Numero 49

Sinapismos


Zinão

Ridendo...

Sinapismos

Valença do Minho
1889


DUAS PALAVRAS
(A SERIO)

Essas paginas são para rir.

Originou-as a curiosidade que despertaram alguns artigos humoristicos, publicados sob o titulo de Ridendo.

Ha n’ellas referencias pessoaes, como não póde deixar de ser, para que os periodos não tenham a aridez dos discursos do sr. conselheiro Adriano Machado; mas são referencias á vida social e á parte que n’ella tomam as individualidades, que chamo ao tablado da ironia.

Respeito sempre a vida particular e isso que ha de mais nobre e sagrado na sociedade—a familia.

O leitor verificará que, na composição dos artigos, segui um processo de critica differente do usado, até hoje, nas polemicas litterarias e politicas da nossa terra.

Suscitada uma questão, exgottam os adversarios os argumentos mais ou menos concludentes, que as suas intelligencias lhes fornecem; depois, invariavelmente, vem a critica estulta e pueril da redacção dos periodos, sua composição grammatical, ortographia, etc., e conclue-se com as allusões á vida particular, em termos de collareja e argumentação de viella. Temos visto muito d’isso por cá...

N’essas paginas ha artigos inoffensivos e ha periodos, em que a ironia é violenta—desde já o declaro—porque foram inspirados no affecto, que a esta terra consagro e no vehemente desejo que nutro, de que ella se liberte da ignobil inercia, que a domina e de influencias ridiculas, que a amesquinham.

Descarna-se n’elles, com o escalpello do sarcasmo, a parte d’este organismo que a podridão ataca, applicando-se, como cauterio, o ridiculo e a gargalhada, como desinfectante; mas não influe n’essa operação a sensualidade brutal do estripador londrino, ou a ferocidade selvagem da sanguinolenta tragedia de Pantin. Ha a insensibilidade e a firmeza de pulso, que a Sciencia recommenda ao operador quando, para salvar orgãos essenciaes á vida, lhe impõe a immediata extirpação e cauterio violento d’outros, que o mal apodrece.

Essas linhas foram, pois, pautadas pela dignidade e nunca n’ellas predominou a influencia de resentimentos mesquinhos, ou a intenção de referencias offensivas, que seriam torpes, como anonymas.

Eis o meu programma e se alguma vez se desfivelar a mascara do Zinão, oxalá que uma erronea interpretação do que se vae ler, não faça afrouxar a acção nervosa, que hoje me extende a mão de muitos amigos, que figuram n’essas paginas.

*

Passo a afinar a rabeca.

Valença—Novembro, 1889.

Zinão.


Aos pobres de Valença

Entrevados, paralyticos, cegos, escrofulosos, tisicos, hydropicos,

—Velhos, mulheres e creanças,

que sois o producto dos residuos—caput mortuum—da Humanidade e por ahi vos arrastaes, penosamente, aos sabbados, disputando, á dentada, o magro chabo que ás descarnadas mãos, em publico e notorio arrôto de rothschildica generosidade, vos arremessam os poderosos Cresus da nossa terra;

—miseros, que tivestes a desventura de ver a luz do dia coada pelas frestas da mansarda, quando esses mesmos atomos e moleculas a que deveis a vida, atrazando-se, ou adeantando-se no seu labutar constante, podiam gerar-vos entre arminhos e flôres, entre aromas e caricias;

—precitos, que dormitaes, tiritando e gemendo com fome, enroscados, como cães, na ampla escadaria da Assemblea, em noites de baile e de festa e vos vêdes apartados, como reprobos, isolados como hydrophobos, do ruidoso e alegre tumultuar da vida, em que ha risos, mulheres formosas, affectos e diamantes;

—párias, que a doença algemou ao catre da dôr, e a quem a luz formosissima da alvorada vae encontrar no estertor da agonia, nas convulsões do soffrimento, nas infernaes torturas da miseria—essa mesma luz que desperta e illumina a caravana alegre, quando, exhuberante de vida, de mocidade e de prazer segue, ruidosa, ao Faro, para respirar o oxygenio das montanhas e admirar as sorridentes paisagens da Natureza, d’essa desalmada Mãe, que para vós só teve quadros sombrios, horrores, vendavaes de infortunio, abysmos de soffrimento;

—famintos, que espreitaes com olhos soffregos os doirados salões de Pantagruel e de Gargantua, e vos sentis deslumbrados com o faiscar dos crystaes, alcoolisados com os aromas das iguarias, estonteados com o espumar do Champagne, até que o lacaio vos atire o osso que o mastim disputa, ou vos expulse a chicote, para que a miseria dos farrapos nojentos, o fetido dos membros descarnados, a pallidez cadaverica da face, não vão perturbar a alegria dos convivas, recordando-lhes que ha por este mundo gente que nasce, vive e morre, sem conhecer o que é Champagne frappé, Punch à la romaine, ou Riz de veau à la Tartare;

—imprudentes, que vos atreveis a bater á porta do Hospital depois das oito da noite, como se a Caridade não tivesse mais que fazer, do que estar á vossa espera, e por ahi appareceis, depois, mortos nas muralhas, com o ventre para o ar, olhos esbugalhados, membros hirtos, esverdeados, cheirando mal;

—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginaes que, por lá estar Christo, se egualam as condições, ignorando que o Christo da missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentarios que, para illudirem a consciencia e satisfazerem as exigencias da vaidade e as apparencias da hypocrisia, lhe dão capas de velludo e corôas de oiro; lhe fazem companhia nas longas noites do inverno, distrahindo-o com essas immoraes bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a somnolenta melopêa da padralhada, com as intrigas e confidencias amorosas, com o cochichar mordaz do beaterio, que entre Torres eburnea e Mater castissima, discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem venias, e batem no peito, e andam por ahi, de porta em porta, ostentando cynicamente crenças, que não possuem, crenças, que não comprehendem, a pedir em nome de Christo, que é o symbolo do amor e da humildade, os cinco tostões da subscripção, quando á mesma hora, infelizes, olhaes, soluçando, para a escudella vazia e as creanças vos mordem os peitos, porque já não tendes leite, nem o calor da vida...

Velhos, mulheres e creanças,

escutae:

Ahi tendes esse livro.

Lêde-o, ou dae-o a ler. E se entre os ricos e os felizes da vida esses periodos não se crystallizarem no oiro da esmola—encontrareis ahi lenitivo para os vossos infortunios, porque ficareis sabendo, que nas regiões, onde só imaginaes venturas, oiro e risos tambem ha, como entre vós, pustulas—da vaidade, aleijões—do ridiculo, febres—da ambição, contracções—da hypocrisia, doenças e disformidades mais dolorosas e repugnantes do que as vossas, porque não inspiram compaixão nem dôr, mas, apenas, tedio, ironia e a gargalhada.


I
O Microbio[1]

Tivemos á porta o Microbio.

Eu já o esperava.

A gente, para falar a verdade, porta-se mal cá por baixo e o Padre Eterno deve, com justa razão, encrespar as sobrancelhas com uma boa dóse de mau humor, quando o globo terraqueo, no seu incessante rebolar por essas immensidades, lhe apresentar á vista a formidolosa praça e os seus arrabaldes.

Aquelle nefando e escandalosissimo caso, que tanto alarmou a fé das christandades e a religiosidade das beatas da nossa terra—a prisão da Santa, arremessada aos baldões para os ferros de El-Rei e para a jurisdicção autocratica do Borralho, de sucia com os desobedientes e reaccionarios philarmonicos de Ganfey—deve tel-o incommodado seriamente.

Mas ha mais. É recente outro caso mais escandaloso ainda, que aqui, á puridade, vou referir.

Na vizinha villa de Monsão perpetrou-se, ha pouco, um gravissimo attentado contra a Moral, contra o respeito ás coisas sagradas e seriedade das nossas crenças religiosas.

Ao que parece, o conspicuo Senado não prestou a devida attenção á guarda da Santa Coca e esta, já enfastiada com as interminaveis polemicas e diatribes dos srs. padre Simão, Caetano José Dias e outros respeitaveis jornalistas, escapou-se á sorrelfa, internando-se nas terras da Galliza até Redondella, onde foi visitar a Coca da localidade.

Ora, segundo se conclue, esta era de sexo differente e, de incestuosa copula, resultou uma Coquinha, que os nossos bons vizinhos tiveram a imprudencia de apresentar em publico na ultima procissão de Corpus-Christi, com grande gaudio dos atheus e suprema indignação do ferrador da localidade, contractado para S. Jorge, que, em altos brados, reclamava maior salario, visto que ajustára a lucta contra uma só Coca e não contra duas!

E permitti que vos diga, respeitavel Senado monsanense, á fé de Deu-la-deu, que foi incorrecto o vosso proceder! Contra Cocas com familia deve-se, indubitavelmente (as pandectas o determinam, artigo 1:007), pagar mais caro o S. Jorge.

Ora, com todos estes desacatos, repito, o Padre Eterno deve trazer-nos de ponta e claro é que, mais tarde ou mais cedo, cá teriamos o castigo:—ou qualquer das pragas do Egypto, ou nova Exposição de Rosas, ou novo consulado do João Cabral, ou mais dois falladores, como os srs. Abilio e Leopoldo.

Do Mal, o menos. Veio o Microbio.

As planicies do Ganges já deram o que tinham a dar. O Egypto, a India, a China, a America Central são insupportaveis n’esta epocha, com as suas elevadissimas temperaturas. O Microbio é d’uma organisação especial, que dispõe de todos os recursos para facil e rapida locomoção; anda sobre as aguas, como Ulysses, de chinelos de liga, e no ar, como nós, no sobrado das nossas casas. Requereu, pois, licença para uma viagem ao extrangeiro e o Padre Eterno, extendendo o index, indicou-lhe o caminho.

Microbio preparou-se convenientemente com repetidas abluções hydroterapicas, como o sr. Albino; abotoou o seu guarda-pó; sobraçou o guarda-chuva; despediu-se da familia e, de mala de viagem e guia Baedeker na mão, atirou-se cá para o Occidente e parou em Vigo.

Pelas condições economicas da viagem, que não teve caracter official, nem reclamos, nem discursos de congratulação dos Presidentes das Camaras e das Juntas de Parochia, este Microbio deve ser differente, do que visitou a Hespanha em 85. Deve ser um Microbio burguez, pacato, com inscripções, rheumatismo e dinheiros a juro; talvez Juiz de Paz, ou quarenta-maior contribuinte do seu concelho; deve usar suspensorios, botas de cano; tomar rapé e dormir com barretinho de algodão; deve ser um Microbio sensato, austero e de bons costumes; de principios e convicções firmes, assim como o sr. Agostinho; bom chefe de familia, temente a Deus, inimigo de Malzabetes e de romarias, onde qualquer Pau-real amolga impunemente a massa cerebral, ou a mioleira da humanidade.

Em Vigo apresentou-se, pois, modestamente com um pequeno sequito de gastrites, gastro-enterites e algo de typhos; mas apesar do incognito rigoroso e da modestia d’esta apresentação, souberam da sua chegada, em Lisboa, os conspicuos Membros da Junta de Saude.

Aquelles respeitabilissimos Esculapios, Argos vigilantes, a quem estão confiadas as nossas existencias, aborrecidos já da longa inacção em que vivem desde 1851, limitados a rubricar diariamente o fornecimento dos cemiterios da capital, de que se encarregam com inexcedivel pontualidade, arregalaram, de jubilosos, os olhinhos, vendo em perspectiva um Microbio legitimo, genuino, naturalisado americano pelo sr. dr. Arezes. Tocaram a rebate no paiz.

Os pharmacópolas açodaram-se em abundantes preparativos de tonicos, diaforeticos e antisepticos.

Koch, Pasteur, Brouardel, Proust, Fauvel, Ferran, Raspail foram consultados em laboriosas vigilias.

As tropas, emocionadas pelo santo amor da Patria, prepararam-se para o holocausto no Cordão sanitario,—que tão boas libras produziu em 1885.

Os amanuenses, prevendo uma valente razzia entre os chefes cacheticos e tropegos, saboreavam as delicias d’uma rapida promoção.

Maridos, com vida atribulada, suspiravam voltados para o septentrião... Tudo se preparava, emfim, para receber o Microbio.

Entretanto, palitava elle a sua ociosidade, em Vigo, com alguns artilheiros, que ainda se não sabe, ao certo, se foram victimados pela febre, se pela gangrena originada no excesso de limpeza, em que viviam...

Informado dos preparativos, que no nosso paiz se faziam para o receber, Microbio Bacilla malhumorou-se.

Antipathizou com a calva luzidia do sr. dr. Meira, encarregado officialmente de o saudar em nome do governo lusitano.

Alterou repentinamente o itinerario e... foi-se.

Lá desappareceram com elle as fagueiras esperanças dos amanuenses, dos maridos infelizes e as cóleras dos senhorios de Valença, que em 85 foram, violenta e despoticamente, espoliados dos seus direitos de propriedade por um governo futre e poucaroupa, que teve o descaro de pagar, como aluguel de nove mezes, uns miseros centos de mil reis, que representam o dobro do valor das propriedades.

Lá desappareceram as rações de 1.ª classe e aquellas encantadas folhas de kilometros, que deram aos tropegos membros locomotores de amigos meus, obesos e adiposos, a agilidade e ligeireza do mais leve e reputado andarilho...

D’esta vez, ainda, déste xaque-mate ao Padre Eterno, oh grande doutor Lourenço!

*

Augustus Sampaius, senhor da Balagotia; Intendente geral dos serviços phyloxericos, digo,[2] antimicrobicos da fronteira; Commissario geral dos inoffensivos Cerberos da policia concelhia e, como tal, terror dos Troppmans e Jacks adventicios; Chefe da Repartição do expediente do sr. Administrador (que Deus Guarde); Director da Repartição Municipal de Hygiene e Secção annexa das toleradas, artes julianas e valladicas; Inspector do serviço das bombas e de segurança publica; Fiscal dos pesos e medidas; Secretario perpetuo das Juntas de Parochia; Orçamentologo official das Confrarias e Irmandades sertanejas; Irmão do SS. Sacramento; Mesario e Ex-definidor da Santa Casa da Misericordia; Mordomo da Senhora do Faro, da Senhora Santa Luzia milagrosa e outras Senhoras d’aquem e além mar, terras da Urgeira e Taião; Mestre de cerimonias nas contradanças lithurgicas das nossas festas de Egreja: Estatistico distincto dos fogos, productos, criminalidade, bipedes e quadrupedes do Concelho; Numismatico abalisado; Agricultor emerito; Actor consummado; phantasista original e querido das damas, em debuxos de lettras para lenços de namoro—homem que representas, na vida social da nossa terra, a mais completa e complexa, a mais genial expressão da actividade humana—Augustus Sampaius, senhor da Balagotia—eu te saudo!

Ao fallar no Micobrio, que tanto apavorou os conspicuos Esculapios da Junta de saude, e que tão ridentes esperanças fez agora despontar, no horisonte ennublado de muitas finanças oscillantes, eu não posso esquecer o teu nome, porque foi a ti, ao teu provado zelo, assaz reconhecida sollicitude, desempenada actividade que a Patria, eu e a minha prole devemos a desejada immunidade do terrivel Bacilla, na campanha de 85.

Commove-se-me profundamente a alma; inundam-se-me os olhos de lagrimas; sensibilizo-me, como se te ouvisse no palco com as lamentações de pae tyranno e infeliz; foge-me dos labios o riso, como se te aturasse o espirito n’essas libertinas extravagancias a que te dás no Carnaval, encadernado de princez, ou á antiga, com os ouropeis e a farrapada do teu guarda-roupa—(boceta pandorica de frioleiras e de traça)—percorrendo as casas sérias, com grande gaudio das matronas do teu tempo e abundante colheita de mystificações, intrigas, pançadas de riso, chavenas de chá e tostas com manteiga—quando me recordo, oh Balagotio illustre, dos teus serviços no cordão sanitario!

Noites tempestuosas que passaste; asperezas do inverno; longas caminhadas; chuva, vento, frio, fome e sêde; graves perturbações nas funcções digestivas; fraqueza nas contracções peristalticas, occasionando incommodas e demoradas accumulações no cœcum; nas longas noites de vigia, ao avizinhar-se vulto sombrio e suspeito, afrouxamentos instantaneos do sphingter com defecações abundantes, enfraquecedoras; fartas exhalações de acido carbonico e hydrogenios carbonado e sulfurado—e tudo isto pelo amor da humanidade, provocado pelo mais desinteressado altruismo, inspirado na mais acrisolada philanthropia e, depois ainda, aggravado com os arrancos da tua dyspepsia chronica e com a ingratidão da Patria de quem, contrariado, espezinhado na pureza dos teus sentimentos humanitarios, tiveste de receber, a fortiori, umas mesquinhas dezenas de libras!

Tu, Balagotio amigo, engrossaste o longo martyrologio, da Patria. Salvaste-a e continuas ahi esquecido, ignorado, com a tua dyspepsia e o teu barretinho de seda preto, condemnado a um eterno roçar de canhões do casibeque na mesa da Administração, sem uma commenda, sem veneras hespanholas, que se vendem ao alqueire, sem um viscondado sequer!

Mas eu, conterraneo illustre, não serei tambem ingrato. Já que esse Zé Barros pequenino foi insensivel aos vehementes protestos do teu amor, e te não fez Commissario das Policias, com pingue gratificação de categoria; já que o teu Chefe no Cordão se não compadece dos olhinhos de ternura e piedade, com que tu, cem vezes por dia, lhe fitas a janella, eu te protegerei, cidadão benemerito e prestantissimo.

Tu soffres. Essa dyspepsia cruel, quando se não fala em Microbio, mina-te a existencia, curva-te o tronco, descora-te a face, dissemina no teu organismo os germens de uma anemia lenta e perigosa.

Brown Sequard nada te póde fazer.

A Deus nada posso pedir a teu favor, porque tu tambem foste connivente, com esse feroz Attila do Registro predial, na prisão da Santa.

Nada temos a esperar do Céo, mas recorremos ao Olympo, que outr’ora fazia tão bons milagres, como o Senhor S. Campio, que sua uma vez por anno, ou a Senhora da Cabeça, que, para mostrar competencia na cura de fracturas da dita, reune traiçoeiramente na sua festa, quantos caceteiros comem boroa e feijão, por estas boas vinte leguas em redondo.

Pois bem! Que Jupiter ouça os meus rogos. Já que as delicadissimas funcções do teu organismo te consentem apenas o leite, como alimento, que Elle te mande Io, para que tu, nas suas cem tetas, possas de noite e de dia chupar a vida, novas forças, novos elementos e os teus tecidos tomem, a breve trecho, a salutar obesidade do sr. João Ignacio, do saudoso doutor Pacheco, ou do nosso prestantissimo deputado, o sr. Visconde da Torre!

Setembro 1889.


II
Passe-Calles

Oh Justininho!

dá cá o braço...

Ora aqui tem V. Ex.ª um rapaz, que se o Marianno não atira para o Pico, era muito capaz de se guindar ao pico da popularidade, cá na terra.

Ainda não conheci quem mais sympathias tivesse entre Clero, Nobreza e Povo; mas tambem, ainda não conheci rapaz mais sensato, conciliador e serviçal.

Para chamar á paz um casal amuado; para prégar Moral ás creadas de servir; para uma visita de pesames, a rigor, com o resigne-se V. Ex.ª com a vontade do Altissimo engatilhado; para dirigir um baile nos tricanés; para entreter senhoras nas reuniões da Semana Santa, em S. Estevão, ou nas do Carnaval, na Assemblea; para acompanhar familias á missa das onze; para representar a Associação artistica; para umas funcções serias de secretario (tinha o monopolio); para a descripção d’um baile no Mensageiro das salas; para dirigir a eleição das comadres, a coisa mais redondamente patusca e interessante, que gentes da Coroada teem produzido—não ha, não houve, nem nunca haverá quem o eguale.

Quando passava na rua de S. João, todo tesinho e perliquitetes, apesar da magreza e do nariz, diziam d’elle

as meninas—é muito engraçado,

as mamãs—é muito sympathico.

os papás—é muito bom moço.

os velhotes—é... é... é... o Justininho.

*

Estava nos bailes como em sua casa. Só tinha um defeito para homem de sala: dançava pouco e mal.

E eu digo porque.

N’um baile da Assemblea reuniram-se, em quadrilha de Lanceiros (a mesma que David dançou ao pé da Arca) os srs. dr. Lopes, dr. Ladislau, Padre Cunha e Justininho.

Justininho gostava de florear nas marcas. Ordenou um chevaliers au milieu, e os quatro Cavalheiros, enthusiasmados com as damas, com a musica, com as luzes e com as flôres, avançaram com ropia.

Eu não sei bem, como aquillo foi. O que sei, é que se chocaram, que se enarigangaram, e de tal fórma foram abalados os respectivos e respeitaveis vomeres e cornetos, que o sangue espirrou, e os quatro Cavalheiros foram retirados, em braços, da sala.

As senhoras desmaiaram. O baile acabou.

Foi o diabo.

D’ali em deante, tanto o sr. dr. Lopes, como o sr. Padre Cunha e o Justininho (V. Ex.ª deve ter notado isso) dão-se pouco a danças. Quem continuou foi o Ladislau, porque esse, no tremendo choque foi o mais feliz. Como é pequeno e de baixa estatura, o seu nariz não abalroou com os outros; roçou no umbigo do sr. Padre Cunha e enfraqueceu o choque.

É verdade: aqui está mais uma vantagem que a gente tem, em dar falta ao estalão.

E ainda o sr. dr. Pestana se entristece e zanga, quando o alfaiate lhe pede noventa centimetros para umas calças, e lhe assevéra, que não necessita de um metro e dez, como os outros senhores!

*

Sou amigo do Justininho, mas já lhe roguei uma valente praga; e talvez fosse por isso, que elle tocou rabeca com o Pereira.

Eu conto o caso, porque não é de segredo:

Lavrava por ahi essa epidemia, peor do que cem microbios, das charadas.

Nas Assembleas, nos Clubs, nas lojas, nas mercearias, nas boticas e nas nossas casas, não se tratava d’outra coisa.

O Almanach de Lembranças, essa escarradeira de quanto semsaborão existe n’estes reinos, ilhas adjacentes, terras do sabiá e da Tijuca, espalhára, por toda a parte, os germens da maldicta mania.

Havia enigmas; charadas antigas, novas, novissimas, com premio, sem dito, em prosa e em verso; de—nas costas—1, sem indicação syllabica; emfim, de toda a raça e feitio.

Descobrira-se, que para espalhar o flato e para aquecer os pés, no inverno, não havia melhor remedio do que: charadas, quino e trinta e um de bocca.

Justininho deve uma boa parte da sua popularidade, entre as damas, á facilidade com que matava charadas. Em se lhe dizendo:

O que é, que é

Que toca de dia

No alto da torre

de Santa Maria?

respondia logo, immediatamente:

—É um sino.

Ora, uma noite,—isto foi, talvez, ha doze annos—estava eu á mesa do trabalho com a familia.

Minha mulher fazia meia. Minha sogra lá estava com as charadas.

O rapaz mais novo—o Toneca—estudava a licção de francez. O outro—o Zéca—andava com a Avó á cata de decifrações.

Eu estava a turrar com somno, mastigando entre bocejos, uns periodos muito alambicados, em fórma de lambedor, com que Justininho descrevia um baile, no folhetim do Noticioso.

Soavam todos aquelles estafados bordões de—gentilissimas damas—corações feridos—sorrisos angelicos—amores—gruta dos ditos—arrufos—horas fugitivas—recordações saudosas—rainha do baile—reticencias—etc.—etc.—etc.—.

V. Ex.ª deve conhecer tudo isto, porque de mil bailes, que tem havido em Valença, appareceram mil descripções eguaes.

São como os necrologios do sr. Verissimo de Moraes. Estão sempre promptos. A questão está em se dar o nome do perecido. Ás vezes, ha o seu engano, mas escapa.

Por exemplo:

Ha annos, morreu n’esta villa um velhote com 90 janeiros.

Estomago fraqueiro e arruinado, atacára á noite uma pratada de arroz com lampreia e... arrefeceram-lhe os pés.

Tambem, foi uma infelicidade, porque, se o sr. dr. Pacheco (diga-se a verdade) chega mais cedo uma hora, o homem, em vez de morrer ás 10, arrefeceria ás 9.

No dia seguinte, dizia o Noticioso:

«Mais um anjo, alando-se para as ethereas regiões, fugiu hontem da terra, roubado cruelmente, pela terrivel Parca, aos affectos dos seus carinhosos paes.

Polycarpo Bezerra, aquella encantadora e gentil creança, que era o enlevo... etc.»

Ora, Policarpo Bezerra, era exactamente a creança de 90 janeiros, que a lampreia victimára! Os barbaros dos typographos, se haviam de aproveitar a chapa dos adultos, serviram-se da que havia para as creanças.

Isto succede.

*

Mas, como estava dizendo, eu turrava com somno, á espera do chá.

De repente, levanta-se o Zéca e diz:

Oh Papá! Que é, que é

Que, pela calada,

Gosta de dar

O Marquez de Vallada?

Cou,[3] diz o Toneca, que acabava de tirar no Diccionario a palavra pescoço. (Só o soube depois).

Levantei-me indignado, enfurecido com aquelle enorme desacato á Moral e á Decencia, praticado nas minhas barbas!

A decifração da charada foi immediata e violenta para os rapazes: duas valentes bofetadas!

Indignação geral da familia. Minha sogra levanta-se irada e chama-me tyranno!

Retorqui-lhe que aquillo era escandaloso, antimoral e era uma falta de respeito á gente graduada, porque o sr. Marquez era um Marquez, estava no seu direito de dar o que quizesse, e ninguem tinha que lá metter o nariz.

Augmentou o barulho, porque os rapazes, defendidos pela mãe e pela avó, cada vez berravam mais.

Levantou-se minha mulher, chamou-os, e lá foi tudo a chorar.

No dia seguinte, minha sogra, fiel ás tradições, quiz requerer o divorcio. Andei amuado oito dias. Data, até, d’essa occasião, o meu reconhecimento á Isabelinha, creada de sala...

Só quando fiz as pazes com minha mulher, é que conheci a origem da resposta do Zéca e a coincidencia do significado.

O Toneca, como é mais agarotado, lêra o Pimpão e appetecêra-lhe tambem, sem saber o que dizia, metter a sua farpinha no senhor Marquez.

Mas, tudo isto não teria succedido, se não fosse o diabo do folhetim e se o Justininho não tivesse a mania de chroniqueiro de saias.

Veja V. Ex.ª, como se perturba a paz d’um lar e o socego d’uma familia honesta!

*

Mas, effectivamente, o Justininho, para charadas, era d’uma perspicacia sibyllina. Como elle, só a Sociedade charadista dos Terriveis de Villa Real.

A gente reunia-se á noite na Assemblea. O Club, n’esse tempo, estava ainda no embryão das sociedades pacatas, porque o sr. dr. Pacheco, se bem que já andasse, como o povo diz, com a barriga á bocca, ainda o não tinha dado á luz.

Ou se faziam charadas, ou se jogava o quino. Duas distracções innocentes e engraçadissimas! Que saudosas noites! Que piadas! Que pilherias e facecias!

Que espirito fino, alegre, saltitante, amenisava aquellas horas!

Quem mexia sempre nas bolas era o Melim. Uma mania como outra qualquer.

Cartão, dez réis; corda, sessenta réis.

Marcava-se a feijão carrapato.

Quem recebia as pagas, dava os trocos e quebrados, era o sr. Agostinho.

Cada quinada era recheada de surpresas, ancias, esperanças e decepções!

—Trinta e tres, dizia o Melim.

—Annos de Christo, exclamava sr. João Ignacio, erguendo-se, todo contentinho, para gosar o effeito da pilheria.

Andavamos aos tombos com riso, e quem poderia resistir?

—Vinte e dois!

—Patinhos a nadar—berrava o sr. Baptista.

Ai que demonios aquelles! A gente até chorava!

—Trinta e sete!

—João Pimentel Castanheira—lembrava o sr. Elias.

Não se podia continuar; estava decidido! Pois se até a ceia nos queria trepar á bocca!

—Venha a precisa, ó vizinho e chegue-se cá, que quero bulir nas bolas, dizia o sr. dr. Pacheco.

—Oh diabo! Isso não, que podem ver as irmãs da Caridade, aconselhava eu, sempre prudente e cauteloso.

—Sessenta e seis!

—Quinei!—berrava o sr. escrivão Brito.

—Ora sebo!—murmurava tristemente o sr. dr. Evaristo. E eu que já tinha cinco quadras! Bem se vê, que os padres não nasceram para trabalhos com bolas.

Estavamos todos tristes, como a noite.

—Alto! Foi rebate falso. Siga!—dizia o sr. Brito todo rejubilante pela facecia, e casquinando frouxos d’aquelle seu riso, tão patusco e tão original: ki-i, ki-i, ki-i...

Afinal, quem quinava sempre era o Leopoldo. Este diabo, lá com os capellães arranja-se sempre bem...

*

Reunia-se, pois, gente fina e perspicaz.

—o Veiga, que viu no Jardim das Plantas uma ziboia, com sessenta metros de comprimento;

—o Izidoro que, como V. Ex.ª sabe, descobriu as aguas de S. Pedro, é amigo do amigo Lopo e tem a Grão-cruz da Sociedade de Geographia e da ordem do Sol, do Japão;

—o Serrão, que viu um comboyo, que levava dez regimentos de infanteria, dez de cavallaria, oito de artilheria, um de engenharia; tudo em armas, officiaes a cavallo, etc., etc. (Isto foi no tempo d’uma guerra qualquer).

—o Machado, que, assistindo a um baile da Assemblea até ás duas horas da madrugada, apparecia, ás cinco, na praia d’Ancora; lá ao longe, entre as brumas do mar, dentro d’uma bateira, e já em regresso da ilha da Madeira.

—o Maximino, que sem perceber uma palavra da lingua de Milton, encontrou uma ingleza, com quem se entendeu muito bem.

—o Leopoldo, que viu e apalpou os pendulos e o ponteiro do relogio, que ficou entupido, nas alturas do coccyx, ao larapio da rua do Ouvidor.

—o Abilio, que conheceu o pae da mãe, do tio, do pae do dito larapio—Rua da Quitanda, 23, sobreloja.

Emfim, tudo gente fina e perspicaz.

É verdade: tambem lá estava sua Excellencia, o Senhor Governador e sua Excellencia, o Senhor Vice.

Na Academia real das Sciencias não havia melhores cabeças; nem na Camara dos deputados, se exceptuarmos os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre.

*

Para arranjar charadas, quem tinha mais gosto e geito era o sr. Polycarpo Monteiro. Pelos modos, carteava-se com o mano de Lisboa, a tal respeito.

Elle pensava um pouco e dizia:

Que é, que é

Que faz: pum! pum!

Quando lhe arrima

O Vinte e um?

Justininho escrevia, logo, qualquer coisa n’um papelinho; collocava-o debaixo do seu chapéosinho e... sorria.

Nós andavamos ás aranhas.

Tira d’aqui, põe acolá...

Nada!

O Senhor Governador, forte em Mathematicas, punha logo o caso em equação:

2 pum + 21 = x

tirava os logarithmos, deduzia todas as formulas da triangulação:

Nada!

O sr. Zagallo, que não estava para contas, lembrava-se dos nomes de todas as terras de Hespanha, por onde transitou no tempo das guerras...

Nada!

Ninguem falava. Ouvia-se o zunir d’um mosquitinho.

De repente bradam duas vozes:

Adivinhei!

—É o chapéo alto do meu subordinado Durães—dizia o sr. Borges.

—Não é, não senhor. É um chapéo, mas o do sr. Monteiro, dizia o Senhor Vice-Governador, que já, n’aquelle tempo, era o homem mais fino cá da terra.

É! Não é! Levantou-se uma questão dos demonios.

—Fala o Justininho!—bradamos nós, como quem recorre a um Juiz.

Justininho abriu o papelinho e mostrou, sorrindo:

Zabumba!

Rompeu nova celeuma. Ninguem queria ceder. A final, depois de muito berrar, descobriu-se que todos tinham razão.

Havia alli um caso, como o da Santissima Trindade: tres pessoas distinctas e um só Deus verdadeiro. Eram tambem tres coisas, todas distinctas, todas eguaes e uma só verdadeira: o zabumba—do Justininho.

*

N’outra noite, o sr. Polycarpo, entrou na Assemblea, muito contente, e esfregando as mãos, debaixo do seu chale-manta.

Trazia uma charada muito difficil, que lhe levára seis horas a compôr.

O sr. C. Barros offereceu logo, como premio, um exemplar do seu drama: Marilia, ou a Moira dos bosques.

Reuniu-se o povo todo, e ouviu:

Quem é, quem é,

Que faz a desobriga

E, sendo capellão

Tambem é rapariga?

Esta, é que nos deu agua pela barba. Fazer de homem e de mulher, é que nunca podemos comprehender.

O maroto do Leopoldo, esse, parece que a percebeu. Sorriu-se, porque tinha entrado n’aquella occasião e, pelos modos, vinha de se confessar...

Trazia no chale-manta palheiras da muralha...

Foi o Abilio, que o traz de ponta, quem descobriu isso.

Ninguem matou a charada, mas desconfio que alli andou tambem influencia do premio... Parece-me que afugentou um pouco as ideias.

Isto é mera supposição.

*

Depois d’essa, appareceu outra do sr. Zagallo, mas matou-se logo. Foi:

O que é que é

Que dá sól e

E se o Cruz lhe bufa

Faz: Pó, Pó!

V. Ex.ª certamente, já adivinhou.

É um figle. Não teve graça.

Pois o sr. General podia apresentar coisa melhor. Bastava que nos dissesse:

Ora digam cá,

Sem hesitar

Se hoje na camara

Occupo logar?

Claro é que ninguem responderia, a não ser que se verificasse o conteudo do mais recente, do que tivesse ainda a tinta fresquinha, dos officios com que sua Ex.ª, oito vezes por mez, participa ao Senado que,

por motivos justificados—sahe
que,
por justificados motivos—entra
e vice-versa
e versa-vice.

*

Este sr. Zagallo, na Camara, lembra-me o Conego Vaz.

Eu fui sempre muito agarotado e por isso me não admirei, do que queria fazer o Tonéca ao Marquez de Vallada. Se por ahi houver alguma mamã, com filha casadoira, disponivel—francamente—que não tenha saudades da minha pessoa, porque lhe não serviria, ainda que fosse numero um.

Quando não podia dar a minha gazeta á aula do Conego, escapava-me sempre que podia, cá para fóra, para a muralha, onde os Guerreiros e os Garções jogavam o pião e o escabicha.

Juntos, eramos insupportaveis. O Ignacio Soares e o Zé, quando passavam por nós, tiravam com todo o respeito o seu chapéosinho e tratavam-nos por Excellencia, mas ainda assim, levavam o seu puxão de orelhas porque, quando estavam encarrapitados na varanda de ferro, e se lhes dizia cá de baixo:

Presos como os macacos!

cuspiam, e atiravam com botas velhas.

O Zé, hoje é homem de genio e palpita-me que, na Politica, ainda chega a ser importante; mas n’aquelle tempo andava com o hora, horae, e isto de latim é coisa, que debilita muito a gente.

*

Como estava dizendo, quando me juntava aos Guerreiros e aos Garções, andava tudo, por ahi, n’uma dobadoira.

Pelo Maio, já tinhamos organisado uma inspecção rigorosa á producção do concelho.

Era-mos, assim, uma especie de agronomos.

Se nos perguntassem:

Quem é, que n’este anno vem a ter:

melhores peras?—o Chico Veiga.

melhores melancias?—o Boticario.

melhores melões?—o Ascencio.

melhores uvas?—O senhor José Rodrigues.

A este senhor José Rodrigues sempre tivemos muito respeito. Quando, por acaso, nos encontrava perto do Prazo, ou da Boavista, (a gente, já se vê, andava a passear innocentemente) falava logo em tiros, mortes, carabinas, punhaes, ratoeiras, facadas, cães de Castro Laboreiro... o diabo!

Por isso, não era como os outros:

o Chico Veiga,
o Boticario,
ou o Ascencio;

era: o Senhor José Rodrigues.

A final, foi sempre um santo, e pagava o seu tributo em bellas uvas e bons melões, como os outros.

Eu falei no boticario...

Era assim nos outros tempos, mas hoje é camarista e chama-se—o sr. Fontoura.

Este senhor é que nos pregou um susto! Eu conto, se não me torno massador para V. Ex.ª

*