A CAPITAL FEDERAL

Coelho Netto

Coelho Netto


A CAPITAL FEDERAL

(Impressões de um Sertanejo)


4.ᵃ EDIÇÃO

PORTO
Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
editores—Rua das Carmelitas, 144


1915

DO MESMO AUCTOR

Esphynge, 1 vol. 6$0
Sertão, 1 vol. $60
Agua de Juventa, 1 vol. $70
A bico de penna, 1 vol. $70
Romanceiro, 1 vol.$50
Jardim das Oliveiras, 1 vol.$50
Fabulario, 1 vol. $50
Miragem, romance, 1 vol. $60
Theatro, vol. 1.ᵒ, 1 vol. $80
Theatro, vol. 2.ᵒ $40
Quebranto (Theatro), vol. 4.ᵒ $50
Theatro, vol. 5.ᵒ no prélo
Apologos, 1 vol. $50
Mysterio do Natal, 1 vol. $50
Inverno em flor $70
O Morto, 1 vol. $60
Banzo, 1 vol. $50
A Conquista $70
Rei Negro $80
A Tormenta no prélo

No prélo, a seguir em novas edições:

O Rei Phantasma 1 vol.
O Paraiso 1 vol.
O Turbilhão 1 vol.

A propriedade litteraria e artistica está garantida em todos os paizes que adheriram á convenção de Berne—(Em Portugal, pela lei de 18 de março de 1911. No Brasil pela lei n.ᵒ 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)

Ao Revm. padre Ambrosio Coriolano d’Annunciação Louzada, vigario em Tamanduá, como humilde testemunho de gratidão, pelos severos conselhos com que fortaleceu o meu espirito e pelos cascudos com que me abriu a cabeça para que nella entrassem as regras de concordancia e os versos de Virgilio, offereço este livro.

Tamanduá, em Minas—Janeiro, 93.

Meu tio,

Ha neste livro paginas que vos pertencem, porque eu nunca as teria escripto se a minha Bôa Sorte me não tivesse guiado para o retiro de ascetismo voluptuoso onde viveis, em beato socego, praticando a moral divina de Epicuro e cuidando flores; outras ha, e profusas, derivadas da sabedoria fecunda do dr. Gomes, de quem guardo saudades e conceitos; outras, finalmente, que seriam dedicadas á Jesuina se o escrupulo não existisse na moral privada.

Offereço, porém, as minhas primeiras letras ao padre Coriolano, porque, sem elle, meu tio amado, eu seria ainda hoje tão bronco como o Venancio Dias, do rancho de Santa Engracia, ou como o José Taborda, da cordoaria.

Outros livros virão, nitidos e pensados; e, dentre elles, escolherei o mais digno dos vossos merecimentos.

Não alastro as paginas com dedicatorias: a meu pai, á minha mãi, nos meus parentes e amigos, vivos e finados, para que se não diga de mim o que por aqui se propalou a respeito do Brites, que encheu quatorze folhas da sua these sobre o «cryptococus xantogenico», com offerecimentos, envois e uma reclame a certa modista da rua d’Ajuda.

Outros livros virão, meu tio amado.

Affectuoso,
Anselmo.

I

Para estar de acôrdo com o horario dos trens deviamos chegar ás oito horas e alguns minutos á estação, e estou certo de que assim teria acontecido se não fosse o folgado e paciente atrazo de duas horas e meia, que tivemos de aturar dentro dos compridos wagons de primeira classe, nada inferiores ao carcere duro.

Desde as quatro da manhan, quando deixei o tecto paterno, sahindo para a nevoa dos campos frios, até áquella hora, andava meu pobre corpo aos solavancos, primeiro no dorso nédio da ruana, mais tarde nos bancos do expresso, tendo por fronteiros dois homens terriveis, de idéas contrarias—um rotundo, conservador e catholico, saudoso do monarcha, bramando contra a indifferença do povo, que deixara partir para o exilio o velho soberano, sem um protesto, sem um tiro ao menos; o outro, de pêra, esgalgado e nervoso, livre pensador, formidavel em theorias republicanas, contando que, nos muros da sua casa, na Januaria, havia despojos de escaramuças contra sebastianistas: chuços, arcabuzes, facas, fazendo panoplias e cercaduras em volta dos retratos dos martyres mineiros: e discorria sobre as revoluções, reclamando um baptismo de sangue, como o de 89, em França, sem o que a republica nunca chegaria á consolidação perfeita.

O conservador pacato, abrandando o diapasão, atacava o procedimento dos revolucionarios de Novembro, que haviam banido os altares, rechassando os santos—a Virgem, a consoladora, a misericordiosissima Conceição, Mãi de Deus e Amparo dos Afflictos. Podiam ter feito tudo, mas deixassem a crença de cada um.

—A crença é a republica. A Conceição é a Patria. Qual Deus! Qual Igreja, meu caro... o tempo dessas coisas passou. Havendo Constituição e Justiça, para que diabo queremos nós santos? Deixemo-nos de sentimentalismos piégas!

Veiu á questão o militarismo. O conservador impugnava a farda, queria o civil. O esgalgado investiu.

—Mas onde encontral-o? Mostre-me um homem capaz de tomar a responsabilidade do governo... Mostre-me, entre os casacas, um cidadão á altura de exercer esse cargo. E, escancarando os braços, escancellando a boca, os olhos esbogalhados: Não ha! Vamos muito bem assim, não acha o senhor? Era commigo. Encolhi os hombros para fugir á discussão. Elle tomou de uma botelha e offereceu.

O conservador, com um gesto nobre, rejeitou; eu rejeitei; e uma mocinha triste, que vinha derreada, a olhar melancolicamente a paisagem, como se por ali lhe ficassem pedaços do coração, teve um sorriso adoravel, rejeitando, por sua vez. Seus olhos castanhos, entre grandes cilios, alumiaram-me, e travámos palestra, em tom subtil e discreto, vindo eu a saber, pelo cicio dos seus labios, que era professora em Sabará, na fazenda de um tal Souza Gordo. E disse-me a sua patria—a Italia, e o seu nome, já celebre no idyllio—Graziella. E eu, a ouvir-lhe as suaves palavras, via as arvores passarem vertiginosamente, como se os campos e os montes assustados fugissem diante do comboio rapido. Emquanto andámos, não lhe percebi um movimento, um olhar que não fossem do mais candido recato. Lia—um livrinho minusculo, capa de percaline roxa e letras de ouro. Em Juiz de Fóra, offerecendo-lhe uma corbelha de figos, aproveitei a sua distracção para surprender o nome do poeta favorito—Leopardi. Era pessimista com tão angelico sorriso! Amargo seculo em que as deusas trazem philtros no bolso e seguem a seita sombria dos desesperados. Era, de certo, a idéa da morte que lhe punha nos serenos olhos tanta melancolia. Na Barra, porém, tive uma surpresa—voltando ao wagon, encontrei-a sem luvas, o véusinho levantado, trincando, com voracidade, uma côxa de frango. Corou ao ver-me, mas a fome venceu-a; e, até Mendes, fartou-se regaladamente, escorropichando, por uma calha de papel, a farofia de manteiga e ovo.

Trevas de tunneis, verduras de campos, rampas, viaductos, desfiladeiros, tudo vencemos em corrida vertiginosa, aos trancos, ás vezes beirando abysmos, ou rolando sobre pontilhões, por cima d’aguas encachoeiradas. Passavamos pelas estações num ápice; mal se podiam ver as luzes dos lampiões e os vultos na platafórma. Quando, atravéz da tela lucida dum aguaceiro copioso, avistámos os primeiros fogos da cidade, bonds, carros, todos se puzeram de pé, arranjando malas, espanando chapéus. O esgalgado respirou, safando o guarda-pó. O conservador dormia beatamente e foi preciso que o sacudissem para que despertasse.

—Chegámos, senhor barão.

Empoados, como nos tempos galantes dos Luizes, puzemos pé na platafórma da estação, claramente alumiada pelas grandes lampadas foscas que dão ao sitio uma luz de luar, pallida e triste. Dizem que os cães que ali vão errar, á noite, estacam, levantam o focinho e uivam lamentosamente. Pierrot seria capaz de enganar-se se não tivesse, como eu, prevenido o espirito com uma leitura sobre a cidade e as suas maravilhas. Entretanto, deixando o meu wagon, assoalhado de cascas de frutas e de queijo, copiosamente cuspinhado, uma variedade infinita de pontas de cigarros, algumas estripadas pelos pés barbaros e entorpecidos dos viajantes que sapateavam, despindo o guarda-pó, senti deslumbramento tal, que tive de fechar os olhos. Se eu sahia de uma sombra propicia e somnolenta para esse plenilunio de Jabloskoff! Quando abri os olhos, assombrado, estava entre homens de blusa parda e boné branco, marcados no peito com algarismos negros, que me empolgavam, que me berravam numeros e nomes, procurando arrebatar-me das mãos a bengala e a maleta. Tive um assomo de energia e repelli com um murro um «12» que se aferrara a mim, teimosamente, propondo-se. O repellão e o socco valeram-me algumas palavras más, que resolvi deixar sem resposta para tranquillidade de todos. Os homens abalaram em tumulto, correram a outro ponto. Quando vi perdidas na multidão as blusas pardas, resfolguei e, corajosamente, deitei a caminho, á luz lactescente das lampadas, bem melhores do que as da minha villa, pobre terra de barbaros, alumiada ainda pelas estrellas de Deus e pelas candeias de colza que a intendencia manda pendurar em postes, para que as estradas tranquillas não fiquem de todo abandonadas á treva, propicia aos duendes e aos ladrões de gallinhas.

Quasi á porta alguem, debruçando-se amorosamente sobre o meu hombro, segredou-me palavras doces, mas tão intimas, tão leves, que me passaram, ficando-me apenas, no lobulo da orelha, o calor acariciante do sopro que as trouxera. O que pensei em um segundo!... Quantos sonhos idyllicos passaram pelo meu espirito!... Que vasta e interessante aventura imaginou minh’alma nesse tempo rapido!... «a mocinha de Italia a dar-me o seu endereço, ou outra linda mulher...» Mas uma idéa feriu-me violentamente—o conto do vigario. Levei a mão ao relogio e voltei-me rapidamente. Era um latagão de barba ruiva e oculos: tinha a cabeça núa, uma grande fronte tostada, com um calombo ao meio, purpureo e estriado. Curvou-se com a cartola nos joelhos, um sorriso affavel no grande rosto picado de bexigas, e balbuciou, com enternecimento, como se effectivamente dissesse coisas ternas:

—Quer o patrão um carro fechado?

Tive impetos de o repellir, mas lembrei-me de que, para chegar ao meu destino, era mais prudente confiar-me ás bestas de um cocheiro do que á providencia do acaso em horas tão adiantadas.

E, aqui na intimidade inviolavel deste canhenho, confesso que admirei o homem vigilante que sahira ao meu encontro com tanta affabilidade, offerecendo-se para conduzir-me á casa. Calculei que toda a gente devia estar enfronhada no morno leito, gozando a delicia incomparavel do somno, nessa noite fresca e de chuva. Além, nesse eremiterio onde repousa o meu umbigo, ás dez horas, a não ser em casa de Marianno Gomes, onde se cartêa impudentemente o lansquenet, com pequenos intervallos de maledicencia e gole, toda a povoação, beatamente ceiada e rezada, dorme. De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa—é algum jogador, que se recolhe despojado e tropego, ou o sanctissimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do peccado, que é uma chaga terrivel que a gente cura com as drogas da philosophia ou com a boa e sadia camponia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraiso, por um caminho bem differente desse que a igreja conspicua e austera manda que se trilhe—ninguem mais.

Ás dez horas o somno parece cahir do céu sobre todas as cabeças justas.

E não é só o homem que dorme no leito antigo, largo e raso, de columnas torcidas, com flores e folhagens classicas, forrado d’alvos lençóes, que trescalam como moutas de hervas de cheiro ou na palha secca e crepitante, entre os milhos, com o cão aos pés e os grillos cantando perto; é o gado forte e é a ovelha mansa, é a ave meiga, é a mesma arvore, é a mesma agua, é a mesma estrella, é o mesmo luar porque, se a agua murmura e se as folhas sussurram, bem se póde dizer que são vozes do sonho das coisas. Velam apenas o caboré piando no tronco secco ou cruzando os ermos e as feras bravas que descem para velar, ou a farandulagem que assalta gallinheiros ou outros sitios de maior recato e perigo.

Imaginem o meu espanto, a minha surpresa quando o cocheiro, fazendo uma zumbaia e rastejando um gesto para que eu passasse, deixou-me ver uma fila de carros molhados, reluzentes, e, em todas as boléas, sob guardas-chuva lustrosos, braços que acenavam para mim, num delirio, e gente, gente a valer, como eu jámais vira na villa onde passei o grosso da minha vida, nem mesmo nos dias de feira. Imaginem o pasmo que me tomou!

Deixei-me levar pelo cocheiro, que correu a abrir a portinhola, vindo buscar-me debaixo do seu guarda-chuva, amplo como uma tenda. Quando afundei nas almofadas atirando ao homem o numero da casa de meu tio, na praia do Russell, sahiu-me dos labios tremulos esta exclamação profana, mas que exprime admiravel e eloquentemente o assombro dos meus olhos, diante de tanto guarda-chuva, de tanta luz, sem falar no rumor que me ensurdecia:

—Com seiscentos diabos! isto é que é terra! E com força puxei a portinhola. O ruivo cacarejou ás bestas e rodámos.

No toldo a chuva torrencial rufava.

II

A casa de Serapião Ribas, meu tio, melancolica e discreta, sem vizinhos lateraes, porque a isola um florido jardim de rosas e, em frente, o mar espumeja rolando e chofrando por entre pedras negras, é um confortavel chalet suisso, de boa construcção—pedra e cal, com lambrequins e agulhas, pintado de verde. Penetra-se esse retiro, socegado e pudico, seguindo as sinuosidades de um caminho de saibro, onde os passos crepitam, por entre o perfume sensual das roseiras, que fazem ao meio um bosque ameno em torno de uma casinhola rustica, feita de troncos entrelaçados, com um tecto afunilado, de colmo, onde meu tio, á tarde, bebe o seu aperitivo, lendo os jornaes, com as pernas esticadas sobre o banco de pedra.

Dá accesso á varanda uma pequena escada de marmore—tres degráus, polidos e claros como pedras de um movel fino, porque a gente, antes de pisal-os, raspa as solas dos sapatos na lamina de um apparelho, que arranca tudo quanto se levar collado á palma do calçado. Além disso estira-se em cima, no limiar, um capacho de coco, cerdoso e duro, para completar o asseio. Raspado e brunido, o hospede atravessa os umbraes da sala nobre onde os passos afôfam-se sobre um tapete amplo, ainda carregado de lans e de pelles de feras que, d’olho acceso e guela escancarada, esparrimam-se ao peso dos moveis em inercia voluptuosa.

O interior, obscuro e abafado, cheira a verniz e a fardos novos. Entretanto o asseio accusa-se immediatamente pela disposição e pelo luzimento das molduras dos quadros, porque a mobilia, que deve ser faustosa, está fresca e claramente vestida de housses brancas. Despido só um tamborete de setim azul, com um bordado de ouro, representando um corvo marinho, pensativo, num pé só, com um peixe no bico.

Enriquecido de um dia para outro em transacções felizes, meu tio que, em moço, curtiu a mais faminta miseria, regala-se gozando pacatamente as delicias da fortuna. Aferrolhou mil e tantos contos em apolices, comprou varios predios, e, estirado agora, resfolga na sua voltaire ampla, esperando, com um sorriso, o amanhan e o depois, sem a dura preoccupação do fim do mez e do caderno das compras. Tem o pão e o tecto garantido podendo, de vez em quando, extraviar-se por um extraordinario de bombance, sem risco para os dias da sua velhice amparada e serena.

É solteiro, não porque deteste o casamento—aconselha-o a toda a gente como um meio honesto e digno de aperfeiçoar a especie e consolar o espirito. É solteiro porque, no seu entender, no «seu modo de ver» o casamento é uma loteria, e, infeliz como sempre foi nos kiosques, receia que a sorte o persiga até junto do pretor e do sacerdote. Vive com dois criados de serviço, mais um cozinheiro.

Recebeu-me na sua grande sala de jantar de carvalho, forrada de encerado inglez—um lugar de gosto pelos ornatos dos moveis carregados de corymbos e de cachos de frutas, entalhados nos espaldares das cadeiras, nos florões do enorme guarda-prata, dos bofétes e dos trinchadores de marmore escuro. Pratos raros pelas paredes, naturezas mortas, iguarias a oleo e faianças de Delft e de Caldas—lagostas, uma enfiada de perdizes, uma penca de frutas, e, venerando e respeitavel, entre o luzir da louça, um relogio escuro, monotono, moroso que, de vez em vez, range e profundamente bate uma pancada soturna.

Serapião, meu tio, nessa noite da minha inesperada apparição, vestia um radiante robe de chambre de seda. A calva, nua e polida, resplandecia ao fulgor do gaz. Tinha diante do papo guloso um copo cheio de morangos e um calice de Madeira secco.

Ao ver-me, com a mala e o guarda-pó, parado no solar da sala, recuou a cadeira e, com as bochechas tremulas, como um bolo de creme, roxo de vinho e de gozo, avançou para receber-me nos braços protectores, com tal effusão, que desfez todo o meu vexame, pondo-me logo á vontade junto a um peito largo e generoso solidamente reconstituido pelos debentures.

Houve uma corrente de phrases sympathicas. Por fim, arrastando-me para a mesa, carregada de porcellanas e soante de crystaes, que echoavam ao minimo balanço do soalho, disse: que não contava commigo; e estranhou que eu não lhe houvesse telegraphado da Barra ou de Belém, para que elle mandasse á estação, receber-me, o seu landau. Dei um salto por dentro. Pois o tio Serapião... tinha um landau!

Diante de mim, um rigido criado collocou vagarosamente uma garrafa de cognac e um calice. Bebi.

O tio arregalava os olhos immensos; de vez em quando chupava o labio inferior, soprava espalmando as mãos ambas na alva toalha da mesa. Os crystaes tremiam. E eu falava da roça, da viagem, dos companheiros, da paisagem accidentada de serra abaixo.

O mesmo criado que me servira o cognac trouxe uma chavena de café, que o tio tremulamente recebeu. O servidor prudente aparou com a salva, por baixo do queixo triplice do meu obeso parente, as gottas que escorriam. Sorvido o ultimo gole, meu tio roncou de fartura e escorregou na cadeira, para baixo da mesa, deixando apenas, para contemplação dos meus olhos, o seu busto de Vitellio, apopletico e gordo.

Tentou dizer algumas palavras, mas os seus labios purpureos tremiam, deixando apenas fugir um sopro flebil. Cravei os olhos nelle, quiz sacudil-o, a pouco e pouco, porém, o sopro foi crescendo e já era um rosnar—a boca descerrou-se, a cabeça enorme tombou para o peito e um ronco sonoro, que encheu toda a sala, apaziguou o meu espirito. Não era a apoplexia fulminante, não, não era... Meu tio dormia o somno cibarico.

O criado do cognac, com um guardanapo ao hombro, andando na ponta dos pés, veiu annunciar-me em segredo que o banho estava prompto. Procurei a mala: havia desapparecido. Quiz interrogar, mas já o homem, arrepanhando um reposteiro, mostrava-me um corredor claramente alumiado, de paredes luzidas, pintadas a oleo, com medalhões representando idyllios.

—Por aqui, senhor.

Baixei a cabeça, e, voltando-me para falar ao criado, notei que todo luxo da sala de jantar desapparecera sob uma treva brusca, onde apenas restavam dois pingos de luz, e vi um vulto que se esgueirava como uma visão. O criado soprou-me:

—É ao fundo, senhor.

Agradeci com um gesto, para evitar o rumor das palavras.

Da sala escura vinha, num diapasão formidavel, o ronco do meu generoso tio que o vinho adormecera.

III

Oh meu tio!

Esta exclamação quasi infantil escapou-me dos labios quando penetrei o santuario da limpeza. Que asseio e que fausto! As thermas da cidade por excellencia deviam resplandecer assim.

Quem te dera, Lucano, um tanque como este para nelle abrires as veias! Quem te dera, altivo poeta, um interior assim, de tanta claridade e tão sonora acustica, para reboar com os versos da Pharsalia com que recebeste a Morte! Infelizmente a Arte não alcançara o requinte que hoje possue. Á vista do tanque de meu tio—onde podia nadar, folgada e livremente, uma familia de nereidas, se ainda as houvesse—que figura faria a banheira do teu suicidio, ó victima da tyrannia, ó voluptuoso e languido patricio...!

A sala vasta é toda de mosaico miudo, talhado em triangulos brancos e vermelhos; o tanque, de bordas altas, tem tres metros de comprido e dois de largo, e a gente afunda em um metro e 25 d’agua. O chuveiro é uma grande cupola de zinco, pintada de branco, com duas correntes de metal que imitam prata. A agua jorra copiosamente das guelas de dois leões de nickel—uma entorna agua fria, outra vomita agua a ferver. As paredes, forradas de marmore italiano, completamente núas. A um canto, um cabide de bronze para as toalhas felpudas e o jupon, e, em frente, numa prateleira, tambem de marmore, negro e fosco, a bateria d’oleos e de perfumes; os sabonetes, as esponjas, escovas e essencias tonicas para hygiene da pelle e lavagem das gorduras do couro cabelludo. Ao centro um espelho de nitido crystal, alto e grosso, onde se pode admirar a nudez das fórmas.

Para um canto, recatado por um biombo japonez, uma especie de ádyto, com um divan de couro, repousando em um encerado onde a gente estira longamente os membros emquanto os leões inundam o tanque. Para aquecer ha uma mesinha com um serviço de crystal: whisky, cognac, old-brandy e curaçáu. Um mono de bronze carregando ás costas um cesto atochado de charutos e brochuras de um frescor irritante (a mais pudica que meus olhos viram abria com uma esplendida mulher núa, de costas para quem olhava, os braços roliços passados por cima da cabeça farta e negra de cabellos) na capa um distico: Le nu au salon.

Ao fundo, num retiro velado por um panno de linho escuro, que corria num varão de ferro, uma caixa envernizada. Abri e pasmei silenciosamente—era tambem um objecto indispensavel ao asseio. Ao lado, numa caixa menor, um maço de papeis finos. Aclarava esse interior de gozo um lustre de seis globos côr de rosa.

Feita a visita fechei-me por dentro e, ouvindo o rumor d’agua que cahia, levantando um vapor fino como o orvalho, fui despindo a fatiota, lenta e preguiçosamente, ante-gozando a delicia da immersão tépida depois da fadiga de todo um dia em wagon.

Safando a camisa lembrei-me do ribeiro poetico da minha villa onde todos nós da familia, do mais velho ao mais novo, um depois do outro, por decencia, vamos, todas as manhans, limpar o corpo e endurecer os musculos sob a folhagem viçosa dos cajueiros em flôr.

Nú, como um grego do tempo juvenil da graça olympica, mirei-me ao grande espelho que, indecorosamente, me reflectiu da cabeça aos pés—e achei-me perfeito e forte e masculo, um modelo rijo e gracioso de Marte desnudado, um inteiriço e reforçado exemplar de homem, digno herdeiro dos Ribas. Sorri com vaidade para o crystal que começava a empanar-se com o vapor das fauces do leão fervente.

A sala estava como uma estufa—era um banho russo. Corri a refugiar-me atráz do biombo e estirei-me no divan fresco e macio servindo-me, em um calice, da garrafa vermelha que trazia, pendente do gargalo, uma chapa denunciando: cognac. Bebi e regalei-me esticando as pernas núas no couro frio.

De papo para o ar comecei a pensar na delicia da vida e achei mesquinha a casa paterna, taciturna e calada, entre arvores murmurantes, invadida pelas moscas e pelos gafanhotos, com os corredores sombrios, atravancados de sellins, ás vezes visitada pelos bacorinhos que vêm familiarmente grunhir em baixo da mesa de jantar, catando os restos do almoço. Pareceu-me triste e acanhada a existencia que eu levara nesse valle melancolico sem agitação e sem conforto, ignorante de tudo, longe de imaginar que o mundo podia proporcionar delicias de tal ordem—delicias como aquella sala de jantar, delicias como aquelle banheiro, onde meu tio tonificava as suas banhas e onde eu ia, emfim, lavar-me para entrar limpo e lepido na vida nova, buliciosa e surprehendente, que eu sentia rumorejar ao longe, nessa grande cidade atravessada, amollecida e somnolentamente, nas almofadas fôfas do carro do ruivo. Ia emfim ver o mundo.

Aquelle banheiro que ali estava era a pia onde o mais novo, o mais esperançoso rebento dos Ribas ia, contricto e nú, receber o baptismo da civilisação, deixando nagua morna a poeira dos caminhos e a barbarie da sua alma ignorante e insaciada.

Confesso que tive inveja da sorte de meu tio e lastimei profundamente os meus que lá haviam ficado chocando pintos e debulhando o grão. Que vale uma ninhada diante de uma mesa como esta que meus olhos contemplam, carregada de crystaes rutilantes? Que valem as colheitas comparadas ao gozo de um mergulho nesta piscina de marmore que me espera? Decididamente a grande sciencia do viver não consiste em saber accumular fortuna, mas em saber dissipal-a. O ideal do homem moderno é o filho prodigo. Estou certo de que a moral não condemna Harpagon senão porque o miseravel não tinha noção da sciencia elegante e fina de dissipar.

Para que ser rico sem um banheiro assim?...

Serapião, meu prospero tio, ronca, deslisa para baixo da mesa farta do teu salão de abundancia, porque estás dando ao mundo, e especialmente ao teu sobrinho e herdeiro, uma lição de savoir vivre!

Enchi de novo o calice e bebi, mas engolindo o sorvo, percebi que me enganara na garrafa: não era a vermelha, eu havia tomado a azul: old-brandy.

Desde, porém, que havia quatro, porque insistir na vermelha? O acaso dirigira o meu braço e o acaso algumas vezes opéra sabiamente e governa como uma bussola. Repentinamente lembrei-me do banho e não foi sem pena que deixei a minha posição em decubito, a mais propria do homem, segundo ouvi dizer a um sybarita das minhas relações campestres.

Puz-me de pé e, estirando os braços, todo retorcido como o Laocoonte, afastei-me do ádyto das libações. Na sala era tão espesso o vapor, que meus olhos nada distinguiram a principio—movia-me, como um deus, dentro de nuvens tenues. Por fim, sentindo nos pés uma humidade tépida, notei que a agua transbordava alagando o mosaico do santuario. Desci precipitadamente as alças fechando as copiosas guelas leoninas, mergulhei o braço, puxei pela corrente do escoadouro e a agua, que me escaldara, começou a baixar silenciosamente até que ficou em nivel para que eu pudesse molhar-me todo regaladamente, mergulhando e nadando. A fauce fria jorrou ainda alguns litros para abrandar a temperatura e o nevoeiro diluiu-se. Apanhei sobre o marmore negro um sabonete de Corydalis, uma grande esponja macia e saltei no tanque. A agua abriu-se para receber-me e fechou-se ficando apenas a flux a minha cabeça, fluctuando como uma boia.

Que delicia! Como senti, nesse momento suave da minha vida, não possuir os dotes de Simão Carreira, que tudo canta, que tudo rima: os olhos castanhos da Bemvinda e os repolhos planturosos da horta do Segurado. Elle, de certo, em meu lugar, acharia uma estrophe sonorosa e nova para louvar e divinisar a agua benigna desse tanque; elle, o sempre inspirado, saberia pagar com um punhado de heroicos a lixivia e o conforto.

Eu, porém, sem estro, incapaz da mais insignificante imagem poetica, limitei-me a esfregar a cabeça, não para acordar a inspiração adormecida, mas simplesmente para tirar a poeira... e mergulhei. Quando vim á tona trepei á borda do tanque e, á falta de quem me esfregasse, resolvi fazer eu mesmo a operação e vesti-me todo de espuma. Tive impetos extravagantes de correr ao espelho para admirar-me sob esse aspecto mousseux, mas recuei porque, Ribas anadyomay, comprehendi que não me seria facil abrir os olhos—a espuma escorria em floccos pelo meu rosto.

Atirei-me, de novo, ao banheiro e refocilei voluptuosamente. A temperatura baixara sensivelmente quando sahi gottejante para o pequeno estrado. Enfiei o jupon, calcei as chinelas de feltro e arrastei-me até junto da mesinha, onde experimentei a garrafa verde—whisky. Ia deitar-me quando bateram á porta. Acudi com pressa lembrando-me de meu tio que ficara na imminencia de uma apoplexia. Indaguei, e uma voz disse-me de fóra—que a ceia estava servida, ajuntando:

—Aqui tem vosmecê o robe de chambre para sahir.

Abri devagarinho a porta e estiquei o braço, que derreou ao peso da investidura com que eu me devia apresentar á mesa. Era uma especie de cabaia de seda, debruada a cairel de prata, com bordados extravagantes e alamares; mangas immensas e uma gola almofadada, com forro de setim côr de perola. Admirei-a e com ella recolhi-me ao biombo para vestir os primeiros linhos indispensaveis e calçar os sapatos.

Sobre a camisa e as ceroulas abotoei a cabaia que, sentindo a falta das protuberancias do meu tio, cahiu em dobras molles ao longo do meu corpo, menos fornido e mais baixo. Por compostura apertei a cinta com o cordão de seda. Dividi o cabello, alisei os bigodes e, derramando na palma da mão algumas gottas de Cherry Blossom, plantei-me diante do espelho, revendo-me sob esse trajo que me dava a figura classica de um veneziano, como os que eu vira em gravuras, dentre os quaes me ficara eterno na memoria o typo veneravel de Brabantio, pai da incomparavel e abnegada Desdemona, tão cruelmente immolada pelo mouro negro.

Cheiroso e fresco sahi para o corredor, onde me esperava o criado. Seguimos.

A sala de jantar estava de novo illuminada... mas sem meu tio. Recolhera-se de certo. Sentei-me só e em silencio.

Havia no ar um cheiro apetitoso de frituras e de flôres. Dos pratos cobertos sahia um fumego tenue rescendendo a temperos. Toda a porcelana florejada tinha o monogramma do proprietario—S. R. em ouro fosco.

O criado serviu-me a sôpa e verteu em um calice de crystal verde um vinho claro, que bebi com avidez antes da primeira colherada; e comecei a jantar desordenadamente, servindo-me de um lombo, com petits-pois, no momento justo em que o criado me apresentava um badejete, que repudiei com desprezo.

Mas o meu ataque mais sério foi á garrafeira.

Não sei dar a razão desse delirio bacchico, tão singular, tão novo em meus habitos de sobriedade. Os vinhos attrahiam-me. Depois de uma aza de frango, que apenas trinquei, fui sedentamente ao Bourgogne e enxuguei dois copos. Mas quando appareceu o Champagne, uma meia garrafa deitada sobre crystaes de neve em uma geladeira de prata, tive impetos de fazer ali assim, para o criado impassivel, um improviso sobre esse precioso vinho, que é a alma do festim, o remate requintado do gozo, o companheiro do amor. Vinho alambreado que parece cantar nas taças um dithyrambo de ouro, vinho impaciente que ferve e espuma, vinho que tem as coleras do oceano—ambrosia da nova éra, vinho vivo e intelligente, vinho que tem alma... e que eu jámais provara. Bebi sofrego.

Subitamente notei que me sentara na cadeira abbacial do meu tio. Estava explicada a minha sêde insaciavel. Os moveis adquirem os vicios de quem os possue. Aquella cadeira estava inveterada. Era repousado em seus braços que meu tio dormia o seu primeiro somno digestivo.

E foi esse confortavel movel que fez com que eu sómente readquirisse as minhas faculdades de ser ás 10 horas da manhan seguinte, quando me vieram trazer ao quarto o café e os jornaes.

IV

Lembra-me ter visto em um livro erudito este conceito:—«A embriaguez é a poesia da vida digestiva» e, se ainda me é fiel a memoria, o sabio que assim se exprime é Letourneau. Penso que tem razão o philosopho, porque Simão Carreira, que cultiva, com tanto esmero, a Arte divina de Apollo, não despreza as garrafas e os seus melhores heroicos, os versos intrepidos do seu poema Os Pincaros da Mantiqueira foram escriptos emquanto durou um quinto de Cartaxo com que o brindou o padre Coriolano. Eu, porém, de imaginação escassa e tão perro para a cadencia, soffri profundamente os effeitos da poesia estonteante, que me poz no espirito uma nuvem densa e na lingua uma saburra espessa.

Confesso que senti o pudor subir-me ás faces quando dei com o ar sisudo e grave do criado, que me apresentava cerimoniosamente um taboleiro de xarão. Puxei o lençol até o queixo e, de olhos baixos, tomei a chicara e, a pequeninos goles, fui chuchurreando até á ultima gotta. Por fim, no intuito de quebrar aquella serenidade fleugmatica do homem, aventurei sorridente:

—Bem bom café! Decididamente não ha bebida como esta.

Mas o bruto, impassivel e frio, recebendo a chicara que eu lhe entregava, sempre sisudo e grave como um preceptor, perguntou seccamente se eu queria o banho morno ou de chuva?

—De chuva, respondi humilhado e corrido. Que vergonha tive! Parecia-me que aquelle imperturbavel servidor viera ao quarto apenas para exprobrar, com o seu silencio inquebrantavel, o meu procedimento da vespera. E tinha justas razões esse criado, porque afinal... que indecencia para um homem da minha casta, herdeiro de uma tradição sem mancha, principalmente de vinhos, porque na familia o unico que bebe é meu tio, os mais, desde o meu intemerato bisavô, implicado nas conspirações patrioticas do Xavier, até meu pai, nunca foram além do côco do pote ou da calha da nascente. A adega dos Ribas, inesgotavel e pura, foi sempre a limpida fonte dos «Suspiros» numa chanfradura de rocha, velada por um bosquesinho de tayobas, fonte cujas aguas historicas mataram, em tempos, a sêde do grande Dirceu quando a paixão e a politica o arrebatavam para os ermos. E ha ainda hoje fanaticos do poeta que affirmam distinguir no murmurio da agua o nome suave de Marilia.

Cheio de vergonha saltei da cama, enfiei a cabaia e, sem olhar para a alcova faustosa, desci acompanhando o criado que me deixou á porta do banheiro.

Lavado e vestido, apresentei-me na sala de jantar, clara de sol e cheia de um festivo canto de passarinhos. Accendi um charuto e, de mãos enfiadas nos bolsos, comecei a passear de um lado para outro, assobiando uma aria rustica.

Ia admirar tranquillamente um quadro de frutas, quando o criado veiu dizer-me, muito teso, estendendo um gesto nobre para o exterior:—que meu tio estava á minha espera no jardim.

Respirei alliviado! Ia emfim fugir aos olhos daquelle Argos da moralidade. Atirei fóra o charuto e desci.

Meu tio, todo de branco, com um gorro de seda á cabeça, agachado, examinava os canteiros. Sentindo o rumor dos meus passos no saibro, que scintillava ao sol, voltou o rosto purpureo e nas suas bochechas nedias perpassou um sorriso fugitivo. Ergueu-se resfolgando, com as mãos papudas cheias de terra, de sorte que não me atrevi a beijal-as para não macular os meus bigodes lustrosos e rescendentes.

—Meu tio passou bem a noite?

—Como um abbade. E tu?

—Maravilhosamente...

Elle mirou-me dos pés á cabeça e pareceu satisfeito com o meu terno de brim pardo, não desdenhando os sapatos amarellos, que eu trouxera para «surrar em casa», como dizia pittorescamente minha santa mãi quando prégava sobre economia domestica.

—Que tal o alojamento, Anselmo?

Gabei sem reservas a belleza e o conforto do tecto hospitaleiro, creio até que o teria comparado aos palacios maravilhosos de Aladino e á soberba vivenda de Sindbad se um homem, com dois enormes regadores vermelhos, não viesse interromper o nosso colloquio. Era o Jeronymo, jardineiro. Parou um momento para dar a meu tio a boa nova do desabrochamento das camelias e, radiante, limpando com o braço o suor da testa, disse que já havia dois botões das rajadas. Meu tio felicitou-o e, como o Jeronymo retomasse os regadores, accrescentou—que as violetas estavam encharcadas.

—Não ha duvida... não ha duvida, senhor; ahi vem o sol, disse o homem. Quem dirá que hontem choveu como choveu...? A terra está secca e a planta carece d’agua. Olhe, se eu fosse outro, deixava as purpuras sem agua... mas vá Vossoria ver... a terra está mirrada, parece que a seccaram ao fogo. É verdade que ali não chove por causa do telheiro.

—E de cravos, como vamos?

—Ainda não os ha, disse o Jeronymo, consternado, e derreando-se ao peso dos regadores, foi-se, bradando a um gato que raspava a terra fofa de um taboleiro.

—Gostas de flores, Anselmo?

—Loucamente, meu tio.

E fomos caminhando para a casinhola rustica. Sobre o colmo cantava uma cigarra.

—Bom tempo, presagiou meu tio.

Haviamos chegado ao retiro do aperitivo, onde nos esperava o alcool matutino, a gotta confortavel que aquecia o estomago preparando-o para receber o almoço. Meu tio subiu pesadamente a elevação que dava accesso ao retiro, e achatou-se no comprido banco de pedra, que imitava um tronco d’arvore... e d’ahi, como Satan na montanha mostrando a Jesus as riquezas da terra, disse-me—que ali assim estavam enterrados para mais de tresentos contos.

Eu sacudi a cabeça admirado e murmurei:

—Bem empregado dinheiro!

—Não bebes? Acenei—que bebia e elle serviu-me. Virámos.

O vasto mar azul, em frente, resplandecia ao sol. Velas de barcos fugiam, muito brancas, afflorando a vaga que, ás vezes, se desfazia numa fita de espuma que vinha rolando, rolando e desmanchava-se. Aves pairavam e, subitamente, como se tivessem sido fulminadas, cahiam nagua serena. O céu limpido, de uma côr fina e translucida, estava radiosamente claro. A aragem fresca vinha cheirando á salsugem e balouçava as roseiras, perfumando-se de um novo aroma de jardins, mais delicado do que a maresia da costa. Dois pequenotes nús, muito luzidios, iam garrulamente rompendo o mar, atirando os braços; subiam na vaga inchada e alterosa, desciam no cavamento d’agua e riam como dois jovens tritões que se andassem adestrando no seio glauco do mar perfido. E, mais longe, varios cavallos, quasi afundados nagua, de cabeça alta e inquieta, eram esfregados por moços que riam ás gargalhadas; um mesmo, montado, como um centauro aquatico, obrigava a alimaria a fazer voltas, nadando, a lembrar o hippocampo das antigas lendas. Ao fundo o recorte accidentado e escuro das montanhas.

A cigarra, na grande luz tepida que dourava o colmo da casinhola, entrou a cantar e meu tio, encolhendo as pernas e servindo novos cognacs, enternecido e lyrico, disse poeticamente para attrahir a minha attenção, toda entregue ao mar infinito:

—Ouve, Anselmo, a cigarra... está chamando o sol. E eu, para dar mais força ao lyrismo, ajuntei, voltando os olhos para o alto:

—Sim, meu tio: é a cigarra que chama a primavera.

Ali ficámos muito tempo, num farniente aprazivel, beberricando, até que o criado nos veiu annunciar o almoço. Descemos lentamente. Eu vinha alquebrado de preguiça e sem apetite, sedento. A agua de um repuxo, que esguichava, iriada e cantante, excitou ainda mais a sêde do meu estomago abrasado. Parei um momento para admirar a elegancia de um cysne que circulava com garbo, abrindo, de vez em quando, ao borrifo fresco, as grandes azas alvadias, iguaes ás que, outr’ora, Jupiter lascivamente tomou, em uma das suas metamorphoses, para cingir o corpo esplendido de Leda. Atravéz da agua limpida viam-se as palmouras rosadas remando com lentidão.

Meu tio, que havia chegado á varanda, chamou-me. Não quiz partir sem acariciar a ave airosa e adiantei-me estendendo a mão para amaciar-lhe o pescoço formoso; o cysne, porém, selvagem e arisco, entrou a espadanar com as azas e, escancarando o bico, a grasnar, poz-se em attitude ostensiva, atirando-me bicadas. Deixei-o. Vendo-me partir veiu precipitadamente até a borda da bacia e, a grasnar, parecia desafiar-me. Longe, no fundo do jardim, levantou-se um alarido terrivel.

—São os gansos! disse-me o tio Serapião... e deixando a balaustrada da varanda:

—Anda dahi que o almoço esfria.

A sala rescendia. A mesa pantagruelica, alva, nitida e farta encantou-me pela profusão de flores em jarrões, por entre os finissimos copos de mussellina, espalhadas pela toalha e de um aroma tão intenso que mal deixava sentir o cheiro dos acepipes. Sentei-me á direita do meu tio e começamos por um prato que me pareceu feito de ouro liquido. O criado que m’o serviu nomeou baixinho:—Mayonnaise. Fartei-me.

Meu tio, com a boca cheia, olhou-me de certo modo e percebi que o seu olhar de epicurista, humedecido e languido, queria dizer alguma coisa; fitei-o até que engolisse o bolo que rolava na sua boca de gastronomo, inchando-lhe as bochechas:

—Um petisco, hein, Anselmo? e passou o guardanapo pelos beiços reluzentes. Eu, sem dizer palavra, arregalei os olhos, sacudi a cabeça e enchi de novo a boca. Quando bebi o vinho, que rutilava num calice diante de mim, pronunciei-me francamente:

—Com effeito, meu tio... é um prato! e elle, attrahindo uma lata de sardinhas, tambem arregalando os olhos, concordou: É um prato! A um gesto seu o criado içou os transparentes; o sol inundou a sala de uma grande claridade—crystaes e faianças scintillaram. Os canarios, deslumbrados, entraram a voar tontos, agarrando-se ás grades das gaiolas, mas a pouco e pouco, habituando-se, voltaram á tranquillidade e foi bastante que um cantasse para que o chilreio irrompesse estridulo. Pedi agua e o criado, inclinando-se, indagou baixinho se eu preferia Vichy ou Apollinaris.

—Do pote, tornei ao solicito.

—Experimenta Apollinaris. Apollinaris com um pouco de Bordéus, aconselhou meu tio e, voltando-se para o criado, com o garfo erguido e cheio de sardinhas: Abre Apollinaris...

Resignei-me. Momentos depois um estampido atroou e logo um jorro fervido inundou meu copo.

—Bebe! Bebe emquanto está quente. Levei o copo á boca e bebi... mas com que ancias...! Um effluvio de thermas subia-me ao nariz. Subitamente acudi com um guardanapo á boca, mas não tão rapido que pudesse evitar um escandalo.

—Perdão, meu tio! murmurei corado.

—Não sou inglez. Eu cá não faço cerimonias. Havias de engulil-o? disse a rir.

As carnes não me tentaram, mas fui forçado a mastigar uma febra de roast-beef e uma fatia de presunto. O tio devorava tranquillamente, sem levantar os olhos do prato.

Ao fim do almoço, saciado d’agua, afastei-me para a varanda. Fazia calor—as folhas murchavam á luz caustica e ouvia-se a voz fina do Jeronymo, que cantava aparando a grama.

Debruçado para o jardim, olhando vagamente, numa abstracção de todo o meu ser, comecei a sentir-me invadido por uma tristeza que me cahia nalma, suave e melancolica como um crepusculo.

Uma sombra interior velava a radiosa alegria do meu espirito e sem causa visivel, porque diante de mim havia a vívida e resplandecente claridade do sol, o immaculado azul e todo o verdor viçoso dos arbustos que as borboletas corriam, sentia como a aproximação de uma tormenta, as primeiras ancias da lagrima.

Indecifravel phenomeno o da visão da ausencia!...

Um véu espesso passou-me pelos olhos. Tudo que a minha vista alcançava desappareceu num momento e vi, como em scenario, num longinquo horizonte nebuloso, aereo, a paisagem silenciosa da minha terra, no valle fresco e verde, no fundo do qual escorre, quasi sem bulha, o corrego das Almas, que vai de sitio em sitio, abeberando as hortas e os rebanhos, sempre manso e sempre claro, que não o toldam senão as flores dos espinheiros que o margeiam, e essas, pobresinhas! com um leve fremito d’agua, desfazem-se, desapparecem e passam quasi invisiveis como um pollen subtil.

E a minha casa, além! bem visivel, branca no verdejante pomar, e gente na eira e gente pelos caminhos, os meus com as suas feições tão nitidas, tão perfeitamente accentuadas, que eu os fui reconhecendo a um e um, como se os visse, não atravéz da miragem meiga de minh’alma, mas na verdade fiel da vida que além vivem. Repentinamente a visão diluiu-se. Alguem chamava-me baixinho—voltei-me. Era o criado:

—O senhor seu tio pergunta se não quer ir á cidade?

—Dize-lhe que vou... e, dissimulando, passei rapidamente o lenço pelos olhos.

V

Quando desci, aprumado e airoso no meu terno de cheviot claro, meu tio roncava na casinhota do jardim, com a cabeça descahida sobre o recosto do banco, o papo em evidencia, todo molhado de suor e rubro, a boca aberta, os braços pendentes num abandono flaccido. A cartola repousava sobre a mesa e o precioso unicornio, encastoado de ouro, jazia aos seus pés como um cajado vulgar.

A impaciencia e a temperatura da hora tepida, macia e somnolenta haviam, por assim dizer, narcotisado o pobre homem. Da janella do meu quarto para onde, de instante a instante, elle levantava os olhos anciosos, eu o via caminhar ao sol, com enormes bocejos, riscando a areia com a ponta da bengala. Subiu e desceu lentamente as áleas do jardim, por fim perdeu-se e só o vi depois nessa posição pacata, refestelado, a dormir á sésta como as roseiras dormiam no silencio canicular desse meio-dia abrasado, murchas, enlanguecidas, emquanto a terra incançavel infundia-lhes a seiva vivificante para que, mais tarde, ao frescor vesperal do crepusculo, os botões despertassem e distendessem as petalas, abrindo-se.

Á porta estacionava uma victoria. O alto cavallo, negro e luzidio, escarvava fogosamente, picado pelo sol. Meu tio grugrulejou como se sorvesse uma golfada quente e esfregou os olhos.

—Boa sésta, meu tio. Elle ergueu-se molle, com os braços abertos em cruz, o ventre empinado e falou espremendo-se:

—Boa estafa é que foi. Que diabo estiveste fazendo até agora? Sacou o relogio e mostrou-me: Uma hora da tarde.

—Um trabalho para descobrir a roupa, meu tio. Arranjaram-me de tal modo a mala que, para encontrar um par de meias, tive de despejal-a.

Meu tio mirou-me detidamente e, com satisfação e vaidade, li no seu olhar—que me achara digno. Tomou a cartola e eu apanhei o unicornio para poupar-lhe o sacrificio de abaixar-se.

—Está quente! disse limpando a fronte.

—Um dia de fogo, mas lindo!

—Lindissimo! Deu um puxão ás calças olhando o céu.

—Vamos, Anselmo.

Durante o caminho parou diante de todos os canteiros examinando carinhosamente as flores, decepando galhos seccos, com uma solicitude bondosa. O criado correra a abrir o portão. Sahimos.

Ah!

As interjeições são pequeninas syntheses. Como em um atomo o olho do sabio descobre todo um mundo de complexidades, nas interjeições o arguto espirito de um grammatico descobriria todo um romance, se quizesse, e facilmente o reconstituiria. As grandes emoções manifestam-se pelo laconismo monosyllabico dos oh! e dos ah! Concisas, como são, dizem mais do que os periodos e supprem, com vantagem, o complicado artificio de que lançam mão os escriptores, artificio que nem sempre é bastante para exprimir o que sentem e raras vezes auxilia a externar o que pensam. Ah! e Oh! hiatos insignificantes, mas analysai-os, profundos mestres.

Diante de um quadro de Rubens—ah! e nada mais, alguns manifestam deste modo o seu pasmo; diante de uma mulher formosa oh!—oh! soturno e commovido, que o agudo só tem applicação nos momentos de terror. A tragedia do panico tem a sua clave: uh! Othello: oh! Macbeth: uh! Ophelia... ah! suspiroso; os Sete Infantes: ôooh! Mesmo no amor encontrareis um ah! tremulo e doce. O suspiro é um ah! isolado e, como dizem os pessimistas que o riso é ainda uma fórma da tristeza, a gargalhada é um rosario de suspiros.

Ah! e nada mais foi o que me fugiu da garganta quando me sentei nas almofadas de damasco côr de vinho da victoria de meu tio. Que regalo! E, em verdade, que podia eu dizer que désse exactamente a impressão de aconchego que senti quando me aprofundei mollemente no macio assento? Que podia eu dizer que traduzisse o gozo, quasi sensual, que experimentei senão o que veiu espontaneamente aos meus labios: ah! um doce e demorado ah! que me ficou muito tempo a brincar na boca e que eu acompanhei com uma mimica fantastica—olhos arregalados, braços abertos como se me balouçasse em ondas... Ah!

E meu tio comprehendeu porque voltou-se immediatamente dizendo:

—Molas excellentes, hein?

—Excellentes, concordei hilariante e baboso; excellentes, meu tio, e, sem que elle percebesse, levantei-me um poucochinho e deixei-me cahir para ter o gosto de afundar como afundei.

O cocheiro, um inglez, magro, raspado, retezou-se na boléa tenteando as redeas para soffrear o cavallo negro que pinoteava.

—S. Francisco, disse seccamente meu tio e logo rodámos.

Estiquei as pernas mergulhando os pés no pellego felpudo.

—Não fumas, Anselmo? E as mãos papudas offereciam-me charutos. Esgazeado e hirto de espanto entalei-me no fundo do carro. Pois meu tio... a offerecer-me charutos...! É uma cilada, disse commigo. Meu pai, com a sua moral primitiva, entende que fumar é um vicio execrando para os moços, principalmente em presença dos mais velhos. Em casa, quando me tenta o desejo de tragar uma fumaça, corro ao meu quarto e fecho-me ou desço ao pomar para não ir de encontro ao preceito paterno, que é uma herança dos maiores. Educado em principios de tanta austeridade, agradeci os charutos. Meu tio, porém, insistiu:

—Fuma, homem; já não és criança, disse num tom cheio de sinceridade que varreu do meu espirito o resto de escrupulos. Fuma—e entregou-me um charuto. Ainda assim, senti certo vexame, elle, porém, insistiu novamente, animando-me.

—Não tens phosphoros?

—Sim, meu tio; tenho aqui. Accendi o charuto e baforei para o mar a primeira fumaça dando as primicias do meu havana ao respeito, como os antigos pastores offereciam a Deus as primicias dos seus rebanhos, depois recostei-me, fumando ante as barbas grisalhas do irmão de meu pai.

O Rio começava a apparecer-me. A victoria corria cruzando-se com outros carros elegantes, onde iam senhoras faustosamente vestidas. Dos bonds espiavam-nos com interesse curioso. Eu encolhia-me para que me não vissem, ia ali assim como um deus num nicho, apenas visivel para os que, como eu, passavam luxuosamente em carruagens e que nos procuravam reconhecer. Meu tio, habituado ao luxo, ia indifferente, todo preoccupado com o seu charuto; eu não, mostrava-me, queria que as mulheres olhassem para o meu rosto rosado e fresco, para os meus olhos femininos, para os meus labios purpureos e carnudos, para os meus bigodes sedosos, para o meu largo peito forte, e que reconhecessem em mim um modelo de homem, um remanescente da idade morta, quando a força era divinisada e o musculo merecia poemas; um solido e masculo exemplar de sertanejo capaz de amal-as com mais ardencia e com mais impetuosidade do que esses rapazes pallidos, de olhos tristes, que passavam acabrunhados e exhaustos, sem viço, sem enthusiasmo, frouxos e melancolicos, sugados pelo vampiro da anemia, derreados pelas vigilias devassas.

A victoria parou. Saltámos e eu, curioso de vêr e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edificios que reverberavam á luz radiante do sol. Ao meio, sobre um pedestal negro, a estatua tosca de um homem, numa attitude cheia de solemnidade, a mão estendida num gesto classico de tribuna, como a allegoria iconica do meeting que é, em nossos dias cultos e morigerados, o escoadouro da inoffensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a effigie escura, disse:

—José Bonifacio, o patriarcha da nossa independencia e da tribuna dos comicios.

Admirei reverente o patriarcha, rijo, inflexivel, immovel no seu molde perpetuo de bronze, como a imagem do patriotismo isolada na vasta ágora, para exemplo das gerações. Meu tio, descrevendo com o seu unicornio um hemicyclo no ar, falou para despertar o meu civismo:

—Olha, Anselmo, de um lado a religião, Deus e o mysterio. É a ala santa do perimetro do nosso patriota—e levantou a bengala. Meus olhos seguiram a sua indicação e viram no alto da torre um gallo rutilante. Tive impetos de pedir a significação da emblematica... Seria, por acaso, a figuração do bicho que cantou tres vezes despertando a consciencia de Pedro na grande noite triste de Gethsemani? Mas meu tio já havia baixado a bengala.

—Aquillo que ali vês ao fundo, Anselmo, é a sciencia.

Um casarão alvadio com um terraço á frente. Mal tive tempo de admirar porque a voz grave do cicerone já pronunciava:

—Á esquerda, o commercio, a industria, o movimento... Com effeito a vida parecia decorrer do ponto indicado—bonds chegavam despejando gente, partiam cheios; carros cruzavam-se: era um vozear confuso, indistincto—pregões, appellos, silvos, tilintar de campainhas, brados. Olhei atordoado. Meu tio voltara-se para a estatua e contemplava-a extatico.

—Grande homem! disse eu.

—Grande patriota! accrescentou meu tio e voltou-se com a bengala em riste, risonho, mostrando-me uma rua em frente:

—Conheces?

—Não, meu tio, mas noto que está cheia de gente—parece que vem por ahi abaixo um oceano popular para revindictas.

—É sempre assim, disse e, com lentidão, abriu a sobrecasaca e tirou do bolso profundo um maço de papeis. O sol abrasava pondo-me pruritos na carne e meu tio, calmo e tranquillamente, suando e resfolgando, consultava os papeis. Por fim atafulhou com o maço no bolso e, vagarosamente, desdobrou diante de meus olhos uma folha de papel azul e, indicando-me uma phrase com o dedo grosso, sorriu mirando-me. Era uma carta minha e o que ali estava debaixo do pesado e humido indicador, era apenas isto—«ver a rua do Ouvidor». Sem ler mais, estremecendo, cravei os olhos na rua... e, sem uma palavra, mudo, abatido, como se me tivessem dado uma noticia de morte, suspirei.

—Uma surpresa, hein?

—Uma desillusão, meu tio, disse eu, murcho. Mas o sol ardia. Quasi torrados fomos caminhando para a desillusão, porque ali, ao menos, havia sombra e fresco. Eu ia consternado.

—Mas então... que te parece?

—A mim?

—Sim...?!

—Ah! meu tio... Póde ser que esta rua seja uma maravilha, mas infelizmente, antes de vel-a, antes de pisal-a, eu a sonhara... e o sonho, que é uma visão do mysterio, vai sempre além da realidade.

—Então... que esperavas tu?

—Eu? uma avenida como as que tenho admirado em gravuras, como as que tenho visto descriptas: com grandes casas apalaçadas, ruas cuidadosamente calçadas de marmore... architectura e gosto, arte e elegancia, e largueza sobretudo, meu tio; largueza, muita largueza... Um velhinho magro, esgrouviado, com um amplo casaco côr de castanha, surrado, tomou a frente a meu tio estendendo-lhe ambas as mãos, pallidas como as de um cadaver. Encostaram-se a uma vitrina. O velho sacou do bolso uma enorme carteira e foi desdobrando papeis, cochichando, com risinhos. Meu tio approvava com ar digno, coçando o papo. Parado em meio da rua, olhando, eu sentia cahirem dentro em mim, um a um, todos os meus sonhos ingenuos de roceiro. A multidão cruzava-se num formigamento activo; grupos chocavam-se. Havia constantemente um chapinhar de solas, fru-fru de sedas e, de longe, como um hausto perenne e sofrego, vinha um aáah surdo... De vez em vez parecia-me ouvir o rumor cadenciado e longinquo do desfilar de um exercito.

Sentia-me attrahido pelo luxo dos mostradores. Meus olhos esmerilhavam, rebuscavam, examinando as casas, da soleira á cimalha, penetrando-as, varejando-as indiscretamente com uma ganancia de imprevistos, com uma avidez de novidades... mas desciam desenganados porque a rua que eu antevira, a rua que eu sonhara... Ó divinos jardins suspensos! ó avenidas de loureiros e de anemonas! como estais longe da esplendida passagem que meus olhos viam em arroubos, quando me punha a pensar nesta viagem ao Rio e realizava, embevecido, de olhos fechados, deitado na relva, tamborinando no ventre, o meu passeio elegante pela calçada de marmore branco, refrescada, duas vezes ao dia, com esguichos d’agua de rosas. Não, decididamente eu não tinha razão—o que eu estranhava não era a rua do Ouvidor... todo esse pungitivo sentimento que me opprimia vinha da morte de uma illusão. Para os que não viram, para os que não sonharam coisa melhor, a rua é admiravel; mas para os que podem estabelecer confrontos, perdoa-me, arteria da civilisação patricia, perdoa-me, avenida da elegancia e do espirito fluminense, não passas de uma viela atarracada e sordida. O velhinho inclinou-se de novo com as mãos estendidas e meu tio voltou a occupar junto a mim o seu posto de elucidario.

—Então, Anselmo?

—Estou procurando o encanto, meu tio.

—Descança, descança, disse tomando-me o braço, elle é que ha de procurar-te. E estacando mostrou-me a rua com o mesmo gesto com que, em casa, do alto da casinhola, me havia mostrado o seu jardim: Então isto não te impressiona?

—Não, meu tio... e digo com sentimento.

—Esperavas alguma coisa como o boulevard des Italiens, como a calle Florida? acudiu Serapião, versado em guias.

—Coisa melhor! muito melhor!

O elucidario lançou-me um olhar carregado de pasmo.

—Contaram-me tantas maravilhas desta rua que não é muito que eu me confesse desilludido, porque o sentimento que, em verdade, subjugo é de indignação, a mais justa indignação contra todos quantos me atordoaram o espirito com exageradas fantasias e soberbas descripções de um fastigio incomparavel. Em casa de Marianno Gomes, o Dr. Gusmão, promotor, que parava, de vez em quando, alguns nickeis, no seu feminino palpite—a sota, durante uma longa noite de azar e de chuva, encurralando-me no vão de uma janella, falou-me, com a sua eloquencia de jury, longamente, calorosamente, ácerca da rua do Ouvidor, contando-me aventuras que havia gozado em companhia de um desembargador, homem culto e de gosto. Foi quem mais alarmou o meu espirito ingenuo, foi esse orgão da justiça publica o mais perverso e cruel dos mystificadores. O padre Coriolano que, de longe em longe, vem gozar no Rio um mez de inverno, disse-me, uma vez, em casa da Maria Balbina, que isto era como a Suburra de que fala Horacio: um lugar de vicios. Marianno Gomes, mais franco, explicou-me numa phrase sobria e devassa: «Que para a pandega não havia igual...!»

Mentiram todos: a lei, a religião e a batota. Isto é uma miseria! Nem aventuras, nem Suburra, nem pandega!

—Espera, attende, acalma a furia, Anselmo. Se ainda não a conheces! disse meu tio com um sorriso malicioso. A rua do Ouvidor tem o seu segredo de attracção e de enlevo como certas mulheres que, apezar de feias e avelhantadas, vivem perseguidas pelos adoradores. Has de concordar: ha mulheres taes; a razão? o motivo? dize... Dei de hombros e meu tio explicou com arreganho—um encanto particular, Anselmo, coisas... Depois, recompondo-se, voltou a falar com gravidade, fitando a rua: Não é bella, concordo. Vê-se que não foi traçada por um Haussmann, mas lá encantos isso tem ella... É preciso viver, conhecel-a, penetrar-lhe o segredo. Não estou longe de pensar comtigo. Isto é um becco.

—Um becco! corroborei com desprezo.

—Mas queres saber a razão principal da sua nomeada? inclinou-se olhando-me vesgo. É que ella é o centro da vida nacional. Descolámo-nos para respirar, elle, porém, puxou-me de novo: Todos os grandes factos da nossa politica e da nossa litteratura derivam da rua do Ouvidor—ella é o estuario que recebe todas as correntes, o centro para onde convergem todas as forças activas da nação e donde se escoa a seiva intellectual...

—A seiva intellectual!... exclamei recuando, e meu tio, impassivel, acastellado na sua convicção, repetiu abanando com a cabeça:

—Pois não... pois não, seiva intellectual. E continuou: Tens ali a imprensa, e levantou a bengala para uma sacada onde havia uma comprida taboleta negra com grandes letras brancas—e, passeiando a bengala como um ponteiro, proseguiu: o commercio, a industria. Firmou-se passando o lenço pela fronte gottejante: O cambio, as leis, tudo quanto orienta e desorienta o Brasil sahe daqui...

—É o laboratorio, commentei com ironia, e meu tio aceitou:

—O laboratorio, pois não. Mais ainda, vou mais longe. A meu ver a nossa fórma de governo é a rua do Ouvidor, a nossa religião é a rua do Ouvidor—as constituições, os figurinos e os actos de fé sahem deste becco. Isto é a pia lustral que consagra os factos e os homens. Esta rua echôa todos os successos do mundo como na vida physiologica o cerebro, por um phenomeno de repercussão nervosa, reflecte todas as sensações do corpo. Meu tio, cançado do rasgo scientifico, aspirou largamente e tossiu, mas a facundia voltou: As mulheres, para imporem a sua formosura, descem e sobem a rua varias vezes. Ha um talento prodigioso por ahi além... quem o conhece? Ninguem! Quantos poetas vivem ignorados por esses recantos, sem jámais alcançarem a gloria da publicidade?

—O Simão Carreira...

—Sim, o Simão... Ha por acaso alguem que conheça o Simão?

—Eu, meu tio. Conheço-o e admiro a sua inspiração, sempre nova e fertil.

—Mas... tu és uma parcella insignificante. Para immortalisar um homem só o suffragio collectivo, e a urna aqui está. Tenho certeza de que o Simão, com um dia de rua do Ouvidor, faria mais pela gloria do seu estro do que tem feito com 28 annos de trabalho modesto no canto obscuro de Tamanduá, entre os milhos. Bastava que recitasse dois ou tres sonetos. E meu tio alongou o braço: O caminho da gloria é este, Anselmo.

—Não é feito de rosas, meu tio.

Davam tres horas e o calor escaldava. Meu tio propoz um grog gelado, no Paschoal. Iamos caminhando lentamente quando dei com os olhos em uma esplendida mulher loura, alva e rosada, de preto. Nos cabellos dourados uma especie de diadema régio, com duas cristas de pennas vermelhas, como no gorro do Mephistopheles, que eu vira, em tempos, numa illustração de Natal.

—Linda mulher, meu tio!

—Divina! concordou elle estacando para admirar. A loura aproximava-se coleando por entre a multidão, attrahindo os olhos lubricos, altiva, indifferente, com um andar soberbo de rainha, o collo farto escondido por um grande leque de plumas escuras, que ella agitava com languidez, como uma grande aza. Passou por nós e tive apenas o tempo de vêr a côr innocente e doce das suas pupillas azues, mais claras do que a celagem da altura e ainda mais suaves, a boca, pequenina e vermelha, uma curva sanguinea e humida. E o aroma que ficou á sua passagem, que delicioso!... Linda mulher! tornei voltando-me para admirar o airoso passo cheio de magestade e graça.

—É uma esculptura...

—Uma esculptura, meu tio. E, trincando o beiço, nervoso, tornei á phrase: Linda mulher! com effeito... Mas meu tio, que adiantara alguns passos, vendo-me parado a olhar, absorvido no vulto que desapparecia, chamou-me:

—Vem dahi. Vamos ao grog, que está quente a valer.

VI

Fomos descendo com vagar por entre a turba, ora collando-nos ás paredes, ora desviando-nos para o meio da rua para dar passagem ao feminino. Meu tio, apezar da sua corpulencia anafada, esgueirava-se sorrateiro e agil, sem perder a linha correcta que lhe dava o ar distincto de um diplomata em férias. Eu, porém, atordoado e zonzo, parava de instante a instante, evitando os esbarros e as collisões.

Uma rotunda senhora, de roxo, o rosto placido e sumarento, côr de goiaba madura, olhos fundos, de um brilho fulvo e máu, estacou diante de mim, ameaçadora e terrivel, inchando as bochechas molles, suffocada de ira. Precipitei-me para lhe dar caminho, mas com tal desazo, que nos encontrámos, frente a frente, numa umbigada tremenda. Foi horrivel! O vexame tirou-me de todo a calma. Dei um salto para a esquerda e encontrei a senhora, fugi para a direita, e ella... Assim estivemos um bom par de segundos num balancé ridiculo, até que fui repellido para o meio da rua, exhausto e com o chapéu na mão. E a senhora passou como uma avalanche, resmungando coisas atrozes contra mim. Ó divino De Maistre, queria que visses esse exemplar nedio e colerico do teu «bello animal», queria que o tivesses um minuto diante dos olhos para que me dissesses depois em que casta dos belluinos o classificarias.

Livre, respirei um momento, enxugando o suor que rolava copiosamente pelo meu rosto e, ancioso, perdido, alonguei os olhos procurando meu tio.

A multidão... a multidão... a promiscuidade terrivel... todas as variadas escamas desse camaleão—o povo (como disse uma vez em discurso o verboso promotor Gusmão, referindo-se ás mutabilidades da opinião popular, á versatibilidade da alma collectiva)... tonteava-me e meu tio, a preciosa escama celibataria e farta, sumida, longe da minha vista... Dei alguns passos attonito, desvairado, julgando-me perdido no oceano tumultuoso da populaça que me aturdia: os homens, com os seus cotovellos, as mulheres, com os seus olhos, com os seus cabellos, com o aroma que deixavam ficar no ambiente, como um pollen invisivel para fecundar o amor. Por fim, reconheci a voz de meu tio:

—Ó Anselmo!

Voltei-me ancioso e descobri-o á porta de uma casa, acenando-me.

Corri pressuroso e, mal nos encontrámos, desabafei: Que rua, meu tio! Que garganta! Que inferno!

Elle sorriu, sacudindo com um piparote alguma coisa que trouxera da multidão na golla do casaco, e, naturalmente, puxando-me pelo braço, collocou-me junto de umas caixas de biscoutos, ao lado de prateleiras carregadas de puddings e de frascos bojudos de geléas inglezas.

—Vamos ficar por aqui. Não ha mesa por emquanto. Lancei um olhar de exame á casa. Era uma sala vasta, dividida ao meio por uma linha resplandecente de columnas, de quatro faces, forradas de espelhos. O fundo era um grande espelho corrido do solo á linha branca do estuque, reflectindo, aprofundando o interior, rumoroso e cheio. As paredes, de alto a baixo, carregadas de garrafas; por dentro de um balcão de marmore e nickel, dois homens, em mangas de camisa, sacolejavam cocktails; ao centro, uma comprida mesa de serviço. A outra parte da sala era reservada á pastelaria e aos confeitos. Pelas vitrinas, frascos de compotas, latas de conservas; sobre o balcão pratos de fios d’ovos, bolos, tortas; nos mostradores semi-abertos alfenins e doces miudos, loiros: de creme; escuros: de chocolate, polvilhados de amendoas; pastilhas em bocaes enormes.

As portas estavam entulhadas de queijos, de salames e de linguiças e nos armarios de exposição os finos bombons em caixas artisticas, ornadas de chromos e polichinellos empanturrados de amendoas, sacolas e outras coisas de formas extravagantes—tartarugas, caixas de phosphoros e um Bismarck pançudo com o nome Boissier no retrospectivo lugar das palmadas na infancia, dos pontapés na virilidade.

Um grande aquecedor de empadas, rodeado de homens que mastigavam gulosamente. Do tecto, presas por fios negros, pendiam lampadas electricas.

Não havia uma mesa—todas cheias. Grupos de rapazes, os cotovellos fincados no marmore negro, gesticulando, falando alto, riam espremendo siphons. Senhoras cerimoniosas, com o véu levemente arregaçado, chuchurreavam sorvetes. Em uma mesa um rapaz loiro, imberbe, inclinado para o companheiro, pallido, de pince-nez, lia baixinho umas tiras de papel, levantando o braço direito em gestos supremos, todo arregaçado—o companheiro tinha os olhos perdidos no fundo do copo. Caixeiros azafamados passavam com bandejas carregadas, abriam garrafas, serviam pratos. Havia um rumor confuso e, de quando em quando, um berro: cognac! um nome: Barroso! e estouros de garrafas desarrolhadas, estrepito de louça, tinir de talheres...

Meu tio, que se voltara, disse-me confidencialmente:

—Tens aqui o Paschoal!

—É soberbo...!

—É chic.

De repente abandonou-me e foi-se precipitadamente, de esguelha.

—Com licença! Com licença! para a direita, para esquerda, porque era preciso incommodar os que faziam pacatamente a sua hora de lunch ou de vermouth, para dar passagem ao seu prodigioso ventre; e foi seguindo até o fundo da casa, junto ao grande espelho.

—Temos aqui uma! Temos aqui uma! disse, chamando-me. Já havia tomado duas cadeiras quando um sujeito magro, de cavaignac, avançou com um petiz ao collo, babujado de creme. Falou com a boca cheia: «Se lhe podia ceder uma cadeira?» Mas meu tio, com um sorriso, voltou-se, designando-me ao do cavaignac, como se lhe quizesse significar: «Bem vê que não é possivel, tenho aqui meu sobrinho.»

O homem agradeceu e foi-se com o petiz que chalrava, pedindo coisas, com os braços estendidos. Sentámo-nos. Uf!

—Uma estafa, hein, Anselmo?

—Uma estafa, meu tio!

—É sempre assim. E a um caixeiro que passava com uma bandeja de sorvetes:

—Ó Barros...

—Volto já, senhor commendador. Volto já. Foi-se, equilibrando os copos e meu tio, descançando o chapéu numa vara de metal que corria ao longo do espelho, bufou esbaforido:

—Está quente!...

—Um forno!

—Amigo commendador, disseram, e eu, pelo espelho, avistei um rapagão de fartos bigodes loiros, pince-nez, sobrecasaca e calça clara, que arriava a cartola cumprimentando meu tio. Falava a umas senhoras dando palmadinhas de carinho nas bochechas de um pimpolho, que amuava ao collo de uma negra retinta, com uma touca de seda, donde pendiam até os pés duas largas fitas cinzentas. Meu tio correspondeu com affabilidade offerecendo-lhe a mesa, onde, até então, sómente havia as nossas bengalas cruzadas. Elle espalmou a mão—que esperasse.

—Quem é, meu tio?

—O Dr. Gomes de Almeida, advogado. Moço de talento e rico.

—Bello rapaz.

—Boa prosa. Has de ouvil-o. Voltei-me, porque meu tio afastara a cadeira e já estava de pé. O Dr. Gomes, radiante e de braços abertos, apertou-o com intimidade.

—Meu sobrinho Anselmo... O Dr. Gomes de Almeida, meu amigo, apresentou meu tio. Trocamos um aperto de mão e sentámo-nos. O caixeiro, que voltava, inclinou-se passando pelo marmore uma toalha felpuda:

—Que ha de ser, Sr. commendador?

—Tres grogs.

—Não, não, acudiu o doutor—para mim, um cocktail. É a minha hora e em questão de habitos não transijo.

—Dois grogs e um cocktail, repetiu o caixeiro, deixando sobre a mesa um cartão minusculo. Meu tio, dirigindo-se ao doutor, disse indicando-me:

—É a primeira vez que vem ao Rio.

—A primeira vez! exclamou elle, cravando em mim os olhos claros.

—Estive aqui em janeiro de 72, cinco dias apenas, em um hotel. Grassava a febre amarella e meu pai, que viera para matricular-me em um collegio, ao fim de tres dias, resolveu abalar, aterrado, preferindo conservar-me ignorante, mas vivo, a seu lado, para governo das suas terras. Fugimos, e justamente no dia da nossa partida, no quarto proximo ao que habitaramos, faleceu um jovem americano electricista, que viera ao Rio por conta de um syndicato, tratar de uma empreza de campainhas. O correspondente, que nos escreveu, felicitando-nos pela retirada prudente, falou do pobre forasteiro dizendo que na agonia entrara a declamar em inglez umas coisas gementes, que mais tarde soube, pelo Dr. Azambuja, serem versos de Longfellow. Esse americano agonisando solitario entre os tabiques de um quarto de hotel, revendo na agonia as paisagens da Evangelina, nostalgico na suprema angustia, nunca mais me deixou o espirito. Apezar de o ter visto apenas uma vez, á mesa, não esqueci os traços femininos do seu rosto, de uma tez dourada e rosea, macia e branca como a de uma mulher. E tomei em tal horror o Rio que, apezar das reiteradas instancias de meu tio, fui-me deixando ficar entre as minhas arvores, onde não chega a peste.

—E ainda receia? inquiriu o doutor, sorrindo.

—Não tanto, mas na multidão parece-me ver passar, de vez em vez, o americano pallido, desvairado e hirto. Para mim essa visão de allucinado é como um presagio de peste e, sempre que me falam de alguma victima do terrivel mal, vejo immediatamente levantar-se diante dos meus olhos o desgraçado moço recitando:

In the Acadian land...

—É extravagante, disse o doutor. É um bello caso de impressionabilidade.

O caixeiro fez deslisar pela mesa uma bandeja carregada de copos.

—Dois grogs e um cocktail...

O doutor sorveu um trago e, depois de chupar os bigodes, perguntou com interesse:

—E como tem achado a cidade?

—Pouco tenho visto: cheguei hontem... Mas meu tio interrompeu com uma expressão concludente:

—Não gosta. Sonhara coisa melhor.

—É geralmente o que succede. Deu-se commigo o mesmo facto, disse o doutor. E voltando-se para mim: Imaginava o Rio uma cidade artistica, monumental e nobre, com abundancia de marmores, avenidas, longos passeios abrigados sob toldos, palacios de estylo e o fausto classico. A cruzarem-se pelas ruas carros, cavalleiros; o luxo incomparavel do sonho, a sumptuosidade da fantasia, o espirito, a elegancia, a belleza, e encontrou uma cidade vulgar, sem nada absolutamente do que lhe emprestara a sua imaginação, não é exacto? Sorri, mexendo lentamente o meu grog.

—Commigo succedeu exactamente a mesma coisa. Quando daqui parti, em 80, para ter o prazer de pisar o solo trilhado pela humanidade nas suas marchas atravéz do tempo, desde a éra aryana até o periodo em que se moveram da terra de França, para as campanhas ambiciosas, as legiões que seguiam a aguia altiva de Napoleão, fui perdendo illusões a pouco e pouco. Era já com tristeza que descia a escada do navio quando chegavamos a algum porto, porque levava de antemão a intima certeza de que ia ver aluir-se um dos meus sonhos—e era fatal.

Paris, por exemplo—é um assombro, incontestavelmente... um assombro! Infelizmente, porém, o Paris que eu imaginara era o antigo, que eu vira descripto nos primeiros romances que me entretiveram as horas de mocidade—Paris dos duellos, Paris dos lansquenets, Paris das tascas romanticas, Paris das vielas escusas, onde, á noite, á luz fumarenta das lanternas, tiniam as finas e flexiveis espadas dos pagens rebatendo a rapière dos burguezes, Paris de Ponson, Paris de Dumas... É ridiculo, não é? mas infelizmente é um facto geral.

Essas impressões das primeiras leituras que nos ensinaram a devaneiar, que nos tomaram pela mão para nos mostrar a estrada azul da fantasia, não esmorecem facilmente. É debalde que procuramos suffocar esse residuo de infancia ou de imbecilidade que fica em nossa alma, lendo solidas e doutas philosophias, espanando os preconceitos com o vasculho da critica e da analyse, destruindo, com as verdades da historia, as fabulas que adquirimos na novella e no conto. Esse sedimento subsiste como germen abafado de onde, longe em longe, espontaneo e violento, rebenta um broto de sentimentalismo.

A verdade é que nós temos duas divisões—a do mundo real e a do mundo imaginario, e esta é a primeira que buscamos. É atravéz della que a Poesia entrevê o céu, ella é que torna o mundo possivel, variando constantemente a sua face. Porque é que os astros são eternamente bellos? É porque nós os olhamos com um pouco de imaginação. O Oriente, por exemplo... que decepção, meu amigo! Quando desembarquei em Beyrouth, que é, por assim dizer, a porta da Syria, senti tal aperto d’alma que a minha vontade foi voltar para a cabine, a bordo do paquete, que ainda se balouçava no porto. Tudo quanto eu julgara encontrar nessa terra ancestral estava entulhado pela civilisação, aluido pelo progresso: A industria fincara os obeliscos das chaminés, que fumegavam como em Londres, como em Bruxellas, como em Amsterdão, a patria da genebra e dos organistas. O beduino, em vez de traçar, como nos tempos historicos, o albornoz listrado, encolhia-se sentado a um canto, fumando um cachimbo Cambier, raspando com as unhas as pernas magras, vestido com um paletó côr de cinza, de golla de velludo. O degenerado que me deu cêrco pedindo solicitamente o guarda-sol e o binoculo vinha assim vestido. É verdade que encontrei um filho do deserto, authentico, mas apezar do seu trajo pittoresco de scheik, apezar do yatagan e do cinto vermelho, ruminava um francez duro, offerecendo umas pedrinhas claras de uma fonte milagrosa citada pelo Propheta.

A Palestina... uma miseria! Mas o que jámais esquecerei é o que lhe vou dizer seccamente, em quatro palavras. Quer saber o que encontrei no alto do Calvario, justamente no sitio santo em que foi crucificado o Christo? Inclinou-se todo para mim olhando-me, fixando-me como se quizesse magnetisar-me, por fim disse com um gesto, sacudindo o punho e deixando cahir palavra por palavra com força e furia:—um grande mastro com um cartaz annunciando um leilão de jumentos... Um leilão de jumentos, é exacto! E virou de um trago o cocktail.

Que quer? os homens entendem que podem encerrar todas as tradições das raças nas vitrinas dos museus, já dispensam os sitios santos da religião, porque a Luz é a sciencia. Deus começa a ser analysado como o bacillo-virgula.

Meu tio, que se sentia ferido nos seus melindres religiosos, inquiriu com uma ponta de incredulidade:

—Mas, doutor, era mesmo um leilão de jumentos? Talvez fossem reliquias...

—De jumentos, vi-os eu no Calvario. Jumentos! E arreganhando os dedos: Quatro patas, commendador. Quatro patas e orelhas! affirmou.