabalho, varrendo dos pedestaes as folhas seccas que o vento despregava dos ramos, e alta noite, com passadas lentas e lugubres, nas tragicas encruzilhadas de cyprestes, reanimando ou accendendo, com o rôlo mettido nos dedos, as lampadas extinctas pelas lufadas do nordeste.

Nem uma vez se lembrou de Carolina que ficava de noite, na cidade, separada d’elle, a sua filha, entregue á leviandade dos seus quinze e aos furores de coração d’um aprendiz de marceneiro que a perseguia, preso de maus instinctos. Carolina era branca, delicada e nervosa; o seu sangue tinha originalidades singulares, inquietações de lucta e o furor da aventura, e do seu seio dimanava essa ancia ardente de que se fazem os gozos, anciada como ama sêde antiga.

Dormia n’uma casita arruinada e miseranda, occulta no fundo d’um pateo sem luz de lampeão, para onde abriam as janellas de taboinhas de casas suspeitas, em que marinheiros tocavam guitarra.

A historia das suas exaltações enraizava tambem como uma hera, n’aquellas más janellas, pelas noites escuras de verão, quando encostada ao peitoril da janella, escutava altercações, descantes e venalidades, na confidencia de carroceiros.

N’estas disputas Carolina entrevia uma cousa, que se apoderava rapidamente do seu organismo, enroscando-se-lhe no corpo como serpente com frio, amarrotando e polluindo no amplexo alguma ainda que pouca, d’essa adoravel modestia que é o thesouro das mulheres honestas.

Viam-na de manhã quando sahia, dar bons dias á visinhança e sorrir ás peccadoras mendigas, que nas tabernas jantavam gravanzos por qualquer pataco, ter com ellas palestras. Desassombradamente olhava para os homens, tinha desdens para uma ordem de gente e creára predilecções pelos louros; nos seus trapos escolhia sempre côres que dessem na vista; e calculista, com o olho febril, architectava aventuras: seria de noite, uma chuva miuda peneirar-se-hia do alto, sobre as calçadas; fugiria embrulhada no chalito, com um louro... Hein?

Da janella da sua mansarda empinada sobre um banco de pinho, podia vêr o que se passava na alcova d’um pobre bordel fronteiro. Apagava a luz para não ser vista, subia ao banco, encostada á janella; e alli, durante horas passava a espreitar o que fazia a visinhança. Scenas equivocas desenrolavam-se por lá. Era tão curioso! A nudez impura dos contactos fazia-lhe regorgitar de dentro uma seiva, cuja plenitude a estonteava. Era a febre do sangue infeccionado pelos microzimas do vicio e o desejo da cadella nubente que uma força espicaça de irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquillo vinha-lhe ás ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitarios.

Corôas de padres esverdeados, mostravam-se á luz de candieiros de petroleo; no espelhinho dos toucadores das commodas, reflectiam-se grupos sombrios, estranhas phantasias das incarnações do Vichnou. E alguem dedilhando guitarras, entoava com voz rouca fados rasteiros do conde de Vimioso e da Severa, entre exhalações de aguardente. E tiniam garrafas, sentia-se o cheiro das sardinhas assadas. Toasts desbragados expluiam claramente. As vozes das mulheres guinchavam. Alguem rolava pelo sobrado e rimas de pratos cahiam, com estrondo, em migalhas no meio de pragas de raios. D’uma vez tresloucada, descera á rua. Domingo, de inverno. A noite lobrega alongava-se. Alguem gritava—Jornal da Noite, traz a lista de Hespanha!

O frio penetrava as carnes. Carolina tremia, labios seccos, uma afflicção enorme subindo-lhe do estomago. Não sabia para onde ir. Quereria as cousas mais violentas, amplexos de ferro, beijos de lava, o vasto oceano d’um amor sem fim e sem felicidade.

Mas o aprendiz de marceneiro, um rapaz athletico e sanguineo, appetites excentricos, sahia da officina, dava com ella, aproximava-se com uma piada...

Carolina recuava humilhada e cheia de vergonha. E sem uma palavra deitava a correr para a mansarda, subia a escada sem parar, fechava-se por dentro, e atirando-se para cima do leito desatava a soluçar sem remedio a desconsolação d’aquella vida, que fluctuava sem linha de conducta.

O candieiro apagava-se no alongamento da noite. Das torres da Estrella uma badalada cahia sobre a cidade adormecida, a vibração enorme alongava-se, n’um circulo infinito...

E no silencio da mansarda, Carolina abria os olhos com um terror em que dançavam phantasmas sardonicos, com a cara do aprendiz.

Era a tarde de Nossa Senhora dos Prazeres. O tempo serenára, o céo não tinha nuvens e no azul espiritualisado, os vôos brancos dos pombos davam uma innocencia casta ao ambiente. Havia arraial n’essa tarde. A procissão sahida da igreja de Santos, por entre farrapos de bandeiras e verdores de buxo, devia entrar na capella do cemiterio, á noitinha, em meio de foguetes e aromas do peixe frito, cuidadosamente consumido pela fome do povoléo curioso.

Na explanada que vai terminar á porta dos Prazeres, as pequenas barracas de lona enchiam-se de grupos; filhas de saias engommadas, olheiras fundas com fadistas de calças esticadas sobre alpargatas de linho. As mulheres gordas, lenço vermelho, os grossos braços nús, refogavam mexilhão, vermelhas do calor; em torno os soldados passavam, de chibata, rostos vulgares e bestiaes dilatados em risos enormes; e meneando-se, diziam brutezas ás pequenas ovarinas sujas. Na confusão dos grupos os garotos sujos, vivamente alegres, corriam relanceando olhares famintos sobre os bolos seccos das vendedeiras ambulantes, e de passagem pediam cinco reis. Aqui e além viam-se sobre a relva, petiscando, familias de operários, pequenas louras e limpas, typos de costureiras futuras, traços finos, scismadores e delicados. Os vadios esqueleticos, de calções em frangalhos, apregoavam agua. No ar os ruidos multiplices abafavam-se uns aos outros, e das continuas pulsações resultantes elevava-se um ruido uniforme e indistincto, como de ebullição longinqua. Os municipaes da patrulha iam atravessando devagar, nos seus cavallos negros, e os capacetes esguios de cuja crista jorrava a branca cabelleira dos pennachos de linho, salpicavam de originalidade a paizagem. Eram um enlevo. As criadas olhavam-os suspirando. O ruido crescia. O sol mergulhava com uma pompa escarlate, no silencio do rio, e o poente inflammado era de uma amplidão sem balizas. Dentro do cemiterio o mesmo movimento de quem ia e vinha. Pessoas fornidas de carnes, esposas espessas de oleiros, capellistas de chapelinho, laços escandalosos e sombrinha, liam, soletrando as inscripções tumulares. Admirava-se o marmore, as fachadas. Os pequenos vagarosos colhiam alfazema e sardinheiras. Alguns olhavam através das rotulas, o interior dos jazigos, a vêr quem tinha berloques de contas e figuras bordadas a lã em molduras ricas. Alguns ferreiros de mãos callosas, descançavam na borda dos pedestaes, tasquinhando as suas merendas; muitos bebiam pelas garrafas, fazendo saudes aos compadres. E todo o mundo ria a sua pandega, a fazer arraial com grossas bobages cruas de taberna e de officina. As mulheres de vestidos de merino, com folhos, mantas de lã com borlas cahidas atraz, chale bem dobrado no braço, olhavam pasmadas. Os fragmentos das palestras, apanhados de passagem, eram os mais originaes e contrastantes. Veteranos procuravam o tumulo do conde das Antas. Explicavam os emblemas, a attitude féra da estatua.

—Portugal velho! commentavam. Elle e o Saldanha!...

E familiares, um clarão purpureo na face:

—O nosso velho! diziam. No 19 de maio...

E outros queriam vêr o tumulo do Palmella. Uma velha de Aveiro ouvira dizer na terra que era obra famosa. Alguem explicava as riquezas do duque, as suas quintas, dois contos diarios de rendimento; a duqueza era bonita e um pouco gorda; elle tinha sido da marinha. De resto boas pessoas e fidalgos da gema; pela Semana Santa pediam na sé para os pobres e sustentavam asylos. E iam semeando o chão de espinhas de peixe, de cascas de laranja, e os ares de rumores de palestra. Mas estrondeavam foguetes. Uma philarmonica sentia-se ao longe. Corriam. Era a procissão. Á frente um marceneiro espadaudo trazia o pendão, pomposo na sua capa de sêda vermelha. Virgens de branco, rosas na cabeça, typos de gaiatos disfarçados em saias, vinham gravemente, acertando o passo. E sobre as cabeças um andor de pau dourado e pequeno trazia a imagem, cheia de flôres de papel. Carolina com a garibaldi melhor, uma rêde de contas nos cabellos ruivos, fôra tambem á festa. O coveiro embebedava-se em casa do Pescada, com a barba feita, o seu carão anguloso e miseravel, inerte sob as abas d’um chapéo de Braga. Carolina vestira-se logo de manhã, toda brunida, botas de duraque sem tacões, brincos de vidro prateado, arzinho alegre, o branco appetite da sua carne anemica, feminil e debil. E fôra ao cemiterio espairecer um bocado, com um farnel no lenço, laranjas, duas queijadinhas da tia Palma.

A senhora Marcellina que fôra ama do padre Anselmo e agora arranjava criadas e concertava cadeiras, tinha promettido a Carolina ir lá ter com ella mais a mulata, que sahira do hospital havia uma semana e lhe estava devendo cousa de quatro moedas. A Marcellina morava no pateo tambem, no primeiro andar, tinha arranjos de casa e barbicas pela cara, sua meia duzia de lençoes, um rico cordão de ouro com medalha e uma Senhora das Dôres com olhos de vidro, mesmo viva, a olhar para uma pessoa.

E fallava-se: que havia papeis, uma panella de dinheiro no quintal, ricos manteletes nas commodas, que tinham pertencido á irmã do padre Anselmo. Marcellina era uma pessoa baixa e vagarosa, aspecto redondo e rôxo de hemorrhoida, feridas na perna emplastada, anneis pelos dedos e o vozeirão d’um quartel-mestre sahindo do capote d’alcoviteira. A sua historia apoiava o enredo principal no governo civil, no hospital e na rua das Atafonas. De resto encontrára o padre Anselmo, capellão da Guia e tomára-lhe amizade. Boa pessoa, o padre Anselmo, amigo do seu amigo, boas manhãs na cama, de inverno, beberricava-lhe um quasi nada, ratão, pregando bellas peças; manhã cedo, ella ainda na cama, e vinha elle da missa, descobria-a, zás, uma palmada. E morrêra. Tudo quanto é bom acaba. A gente falla, falla ... um dia chega. E dava grandes suspiros. Carolina conhecia-a. Mal luzia o buraco, já a senhora Marcellina corria a vidraça e vinha de coifa branca, espanejar o peitoril. Tinha um sorriso agradavel; um dente tropego, unico e esquecido, esverdinhava-lhe na bocca desmobilada; as barbicas hirsutas recordavam uma gata mansinha que se corcova electrica, sob as festas do dono. Era-lhe de mais a mais muito obrigada.—De rastos que eu ande, dizia, de rastos que eu ande, não lhe pago as obrigações que lhe devo. Quando estivera doente, com tosse e muita febre, ninguem dizia que ella escapava, a senhora Marcellina vinha dar-lhe caldos e fazer meia junto do seu leito de proletaria. Havia dous annos. Mas não se davam muito; a Marcellina era mais das outras defronte, fallava com ellas de janella para janella, grossos risos e pesadas graças. E ratona então, como nunca se vira. O que sabia de frades, e do poeta Bocage!... Era arrebentar de riso, senhores. Além d’isso andava sempre occupada na vida, uma azafama, chale traçado e sapato d’ourelo, a massa dos seios papuda e mollemente batida por mais de meio seculo, arrotos estrondosos... Sahiam de casa d’ella pessoas lugubres. D’uma vez a policia fôra alli. Emfim, fallavam-se cousas, ella sabia de facadas, e Carolina ouvira dizer isto—arranja pequenas a velhos. E no fundo da sua alma branca e susceptivel experimentára horror. Na tarde anterior a filha do coveiro recolhera com ares de dia, a Marcellina estava á janella; fallaram-se, como estava como não estava, o pai como ia, e que ella ia vivendo com o seu padecimento de entranha, amargos de bocca, uma canceira, uma canceira; mesmo mortinha de todo! Tinha posto bismas de confortativo que era muito bom, andava agora tomando pózes, caros com’á fortuna, mas o fastio era grande, afflicções por dentro... O peor eram as noites, contava todas as horas. E depois as pulgas. Ai! dizia, quem tem mazella, tudo lhe dá n’ella. Que é feito, que é feito? Não havia olhos que a lograssem. De resto amava as creaturas serias como Carolina; nunca fôra de tricas, louvado Deus. E arrotava. Tinha almoçado uma açordinha, com seu ovo; tudo lhe fazia mal.—É caruncho, é caruncho, commentava. E convidára Carolina a entrar, descançar um pouco, tinha rosas no quintal, uma franga preta que já punha ovos, manto novo na Senhora das Dores—minha rica mãi do céo!

Carolina subiu, beijocaram-se, ricas filhas para um lado, abraço para outro. Carolina sentia-se contente, uma quietação plena, chocada pela sinceridade da outra. A senhora Marcellina olhava para ella de face. E largou d’ahi a nada este dito:

—Ha-de ser um peixão!—E piscava o olho pardo com ares de entendedora. Andaram vendo o quintal; Marcellina fazia-lhe um ramilhete de rosas. D’alli a nada veio a mulata, encostada ás paredes, uma cuia enorme de postiços e fundas olheiras, olhos de carneiro morto, um cheiro a cigarro e a camphora.

Mas foi-se logo encostar. Com o tempo humido, tinha dôres do diabo nos ossos. Desejaria morrer já—raio de vida! Carolina dizia-lhe palavras commovidas; que aquillo não havia de ser nada, em o tempo limpando já a cousa era outra, que tivesse paciencia, coitadinha, que tivesse paciencia. E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como sacco vazio, de roupa velha. E o seu craneo pequenino de estupida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota d’uma cabaça ôcca. Quando ficaram sós, a senhora Marcellina abaixando um pouco a voz, disse á filha do coveiro:

—Tenho uma coisita que lhe dizer, seu interesse.

—Sim? fez Carolina.

—Não é cousa nenhuma má, não senhor. O seu a seu dono!

—O que é então?

—Não se zanga, não?

—Porque havia zangar-me? Mas diga.

—Ha ahi um rapazola, que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão!

Carolina teve um sobresalto. O coefficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se n’um sorriso.

—Está a mangar, disse.

—Palavrinha, é cousa seria. Elle fallou-me n’isso.

—Para que? disse ella tremula, penetrada.

—Ora! Namoricos; não sabe como as cousas são? Rapaziadas. Todos nós temos d’isso. Emfim, fallar não offende.—Carolina estava pallida, sentia-se vagamente n’um deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcellina, de olhos no chão, mordia o labio inferior, como quem reflecte.

—Com que então, disse Carolina, gosta?

—Hi!...

E passado um momento:

—Um rapaz como umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hein? sua sonsinha... hein?

E insinuando-se, velha toupeira:

—Tendo juizo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cahir antes de tempo, percebes?

Carolina estava rubra, com palpitações doidas.

—E quem é? Como se chama?

—Isso queria vossê saber, isso queria vossê saber!

—Não, serio, diga.—E mais resoluta—ha-de dizer!

—Aqui defronte do becco, ha uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos.

—Ah! fez Carolina. Já sei.

—Ha um official, o João, bonitote, muito claro. É esse.

—É esse então? Pois senhores...

—Um bello moço, um bello moço! É vêl-o além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hein!

Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura.

—E depois? disse ella.

—E elle pediu-me que arranjasse a cousa, que lhe fallasse; tinha vergonha de vir elle mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo.

—E meu pai?

—Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar.

—Nem sei, nem sei...

—Isso, o resto arranja-se. Amanhã ha festa nos Prazeres, percebes? Elle vai por alli. Tu vaes commigo. Entendam-se lá como quizerem. Gostas d’elle?

—Sei lá, sei lá! Não é feio...

—Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito.

—Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde.

—Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois.

—Adeusinho, adeusinho.

Desceu a escada. No portal gritou para cima:

— E obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.


Não dormiu toda a noite. Uma turbulencia de idéas desencontradas agitava-a. Havia dentro d’ella alguma cousa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cerebro e do seu coração.

Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, em quanto na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azues, de merino, ricos lenços de sêda com ramos, uma sombrinha e anneis, alguma cousa como uma opulencia.

A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes com botas de biqueira. E mirava-se no espelho embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surprehendia-se a murmurar baixinho—O meu João. O meu João está na officina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João sahiu.—E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo...

Diriam d’ella as visinhas—a que está com o João da officina, uma ruiva.—Via-se aos domingos no passeio da Estrella com elle, em roda do coreto, fazendo volutas por entre os soldados de caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçado atraz, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E d’alli a um anno quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que haviam ser o diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas cuecas amarelladas, de rastos, fazendo gallos nas testas. Deixal-os. Tambem as outras se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito—Deus não me mate sem um loiro. Ás vezes ao acordar, na molleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando:

—Ai! um loiro...

E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguineo da epiderme, pequeninas espiraes de cabellinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delirio, na incoherencia, prolongava nitidamente essas linhas, harmonisando-as, moldando-as, curvas suaves e velludineas, cheias de saude, aquelles brancos braços herculeos e sem um pello que lhe via na officina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculpturaes, direitas. E diante d’ella surgia aquelle corpo de luctador, de athleta, grandes traços magistraes e simples, de uma pureza de academia. E penetrava-se da côr da pelle, fresca e clara, sob que se sentiam correr impetos de sangue rico, joven, virginal, fremente. Tomal-o-hia pelos hombros, redondos como os d’uma estatua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-hia pequenos beijos furiosos na bocca, sorvendo o seu halito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma d’elle.

Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento as noites de inverno, como grandes corôas que se rezam, deixariam cahir as horas no silencio.

No turbilhão dos seus devaneios succediam-se rápidas as scenas, vibrantes como kolpodes que tumultuam na fermentação. Quereria a vida das visinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou chimera. Via saias de gomma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados caracteristicos. As caras angulosas, com manchas vinolentas sorriam para ella, deitando linguas negras de fóra.

E sem explicar porquê, como um rhythmo original, ouvia as pancadas d’uma enxada na terra do cemiterio. Gelava-se.—Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e fluctuante n’uma grande incoherencia. Agitada como estava, o somno fugia-lhe, e as idéas desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemiterio, o amor medonho dos cadaveres, em cuja gelida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrivel, cheia de affinidades com a hyena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infamia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semi-deus. Era feliz então sentindo na alma aquella irisação de paz que a perfumava toda, como n’um banho voluptuoso. Ser amada por aquelle forte, apertada e vencida nos seus braços esculpturaes, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma cousa como um sonho febril. Dar-se-hia plenamente e sem reservas, com uma abundancia louca de contactos, phrenetica e possuida d’um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe colorisada n’uma recordação deliciosa, sem comprehender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura illuminada pela vela de sebo tinha uma curva nitida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miudos, de gatasinha branca. E dilatou-se n’um vasto contentamento interior: era bella, de uma compleição tenuissima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve sobre a fronte, uns cabellinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e appetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho. Todas as linhas harmoniosas do busto, de fragilidade suave, pareciam moldadas n’um espartilho e realisavam uma elegancia moderna, boa para ensaiar figurinos, nos ateliers da Maria Cecilia. Ia desabotoando: uma saia cahiu, outra e outra, e a camisa envolveu-a, como uma tunica que se desaperta. Era magra e branca. Na harmonia dos quadris, na expansão geral das proeminencias, exhalava-se a idealidade das organisações virginaes. Trivial e pequena como era, excitava assim mesmo. E ella mesma se devorava com o olhar, examinando, ensaiando attitudes, cheia d’aquella forte figura do aprendiz de marceneiro. Na tarde do dia seguinte deviam encontrar-se á noitinha, quando os passaros se amam, no mysterio das ramarias; o que iria succeder? Sentiria a sua respiração ardente, com um cheiro a decilitros de Torres, queimar-lhe a face. Fallariam embevecidos e frementes, cheios da mesma idéa profana, olhando em torno, receosos de quem passasse. Elle piscar-lhe-hia o olho maganamente; entender-se-hiam. E como na membrana d’um phonographo, na sua alma vinham arfar todas as vibrações d’aquella loucura de prazer, em que palpitaria no dia seguinte. Que farta estava d’aquella pobreza, comer açordas com alho, andar feita chineleira, ahi como um diabo, com as saias todas rotas! Raio de vida! Ao menos em elle sendo o seu João, a cousa ia melhor. E depois... uma pessoa não sabe para o que está guardada n’este mundo. A tia Marcellina conhecia uma que fôra peixeira, pé descalço por essas ruas, a vender carapaus, um fedor a peixum de seiscentos diabos, e agora estava uma opiniosa com um fidalgo, n’um primeiro andar, ricas cortinas de renda nas janellas. Podia bem ser que nem sempre estivesse com o João—que elle era bom rapaz, coitado, mas diz que de sete em sete annos mudam as naturezas, salvo seja. A variedade attrahia-a. A Marcellina tinha-lhe fallado nos padres como bons patrões, unhas muito limpas, sua palma benta pelo domingo de Ramos, cotos de cera pelas Endoenças, bom lugar na capella-mór, onde se podia estar refastelada a ouvir a musica do lausperenne. E certos particulares, nos priores principalmente, um respeito, bellos lençoes de linho, almocinhos que era um regalo, nunca recolhiam tarde, muito limpos e pés lavados todos os dias. Divagava pelos braços dos desembargadores, dos soldados e dos marujos inglezes. Conhecia uma, da esquina, a Poloina, que até tinha inscripções; todos os seis mezes ia receber seu milho, que lhe pagava o governo, ou que raio era.

Outra, a Libania, um diabo bexigoso, tinha dinheiro a razão de juros, seu grilhão com medalha, annel de luzeiro. E fulana e sicrana, que tinham de seu, umas casitas, seu estanco, nunca tinham ido ao Desterro, viviam á barba longa e andavam gordas. Assim como assim, era boa vida; deixem lá fallar. Para pessoa pobre não havia outra. Que ser séria era bem bom fallado, mas o resto, tudo patacuada. Havia tolos que davam vestidos, ricos chales de cachemira, pagavam a cêa, sua noite ao Price,—os babosos! Depois não se cança a gente. Quem tinha juizo sempre ia bem. Havia tal que era mesmo pelo beiço. E citava exemplos. A prostituição desenhava-se-lhe como a solução natural no problema da vida de uma rapariga pobre, que todas amam, umas mais, outras menos. E a sua ardencia, aligeirava-lhe as difficuldades. Pão, pão; queijo, queijo—que ella não era lá de meias medidas. E deixou cahir a camisa. Entrou a lavar-se com pequeninos estremecimentos de frio; os cabellos ruivos desnastravam-se-lhe pelas espádoas, embaraçando-a; chapinhava na agua com ruido, rapidos movimentos cheios de graça, como fremitos de diapasão.

Ouviu chorar de repente na calada nocturna, um sino, de uma tristeza de morte. E depois houve ruido na rua, os candieiros mostravam-se pelas janellas; um grupo de tochas, sinistro e lento, passou no meio de pessoas descobertas. Era Nosso Pai, a alguem que estava agonisando. Carolina viu.

E poz-se a recordar a vida do pai, pelo cemiterio áquella hora gelado no silencio noctambulo, em quanto os mochos deixam cahir notas agudas, sinistramente escarninhas. Elle estava talvez dormindo nos seus farrapos, no coração d’um velho tumulo profanado, entre caixões esquecidos. Ou perseguido pela insomnia—talvez não tivesse ido ao Pescada—pensava n’ella por ventura, na sua solicitude de pai, porque tambem teem coração os coveiros, mercê de Deus! E ella, sua filha, pensava em abandonal-o, em fazer-se servir como uma isca de figado aos cocheiros e aos trabalhadores, com reducção de preços! Roçava então pela miseria do coveiro a sua piedade como uma aza de gaivota, e pensava:—Pobre velho!

Vinham-lhe subitaneas ternuras, vibrações de lagrimas intimas, uma desconsolação pathetica de tudo quanto a cercava. A idéa de morrer apparecia-lhe diffusamente, envolta n’uma photosphera de soffrimentos. Lembravam-lhe irmãs de caridade, jovens e pallidas, um rosario na cinta, o negror do habito amortalhando corpos de virgens maceradas. E longas penitencias no marmore das clausuras, entre açoutes de martyrio, ao rumor dos confiteor. Ia arrepender-se, pedir perdão...

Mas o corpo do aprendiz apparecia-lhe de uma tentação hilariante, branco, moço, potente e triumphador! Esmaecia, como um vago luar que empallidecei.

A Marcellina appareceu á tarde, depois da procissão, afogueada, cheia de esfalfamentos; que arrebentava se a não deixassem sentar um bocadinho, e que ia muito mal; a noite passada não tinha podido pregar olho; tudo eram bonecages diante d’ella, uma confusão, uma algazarra de metter medo. E estava ainda com febre—dava o pulso—que vissem, que vissem... Nunca fôra esmorecida, louvado Deus, lá isso não; que até pela febre amarella... ai! nem se queria lembrar. Aguas passadas... Tinha ido ao banco do hospital, explicado o que sentia, e desconfiava que aquillo era cousa de nórisma.

Um rapazote novo que parecia ainda estudante, torcera a venta, e ella bem vira... ai! tomára já morrer; que andar uma creatura a penar por esse mundo e depois marchar da mesma maneira... ora!... que lhe faltava! Antes ir d’uma vez. E que Deus lhe perdoasse, que Deus lhe perdoasse!...—Carolina sorria-se compassiva e cheia de interesse, tinha ternuras pelintras, roçava o seu rostinho branco pelo queixo barbado da inculcadeira, chamando-lhe Li-Li com voz de criança amuada. Ia cahindo a tarde. O sol mergulhára no mar acharoando de tons metallicos e cupricos as nuvens do occidente, em gradações insensiveis, de uma grande riqueza de pinturas. Por entre tumulos, os cyprestes antigos erguiam-se como sentinellas immoveis, armadas de capacetes ponteagudos. Fóra as guitarras rumorejavam fadinhos tristes, do Calcinhas e do João Brandão; um trolha cantava rouquejando, com voz expectorada:

Habitantes d’este lugar

Se m’alegra ó curação...

E vozes de garotos apregoavam—vai agua ou não vai agua!—no meio do vasto rumor de quem sahia.

—Sabes, segredou a Marcellina ao ouvido da pequena, que elle vem ao anoitecer? Teve hoje de trabalhar na officina; sempre são seis tostões... Está mesmo parvo, pelo beiço. Demais uma criancinha—dezoito annos ainda a fazer pela Santa Maria! Pódes fazer d’elle gato-sapato.—E depois de um silencio:

—O que aquillo quer é roupa branca, jantarinho ás horas, festinhas e deixa andar. Vossês não sabem do mundo; ainda hontem largaram os cueiros. O primeiro que nos regala, é o unico aceado e de quem toda a vida se tem saudades. Que os mais—tudo gajões que a pregam na menina do olho!... E que visse, que estudasse a cousa: quando se tem na mão o passaro, é que se não deve deixal-o fugir. E rindo, dilatada n’uma hilaridade de velhaca, de rameira bebeda, mãos nos quadris, roncava affectando lubricidades:—Ai!... Tivesse ella os seus vinte, e quem o lograva era ella. Só aquellas carnes, em que se podia lamber mel.—E sordidamente mordida de appetites, agarrava-se a Carolina, fazia-lhe cocegas dizendo muitas vezes:

—Ricas filhas, ricas filhas!—E rolavam ambas pelos sepulchros rasos rindo soltamente, com um prazer de barregãs.

D’alli a pouco chegou o João. Trazia a blusa de riscado vestida debaixo do jaquetão, e os cabellos crescidos e encarriçados, cheios de aparas de casquinha. Era quasi imberbe ainda, branco e sanguineo, de uma compleição herculea em que se adivinhava a seiva fertil e jámais esbanjada, dos corpos encouraçados na propria virilidade, e no trabalho absorvidos até á idade dos loucos amores de bordel. O seu typo era de criança e presentia-se o fadista mais tarde, ámanhã mesmo.

—Ora graças, começou a Marcellina, graças que nos apparece! Uma cousa assim! Fazer esperar esta menina!—E recriminava-o, enchia-o de censuras: que para o futuro queriamos homem mais aquelle; que quem esperava desesperava; era uma verdade! Mas nada d’aquillo era morte de homem, louvado Deus!—E fazia as apresentações.—Carolina, não t’o dizia eu? Um rapagão, capaz de arrombar o Castello; e que lindo, mesmo de regalo!—Mencionava pormenores, nunca tinha tido uma doença, benza-o Deus, nunca tomára remedios de botica, nem sequer uma purga. E que mãos de prata! Fazia cadeiras de polimento como o primeiro; um armario que acabára pelo S. Pedro, tinha sido vendido a um homem de fora—tinha aquella de francez, uma falla a modos esquesita——por bellos mel reis. E mais cousas ainda que se não diziam.

O João, inchado, meio confuso sorria, dizendo com inflexões variadas:—Hom’essa! Hom’essa!... E aquecido, trescalando a carrascão, a perna bem desenhada na calça de bocca de sino, cambada um pouco para dentro e afeita ás escovinhas, chapéo arremessado com um piparote para a nuca, fitava Carolina, mordendo-a com os olhos e resmungando:

—Deixe fallar, deixe fallar, que isto sabe-a toda.

A Marcellina declarou que estava com a telha, uma alegria mesmo lá de dentro, e dizia:—Viva a borga! em estrepito. E tomando Carolina pela cintura e agarrando o braço do aprendiz para aproximal-os:

—E que canta vossê cá da pequena, seu petiz? olhe que nem mandada vir de encommenda. E então esta carinha, que parece de seda... Maganão! Bem sabia que a não merecia, um chichisbeco d’aquelles! ai! Mas queria ser generosa... E que tratasse de a estimar, melhor que o pai a tinha estimado; que a queria vêr uma senhorita toda de fitas a voar e casibeques de pano fino, pelo inverno; conhecia casadinhos que era mesmo uma gracinha, mais unidinhos e mais guapos que era uma providencia. E que fossem assim toda a sua vida. Ambos elles sorriam, córados.

Nos seus olhos humidos, em cujas iris de inquietas fibrilhas havia um contrahir de commoções refreadas, luzia a caustica lasciva do desejo incendido.

Carolina sentia um quebramento fundil-a toda; era do calor, da fadiga da tarde, talvez da contemplação do sitio. E a sua alma perdia-se em grandes esquecimentos; alongava o olhar de encontro ás vastidões do céo e da paizagem, como se toda ella se expandisse n’aquella área sem termo, alada no vago do uma impressão que até alli não soubera formular. Viu-o preguiçosamente estendido na pedra branca de um tumulo. Era n’uma das ruas afastadas. N’aquella posição de madraço, a vigorosa expansão do seu corpo resaltava em linhas magnificas, de animal contente e são, que descança. Tinha-lhe cahido o chapéo, e deitada para traz nas duas mãos sobrepostas, a cabeça parecia-lhe esbatida no fulvo dos cabellos, que á luz poente faziam um desenho de juba. Via-se-lhe o tronco oscillando, a camisa tufada por baixo do collete, uma das pernas flectida sobre a coxa e a outra estiraçada com bestial franqueza, para diante. Carolina devorava-o: era assim que ella sonhára o outro, nos seus delirios hystericos de virgem reclamando direitos de mulher fecunda, em noites de entrecortada allucinação. E via-o deslocar-se aos circulos por diante dos olhos, sentindo um tremor de mãos e frialdade mortal nas pontas dos dedos. Por seu lado, o João fitava-a com furias de novilho que desperta.

E velhacamente, um riso nervoso nos cantos da bocca, piscava-lhe os olhos, desafiando.

A noite tombára das encostas, pelo céo, e uma sineta batida pelo guarda do cemiterio, mandava sahir. Barras de nuvens tranquillas, estendiam-se ao oriente, aspectos esbatidos, de vaga melancolia contemplativa. A lua de um branco baço fluctuava como uma boia de cristofle, e tristes raios chimericos mal podiam coar-se pelos galhos corpulentos dos cyprestes antigos.

Via-se pouco pelas ruas do cemiterio; na ventana da capella um mocho narrava sarcastico em notas vibrantes, legendarios terrores; um vento passava vagaroso, como vigia de arraial adormecido, varrendo o pó das brancas sepulturas glaciaes. A Marcellina ergueu-se para pôr o chale rico e ia andando.

Carolina ergueu-se para seguil-a. Mas o João agarrou-a pela cinta e com voz alterada, quasi guttural, dizia-lhe attrahindo-a a si, corpo a corpo:

—Olha lá, espera, olha lá.

Erguera um pouco o busto, e com inabalavel teimosia puxava as saias da rapariga.

—Esteja quieto, podem vêr. Mau!

Elle porém não a escutava.

—Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido. Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço.

—E o beijo que me deves, o beijo que me deves? Dá-m’o!

Tinha-a agarrado pelas costas, mettendo-lhe as mãos por debaixo dos braços, e com uma força cruel conservava-a apertada sobre o peito, em quanto lhe premia os seios crespos e redondos, de mulher inviolada. Carolina tentava em balde arrancar-se ao amplexo. Conservava os olhos cerrados, um bater de narinas, a bocca escarlate como a ferida de um fructo torrido, palpitações. E dizia:

—Mau! Olhe que eu chamo, olhe que grito!

E n’um tom choroso:

—Ora isto, ora isto!

Elle não dizia palavra; apertava-a na cinta uivando com fome, e beliscando-a na redondeza dos quadris e na curva marmorea das espádoas. A sua exaltação crescia, e luctava a serio, com arrancos de besta na quadra fatal do cio. E erguendo de repente o braço forçou-a a voltar a cabeça para traz, despenteando-a um pouco na frente.

—Mau! dizia ella. Rasgar não vale! Olhava-o com os seus olhos velados que tinham uma condensação de amor voluptuoso, essa expressão parada e lubrica que nasce dos espasmos profundos e desolantes.

O João dobrou-a vigorosamente, como se quizera partir-lhe os ossos.

—Cala-te, cala-te! dizia-lhe.

Os seus olhos resaltavam, havia um arripio de fibrilhas nos angulos das orbitas e sentia-se o estertor da sua respiração estrangulada. Então curvando-se sobre ella, com os seus labios ardentes sorveu-lhe a bocca palpitante, e furioso tirou-lhe o lenço para metter-lhe as mãos no seio. Ao contacto das epidermes a descarga dos fluidos deu um fremito de corpos, e Carolina esticando os braços atirou-lhe as duas mãos aos hombros, murmurando:

—Oh! matas-me...

E como na corrente murmura de um rio que vai fugindo, entregou-se-lhe toda, sonhando com esses fiords serenos e brancos, das regiões onde os extasis, como as noites duram mezes, sempre illuminados por um iris de aurora polar.

João agarrou na rapariga ao collo, como a uma criança, foi pela rua adiante ao encontro de Marcellina, que não estranhou se houvessem demorado. O João dava-lhe quatro pintos de commissão; era para comprar aviamentos para um vestido de fazenda, azuloio, que tinha ganho quando fôra do alferes Sarmento. Andava precisada de botinas; as dos domingos, de polimento, tinham uma fendasinha no joanete e via-se a meia. Não podia ir a parte nenhuma que se não envergonhasse. Fallára n’isso ao João, mas elle enfadava-se. Já lhe tinha dado para umas camisas e para a ajuda d’uma medalha, e certas miudezas, lenços de sêda, um casaco de pano bordado a trancinha, que tinha comprado á Francisca adela, com geito no olho, um pouco gaga. Fora a sua tagarellice, mal apanhou quem a escutasse, entrou a estafar a paciencia alheia, de commentarios nunca levados ao fim, historietas afogadas no prologo e logo preferidas a outras não menos interessantes.

—Ai filhos que se vai fazendo noite, negro tudo como breu.—A mulata devia estar em cuidado já. E não comprára os carapaus para o bichaninho, o Pimpão, eram mais de sete horas! Não tinha sustancia no estomago, mas havia sua vontadinha de comer. Tivera fressura para o jantar, umas ervilhasinhas com presunto que as podiam comer os anjos. Mas a fructa cara; a hortaliça estava para a gente rica. E então as mulheres da venda pelas portas; uma pouca vergonha! Quarteirão de laranjas, dous tostões! Nunca se vira tal n’esse mundo de Christo. É com a guerra, dizia, é com a guerra. E que andavam os papeis cheios d’essas cousas, mais de duas mil pessoas mortas cada dia na Estranja, a tiro. E que Deus nos livrasse, que Deus nos livrasse, cá de levantamentos. Quando fôra pela revolta do quatro, ainda os dois não eram nascidos, tinham corrido rios de sangue, gente fugida por esses campos, até os santos andaram n’uma alhada. Nosso Senhor nos perdôe pelas suas cinco chagas! E persignava-se dando beijos na unha do pollegar, com ruido. Sahiram do cemiterio. Carolina não dizia nada, apertava o braço do aprendiz. A velha estava mesmo a cahir, e queixava-se. Estavam-lhe lá por dentro a resmoer, a resmoer; a modos que cousa assim de bicha. Tinha tomado as pevides de abobora—nada de resultado! Ai, mas ia mesmo mortinha; e que fossem enxugar uma pinga, com uma iscasinha semelas... Já não estava em idade de folias, bem lh’o estava dizendo aquelle esfalfamento. E os seus intestinos roncavam ameaçadores. Tinha sina de morrer cedo; então!... Toda a sua gente marchára ainda nova. Seu pai, um homemzarrão com’a um raio, tinha sahido bom, com uma capa de briche novinha, para casa do regedor, e á noitinha dá-lhe a febre amarella, e agora o vereis a vomitar... mandaram chamar o medico Cançado—parecia-lhe que o estava a vêr—luvas de casimira, um caixa-d’oculos corcovado, barbicas loiras, arrastando d’uma perna...—Receitou para alli umas berundangas, ella foi á botica, noite fechada. Enterros por cada canto, padres a cantarem responsos. Nem ella sabia dizer bem. Quando chegou a casa, a mãi estava n’um berreiro:—Ai meu home da minh’alma! Ai meu rico amor do meu coração!... E escarapellava-se pelos cantos em saias de estamenha, sapateando as grossas solas cardadas pelo sobrado. Sua mãi fôra lavadeira da infanta, muito estimada das açafatas e aias; levava e trazia segredinhos, bilhetinhos, do Ramalhão para a Bemposta e da Bemposta para o Ramalhão. Chamavam-lhe a Angelca; um cabo da guarda apaixonára-se pelos seus bellos olhos e cantava-lhe modinhas. Mas ella, esperta que tinha raio!—moita carrasco! D’uma vez n’uma deveza, dois ganhões atiram-se a ella. Mas éna pai!... se vossês querem vêr o que era dar lambada, com os ceirões; andava tudo n’uma dobadoura, quando veio gente que apaziguou a faina. Quando não, era mulher capaz de dar cabo d’elles. E havia de se ralar muito. Emfim, filhos, emfim era de faca na perna, resumia com pompa, cheia de vaidade.

—Manda Nosso Senhor os bons á sua santa vista, que dos maus nem quer saber o diabo. Uma tarde minha mãi appareceu com tosse, tossinha de gato engasgado, dôres pela espinhela, calafrios... veio-lhe uma pulmonia da fortuna... pulmonia foi ella que a raspou até hoje. Foi em quinta-feira de Corpo de Deus, moravam ahi para as bandas da Sé, n’uma barraquinha velha; todo o dia a musica a tocar; tropa para cá e para lá; a pretalhada titi: titi: taratá! Gentalha de pagode, o rei, os ministros, a procissão, o S. Jorge; e a mãi para alli amortalhada em chita velha, á espera do padre, para ir para debaixo da terra. Nem um coto de cera, nem uma fita, nem um véo de escumilha. As bilhardeiras das fidalgonas, em quanto a Angelca pôde servir-lhes de alcoviteira, fizeram-lhe festa, sim senhor. Mas quando fechou o olho—diabo que te carregue! São uma cousa que eu cá sei, aquellas peças. Não é lá dizermos, andam na berzundella um dia ou outro, mas sempre, sem nunca parar.—E cheia de reticencias procurava incitar o interesse. Baixava a voz, com uma confidencia obscena em que figuravam infantas de capote e lenço, passeando pelo Campo de Sant’Anna com o Chico Bellas, charuto na bocca, uma gazua no cinto do vestido e viva a reinação!... E fulana e fulana que ahi estão casadas com sicrano e sicrano, sonsinhas d’uma figa, já se não lembravam de quando escreviam cartas a este e aquelle, para que viessem ás tantas horas... sempre se viam cousas n’este mundo! Uma lastima, filhos, uma lastima! E que havia secia que era mesmo para alli, para quem queria vêr, na cocheira com os trintanarios. Conhecia boa meia duzia d’essas typas; algumas eram damas do paço. E que o mundo era todo assim. Mas o que a raivava era quererem ser grandes santarronas, que nem quebram um prato, e no cabo deitavam abaixo a cantareira! Iam passando diante do Pescada. A casa estava cheia de gente; rumores de guitarras bordavam finos arabescos sonoros, de fados corridos; vinha lá de dentro um borborinho de gente avinhada; o fumo dos cachimbos azulava o ambiente, empestando, e grossos risos estalavam brutaes entre historias alegres do arraial, e largas digestões de mexilhão e pimentos. Via-se a tia Lauriana, papuda e quente, encostada ao balcão, entre bojos de garrafas pretas e taboleiros de queijos frescos. Um aguadeiro deitava ao longe o pregão monotono; para o interior da cidade, rumores de carruagens amorteciam gradualmente, na morna somnolencia quebrada da hora. O João lembrou que fossem comer alguma cousa. E mais aberto com as mulheres contava os seus appetites e as suas valentias; d’uma vez tinha tosado um gajo, na Perna de Pau; já aquillo chuchou cascudos!... E vai quando mal se descuida, o outro tinha passado as palhetas.

Era agora d’uma sociedade Esperança e Harmonia; tinham alugado casa na rua do Quelhas e tratavam de arranjar philarmonica; elle tocava pratos. Havia um barbeiro na rua das Trinas, o Lopes, que fazia comedias, gallegos que namoravam as sopeiras e cantavam versos da sua terra: era reinadio! E elle fazia de policia, tinha comprado uns bigodes de crepe... E dizia as suas boas intenções—em que se havia uma pessoa de entreter; andar para ahi perdido de bebedo? Assim sempre era mais decente. E que ella Carolina, havia de ir ás comedias; não era verdade? Para o verão queriam dar bailes campestres n’uma horta, com balões de côres. Iam entrar no Pescada, mas Carolina puxou a manga do aprendiz, pediu que não fossem para alli; tinha lá o pai, se elle visse, santo Deus, era capaz de fazer alguma.—Aquillo, juntava Marcellina, em estando pingado, era o diabo mais ruim da christandade. E prudente aconselhava o Manel do Altinho; ia alli gente mais pacata, havia quartos particulares, seus reposteiros de chita, um rico cozinheiro, e em quanto ao sumo, era por conta do lavrador, sem confeição. Uva e mais nada! resumia.

Carolina sorria benevolente, sem dizer nada. Entraram no Manel do Altinho, para um quarto. O João bateu com ostentação de ricaço, na mesa, perguntou ás mulheres o que queriam; a Marcellina appetecera um bifesinho, Carolina não tinha vontade e o João quiz salada de camarões. E rindo todo córado, olhava para a pequena, abanando a cabeça, e dizia vagamente para achar palestra:

—Com que sim senhor, com que sim senhor! E confidencialmente, inclinado para Carolina:

—Não come mesmo nada, mesmo nada?

—Mesmo nada, dizia ella sorrindo, embebecida n’elle.

—Nem tanto como isto? e mostrava a ponteira da bengala.—Hom’essa! Olhe que entisica.

Piscava o olho. Riam baixo.

—Velhaco! segredava ella vermelha, tocando-lhe a face.

—Pois ha-de comer, ha-de comer por força!

E lentamente:

—E camarões, para abrir o appetite.—O olhar do aprendiz penetrava n’ella como um estylete. Miravam-se com curiosidade petulante, adivinhando-se. O olhar d’ella afogava-se n’um langor amoroso e humido, de uma sympathia impura. O João chegou-se mais e com voz quasi imperceptivel:

—Hoje, lá para tarde, vou, sim? disse elle.

—Hoje não, disse ella.

—Porque? Que tem?

—A visinhança deita-se altas horas. É gente má, percebe? Podia fallar-se, meu pai sabia... Hoje não. Depois.

—Mas se eu não posso, vê? supplicou o João, com voz piegas de criança.—Então?...—E timido, uma doçura insistente na bocca:

—Vou sim? Não póde recusar. É má!

Carolina deixava-se penetrar d’aquella imploração toda incendida de amor deshonesto. E sem resolução:

—Pois sim, pois sim, disse ella, mas ás duas horas, ouça bem, ás duas horas, quando não houver luz nas janellas, das taes.

A Marcellina um pouco afastada, tinha adormecido.

O rapaz chegou com a cêa. Carolina gostava mesmo muito dos camarões. E bebia, toda palreira já.


Ao outro dia o aprendiz appareceu mais tarde na loja, tresnoitado e cheio de fadiga. Era a primeira vez que elle faltava aos seus deveres e o patrão, o Ferreira, velho direito e tostado, physionomia vulgarmente honesta, nada lhe disse. O João era d’estes filhos que os paes, viciosos e desleixados, abandonam pequenos, a uma vadiagem perigosa. Aos dez annos metteram-lhe umas cautelas na mão. De manhã cêdo, ainda escuro, ia descalço e cheio de lama ás redacções, comprar os jornaes do dia, n’uma pasta sebenta, que encontrára n’uma escada. E caminho dos bairros distantes e ainda adormecidos sob a luz vacillante dos lampeões, lá ia apregoando o Diario de Noticias e o Popular que sahiu agora a dez reis. Gastava assim a manhã. Algumas vezes, pequenino e todo roto, a carne suja transida de frio, deixava-se dormir nas escadas, com a pasta por travesseiro. E esquecia-se no somno, da venda dos Populares. Recolhia a casa carregado, com os jornaes intactos; davam-lhe tareias monumentaes, com uma corda molhada, nos rins. D’uma occasião perdeu as cautelas, pôz-se a chorar na rua, cheio de medo. Quem passava queria saber o que era; elle, soluçante, dizia a sua desgraça, estorcendo as mãos. Alguns davam dez reis. Mulheres de ricos vestidos de cauda, compadeciam-se:—Coitadinho, coitadinho...—As crianças olhavam-o commovidas, esmolando-o. Um velho alto, barba toda, de bengalão, ao passar disse azedamente:

—Parece impossivel que a policia consinta este desaforo, n’uma cidade civilisada!—E elle envenenava o seu animo n’uma afflicção profunda, expressa em lagrimas sem remedio. Ninguem tinha achado as cautelas; ia passando cada vez menos gente, menos gente; perguntava a todos; uns riam-se, outros diziam que não, alguns nem respondiam: todos iam andando! As lojas fechavam: uma tristeza parda fazia-se na rua, obscura e fria. Os pianos choravam, nas salas mediocres dos terceiros andares, velhas romanzas de Bellini e Weber, em desafinação sentimental, e através das janellas unidas, vozes de meninas lyricas diziam em italiano barbaresco, affectos candentes de heroinas tisicas, com gestos cavos e ballatas entorpecedoras, cheias de peccado e offensas á moral publica. Elle sentia no meio da felicidade dos outros, pesar-lhe a sua miseria, como um globo de chumbo do pesa-mundos.

Era bonito e loiro; os cabellos crescidos, annelados, revoltos e cheios de terra, davam-lhe uma doçura tranquilla e casta, cheia de encanto e innocencia, o ar d’um leãosinho amamentado n’um viveiro. Tinha nos olhos um azul escuro de saphira, de uma profundeza de Bambino, no fundo dos quaes se sentia dormir a sua almasinha angelica, soffredora e crystallisada, como uma fina joia, desconhecida e brilhante. Não conseguira fazer com as esmolas nem metade do custo das cautelas; todo o mundo era feliz e sorria; muitos gastavam em ninharias, em bonecos e em fitas, um dinheiro louco. Só elle não tinha ninguem que lhe désse o quartinho dos seus bilhetes perdidos. Mas um homem vinha envolto no seu casaco de inverno; elle chorava! Encheu-se de valentia e chegou-se ao transeunte:

—Meu rico senhor, começou, eu tinha umas cautelas, que meu pai me tinha dado para vender. E vai, alli na calçada dos Caldas, perdi-as, meu rico senhor. Se eu não levar o quartinho, meu pai é capaz de me enforcar, meu rico senhor. Tenha compaixão...

—Passa fóra, gatuno! O que tu querias n’esse espinhaço bem sei eu.—Elle recuou aterrado, convulso.

E varado por aquella violencia ficou soluçando no meio da rua solitaria.

Se fosse para casa, o pai, um pedreiro incorregivel e bebedo, tinha-lhe preparada a corda, n’um alguidar cheio de agua. Lembrava-se que a mãi, triste creatura amarella, resignada, loira e cheia de privações, era meiga para elle e clemente, occultando-lhe as faltas, vestindo-lhe a nudez com os seus trapos, contemplando-o em certas noites com um amor, uma tristeza e uma suavidade, toda feita de sacrificios, de dôres e apprehensões. Essa pobre mulher imploraria de joelhos o seu perdão, quebrando nas suas costellas, as pancadas que o pedreiro atirasse ao filho, calada e paciente, de uma humildade evangelica e de uma vileza sublime! E uma idéa cortava-lhe de repente este referver de recordações, de vacillações, de receios—se elle não fosse para casa? A tunda adiar-se-hia para o dia seguinte com accumulação de juros; a mãi, tão mesquinha e tão boa pagaria por elle, levando puxões de cabellos, picadas com alfinetes, sôcos pelo vazio e pimenta pela bocca, que o pedreiro, em estando com ella, era um dragão em casa. A visinhança ás vezes apitava; elle quebrava vidros, dizia improperios, atirava-se á patrulha, á dentada, como um damnado. Era no inverno, altas horas. Começou a chover, a chover. O vento encanado pelas ruas, ao longo das altas casas, agitava os lampeões com estralidos seccos. Dois ou tres coupés passaram a toda a força. Um d’elles levava crianças e era tirado a quatro. Era o rei que voltava de S. Carlos, com a familia. João ficou parado a seguir aquelles trens opulentos, de gente que podia perder cautelas sem levar tareias, e sem passar noites fóra de casa, com medo das cordas molhadas. Ser rei era para elle muito mais que ser Deus; e phantasiava uma existencia inaudita e phenomenal, se fosse rei. Teria camisas de chita, de quadradinhos, camisolinhas de flanella, boas botas de inverno, um relogio, cadêa com pingentes, mais cara ainda que a do visinho Mauricio—o da tenda de S. João da Praça. E dir-lhe-hiam:

—Vossa real magestade senhor rei, vossa real magestade... E elle daria a mão a beijar, com um grande annel, melhor que o do senhor Parreira, o commissario de policia do seu bairro. E ajoelhariam diante d’elle repetindo:

—Vossa real magestade, vossa real magestade...

E marcharia á frente dos esquadrões de lanceiros cheio de medalhas, uma banda, de bigodes retorcidos e tirando o chapéo armado ao povo, no meio dos hymnos das bandas marciaes. Ou então na procissão de S. Jorge, de manto e debaixo do pallio, iria descoberto, acertando o passo, com ares magestaticos. As beiras dos telhados deixavam cahir as suas lagrimas monotonas com um ruido methodico e gelado. No céo escuro e forrado por igual, nuvens brancas, como de algodão fofo, esbarravam, acossadas pela nortada. Os passeios desertos, nús de transeuntes, offereciam á claridade triste do gaz o seu esguio e pallido espinhaço, que recordava o d’um peixe antigo, dos que se fazem admirar em esqueleto, fossilisados, nos museus. Recortavam vagamente no ar os tectos negros a sua dentadura de pentes partidos; nas fachadas imbecis que os reflexos mosqueavam de um livor doentio, cortadas por filas escuras de janellas toscas, as taboletas faziam nodoas de luto, ensanguentadas por letreiros vermelhos, de modistas e de armazens de fazendas. Ao fundo da rua, n’um terceiro andar, uma parteira tinha uma lanterna rubra, d’aviso. Dois gatos seguiam ao longo das paredes, miando a sua paixão nervosa e excentrica. E por sobre a cidade os aguaceiros esfarrapavam-se lentamente na sua caminhada fatal, fazendo nos confins dos edificios afastados, longes indecisos e lugubres, linhas frias de mausoléos—um abandono de campo santo, desconsolado e fatidico. João poz-se a andar vagarosamente, cabeça baixa, as mãos remexendo o forro das algibeiras, transido do ar da madrugada. Não tinha senão um pensamento—não ir para casa. O mais que lhe importava? Mas sentia-se cançado e triste, como quem vai partir para um paiz ignorado, dos Brazis. Sentiu uma cousa dura no bolso das calças; não se lembrava do que seria. Tirou para fóra: era um vidro cheio de facetas, uma rolha de garrafa que encontrára na rua. Com a curiosidade natural de criança, applicou o olho a uma das faces e poz-se a mirar a luz d’um candieiro, através do polyedro. Experimentou deslumbramentos.

A luz multiplicava-se no seio do crystal em centos de imagens fulgentes e irisadas, vívidas n’uma saturação de amarello pallido. E o crystal dilatava-se como uma arcaria phantastica em mil sentidos oppostos, onde scintillas cruzavam as suas linhas coriscantes, com uma abundancia embriagadora. João nunca olhára cousa assim: era como um mundo de diamante e de luz, salas desertas e immensas, illuminadas como para um sarau. A sua alma como uma borboleta fascinada, ia, em lufadas de gozo, penetrar essa vasta habitação principesca e oriental, feita do que ha mais puro e mais commovente: a luz, a alegria, a gloria... Novamente appeteceu ser rei e viver n’aquelle palacio, n’um throno. Tinha fome, desde pela manhã não comia, as pernas vergavam-lhe.

Encostou-se ao umbral de uma porta, olhando sempre os seus salões magicos vestidos de tapeçarias iriantes, em que a luz incidia polvilhada em atomos de gloria. Mas a fadiga opprimia-o. Curvou os joelhos na pedra humida de chuva, absorto na luz. Os olhos carregados de chumbo, cerravam-se. Mas abria-os devagarinho, para mirar. E sem sentir, uma tranquillidade emolliente nos membros, adormeceu.

De manhã acordou, admirado de haver dormido fóra de casa e surprezo mesmo da proeza heroica, que o expunha ás cóleras do pai intractavel. Corria um arzinho cortante que esburacava a nevoa do rio e dava commoções phantasticas ás nuvens humidas do ar. Uma parte da cidade envolvia-se em grandes vapores translucidos, em que se perdiam as torres das freguezias. No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos vendilhões descalços. Começavam a passar carroças de hortaliças, para o mercado. Jumentos tristes e felpudos, de uma resignação christã, seguiam lentamente carregados de roupa. Uma leiteira forte vestida de azul, grossas botas de cano, conduzia as suas vaccas meigas e emmagrecidas, todas malhadas de branco, com velhos cobertores no dorso, e as grandes tetas pendentes e cheias, batendo as pernas. Defronte no chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados de negro, a fazer carreira; e todos sujos, aparvoados, de uma ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca. No emtanto as janellas fechadas dos predios, tinham uma passibilidade somnolenta e morna; as aguas-furtadas agudas e revestidas de telhas escarlates, recortavam acima das platibandas pardas, vagas triangulações idiotas. Nas altas varandas corridas dos quartos andares, arbustos rachiticos e estiolados pela estreiteza dos vasos e pela humidade sulphydrica da atmosphera debruçavam pelos buracos da gradaria, para a rua, tristes flôres esmaiadas, velhas corollas de uma sentimentalidade doente; pelas janellas, trepadeiras resequidas enroscavam-se em caniçados, bordando jardins suspensos de amanuenses mediocres. O dia aclarava-se no concavo da abobada. A espaços, no bocejo das vaporisações longinquas acossadas do vento, esmaltava-se o azul lavado e fino, de uma grande paz commovente. E sentia-se despertar a população. Os moços de padeiro enfarinhados e tiritando de frio, passavam com os cestos, a correr; um sino afastado dava matinas n’uma toada cheia de melancolia. João ergueu-se, com espreguiçamentos, quebrado da friagem da escada. O que se teria passado; para onde iria agora; o que seria d’elle, sósinho, por ahi?...

A verdade é que não estava para aturar o bebedo do pai: isto é que era! Com a venda dos jornaes e das cautelas sempre ganharia para comer. Podia dormir nas escadas. Ás vezes tinha venda de ganhar dois tostões; havia dias de menos tambem: era conforme calhava. E contando pelos dedos punha-se a calcular:—um pão, um pataco e chega para todo o dia; dez reis de caldo; um vintem de sardinhas; dois decilitros... ao todo gastava seu tostão. O mais era para fato e extravagancias cá da pessoa. Afinal era uma bella vida. Melhor que um padre de missa! affirmava. E seria livre, costado sem pancadaria, indo ás hortas quando tivesse na vontade—que uma pessoa não póde andar sempre no trabalho; lá chega um dia... E repetindo phrases que ouvia ao pai, para a si mesmo parecer homem, lembrava-se irritado das brutalidades do pedreiro. Bem sabia que elle era seu pai e lhe podia bater por ser mais velho; mas as suas costellas não eram nenhum folle de ferreiro. Alto lá! Era de mais, tambem! E que elle era muito bom sim senhor, mas em lhe fazendo chegar a mostarda ao nariz—está quieto! Mas sua mãi, aquella pobre mulher pallidamente martyr, tão soffredora e tão resignada, que seria d’ella, sem o filho? Como poderia a pobre creatura, de uma fragilidade triste, supportar as brutalidades do marido? E lembrava o seu perfil engelhado e secco de privações, os seus olhos amortecidos de dôres antigas e o seu peito esphacelado de tosses, concavo e velho, de que elle pendera pequenino, guloso da mama e envolto em mantilhas frescas. Quantas lancinações rasgavam, havia tantos annos, a alma d’essa obscura macilenta, d’essa trémula escrava de um canalha convicto?... E como uma chamma cantante, palpitava-lhe dentro aquelle amor honesto e cheio de castidade infantil, côr de rosa. D’uma vez estivera doente com sinapismos nas pernas, um febrão desabalado; e em delirio descobria-se no leito, cheio de agonias, vendo dançar no tecto os Populares e os garotos do seu conhecimento. E em torno da enxerga, na penumbra do quarto abafadiço, de cada vez que lhe vinham momentos lucidos, descobria o rosto anciado da mãi, batido de vigilias e escavado de lagrimas, d’uma expressão que fazia dó. Todas essas lembranças atiravam a sua pequena alma a uma tristeza em que o seu coração se sentia boiar, como n’um lago acido e corrosivo. Deixar a mãi, apparecia-lhe como um peccado funesto e impenitente, dos que fazem bailar Satanaz.—Nem os brutinhos, dizia, nem os brutinhos fazem tal. E sem resolução, ruminando a sua incoherencia estupida, com as mãos nos bolsos das calças em frangalhos, foi comprar os jornaes do dia. A luz alastrava-se pelo céo, e no oriente lavado de nuvens agora, os feixes do morno sol, riscavam nas fachadas, polyedros amarellos e emollientes, de um agasalho caridoso e bom.

N’esse dia, acabada a venda, foi a casa. Encontrou a janella fechada e a porta unida; uma grande quietidão fluctuava nos quartos. Entrou de manso: o gato dormia sobre a commoda, ao lado do oratorio; em torno quebravam-se na meia luz do recinto, fórmas hirtas de velhos moveis mutilados, cadeiras sem palhinha, mesas sem gavetas, esqueletos de bahús escancarados e vazios, com o forro em tiras. Viu a mãi cahida sobre um colchão, respirando alto. Na chaminé não havia lume, nem louça; o cesto vazio de pão, abandonava-se sobre o poial de tijolos. O João percorreu devagarinho os quartos. No saguão e sobre o peito da janella, um vaso de salsa esverdeava; mais alto, n’uma cana, uma camisa velha estava a enxugar com as mangas pendentes como n’um desalento miseravel; um chinelo humido e proscripto, sorria como um queixo sem dentes, á borda da sargeta, e tudo aquillo soluçava um desconforto triste, como a nudez d’uma tumba. O pedreiro não estava em casa—ainda bem! O João chegou-se á mãi.

—Mãi!—Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra vez, n’uma prostração desolante. Enrolava a cabeça n’um chale; um sulco negro descia-lhe da testa á face, inflammada e ardente. O labio escorria sangue, rasgado por alguma pancada. O João descobriu docemente a cabeça da pobre mulher, procurava com beijos dizer a sua pena. E em supplicas balbuciadas, de afflicção sincera, dizia que lhe perdoasse, contava as asperidões da noite anterior, as suas miserias, a perda das cautelas, entre gente indifferente e cynica, que lhe chamava vadio.

—Triste de quem é pobre, lamentava elle, triste de quem é pobre! Com as mangas da blusa limpava as lagrimas, e vibrante n’uma solicitude amoravel e leal, toda feita de grandes dedicações, inquiria a historia dos golpes que rasgavam a cara da mãi. Ella mal podia fallar. Tinha esperado pelo filho até fóra de horas: quando o pedreiro recolheu, não havia cêa—pão e agua! E entrou logo a barafustar, a dizer insolencias; que andava a trabalhar como um mouro para aquella grande bebeda, que havia de fazer um dia alguma de rachar pedras. De resto tanto se lhe dava ir para a costa d’Africa, como ficar no Limoeiro Novo; em toda a parte se ganha pão, com seiscentos diabos! Ella queria convencel-o, prestava-lhe contas da semana; pouco recebera da feria, elle bem o sabia; como era possivel tornar o pouco em muito? E esboçava roes: tanto de pão, tanto de arroz, panno para uns remendos, concerto das botas... O marido nem deu palavra; cambaleante, tocado de vinho, sahiu. Ella quiz retel-o, que se fosse deitar, que não fizesse disturbios, pelo amor de Deus, por tudo quanto tinha de mais sagrado!... Mas cortou-lhe a palavra uma bofetada crua que a derribou, com um gemido. Atravessou a rua, desceu á taberna. Das bancas gordurosas saudavam-no, como a uma pessoa intima e querida. Ella, coitadinha, chorava atraz da janella, em quanto na parede do fundo, a lamparina do oratorio, posta atraz d’uma cesta, enchia de sombra o papel desbotado, cheio de manchas escuras e fatidicas.

Á uma hora viu entrar o marido, chapéo á banda, a tosca physionomia viciosa, com angulos de vertices sinistros, sombriamente cortados em sombra, os olhos absortos, fixos n’um pasmo selvagem, feramente imbecil—como a incarnação do crime! Ella cosia-se com a sombra, sustendo a respiração. A rua estava dormente, a visinhança recolhida; viam-se passar os gatos de escada para escada, n’um silencio lugubre e frio. O pedreiro agarrou n’uma cadeira e esmigalhou-a com estrepito, no meio de pragas. E não tendo resposta, agarrou no oratorio. Os martyres mutilados e cheios de fitas, os seus rostos de pau pintado cheios de inchações vermelhas, cahiam com uma resignação biblica no meio da casa. Ella então sahiu da sua sombra discreta e disse-lhe com os dentes estralejando de medo:

—Manoel, anda deitar-te, homem. Tem hoje paciencia, ámanhã se fará o que queiras.

O pedreiro cresceu contra a pobre, com um pé da cadeira quebrada na mão; agarrou-a pelas guelas com uma força de salteador, e torcendo-a, rangendo a queixada, ebrio na sua ferocidade surda, descarregou-lhe pancadas furibundas nas costas, na cabeça, contra o peito. E ergueu-a inerte, como morta, para a lançar no chão moida de pancadaria. No emtanto a visinhança acordava pelo reboliço; apitos soaram na rua; duas mulheres em saias brancas gritaram—ó da guarda!—e policias arquejantes da corrida, enfiaram pela casa com os chanfalhos em riste. O pedreiro queria luctar, esbracejava furiosamente entre os pulsos cabelludos dos agentes, blasphemando. Pelos grupos, uma velha suja, olho de coruja, andava tomando informações, de uns para outros, com lamentos de uma piedade desenxabida. Tinha-se alastrado na rua o borborinho. Alguem trazia arnica para as contusões da prove. Uma rapariga aconselhava cerveja preta, cousa de quatro dedos, que não havia nada melhor para maçadas de arrocho. E varios narravam casos do pancadaria com pessoas tesas, que desarmavam a patrulha, com tres tabéfes. O pedreiro amarrado, entre dous policias, passou entre as mulheres curiosas, no meio de pragas. E explicavam-se as feridas da mártyle; havia uma na cara com’a dois dedos, e já aquillo vertia sangue!... Uma rapariga trigueira, de uma prenhez disforme, tinha suas desconfianças que havia costella partida. Outros gesticulavam, tentando elucidar com figuras e arremedos, a narração que iam fazendo de como a gente era cá por dentro. Mas ouviu-se a voz da patrulha que descia a rua.

—Nada de ajuntamentos aqui! Nada de ajuntamentos aqui!—E cada um foi para a sua banda, dando boas noites. A triste espancada nem dava accordo de si. Corridas as primeiras curas das feridas, cada um foi dormir descançadamente e ninguem se lembrou de chamar o medico.

Sem o filho, sem uma pessoa que velasse por ella, a triste mulher revolvia-se nas enxergas ás escuras, em gemidos de dôr e desvairamentos de febre.

E como de costume a manhã rompeu d’alli a cinco horas, annunciando uma terça-feira de inverno.


O dia correu em meio de tristezas carregadas. A casa emergia n’um torpor abafado. Na rua dois ou tres pequenitos brincavam semi-nús, com lama. O João andava d’uma banda para a outra, sem poder socegar. Desde as onze horas que a mãi perdera o tino e mergulhara no delirio. Sentia-se sepultar n’um horror sem limites, como se fôra um ponto suspenso no centro d’uma grande esphera vazia, inerte, sem fim, em que eternamente se gira e embalde se chora, sem echo. Fôra de mansinho e descalço, cheio de uma ternura lacrimosa, chamar por ella, dar-lhe agua: a sua pelle sêcca, de um contacto aspero, ardia de febre intensa. Os olhos, de um azul apagado, escancaravam-se n’um pasmo doloroso; um sulco parvo distendia-lhe a bocca, sêcca e fetida; a respiração cortada, longa, lenta e difficil, soava por toda a casa, com um ruido de serra. O João parava então em frente da cama, absorto e diluido em presentimentos tragicos. A alcova era estreita e núa, de tecto muito baixo, toda pespontada das moscas. Uma cruz negra pendia á cabeceira, com uma palma sêcca, ao través. N’um canto, um caixote cheio de ferramentas manchava cruamente as faces rectangulares do recinto. Umas saias esfiadas pendiam n’um cabide, com um capote verde, e em torno, moscas aos magotes, zumbiam famintas, como quem se aborrece da ociosidade. D’alli a nada entrou a senhora Joaquina, a visinha do lugar. Trazia um caldo, duas maçãs, cobertas com um guardanapo. E curvada para a doente perguntava como tinha passado a noite, mas calou-se logo empallidecendo, com a chicara na mão.

O olhar do João collava-se n’ella como um borracho sob a aza da mãi, um terror ullulante penetrava-o, com profundeza gelida e cheia de allucinação. A senhora Joaquina olhou para o pequeno e disse isto:

—A cousa está mal!—E sem uma palavra ergueu-se e sahiu. Elle ficou pregado na parede, sem resolução: ouvia os baques do coração convulso, mas não pensava nada, não se lembrava de nada; ficára para alli, como se o atirassem. E media as palavras no ouvido:

—A cousa... está... mal! O que seria?—Tentava fazer um supremo esforço, queria por força voltar á sua disposição habitual, respirar livre, mover-se elasticamente, marchar firme, com os seus rijos pés plebeus, mas experimentava uma cousa, inexplicavel talvez: era como se o seu corpo se alongasse muito n’uma facha elastica, e lhe tivessem esmagado a cabeça entre laminas de ferro, depois de o haverem adormecido com chloral, em grande dóse. E no fundo do seu peito dobravam como n’um enterro, aquellas quatro palavras lugubres:

—A cousa está mal!—Os seus olhos erravam pelo tecto, pelo cabide de que pendia o capote em contornos de mortalha, amplas dobras de um funerario abandono. E casualmente, desceram contra as roupas da doente, que arfavam ao tic-tac da respiração. O dia estava triste e forrado de burel; ouvia-se cahir a chuva nas telhas, com um compasso monotono e fino. Á alcova mal chegavam franjas pardas e mal definidas de luz, que não conseguiam contornar as cousas e em triangulos colossaes, amontoavam penumbras ondulantes, de um pavor febril. No animo do João tambem, enormes scenarios de trevas desciam, e obelisco de bronze, o infortunio como o aniquilava sem appello. A sua imaginação viva e de uma excitabilidade supersticiosa e audaz, fazia surgir como no alvo de um phantascopio, grupos nubivagos de defuntos e velhas historias diabolicas de enforcados que ouvira ás visinhas: e tudo eram olhos pela parede, pelas enxergas e pelo chão, na sombra, na treva, na incerta claridade da porta, que o fitavam escancarados, com uma teimosia agoureira e uma surpreza cubiçosa. E parecia-lhe que alguem o ia a tomar pelo gasnete, que velhas sardonicas, cheias de feitiços, afiavam estyletes para o rasgarem, e um papão de grandes barbas revoltas, capuz profundo de asceta, levantava sobre elle os braços prenhes de maldições e castigos. Os seus ouvidos resoavam interiormente, n’uma vibração confusa de archeus; sentia as fontes baterem com uma onda de sangue convulsionado, e todo o seu desejo era fugir d’alli e correr para fóra; mas tinha medo de voltar-se; o silencio gelava-o, como de crypta secular, em que se tropeça em ossadas de cavalleiros, e se abrem caixões de velludo preto, ao gemer estranho do orgão. Pela tarde adiante a visinha chegou, com uma garrafa, mostarda, lençoes lavados. E poz-se a fazer sinapismos, esfregações, toda repartida em desvelos amigos. Ao lado, o João immovel abria os seus ingenuos olhos azues, uma admiração tosca e vagamente reconhecida. A Joaquina ageitava as roupas, desembaraçada, mangas de lã vermelha e um lenço de ramos sobre os seios murchos, como fructos sorvidos. E dizia:

—Isto é lá cama nem minha avó!

E alto:

—Vossês não teem um quarto com janella? Mudava-se para lá a cama, sempre ha mais ar.

—Ha, ao pé da cozinha. É o meu.

Foram ambos vêr. Era um casinholo arruido. Quasi no tecto uma fresta pyramidal e profunda, sem vidros, dava uma claridade amarella: ouviam-se ratazanas roer no forro, familiarmente.

A vizinha resmungou:

—Peor a emenda que o soneto!—E com um ar distrahido:—Doenças d’estas, ou bem tratadas ou então...

As ultimas palavras fizeram calefrios na espinha do rapaz. A Joaquina corria-lhe a mão pelos cabellos, com ternura de mãi. E olhava-o esquecida, uma tristeza contemplativa cheia de presentimentos e emoções. Uma lagrima cahiu na mão do rapaz. Elle então quiz olhar firme, com a coragem de um homem, mas alguma cousa estrangulou-o, e deixou escapar um soluço...

Quando acabou de chorar, a Joaquina tinha-o no collo, dava-lhe beijos, dizendo-lhe consolações banaes e cheias de mimo. E d’alli a nada:

—Olha, filho, se ella pudesse tratar-se no hospital...

Elle ficou afflicto, todo desconsolado:

—Mas ficava aqui só. Não a via nunca, objectou.

—Qual! Aos domingos dão licença para visitar as enfermarias, lá isso dão.—E explicava: havia muita caridade, boas roupas, tudo de linho, e quanto a medicos... a mestrança... upa!

O João com as pernas apoiadas na parede, a cabeça no avental da visinha, resistia tremendo. Cortava-lhe a resolução, como uma lamina frígida, esta idéa excentrica e rubra:

—Se ella morresse...

Tinha os olhos cheios de lagrimas limpidamente angelicas e uma pallidez definhada, retocava de um mimo casto a graça correcta do seu rostinho ingenuo. Por mais esforços que fizesse deixava-se ir vencendo por um quebramento pesado de fatalidades lividas. A Joaquina fazia tambem grande esforço querendo parecer forte, exteriormente alegre, e a cada passo o seu ar tranquillo e descuidoso, obscurecia-se de angustias, que o seu coração de burgueza bolsava em golfadas. E dizia como para si:

—Mandei chamar o medico para vêr a minha visinha. Se elle fôr de parecer que vá para o hospital, agarramos n’ella e toca! O meu homem é muito dos enfermeiros. Um d’elles, o Bento, é afilhado; o Zeferino é até compadre de aguas bentas. Ia bem recommendada, não tem duvida. Lá isso... tratada que nem uma princeza, ólá!—E circumvagando a vista pelos andrajos dos quartos:—que n’esta possilga, meu rico, até morrem os que tem saude. Nem sei como vossês aqui viviam e lidavam.—Cuspia de nojo, e resentida:

—Ai! Tudo por causa d’aquelle negro d’aquelle bebedo, Deus me não castigue pela sua misericordia!

Ao anoitecer, a doente empacotada n’uma maca, foi aos hombros de quatro gallegos para o hospital. Era um cortejo doloroso. As mulheres chegavam ás portas, arregaçadas, no meio de filhos descalços. Algumas diziam—coitadinha!... D’uma janella, a costureira explicava o caso para o segundo andar, e duas ou tres tinham lagrimas e torciam os aventaes, lamentando as cousas d’este mundo. A maca era velha e rangente; o vento da noite erguia a espaços o oleado carcomido e apparecia então na caixa do leito o corpo immovel e morto da velha, coberta com o capote, indecisamente esboçado. Ia atraz o João, descoberto e afflicto, triste na sua pobreza descalça e orphã, como um cão fiel que esqueceram. A Joaquina parada á porta, chorava. Uma ovarina passou, inquiriu do pranto. A outra mostrou-lhe com o dedo a maca, que desapparecia no cotovelo da rua, e disse:

—Aquella já cá não volta.—Escurecera de todo. Um homem de blusa accendia os lampeões.


No hospital, a maca pousou. Dois moços vieram para expulsar o pequeno, que queria ficar com a mãi. Sósinho, abandonado e partido de soluços, foi-se acocorar n’uma porta: ficava diante, com uma grandeza sepulchral, a parede branca do edificio, glacial e esburacada de janellas, onde uma luz vaga, mortiça, esmorecia. Junto da porta a sentinella girava, e no pateo através das grades, figuras de apostolos, enfileiravam a sua magestade de pedra junto da parede, em pedestaes geometricos e frios. Alli estava a mãi! O que iriam fazer d’ella? Nunca entrára na enfermaria: como seria? E figurava camas de palha cheias de podridão, em que se estorcem corpos de gallegos e mulheres tisicas, n’uma promiscuidade canalha. Sentia suffocações no peito: nem podia chorar! E a rua no entanto, sonora de passadas de transeuntes, operarios que recolhiam, garotos felizes que vadiavam gritando, offerecia aspectos alegres e scenas de vidas bem alimentadas, no quente aconchego dos ménages probos e robustos de labor. Uma saudade lacerante entrou no coração do garoto; e como nunca, encarou a sua vida miseravel. Quando entrou em casa teve medo: uma solidão mortal na cozinha, as ratazanas tripudiando no saguão; abandono, pobreza em tudo. E seria assim sempre! O pai na prisão. A velha no hospital. Que desgraça, que desgraça a sua!...

No dia seguinte era preciso comer. Por conselho da visinha foi vender os jornaes, para não perder os freguezes. Ao meio dia foi saber da mãi. Expulsaram-no de novo, com uma vara. Perdeu a vontade de comer, voltou para casa aniquilado, amarello e vazio.

—Se ella morreu! dizia. E pavores immensos, soturnos phantasmas de uma transparencia madida, surgiam-lhe de noite aos portaes, gemendo Credos de monges, e mostrando dentuças formidolosas. Uma tarde estava no lugar da Joaquina, com os pequenos. Entravam uns e outros a beber vinho: ao balcão um grupo conversava, entre a fumarada dos cachimbos. A voz da visinha gritou:

—João!

Elle foi. A Joaquina disse:

—D’ámanhã em diante, has-de levar o Noticias a este senhor.—Apontava um velho secco, olho morto, ar veterano, de blusa azul.

O João olhou timidamente.