Irmãos Grimm

PEROLAS E DIAMANTES

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA

LIVRARIA MODERNA
RUA AUGUSTA, 95
LISBOA-MDCCCCVIII{1}

PEROLAS E DIAMANTES{2}

VOLUMES PUBLICADOS

DA

BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS

A 200 réis br. e 300 enc.

I—Contos de Fadas.

II—Novos Contos de Fadas.

III—Terceiro Livro de Contos de Fadas.

IV—Historias da Carochinha.

V—Historias phantasticas (Aventuras do Barão de Münchhausen).

VI—Céu Azul.

VII—Contos Côr de Rosa.

VIII—Palhetas de Oiro.

IX—Lendas ao Luar.

X—Perolas e diamantes.

NO PRÉLO

XI—Contos do Natal.

EM PREPARAÇÃO

XII—Escrinio de joias.{3}

BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS

X


IRMÃOS GRIMM

Perolas e Diamantes

CONTOS INFANTIS

COLLIGIDOS POR

HENRIQUE MARQUES JUNIOR

LISBOA
LIVRARIA MODERNA
Rua Augusta, 95
1908

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{5}

A meu irmão Paulo consagro estes simples contos infantis, cujo encanto mais tarde avaliará.

HENRIQUE

XVI-IX-CMVII.{6}
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[Carta-prefacio]

... Sr. Henrique Marques Junior.

Pede-me V. algumas palavras para acompanhar o decimo volumesinho da sua encantadora bibliotéca infantil; e eu, abrindo uma excéção aos meus hábitos, de bom grado lhe envio o que deseja para abrir as suas «Perolas e diamantes

E digo abro uma excéção, porque até hoje me tenho sistematicamente recusado a prologar livros alheios, assim como para os meus jámais tenho pedido prologos a outros camaradas.{8} Mas isto não quer dizer que V. tenha andado mal fazendo-o, pelo contrario tem feito muito bem em vista do assunto de que se trata e das pessôas autorisadas que tem chamado a depôr no tribunal da opinião publica. Isto porque a questão pedagogica, a que se liga a litteratura infantil, tem tantos controvertores que sobre ella ainda não se póde, com segurança, dogmatisar preceitos e sistemas.

Muitos pedagogistas, e eu estou com elles, estimam a literatura infantil muito variada e imaginosa e aceitam como util o conto tradicional, o conto fantastico, emfim.

Entre muitas razões que para isso apontam é o prazer excécional que esses contos despertam na criança, e vêr que com elles, mais do que com outros, se desperta e desenvolve no espirito infantil o gosto da leitura.

Outras, pessôas gradas e ponderadas{9} que desejam educar as crianças como quem cria flores perfeitas para determinados resultados já previstos pela sciencia, protestam contra a fantasia e querem só a verdade...

Como se nós podessemos explicar a um pequenino espirito que se entre-abre á luz o que é uma geleira, uma borboleta, um trasatlantico sem o auxilio de fantasia!

Comprehenderá a criança melhor que um homem possa descer ao fundo glauco das ondas revestido d'um escafandro do que vá aos infernos buscar o cabello de ouro do diabo?...

Para ellas tudo são surpresas, tudo maravilhas.

Acrescentando ainda que os contos educativos e moraes para o serem, igualmente são fantasiados e para a maior parte das crianças é tão longiqua, tão extraordinaria uma viagem á Suissa ou á Italia, como{10} uma passeata dada com as botas de sete leguas do gigante.

Por mais que se queira, não é possivel fugir á fantasia, que é afinal a parte intelectual e superior da vida; o ponto está em que se canalise devidamente a atenção e o gosto infantil e se lhe vá anotando o que de impossivel se conta para os entreter.

Os psicólogos estão muito enganados; não são os contos fantasticos que desenvolvem as imaginações desvairadas: a criança logo que começa a raciocinar sabe muito bem discernir até onde chega o possivel e onde se entra no limite do impossivel. Tem até graça uma observação que tenho feito entre as crianças do meu conhecimento—e não são poucas as que tenho estudado—a criança mais fantasista, mais imaginosa, mais creadora de sonhos de acordado, é a que menos lê, a que menos se interessa pelas criações alheias. As ponderadas, as serenas,{11} as positivas, aceitam esse acepipe como um prazer do espirito e não desvairam com elle.

Veja-se e compare-se a riqueza fabulosa das literaturas infantis das raças frias do norte, em comparação com as das raças latinas.

Veja-se como lá a fantasia se expande livremente e como são familiares a toda a gente os contos e fabulas tradicionaes.

Por cá abusa-se do sentimentalismo como se fosse qualidade que désse mais condições de resistencia ao ser humano.

E... para terminar, que o espaço é pouco, dir-lhe hei que considero bem o incluir a serie graciosa que acaba de enfeixar sob o sugestivo titulo de «Perolas e diamantes,» verdadeiras joias preciosas do escrinio magnifico dos mestres suprêmos que foram, no genero, os irmãos Grimm.

Não esquecerei nunca o deslumbramento,{12} o encanto que senti ao lêr, pela primeira vez, estes contos, e a anciedade com que acompanhei o homem-urso na sua dolorida peregrinação enfeudado ao diabo... desejava falar n'esta pequenina collecção destacando um por um dos seus lindos episodios, mas... tenho que cinjir-me ao pequeno espaço que me é dado.

Termino, pois, dizendo-lhe: em nome das crianças portuguêzas agradeço o cuidado que tem tido em lhes escolher lindos contos para seu prazer, e em nome das mães pedindo-lhe que não desanime na empreza.

A literatura portuguêza é ainda pobre, apezar do que ultimamente se tem feito; precisamos mais e mais...

As crianças tudo merecem, ellas que nos lêem com tanto enthusiasmo e tão sinceramente nos estimam.

Creia-me

Anna de Castro Osorio.

Setubal, 16-3-908.{13}

[O violino maravilhoso]

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Era uma vez um homem muito rico, mas muito avarento, que tinha como creado um rapaz honesto e activo, como não haverá muitos; todas as manhans o moço se erguia ao romper da alva e só se deitava ao ultimo cantar do gallo.

Quando havia algum trabalho mais penoso, ante o qual todos recuavam, o rapaz fazia-o, contente, satisfeito e sem sombra de azedume.

Logo que acabou o primeiro anno de permanencia em casa do avarento, que não estipulára soldada, não recebeu um ceitil de paga, pensando{16} de si para si que o moço, não tendo dinheiro, não se tentaria com outra collocacão. O rapaz calou-se e continuou a trabalhar como d'antes; ao cabo de dois annos, o avarento nada deu e o rapaz permaneceu no seu mutismo.

Ao fim do terceiro anno, o rico, espicaçado pela consciencia, metteu a mão ao bolso para remunerar o fiel creado, mas, raciocinando, arrependeu-se e tirou a mão vasia. O rapaz exclamou então:

—Patrão servi-o tres annos o melhor que me foi possivel; agora quero vêr mundo e por isso peço que me pague as soldadas que me deve.

—Tens razão—respondeu o rico avarento—fiquei sempre muito satisfeito com o teu trabalho e a tua boa-vontade, e por isso vou remunerar-te como mereces. Aqui tens tres escudos novos; é um por cada anno que me serviste.

O rapaz, que andava sempre alegre{17} e que era d'uma grande simplicidade no que respeitava a dinheiro, julgou ter recebido uma fortuna que lhe permittiria viver vida folgada por largos annos.

Disse adeus ao antigo patrão e foi-se embora, atravessando montes e valles, cantando, saltando e alegre que nem um passarinho.

Ao acercar-se d'um monte, viu sair um velhinho muito corcovado que lhe gritou:

—Olé companheiro, não pareces levar em conta de pesares a tua vida?!

—Que ganho eu em me apoquentar?—retorquiu o moço—Tenho na algibeira a soldada de tres annos de trabalho.

—E a quanto monta essa fortuna?

—A tres escudos novinhos, muito luzidios. Olha, sentel-os trincolejar, quando lhes toco com as mãos?

—Ora ouve cá—tornou o gnomo, de bom coração como se vae vêr.{18} Eu estou muito velhinho, e forças para trabalhar já não tenho; tu, que és novo e forte, estás ainda em bom tempo de ganhares a vida.

O rapaz, que era de boa indole, apiedou-se do velho gnomo e fez-lhe presente dos tres preciosos escudos que tanto prazer lhe davam.

—Como és esmoler—expressou-se então o genio bom em figura de gnomo—dou-te licença para que me peças tres cousas que são a paga dos teus tres escudos.

—Então, pois sim!—fez o rapaz incredulamente—Isto que tu queres fazer é só do dominio das phantasias para entreter creanças. Mas, emfim, sempre quero experimentar. Desejo então: uma espingarda que acerte logo no que eu alveje; um violino que tenha a virtude de forçar a bailar todos quantos me oiçam; e, finalmente, que toda e qualquer pessoa me conceda, sem mais a quellas, a graça que eu pedir.{19}

—Ai, ai! lastimava-se o infeliz judeu (pag. 22)

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—És modesto no pedir—retrucou o gnomo que, curvando-se, tirou do monte uma espingarda, e um bonito violino que se podia metter na algibeira. Aqui tens—continuou o gnomo ao dar-lh'os—e fica sciente de que serás servido sempre na primeira graça que solicitares.

O rapaz, jovialissimo, continuou a sua róta. Depois de caminhar um boccado deparou-se-lhe um judeu, muito feio, com barbas de chibo muito compridas e que estava absorto a ouvir o canto de uma avesinha.

—É extraordinario que um animal de tão pequeno talhe possua um trinado tão cheio. Quanto não daria eu para o ter engaiolado!

—Posso satisfazer o teu desejo—disse o rapaz que tinha ouvido as ultimas palavras, e apontando a espingarda ao passarinho este caiu atordoado em cima dos espinhos.

—Vá lá, seu maroto, vá lá buscar o passarinho.{22}

—Tractas-me com crueldade—respondeu o judeu—mas não deixo de agradecer-te e vou apanhar a avesinha.

Em seguida metteu-se pelos espinhos custando-lhe a abrir caminho. De subito o rapaz teve uma estupenda lembrança: principiou a dar arcadas no violino. Logo o judeu ergueu as pernas e começou a saltar, a pular, a torcer-se todo, ficando preso nos espinhos dos ramos, em que se achava e que lhe espicaçavam a cara, arrancando-lhe as barbas; ficou com o vestuario todo rasgado e a cara a escorrer sangue.

—Ai, ai!—lastimava-se o infeliz judeu—Socega, aquieta-te, não toques mais n'esse amaldiçoado instrumento; aqui não é logar proprio para baile!

O azougado moço não fazia caso do pedido pensando com os seus botões:

—Este rabino esfolou tanto infeliz{23} em quanto poude, que é justo que seja esfolado agora!

E de novo tomou o violino tirando accordes mais ligeiros. O pobre judeu, forçado a acompanhar o compasso, pulava e saltava; a cara cada vez estava mais ensanguentada, o fato desfazia-se em farrapos e o pobre velho gemia de dôr. A subitas gritava:

—Apieda-te de mim, pelas barbas de Abrahão, que em paga te darei uma bolsa cheia de dinheiro que trago commigo.

—Alegras-me tanto com essa boa-nova que vou guardar o dinheiro. Antes, porém, quero dar-te os meus parabens pela maneira graciosa e original por que danças! É uma perfeição!

O judeu então, entregando-lhe a bolsa que promettêra, suspirou immenso, emquanto que o alegre moço continuou a andar, cantando. Quando já o não avistou, o rabino,{24} não podendo conter o seu rancor, exclamou:

—Musico das duzias, estás a contas commigo. Grande marau! Has de pagar-me a partida mais cara do que ossos!

Tendo com essa fala dado vasão ao seu odio, seguiu por atalhos e alcançou a cidade mais proxima antes que o rapaz apparecesse. Uma vez lá, foi queixar-se ao juiz n'estes termos:

—Venho aqui pedir justiça, senhor, para um maroto que me atacou maltractou e roubou o que eu trazia. A prova de que não minto é olhar-me a maneira porque vem o fato e a minha cara. Forçou-me a dar-lhe a bolsa que trazia cem moedas d'ouro, que eram todo o meu peculio, as economias que consegui com o meu trabalho, o unico bem que possuia. Faça todo o possivel para que esse thesouro me seja restituido.{25}

O moço então... tocou o mais possivel...(pag. 30)

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—Foi com alguma arma que o gatuno te pôz assim?—perguntou a autoridade.

—Nada, não senhor. Agarrou-me e agatanhou-me. É ainda moço, e traz uma espingarda e um violino; com estes dados facilmente se conhece.

O magistrado pôz em campo os guardas, que depressa viram o indigitado marau, que muito tranquilamente se encaminhou para essa localidade. Deram-lhe voz de prisão e trouxeram-n'o ante o magistrado e o judeu, que repetiu a accusação.

—Não toquei n'essa creatura nem com um dedo—defendeu-se o rapaz—assim como não lhe tirei á força o dinheiro que elle trazia; offereceu-me da melhor vontade para que eu não tocasse mais no violino, cujos accordes o faziam nervoso!

—É mentira!—exclamou o rabino—Está a mentir impunemente!

—Está resolvida a questão?—ajuntou{28} o magistrado—pois é caso extraordinario um judeu dar de mão beijada uma bolsa com ouro, só por não ouvir um boccado de musica. Pois senhor: a sentença do seu mau acto está lavrada: vae ser enforcado immediatamente!

O verdugo—que se havia ido chamar, segurou o innocente moço, conduziu-o á forca, que já estava erguida na praça principal onde accorreu toda a cidade em pezo, e o rabino fôra o primeiro a mostrar-se fazendo menção de soccar o pobre condemnado, verberando:

—Marau, vaes ter a recompensa que te é devida!

O moço conservou-se muito tranquillo; subiu sosinho a escada appoiada á forca; ao chegar ao topo, virou-se para o juiz já togado, que viera vistoriar o patibulo e solicitou-lhe:

—Antes de ter o nó na garganta, concede-me um derradeiro favor?{29}

—Concedo—respondeu o magistrado—desde o momento em que não seja o perdão!

—Nada d'isso é, pois não sou tão exigente... desejava apenas tirar uns ligeiros accordes do violino!

Ao ouvir taes palavras, o rabino deu um estridente grito de susto e pediu encarecidamente ao juiz que não consentisse!

—Qual a razão porque não hei de conceder a graça que este homem me pediu, se é a unica alegria que por instantes posso dar-lhe? Tragam-lhe o violino.

—Ai, meu Deus!—lamentou o rabino ao querer fugir, mas sem que lhe fosse possivel abrir caminho pela compacta massa de povo que enchia a praça.

—Dou-lhe uma peça d'ouro—prometteu elle no auge da aflicção—se me amarrar com força ao pau da forca!

N'esse instante, porém, o rapaz{30} deu o primeiro toque no violino. O magistrado, o escrivão, o beleguim, os guardas, emfim tudo o que compunha o corpo da magistratura da terra, os circumstantes, o proprio judeu, tiveram um estremecimento; ao segundo toque, todos ergueram as pernas, o proprio verdugo desceu a escada e collocou-se em pé de dança.

O moço então—ao vêl-os n'aquella pouco parlamentar attitude—tocou o mais possivel, e agora os vereis: o povo fazia cabriolas; o juiz e o judeu saltavam como que movidos por molas; rapazinhos, velhos, magros, gordos, tudo dançava; se até os cães se erguiam nas patas de traz e dançavam como todos! O condemnado deu uns accordes mais fortes e n'essa occasião era inexplicavel o movimento: pareciam possessos de algum espirito ruim, batendo com as cabeças umas nas outras, pizando-se, acotovellando-se,{31} atropellando-se. Gemiam com dores, e o magistrado, afflicto, fatigadissimo, pediu:

—Não toques mais que eu perdôo-te! Foi o que o moço quiz ouvir, visto que, concordando que o gracejo fôra longo, parou e guardou o violino no bolso, desceu os degraus e veiu postar-se em frente do rabino que, esfalfado, extenuado exhausto, se sentára na rua, respirando a custo.

—Agora és tu quem vaes confessar a proveniencia da bolsa que me déste, com peças d'ouro. Não mintas, de contrario pego novamente no violino e tornas a dançar uma farandola!—taes as palavras que o rapaz dirigiu ao judeu, que confessou terrificado:

—Roubei-a, roubei-a, tu tiveste jus a ella pela tua honestidade; dei-t'a para que não tocasses mais no violino!

Apparecendo o juiz, já um pouco{32} refeito do cançasso, inqueriu do que se havia passado e provando-se á evidencia que tinha havido roubo, mandou enforcar o rabino.{33}

[João no auge da alegria]

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{35}

Era uma vez um rapaz que dava pelo nome de João e que esteve a servir durante sete annos n'um logarejo de provincia. Ao cabo d'esse tempo, despediu-se do patrão e disse-lhe:

—Patrão, terminou o meu tempo de serviço para que fôra chamado, mas, desejando regressar para casa de minha mãe, precisava que me pagasse o meu salario.

—Como fôste sempre fiel e honesto—respondeu o patrão—mereces boa paga; e, pronunciando estas palavras, deu-lhe uma barra quase{36} tão grande como a cabeça do seu antigo creado.

João tirou o lenço da algibeira, embrulhou n'elle a barra, pôl-a aos hombros e metteu pernas a caminho em direitura á casa da mãe. Andando sempre, ainda que custando-lhe a andar, por causa do peso do fardo, viu passar a seu lado um viandante trotando satisfeito n'um bonito e fogoso corcel.

—Que bom ha de ser andar a cavallo!—exclamou João em tom alto.—Aquelle homem vae alli commodamente sentado, não dá topadas nas pedras, não estraga as botas e anda sem que dê por isso.

—Mas olha lá, ó rapaz—respondeu o viandante que lhe ouvia a exclamativa—porque é que vaes a pé?

—Porque assim me é necessario—tornou João—Levo uma trouxa muito pesada que tem de ir para casa; é ouro, é certo, mas pesa-me{37} como chumbo e quasi me custa levantar o pescoço!

—Queres tu entrar n'uma combinação commigo?

—Queres tu entrar n'uma combinação commigo?—aventurou o cavalleiro, que fizera estacar o animal—Faze troca: eu cedo-te o{38} meu bonito cavallo dando-me tu a barra d'ouro!

—Com o maximo prazer! Advirto-o, porêm, de que o carrego é pesado!

O viandante depressa se desmontou do ginete, ajudou João a montar-se e em seguida tomou a barra, dizendo ao ingenuo moço, emquanto lhe dava as guias:

—Assim que desejes andar tão veloz como o vento, basta dares um estalido com a lingua e gritares: upa, upa!

João ficou louco de contente, apenas se viu escarranchado no cavallo, e partiu a rapido galope. Ao fim de certo tempo, lembrou-se d'ir mais depressa ainda, e, dando um estalido com a lingua, incitou: upa upa! O animal, comprehendendo a indicação, largou n'uma corrida desenfreada, dando grandes upas e taes foram elles que o alegre João, não podendo suster-se no dorso do{39} animal, caiu estatelado no meio da estrada, quasi á beira d'um poço. O cavallo continuou a correr, mas um aldeão que vinha em sentido inverso, trazendo uma vacca, agarrou-o pela redea e assim o levou para juncto de João que, levantando-se, estava a vêr se havia soffrido algum desastre com o trambulhão.

—Olha que asneira, montar a cavallo! Arrisca-se a gente a deparar um animal como este que nos atira de pernas ao ar! Nunca mais caio n'outra. Agradeço o seu favor, mas não me fale no cavallo; se fosse uma vaquinha, isso então era outro cantar; basta levál-a deante de si, com certo geitinho; e não é só isso: dá tambem o leite com que se faz a manteiga e o queijo que nos sustenta. Que não faria eu para assim possuir um animal!

—Se faz n'isso muito empenho—alvitrou o aldeão eu não ponho duvida{40} em a trocar pelo seu cavallo.

João açambarcou logo a ideia, cheio de satisfação; o aldeão montou o animal e depressa se eclipsou.

João tocou a vacca, que ia na sua frente muito devagar, emquanto ia magicando nas vantagens da troca que acabára de fazer:

—Desde o momento em que me não falte uma fatia de pão, e com certeza não será isso o que me ha de faltar, posso, quando a fome me aperte, comer manteiga ou queijo, se tiver seccuras, munjo a vacca, e bebo um excellente leite. Que mais podes ambicionar, ó Janeco?

Ao acercar-se d'um albergue, parou e querendo possuir alimento para sempre, deu cabo de toda a comida e gastou os derradeiros escudos n'uma cerveja. De seguida, tornou a pôr-se a caminho da casa precedido pela pachorrenta vacca.

O sol estava a pino e escaldava o rapaz e João, encontrando-se{41} n'um sitio desarborizado, sentiu tanta sêde que se lembrou de beber leite; para esse fim, amarrou a vacca a uma sebe e, descarapuçando-se, começou a mungir o animalejo, mas por mais esforços que empregasse não conseguiu uma gottinha de leite. Como era leigo no assumpto, magoou a vacca que, com a dôr, lhe deu um coice que atirou longe João, que com a dôr desmaiou.

Por felicidade, acercou-se um homem que levava, n'um carrinho de mão, um porco ainda pequeno.

—Que diabo foi isso?—perguntou o homensinho, ajudando-o a pôr em pé.

João narrou-lhe o succedido; o homem do porco offereceu-lhe a borracha, dizendo-lhe:

—Ande, beba-lhe um gole para o pôr firme! E quer saber? A vacca está velha; boa apenas para puxar a uma carroça ou então para{42} ir para o matadouro. Por esse motivo não é para admirar que lhe não conseguisse tirar leite.

—Oh co'a breca!—exclamou João, arranjando o cabello que se havia emmaranhado com a queda—Quem o diria! O que é verdade é que, matando-se, a vacca ainda alimenta muita gente, mas como acho a carne pouco saborosa, não me servia. Agora se fosse um porquito! Isso era ouro sobre azul! Eu então que sou doido por chispe com feijão branco e chouriço de sangue!

—Ah, sim?!—lembrou o homem—Então tome lá o porco em troca da vacca!

—Deus o ajude!—acceitou João dando a vacca; puxou o porco pela corda que o segurava no carrinho.

... a vacca deu-lhe um coice... (pag. 41)

Á medida que ia andando, ia pensando, que tudo lhe corria em maré de rosas; mal tinha uma contrariedade e logo lhe desappareceu. N'isto dá de rosto com um rapazinho{43} que levava debaixo do braço um gordo pato. Deram-se os bons dias e começaram de conversa. João narrou os seus feitos, gabando-se da sua ventura; em compensação, o rapazito disse que o{44} pato era uma encommenda para um baptisado que tinha logar na proxima localidade.

—Tome-lhe o peso—aconselhou o rapazelho, agarrando o pato pelas azas—Pesa bem, não é assim?! Não é caso para espantos, pois ha mais de dois mezes que foi para a engorda. Quem o cosinhar póde gabar-se de apanhar uma excellente enxundia!

—E é verdade que sim!—appoiou o nosso João—Está gordo que é uma belleza! Comtudo, o meu porquinho tambem não está mau!

O rapazito calou-se, mas não fazia outra coisa senão olhar para um lado e para o outro inquieto; em seguida, meneando a cabeça, disse:

—Quer saber uma cousa? Roubaram não ha muitas horas um porco a uma das auctoridades da terra por onde eu agora fiz caminho. Está-me cá a parecer que é esse mesmo, sim, quasi que ia jurar! Que mau boccado lhe fariam passar se o vissem{45} com elle. O menos que lhe faziam era mettêl-o n'uma enxovia muito escura!

João, muito assustado, exclamou:

—O meu amigo é que me póde valer n'estes apuros! Desde que conhece os cantos á villa, nada mais facil que occultál-o; dê-me o pato que lhe cedo por troca o porco.

—Corro grave risco com a transacção—hesitou o moço—mas para o livrar das mãos da justiça, acceito-a!

Agarrou a corda e, puxando pelo porco, depressa se esgueirou por um atalho. O nosso heroe, descuidado e alegre, continuou a andar, raciocinando:

—Fazendo bem as contas, eu ainda ganho com a troca: a carne do pato é muito saborosa e com as pennas faço uma almofada.

Depois de haver transposto a derradeira localidade antes de chegar á sua aldeia natal, notou um amolador{46} parado com a sua roda que fazia girar cantando.

João estacou e ficou a olhar para o que o homem estava fazendo; em seguida, dirigiu-lhe a palavra.

—Pela sua alegria se vê que tudo lhe corre no melhor dos mundos possiveis!

—Certamente, todo o officio é ouro em fio, um bom amolador anda sempre endinheirado. Onde comprou esse bello pato?

—Comprar não comprei... foi uma troca que fiz! troquei-o por um porco.

—E o porco?

—Foi em troca d'uma vacca!

—E a vacca?

—Trocada por um cavallo!

—E o cavallo?

—Por uma bola d'ouro do tamanho da minha cabeça!

—E esse ouro?

—Foi a paga que recebi de sete annos de serviço!{47}

—Sim, senhor!—exclamou o amolador—Não se perde! Se não mudar de tactica ainda ha de junctar muito dinheiro.

—Parece que sim!—retorquiu João—Que hei de agora fazer para o conseguir?

—Faça-se amolador. É-lhe necessaria apenas uma pedra de amolar... o resto depois vem com o andar dos tempos. Tenho aqui uma; já está um pouco gasta, mas para lh'a vender não, troco-a pelo pato. Convem-lhe?

—Se convêm!—acceitou logo João—Se succeder, como diz, que nunca me ha de faltar dinheiro, serei um rei pequeno, sem cuidados, sem ralações e sem trabalho!

Entregou em seguida o pato ao amolador, que lhe deu uma pedra de amolar e uma outra que apanhára do chão.

—Olhe—disse para o heroe do conto—aqui tem mais uma; esta é{48} magnifica para fabricar uma bigorna e endireitar pregos. Tome sentido n'ella.

João tomou as duas pedras e lá se foi muito contente, com os olhos brilhando de alegria.

—Nasci dentro de algum folle com certeza; pensou de si para si—tenho sorte em tudo!

Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; estava com fome, mas nada tinha com que a matar, por ter comido todo o farnel quando da troca da vacca. Custou-lhe a andar e volta e meia tinha que parar para descançar; as pedras faziam-lhe muito pezo e disse com os seus botões que era bem bom que não as levasse, pois que lhe impediam andar mais ligeiro. Arrastando-se conforme pôde, chegou proximo de uma fonte ficando contente por encontrar com que molhar as guellas e crear alento para a caminhada.{49}

Não querendo estragar as pedras, pôl-as no rebordo da fonte e curvou-se para encher o barrete da limpida agua que corria da bica; mas, tocando-lhes sem dar por isso, as pedras rebolaram e caíram com grande ruido dentro d'agua.

João, assim que as viu desapparecer, saltou de contentamento e, ajoelhando-se, agradeceu a Deus, com os olhos marejados, a mercê que lhe havia feito de o livrar d'aquelle peso.

—Era esta a unica cousa que me incommodava! Não creio que haja rapaz mais feliz do que eu!

E de coração ao largo, não possuindo mais cousa alguma, pôz novamente pernas a caminho e só parou quando topou com a porta de casa de sua mãe.{50}
{51}

[Pelle d'urso]

{52}
{53}

Em epochas bastante afastadas houve um rapazito que sentou praça e desde então mostrou heroicidade, sendo o primeiro a avançar ao chover das balas. Emquanto durou a guerra, tudo lhe correu ás mil maravilhas; mas assim que se assignaram as pazes, o nosso soldado recebeu a soldada que lhe cumpria e o commandante da columna, a que o mancebo pertencia, disse-lhe que fosse para onde lhe aprouvesse, pois no regimento já não era preciso. Os paes haviam morrido, e o infeliz, n'estas condições, não tinha{54} patria. Não sabendo a quem recorrer, foi ter com os irmãos pedir-lhes albergue emquanto não havia novo rompimento de hostilidades. Ora, como os irmãos eram muito ruins responderam-lhe:

—Em que poderemos empregar-te? Em nada nos poderias ser util! Tracta de te arrumar algures.

Ao pobre soldado só ficára a espingarda; pôl-a ao hombro, e resolveu correr mundo. Depressa chegou a uma charneca, onde vegetava um numero de arvores muito limitado. Sentou-se cabisbaixo á sombra e começou a matutar na triste situação a que se via reduzido.

—Estou sem dinheiro—pensou—só conheço o officio das armas, e agora que estão feitas as pazes, este officio de nada me póde servir, e o meu fim é morrer de fome.

De repente, ouviu um ruido; voltou-se e viu, defronte de si, um desconhecido, com um casaco verde;{55} estava vestido com esmero, mas tinha pés-de cabra.

—Eu sei o que te falta—disse-lhe o estranho personagem—Conceder-te-hei tantas riquezas quantas queiras, mas é necessario que não sejas medroso, pois n'esse caso não estou para tentar fortuna.

—Soldado e medo são cousas que não se casam—respondeu o rapaz—Podes tentar.

—N'esse caso, olha para traz!—tornou o diabo feito homem.

O soldado olhou e viu um enorme urso que avançava para elle urrando.

—Ah! elle é isso?! Espera lá que já te vaes calar de vez!—e o soldado assim falando apontou e fez fogo tão certeiro que a bala entrou no focinho do pesado animal que caiu redondo, sem um gemido.

—Está provado que não te falta coragem! Falta ainda outra condição para o contracto.{56}

—Desde o momento em que não seja cousa alguma contraria á minha saude, estou disposto a tudo o que quizeres.

—A condição é esta: durante sete annos não te lavarás, nem farás a barba, nem te pentearás, nem cortarás as unhas e, por ultimo, nem resarás. Se te agrada a proposta, dou-te um fato e um manto que não tirarás senão ao cabo d'esses sete annos. Se morreres entretanto, cairás em meu poder; se, pelo contrario, viveres muito tempo, conquistarás a liberdade e serás rico o resto de teus dias.

O soldado reflectiu no perigo que corria, mas, como varias vezes havia affrontado a morte, decidiu-se a arriscar a vida na empreza, e acceitou o alvitre. O diabo despiu o casaco verde, que fez vestir ao soldado, accrescentando:

—Desde que vistas este casaco não te ha de faltar dinheiro; mette{57} a mão na algibeira e verás que te não minto.

Dicto isto tirou a pelle ao urso morto e presenteou com ella o soldado a quem disse:

—Este é que é o teu manto; servir-te-ha de cama, porque não te é permittido deitar-te sob lençoes. Como consequencia d'este nosso contracto todos te chamarão Pelle d'urso.

Ao terminar a indicação, o demo sumiu-se.

O soldado vestiu o casaco, metteu a mão á algibeira e achou o que o estupendo personagem lhe dissera; em seguida, envolvendo-se na pelle d'urso, pôz-se a caminho, mostrando-se sempre e em toda a parte bondoso e esmoler. O primeiro anno correu bem, mas ao segundo anno já era um monstro; o cabello tapava-lhe os olhos completamente; a barba parecia um grosseiro boccado de feltro; os dedos afuselavam-se{58} em garras e o rosto estava tão sujo que se houvesse semeado n'elle qualquer planta, esta não deixaria de se desenvolver. A sua presença afugentava toda a gente; como, porêm, por todos os logares em que passava, elle distribuia esmolas aos pobres, pedindo-lhes que orassem por elle, afim de que não morresse antes de sete annos, e como usava pagar depressa e bem, nunca ficára ao relento, e tinha sempre quem lhe désse dormida.

No meiado do quarto anno, chegou a uma estalagem, mas o estalajadeiro recusou-se a dar-lhe gasalhado; este homem nem mesmo consentiu que o estranho hospede fosse dormir para a estrebaria, receoso de que a presença de similhante exemplar da especie humana lhe espantasse os cavallos. Comtudo Pelle d'urso metteu a mão na algibeira, tirando um punhado de dinheiro, e o estalajadeiro á vista{59} do diabolico iman curvou-se á imperiosa ambição e consentiu que o estranho viandante ficasse n'um pessimo quarto interior, e ainda sob condição de que não se mostraria a pessoa alguma, temendo sempre que a casa, por aquelle dever de hospitalidade, perdesse os créditos.

Emquanto Pelle d'urso, sentado sósinho no humilde casinholo, pensava tristemente na lentidão dos annos que ainda tinha a passar sob aquelles medonhos trajes, ouviu queixumes e suspiros que partiam d'um quarto proximo. Como era dotado de bom coração—e sem se lembrar do pedido do hospedeiro—abriu a porta e viu um velho que chorava a bom chorar e que, dolorosamente, punha as mãos na cabeça. Pelle d'urso acercou-se do companheiro de estalagem que se ergueu subitamente querendo fugir. Ao ouvir, porêm, a voz da estranha creatura, serenou, e a sua conversa{60} amavel fêl-o animar a confiar-lhe as maguas que o affligiam. Os seus recursos iam diminuindo a olhos vistos; as filhas e elle estavam sujeitos a soffrer as maiores privações, e tão pobre era que não podia pagar hospedagem ao estalajadeiro, razão pela qual o iam prender.

—Se outro não é o vosso cuidado, consolae-vos—disse Pelle d'urso ao ouvir a narrativa do velho—A mim não me falta dinheiro.

Chamou o estalajadeiro e pagou-lhe tudo o que o velho lhe devia, entregando a este uma bolsa recheadinha d'ouro.

Quando o velho se viu tão facilmente livre de apoquentações, não teve palavras para exprimir o seu grande reconhecimento; ao cabo de algum tempo, disse a Pelle d'urso:

... viu defronte de si um desconhecido (pag. 54)

—Siga-me; as tres filhas que possuo são perfeitas maravilhas de belleza; auctorizo-o a escolher uma{61}
{62}
{63} para mulher. Assim que souberem da boa-acção que practicou em meu favor, serão as primeiras a acceder ao meu desejo. Realmente, o seu aspecto é exquisito e pouco attrahente, mas a que escolher saberá disfarçar a primeira impressão que é, decerto, desagradavel.

A proposta agradou a Pelle d'urso, que de muito boamente acompanhou o velho. Apezar de afastados de casa, a primeira filha ao vêl-o fugiu, transida de medo, aos gritos. A segunda—valha a verdade—não fugiu senão depois de o ter bem examinado dos pés á cabeça.

—Como posso eu acceitar por marido um ser que não tem aspecto humano? Marido por marido, então antes preferia o urso pardo que ultimamente se exhibiu pelas ruas, que dava ares de homem, vestindo um rico manto e de luvas calçadas! Era feio, mas facilmente me habituaria a vêl-o.{64}

Quando coube a vez da mais novinha esta disse:

—Meu pae, este homem deve ter um bom coração, pois que duvida alguma teve em livral-o de apuros; se, para lhe provar a gratidão de que está possuido para com elle, lhe prometteu noiva, não se dirá que a sua palavra se não cumpre.

Que alegria não transpareceria no rosto do pobre soldado, se não estivesse tão velado pelo cabello! O seu coração rejubilou ao ouvir as boas palavras da linda moça! Tirou do dedo um annel que trazia, partiu-o em duas metades e deu uma das partes á rapariga, tendo antes d'isso o cuidado de escrever o nome na parte que deu á promettida e o d'ella na metade com que ficou. Feito isto, despediu-se dos seus novos conhecimentos, dizendo-lhes:

—Tenho ainda de correr mundo durante tres annos; se voltar ao cabo d'esse tempo casamos; se não{65} tornar, a sua palavra está desligada do compromisso, pois é prova segura de que morri; rogue a Deus para que me conserve a vida.

A infeliz namorada vestiu-se toda de negro, e sempre que se lembrava do seu promettido as lagrimas corriam-lhe abundantes. As irmans não se cançavam de a motejar e escarnecer.

—Acautela-te ao extenderes-lhe a mão, não vá elle dar-te a pata!—dizia-lhe a mais velha.

—Sê prudente, pois os ursos são traiçoeiros, e ainda que lhe agradasses, póde muito bem ser que depois te devore!—fazia côro a segunda irman.

—Tens de fazer-lhe todas as vontades, senão dá urros!—tornava a primeira.

E accrescentava a do meio:

—Sim, sim... e olha que a cerimonia deve ser bem divertida, pois os ursos dançam alegremente.{66}

A pobre creatura conservava-se alheia aos motejos que lhe não faziam diminuir o sentimento que nutria pelo bemfeitor de seu pae. Entretanto Pelle d'urso, percorrendo varios logares, continuava practicando o bem e semeando dinheiro a rôdo em esmolas, na esperança de que os mendigos rogariam por elle. Chegou finalmente o ultimo dia dos sete annos de caminheiro.

Tomou o caminho da charneca e foi sentar-se no mesmo sitio em que se havia sentado sete annos antes. Pouco tempo esteve só, pois que, segundos depois, sentiu soprar o vento e viu na sua frente o diabo olhando-o tristemente; em seguida restituiu ao viandante o seu antigo traje, recebendo em troca o casaco verde que lhe cedêra.

—Não te apresses—disse Pelle d'urso—primeiro tens que me arranjar convenientemente.{67}

Se a lembrança agradou ou não ao demo é cousa que não podemos averiguar, mas o que é certo é que, com vontade ou sem ella, não teve outro remedio senão ir buscar agua, lavar Pelle d'urso, cortar-lhe o cabello e as unhas, penteál-o e fazer-lhe a barba. Limpo e arranjado, Pelle d'urso voltou ao seu aspecto de soldado valente; nunca fôra tão formoso.

Assim que se viu livre do diabolico personagem de uma vez para sempre, o heroe do nosso conto sentiu-se leve que nem uma penna. Rapido se encaminhou para uma povoação proxima, comprou uma andaina de velludo, sentou-se n'uma elegante carruagem puxada a duas parelhas de cavallos brancos, e deu ordem ao cocheiro para se dirigir a casa da noiva. Pessoa alguma o reconheceu; e o futuro sogro, imaginando-o um alto personagem, fêl-o entrar para o gabinete em que permaneciam{68} as filhas. Convidou-o a sentar-se entre as mais velhas que tiveram o cuidado de offerecer-lhe vinhos generosos, doces dos mais finos, emfim fizeram tudo o que puderam para lhe agradar, e dizendo em segredo, entre si, que nunca tinham contemplado personagem tão perfeito. Comtudo a noiva, coberta de lucto, permanecia sentada defronte d'elle; não erguia os olhos nem dizia palavra. Por fim, o desconhecido—para nós bem conhecido—pedindo ao velho se consentia ser esposo de uma das filhas, as duas mais velhas levantaram se como se mola as impellisse, e foram paramentar-se com os mais ricos vestidos que possuiam, pois qualquer d'ellas estava crente de que era sobre si que incidia a escolha do desconhecido personagem. Ora, este apenas se viu só com a futura, tirou da algibeira metade do annel que conservara preciosamente,{69} metteu-a n'um calice que encheu de vinho generoso, apresentando-o á fiel menina que o acceitou e, depois de o beber, notou no fundo a metade do annel; sentiu pulsar o seu coração; tomou a outra metade que trazia pendente de um collar que lhe envolvia o pescoço, approximou as duas e viu que se ajustavam perfeitamente. Por então o rapaz disse:

—Sou o teu noivo, o noivo que ha tres annos viste coberto com uma pelle d'urso, mas graças a Deus recobrei a minha fórma primitiva.

Ao concluir, apertou-a nos braços, e beijou-a na testa. N'essa occasião, entraram as duas irmans muito tafulas nos seus vestidos, e ao verem que o personagem já estava compromettido com a mais moça, é que se lembraram de que não podia ser outro senão Pelle d'urso, de quem tão pouco haviam feito. Ficaram tão corridas de vergonha{70} e de invejoso ciume que fugiram do gabinete: uma deitou-se a um poço, e a outra enforcou-se na primeira arvore que encontrou.

Á noite bateram á porta; o noivo foi abril-a e reconheceu pelo casaco verde o diabo que lhe disse:

—Fiquei sem a tua alma, é certo, mas em compensação appareceram-me duas!

{71}

[Aventuras de João-Pequenino]

{72}
{73}

No tempo em que Deus andava pelo mundo, estava um pobre lavrador aquecendo-se á lareira emquanto se lastimava á mulher, que perto d'elle fiava, desgostoso por não ser contemplado com filhos.

—Que socego—accrescentou—vae n'esta casa emquanto que em outras então tanto barulho ha causado pela alegria e pelos risos da pequenada!

—Tens razão—appoiou a mulher, suspirando.—Oxalá tivéssemos um só, embora tão pequenino que quasi{74} se não visse. Isso me bastaria para nos alegrar e querer-lhe iamos de todo o coração.

A boa mulher, alguns dias passados, principiou a andar doente, e ao cabo de sete mezes foi mãe d'um menino tão bem formado que se disséra de todo o tempo, mas muito pequenino. Ao vêl-o, a mãe não se conteve que não dissesse:

—É exactamente como nós o haviamos desejado; não deixa, apezar de mais pequeno do que um dedal, de ser o nosso filhinho.

Por via d'isso toda a parentella lhe ficou chamando João-Pequenino. Crearam-n'o tão bem quanto puderam; não cresceu mais, ficando sempre do mesmo tamanho em que nascêra. Era muito vivo, muito esperto; e tinha uns olhitos muito brilhantes; e bem cedo mostrou o tino e actividade sufficientes para levar a bom-effeito qualquer empreza a que se abalançasse.{75}

O camponez, certo dia, apromptava-se para ir cortar madeira á matta visinha e disse para comsigo:

—Bem precisava eu de quem me conduzisse a carroça.

—Pae—gritou João-Pequenino—eu guio a carroça, se quer; não se assuste que chegará a tempo.

O homem desatou a rir:

—Isso é impossivel! Se és tão pequenino, como has de segurar a redea ao cavallo?

—Isso não faz ao caso, pae! Se a mãe vae atrellar o cavallo, eu metto-me na orelha do cavallo e ensino-lhe o caminho a seguir.

—Pois então, experimentemos.

A boa da mãe metteu o cavallo á carroça, e introduziu João-Pequenino na orelha do animal; e o João-ninguem gritava todo o caminho: Vá, cavallo! mas tão distinctamente que o animal andava como se na realidade o guiasse algum carroceiro; d'esta maneira chegou a carroça{76} á matta, indo pelos melhores caminhos.

No momento em que a carroça torneava uma sebe, e se ouvia a voz do rapazinho: vá, cavallo! passaram dois individuos desconhecidos que exclamaram estupefactos:

—É celebre! Uma carroça que anda á voz de um carroceiro que não se vê!

—Alguma cousa ha de extraordinario; sigamos o vehiculo para vêr onde pára!

Continuou a carroça no caminho que levava até parar no sitio onde havia arvores caídas. Assim que João-Pequenino avistou o pae, gritou:

—Então, pae, guiei ou não guiei a carroça? Agora põe-me no chão.

O lenhador, segurando com uma das mãos a redea, serviu-se da outra para tirar de dentro da orelha do cavallo o rapazito a quem pôz no chão; o rapazinho sentou-se n'um feto.{77}

Os dois desconhecidos, ao vêrem João-Pequenino, não sabiam que imaginar, de tal maneira ficaram extacticos com o rarissimo phenomeno. Falaram em segredo e resolveram:

—Este exemplar póde trazer-nos uma fortuna, se quizermos expôl-o a troco de alguns cobres em qualquer povoação; não será mau comprál-o.

Em seguida encaminharam-se para o camponez, e propuzeram-lhe:

—Quer vender-nos esse anãosinho sob a condição que cuidaremos muito d'elle?

—Não,—respondeu o interrogado—é meu filho e por dinheiro algum eu me desfaria d'elle.

João-Pequenino, porêm, que percebêra e ouvira bem toda a conversa, trepou pelas pernas do pae á altura do hombro e segredou-lhe:

—Pae, acceite a proposta, que eu em breve estarei de volta.{78}

Ante esse conselho de João-Pequenino, o pae cedeu-o aos homens por uma valiosa moeda de ouro.

—Onde queres tu collocál-o?—perguntaram entre si.

—Ora, ponham-me na aba do chapéu; assim posso vêr tudo quanto se passa em volta de mim e não ha meio de me perderem—alvitrou João-Pequenino, accrescentando:—Mas, cuidado, não me deixem cair.

Os homens assim fizeram; João-Pequenino despediu-se do pae, e foram-se embora com o rapazinho. Fartáram-se de caminhar até ao cair da tarde; n'essa occasião o boccadinho de gente gritou-lhes:

—Parem, que preciso de descer!

—Deixa-te estar no meu chapéu; não estejas com cerimonias, porque os passarinhos tambem me fazem isso muita vez!

—Não, não quero!—insistiu João-Pequenino—ponham-me depressa no chão.{79}

O homem pegou no João-ninguem e pôl-o no chão n'um relvado á beira-estrada; João-Pequenino depressa alcançou umas moutas e de repente encafuou-se n'uma toca de rato que buscára de propósito.

—Boa viagem, meus senhores, continuem o caminho sem a minha companhia—lhes gritou, rindo. Quizeram agarrál-o, fazendo cócegas na toca de rato com palhinhas—como é de uso fazer-se aos grillos, mas perderam o tempo e o feitio, pois que João-Pequenino cada vez se mettia mais para dentro da toca, e a noite visinhava-se, de modo que foram obrigados a ir para casa, fulos e com as mãos a abanar.

Quando já iam longe, João-Pequenino saiu do improvisado esconderijo. Arreceou-se de seguir viagem á noite, por meio de campos, porque partir uma perna não é difficil. Felizmente avistou uma cavidade no topo de uma arvore, exclamando:{80}

—Louvado Deus, já tenho casa para dormir.

Quando ia a pegar no somno, ouviu a voz de tres homens que abancaram por baixo da arvore, ceando e conversando:

—Como havemos de proceder para roubar a esse rico parocho toda a sua fortuna?

—Eu lhes digo!—dirigiu-se lhes a voz invisivel.

—Quem está ahi?!—gritou um dos ladrões verdadeiramente aterrorizado—Ouvi uma voz!

Calaram-se para escutar, quando João-Pequenino se tornou a ouvir:

—Tomem-me á sua conta, que eu os ajudarei n'essa piedosa tarefa.

—Onde é que estás?