MANUEL

DE MORAES

CHRONICA DO SECULO XVII

POR

J. M. PEREIRA DA SILVA

RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
69, RUA DO OUVIDOR, 69
PARIZ.—AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

1866

MANUEL

DE MORAES

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MANUEL

DE MORAES

CHRONICA DO SECULO XVII

POR

J. M. PEREIRA DA SILVA

RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
69, RUA DO OUVIDOR, 69
PARIZ.—AUG. DURAND, LIVREIRO, RUA CUJAS, 7

1866

{I}

[DUAS PALAVRAS]

[AO LEITOR]

Encontra-se na Biographia luzitana do abbade Diogo Barbosa uma succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil), pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma Historia da America, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno de 1641, com o titulo de{II} Prognostico y respuesta á una pergunta de un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal; condemnado pelo tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.

Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro, accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.

Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós particularmente no supplemento annexo á obra dos Varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes,{III} repetírão sómente o que avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.

Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.

No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta os autores passados.

A chronica de Cortereal terá assim uma{IV} imitação na de Manuel de Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento da Inquisição.

Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a formula mais estimada pelo publico da actualidade?{1}

[MANUEL DE MORAES]

[CAPITULO PRIMEIRO]

Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous pontos mais interessantes da provincia; e lançar os seus olhos curiosos sobre a capital, assentada doce e preguiçosamente nos cimos de serras altanadas, que affrontão os ares; bafejada por uma atmosphera{2} encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os lados como uma habitação aerea; coroada de torres de igrejas e de edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confusão do firmamento; regada aos pés pelo riacho Tramandatahy, que a pequena distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas claras e boliçosas no seio do rio Tieté, assemelhando-se já na infancia a um monarcha poderoso quando o assorberbão as copiosas torrentes das chuvas: não póde ao certo imaginar o que fôra esta povoação nos primeiros annos do seculo XVII.

O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm do Cabo de São Thomé para o sul até encontrar as ultimas cincoenta leguas reputadas pertencentes á corôa portugueza, e que havião sido concedidas a seu irmão Pedro Lopes de Souza, edificára o arraial de São Vicente, á beira do{3} mar, povoára-o de gente laboriosa e aventureira, e passára aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas que encontrassem pelo caminho.

Seguio-se a São Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel á navegação e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se avistavão, descobrírão os Portuguezes planicies immensas e uberrimas, que se estendião voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundárão então ahi a povoação de São Paulo, perto das tabas e residencias da tribu de Tyberiçá, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e acolhêra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que pela parte{4} do Norte commettião assaltos e depredações incessantes, roubavão e assassinavão os vizinhos sem piedade e nem commiseração, e aterrorisavão com as suas façanhas as raças mansas de Carijós, e Goyanazes, que possuião as terras e florestas da parte meridional da capitania hoje denominada provincia de São Paulo.

Não se tinhão ainda derribado as mattas poderosas, que cobrião o solo, e negavão caminho. Não se havião vencido ainda as correntes rapidas e desordenadas dos arroios, que cortavão as communicações com o largo e fundo das suas aguas possantes. Não se encontravão ainda pousos e ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. Não estavão ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e jardins, e enfeitadas de flôres cheirosas, que alegrão os sentidos, e extasião com doçuras ineffaveis.

Não apparecia ainda o pittoresco arraial{5} de São Bernardo, brilhando como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos.

Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da eternidade, até que se chegasse á povoação de São Paulo, fulgurava a só natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extensão dos seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos.

Traçárão-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios da solidão. Transpunhão-se os arroios a nado, as catadupas com páos agrestes e mal afeiçoados, que se destruião e atiravão por cima d'ellas para servir de pontes de passagem.{6} Desperdiçavão-se dias e noites inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o chão humido, ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario imaginaria n'essa época que uma estrada de ferro, movida pelo vapor, levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a São Paulo, domando a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento!

Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas, esplendores e primitiva magnificencia das localidades, não resplandece porém nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de encantos e vôos admiraveis, posto diametralmente differentes?

Não possuia a povoação de São Paulo nos{7} primeiros trinta annos do seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes, mamelucos ou mestiços de branco e gentio, mulatos e pretos escravos. Erão pela maior parte as habitações simplices choupanas, cobertas de telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e não mais de trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas ruas traçadas sem o nivellamento preciso do solo exigião degráos para subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos pés pelo riacho Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada, erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie, que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de larangeiras, jaboticabeiras,{8} e varias arvores fructiferas pela quebrada do outeiro até as margens do arroio, e encostada á igreja do Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e um cemiterio já bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praça irregular bem que espaçosa.

As varias classes dos moradores se differençavão igualmente pelos costumes e tendencias. Empregavão-se os escravos nos trabalhos infimos e agricolas. Dedicavão-se os Portuguezes nascidos na Europa ou já no Brazil ao commercio e industria, á construcção e edificação de propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos defendião a povoação. Algumas ordens monasticas possuião já conventos. Mais numeroso e importante se manifestava porém o Instituto de santo Ignacio de Loyola, ao qual respeitavão{9} as proprias autoridades civis e militares, em obediencia ás ordens terminantes e rigorosas que lhes chegavão da metropole européa, recommendando-lhes todo o apoio e protecção aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da catechisação dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se reputavão os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobiça dos Portuguezes, que chegavão á povoação nos desejos e ancias de correrem atrás de minas de ouro e prata, que dizião existir para as partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Perú, e de guerrearem os gentios salvagens, que se reduzião ao captiveiro, segundo as leis existentes, quando apanhados sómente nos combates, ou convencidos de crimes.{10}

Formavão os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa, devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios, agricultores, musicos e cantores. Apprendião todos os officios, e gostavão de procissões religiosas, festas nos templos e solemnidades apparatosas. Veneravão e obedecião aos padres da companhia de Jesus como a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos tutelares. Ouvião-lhes os conselhos, attendião-lhes aos sermões e predicas, assistião nas suas escolas ás lições da lingua e grammatica portugueza, ás explicações do catechismo romano, e ao exercicio do canto e musica, com que particularmente os deleitavão os jesuitas, alimentando-lhes a fé, e moralisando-os convenientemente. Applicavão os filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos instrumentos sonoros, e ao serviço religioso.

Estava a capitania de São Vicente dominada{11} ainda pelos herdeiros do donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha, conhecidas pelos titulos de locotenentes e capitães-móres. Prestavão todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se considerava direcção politica.

Não erão raras as lutas em que se envolvião os jesuitas contra as pretenções dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos quantos gentios apanhavão, ainda que as leis não consentissem o captiveiro senão em casos particularisados. Timbravão os padres em defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fóros de homens livres. Bastantes conflictos travavão igualmente no intuito de livrar os gentios de attentados e malversações, que soíão praticar os conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades. Valião-lhes o respeito que incutião em animos ignorantes, as{12} crenças catholicas da época e que chegavão ao gráo de superstição, e das quaes os jesuitas se aproveitavão, e o apoio igualmente que prestavão aos padres as autoridades da colonia.

Como se alvoroçava a população de São Paulo ao receber noticias de Portugal e Hespanha, unidos então sob o sceptro dos Felippes de Castella? Quantas dôres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas genuflexões perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se havião apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo após do territorio de Pernambuco, ameaçando submergir o Brazil no pelago das calamidades, com levantar sobre as ruinas da religião romana o frio e schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudião povos dos arredores de São Paulo, e corrião todos os moradores, guiados pelos{13} jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e salvação, misturando-se as imprecações e lagrimas de gentios, mamelucos, brancos e escravos, que batião nos peitos amarguradamente, se infligião castigos corporaes, e apegavão-se aos santos do calendario para lhes conseguir protecção e piedade!

Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do mez de Abril de 1628, descêrão dous vultos o outeiro em que estava situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy.

Cobrião-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava já os seus annos para além do numero de quarenta. Começava-lhe a cabeça a embranquecer e calvejar, cahindo-lhe os cabellos á proporção que perdião a côr primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos agradaveis{14} apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o céo, e fixava-os a miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto, vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, noviço ainda da companhia. Dir-se-hia porém triste, abatido, acurvado por alguma dôr do espirito, e mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversação regular e séria.

Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumiára, por detrás dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clarões, que vagão indefinida e indecifravelmente{15} depois ainda que o rei dos astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima. Suave viração brincava com as folhas das arvores, perfumando e refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes do sol. De um para outro lado saltavão pelo chão timidas rolinhas, fugindo aterrorisadas sempre que ouvião o menor sussurro, e parecendo procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que encontravão.

Soárão sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havião já approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirárão immediatamente da cabeça os seus grandes chapéos de abas largas, e cortárão toda a conversação para dirigir preces ao Todo Poderoso e benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mão{16} do mancebo, e disse-lhe com pausa estudada:

—Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o serviço da religião e da companhia?

—Não me inspira vocação nenhuma para o estado,—respondeu-lhe o joven, tentando beijar a mão do jesuita, o que este lhe não permittio.—Não dirige Deos a creatura humana?—continuou depois de alguns momentos de repouso.—Se me não concede vontade e dedicação é porque me destina para outros fins.

—Serás desgraçado, filho!—retorquio-lhe o padre.—Deos não quer violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura{17} humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias.

—E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que exige o santo Instituto?—perguntou o joven, exaltando-se amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.

—Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,—repetio-lhe o velho.—Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os instinctos desregrados da natureza e da juventude.

—Que vale a devoção contrafeita?—articulou o mancebo.

Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento. Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no intuito de arrimar-se n'elle,{18} levando pelo braço e para perto de si o noviço angustiado.

—Escuta,—disse-lhe com amenidade.—Eu tambem passei pela tua idade. Eu tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado, viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes, perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi de coração. Oxalá seja Deos{19} bondadoso tambem comtigo, e te manifeste na eternidade a sua infinita piedade!

—Deixai-me igualmente gozar da mocidade,—exclamou o joven.—Siga comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.

Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo. Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e amigavelmente, e disse-lhe:

—Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo poderoso{20} te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos perigos.

Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se, pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço! Desapparecêra elle completamente.

Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja,{21} prostrou-se ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação religiosa.{22}

[CAPITULO II]

Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra{23} a Providencia. Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira. Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais salutares e virtuosas.

Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus. Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo antigo, e protector decidido.{24} Madrugára no moço o engenho, e nem-um estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas exhortações e conselhos.

Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra, prognosticava{25} maiores torrentes, pela escuridão que cobria o firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na atmosphera carregada de grossas nuvens.

Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?

Ao descer um outeiro ingreme para subir{26} aquelle em que pousava a casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.

Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força moral que lhe attrahia o respeito?

Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:—Em nome de Deos, cessai, peccadores!{27}

Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.

Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.

—Que succedeu?—perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia affeiçoar a confiança.

—Padre!—disse-lhe o homem mais tranquillo—Sou um pobre carijó, e é minha filha esta menina. Moravamos ahi,—apontando para uma infima choupana—quando tres{28} brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua, carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles, quando chegastes, e nos salvastes!

—E que sangue é este?—continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a cabeça, a face, e a camisa de algodão.

—Não é nada, meu salvador,—repetio o gentio, chegando os labios á mão do noviço.—Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora dos seus perseguidores.

—E os conhecestes?—interrogou-lhe o joven.

—São perros,—tornou-lhe o carijó.—Não lhes divisei bem os rostos, mas creio{29} que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os padres sós nos amparão e protegem!

Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra. Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento. Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel. Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na cintura e{30} com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro nem soalho de madeira.

Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles, deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em face uma da outra, e agradecendo{31} a Deos por conservar ao menos a autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.

Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos, e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.{32}

Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta.

Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.

Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.{33} Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno. Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.

—Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,—disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.

—Novidades grandes trazeis-nos,—exclamou o velho, percebendo-o.—A taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?

Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina,{34} e que o impressionou como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.

Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.

Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de Moraes com a sua conhecida repugnancia{35} de passar na companhia do gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e profundamente o irritavão.

—Antes de responder-vos, meu querido pai—disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto extremoso—Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!

A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:

—Que crime commettestes? Preciso sabê-lo{36} primeiro, porque Deos me não permitte perdoar na ignorancia!

Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendião dar passagem ás palavras.

Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.

Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:

—Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.

Levou o velho a mão á fronte despovoada{37} quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.

—Expulsárão-te da companhia?—disse-lhe desesperadamente.

—Não, meu pai,—tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.—Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão todos, que não criei nem-um desaffecto.

—Mais criminoso foste então,—retorquio-lhe o velho—porque lançaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.

—Não, meu pai,—continuou Manuel mais tranquillamente.—Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes.

—Não te entendo,—repetio-lhe José de{38} Moraes, bastante alliviado já do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.

—Não commetti um crime, meu pai,—proseguio Manuel.—Não pratiquei uma acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as forças!

Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.{39}

Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.

—Que fizeste pois?—disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.{40}

—Perdoai-me antes, meu pai,—repetio-lhe Manuel.—Promettei-me o vosso perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.

—Confessa primeiro,—continuou o velho, arredando-se de novo do pé do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.

Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias.

Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e agradecido.

—Sahe d'ahi,—gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o{41} o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.

Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:

—Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto,{42} e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!

—Nunca!—retorquio-lhe o velho com violencia.—Dediquei-te á vida dos missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da tua familia.

—Deixei-a já, meu pai!—respondeu o filho.—Esta roupeta me não pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios ao coração e ao espirito.

Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:

—Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para sempre fechada!{43}

Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.

—Minha querida mãi!...—escapou-lhe dos labios uma voz dorida.

Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.

—Manuel!—pronunciou sempre a assustada mãi.—Obedece a teu pai, volta para os teus deveres.

—É impossivel já, exclamou o noviço.

—Calai-vos, senhora!—cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava ella pronunciar.—É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!{44}

Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se revestem.

Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos. Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo. Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo para a tocar com os labios.

—Segue o teu destino, infeliz!—disse-lhe o velho.

Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a{45} porta da rua, e abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes, mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade. Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.{46}

[CAPITULO III]

Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas{47} e descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.

De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto, apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.

Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais, até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com o qual entretinha a maior intimidade.{48}

Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada, e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma refeição, para recobrar as forças perdidas.

Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e aborrida a sua existencia no mundo.{49}

Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente, procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.

Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava. Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e{50} ás vezes conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos, ou carapuças espessas.

Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e commettendo a maior algazarra.

—Não ha que fallar mais,—disse um com voz de estentor, dominando inteiramente o barulho...—Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas acclamado para nosso chefe.{51}

Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:—Viva Matheus Chagas!

Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus destinos.

—Amigos!—disse-lhes emphaticamente.—Levar-vos-hei caminho direito ao Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e{52} muito peixe nos rios para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e matárão com tanta barbaridade[[1]]. Não sabeis que o cacique Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar os bens aos gentios e assassinar-lhes{53} os filhos e as mulheres[[2]]?

—Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento cada vez mais estridente e progressivo.

—Em ordem pois, e andar para adiante!—continuou o fogoso orador.—D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da refrega[[3]]. Marchemos, amigos!{54}

Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro.

Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes, bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza a{55} estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias. Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, população e riquezas.

Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo,{56} e disse-lhe:—Não pensas que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes homens nas suas explorações?

Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.—Vá feito,—respondeu,—e já!

Não gastárão tempo em colloquios. Tomou o noviço a sua roupeta que seccára, e o seu chapéo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na cabeça um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que possuia. Promptos para a longa peregrinação, sahírão ambos da choupana, cuja porta ficou trancada, e apressárão os seus passos afim de apanharem a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante.

Ao chegar á margem do rio Tieté, lográrão os moços encontrar os aventureiros, a cuja{57} empreza pretendião associar-se. Requereu Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas, declarou-lhe a sua intenção e a do seu companheiro.

—Hum! hum!—vociferárão alguns.—Dous rapazolas, que parecem uns fracalhões, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de trabalhos e de fadigas, e não franguinhos, que irão só incommodar-nos!

—Silencio!—bradou Matheus Chagas.—Sou eu quem governa, e aceito a companhia. Teremos assim padre e sacristão!

Gargalhadas estrepitosas soárão d'entre os aventureiros. Apropriava-se de feito o dito do chefe ás vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do noviço um rubor subito. Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fôra abandonar o intento. Disse-lhe porém baixo Antonio da Costa que não{58} fizesse caso das risotas do grupo, e lançado estava o dado do destino.

Concordes assim, seguírão todos o seu caminho, acompanhando pela margem esquerda a correnteza do rio, até que em um sitio mais baixo deparárão com seis canôas de toscas e mal afeiçoadas madeiras, juntas por amarras de corda, e pregos grossos, como as jangadas modernas das costas do norte do Brazil. Embarcárão-se nas canôas, desatárão-lhes as cordas que as seguravão á terra, e largárão-nas pelo Tieté, para que as suas aguas as levassem.

Rolava o Tieté no seio de planicies admiraveis, povoadas de arvoredos gigantescos, jacarandás, louro, gurubus, cabiunas e gabirobas possantes, volteando incessantemente como serpente que se enrosca, recuando, avançando como jogo de xadrez, e lançando assim traços argenteos e limpidos através da côr verde-escura das mattas, que o cobrião{59} ás vezes com o tecto protector e hospitaleiro dos seus galhos numerosos. Pelos troncos e ramos das arvores corpulentas se atracavão igualmente mil tenues fios de parasitas, scintillando com as côres de suas flôres deleitosas, que perfumavão a atmosphera e extasiavão os olhos. Rasgavão os ares diversos e copiosos chilros de pequenos passaros, que se erguião e sumião ao rumor que fazião os viajantes. Alli gemia funebremente a juriti, e mais adiante repercutia o som vibrante da araponga, assemelhando-se ao lavrar dos ferros nas forjas das officinas. Via-se ás vezes correr assustada a cotia ligeira, e estridentes risadas dos macacos parecião zombarias de gente que chasqueava a viagem dos aventureiros.

Amarravão-se de noite as canôas ás ribas do rio. Acendião-se fogueiras para seccar a temperatura, e afugentar os animaes damninhos dos desertos. Envolvião-se nos seus{60} capotes os homens da bandeira, e dormião ao ar, e á luz opaca dos astros. Levantavão-se á alvorada, reganhavão as suas embarcações, e continuavão a sua derrota.

Havião navegado oito dias já com esta monotonia, quando percebêrão o primeiro salto do rio, cavado entre morros, e apertado pelas suas quebradas. Passárão as canôas para a terra, e as carregárão ás costas até vencerem o salto, e collocarem aonde o rio offerecia de novo facil navegação. Formava o salto uma verdadeira e perigosa cascata, pela qual rodomoinhavão e se precipitavão as aguas por entre pedras ás vezes agudas, que despedaçavão tudo quanto rolasse com a corrente atirada do alto. Exigia esta operação grandes trabalhos materiaes dos aventureiros, que a pericia de Matheus Chagas sabia até diminuir para se não cansarem.

Não poupavão aves e animaes, que lhes apparecião, roncando de quando em quando na{61} solidão o tiro das espingardas disparadas. Apanhavão ás tardes e ao cahir da noite, ao anzol, peixes exquisitos que lhes variavão o paladar, e lhes deleitavão o gosto. Jacús, tucanos, pacas e capivaras dos mattos, bagres, e surubis do rio, erão tudo regalos, com que os presenteava aquella magestosa solidão dos tropicos.

Soou-lhes um dia um assobio agudo e penetrante de animal bravio. Não lhe prestavão os aventureiros mais attenção, quando minutos depois echoou um segundo. Levantou-se Matheus Chagas, e fazendo signal de silencio, disse á meia voz aos companheiros:

—Atraca, e quietos e mudos. Temos, pelo que parece, gentio perto. Cuidado com as tocaias. São finos como lãs de cagado, e velhacos como lobos.

Encostárão as canôas á margem, e o chefe escolheu tres Carijós, aos quaes incumbio de reconhecer os signaes, e vigiar os sitios.{62}

Não se demorárão os caboclos designados. Entranhárão-se logo pelo basto arvoredo, marchando sobre folhas seccas sem que fizessem o menor ruido, enfiando pelos galhos das arvores com geito de animaes silvestres, e avançando com a ligeireza da corça.

Chegados á raiz de um outeiro, que estava a duzentas braças do sitio em que havião ficado os aventureiros, apromptando as suas armas de fogo para o que désse e viesse, deitárão-se ao chão os tres Carijós, estendendo-se ao correr do terreno. Reinava silencio sepulcral. Nem gritos de aves, ou animaes, nem barulho do rio, ou sopro de vento. Ardentissimo o sol vibrava raios abrazadores, que recolhião ao repouso os entes todos que habitavão as florestas.

Applicárão os Carijós á terra os ouvidos, para que a terra lhes communicasse o que sobre ella se passava em distancia. Em dous livros soem os gentios ler com particular attenção,{63} a terra que lhes noticia o que se passa em torno e até distante d'elles, e o céo, aonde descobrem as peripecias do tempo. Depois de um quarto de hora de acurada attenção erguêrão-se vagarosamente, e a um signal expressivo de um respondêrão os dous com breve abano de cabeça. Examinárão então o terreno, para descobrir que especie de entes o havia pisado. Voltárão para junto dos aventureiros com as mesmas cautelas, e disserão ao chefe:

—Inimigo está perto. São muitas duzias.

—Como o podeis saber?—perguntou-lhes um Portuguez curioso.

—Calai-vos—retorquio Matheus Chagas.—Sou eu o chefe, e quem governa.

Approximou-se dos Carijós, e indagou a distancia em que pensavão estar os inimigos.

—Quatro a seis tiros de frexa—respondêrão-lhe os Carijós.—Ouvimos debaixo da{64} terra o rumor dos seus pés. Apanhámos no chão os signaes de seus passos.

Havião acabado apenas de proferir estas palavras, quando cahio de cima das arvores, não muito longe dos aventureiros, um passaro atravessado por uma frexa produzindo um ruido grande por entre as folhas seccas. Correu para alli um dos Carijós, apanhou o passaro, que reconheceu por uma jacotinga, que entregou a Matheus Chagas.

Não podia haver mais duvida de que tinhão perto de si tribus de gentios selvagens. Não era porém Matheus Chagas homem de temer. Habituára-se ás correrias e á luta.

—Á tocáia tocáia,—disse elle.—Vá o padre fallar-lhes, engana-los, e descobrir-lhes o numero. E digão que o padre nos não serve!

Nomeou quatro Carijós, dous mamelucos, e dous Portuguezes. Ordenou-lhes acompanhassem em distancia, e escondidos, a{65} Manuel de Moraes. Recommendou ao noviço avançasse sem temer, procurasse os gentios, e mostrando-lhes sempre a cruz do seu rosario, lhes fallasse no céo, para que elles se persuadissem que não tinhão inimigos diante de si, mas missionarios de paz, que os pretendião catechisar.

Não trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa, deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro.

Tomárão os dous moços a direcção que lhes apontárão os tres Carijós que tinhão já reconhecido os sitios. Seguírão-lhes os passos os oito aventureiros, occultando-se para não serem vistos, e nem pressentidos pelos inimigos.

Chegárão Manuel de Moraes e Antonio da Costa á raiz do outeiro, e subírão-no até o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli apparecêrão, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que lhes annunciou{66} a existencia proxima dos gentios que devião procurar. Levantou os braços o noviço, apertando e mostrando nas mãos a cruz e o rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de onde partião as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem pessoa alguma adiante e nem atrás de si.

Deixado o outeiro, encaminhárão-se afoutamente pela veiga, que se abria, e acabava no rio. Terião marchado duzentas braças mais, quando a gritos repetidos, se sentírão rodeados de um enxame de gentios nús, tendo apenas na cabeça, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicôres de passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mãos arcos e frexas de tamanhos e feitios diversos.

Sentírão ambos os moços parar-lhes o sangue nas veias, e arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabeça, e erguidas as mãos, mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz{67} divina, e começou um discurso em portuguez, que derão os indigenas mostras de não entender, posto lhe prestassem attenção com ares de curiosidade. Curvado com humildade, e as mãos entrelaçadas no peito, como penitente, se conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as personagens que lhe havião sido confiadas.

Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos. Occupárão-se uns com o improvisado Jesuita, pegavão-lhe na roupeta, miravão-lhe o chapéo, olhavão-lhe para os grossos sapatos, espantavão-se diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravão outros no seu acolyto, e puxavão-lhe as barbas sem o menor respeito.

—Homem de paz,—exclamava Manuel pomposamente,—procuro dar-vos a paz, e ensinar-vos a religião do unico Deos, creador do mundo. Deixai, selvagens, a vida errante{68} e nomade, que vos arrasta para a perdição! Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota...

Trocárão no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia. Manifestavão os gentios suspeitas de que fosse um laço a scena a que assistião, e parecião desconfiar da veracidade do missionario.

Para desviar-lhes as suspeitas, e affeiçoar-lhes os animos, disse-lhes Manuel em guarany:

—Tenho companheiros, sim, mas ficárão longe e não vos farão mal. Somos mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos.

—Piayas desconfião, e mossacaz são fortes,—respondeu-lhe um d'entre elles.—Os brancos são máos e enganadores.{69}

—Socegai-vos,—continuou o noviço.—Os que vêm comigo são bons e amigos.

Trocárão-se signaes mutuos os indigenas. Apalpárão alguns d'entre elles os dous moços para examinarem se tinhão armas escondidas. Reconhecendo que nem-umas trazião, o que parecia cacique da tribu lhes disse com resolução:

—Padre, não vos faremos mal. Somos uma tribu e uma nação poderosa. Temos perto d'aqui as nossas tabas, as nossas mulheres e filhos, e os nossos maracás e uapis. Seguí vosso caminho tranquillamente, e não nos procureis mais, que não queremos negocios com brancos.

Sumírão-se logo em um instante com a mesma velocidade com que tinhão apparecido, deixando absortos os dous moços, que sem os verem mais, lhes ouvião todavia estridentes e repetidos assobios pela espessa floresta, os quaes devião corresponder á signaes{70} e avisos que se communicassem os gentios.

Tratárão os moços de voltar para onde estavão os seus companheiros, e descobrírão agachados por detrás de uma grande arvore os oito amigos que os seguião.

—Cuidado,—disse um Carijó.—São muitos centos. Se desconfião, mal de nós.

Deixárão o sitio e procurárão ajuntar-se aos aventureiros, que anciosos os esperavão. Ouvida a narração do successo, deu Matheus Chagas ordem para se demorarem ahi um dia e uma noite, afim de darem tempo aos gentios inimigos de se afastarem para longe das margens do rio. Passado o prazo marcado, embarcárão-se de novo nas suas canôas, e proseguírão na sua derrota empregando todo o cuidado e vigilancia.

Mais de dous mezes terião gasto já, navegando o Tieté sem que outras aventuras os houvessem perturbado, quando começárão a aperceber que o rio se alargava desmedidamente,{71} assoberbavão as suas aguas campinas extensas, cobrião parte das florestas, e corrião com maior violencia.

Appareceu-lhes pela frente dous dias depois como que uma lagôa de dimensão extraordinaria, além de cujas margens se avistavão difficultosamente as terras.

—É o grande rio Paraná,—disse um dos Carijós.—Entramos agora n'elle.

É impossivel descrever-se a magnificencia do soberbo rio. Depois de atravessar as terras de Matto-Grosso, Minas e parte superior da capitania de São Vicente, e de se ter engrossado com tributarios não menos possantes, e extremamente caudalosos, absorvia no sitio descoberto pelos aventureiros as aguas do Tieté por um lado, e as do Sucuriu, e mais o Pardo do outro, formando uma vasta e grandiosa bahia. Cosêrão-se com as suas canôas á riba esquerda do Paraná, para se não expôrem ao arrebatamento das aguas. Transpuzerão{72} outros arroios importantes, e alguns poderosos, como o Aguapehi e Santo Anastacio. Approximando-se do Paranapanema, ordenou Matheus se desamparasse a corrente do Paraná, e se tratasse de subir este seu tributario encostando-se á ribanceira do lado esquerdo. Foi então mister empregar a força das varas e remos para vencer as aguas que descião. Quatro dias de esforços bastárão para se appropinquarem á embocadura do Pirapó, que se despeja no Paranapanema.

Ao descansar das suas fadigas, partírão gentios a pesquizar os terrenos em que se achavão. Participárão na sua volta a Matheus Chagas, que havião descoberto indicios certos de taba proxima de gentios, galhos de arvores cortados, ausencia de caça e signaes de pisadas humanas. Aproveitou o chefe os avisos e destacou de novo espias para melhor e mais cuidadosamente examinarem as localidades.{73}

Dias depois regressárão os exploradores, declarando terem encontrado uma aldeia grande e vasta, com igreja, campos lavrados, bois, cavallos e carneiros pastando, e abonos visiveis de que não erão os seus habitadores gentios selvagens e errantes.

Pensou logo Matheus Chagas que estavão os aventureiros perto das povoações castelhanas de Guayrá, e raiou de alegria por notar a felicidade com que tinhão percorrido todo o Tieté sem a perda de um homem, e nem lutas com os gentios, e chegado a salvo a uma das aldeias de Guaranys catechisados, que, conforme as noticias espalhadas em São Paulo, devião conter immensas riquezas de prata e ouro, que se podião arrebatar aos Castelhanos em paga das que elles havião roubado aos Portuguezes de Aleixo Garcia.

Formou logo uma especie de campo militar com a sua pequena tropa, escondendo-o no seio das mattas mais proximas da aldeia. Tomou todas{74} as providencias que reputou precisas, e preparou-se para lhe dar o assalto, almejando encher-se de despojos e carregal-os para São Paulo.{75}

[CAPITULO IV]

Chamava-se Loreto a aldeia que tinhão em presença os aventureiros paulistas. Fôra uma das mais modernamente creadas e edificadas pelos Jesuitas, e a mais conchegada ás fronteiras que dividião os territorios conhecidos de Portugal e Hespanha. Havia o governador do Paraguay fundado Villa Real em 1557 na juncção dos rios Paraná e Piquiri, e em 1577 Villa Rica sobre o Ivahy, chamando para povoal-as os gentios guaranys; Não parecendo marchar a catechisação e{76} civilisação dos indigenas com o dominio das autoridades civis, cedeu o governo da metropole aos missionarios jesuitas as duas mencionadas aldeias, e os autorisou a organisarem outras, com que formassem a provincia denominada de Guayrá, submeltida á corôa hespanhola.

Tomárão conta os Jesuitas da direcção das duas povoações, e augmentando o numero dos indigenas que adoptárão a religião catholica, e se declarárão promptos a obedecer-lhes, estendêrão para as margens superiores do Paraná a largueza das suas posses, e a dominação da sua provincia. Santa Maria Maior sobre o rio Iguassú, São Francisco Xavier na embocadura do Imbiberalá, Arcanjos em Tayoba, Santo Ignacio no Iquatemy, São Pedro nos Pinhaes e Loreto no Pirapó, devêrão o seu nascimento aos primeiros annos do seculo XVII, e aos trabalhos exclusivos dos intrepidos discipulos de santo Ignacio.{77}

Não se poupárão os padres a fadigas. Sorria-lhes a idéa de attrahir ao catholicismo almas de gentios, e de protegê-los nos seus direitos e liberdade. Encontrando fertilissimo solo, rasgado por numerosos cursos de agua, e collocado nas duas margens do Paraná desde o Iguassú e o Igurey até o Paranapanema e Pardo, e copiosa quantia de gentios mansos e submissos, que por alli residião, começárão o edificio de um Estado independente no proprio centro dos dominios portuguezes e castelhanos da America.

Lográrão da corôa hespanhola prohibir a entrada na provincia de Guayrá a Europêos, qualquer que fosse a nação a que pertencessem, afim de lhes retirar o contacto dos innocentes indigenas. Á frente de cada uma aldeia collocárão um cura e tanto mais padres e irmãos quantos necessarios para a sua administração e regimen. Era o cura a autoridade principal, e poder executivo da missão,{78} tanto na parte civil como na ecclesiastica. Prestavão-lhe preito diversos funccionarios escolhidos d'entre os gentios, e incumbidos de funcções distinctas. Um corregedor, um lugar-tenente, dous alcaides, um porta-bandeira, sete administradores, um secretario e varios caciques possuia cada uma aldeia, além de officiaes de corpos milicianos, que os padres organisavão e disciplinavão. Dividião-se os gentios em officios. Applicavão-se á agricultura, que se compunha da canna de assucar, matte, trigo, algodão, feijão, milho, anil e tabaco; a fabricas de farinha e officinas de serralharia, carpintaria e outros misteres. Aprendião o manejo das armas de fogo. Formavão uma communidade em que erão iguaes os deveres e direitos.

Recebião os padres nos seus armazens todos os productos da industria dos habitantes da aldeia. Remettião-nos pelos rios e em balsas para Santa-Fé, Buenos-Ayres e ás vezes directamente{79} para Hespanha, aonde erão vendidos, e aonde se compravão os objectos precisos para as necessidades e commodidades dos gentios. Do saldo tiravão a quantia correspondente ao imposto de um peso annual por cabeça de gentio catechisado, o qual competia e se entregava ao governo de Hespanha, segundo a estatistica organisada pelos curas, que para defraudar a corôa não incluião nas listas os menores de vinte annos, as autoridades em exercicio, e os proprios doentes. O que restava ainda se remettia ao geral do Instituto residente em Roma.

Separavão-se nos trabalhos as mulheres, os homens e as crianças, fixando-se a cada um a parte que lhes cumpria executar no dia. Os sós casados vivião na mesma choupana, formando-se quarteirões destacados e particulares para os solteiros e viuvos, para as donzellas e meninos.

Dominava sobre os curas das aldeias de{80} Guayrá o collegio dos Jesuitas fundado na Assumpção, ao qual prestárão obediencia todos os varios nucleos da companhia estabelecidos nos territorios do rio da Prata e seus tributarios até que em Cordova se creou a séde principal do Instituto, e se deliberou a residir ahi o seu principal, assistido por quatro consultores ordinarios e tres extraordinarios, estendendo a sua autoridade sobre os demais collegios espalhados pela America meridional. Existião nos collegios seminarios de instrucção primaria e secundaria, e os dominios hespanhóes de Buenos-Ayres, Paraguay e Tucuman chegárão mais tarde a contar em seu seio cerca de trezentos padres e cem irmãos, além de numerosos noviços.

Erão semelhantemente, e segundo o mesmo plano, edificadas todas as aldeias. Uma grande praça, quadrilatera na extremidade, terminada na ultima linha pela igreja no centro, tendo ao lado direito uma torre,{81} a casa dos Jesuitas, e os armazens que guardavão as mercadorias, e á esquerda o cemiterio, e a habitação das viuvas e donzellas, que se separavão desde a infancia da companhia dos pais e da familia. Quatro cruzes grandes, postadas nos cantos, e uma columna elevada no centro, coroada pela estatua da santissima Virgem, ornavão a praça, á qual em linhas regulares e direitas communicavão as differentes ruas em que se partia a aldeia, povoadas de ambos os lados por predios iguaes na architectura exterior e interior, e cobertos de telhas vermelhas.

Usavão os varões de camisa, calça, ponche e barrete de algodão, e as mulheres de camisa comprida, chamada tipay, sem mangas, apertada ao pescoço e á cintura. Andavão todos de pé no chão, e se permittia apenas aos caciques e funccionarios trazerem os bastões designatorios dos seus cargos particulares.

Mantinha-se a mais perfeita igualdade nos{82} trajos e objectos concedidos aos gentios, nas rações e trabalhos que se lhes fixavão.

Praticavão os corpos milicianos exercicios de guerra aos domingos, ensaiando-se no esgrimir as espadas, disparar tiros, despedir frexas, e atirar com fundas pedras lavradas á maneira de bola. Terminado o exercicio, se recolhião as armas aos armazens, e se conservava a população sem o menor elemento de defesa.

Além da escripta, leitura e arithmetica, ensinavão os padres a musica e o canto, e formavão artistas para as solemnidades e festas da Igreja e da communidade, com a que captivavão os gentios, que se mostravão, em geral, propensos ás artes liberaes.

Acordavão os gentios ao som do sino da igreja, que lhes annunciava a alvorada do dia. Reunião-se para as preces. Seguião depois para os seus trabalhos respectivos guiados pelos seus fiscaes. Erão os castigos infligidos aos{83} delinquentes por um tribunal composto das autoridades da aldeia, sob a presidencia do cura.

Andava assim governada a provincia de Guayrá na época em que Matheus Chagas penetrou em seu territorio com a bandeira ao seu commando, e que foi uma das primeiras dirigidas pelos aventureiros paulistas contra as missões jesuiticas do Paraná superior, e cujos assaltos posteriores as destruírão por tal fórma, que os padres convencêrão aos gentios da necessidade de abandonal-as inteiramente, retirar-se para territorios inferiores do rio, e formar ahi novas aldeias, aonde escapassem ás correrias dos seus inimigos, que elles denominavão de mamelucos.

Observámos já que Loreto era a mais afastada reducção dos dominios castelhanos. Conteria oito ruas com uma população de duas mil almas de ambos os sexos e todas as idades.{84} Estavão cultivados os campos em roda, e offerecião abonos claros de prosperidade. Pastavão tranquillamente animaes domesticos. Vivião quietos os gentios da aldeia, sob o regimen communista dos missionarios, e nem-um acontecimento alterára ainda a paz de Loreto desde a sua fundação.

Não tinhão porém os Portuguezes de São Paulo, e nem portanto os aventureiros exploradores, o menor conhecimento dos feitos dos Jesuitas e da situação e estado das reducções da provincia de Guayrá, desde que passárão para o poder temporal, espiritual e exclusivo da companhia. Pensavão ainda, dando credito ás ultimas noticias espalhadas, que os gentios desejavão soccorros dos Portuguezes para combater os Castelhanos, e estes possuião ahi prata e ouro em quantidade, produzida pelos terrenos proximos sem grande trabalho do homem. Não excedião as idéas moraes dos colonos portuguezes de então{85} as idéas dos Hespanhóes, posto fossem menos crueis e barbaras. Nutrião porém aquelles contra estes grandes sommas de odio, quer pelos interesses contrarios de vizinhança na Europa e America, quer por estar o reino de Portugal avassallado n'esse periodo ao de Castella, e formar uma provincia da monarchia hespanhola desde o anno de 1580, em que Felippe IIº o acurvára ao seu jugo pela força e violencia, e o mantivera e legára aos seus successores castelhanos com tradições de terror, que irritava o povo lusitano, e o desesperava cada vez mais contra o dominio do captiveiro, incitando-lhe constantemente os brios para se levantar e recuperar a sua independencia.

Repousava portanto a razão principal dos assaltos dos Portuguezes de São Paulo contra as missões de Guayrá no desejo de guerrear mais aos Castelhanos que aos gentios, ainda que não poupassem a estes pela cobiça de escravisa-los{86} e vendê-los, afim de lograrem vantagens proveitosas.

Scientificado Matheus Chagas pelos seus espias da situação do Loreto, prohibio aos companheiros dessem o mais pequeno indicio da sua presença, afim de não levantarem suspeitas, e nem alterarem o socego de que os inimigos gozavão. Incitou os aventureiros a atacarem a povoação, que em sua opinião possuia riquezas extraordinarias. Applaudirão-no todos, á excepção de Manuel de Moraes, que exigia reconhecer primeiro se erão contrarios ou amigos, pois que o ultimo caso lhe parecia acção má e digna de castigo do céo. Desprezárão-lhe os companheiros o aviso, e ao amanhecer de um dia, logo que Matheus Chagas notou que a maior parte dos habitantes estava occupada fóra da aldeia, e descuidados os que n'ella permanecião, deixou a guardar o campo alguns que lhe parecêrão mais fracos, e entre elles o proprio{87} noviço, e partio com a sua gente aprestada para o combate.

Encontrárão primeiramente no campo cerca de cincoenta gentios, que reconhecendo inimigos deitárão a fugir para a aldeia. Perseguírão-nos os aventureiros, e entrárão todos na povoação quasi ao mesmo tempo, no meio de um infernal alarido. Tentárão os indigenas defender-se, e comquanto resistissem com furor e denodo, achando-se sem armas, por estarem ellas guardadas nos armazens da companhia, cortava vigorosamente o ferro dos aventureiros por seus corpos, e bastárão poucas horas aos Portuguezes para se apossarem da povoação, que a maior parte dos gentios abandonou logo. Amedrontára os padres e os Guaranys o inopinado do ataque, e cahira em poder dos aventureiros cópia numerosa de gentios, que forão a pouco e pouco amarrados e trancados nas casas, havendo corrido sangue bastante{88} na luta e na perseguição dos fugitivos.

Senhores os aventureiros da povoação, cuidárão em examina-la. Descobrírão nos armazens mantimentos de boca, armas de fogo, munições de guerra, instrumentos de combate, roupas e vestes, aguardente, e muitos outros objectos de valia. Encontrárão na igreja lampadas, castiçaes de prata, e preciosidades agradaveis. Saudárão com vivas estrepitosos o seu triumpho assignalado. Espantárão-se porém de não deparar com Hespanhóes, que pensavão dever alli existir igualmente.

Passou Matheus Chagas ordens apertadas para que se regularisasse o serviço. Mandou vir do seu campo os individuos que lá deixára. Contou e separou os prisioneiros, pela maior parte caciques velhos, mulheres e crianças, que se não tinhão podido evadir, e dividio os presos por diversos sitios guardados{89} com sentinellas. Tratou de recolher e ajuntar os objectos, e tomou providencias e cautelas para responder aos que ousassem retroceder, e roubar-lhe os fructos da victoria.

Conhecendo porém que estava em paiz inimigo, e se não deveria prudentemente alli conservar, applicou toda a sua attenção ao aproveitamento do que pudesse conduzir comsigo, tencionado a desamparar quanto antes a aldeia. Cumprindo partilhar os despojos, consistentes em preciosidades, armas, roupas, animaes, e prisioneiros, manifestárão-se pretenções oppostas, que quasi degenerárão em uma luta civil, teimando cada um dos aventureiros no desejo e cobiça de receber o mesmo objecto. Conseguio o chefe pôr cobro ás pretenções exageradas, fazendo approvar a ideia de uma especie de loteria ou sorte para a divisão immediata dos prisioneiros, animaes e vestimentas, guardando-se em{90} deposito as cousas de valor para serem rateadas em São Paulo.

A cada um tocára um numero correspondente a lote quasi regular e igual. Declarou Moraes que se contentava pela sua parte com os prisioneiros velhos, mulheres e crianças, que erão incapazes de ser transportados, porque náda queria aceitar na partilha, e preferia conceder-lhes a liberdade, e deixa-los em socego. Não entrou assim na loteria organisada, e cuidou logo em dar mantimentos e consolar aquelles infelizes, que lhe agradecêrão fervorosamente a caridade, tanto mais espantados quanto lhes aterrorisavão as imaginações as noticias que entre elles propalavão os padres de que os mamelucos de São Paulo ajuntavão á cobiça ferocidade exaltada, e não tinhão a menor idéa de religião e piedade.

Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe pertencia, preparou-se{91} Matheus Chagas para deixar a aldeia. Não raiavão ainda os primeiros arrebóes da madrugada quando começou a bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos mamelucos.

Não tinhão ainda sahido de todo da povoação, quando estouros fortes e prolongados se ouvírão, e logo após signaes de incendio que rebentára em varios pontos extremos da aldeia. Crescêrão os fogos amiudados, e uma nuvem espessa de fumaça encheu ao principio os ares, que se aclareárão paulatinamente com as luzes do incendio.

Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais pesada e quente. Amedrontárão-se os aventureiros, ignorando se o acaso ou deliberada intenção dos gentios causára o incendio ameaçador. Apressárão-se{92} em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas aos aventureiros se prevenissem de ciladas.

Multiplicavão-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que rijamente assoprava. Illuminárão-se horrivelmente a aldeia, os campos e florestas adjacentes. Gritos espantosos atroárão os ares como se formassem uma infernal orchestra. Estalavão os tectos e portaes das casas, rolavão por terra pedaços dos edificios, telhas soltas, paredes desmoronadas. Atopetavão-se as ruas com destroços, que impedião a livre passagem, e davão immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem.

Parte d'elles se semeava já por fóra da povoação, e a retaguarda tentava dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavão adiante.

A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor produzido{93} pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas chammas, que esclarecião a aldeia e envolvião a parte superior do horizonte em nuvens negras, descortinárão os olhos dos aventureiros paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzerão por diante; lhes atacárão os flancos, apparecêrão por detrás, e lhes circumdárão os caminhos.

Travou-se uma peleja sem ordem, sem direcção, e nem regularidade. Cada um dos aventureiros tratou de combater como pôde, apercebendo-se emfim da cilada que lhes tinha sido traçada, e descobrindo que se havião introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de fóra, para coadjuvarem os que devião correr em soccorro do arraial. Nem lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda, abrião-lhes as fileiras, zunião-lhes pelos ouvidos, ferião-lhes companheiros,{94} matavão-lhes amigos, ao lado, atrás, adiante, e perto. Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de faca e punhal, succedêrão ao primeiro ataque, e lhes trouxerão a luta de corpo a corpo, e de homem a homem, que é a mais cruel e ceifadora de vidas.

Terrivel espectaculo, que illuminavão por vezes as chammas estridentes do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em angustias doridas. Echoavão gemidos, exclamações, algazarras, sons de ferros, e estrepito de fusilaria.

Tropeçava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com cavallos e mulas carregadas. Cutilavão-se mutuamente Portuguezes e mamelucos, Carijós e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja até que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento.

Notou-se então uma scena tristissima de desolação.{95} Desde as ruas extremas da aldeia até não pequena distancia do campo contiguo, aonde chegára a vanguarda dos aventureiros, cobrião o solo cadaveres de homens e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os proprios combatentes.

Poucos aventureiros lográrão salvar-se pela fuga. Sua maior quantia ficou estendida e morta no campo da peleja; raros forão os prisioneiros, e todos feridos mais ou menos gravemente. Havião os Guaranys vencido, e vingado a sua anterior affronta. Tratárão as suas autoridades de dar fim á luta, e de restaurar a aldeia, apagando o incendio, tomando posse d'ella, recolhendo o que pudessem salvar das garras dos aventureiros, pondo ordem no povo, e fazendo enterrar as victimas do combate.{96}

Achavão-se numerosos individuos de um e outro partido entre os cadaveres. Matheus Chagas, Antonio da Costa, e varios outros dos principaes aventureiros perecêrão na peleja. Quatro ou cinco Paulistas feridos se tirárão do meio do campo, e se recolhêrão á prisão. Era Manuel de Moraes um d'estes ultimos infelizes. Recebêra uma frexada no braço, e uma bala de espingarda na perna. Não o ameaçava perigo, mas soffria dôres agudas e penetrantes.

Confiárão-se os prisioneiros aos fiscaes do hospicio, com instrucções para os curarem e guardarem até que se decidisse a sentença dos competentes juizes, incumbidos do seu julgamento. Quando se restabeleceu Moraes das suas feridas, soube com dôr e magoa que os proprios companheiros, que tinhão ficado igualmente prisioneiros, havião já expirado nas prisões respectivas por não poderem resistir á gravidade dos seus ferimentos.{97}

[CAPITULO V]

Não foi longo e nem demorado o processo de Manuel de Moraes. Depuzerão em seu favor varios caciques e mulheres, que summariárão os seus actos de humanidade durante a occupação da aldeia pelos Paulistas aventureiros. Valêrão-lhe tão significativos testemunhos, e o proprio habito com que se cobríra, e o fizera reconhecer por membro da companhia de Jesus. Determinou a sentença lavrada pelo tribunal respectivo que fosse expulso da aldeia, enviado para Santa-Fé, e{98} ahi entregue ao provincial dos Jesuitas para lhe impôr as penas que julgasse necessarias, attenta a sua qualidade de noviço que abandonára o Instituto de santo Ignacio, e se alistára nas bandeiras dos aventureiros paulistas.

Acompanhado por Guaranys armados seguio Moraes por terra para Villa Rica, que distava não menos de sessenta leguas de Loreto. Conservárão-no ahi preso os padres da povoação por mais de dous mezes, esperando que se apromptassem as balsas que tinhão de expedir para Villa Real com generos e objectos de mercancia.

Embarcou-se emfim Manuel de Moraes, confiado a um irmão da companhia, por nome Cialdini, e a mais de trinta Guaranys, que servião de guardas, e marinheiros dos barcos numerosos que partião carregados de productos da industria das reducções. Descêrão o rio Ivahy, povoado de arvoredos{99} frondosos. Penetrárão no Paraná, e logo que descobrírão a ilha grande, tomárão a embocadura do Pequiri, e atracárão á Villa Real, que repousava docemente á margem d'este rio, e constituia a reducção mais importante e populosa da provincia de Guayrá, governada pelos Jesuitas. Não podião ahi as balsas continuar a descer as aguas do Paraná, porque começava um enormissimo salto, conhecido pelo nome de Sete Quedas.

Nem-um espectaculo, por mais soberbo e admiravel, extasiava tanto os olhos dos viajantes como o da famosa cascata que n'este sitio formavão as aguas do rio Paraná. Dividião-se para deixar erguer-se do seu seio uma ilha espaçosa, coberta de florestas espessas e sombrias, que contrastavão magnificamente com a claridade das aguas, precipitadas á roda. Reunindo-se de novo as massas poderosas do liquido elemento, recuperavão uma largura e extensão de mais de duas mil braças. Ião-se{100} depois estreitando, aprofundando o solo, e aterrorisando com rumores espantosos e roncos estridentes. Apertavão-se em menos de quarenta braças, e arrojavão-se então de uma altura superior a quatrocentos palmos até cahirem em uma bacia estupenda, que formava um lago de quasi duas milhas de diametro.

A oito leguas de distancia se percebia o ruido da cascata. Uma poeira humida levantavão as aguas á elevação grandiosa, formando atravessada pelos raios do sol os arcos iris mais harmonica e variadamente coloridos que se podião imaginar.

Pullulavão na enormissima bacia coroada de densas e phosphorescentes nuvens de vapor ilhéos numerosos, repletos de arvores gigantescas, que matizavão a scena com delicias ineffaveis.

Rolavão ainda de novo as aguas por sete precipicios seguidos, carregando comsigo{101} jaguáras pardas e pintadas, antas, serpentes hediondas, e toda qualidade de animaes do sertão, que se acoutárão nas ilhas durante as seccas, e não tiverão tempo e nem forças para nadar e evadir-se, apenas começárão as aguas a avultar e engrandecer-se. Acolhia-as com gemidos profundos, ecchos dolorosos e repetidos, uma segunda cratera, inçada de picos e rochedos, que parecião erguer-se, e pretender, como os Titães antigos, escalar os céos, resvalando-lhes pelos flancos raios repentinos de luz, que produzia o reflexo do sol por entre a fumaça das aguas, e que se afiguravão de longe verdadeiros coriscos durante o dia, e edificios de pedra alvissima através da escuridão da noite.

Não se podia ahi fallar, porque se sumia a voz humana ao estrondo rouco, monotono e sombriamente horrivel da cascata portentosa.

Mais de tres mezes se demorou Moraes em Villa Real, occupado, pelos padres que a dirigião,{102} no serviço da Igreja e das cousas sagradas, posto persistisse em assegurar-lhes que não volveria mais para o Instituto de santo Ignacio, comquanto guardasse no peito as mais gratas e saudosas reminiscencias pelo acolhimento que recebêra, instrucção que adquiríra, e sympathias que alcançára.

Seguio então por terra com copiosa caravana de gentios, e animaes carregados de mercadorias, para a povoação de Santa Maria Maior, edificada á margem quasi da barra do rio São Francisco na sua absorpção pelo Paraná, e abaixo do salto das Sete Quedas. Tornárão todos a embarcar-se n'este sitio em novas e numerosas balsas, que dirigir-se devião directamente para Santa-Fé, visto que a navegação não offerecia obstaculos mais e nem perigos. Conservava-se Moraes guardado tão cuidadosamente como o fôra desde o Loreto, gozando comtudo da companhia do irmão Cialdini, cùja pratica interessante lhe ganhára{103} cada vez mais o affecto e sympathia.

Cerca de um mez gastárão na descida do Paraná até onde elle recebe o curso do Paraguay engrossado pelas aguas do Vermelho, e cujas barras se denominão das Tres Bocas.

Extasiára-se Manuel de Moraes diante d'essas scenas variadas e sublimes da natureza, e da magnificencia deslumbrante do rio. De um e outro lado florestas virgens, copadas e gigantescas, que provavão a uberdade do solo; rios poderosos que se vinhão ajuntar ao Paraná, que já por si assoberbava os olhos e a imaginação com as grossas e caudalosas massas de agua que rolava, e que se dirião de um vasto oceano; aves de todos os tamanhos, fórmas e coloridos, guarás, anuns, e garças, esvoaçando ao rumor dos remos, e grasnando amedrontadas, para se esconderem nos galhos viçosos do resplendente arvoredo ou se entranharem nos brejos reconditos; jacarés enormes, dormindo ao calor{104} do sol, e que saltavão de subito das ribanceiras, e mergulhavão no vasto pego, como em fortaleza segura.

Mais que o dia claro e limpido deslumbravão as noites deleitosas no seio das solidões. Que painel primoroso e divino quando os raios merencorios da lua, entornando uma luz melancholica por entre as folhas do arvoredo, que sombreava as aguas do rio, scintillavão phosphorescentemente por cima da sua superficie, formavão espelhos estrellados de ouro e prata, e reflectião o horizonte com todos os seus toques magistraes e voluptuosas ondulações!

Atravessárão-se sitios desertos e inexplorados então, e aonde os proprios Jesuitas fundárão depois missões novas, para acolherem os Guaranys atropelados constantemente na provincia de Guayrá, que abandonárão por fim aos Paulistas aventureiros. Em uma e outra margem existem hoje os povos de Corpus Christi,{105} Candellaria, Itaqui, Santa Clara, Trindade, São Cosme, e outras aldeias edificadas pelos famosos missionarios, quando na época a que nos referimos formavão apenas esses territorios immensos, escondrijos e asylos de animaes ferozes.

Descêrão os viajantes das Tres Bocas para Santa-Fé, e acolheu ahi o provincial do Instituto a Manuel de Moraes com carinho paterno, recommendando-lhe penitencias e cogitações serias afim de decidi-lo a volver para o serviço da companhia, que o receberia com os braços abertos, esquecendo-lhe as faltas commettidas.

Em despeito porém das exhortações e conselhos dos padres, apezar de mais de tres annos que foi coagido a demorar-se no convento, persistio Manuel em sua deliberação anterior, e firme proposito, que se não modificava com as circumstancias e eventos.

Concordárão então os padres em remettê-lo{106} por Hespanha para Roma, esperando que o geral da companhia fosse mais que elles afortunado, e se não perderia assim para o Instituto um moço, cujos talentos variados, e solida instrucção, divisavão todos que com elle se entretinhão.

Seguio portanto de Santa-Fé para Buenos-Ayres em uma lancha, que praticava regularmente a navegação entre os dous portos do Paraná e Prata. Residio na casa da companhia o tempo que necessitárão os aprestos de um comboio de embarcações que se tinha de dirigir para Cadix, acompanhado por dous bergantins de guerra hespanhóes, e incumbidos de amparar e defender os vasos do commercio contra as esquadras e corsarios hollandezes, que infestavão os mares.

Ajudou aos navegantes um violento pampeiro, que os tirou em pouco tempo das aguas perigosas do rio da Prata, e os precipitou no seio do oceano Atlantico. Achava-se Moraes{107} em face do outro assombro da natureza, o mar immenso, profundo, tranquillo, ou agitado segundo as crises das correntes e as violencias do vento. As florestas virgens, os rios selvagens e inavegados, os animaes bravios, as cataractas estupendas, os sitios pittorescos, as planicies e montanhas, constituia tudo isso o deserto americano, e formava ao certo uma maravilha, em que o bello, o sublime, o grandioso e o infinito se abraçavão sem que a arte cooperasse para o quadro magestoso. Contrapunha-se-lhe agora o oceano, que sabia gemer tambem como as mattas reconditas, alvoroçar-se como a cratera dos saltos, roncar e enfurecer-se como o jaguára, e o surucucú, e mudar constantemente de physionomia, situação, e colorido, como a varia atmosphera que rodeia a creatura humana.

Corrêrão velozmente os navios para o Norte assoprados pelas aragens frescas de galernos favoraveis, posto fossem coagidos os mais veleiros{108} a reter de quando em quando a sua marcha, afim de esperarem pelos mais pesados, e não se desligarem do comboio, que pelo numero e união dos seus vasos lograria conter piratas e inimigos.

Estavão já pela altura da ilha de Fernando de Noronha, semeiados os navios como uma frota, e communicados constantemente por meio de signaes com os dous bergantins de guerra que os escoltavão, quando velas estranhas rasgárão o horizonte, e apparecêrão aos olhos, ainda que a grande distancia. Deu rebate ao coração dos navegantes o inopinado do caso, e sustos geraes se lhes incutírão nos animos. Serião inimigos? Pretender reconhecê-los não equivaleria a expôr-se mais aos perigos? Fugir-lhes não significaria medo, e os não animaria no seu proseguimento?

Organisou-se conselho a bordo dos bergantins de guerra, que se approximárão um{109} do outro. Decidírão os commandantes preferivel evitar o encontro, e afastar-se o comboio, largando todas as velas para que corressem os navios com maior velocidade. Estavão infelizmente a barlavento as embarcações suspeitas. Percebêrão a manobra, e suspeitando o comboio, e imitando-lhe o exemplo, se precipitárão sobre elles a pannos abertos. Muitos do comboio, por mais veleiros, se forão sumindo, e escapando no seio do oceano e na immensidade do firmamento. Menos felizes, vírão outros os seus perseguidores ganhar-lhes a cada momento em distancia, e cerrar-lhes o espaço que os havia a principio separado. Figurava entre os ultimos o galeão Santo Ambrosio, a cujo bordo se achava Manuel de Moraes.

Ao approximar-se, içárão os navios desconhecidos bandeira dos Estados Geraes de Hollanda, e apresentárão um costado de guerra que mais contribuio para amedrontar{110} os Hespanhóes do comboio. Tiros de artilharia disparados logo após lhes intimárão o dever de parar, e sujeitar-se á inspecção e visita. O commandante do Santo Ambrosio pensou incutir-lhes sustos descarregando sobre elles a metralha de duas peças que o guarnecião, e esforçando-se no entanto em evadir-se. A este signal acompanhárão igualmente com tiros outras embarcações do comboio. Mas infelizmente para ellas não ficou muda a artilharia dos Hollandezes, que posto apenas oito vasos, se mostrárão mais bem tripulados e armados. Nuvens de fumo, cortadas ás vezes por fuzis de fogo, e o estrondo das peças, assoberbavão inteiramente a atmosphera. Abrio agua pela pôpa o galeão Santo Ambrosio, despedaçado por uma bala certeira. Mandou subito o commandante arreiar a bandeira hespanhola que levantára no começo da acção, e dar signaes de render-se para não ir ao fundo do oceano.{111}

Percebidos os signaes pelos Hollandezes, acudírão-lhes incontinente com lanchas ao mar para tomarem conta do navio vencido. Antes que ellas chegassem, rebentou infelizmente a bordo do Santo Ambrosio um incendio do paiol de prôa, que ameaçou devorar-lhe a tripolação, inquietada assim, e ao mesmo tempo pelas aguas do oceano que pela pôpa submergião o galeão desditoso. Achavão-se portanto os navegantes entre dous perigos fataes e horrorosos. Echoárão pelos ares gritos estridentes de desesperação, ais sentidos clamando por soccorro e misericordia. Reinou a bordo infernal anarchia, ninguem mais governando, ninguem mais obedecendo. Lançárão-se uns desordenadamente no seio das vagas do mar, cogitando salvar-se melhor no meio d'ellas que dentro do navio. Saltárão outros nos escaleres pendurados aos lados, cortando-lhes as cordas que os prendião, e arriscando-se{112} a quaesquer eventualidades. Agarrárão-se alguns a bancos de madeira, e com elles se deixárão resvalar pela superficie do oceano.

Conseguírão as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraçados, posto crescido numero de Hespanhóes perecesse nos arrancos da dôr, e no jogo sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem presa pôde ficar dos Hollandezes o galeão Santo Ambrosio, que as labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruírão totalmente em pouco tempo. Lográrão todavia os Batavos audaciosos colher ás mãos dez dos outros vasos do comboio, que não tiverão a fortuna de evadir-se, e com que applaudírão estrondosamente o seu feito e triumpho.

Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionára as embarcações referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630, succedendo a Willekens,{113} Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de navios hespanhóes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava destroços inauditos no oceano, apoderava-se de cópia numerosissima de galeões adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a immensidade dos mares.

Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos{114} dos navios hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua marcha{115} debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella desventurada.{116}

[CAPITULO VI]

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os Hollandezes,{117} inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas, que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo. Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar de 1624, com a obrigação de{118} entregal-os no fim do prazo ao governo, e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem, estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções, espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e Frisa. Competião á administração superior as attribuições{119} politicas e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de 1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D. Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em 1630, lográra{120} fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda, capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto, para que não pudessem servir ao inimigo.

Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco, em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque, e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente dirigia.

Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de{121} São Jorge, arrasára-se o heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes activos e bravos.

Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se unicamente aos Portuguezes o{122} cultivo das terras, e os trabalhos da industria agricola.

Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio, fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe. Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife. Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente estabelecido{123} nos seus regulamentos e annuncios.

Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas, alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o notavel bairro da Boa Vista.

Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou nova vida á{124} colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio, guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos levantar as{125} suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda. Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo, com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe, que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do paiz,{126} que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se até um dos agentes financeiros da Companhia.

Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda, e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém mais o ginete da dama que{127} vinha adiante, percebeu Manuel com susto que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira, que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.

Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las, vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus intentos.

Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado, agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o ginete de{128} raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar, tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome, officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de viva voz o seu reconhecimento.

Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a dama, e a transportou{129} para a sua casa, emquanto Manuel tratou de recolher-se ao seu mesquinho alvergue.

Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.

Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto como só e isolado residia.

Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto{130} desconhecida. Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.

Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.

Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.

Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o fructo unico{131} que lhe restava da sua finada e querida esposa, e dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.

Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde um facultativo se incumbio de trata-lo.

Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao enfermeiro, animando-o com maneiras{132} gentis e expressões doces e sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e lhe dirigia a vontade.

Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade quanto imponentes na sua attitude.

Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a imaginação. Não resplandecião os seus olhos{133} voluptuosamente, inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação firme e permanente.