OBRAS POETICAS
DE
GREGORIO DE MATTOS

OBRAS POETICAS
DE
GREGORIO DE MATTOS GUERRA

PRECEDIDAS DA VIDA DO POETA
PELO LICENCEADO
MANUEL PEREIRA REBELLO

TOMO I

RIO DE JANEIRO
NA TYPOGRAPHIA NACIONAL
1882

Até que afinal vai correr mundo boa cópia das numerosas composições de Gregorio de Mattos, depois de terem decorrido quasi dois seculos da morte d’este nosso famoso satyrico.

Poucas producções do notavel genio brazileiro existiam até agora impressas e ao conego Januario da Cunha Barbosa cabe a gloria de ter sido o primeiro que nos deu em 1831, no seu Parnaso brasileiro, meia duzia de satyras de Gregorio de Mattos, precedidas de um resumo da sua vida. O sñr. commendador Joaquim Norberto de Sousa Silva inseriu depois, em 1843, alguns fragmentos de poesias no tomo 1 da Minerva Braziliense e em 1844, uma satyra e tres sonetos seus no Mosaico poetico. Em 1850, Varnhagen, depois visconde de Porto Seguro, imprimiu maior numero de composições de Mattos no tomo 1 do seu Florilegio da poesia brazileira; depois, em 1855, sahiram algumas poesias e sonetos escolhidos do satyrico nacional no Ensaio biographico critico dos melhores poetas portuguezes de José Maria da Costa e Silva. Francisco de Paula Brito tambem publicou uma producção de Mattos na sua Marmota de 11 de Março de 1855. Eis tudo o que até hoje existia impresso do nosso poeta.

I

Para a presente edição, além do que corria impresso, servi-me:

1) de duas collecções pertencentes á bibliotheca de S. M. o Imperador, as quaes pertenceram a Innocencio Francisco da Silva e foram adquiridas do seu espolio. A primeira, que mostra ser de lettra mais antiga, tem o titulo:

Vida, e Morte
do Doutor
GREGORIO DE MATTOS
GUERRA.
I Tomo.
De obras Sacras,
e Divinas
I. e II. Part.

É um volume no formato de 4.ᵒ, contendo 2 ff. inn., 214 pp. num., e mais 1 inn., 4 ff. de Index.

As poesias que occorrem nesta collecção da pg. 172 á 214 são do p. Eusebio de Mattos, irmão do poeta.

A outra, que fez parte de mais ampla collecção, é assim intitulada:

As Obras Poeticas
do
D.ᵒʳ GREGORIO DE MATTOS GUERRA
Divididas em 4 Tomos
Em que se contem as Obras Sacras, Jocoserias, e
Satiricas, que a brevidade não permittio separar.
Tomo 2.ᵒ
Bahia anno de 1775.

In-4.ᵒ de 1 fl., 456 pp. num.

2) de outra collecção em dois volumes, que pertencem ao sñr. Luiz de Carvalho, ambos de boa lettra do XVIII seculo e sem titulos. São in-4.ᵒ, contendo um 329 pp. com as primeiras 73 num., e o outro 351 pp. innumeradas.

3) finalmente de mais outra collecção tambem em dois volumes, pertencente ao sñr. dr. João Antonio Alves de Carvalho, distincto bibliophilo fluminense. É cópia moderna feita pelo punho do grande amador de livros Manuel Ferreira Lagos. Os volumes são in-fol. peq., contendo o primeiro 374 pp. num. e o segundo 47 ditas num. Não trazem titulo e o primeiro é precedido da Vida do poeta, sem comtudo trazer o nome do auctor, que é o licenceado Manuel Pereira Rebello.

D’estas quatro collecções manuscriptas que me serviram para fazer a edição que ora apparece pela primeira vez, visto se acharem algumas poesias repetidas, notam-se muitas variantes, umas devidas ao proprio poeta e outras que parecem defeitos dos copistas. Das mais notaveis farei uma relação no final do ultimo volume. Nas composições que andam em collecções impressas existem egualmente outras tantas variantes. Tanto de umas como de outras acceitei aquellas que me pareceram mais apropriadas á vista dos manuscriptos, e para isso consultei o dr. Teixeira de Mello, que me prestou valioso auxilio com as suas luzes.

Outras collecções manuscriptas das obras de Gregorio de Mattos existem e existiram em bibliothecas e em mãos dos curiosos d’este genero de litteratura.

Varnhagen possuia dois codices differentes; um, de «excellente lettra» em quatro tomos, que já tinha ao publicar em 1850 o primeiro volume do seu Florilegio da poesia brazileira; e outro «de lettra contemporanea, muito mettida e em um só volume, bastante grosso, enquadernado toscamente, porventura na propria Bahia, ha mais de seculo e meio.» Esta ultima collecção é accusada pelo illustre historiador no tomo III==Appendice (Vienna, 1872) do seu mencionado Florilegio. O visconde de Porto Seguro, referindo-se á sua primeira collecção em 4 tomos, accrescenta: «E em quatro volumes deviam arranjar-se as suas obras todas, segundo a vontade do proprio poeta, que na dedicatoria satyrica, que d’ellas faz ao governador citado, Camara Coutinho, diz:

D’esta vez acabo a obra,

Porque este é o quarto tomo.

A vóz illustre Tocano,

Mal direito e bem giboso,

Pernas do rollo de pau

Antes que se leve ao torno.

A vós dedico e consagro

Os meus volumes e tomos.

Varnhagen, quando esteve pela ultima vez no Rio de Janeiro, offereceu á Bibliotheca Nacional as suas duas referidas collecções das obras de Gregorio de Mattos, ficando de remette-las logo que tornasse á Europa. Infelizmente, o historiador brazileiro ao chegar á Vienna d’Austria foi surprehendido pela morte, não chegando assim a realizar o seu importante offerecimento.

A Bibliotheca Nacional de Lisboa possue um grosso volume in-4.ᵒ, que contém boa porção de poesias, conforme diz Innocencio da Silva.

A Bibliotheca publica Eborense descreve no seu Catalogo dos manuscriptos, tom. II (1868), pg. 80:

Poesias de Gregorio de Mattos. Cod. cxxx/1-17 as ff. 183, 232, e 328 v.

E tambem no mesmo catalogo, pg. 194, accusa uma «Carta que escreveu Gregorio de Matos ao Conde do Prado, estando na Bahia com seu pae o Marquez das Minas.» Com.==Daqui desta praia grande==. Cod. cv/1-9 a fl. 29 v. 2 ff. in-4.ᵒ

O conego Januario da Cunha Barbosa diz que as poesias de Mattos correm manuscriptas em 6 grossos volumes de 4.ᵒ, accrescentando que alguns dos quaes possuia.

José Maria da Costa e Silva tinha um volume d’ellas.

O sñr. commendador Joaquim Norberto, quando, em 1843, publicou algumas linhas acêrca de Gregorio Mattos nos seus Estudos sobre a litteratura brazileira durante o seculo XVII, teve em mãos dois volumes.

Francisco de Paula Brito tambem teve em seu poder dois volumes in-4.ᵒ, e d’elles apenas publicou uma producção na sua Marmota de 11 de Março de 1855, promettendo todavia dar outras, o que não realizou. Estes dois volumes pertenceram ao visconde do Rio Vermelho, que os deu na Bahia a Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva.

Muitas producções pouco decorosas escreveu Gregorio de Mattos, occorrendo algumas nas collecções manuscriptas de que me utilisei para a presente edição. A ellas porém, pela minha parte, não dou nem darei curso. É verdade que grande parte das satyras de Gregorio de Mattos estão entresachadas de termos e expressões inconvenientes; mas no acto de publica-las substitui-as por signaes, deitando tantos pontos quantas as lettras supprimidas.

Das obras obscenas diz Rebello que Mattos as escreveu em tanta quantidade, que das que possuia «tão indignas do prelo, como merecedoras da melhor estimação» se podia constituir um grande volume.

II

A vida de Gregorio de Mattos que occorre em seguida foi escripta, ao que parece, na Bahia, por meiados do XVIII seculo, pelo licenceado Manuel Pereira Rebello, para preceder as obras ineditas do poeta colligidas por elle.

Esta vida, que na opinião de Varnhagen «é um tecido de anedoctas comicas e chistosas que farão de certo apparecer um dia no tablado com muito bom exito o nosso poeta» conservava-se inédita.

A cópia de que me servi para a sua publicação pertence ao dr. J. A. Alves de Carvalho e é escripta pelo punho de Manuel Ferreira Lagos. O conego Januario da Cunha Barbosa, o commendador J. Norberto, Varnhagen, José Maria da Costa e Silva e Innocencio Francisco da Silva tambem possuiam cópias d’ella; todos elles se valeram d’esta curiosa biographia do famoso satyrico bahiano para nos darem os traços, posto que resumidos, da sua vida, direi melhor peregrinação pelo mundo.

Depois de impressa esta biographia tive o ensejo de ver outra cópia diversa em parte, e como contém outros factos da vida do poeta, algumas alterações e numerosas variantes, que não se acham na que ora sahe publicada, reservo-a para da-la na sua integra no fim do ultimo tomo das Obras. Esta cópia pertence a Sua Magestade o Imperador, adquirida do espolio de Innocencio da Silva; precede á primeira collecção das obras do poeta a que acima me refiro, occupando as primeiras 56 paginas do codice e tem o seguinte titulo:

Vida do Doutor
GREGORIO DE MATTOS
GUERRA
Escritta pelo Lecenciado Manoel
Pereyra Rabello.

A cópia pertencente a Sua Magestade apresenta uma grande divergencia na data do nascimento de Gregorio de Mattos, porque na que ora sahe publicada o faz Rebello nascido a 7 de Abril de 1623 e na que ainda está inédita diz o mesmo biographo que o poeta nascêra a 20 de Dezembro de 1633. Entretanto, nas duas cópias vê-se que Gregorio de Mattos falleceu em 1696, na edade de 73 annos, o que não se conforma com a data de 1633, pois neste caso teria o poeta morrido com 63 annos, como já por sua vez ponderou Innocencio da Silva.

Agora cumpre dizer que a data da morte de Gregorio de Mattos ainda carece de averiguação. Rebello diz na Vida impressa que o poeta morreu no «dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro.» E na cópia que se acha inédita diz o biographo, quando tracta do mesmo facto: «Foi este dia celebrado; e em perpetua lembrança pelas que chegaram da restauração dos Palmares, que haviam tantos annos desvelado aquella Capitania no estrago de seus moradores. Morreu finalmente no anno de 1696, com edade de 73 annos.»

A republica dos Palmares é um dos factos mais brilhantes dos annaes da humanidade; a sua historia ainda está por escrever-se, apezar de termos uma chronica coeva, embora não abranja todo o seu largo periodo. Basta dizer-se que os historiadores não declaram a epocha da sua restauração ou extinccão, porque as divergencias de datas que em muitos se notam não condizem com os documentos authenticos.

Aquella famosa reunião de negros, que viviam não em completa anarchia, mas regularmente governados, era o maior protesto que podia levantar a humanidade contra a escravidão de homens que nasceram livres e independentes. Os palmares eram uns heroes nas luctas que tiveram de sustentar e prefiriam a morte á escravidão, dando assim o mais brilhante exemplo de abnegação e heroismo. Quando o chefe Zumby foi atacado no seu mocambo, trahido por um mulato prisioneiro, que o denunciára em consequencia de temer os castigos da barbara escravidão e assim poder livrar-se d’elles, não se suicidou, despenhando-se de alto penedo, como geral e erradamente se diz; não quiz render-se, luctou e foi morto na heroica peleja. Heroica peleja, porque as forças do chefe palmar não passavam então de 6 homens, ao passo que as dos paulistas, que o atacavam, eram numerosas.

A França Antartica e o Brazil Hollandez não tinham razão de ser, a não ser a da conquista; mas a Republica dos Palmares era toda baseada nas leis naturaes da humanidade. Talvez mesmo que não haja memoria nos annaes dos povos de um aggregado de homens armados tão bellamente justificado. Não se pense porém que sou de opinião que a republica continuasse, ganhando cada dia mais heroes e mais terreno; mas tambem que não se levasse aquelle reducto do dever a ferro e a fogo como aconteceu. Havia por ventura outro meio de evitar-se tantos destroços, tantas mortes de parte a parte. Mas este recurso era durissimo para o tempo, que não permittia que em tal assumpto se fallasse; pois parece que a idéa da abolição da escravatura ainda não passava naquelle tempo sinão da imaginação ardente de Gregorio de Mattos.

Provavelmente a nova mais agradavel que chegou ao Recife no govêrno de Caetano de Mello de Castro (1693-1699) foi a morte do Zumby e o immediato e grande destroço que tiveram os negros dos Palmares.

Estes successos deram-se em fins de 1695 ou em começo de Janeiro de 1696. A data do facto não se encontra nos nossos historiadores; apenas dizem que em 1695 se deram os mais sanguinolentos encontros. De uma carta de officio de d. João de Alencastro, de 24 de Janeiro de 1696, collige-se aquellas datas. Accusa o governador geral da Bahia ao de Pernambuco (Caetano de Mello de Castro) que havia recebido a sua carta, cuja data infelizmente não declara, dando a nova da morte do Zumby, no bom successo que tiveram os paulistas, e accrescenta: «Com a sua morte e estrago dos negros considero quasi acabada a guerra dos Palmares, destinada ha tantos annos para vos lograres a felicidade de os venceres, e ser vossa essa gloria de que vos dou o parabem como amigo e como interessado, pois sempre tocou aos generaes á das victorias, que na sua jurisdicção se alcanção. As occasiões do vosso gosto, sempre acharão no meu amor os alvoroços, que devo a estimação que d’ellas faço: e as do nosso serviço, sem ceremonia, a minha obrigação.»

Mello de Castro em data de 14 de Março do mesmo anno de 1696, provavelmente epocha da partida da primeira frota para o Reino, communicou á sua Magestade as novas do successo dos Palmares, mas ignora-se a data que elle deveria dar na conta da morte do Zumby e dos mais acontecimentos, porque na Consulta do Conselho Ultramarino de Lisboa de 18 de Agosto do referido anno de 1696, em que se responde áquella carta, não se allega a respectiva data. Como esta Consulta encerra particularidades ainda desconhecidas na historia dos Palmares permitta-se-me da-la na sua integra:

«O Governador de Pernambuco Caetano de Mello de Castro, em carta de 14 de Março d’este anno dá conta a Vossa Magestade de se haver conseguido a morte do Zomby, ao qual descobrira um mulato de seu maior valimento, que os moradores do Rio de S. Francisco aprisionarão e remettendo-se-lhe topára com uma das tropas que dedicára aquelles destrictos, que acertou ser de Paulistas, em que ia por cabo o capitão André Furtado de Mendonça e temendo-se o dito mulato de ser punido por seus graves crimes offerecêra que segurando-se-lhe a vida em nome d’elle Governador se obrigava a entregar o dito Zomby e acceitando-se-lhe a offerta desempenhára a palavra guiando a tropa ao mocambo do negro que tinha já lançado fóra a pouca familia que o accompanhava, ficando somente com vinte negros, dos quaes mandára quatorze para os postos das emboscadas que esta gente usa no seu modo de guerra, e indo com os mais que lhe restarão a se occultar no sumidouro, que artificiosamente havia fabricado achando tomada a passagem, pelejára valerosamente ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns, e não querendo render-se nem os companheiros fôra preciso mata-los, apanhando só um vivo, que enviando-se-lhe a cabeça do Zomby determinára se puzesse em um pau no logar mais publico d’aquella praça a satisfazer os offendidos e justamente queixosos e atemorisar os negros que supersticiosamente julgavão este immortal; pelo que se entende, que nesta empreza se acabara de todo com os Palmares, que estimaria elle Governador, que em tudo se experimentem successos felices, para que Vossa Magestade se satisfaça do zêlo com que procura desempenhar as obrigações de leal vassallo.

«Ao Conselho parece fazer presente a Vossa Magestade o que escreve o Governador de Pernambuco Caetano de Mello de Castro de se haver conseguido a morte do negro Zomby, entendendo que por este meio se poderão reduzir os mais dos Palmares por ser este a cabeça principal de todas as inquietações e movimentos da guerra que tão sensivelmente padecião os moradores d’aquellas Capitanias com tanta perda de suas fazendas e morte de muitos, e que Vossa Magestade deve mandar agradecer ao dito Governador o bem com que neste particular, e nos mais do serviço de Vossa Magestade se ha havido, e que o perdão que se deu a este mulato se deve approvar na consideração da importancia d’este negocio e de se poder pôr termo as hostilidades tão repetidas, quantas os vassallos de Vossa Magestade sentirão na extorsão e violencia d’este negro Zomby. Lisboa 18 de Agosto de 1696.—Conde.Sepulveda.Serrão.—Como parece. Lisboa 22 de Agosto de 1696.—Rey.»

As duas cartas de Mello de Castro para o governador geral da Bahia e para a côrte, dando conta dos acontecimentos, não apparecem e só ellas poderão esclarecer ao certo a data da morte do Zumby e de outros factos que devem relatar por menor, como se collige da accusada carta de officio de d. João de Alencastro quando escreve: «no bom successo que tiverão os Paulistas, ainda que foi para elles bastantemente custoso, como por outras noticias se me diz», e da Consulta do Conselho Ultramarino, que fica reproduzida, quando dá a summa da carta do governador de Pernambuco referindo como se poude conseguir a morte do chefe dos Palmares. Estas duas cartas de Mello de Castro provavelmente devem existir, sinão nos seus proprios originaes, ao menos nos livros de registo dos dois governadores da Bahia e de Pernambuco e nos do Conselho Ultramarino de Lisboa e o apparecimento d’ellas viria de certo elucidar este facto da maxima importancia na historia dos Palmares. E d’esta elucidação poder-se-ha tirar illações para fixar-se a data da morte de Gregorio de Mattos, a darmos credito ao seu biographo Rebello, quanto ao ter ella occorrido no dia da chegada das novas da reducção dos Palmares ao Recife.

Pela carta do governador geral da Bahia vê-se que a nova da morte do Zumby foi bem recebida no Recife e provavelmente ahi festejada; porque os principaes da capitania estavam empenhados na lucta, somente com o intento de evitar que os seus escravos continuassem a engrossar as denodadas fileiras dos Palmares. Os colonos consideravam o paiz rico e tinham para si que trabalharem ao nivel dos negros era a maior ignominia e aviltamento. Só queriam ser senhores e a importancia do colono era aquilatada pelo numero de escravos que possuia, o que importava dizer que o mais barbaro era o mais considerado. Assim, a noticia da morte do Zumby e do destroço de parte dos Palmares deveria ter causado vivo contentamento aos povos do Recife e aos das mais partes da capitania. Accioli, que narra succintamente a historia dos Palmares, sem comtudo dar uma só data, diz nas suas Memorias da Bahia, 1, 139, que «o povo d’aquella cidade se entregou ao maior regozijo» e que «houve logo procissão em acção de graças.»

Rebello e fr. João de S. José Queiroz, bispo do Pará, dizem que o bispo de Pernambuco (d. fr. Francisco de Lima), assistira aos ultimos momentos de Gregorio de Mattos. Ora, o bispo de Pernambuco, nomeado em Agosto de 1695, só chegou ao Recife a 22 de Fevereiro de 1696. Já se vê d’aqui que Gregorio de Mattos não podia ter morrido na occasião em que recebeu o Recife a noticia do destroço dos Palmares e morte do Zumby. Como disse, esta nova só poderia ter chegado ao Recife até os primeiros dias de Janeiro de 1696, quando d. fr. Francisco de Lima ainda não havia aportado á sua diocese. Neste anno de 1696, si não no de 1695, não consta que houvesse em Pernambuco outro regozijo a proposito de victorias alcançadas contra os Palmares.

Alguns auctores são accordes em darem a guerra terminada em 1695 e outros em 1697, quando entretanto a lucta ainda proseguiu pelo menos até 1701, dirigida pelos paulistas.

Fernandes Gama, nas suas Memorias historicas de Pernambuco, IV, 41, dá até o dia da extincção dos Palmares, o que é um verdadeiro absurdo. Este auctor, depois de relatar a morte do Zumby e os destroços dos negros, accrescenta: «de maneira que, com mui raras excepções, do Quilombo dos Palmares só ficaram em Pernambuco os negros e as crianças. D’esta sorte aniquilaram aquelle Quilombo formidavel em 14 de Maio de 1695, depois de um sitio de mais de dous mezes e de bem prejuizo de gente.»

Para provar-se a inexacção d’esta data basta ter-se noticia da carta do Governador geral da Bahia de 24 de Janeiro de 1696, acima indicada, e da Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de Agosto do mesmo anno, acima reproduzida; pois o governador de Pernambuco não deixaria passar quasi um anno para communicar á côrte um acontecimento, que considerava tão importante.

Milliet de Saint-Adolphe no seu Diccionario geographico, artigo Palmares, diz: «Durou este perto de setenta annos, tendo sido infructuosas varias expedições que contra elle se fizeram; porém o marquez de Pombal acabou por destrui-lo em 1697, mandando contra elle uma divisão de 8,000 homens, com a mosquetaria e artilharia que o caso pedia, &.» O auctor ainda aggrava o seu formidavel anachronismo referindo-se mais duas vezes ao mesmo marquez de Pombal, que entretanto só dois annos depois, em 1699, foi que nasceu.

Azevedo Marques nos seus Apontamentos historicos da provincia de S. Paulo, vol. I, pg. 126, tractando de Domingos Jorge Velho, diz: «Dirigiu-se depois a Pernambuco e obteve licença para atacar o quilombo dos Palmares, para onde marchou, e depois de alguns combates sem resultado, declarou-se a victoria pelo lado de Domingos Jorge a 3 de Março de 1687, sendo de todo destruido o quilombo que já contava cêrca de 30,000 negros.»

Como se vê, o chronista moderno de S. Paulo dá a republica dos Palmares exterminada a 3 de Março de 1687. Azevedo Marques foi buscar esta data nos Capitulos e condições que concede o sñr. Governador João da Cunha Souto Maior ao Coronel Domingos Jorge Velho para conquistar, destruir e extinguir totalmente os negros levantados dos Palmares com a sua gente e officiaes que o accompanhão tudo na forma referida, &., que são datados de Olinda a 3 de Março de 1687. Estas condições foram ainda ratificadas em Olinda a 3 de Setembro de 1691 e confirmadas pela côrte por Alvará de 7 de Abril de 1693!

A guerra porém não terminou com a morte do chefe dos Palmares, não se conseguindo portanto a sua restauração em 1696; continuou ainda, torno a dizer, pelo menos até 1701. Quando d. Fernando Martins Mascaranhas de Alencastro succedeu a Caetano de Mello de Castro no governo de Pernambuco ainda encontrou accesa a lucta entre os paulistas e os negros. Sou obrigado a publicar neste logar um documento e parte de mais dois—provas irrefragaveis d’essa asserção. São Consultas do Conselho Ultramarino de Lisboa de 1699, 1700 e 1701.

Na Consulta de 16 de Novembro de 1699 lê-se:

«Em o quarto sobre o negro Camanga, que a d. Fernando Martins Mascaranhas se escreva, que quando não aproveitem com elle as advertencias e avisos que lhe tem feito o Bispo para o reduzir, faça toda a diligencia para que não engrosse este negro em poder, e se faça ao depois mais custosa a sua destruição, e se sinta antes que o apresionem, ou matem aquelles effeitos que se costumam experimentar nos assaltos d’estes inimigos.»

Na mesma consulta ainda se diz:

«E no oitavo que respeita á mudança que este Bispo dá conta intenta fazer o mestre de campo Domingos Jorge Velho do arraial em que está situado, e chegar-se mais para o povoado, que esta de nenhuma maneira se lhe deve permittir pelas grandes consequencias que d’isso se podem seguir, antes que o Governador de Pernambuco lhe escreva que em nenhum caso o faça; pois o contracto que se fez com elles é terem a sua assistencia nos mesmos Palmares, para d’ali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados, &.»

Segue-se a Consulta de 27 de Setembro de 1700:

«Mandando Vossa Magestade ver neste Conselho a conta que deu o bispo de Pernambuco por via do secretario Roque Monteiro Paim das diligencias que fez quando andou em visita pelos Palmares para reduzir o negro Camoanga, foi Vossa Magestade servido ordenar ao Governador das mesmas capitanias dom Fernando Martins Mascaranhas em carta de 20 de Janeiro d’este anno, que quando com este negro não aproveitassem as advertencias e avisos que lhe tinha feito o bispo para o reduzir, applicasse toda a diligencia, para que não engrossasse em poder e se fizesse ao depois mais custosa a sua destruição.

«Á carta de Vossa Magestade responde o dito Governador por outra de 24 de Junho do mesmo anno, que como o dito negro faltou por varias vezes á palavra que deu ao Bispo para o reduzir de se avistar com elle em tempo certo e logar determinado; e as entradas que faziam os Paulistas no sertão se repetiam amiudadamente nunca poderia demorar em um logar, e si concluiria com elle e com os seus sequazes pelo meio das armas, que era o unico, como a experiencia nos tinha mostrado para se reduzir e sujeitar esta gente á obediencia.

«Ao Conselho parece que como este negro faltou ao que havia promettido ao Bispo, e se não ache em parte certa e se possa temer que engrosse em poder, sendo ao depois mais difficil a sua sujeição e destruição que se deve ordenar ao Governador de Pernambuco que com effeito se lhe faça a guerra, e o busquem de proposito por toda a parte, para se lhe dar o castigo que merece. Lisboa 27 de Setembro de 1700.—O Conde d’Alvor.Serrão.Silva.—Como parece. Lisboa 8 de Outubro de 1700.—Rey.»

E finalmente eis parte da Consulta de 14 de Janeiro de 1701:

«E no vigesimo quinto que tracta da extincção do Terço dos Paulistas que supposto se entenda não ser conveniente a sua assistencia para os Indios, que com tudo para os negros dos Palmares se reconhece ser precisissima porque sobre haver ainda muitos d’estes inimigos, cujas hostilidades se fizeram tão sensiveis para os vassallos de Vossa Magestade continentes nas suas visinhanças se elles se apartarem d’ali tornarão a sentir os mesmos povos as suas invasões; e no que respeita as terras que se lhe prometteram e a assistencia dos arraiaes nas partes mais necessarias se tem já dado toda a providencia necessaria.»

Assim, quanto á chamada restauração dos Palmares que se lê na Vida de Gregorio de Mattos, parece que Rebello quer referir-se á morte do Zumby e aos mais successos alcançados pela mesma occasião; mas á vista dos dados authenticos, a data d’estes factos é, como já disse, de fins de 1695 ou começo de Janeiro de 1696. Tambem podiam ter se dado em 1695 e chegado a noticia ao Recife nos primeiros dias de 1696. Si pois Gregorio de Mattos morreu no dia em que chegou ao Recife a nova da victoria alcançada contra os Palmares, não podia de certo o bispo d. fr. Francisco de Lima ter assistido aos ultimos momentos do poeta. Rebello e o bispo do Pará não são testimunhos coevos; ambos escreveram muitos annos depois da morte de Mattos, o primeiro depois de 1740 e o segundo de 1759 a 1764. D. fr. João de S. José Queiroz não dá a data da morte de Gregorio de Mattos, nem declara o nome do bispo que chegou a ir pessoalmente dispor o poeta para que não morresse como impio; mas desde Junho de 1694 a diocese de Pernambuco achava-se vaga, e provavelmente o bispo do Pará quer referir-se a d. fr. Francisco de Lima, que governou de 22 de Fevereiro de 1696 a 23 de Abril de 1704.

III

Como se vê no final da Vida de Gregorio de Mattos, Rebello fez tirar o seu retrato por um antigo pintor, que fôra familiar do poeta; mas este retrato infelizmente não apparece hoje, deixando assim um vacuo immenso na galeria historica dos homens notaveis do paiz.

IV

O nome de Gregorio de Mattos basta para que faça despertar logo no espirito de muitas pessoas as engraçadas anecdotas que de sua vida ainda hoje correm, vindas vagamente de geração em geração, accrescentando-se-lhes ou diminuindo, como é natural, uns pontinhos de mais ou de menos. Vejamos, por exemplo, tres das mais curiosas que vogam, contadas de modos inteiramente diversos.

O bispo do Pará d. fr. João de S. José Queiroz, nas suas Memorias, publicadas em 1868 pelo sñr. C. Castello Branco, narra:

«Fez Gregorio de Mattos, em Pernambuco, uma satyra universal ao clero e religiões. Escapou-lhe um clerigo, por lhe não occorrer e viver fóra da cidade. Foi este simples sacerdote procurar o poeta e agradecer-lhe muito o não o metter na satyra. Perguntou-lhe o Mattos o nome e onde assistia. E depois accrescentou: «Reparou Vm. na obra, num multitudo cavallorum que lá vém?»—Sim senhor, disse o clerigo. «Pois alli está Vm. mettido,» concluiu o mordaz poeta.»

O seu biographo, Pereira Rebello, porém, dando conta d’esta passagem, diz:

«... Nem havia lisonja que desmentisse as durezas d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:

A nossa Sé da Bahia,

Com ser um mappa de festas,

É um presepe de bestas,

Si não fôr estrebaria;

Varias bestas cada dia

Vejo que o sino congrega:

Caveira mula gallega,

Deão burrinha bastarda,

Pereira rossim de albarda,

Que tudo da Sé carrega.

«Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras humildes; mas o poeta lhe respondeu: Não, sñr. padre, lá vai nas bestas.»

Agora passemos á segunda, que diz respeito aos ultimos momentos do desditoso satyrico. D. fr. João de S. José refere que o poeta.

«...Morreu como impio, sem embargo de o exhortarem padres muito doutos, chegando o bispo de Pernambuco a ir pessoalmente dispo-lo. Recebeu o prelado, dando-lhe as costas e virando-se para a parede. Instado por aquelle benigno pastor que se animasse e pedisse perdão a Deus, voltou-se, e vendo-lhe na mão um crucificado com os olhos coberbertos de sangue, proferiu tão impia como jocosamente o sabido quarteto:

Quando meus olhos mortaes

Ponho nos vossos divinos

Cuido que vejo os meninos

De Gregorio de Moraes.

«Os meninos de Gregorio de Moraes, seus visinhos, traziam os olhos inflammados. Intempestiva e indecente allusão! E assim morreu.»

A este trecho accrescenta o sñr. C. Castello Branco:

«Escreve Innocencio Francisco da Silva que o poeta morrêra com «grandes mostras de contricção e arrependimento, si é verdade o que affirmam os seus biographos.» Não nos edifica o arrependimento de Gregorio de Mattos, si fechou a vida com a copla celebrada pelo bispo do Pará. A meu ver, a impia memoria do mordente brazileiro explica o silencio do abbade de Sever, justamente arguido pelo citado bibliophilo.»

Mas é d’este outro modo accusada pelo biographo Rebello a morte do nosso Mattos:

«Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que, desenganados os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigário do Corpo Sancto, Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo prelado d. frei Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que suppunha desgarrada, e não foi assim, porque não só o achou disposto a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos:

Pequei senhor; mas não, porque hei peccado,

Da vossa alia piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Si basta a vos irar tanto peccado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos ha offendido,

Vos tem para o perdão lisongeado.

Si uma ovelha perdida, já cobrada,

Gloria tal o prazer tão repentino

Vos deu, como affirmais na Sacra Historia,

Eu sou, senhor, ovelha desgarrada:

Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa gloria.

«Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro.»

A terceira é a seguinte, que occorre na Bibliotheca Bahiana de João Nepomuceno da Silva, vol. 2.ᵒ (1863), tractando-se de Gregorio de Mattos:

«A promptidão com que o poeta achava pensamento, rima e sal para a satyra, é o que mais o tornou distincto. Umas mulheres suas visinhas, accommettidas inopinadamente de umas visitas á noite, recorreram ao poeta no emprestimo de umas grandes e bojudas porcelanas chamadas palanganas: servidas, não mais cuidaram em restitui-las. Passado algum tempo chegaram ellas em uma noite á janella para ver um enterro que pela rua passava, ao tempo que o poeta tambem chegava á d’elle. Surprehendidas, disfarçaram, pedindo uma dillação ao poeta, que fizesse uma satyra ao enterro, e então foi esta a satyra que de prompto lhe surgiu:

Dizem que as almas que vão

Á este mundo não vem,

E as minhas palanganas

Fizeram-se almas também?»

Um enthusiasta de Gregorio de Mattos, porém, nas linhas publicadas no Cruzeiro de 7 de Abril de 1881, conta a mesma anedocta de modo differente.

«Mandára o poeta uma bandeja rica com doces a uma familia de suas relações. Acharam graça em guardar a bandeja e o presente. Passaram-se tempos e o poeta nada reclamou. Um dia passou-lhe pela porta, e apanhando-os na gelosia, disse-lhes:

As almas do outro mundo

Dizem que vão e não vem,

E a minha bandejinha

Será alma tambem?»

Conta-se outra anedocta curiosa passada na cidade da Bahia entre o coronel Sebastião da Rocha Pitta, auctor da conhecida Historia da America Portugueza, e o poeta.

Rocha Pitta era então alferes de infantaria e estava de guarda em Palacio. Acconteceu passar por ali o nosso poeta, e chegou-se a elle o depois historiador brazileiro e lhe disse: Senhor doutor, estou com uma obra entre mãos e para acaba-la, quero que V. M.ᶜᵉ me dê um consoante a esta palavra ==para mim==. Ao que promptamente respondeu Gregorio de Mattos ==Capim==. Rocha Pitta tornou-se então inimigo de Gregorio de Mattos. O auctor da America Portuguesa tambem era poeta e parece que quando ouviu a rima pedida proferida em tom serio e grave pelo espirituoso satyrico, ficou assim meio duvidoso. Provavelmente o proprio Gregorio de Mattos foi quem andou narrando o caso, e d’aqui procedeu todo o odio de Rocha Pitta.

V

A litteratura do Brazil no seculo do seu descobrimento é apenas representada pelo pernambucano Bento Teixeira Pinto, auctor de um poemeto intitulado Prosopopéa, o qual foi impresso em 1601 e reimpresso em 1872 pela Bibliotheca Nacional, á esforços do illustrado sñr. dr. Ramiz Galvão. No seculo immediato, o XVII, entrou então o Brazil a desenvolver-se, e, como era natural, não poucos homens de talento, nascidos no torrão americano, começaram a cultivar as lettras e sciencias em todos os seus ramos.

D’entre os mais notaveis poetas, para só fallar d’elles, destacam-se: Gregorio de Mattos, que já era muito apreciado e applaudido em Portugal; Eusebio de Mattos, Bernardo Vieira Ravasco, Manuel Botelho de Oliveira, Domingos Barbosa, Gonçalo Soares da Franca, Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, naturaes da Bahia; Salvador de Mesquita, Martinho de Mesquita e João Mendes da Silva, do Rio de Janeiro. Os poetas bahianos são, em honra da verdade, os que representam toda a litteratura brazileira durante o XVII seculo: de poucos d’elles porém existem livros impressos em separado, mas das composições de quasi todos subsistem algumas amostras.

De todos estes cantores d’aquelle seculo o mais conhecido e reputado foi incontestavelmente Gregorio de Mattos; corriam de mão em mão as suas numerosas obras, e eram por todos repetidas de bocca em bocca, «desde o palacio á choupana, desde a floresta á cidade.»

Ninguem ha, pois, que cultive as lettras no Brazil, que não encontre logo occupando nellas um logar proeminente o nosso Gregorio de Mattos, pelo seu estro gigantesco, pela originalidade das suas producções satyricas, pelos seus rasgos admiraveis. O seu nome, apezar de decorridos quasi dois seculos depois da sua morte, é ainda hoje apregoado como um dos mais valentes cooperadores das litteraturas de dois povos e da lingua portugueza fallada no Brazil. Movido por estes dois pontos de vista decidi-me a publicar as suas obras. Si todas as suas producções são realmente de verdadeiro merito, não o saberei eu dizer; e, quando por ventura não n’o tenham, fica explicada a razão por que encetei a publicação de escriptos de um auctor que fazia timbre em criticar, não a todos nem a tudo, como geralmente se diz, mas áquelles que se deslisavam dos seus deveres, ou que o provocavam com motejos e escriptos pregados pelas praças, e aquillo que julgava no seu esclarecido entendimento andar fóra da razão e da justiça. Moralisar os viciosos, ridicularisar certos usos e costumes desregrados, retratar ao vivo certos personagens, era o fim principal do poeta.

Como disse, até então poucas producções do notavel poeta lograram ver a luz da publicidade; agora, porém, vamos ter uma collecção, ainda que incompleta, das poesias de Gregorio de Mattos, o Bocca do Inferno, nome pelo qual era mais conhecido no seu tempo, pela vehemencia e mordacidade das suas engraçadas satyras, que produziam um effeito extraordinario no espirito dos seus conterraneos, e não menos produzirão ainda hoje com a sua vulgarisação pela imprensa.

Como é sabido, notava-se nos tempos coloniaes o desgoverno do Brazil; tractava então cada um de seguir a sua conveniencia, gemesse quem gemesse, e com o apparecimento das satyras do nosso poeta notou-se que de algum modo moderaram os viciosos os seus desregrados costumes: d’ahi veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as missões de Vieira, de onde se infere que não foram poucos os serviços prestados pelo vate bahiano ao então nascente Brazil, concorrendo com a sua veia satyrica para o saneamento moral da patria. Já de Eusebio de Mattos, irmão do poeta, havia affirmado o mesmo padre Vieira «que Deus se apostára em o fazer em tudo grande, e não fôra mais por não querer.»

Gregorio de Mattos, apezar de ter feito da sua vida um verdadeiro romance, cheio de peripecias singulares, de inimitaveis rasgos e de desvarios e desregramentos, fustigou os vicios e expoz ao ridiculo as vaidades e desconcertos do seculo em que viveu e poetou, entresachando as suas satyras de um tiroteio de chistes e descripções picantes, que as tornavam muito lidas e faziam com que gyrassem em cópias manuscriptas, ás centenas, pelas mãos dos curiosos.

Um dos maiores senões das satyras que não versam sobre a critica dos vicios e a censura dos costumes em geral, é devido a ignorar-se mais tarde quasi tudo o que nellas se diz, o que realmente faz com que percam muito do seu sal e valor.

Para o tempo em que correm ainda quentes são de effeito immenso, porque todo o mundo conhece as baldas do criticado e a exacção do satyrico, não lhe escapando as menores circumstancias, que entretanto mais tarde se tornam inteiramente extranhas. D’ahi nascia a avidez com que as satyras de Mattos eram lidas, relidas ás vezes, ante um num eroso auditorio e copiadas com sofreguidão no tempo. O proprio governador da Bahia d. João de Alencastro, a quem se deve o desterro de Mattos, tinha um livro especial em que com esmerada lettra mandava registar as producções do nosso poeta, com mais cuidado e correcção talvez do que as suas mesmas cartas de officio para a côrte: quando porém a musa satyrica lhe entrou por casa sem pedir licença, foi o poeta traçoeiramente prêso e por ordem sua desterrado!

Mas Gregorio de Mattos não foi só poeta satyrico: ha composições suas notaveis e distinctas, não só por terem sahido fóra do seu habito de compor, como porque tractam de tornar salientes as virtudes e merito de algumas pessoas e dignidades da sua patria: d’aqui se conclue que reconhecia elle a virtude, onde quer que a achasse, e que si não era virtuoso, tinha probidade e honra, e a não serem exactas as suas palavras, é certo que elle não exaltaria meritos, si realmente os não encontrasse, pois, como se sabe, o poeta não perdia vaza, e folgava de ter occasião de jogar a sua setta vehemente e ferina contra esta ou aquella pessoa, logo que o merecesse, fosse grande ou pequeno, branco ou preto.

D’aqui vem o dizer-se que Gregorio de Mattos estragava a sua musa delicada com assumptos pouco dignos de um poeta; porque depois que acabava de retratar fielmente um governador e capitão-general, um vice-rei, uma alta dignidade ecclesiastica, descia a photographar a largos traços pessoas inteiramente obscuras e collocadas muito baixo na escala social.

Accresce ainda que ha poesias de Gregorio de Mattos sobre objectos differentes, repassadas do mais fino e delicado lyrismo, e algumas de assumptos religiosos, que certo não são as suas menos estimaveis obras, e bastavam ellas para dar-lhe logar honroso no grande festim da poesia nacional. Tudo isto o que prova? Que a sua musa não tendia só para o comico e satyrico. Na sua alma palpitava fortemente um coração de poeta, e ante as scenas magestosas da natureza, ante a virtude, ante o merito, ante a boa christandade, o seu alevantado espirito não podia de certo ficar calado. Elle era poeta e tinha os olhos fitos no céu e o coração aberto na terra!

As obras de Gregorio de Mattos não são só reservadas aos homens de lettras, como se póde suppor. São destinadas não sómente aos que se dedicam ao cultivo da mais elevada litteratura, como ao povo, para quem em particular escrevia o famoso satyrico. Gregorio de Mattos fazia timbre de ser conhecido e applaudido das turbas populares, tanto que se aprazia em viver entre musicos e folgazões quando estava na Bahia. Escrevia para o povo, mas as suas composições agradavam ao homem mais douto, sabendo assim o poeta a um só tempo deleitar a todos. Por isso muitas das suas poesias não parecem escriptas ha tão longos annos, pela jovialidade que apresentam, pelo enredo de seus dramas, pela agudeza dos seus dictos, pela vivacidade das suas côres.

Gregorio de Mattos foi, como se sabe, o primeiro que introduziu na poesia portugueza o verso decasyllabo, que por isso ainda hoje é conhecido nos tractados de poetica sob o nome de verso gregoriano, ainda que o nosso poeta não fosse verdadeiramente o seu inventor, pois havia muito tempo que d’elle usavam os italianos, de quem Gregorio de Mattos o tomou, não deixando com isso de fazer um bom serviço ao mechanismo da poesia portugueza. Marinicolas—é a producção caracteristica dos versos decasyllabos, á que me refiro, famosa satyra que tanto celebrisou o notavel satyrico brazileiro.

Conhecido como deve ser o nosso Mattos, tornar-se-ha elle tão popular, como o fôra no seu tempo, não só em todo o Brazil, onde a sua fama chegou a todos os seus recantos, como em Portugal. Gregorio de Mattos pertence á litteratura de dois povos. Costa e Silva chamou-o Rabelais portuguez; antes, porém, já o sñr. J. Norberto o chamára o Juvenal brazileiro.

As obras de Gregorio de Mattos foram sempre muito apreciadas dos curiosos e amadores da boa poesia; pena é, porém, que o poeta descaia ás vezes em phrases e termos poucos decorosos, que não podem passar pelos olhos de todos e são obrigados a ficar ineditos. Posto que as suas composições fossem escriptas ha dois seculos, muitas d’ellas são e serão incontestavelmente de todos os tempos, pelo interesse geral que offerecem todas.

Os seus criticos são accordes em affirmar que a sua linguagem é rica, especialmente em termos e locuções populares e familiares, fluente, correcta e quasi sempre harmoniosa, e que as suas pinturas são vivas, profundos e penetrantes os seus golpes satyricos, e inexhaurivel a sua graça. Gregorio de Mattos é pois um poeta classico e dos mais auctorisados na linguagem portugueza.

Thomaz Pinto Brandão, o celebre poeta portuguez que «vivendo de alegrar a gente, morreu de fome», como elle proprio o diz, foi seu discipulo e com elle veiu em 1681 para o Brazil, quando o dr. Guerra estava despachado para a Bahia. O biographo de Th. Pinto Brandão diz que «influiu nelle Gregorio de Mattos o seu espirito agudo e picante, a que o seu perspicaz engenho soube illuminar com um emphasi especifico, que brilhava não só nas suas composições, mas nos seus dictos.»

Thomaz Pinto, falecido em 1743, parece que nunca esqueceu o seu mestre e amigo Gregorio de Mattos, e em 1713 invocou a alma do poeta bahiano e deu-nos a Satyra feita a todo o Governo de Portugal por Gregorio de Mattos ressuscitado em Pernambuco em 6 de Agosto de 1713. Consta de 40 strophes e é imitada da satyra de Mattos que tem por titulo Justiça que faz o P na honra hypocrita pelos estragos que anda fazendo na verdadeira honra, e que começa:

Uma cidade tão nobre,

Uma gente tão honrada,

Veja-se um dia louvada

Desde o mais rico ao mais pobre:

Cada pessoa o seu cobre;

Mas si o diabo me atiça,

Que indo a fazer-lhes justiça,

Algum sahia a justiçar,

Não mo poderão negar

Que por direito e por lei

Esta é a justiça que manda El-Rei.

A primeira strophe da satyra de Thomaz Pinto é esta:

Um Reino de tal valor,

E de povo tão honrado,

É justo seja louvado

Desde o vassallo ao senhor.

Inda que fraco orador,

A verdade hei de dizer,

E cada qual recolher

Póde, aquillo, que lhe toca;

Inda que diga, o provoca

Uma imitação real:

Este o bom Governo de Portugal.

Esta longa producção ainda se conserva inedita. A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro a possue nas Obras partas de Thomaz Pinto Brandão, msc. in-4.ᵒ de 269 ff. num. Acha-se de ff. 195 a 204.

VI

Os homens de genio nunca morrem; neste caso está o nosso Gregorio de Mattos, que é uma verdadeira gloria nacional: quasi obumbrado por espaço de dois seculos, o seu ainda que não completo apparecimento no mundo litterario é quiçá um acontecimento. Estou certo que, mais conhecido, o seu nome se tornará tão vulgar como o de Luiz de Camões, dado o desconto da indole poética de um e de outro e da profunda differença dos assumptos de que um e outro se occuparam e que não são de certo para comparar-se. Gregorio de Mattos terá porém egualmente citadores, porque ha nas suas poesias muito que se applicar a todas as situações da vida, e si as condições sociaes mudaram, não são as mesmas do tempo em que poetou e floresceu, a humanidade é ainda a mesmissima e as fragilidades humanas se repetem e renovam em todos os seculos... por ventura refinadas.

Nascido na Bahia formára-se em Coimbra e estivera por algum tempo em Lisboa a exercer a advocacia. Tornou depois á Bahia, de onde, preso pela vivacidade das suas satyras, fôra deportado para Angola: d’ahi voltou a Pernambuco, onde exhalou o ultimo suspiro em 1696.

Como Camões, foi em Coimbra que Gregorio de Mattos começou a fazer-se conhecido pelas suas poesias e satyras; ahi esteve 7 annos, como elle proprio o diz, e, quando terminou o seu tirocinio academico, não se esqueceu de compôr um Adeus á Coimbra, despedindo-se da Universidade:

Adeus Coimbra inimiga,

Dos mais honrados madrasta,

Que eu me vou para outra terra

Onde viva mais á larga.

Adeus prolixas escholas,

Com reitor, meirinho, e guarda,

Lentes, bedeis, secretario

Que tudo sommado é nada.

Adeus famulo importuno

Ladrão público de estrada,

Adeus: comei d’esses furtos,

Que a bolsa está já acabada.

Adeus ama mal soffrida

Que si a paga vos tardava,

Furtaveis sem consciencia

Meios de carneiro e vacca.

Adeus amigos livreiros,

Com quem não gastei pataca

No discurso de sete annos,

De tantas carrancas cara.

Esta producção foi assim publicada por Varnhagen no seu Florilegio da poesia brazileira, t. I, pg. 11.

A sua vida é uma perfeita comedia, em que figuram os mais notaveis personagens do tempo, trazidos á baila pela sua musa folgazã, aviventados pelo seu genio creador e superior.

O Brazil ainda não produziu outro genio egual no seu genero ao de Gregorio de Mattos. Como já disse, não era elle só satyrico: era tambem um poeta sacro e um lyrico insigne. Os sonetos, que escreveu em grande numero, são eguaes ás melhores composições d’esta especie; rivalisam com os mais famosos de Bocage.

Na qualidade de advogado, Mattos era de um tino e perspicacia admiraveis, sabendo tirar partido vantajoso dos mais insignificantes incidentes: uma causa que tivesse a ventura de cahir nas suas mãos, estava de certo ganha e coberta de innumeros applausos, mesmo dos da parte contraria. Era de um laconismo extraordinario nos seus embargos, e de muitos d’elles nos dá noticia o seu biographo Rebello.

Gregorio de Mattos era alegre e folgazão como o mostra boa parte das suas producções.

Em geral os poetas pedem a morte cedo; Gregorio de Mattos porém não desejava morrer na flor da edade, e no soneto em que chora a morte de um filho seu de tenra edade, diz:

Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,

Que acabe a flor na docil infancia,

E que acabando a flor dure inda o tronco.

De genio altaneiro e caracter independente, não se curvava a interesses mundanos. Queria dar espansão ao seu singular espirito e não admittia nisso o mais leve constrangimento.

A sua ambição era limitada: assim, não fazia caso de dinheiro, nem mercava a sua musa aos poderosos.

Conta o seu biographo, que quando elle vendeu umas terras suas por tres mil cruzados, recebendo o dinheiro em um saco, mandara-o despejar a um canto da casa, e d’ahi se ia tirando o necessario e sem regra, para os gastos diarios.

Como advogado Gregorio de Mattos era de rectissimo proceder; só defendia o justo e aconselhava o verdadeiro. «Conta-se, diz o seu biographo, que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, para attender a estes, passando lastimosas necessidades.»

Apezar da promessa de d. Pedro II de um logar na Casa da Supplicação de Lisboa, não quiz o dr. Gregorio de Mattos devassar no Rio de Janeiro dos crimes imputados ao governador Salvador Corrêa de Sá e Benavides, cahindo assim das graças d’aquelle monarcha. Este facto, si não lhe sobrassem outros muitos que conta o seu biographo, bastava para mostrar a rectidão e a independencia de caracter do poeta.

Á Gregorio de Mattos deve o Brazil o primeiro brado da sua independencia. Foi elle quem primeiro, só e desajudado, teve a coragem e a energia de dar este grito de alarma na colonia portugueza. Em muitas das suas producções notam-se o amor que o poeta consagrava á sua patria e os esforços que empregava para liberta-la do jugo da metropole, e na despedida que fez á Bahia, quando seguiu para o seu exilio de Angola, diz elle:

Que os Brazileiros são bestas

E estarão a trabalhar

Toda a vida, por manterem

Maganos de Portugal.

As famosas bandeiras que em busca de minas partiram da Bahia, levaram o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das suas ruas Gregorio de Mattos: prova inconcussa de que a sua fama não se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se acha com o nome mudado. Vi-a indicada em uma Planta de Villa Rica de N. S. do Pilar, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar d’esta côrte.

VII

Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil no XVII seculo. O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das cousas da patria até sob este ponto de vista.

Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.

Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o Brazil, mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o seu alentado espirito.

Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.

Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos; mas o certo é que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria:

Querem-me aqui todos mal,

Mas eu quero mal a todos,

Elles e eu por varios modos

Nos pagamos tal por qual:

E querendo eu mal a quantos

Me têm odio tão vehemente,

O meu odio é mais valente;

Pois sou só, e elles são tantos.

O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o o mais elevado principio—o amor da patria—que é uma das virtudes que mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as suas missões; o que importa dizer que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso orador sagrado.

Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas, salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota proprio dos poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.

Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o honram e abonam o seu estro.

Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual infelizmente só se conhecem os dois quartetos, que justificam por demais o que fica allegado. Dizem elles:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

Desses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os romanos, gregos, persas, godos,

Que comtigo mereça ter apodos

Nos applausos, que assim has adquirido.

Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:

Triste Bahia! Oh quão dissimilhante

Estás, e estou do nosso antigo estado.

Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mim abundante,

tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura, foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A sua presença quer em Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o mais decidido respeito.

Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se acharão nos seus logares da presente edição.

Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e enthusiastas.

Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador—torno a dizer; e teria talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades retratadas.

Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novas forças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio de Angola, começou dizendo:

Adeus praia, adeus cidade,

Sendo que estás tão decahida;

Que nem Deus te quererá.

E concluiu assim:

Terra, que não se parece

Neste mappa universal

Com outra; e ou são ruins todas,

Ou ella sómente é má.

E como Scipião Africano, chegou a dizer: Ingrata patria! ossa mea non possidebis!

Accresce ainda que o poeta teve, além dos inimigos hereditarios, inimigos posthumos, que, calando e occultando as suas obras, só ambicionavam tirar-lhe a aureola de poeta, tentando assim apagar-lhe o nome da memoria dos posteros.

Não obstante isso e as expressões e termos pouco decorosos que ás vezes emprega nas suas obras, o seu nome será sempre evocado com respeito e veneração, e jámais ficará esquecido nos annaes da litteratura dos dois paizes que fallam a sua lingua.

A. do Valle Cabral.

VIDA
DO
DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA
PELO LICENCEADO
MANUEL PEREIRA REBELLO

VIDA
DO
DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA


Abreviarei a vida de um poeta pouco cuidadoso de estende-la nos espaços da eternidade, que lhe franqueou as portas, escrevendo costumes do doutor Gregorio de Mattos Guerra, mestre de toda a poesia lyrica por especial decreto da natureza, cujo enthusiastico furor poderá só retratar-se dignamente, porque de fórma menos viva desconfia a equidade tão excellente materia.

Cousas direi menos decorosas ao sujeito de minha empreza; e por seguir os dictames da verdade historica, quero perder os louros de piedoso advogado contra exemplares famosos, que commentando ou redimindo as obras de benemeritos talentos, affectam justificar-lhe as vidas no resumo d’ellas, de modo que pareça impeccavel aquelle de quem o céu confiou os erarios da sua profluencia. E si a geral opinião reprovar ésta maxima por desabrida, o mesmo sujeito que descrevo me apologisa, cujas doutrinas persuadem sempre a verdade nua.

Nasceu na Bahia de Todos os Sanctos, capital cidade do Estado do Brazil, ao Cruzeiro de S. Francisco, da parte do norte, em casas cuja figurada cornija de medalhas imperiaes ainda hoje as distingue caprichosamente nobres. Os paes que o deram á luz em 7 de abril de 1623 foram Pedro Gonçalves de Mattos, fidalgo da serie dos Escudeiros em Ponte de Lima, natural dos Arcos de Valdevez; e Maria da Guerra, matrona geralmente conhecida de respeito em toda a cidade, cujas prendas intellectuaes amassaram uma trindade capaz de resplandecer no coração da mesma Roma. A 15 do dicto mez recebeu a graça baptismal com o nome de João, na cathedral que depois o venerando prelado d. Pedro da Silva e Sampaio, pela sua occurrencia e milagroso auspicio de S. Gregorio Magno collocado em Nossa Senhora da Ajuda, lhe mudou em Gregorio, mysterioso agouro de que seria Gregorio doutamente grande o tenro afilhado: mas dirigida aquella mudança de algum modo a favorecer a distincção de seus paes.

Eram estes de tal maneira ricos que possuiam com outras fazendas um soberbo cannavial na Patatyba fabricado com perto de cento e trinta escravos de serviço, que repartia a safra por dous engenhos, cujo rendimento suppria largamente os gastos de um liberal tractamento e caridade com os pobres; mas nada d’isto basta para que um poeta sendo grande se escuse de morrer nos braços da maior miseria.

Foi o doutor Gregorio de Mattos o ultimo filho de tres varões que nasceram d’este matrimonio, dotados pela natureza com os maiores thesouros; mas a fortuna sempre opposta aos morgados da natureza veiu a consumir-lhe aquelles nomes, que ambiciosa a fama pedia; e não sem apparencias de virtude, increpando o desalinho e pouca estimação, &, achaques que sempre toma de anniquilar os benemeritos, e desgraça repetidas vezes chorada de sua mãe, que com agudeza natural dizia: «Deu-me Deus tres filhos como tres sovélas sem cabo.» Farei particular menção dos dous primeiros no segundo tomo, para que o ultimo se não queixe do desaire que a minha penna poderia occasionar-lhe, que é menos honra ser um accidentalmente grande, que o ter vinculada sua grandeza na especie generativa.

Gregorio, que d’este triumvirato sapiente é o nosso particular assumpto, criou-se com a boa estimação que inculcavam os seus haveres e as suas honras. Soube mais que seus brazileiros contemporaneos fatalmente agudos com o temperamento do clima, sendo lastima carecerem de mestres para toda a Faculdade: porque Athenas perdêra de uma vez aquella suberba, com que se reproduz em desprezo do mundo.

Passou a Coimbra, onde não teremos por novidade que aprendesse, ou que admirasse quem tanto de casa levava as potencias dispostas. Direi somente que assombrou na poesia: porque Belchior da Cunha Brochado, depois desembargador da Relação d’este Estado, escreveu a certo cavalheiro da côrte em um periodo succinto o maior elogio do seu enthusiasmo: «Anda aqui (dizia elle) um estudante brazileiro tão refinado na satyra, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo ás cançonetas de Apollo.» Não devia de haver-lhe visto as valentias amorosas para enviar outra cedula aos apaixonados de João Baptista Marini pelo postilhão de Italia: mas como o maior d’esta materia se destina a perpetuo silencio pela impunidade dos termos que a modestia portugueza não permitte, triumphem os Italianos embora, que lá deve de haver necessidade d’aquillo mesmo que cá se despreza.

Doutorou-se na Faculdade de Leis, e passando á côrte a praticar os termos da judicatura com um dos melhores lettrados d’ella, lhe conciliou grandes creditos o caso seguinte:

Defendia este lettrado um pleito a certo titular, tão volumoso que o conduziam mariólas quando era preciso. Era a causa civel sôbre a possessão de uns morgados, e expirava contra aquelle cavalheiro, que somente queria empatar-lhe a execução; e nesse empenho nenhuma esperança lhe dava o seu advogado com os melhores da côrte. Mas por animar o affligido pleiteante, resolveu manda-lo ao doutor Gregorio de Mattos, dizendo que só d’aquella viveza confiava o remedio palliativo a Sua Excellencia, dado que o houvesse. Conduzido aquelle volumoso labyrintho para casa do nosso praticante, com os maiores encarecimentos lhe supplicou o fidalgo que puzesse os olhos naquelle instrumento de sua perdição, examinando-lhe os menores incidentes para embargos, cuja extensão dirigia a concertar-se com a parte vencedora por meio de algum respeito.

Era meio dia, foi-se o fidalgo, e não lhe soffrendo descanso o seu alvoroço antes de vesperas, partiu a examinar si se desvelava ou não com os autos o novo lettrado; mas achando-o na janella que palitava sôbre o jantar, grandemente affligido rompeu em queixas do pouco cuidado que lhe dava cousa de tanta importancia. «Socegue V Ex. (lhe disse o bom Gregorio), que os autos estão vistos, e nelles o remedio que desejamos muito avantajado. Neste termo de autuação temos embargos de nullidade a todo o processo, porque no anno aqui mencionado antes e depois corria um decreto de Felippe IV que condemnava nullos aquelles processos começados em papel que não tivesse o sello das armas de Castella; e como alcançou o decreto este, de que tractamos, e lhe falta o sello, segue-se que está nullo.» Com esta destreza se trocaram as fortunas dos pleiteantes, e o novato se acreditou por aguia de melhor vista.

É tradição constante que serviu na côrte o logar de Juiz do Crime; e que tambem serviu o de Orphãos se mostra de uma douta sentença sua proferida em 2 de novembro de 1671, que traz Pegas no tomo 7.ᵒ das Orden., Liv. I. tit. 87 § 24. Chegou a merecer a attenção do senhor rei d. Pedro II, então principe regente da monarchia, pelo bom e particular conceito que fez da sua grande litteratura e rectissimo proceder, e d’aqui se foi engolphando em merecimentos. Com promessa de logar na Supplicação o mandava sua alteza ao Rio de Janeiro devassar dos crimes de Salvador Corrêa de Sá e Benavides, mercê que fatalmente rejeitou. Uns dizem que por temer as violencias de tão poderoso quão resoluto réu, quando no firme proposito de observar justiça: outros, que com algum atrevimento indecoroso capitulára com o Soberano a mercê antecipada do serviço, dando a entender que se fiava pouco em promessas ainda que Reaes.

Isto é o que se conta, e sempre o ouvi dizer a pessoas de melhor noticia; mas como se faz merecedor do engano (diz Camões) quem acredita mais o que lhe dizem, que o que vê, affirmarei que o doutor Gregorio de Mattos cahiu da graça do Soberano á persuasão de alguem prejudicado em suas satyras, sem que atrevida ou temerosamente recusasse mercês. Thomaz Pinto Brandão, em um resumo que faz da sua mesma vida, diz que viera ao Brazil na companhia d’elle, que se retirava descontente de lhe negarem aquillo mesmo com que rogavam a outros, e isto por ser poeta e jurista famoso:

Procurei ir-me chegando

A um bacharel mazombo,

Que estava para a Bahia

Despachado, e desgostoso

De lhe não darem aquillo

Com que rogavam a outros,

Pelo crime de poeta,

Sôbre jurista, famoso.

D’aqui infiro que invejas indignas occasionaram que o doutor Gregorio de Mattos se retirasse desgostoso para a patria d’aquellas injustiças, que de ordinario padecem na côrte os benemeritos. E com elle mesmo provarei o que digo, que é auctor sem suspeita, escrevendo umas decimas a d. João de Alencastre:

Mas inda que desterrado

Me tem o fado e a sorte

Por um juiz de má morte, &.

Esta queda do conceito de el-rei devia occasionar-lhe certo semivalido, contra quem indignado soltou o meu poeta os diques á sua musa, mostrando desde Lisboa ao mundo a mais venenosa satyra que podéra excogitar o mesmo Apollo. Sempre que leio este ramalhete de viboras me recordo do miseravel Bupalo, que desesperado de honra se enforcou por haver sido assumpto de outra menos viva talvez do que esta: cujo heroe devia de amar menos a honra, do que a vida. Foi tal esta obra, que o mesmo Soberano a decorou, fazendo glorioso apreço das suas figuradas consonancias.