This Project Gutenberg Etext prepared by Luiz Antônio Gusmão
Luiz Antonio Gusmao <luizgusmao@bol.com.br>
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LENDAS DO SUL
J. Simões Lopes Neto
1913
Echenique & C. — Editores
Pelotas
NOTA
Convém recordar que o primeiro povoamento branco do Rio Grande do Sul foi espanhol; seu poder e influencia estenderam-se até depois da conquista das Missões; provém disso que as velhas lendas rio- grandenses acham-se tramadas no acervo platino de antanho.
Vem da Ibéria, a topar-se com a ingênua e confusa tradição guaranítica (v. g. a lenda da M’boi-tátá) a mescla cristã-árabe de abusões e misticismo; dos encantamentos e dos milagres; desses elementos, confundidos e abrumados ( p. ex. a salamanca do serro do Jarau ), nasceram idealizações novas e típicas adaptadas ou decorrentes do meio físico e das gentes ainda na crassa infância das concepções.
E, como entre conquistadores brancos corria intensa e rábida a febre da riqueza — o sonho escaldante do El-Dorado — a fulgir nas areias e nos cascalhos, espadanando das entranhas misteriosas e apojadas do Novo-Mundo, a preponderante vivaz das suas ficções é sempre a imantada ânsia — pelo ouro!, forte sobre a dor e a própria morte…
Com a entrada dos mamelucos paulistas outras e doutra feição vieram do centro e norte do Brasil: o saci, o caápora, a oiára, que esfumaram-se no olvido.
Por último uma única se formou já entre gente lusitana radicada e a incipiente, nativa: a do Negrinho do pastoreio.
A estrutura de tais lendas perdura; procurei delas dar aqui uma feição expositiva — literária e talvez menos feliz — como expressão da dispersa forma porque a ancianidade subsistente transmite a tradição oral, hoje quase perdida e mui confusa: ainda por aí se avaliará das modificações que o tempo exerce sobre a memória anônima do povo.
*A M’BOI-TÁTÁ* A’ Andrade Neves Neto
Meu caro Simões L. Neto
_Agradeço não me haveres esquecido com a tua amizade e com o teu talento. A lenda da “boi-tátá ”, também conhecida dos nossos sertanejos, com variantes que muito a diferençam da que escreveste, deve figurar no “folk-lore” gaúcho, onde já cintila, acesa por ti, a velinha do “Negrinho do Pastoreio”, à cuja claridade puseste meu nome. Prossegue, porque fazes trabalho de valor e muito me alegro por haver insistido com a tua modéstia para que continuasses a colher, aqui, ali, essas flores eternas da Poesia do povo, fazendo com elas o ramo que será um encanto para todas as almas e gloria para o teu nome. Abraço-te_
teu
Coelho Neto
Rio 20-XI-09
A M’BOI-TÁTÁ
I
Foi assim:
num campo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições…
Os olhos andavam tão enfarados da noite, que, ficavam parados, horas e horas, olhando sem ver as brasas vermelhas do nhanduvái… as brasas somente, porque as faiscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.
Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!
E a noite velha ia andando… ia andando…
II
Minto:
no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar; era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já…
Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu — quero quero! — tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.
Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.
III
Minto:
na ultima tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o lado para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela d’alva, nessa ultima tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…
Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas
coleando os tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num; os passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!…
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas, as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.
E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra grande, a — boi-guassú — que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabiando.
Começou depois a mortandade dos bichos e a boi-guassú pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.
A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra grande comia.
IV
Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dam nos olhos a cor dos seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e toma tenência doble com os raiados e baços!…
Assim foi também, mais de outro jeito, com a boi-guassú, que tantos olhos comeu.
V
Todos — tantos, tantos! que a cobra grande comeu —, guardavam entranhando e luzindo, um rastilho da ultima luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu… E os olhos — tantos, tantos! — com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada…
VI
E vai,
como a boi-guassú não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta vai, o seu corpo foi ficando transparente clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boi-guassú toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…
VII
Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boi-guassú tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde então, de boi-tátá, cobra de fogo, boi-tátá , a boi-tátá !
E muitas vezes a boi-tátá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — tátá, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as carquejas… E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boi-tátá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os da carniça enfaravam…
VIII
Mas, como dizia:
na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boi-tátá , e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.
Passado um tempo, a boi-tátá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…
Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.
E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.
E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!
IX
Minto:
apareceu, sim, mas veio de sopetão. Primeiro foi se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz… depois a metade de uma cambota de fogo… e já foi o sol que subiu, subiu, subiu até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.
X
Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boi-tátá ficou sozinha, nunca mais se juntou com outra luz de que saiu.
Ainda sempre se arrisca e só, nos lugares onde quanta carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme talvez entocada.
Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então seu fadário.
A boi-tátá , toda enroscada, como uma bola — tátá, de fogo! — empeça a correr pelo campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!…
É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando… e quando menos se espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!
Maldito! T’esconjuro!
XI
Quem encontra a boi-tátá pode até ficar cego… Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!
A boi-tátá vem acompanhado o ferro da argola… mas de repente batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.
XII
Campeiro precatado! reponte o seu gado da boi-tátá : o pastiçal, aí, faz peste…
Tenho visto!
*A SALAMANCA DO JARAU* A Alcides Maya
O Serro do Jarau 1
A salamanca 2
I
Era um dia…,
um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.
E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas; para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas — a carqueja é sinal de campo bom —, por isso o campeiro ás vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista entorno; mas o boi ]barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeiando, campeiando…
Campeiando e cantando:
“Meu bonito boi barroso,
Que eu já contava perdido,
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido.
“Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora;
E gritei — aperta, gente,
Que o meu boi se vai embora! —
“No cruzar uma picada,
Meu cavalo relinchou,
Dei de rédea para a esquerda,
E o meu boi me atropelou!
“Nos tentos levava um laço
De vinte e cinco rodilhas.
P’ra laçar o boi barroso
Lá no alto das coxilhas!
“Mas o mato carrasquento
Onde o boi ‘stava embretado,
Não quis usar o meu laço
P’ra não vê-lo retalhado
“E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré,
P’ra laçar meu boi barroso
Num redomão pangaré.
“E mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga,
P’ra laçar meu boi barroso
Lá no passo da restinga.
“E mandei fazer um laço
Do couro da capivara
P’ra laçar meu boi barroso
Nem que fosso à meia-cara;
“Este era um laço de sorte,
Pois quebrou do boi a balda”…
. . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . .
No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza, no atraso das suas cousas.
No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou — cara à cara! — com o Caipora num campestre da serra grande, p’ra lá, muito longe no Botucaraí…
A lua ia recém saindo…; e foi à boquinha da noite…
Hora de agouro pois então!…
Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente agora; mas, quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrario o lanhava…
Domador destorcido e parador, que, por só pabolajem gostava de paletear, ainda era domador agora; mas, quando gineteava mais folheiro, ás vezes, num redepente, era volteado…
De mão feliz para plantar, que não lhe chochava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava uma praga em toda, tanta, que benzedura não vencia…; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda…
E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeiando, sem topar co’o boi barroso.
De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão, sofrenou o tostado…: ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de face tristinha e mui branca.
Aquele vulto de face branca… aquela face tristonha!…
Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes…; e de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrominas de encantamentos…, conversas que se falavam baixinho, como num medo; p’r’o caso, os que podiam não contavam, porque uns, desandavam apatetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez por juramento dado…
Aquele vulto era o santão da salamanca do serro.
Blau Nunes sofrenou o cavalo.
Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem é para outro homem!…
E como era ele
quem chegava, ele é que tinha de louvar; saudou:
— Láus’ Sus’ Cris’!…3
— Para sempre, amem! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso vai trepando serro acima, vai trepando… Ele anda cumprindo o seu fadário..4
Blau Nunes pasmou do adivinho; mas respostou:
— Vou no rastro!…
— Está enredado…
— Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta do fumo do serro…
— Tu… tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?…
— É lá?… Então, sei, sei! A salamanca do serro do Jarau!…
Desde a minha avó charrua, que eu ouvi falar!…
— O que contava a tua avó?
— A mãe da minha mãe dizia assim:
II
— Na terra dos espanhóis, do outro lado do mar, havia uma cidade chamada—Salamanca — onde viveram os mouros, os mouros que eram mestres nas artes de magia; e era numa furna escura que eles guardavam o condão mágico, por causa da luz branca do sol, que diz’ que desmancha a força da bruxaria…
O condão estava no regaço de uma fada velha, que era uma princesa moça, encantada, e bonita como só ela!…
Num mês de quaresma os mouros escarneceram muito do jejum dos batizados, e logo perderam uma batalha muito pelejada; e vencidos foram obrigados ajoelharem-se ao pé da Cruz Bendita… e a baterem nos peitos, pedindo perdão…
Então, depois, alguns, fingidos de cristãos, passaram o mar e vieram dar nestas terras sossegadas, procurando riquezas, ouro, prata, pedras finas, gomas cheirosas… riquezas para levantar de novo o seu poder e alçar de novo a Meia-Lua sobre a Estrela de Belém…
E para segurança das suas traças trouxeram escondida a fada velha, que era a sua formosa princesa moça…
E devia ter mesmo muito força o condão, porque nem os navios se afundaram, nem os frades de bordo desconfiaram, nem os próprios santos que vinham, não sentiram…
Nem admira, porque o condão das mouras encantadas sempre aplastou a alma dos frades e não se importa com os santos do altar, porque esses são só imagens…
Assim bateram nas praias da gente pampeana os tais mouros e mais outros espanhóis renegados. E como eles eram, todos, de alma condenada, mal puseram pé em terra, logo na meia noite da primeira sexta-feira foram visitados pelo Diabo deles, que neste lado do mundo era chamado de Anhangá-pitã5 e mui respeitado. Então, mouros e renegados disseram ao que vinham; e Anhangá-pitã folgou muito; folgou, porque a gente nativa daquelas campanhas e destas serras era gente sem cobiça de riquezas, que só comia a caça, o peixe, a fruta e as raízes que Tupã despejava sem conta, para todos, das suas mãos sempre abertas e fazedoras…
Por isso Anhangá-pitã folgou, porque assim minava para o peito dos inocentes as maldades encobertas que aqueles chegados traziam…; e pois, escutando o que eles ambicionavam para vencer a Cruz com a força do Crescente, o maldoso pegou do condão mágico — que navegara em navio bento e entre frades rezadores e santos milagrosos —, esfregou-o no suor do seu corpo e virou-o em pedra transparente; e lançando o bafo queimante do seu peito sobre a fada moura, demudou-a teiniaguá6 , sem cabeça. E por cabeça encravou então no novo corpo da encantada a pedra, aquela, que era o condão, aquele.
E como já era sobre a madrugada, no crescimento da primeira luz do dia, do sol vermelho que ia querendo romper dos confins por sobre o mar, por isso a cabeça de pedra transparente ficou vermelha como brasa e tão brilhante que os olhos de gente vivente não podiam parar nele, ficando encandeiados, quase cegos!…
E desfez-se a companhia até o dia da peleja da nova batalha. E chamaram — salamanca — à furna desse encontro; e o nome ficou p’r’as furnas todas, em lembrança da cidade dos mestres mágicos.
Levantou-se um ventarrão de tormenta e Anhangá-pitã, trazendo num bocó a teiniaguá, montou nele, de salto, e veio correndo sobre a correnteza do Uruguai, por léguas e léguas, até as suas nascentes, entre serranias macotas.
Depois, desceu, sempre com ela; em sete noites de sexta-feira ensinou-lhe a vaqueanajem de todas as furnas recamadas de tesouros escondidos… escondidos pelos cauílas, perdidos para os medrosos e achadio de valentes… E a mais desses, muitos outros tesouros que a terra esconde e que só os olhos do zaorís7 podem vispar…
Então Anahangá-pitã, cansado pegou num cochilo pesado, esperando o cardume da desgraças novas, que deviam pegar p’ra sempre…
Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher…
Aqui está tudo o que eu sei, que a minha avó charrúa8 contava à minha mãe, e que ela já ouviu, como cousa velha, contar por outros que, esses, viram!…
E Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o facão…; foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava… ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes…
Falou então
o vulto de face branca e tristonha; falou em voz macia. E disse assim:
III
É certo:
não tomou tenência que a teiniaguá era mulher… Ouve paisano.
No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa…
A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela encontraram soberbos pensamentos maus… O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga, do pecado…
A minha boca provou do sal piedoso… e nela entrou a frescura que requeima, dos beijos da tentadora…
Mas, é que assim era o fado… ; tempo e homem virão para me libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca, tristeza de arrependido que não chora…
Tudo o que me volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão…
Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres na igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados… Eu era o sacristão.
Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem uma viração.
Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E sai sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando como levado…
Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro da terra é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas…
Eu vi, vi o milagre de ferver toda uma lagoa… ferver, sem fogo que se visse!
A mão direita, pelo costume, andou a fazer o “Pelo Sinal”… e parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo… e tanger o sino em dobre… e chamar o padre superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno… e nada fiz… sem força na vontade, nada fiz… nada fiz, sem governo no corpo!…
E fui andando, como levado, para mais de perto ver, e não perder de ver o espantoso
Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar…
Era no fim de lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta…
E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha…, maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser — verdade — e que eu, que estava vendo, ainda jurava ser — mentira! —
Era a teiniaguá, de cabeça
de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior a historia contada dum encontradiço que quase cegou de teimar em agarrá-la.
Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando perigo; mas a teiniaguá veio me chegando, deixando no chão um duro rastro d’água que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa…
Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro ressequido…
Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando…
De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!
Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça sonando como um sino de catedral…
Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!…
Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.
Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a
teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o
Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os
Cavaleiros da Tábola…
Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.
E eu, agora!…
E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos…
E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam…
E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas…
E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como o mato virgem…
E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os meus paióis.
E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra…
Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir…
Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre, dobradiças de bronze!…
Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde…
Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres, na minha falta.
Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.
Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de lechiguana, por ser o mais fino.
E fui; melei; e voltei.
Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.
E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração mermou no compassar do sangue!…
Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!…
Que disse:
IV
— Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os meus nunca sulcaram… Vim, e Anhangá-pitã transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo…
Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos, relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça transparente…
Tu, não; tu não me procuraste ganoso… e eu subi ao teu encontro; e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para o meu sustento.
Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás senhor do muito, do mais, do tudo!…
A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também a princesa moura…
Sou jovem… sou formosa…, o meu corpo é rijo e não tocado!…
E estava escrito que tu serias o meu par.
Serás o meu par… se a cruz do teu rosário me não esconjurar… se não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente, guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!…
Si a cruz do teu rosário não me esconjurar…
Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente dos infiéis…
E foi se adelgaçando
no silêncio a cadencia em balante da fala induzidora.
A cruz do meu rosário…
Fui passando as contas, apressado e atrevido, começando na primeira… e quando tenteei a ultima… e que entre as duas os meus dedos, formigando, deram com a Cruz do Salvador… fui levantando o Crucificado… bem em frente da bruxa, em salvatério… na altura do seu coração… na altura da sua garganta… da sua boca… na altura dos…
E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em mil vidas de homem como o aroma sai da flor que vai apodrecendo…
Cada noite
era meu ninho o regaço da moura; mas quando batia a alva, ela desaparecia ante a minha face cavada de olheiras…
E crivado de pecados mortais, no adjutório da missa trocava os amém, e todo me estortegava e doía quando o padre lançava a benção sobre a gente ajoelhada, que rezava para alivio dos seus pobres pecados, que nem pecados eram, comparados com os meus…
Uma noite ela quis misturar o mel do seu sustento com o vinho do sacrifício; e eu fui, busquei no altar o copo de ouro consagrado, todo lavorado de palma e resplendores; e trouxe-o, transbordante, transbordando…
E embebedados caímos, abraçados.
Sol nado, despertei
estava cercado pelos santos padres.
Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela… E acharam a canastra guampa e no porongo o mel… e até no ar farejaram cheiro mulherengo… Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.
Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma confissão…; mas a minha boca não falou…, não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda…
E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!
Mas por senha da vontade a boca não falou.
Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.
No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.
O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.
Dobrando a finados… dobrando a finados…
Era por mim.
V
E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor…., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!…
E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade rastreada sem engano…; parece, porque nesse momento um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos, de os animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras, agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão…
E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente…
Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados… dobrando a finados!…
Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro…
A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão…
A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!
Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas de homens outros se não viram!…
E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu… por força dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana…
O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande…; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento…, a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver…
Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira…
Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade distilara.
Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso…: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo… e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!…
A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.
— Que a Missão de S. Tomé ia perecer… e dasabar a igreja… a terra expulsar os mortos do cemitério… que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo… e as mães secar o leite… e as roças o plantio, os homens a coragem…
Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando…
Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!… o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!…
Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.
Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada… mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava… mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades… mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença… mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas… mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria…
E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!…
Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.
Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.
VI
Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um peso entre o mandar e o ser mandado…
Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor, nem riso…
Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins, que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e escarlates e azuis, rosadas, violetas… e quando a encantada passa todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza…; há poços largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais, tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de Castela e Aragão…
E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que não possuía…
O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei famosa, do Jarau.
Muitos tem vindo… e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes, loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos…
Poucos toparam a parada… ah!… mas esses que toparam, tiveram o que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente o que eu prometo, nem retoma o que dá!
E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso livramento um dia…
Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus…
Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou arrependido… e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.
Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim, quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá: quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas, todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os sortilégios, todos os filtros para amar por força… para matar… para vencer… tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa dos tesouros…
Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.
Pois bem:
alma forte e coração sereno!… Quem isso tem, entra na salamanca, toca o condão mágico e escolhe o quanto quer…
Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra! Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de candeia… e tramado nele corre outro vento frio… que corta como serrilha e geada.
Não há ninguém lá dentro… mas bem que se escuta voz de gente, vozes que falam… falam, mas não se entende o que dizem, porque são línguas atroadas que falam, são os escravos da princesa moura, os espíritos da teiniaguá… Não há ninguém… não se vê ninguém: mas há mãos que batem. como convidando, no ombro do que entra firme, e que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo…
Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá dentro assim, podes então querer e serás servido!
Mas governa o pensamento e segura a língua: o pensamento dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua língua é que os amesquinha…
Alma forte e coração sereno!… Vai!
Blau, o guasca,
apoiou-se; meneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto prendeu-o a um galho de camboim que verga sem quebrar-se; rodou as esporas para o peito do pé; aprumou de jeito o facão; santiguou-se, e seguiu…
Calado fez; calado entrou…
O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra na sombra da reboleira.
O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas: metia medo…
VII
Blau Nunes foi andando.
Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro…
Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda; sete corredores ancião deste.
Blau Nunes foi andando.
Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.
Sempre escuro. Sempre silêncio.
Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.
Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir de muitas espadas, seu conhecido.
Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.
Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando umas nas outras, no silencio.
Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno…
E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino das pontas, o redondo dos copos… mas passou, sem nem olhar aos lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.
Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.
Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido do cabrestilhos das suas esporas.
Blau Nunes foi andando.
Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente, patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando, numa fúria…
E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco…
As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros, sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante… adiante…
A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela…
Blau Nunes foi andando.
Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas, partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando, tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado, outras em saracoteio…
Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal da cruz;… porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas juntas bolorentas.
As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros…
Blau Nunes foi andando.
O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando, fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão…
Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas.
As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer— muito bem!—
Blau Nunes foi andando.
Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.
Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo…
Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um muito jejum de mortandade, lá fora…
A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava, chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como por prova…