MAPPA
DE
PORTUGAL

ANTIGO, E MODERNO

PELO PADRE

JOAÕ BAUTISTA

DE CASTRO,

Beneficiado na Santa Basilica Patriarcal de Lisboa.

TOMO PRIMEIRO.

PARTE I. E II.

Nesta segunda ediçaõ revisto, e augmentado pelo seu mesmo Author: e contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que toca à sua Historia Secular, e Politica.

LISBOA,

Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.


M.DCC.LXII.

Com as licenças necessarias, e Privilegio Real.

INTRODUCÇAÕ Á OBRA.

Entrey na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros, e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal.

Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos, cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor costuma supprir os defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ dos curiosos.[1]

Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa.

Com razaõ disse Justo Lipsio[2] que o invento dos Mappas fora a mais engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro Siculo[3] posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro[4] discipulo de Thales Milesio.

Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas, mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas Theodosianas.[5] Depois se foraõ expressando em globos, ou esferas, de que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,[6] e de Roma se divulgou este uso para todas as mais terras do Universo.

Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos, que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à esquerda o Occidente.

Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em todos os Mappas.

As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes huma da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da Equinocial para o Sul.

Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de cada num dos Tropicos.

O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.[7] E foy necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude, mas o de Leste-Oeste, ou de longitude.

Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta a largura, ou latitude do mundo; e contém sómente a quarta parte do comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha para o Sul.

Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18. leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas, diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay levantando para nós o Polo sobre o Horizonte.

Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles, de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.[8]

Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte, Ptolomeu, e outros companheiros desejosos de alcançar quantos gráos huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais occidentaes.

Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas Geograficas de varios Authores.

Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de Portugal.

Latitud.Longit.Carta Geografica de
gr. m.gr. m.
38. 58.7. 12.Fernando Alvares Seco.
38. 26.9. 54.Mons. Sanson.
38. 33.......P. Du-Val.
38. 53.10. 5.Pedro Mortier.
38. 55.5. 15.Francisco Halma.
38. 40.7. 45.Carlos Allard.
38. 40.10. 14.Joaõ de Ram.
38. 48.7. 42.Nicoláo Vischer.
38. 35.7. 37.P. Placido Agostinho.
38. 40.12. Joaõ Bautista Lavanha.
38. 35.9. 52.Joaõ Bautista Nolim.
38. 48.8. 6.Mons. Tailot.
38. 50.9. 45.Jacome Canteli.
38. 40.12. Gaspar Baillieu.
38. 48.9. 12.Joaõ Bautista Homannu.
38. 40.7. Pedro Teixeira.
38. 48.9. 15.Manoel Pimentel.
38. 45.......P. Capassi.
38. 39.......P. Dechales.
38. 40.......P. Ricciolo, e Tosca.
39. 38.5. 10.Petavio.

Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que mais se ajusta às computações da Arte de navegar do nosso insigne Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas.

Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar, segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce, e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra, e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor altura do Polo.

Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais saõ iguaes os dias com as noites.

Finalmente do conhecimento do gráo de longitude, e latitude juntamente resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me foy possivel extrahir dos Authores.

Braça Portugueza.10. palmos de craveira, ou 6. pés, ou 80. polegadas.
Covado Portuguez.3. palmos, ou 2. pés Portuguezes
Dedo.4. grãos de cevada lateralmente unidos.
Gráo em Portugal.18. leguas.
Em Alemanha10. leguas das grandes: 12. das medianas: 15. das pequenas, conforme diz Briecio; porém segundo Cluverio em Alemanha hum gráo da Esfera corresponde na terra a 5. leguas das grandes, ou a 10. das medianas, ou a 15. das pequenas.
Em Italia.60. milhas.
Em França.20. leguas das grandes, e 25. das commuas.
Em Inglaterra.27. leguas das grandes: 50. das medianas: 60. das pequenas.
Legua Portugueza.28168. palmos craveiros, ou 2818. braças de 10. palmos cada huma, ou 3000. milhas Italicas.
Alemã grande.6000. passos geometricos.
Mediana.5000. passos.
Pequena. 4000. passos, segundo Briecio.
Italica. 1000. passos.
Franceza. 3000. passos.
Ingleza. 2181. passos geometricos.
Castelhana. O mesmo que a Portugueza.
Milha. 1000. passos.
Palmo craveiro 8. polegadas.
Passo commum 4. palmos e meyo, ou 3. pés.
Andante. 3. palmos, ou dous pés.
Geometrico7. palmos e meyo de craveira escassos, ou 5. pés geometricos.
Pé Portuguez.12. polegadas, ou palmo e meyo de craveira.
Francez. O mesmo.
Polegada. 10. pontos, ou linhas.
Toeza.6. pés Regios. He propriamente medida Franceza.
Vara Portugueza.5. palmos.
Valenciana. 4. palmos.
Verga. 10. pés geometricos.

Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes, facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem de hum Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta, este lhe mostrará a distancia.

Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até fazer justa a mediçaõ.

Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de navegar do famoso Manoel Pimentel.

Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas, e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ tiradas por linha recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse.

No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Veja-se ao P. Azeved. no Trat. Ilias in nuce pag. 52.

[2] Lips. lib. 2. epist. 51.

[3] Diod. Sicul. l. 1. sect .2.

[4] Laertius in ejus vita.

[5] Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph. antiq.

[6] Ptolom. lib. 1. c. 24.

[7] Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3.

[8] Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3.

INDICE
DOS CAPITULOS DESTE
primeiro Tomo.

PARTE I.

[Cap. I.]Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino, [Pag. 1.]
[Cap. II.]Memorias de algumas Povoações que existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ, [5].
[Cap. III.]Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre, [29].
[Cap. IV.]Divisaõ antiga, [42].
[Cap. V.]Divisaõ moderna pelas Provincias, [45].
[Cap. VI.]Dos Montes, Promontorios, e serras de mayor nome, [81].
[Cap. VII.]Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis, [99].
[Cap. VIII.]Das Fontes mais notaveis, [148].
[Cap. IX.]Das Caldas, [156].
[Cap. X.]Da Fertilidade do Reino em commum, [160].
[Cap. XI.]Dos Mineraes, [169].
[Cap. XII.]Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas, e modernas que se tem lavrado em Portugal até o presente, [177].
[Cap.]XIII. Da lingua Portugueza, [193].
[Cap. XIV.]Do genio, e costumes dos Portuguezes, [201].

PARTE II.

[Cap. I.]Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania, [221].
[Cap. II.]Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes, [236].
[Cap. III.]Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos, [240].
[Cap. IV.]Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos, [254].
[Cap. V.]Invasaõ, e dominio dos Mouros, [269].
[Cap. VI.]Erecção do Senhorio de Portugal separado dos mais dominios de Hespanha, e estabelecimento dos Soberanos Monarcas Portuguezes, [281].
[Cap. VII.]Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal, [362].
[Cap. VIII.]Dos filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de Portugal, [376].
[Cap. IX.]Do governo antigo, e moderno da Casa Real, [421].
[Cap. X.]Dos Officiaes, e ordem com que se assistia à mesa dos Reys, [428].
[Cap. XI.]Do acompanhamento com que os Reys sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a Corte, [433].
[Cap. XII.]Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das Coutadas do Reino, [437].
[Cap. XIII.]Do estylo com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos pelos nossos Reys, e do modo com que estes assistem no acto de Cortes, [442].
[Cap. XIV.]Das ceremonias, e estylo que se praticava nas mortes dos Reys, [446].

Reyno de Portugal

MAPPA
DE
PORTUGAL.


CAPITULO I.
Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino.

Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha, sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13 gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas, commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285 leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as 150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10]

2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.

3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ, e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.

4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de Lusitania, querendo os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.

5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a palavra Lusitania he vocabulo Fenicio, derivado da raiz Luz, que se interpreta Amydgdalum, isto he, Amendoa, dos quaes frutos foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas Celtica.

6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra Lusitania dos antigos povos chamados Lusos, que habitaraõ este nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta, e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos antigos Portuguezes.

7 Quanto ao nome de Portugal, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ chamada Cale, que antigamente houve na margem austral do rio Douro, fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era proprio de huma só Cidade.[16]

8 Naõ averiguamos se a palavra Cale, como quer Joaõ Salgado de Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz do Douro com o nome de Cale, que significa Porto ameno, e seguro; porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias, como improvaveis, e nugatorias.

9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.

10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas, e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades sufficientes.[20]

NOTAS DE RODAPÉ:

[9] Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port.

[10] Geograf. Blavian.

[11] Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor. de Hesp. c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc. Lusit. p. 1. lib. 1.

[12] Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr.

[13] Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22.

[14] Hoffm. Diccion. verb. Lusit.

[15] De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi.

[16] Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49. Argot. Antig. de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c. 92. n. 2. Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de Portug. t. 1. pag. 188.

[17] Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel. ad ann. 1331. num. 2.

[18] Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6.

[19] Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4.

[20] Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175.

CAPITULO II.
Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes ou se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ.

1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio[21] dá o titulo de sagrada, he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ.

2 Aguas Celenas, Cilinas, ou Celanas. Era povoaçaõ, que esteve na Provincia do Minho. Lembraõ-se della Ptolomeu,[22] e Antonino em seu Itinerario no segundo caminho de Braga para Astorga. Dos Geografos modernos querem huns[23] que fosse onde está hoje o Lugar de Faõ, meya legua acima da barra do rio Cávado da parte do Sul, e onde se celebrou o famoso Concilio contra os Priscilianistas, em que presidio S. Toribio em tempo de S. Leaõ Papa. Outros porém[24] o constituem em Barcellos, persuadidos da semelhança do vocabulo do rio Celano, que por alli passa, chamado hoje Cávado; porém estas conjecturas saõ muy falliveis para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo o sitio que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao Padraõ, como bem explica o Padre Mestre Flores na Espanha sagrada tom. 15. pag. 75.

3 Aguas Flavias. Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta terra, que era onde vemos hoje a Villa de Chaves.[25] Dizem que tomou este nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador Flavio Vespasiano, a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy colonia dos Romanos muy frequentada, e ennobrecida por elles, como larga, e eruditamente mostra o insigne indagador de antiguidades[26] Lusitanicas, o Reverendo D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem o Padre Mestre Flores allegado.

4 Aguas Layas, ou Leenas. Na Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio achamos demarcado este lugar com o nome de Aquæ Leæ Turudorum quasi em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude. Alguns[27] querem que estivessem entre as Villas de Monçaõ, e Valladares: o que naõ póde ser pela arrumaçaõ daquelle insigne Geografo. Nosso famoso Argote persuade-se com razaõ[28] que esta era a Cidade de Lais, capital dos povos Turolicos, e que existira, onde hoje chamaõ a Freguezia de S. Martinho de Lanhozo, termo da Villa de Caminha.

5 Ambracia. O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha[29] diz que esta Cidade estivera no sitio de Barcellos, a qual foy fundaçaõ dos Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,[30] que diz que a Ambracia em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto, estava em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio Lusitano, seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,[31] porque diz que he Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no liv. 1. dos Successos militares pag. 5. v. diz que Ambracia estivera em Grecia, onde hoje chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no Diccionario Geografico com Cellario na Geografia antiga l. 2. c. 13. §. 177.

6 Araduca. Convem alguns dos Geografos[32] que estivesse esta Cidade collocada onde hoje vemos a nobre Villa de Guimarães. E seguindo esta opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de Guimarães, diz:[33]

Na aldeya d’ Araduca celebrada
Pela rara belleza das pastoras.

O mesmo diz Filippe de la Gandara nas Armas, e Triunfos de Galiza cap. 17. num. 3. Porém Gaspar Estaço[34] segue o contrario, e o intenta provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 gráos, e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8 leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito[35] diz que o que antigamente foy Araduca, he hoje Amarante: e já houve quem disse que era Aljubarrota. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a antiga Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao Padre Mestre Flores, Author moderno, tom. 15. da España sagrada pag. 286.

7 Araducta. Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio, parece ser a Arouca, que hoje existe.

8 Aravor. O Author da Corografia Portugueza[36] quer que fosse esta huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo sitio está hoje a Villa de Marialva; porém esta noticia só neste Author a achámos.

9 Aricio Pretorio, ou Ayre. Desta povoaçaõ se faz memoria no Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,[37] que existia nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr. Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades, que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino. Gaspar Barreirros tem para si[38] que distava huma legua de Coruche, onde agora está a Villa de Erra; porém Jorge Cardoso[39] diz que estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde chamaõ Alvéga, porque neste sitio ha vestigios antigos, que assim o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada Aricio entre a Feira, e Arouca; e na altura de Benavente, ou Salvaterra se vê Aritium Prætorium, em que parece convir com Resende.

10 Aroche. Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas ruinas se levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como eruditamente provaõ Fr. Manoel de Sá,[40] e Resende com alguns cippos alli descobertos.

11 Aunona. O Doutor D. Joaõ Ferreras[41] persuade-se que esta Cidade estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém nosso Argote[42] naõ he desta opiniaõ.

12 Auranca. Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9 leguas de Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10. c. 18., e Jorge Cardoso no Agiologio.[43]

13 Balsa. Tem para si o famoso antiquario Resende[44] que estivera esta Cidade no Algarve, onde agora reside Tavira; mas, segundo Ptolomeu, e Ortelio, parece ser Castro-marim. Todavia Christovaõ Cellario segue a conjectura de Resende;[45] e Gaspar Barreiros em hum manuscrito diz que he a aldea chamada Simine. Porém ou Balsa seja Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo de Beja na horta chamada do Bacello, naõ longe de Baleizam, achou no anno de 1742 o incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira Religioso Dominico, grande imitador de Resende no descobrimento das antiguidades do nosso Reino, hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio Saturnino habitador de Balsa erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem no 2. tom. do Diccionario Geografico do P. Cardoso a pag. 23. e na Gazeta de 20 de Setembro de 1742. Donde sem muita violencia se póde conjecturar pela semelhança do nome, que Balsa estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta antigualha; a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso Fr. Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta Provincia, de que tem junto grosso cabedal.

14 Benis. Por algumas congruencias parece ao laborioso D. Jeronymo Contador de Argote[46] que era esta huma Cidade Episcopal existente perto da Villa de Caminha.

15 Beselga. Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio esta povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar pobre, e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda conserva o appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ Monte da Cividade. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes contornos, de que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade Cardoso.[47] Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he Agueda, huma legua de Thomar.

16 Britonia. Grande controversia ha entre os Geografos sobre a verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de que os despersuade Jorge Cardoso.[48] Muitos dos nossos insistem,[49] em que esta Cidade estivera no sitio de Britiandos, Abbadia de Ponte de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar da Freguezia de S. Martinho de Birtello, termo da Villa da Ponte da Barca.[50] Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem em que existio junto do rio Lima,[51] fundando-se em mais provaveis documentos.

17 Calantia. Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo, e no mesmo terreno de Arrayolos, dando-lhe por fundadores os Celtas.[52]

18 Caldelas. Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe hum Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia[53] houvera alli antigamente a Cidade Caldede. E junto da Ermida de S. Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores, que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre, das quaes confessa Jorge Cardoso[54] conservava huma com a effigie de Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.

19 Caliabria. Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio na Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que dista huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, a cujo sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ Calabre. As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua grandeza, como bem diz a Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24.

20 Cambeto. O doutissimo Padre Argote intenta mostrar[55] que esta Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de Cambezes no Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da antiga Lusitania, composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o nome de Cambetum Lubenorum na altura de 41 gráos de latitude, e 13 de longitude, que deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que do Minho.

21 Campos Elysios. Anda introduzida nas Historias de Hespanha a antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos[56] collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova, e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores[57] querem huns que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados Lysirias, como se dissessemos Elysirios ou Elysirias; porém o certo he que naõ estiveraõ em parte alguma de Hespanha.

22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas. O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,[58] o qual introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia, que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.

23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,[59] que os Gregos, offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,[60] que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano[61] comprova o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.

24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente assegura[62] tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso, que a nossa vulgata chama do Deleite, substituindo assim a voz Eden, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.[63]

25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,[64] a quem seguiraõ os mais, que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso sagrado, de que faz memoria Moysés.[65] A causa porém, que commoveo ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem, conforme allega Moysés Barcepha,[66] e Malvenda.[67] Com esta breve demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos inteiramente das nossas Provincias.

26 Canace, ou Canali. Conforme diz Rodrigo Caro,[68] foy esta huma Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos collocada na carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de Faria escreveo ao Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que a Cidade de Canace estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde chamaõ Val de Infante, quatro leguas affastada de Evora.[69] Hauberto tambem a constitue junto de Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade Basiliense, que padecera aqui martyrio.[70]

27 Capara. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta Cidade junto de Evora,[71] porque, segundo a melhor conjectura, foy Cidade habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a poem quasi na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra dos limites de Portugal, e como diz Argaes,[72] pertence ao Bispado de Placencia.

28 Carmona. O Author da Benedictina Lusitana diz,[73] que cinco leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas leguas pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de Carmona, cujas ruinas, e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo.

29 Cauca. Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso[74] em collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves, e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,[75] e outros; porque mais me accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,[76] e tambem porque vejo no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia.

30 Ceciliana. O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama Castra Ceciliana, talvez deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns querem que seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas, o que naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua de Moura. Com o mesmo nome de Castra Celicis vejo huma povoaçaõ situada na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38 gráos, e 5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e outra quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude.

31 Celiobriga. Foy o que agora he Celorico de Basto, ou nas suas visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra na Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias do Arcebispado de Braga.[77]

32 Centocellas. Defende Jorge Cardoso[78] a situaçaõ desta Cidade junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de Belmonte, onde permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima a huma torre quadrada de obra Romana, onde diz estivera prezo este Santo; o que tambem confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das guerras da Provincia da Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio da Purificaçaõ,[79] e os incansaveis Antiquarios Argote, e Leal[80] mostraõ com evidencia ser erro de Cardoso.

33 Cinania. Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,[81] encarecendo muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava na Lusitania. Fr. Bernardo de Brito,[82] e seu abbreviador Manoel de Faria[83] mostraõ que estivera fundada junto de Roriz. Pertende porém Gaspar Estaço mostrar,[84] e o Padre Henrique de Abreu no discurso, que faz sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra do Maraõ,[85] onde ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela estrada, que da Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra está a Villa de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima está o Lugar de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ: aqui prova o dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso[86] a poem na eminencia de hum monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de Guimarães. O Author da Corografia Portugueza[87] a descobrio entre Lanhoso, e o Couto de Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas Memorias eruditissimas de Braga[88] confessa, que he incerta a precisa situaçaõ de Cinania.

34 Cetobriga. Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas se fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,[89] seguindo a Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara Cethubala, ou Cætum-Tubalis, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo nome com pouca mudança se deduzio Setubal. Porém André de Resende,[90] e Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva com tenacidade a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel he o que diz o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome: a antiga, onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo se dizia Cetobriga, e significava Cidade de muito, e grande peixe; porque Briga na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer Cidade, ou fortaleza, e Cete peixes grandes. Desta opiniaõ he Gaspar Barreiros,[91] o qual affirma, que no seu tempo havia no sitio desta Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o peixe, porque se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo da agua se mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem testifica Resende. Extincta finalmente a antiga Setubal, ou Cetobriga na geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns moradores dos que restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova colonia naquelle sitio, intitulando-a da mesma fórma Cetobriga. Correndo depois o tempo, se veyo a chamar Cetobala, e dahi Cetubala, e hoje Setubal. Desta opiniaõ he Luiz Nunes,[92] Christovaõ Cellario,[93] e convem no mesmo Villalpando in Ezechielem tom. 2. p. 16. Affirma tambem o allegado Resende, que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga está por cima da porta da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de carneiro em pedra, e lhe parece que houvera alli hum templo de Jupiter. De outras pedras alli descubertas faz tambem memoria o sobredito Antiquario.

35 Collipo. Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas se levantou a Cidade de Leiria, como he constante entre todos os Geografos.[94]

36 Concordia. Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada de Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania, e quasi com elle concordaõ Bivar,[95] Plinio, e outros.[96] Houve outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.[97] Jorge Cardoso[98] diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta povoaçaõ. Author ha, que diz he Tentugal.

37 Contraleucos conforme Ortelio; ou Catraleucus segundo Ptolomeu, foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa do Crato, como o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na Benedictina Lusitana. Outros querem que seja Castello-branco. Verdade seja que esta povoaçaõ, no conceito de D. Francisco Manoel he huma das que por nenhum modo saõ hoje por nós conhecidas.

38 Egitania. Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade nobilissima em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O Doutor Manoel Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio, escreve della eruditamente nas Memorias da Guarda.[99]

39 Eminio. Hoje he o Lugar de Agueda no termo de Aveiro. Foy povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados, de que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo, e de Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de Colubria. O Academico Manoel Pereira da Silva Leal[100] pertende mostrar que naõ tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della Plino, e Ptolomeu apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9.

40 Equabona. He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a primeira via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida.

41 Eritreia, ou Erythia. Encontramos muito embaraçada entre os Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,[101] seguindo a Pomponio Mela,[102] diz, que estivera na Costa de Portugal, e que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto, se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos Berlengas, talvez deduzido da palavra Londobris, que tambem lhe dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz Marinho de Azevedo, e outros, que este allega.[103]

42 Porém Diogo de Paiva[104] persuadido com a geral confusaõ de alguns Authores em naõ distinguirem a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso, he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas eruditas Disquisições;[105] e assim he infallivel ser diversa esta Ilha das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto, Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.[106]

43 Eburobricio. Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira situaçaõ desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar Barreiros[107] dizem, que estivera no sitio, onde hoje está Evora de Alcobaça; porém Fr. Bernardo de Brito,[108] reprovando a Vasconcellos, diz que fora em Alfezeiraõ; mas em outra parte duvída.[109] Mons. de La Clede[110] no Mappa da antiga Lusitania nenhuma duvida poem em situar a Alfezeiraõ no mesmo lugar de Eburobricio, e quasi na mesma altura se conformaõ os mappas de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui dedicado a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a grande resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos annos 130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.[111]

44 Evandria. He Olivença. Antonino lhe chama Evandriana.

45 Flaviobriga. O Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ do Minho tem para si que estivera esta povoaçaõ no sitio de Favayos, Villa da Provincia Transmontana, onde affirma que vira letreiros, que assim o testemunhavaõ. Foy huma das Cidades, que edificou ElRey Brigo.

46 Foro dos Limicos. Era huma Cidade collocada junto do rio Lima. O Padre Argote persuade-se que estivera no sitio, a que hoje chamaõ Santo Estevaõ da Faxa.[112]

47 Foro dos Narbassos. Foy Cidade cabeça de huns Póvos assim chamados, que existio perto de Braga, conforme a conjectura do incansavel Argote.[113]

48 Gerabrica, ou Jerabrica. Segundo a Geografia de Fr. Bernardo de Brito[114] esteve esta Cidade situada onde vemos hoje a Villa de Póvos. Prova-o este Author com o Itinerario de Antonino, o qual assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos, que fazem as sete leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa. Porém Gaspar Estaço, Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo Itinerario, que Jerabrica foy o que hoje he Alamquer.[115]

49 Lacobriga. Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e lembra-se della Baptista Mantuano,[116] quando diz, que erigira o Senado desta povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do Imperador Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a tomaraõ. Das suas ruinas se edificou a Cidade de Lagos no Algarve, e neste sitio vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de

Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,[117] donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando Lagos com Lamego,[118] e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel Pereira,[119] porque une os póvos da Serra da Estrella com os de Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama Langobrica, que Vasconcellos tem pela Villa da Feira. Ha quem diga que Lacobriga he a Villa de Abrantes, outros do Landroal, e Joaõ de Mariana diz, que he a Villa de Alvor, fundada por Anibal. Parece a outros ser Santiago de Cacem, como diz D. Francisco Manoel na carta 62. da centuria 3.

50 Magneto. Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de Romanos, e existio onde hoje chamaõ Santa Maria de Meinedo, que he hum Lugar do Bispado do Porto.[120]

51 Merobriga. De duas povoações com este mesmo nome achamos memoria em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra em Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio. Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy onde agora he Santiago de Cacem.[121] Aqui se venera na Matriz a notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35.

52 Myrtilis Julia. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no sitio de Mertola. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos até Béja, que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que ha de huma a outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta situaçaõ.[122]

53 Moro foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, ou Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no liv. 3. da sua Geografia se lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para conquistar os Lusitanos.

54 Nabancia. Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do Nascente da Villa de Thomar, onde affirmaõ nascera a gloriosa Virgem, e Martyr Santa Iria.[123] Na divisaõ dos Bispados, que fez Wamba, se lhe dá o nome de Naba,[124] conforme a intelligencia de Argote.

55 Norba Cesarea. O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando a Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e Ponsul, onde chamaõ os Toulões.[125] Hoje he Alcantara.

56 Numancia. Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores. Nenhum melhor que o eruditissimo Argote[126] soube aclarar esta confusaõ, distinguindo tres Cidades com este proprio nome; e com bons fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ Nemaõ, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro; e saõ deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo com mayor tenacidade,[127] a cujos fundamentos responde bem o sobredito Padre Argote.

57 Obobriga. Padeceo erro o Author da Corografia Portugueza[128] em collocar esta povoaçaõ na Villa de Monçaõ: mais ajustada congruencia tem em dizer que foy Orosia, posto que o insigne Argote o tem por fabula.[129]

58 Ossel, ou Osset. Tambem naõ lidaõ pouco os Historiadores, e Geografos em averiguar a genuina situaçaõ local desta Cidade. Fr. Bernardo de Brito tem para si que estivera no Valle Ossella, tres leguas distante de Arouca, Bispado de Lamego;[130] e accrescenta, que neste sitio achara vestigios daquelle notavel Templo, onde havia a Pia baptismal milagrosa, e que no meyo de huns cumulos de pedra estava huma cova feita ao comprido, cuberta de silvas, a que chamavaõ o banho, onde parece que naquella consumida reliquia perseverava ainda a tradiçaõ do tal prodigio.

59 Todavia Fr. Antonio da Purificaçaõ mostra[131] que esta terra teve sua existencia naõ longe de Viseu: que na sua principal Igreja houvera huma reliquia de Santo Estevaõ muito milagrosa: que ainda no seu tempo havia huma Ermida de fabrica antiquissima: que pouco adiante para a parte do mar está huma fonte, que chamaõ das virtudes: que mais para baixo estaõ naquelles contornos huns campos chamados de Assem, que bem mostra ser vocabulo derivado de Ossem.

60 Jorge Cardoso[132] julga que ficava Osset junto de Agueda, e que era Cidade taõ forte, que a ella se fora refugiar Santo Hermenigildo o anno 581 para rebater a furia de Leovigildo, como dizem alguns Historiadores.[133] D. Joseph de Santa Maria Carthusiano, Vigario do Convento de Nossa Senhora de las Cuevas em Sevilha, sahio à luz o anno de 1630 com hum livro sobre a situaçaõ de Ossel, e a colloca na Betica, seguindo a opiniaõ de Rodrigo Caro, a que Joaõ Franco Barreto lhe responde na Historia dos Bispos de Evora cap. 11. 12. 13. Porém huma das razões, que ha para desfazer estas conjecturas, he a authoridade de S. Maximo, que expressamente diz ficava a tal povoaçaõ, e Bautisterio no Bispado de Pax Augusta,[134] que he Badajoz.

61 Ossonoba, a que Plinio chama Lusturia,[135] e Bocharto[136] interpreta Fortaleza de Baal, esteve nas visinhanças de Faro no Algarve, onde hoje chamaõ Estoy. Foy Cidade famosa, e nobre, pois teve Cadeira Episcopal, como se collige de alguns Concilios, em que se vem assinados varios Bispos com o titulo de Ussonobenses, os quaes numéra o Catalogo dos Bispos do Algarve, que vem no fim das suas Constituições. Em tempo dos Romanos foy Republica. Consta de hum cippo, que está na muralha da fortificaçaõ de Faro, cujas letras se podem ver em Resende, e Grutero.[137] Strabo[138] lhe chama Sonoba, se acaso naõ he outro Lugar, como escrupuliza Bocharto. Na invasaõ dos Mouros padeceo naõ só a ruina das suas fabricas, e muros, mas do nome, porque lhe chamaraõ Exubona. Duarte Nunes,[139] e o Padre Poyares naõ distinguem Estoy de Estombar, sendo elles taõ diversos. D. Rodrigo da Cunha,[140] e Jorge Cardoso cahiraõ na mesma confusaõ, sendo que este emendou o erro, retratando-o em outro lugar.[141]

62 Panonias. Foy huma Cidade, que no tempo dos Romanos existio no terreno de Villa-Real, onde hoje está a Aldea chamada o Assento, da Freguezia de S. Pedro de Val de nogueiras: assim o mostra largamente o Reverendo Padre Argote.[142]

63 Pineto. Era outra Cidade situada no lugar, que hoje chamaõ Val de telhas, cinco leguas distante da Villa de Chaves, e foy povoaçaõ Romana, como affirma o mesmo erudito Argote.[143]

64 Salacia. De duas Cidades com este mesmo nome achamos memorias que existiraõ em nosso continente: huma cinco leguas de Braga, no sitio, onde chamaõ Salamonde; assim o prova Argote[144] com o Itinerario de Antonino: a outra Salacia esteve onde hoje vemos Alcacer do Sal, e foy Cidade, que os Romanos chamaraõ Imperatoria, honra, que lhe deu Augusto Cesar, fazendo-a tambem Municipio.[145]

65 Scalabis. He sem controversia a Villa de Santarem, a que os Romanos tambem chamaraõ Julium Præsidium. Em tempo dos Godos mudou o nome de Scalabis no que hoje possue, adquirindo-o da Santa Virgem, e Martyr Irena, cujo tumulo, naõ sem mysterio se conserva nas aguas do Tejo defronte de Santarem, o qual melhor pronunciado he o mesmo que Santa-Irene.

66 Talabrica. Quasi todos os Geografos convem em ser esta Cidade collocada antigamente onde está hoje Aveiro;[146] só Rodrigo Mendes da Silva, seguindo a Floriaõ do Campo,[147] diz que Aveiro naõ foy a Talabrica, mas sim a Labara, o que naõ he provavel, porque Labara he hum Lugar pequeno sobre o mar no termo do Porto. Duarte Nunes a constitue junto de Aveiro na ribeira do Vouga onde ha o lugar chamado Cacîa, e na parte da Ermida de S. Juliaõ; com quem se conforma Gaspar Barreiros pag. 51.

67 Tubuci foy povoaçaõ dos Romanos, de cujas ruinas, conforme diz Resende, se erigio Abrantes, e se comprova com o Itinerario de Antonino; o qual na segunda via militar, que descreve de Lisboa para Merida, assina de Scalabis a Tubuci trinta e dous mil passos, que fazem as oito leguas, que ha de Santarem a Abrantes. Alguns attribuem Tubuci a Tancos.

68 Tuntobriga. Foy huma Cidade, que pertencia à Chancellaria de Braga, e de que se naõ sabe mais que o nome.

69 Vacca. Persuade-se Jorge Cardoso no tom. 2. do Agiologio pag. 65. que esta antiga Cidade estivesse onde hoje vemos erecta a de Viseu; porém Plinio, e Ptolomeu naõ fazem della mençaõ. O Author da Corografia Portugueza diz, que por tradiçaõ a Cidade antiga chamada Vacca estivera onde hoje he a Villa de Vouga na Comarca de Aveiro: porém quando trata da Cidade de Viseu, traslada tudo que achou em Jorge Cardoso, convindo com elle em ser Viseu a antiga Vacca.

70 Outras muitas povoações existiraõ em nosso Reino em tempo dos Romanos, que se achaõ mencionadas nas Taboas de Ptolomeu, e Cartas de outros Geografos, posto que nós naõ conhecemos, nem lhe podemos saber o verdadeiro significado, mais que por conjectura, assim como fez Argote com algumas da Provincia Bracarense. Das que sem muita controversia podemos declarar situadas em varias partes do nosso continente, saõ as que numeraõ Resende, e Vasconcellos, a saber:

Ad septem Aras Açumar, ou Alegrete.
Amæa Portalegre.
Aquæ Flaviæ Chaves.
Aritium Prætorium Benavente.
Arucitana Moura
Balsa Tavira.
Bracara Augusta Braga.
Brætoleum Vianna de Caminha.
Budua Botova, ou Ouguella.
Calantica Arrayolos.
Calem Porto.
Ceciliana Agualva, ou Agua de Moira.
Cellium Ceice junto de Thomar.
Cetobriga Setubal.
Collipo Leiria.
Concia Miranda do Douro.
Conimbrica Condeixa a velha.
Ebora, ou Liberalitas Julia Evora.
Eburobritium Evora d’Alcobaça.
Elteri Alter do Chaõ.
Eminium Agueda.
Equabona Coina.
Forum Limicorum Ponte de Lima.
Fraxinum Alpalhaõ, ou Gaviaõ.
Helvij Elvas.
Jerabrica Póvos, ou Alenquer.
Igædita Idanha, ou Guarda.
Lacobrica Lagos.
Lama, ou Lameca Lamego.
Lancobrica Feira.
Malceca Marateca.
Matusaro Ponte de Sor.
Medobrica Aramenha.
Merobriga Santiago de Cacem.
Moro Almorol, ou Punhete.
Myrtilis Julia Mertola.
Næbia Neiva.
Olisipo, ou Fælicitas Julia Lisboa.
Ossonoba Estoi junto de Faro.
Pax Julia Beja.
Portus Anibalis Villanova de Portimaõ.
Salacia, ou Urbs Imperatoria Alcacer do Sal.
Saurium Soure.
Scalabis, ou Julium Præsidiũ Santarem.
Serpa Serpa.
Talabrica Aveiro.
Tubuci Abrantes.

NOTAS DE RODAPÉ:

[21] Plin lib. 8. Epist. 24. Revertere gloriam veterem, & hanc ipsam senectutem, quæ in homine venerabilis, in urbibus sacra est.

[22] Ptolom. apud Cellar. lib. 2 cap. 1. Geogr. antiq. Veja-se Botelho no Alfonso liv. 3. est. 77.

[23] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. pag. 627. Corog. Port. tom. 1. p. 310. Argot. Antig. de Brag. t. 1. c. 2.

[24] Villalob. Nobiliarch. Portug. pag. 89. Corogr. Port. t. 1. pag. 296.

[25] Resend. lib. 1. Antiq. Lusit. Cellar. Georgr. antiq. lib. 2. c. 1. §. 51. Vasæus Chronic. Hispan. pag. 254. Gruter. pag. 156. n. 4.

[26] Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 3. 4. 5. Et de antiq. Convent. Brachar. lib. 1. cap. 3.

[27] Gaspar Barreir. na Corogr.

[28] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. tom. 1. pag. 323.

[29] Cunha Histor. Eccl. de Brag. part 1. c. 19. Villasboas Nobil. Port. pag. 79.

[30] Rodr. Caro in notis ad Dextr. ann. 265. Ambrasia in Lusitania S. Epitectus ejusdem Civitatis civis, & Pontifex Martyr Christi

[31] Agiol. Lusit. tom. 3. pag 38.

[32] O Campo Chron. p. 1. lib. 3. c. 27. Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 6. n. 513. D. Franc. Man. Cent. 3. Cart. 62. p. 425.

[33] Faria Fonte de Aganip. p. 2. Eclog. 4. Est. 10.

[34] Estaç. nas Antig. de Port. c. 20.

[35] Monarc. Lusit. liv. 2. cap. 11.

[36] Corogr. Portug tom. 2. pag. 308.

[37] Resend. de Antiq. Lusit.

[38] Gasp. Barr. na Corogr.

[39] Cardos. no Agiol. tom. 3. p. 371.

[40] Sá Mem. Hist. part. 2 p. 1. & seq. Resend. de antiq. lib. 4. pag. mihi 171.

[41] Ferreras Histor. de Hesp. part 3. ad ann. 466

[42] Argot. Antig. de Braga tom. 1. p. 376.

[43] Cardos. Agiol Lusit. tom. 2. p. 344.

[44] Res. lib. 4.

[45] Cellar. lib 2. Geogr. antiq. cap. 1.

[46] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. lib. 2. c. 6. n 516.

[47] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. V. Argais na Poblacion Ecclesiast. de Hespanh. ad ann. 893.

[48] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 23.

[49] Monarq. Lus. l. 7. c. 23. Fr. Leaõ Benedict. tr. 2. p. 2. c. 21.

[50] Corogr. Port. t. 1. p. 237.

[51] Argot. Mem. de Brag. t. 2. p. 682.

[52] Vasconc. in not. ad Resend. lib. 1. p. 258. Rodr. Mend. Poblac. gen. de Hesp. p. 135. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port. t. 2. p. 525. Agiol. Lus. tom. 3. p. 86. Cardoso no Diccion. Geogr. tom. 1. p. 487.

[53] Corogr. Port. tom. 3. p. 175.

[54] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 761.

[55] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p.316.

[56] Rodr. Car. Antig. de Sevilh. Caram. Explicac. Mystic. de las armas de Hespanh. p. 72.

[57] Heit. Pint. in Ezech. cap. 13. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 1. exc. 6. Far. Epit. p. 4. lib. 5. cap. 4. Becan. in Hermat. p. 229. Luiz Mar. Antig. de Lisb. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port. tom. 1. p. 209. Lacerd. in l. 6. Virgil. Æneid.

[58]

Elysium in campum, terrarumque ultima tandem
Dii te transmittent, stat flavus ubi Rhadamanthus
Existitque viris, ubi vita, facilima durans
Non hyemis vis multa: nives non ingruit imber
Stridula, sed semper Zephyrorum flamina mittit
Ingens Oceanus, senimina grata virorum.

Homer. Odyss. d. vers. 113.

[59] S. Gregor. Nazianz. orat. 20. p. 333. Paradisi videlicet nostri speciem quandam animo intuentes, atque ex Mosaicis, ut opinor, nostrisque libris, tametsi in nomine nonnihil discreparit, aliis tamen vocabulis, hoc ipsum indicantes.

[60] Proclus in Hesiod. fol. 27. Beatorum insulas cum dicit Paradisum, aut campum Elysium significare videtur, sic dictum, quod corpora servet indissolubilia.

[61] Bechman. de origin. ling. Latin. p. 333.

[62] S. Justin. in Cohortat. ad Græcos p. 27. Permulta esse à Poeta, ex Divinis quoque Prophetarum libris in opus suum relata... Deinde verò, ut Paradisi effigiem Alcinoi horti conservarent, fecit illos florentes, & frugum ubertate scatentes.

[63] Div. Hieron. in Genes. cap. 2. vers. 15.

[64] Strab. de Situ Orbis lib. 3. p. mihi 143.

[65] Genes. 5.23.

[66] Barcepha de Paradis. cap. 12.

[67] Malvend. de Parad. lib. 1. cap. 9.

[68] Rodrig. Car. ad ann. Christ. 419.

[69] Benedict. Lusit. tom. 1. pag. 304.

[70] Haub. Chron. ad ann. 420.

[71] Haubert. ad ann. 86.

[72] Argaes Poblacion Eccles. de Hesp. tom. 1. fol. 10.

[73] Benedict. Lus. tom. 2. p. 109.

[74] Cardos. Agiol. Lus. tom. 1. p. 172.

[75] Maced Flor. de Hesp. excel. 10. n. 3. P. Purific Chronic. de S. Agost. p. 2. liv. 7. tit. 1. § 1.

[76] Argot. Antig. de Brag. part. 1. p. 377.

[77] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p. 318.

[78] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 338.

[79] Purific. Chron. August. tom. 1. p. 215. vers.

[80] Argot. Mem. de Brag. tom. 2. p. 694. Leal, Mem. do Bispad. da Guard. part. 1. tit. 3. cap. 2. n. 202. 203. 204.

[81] Valer. Maxim. l. 6. cap. 4.

[82] Monarq. Lusit. part. 1. liv. 3. cap. 13.

[83] Far. Epitom. p. 110. part. 2. cap. 10.

[84] Estaç. Antig. de Portug. cap. 19.

[85] P. Abreu no fim da vida de S. Quiteria p. 307.

[86] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 320. e tom. 3. p. 17.

[87] Corog. Port. tom. 1. p. 162.

[88] Argot. Mem. de Brag. p. 386. e 457.

[89] Monarq. Lusit. p. 1. cap. 3. Heit Pint. in Ezech. cap. 27. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 3.

[90] Resend. l. 4. de Antiq. p. mihi 216. Paiv. no Exame de Antiguid. p. 9.

[91] Barreir. Corograf. p. 63.

[92] Luiz Nunes cap. 38.

[93] Cellario Geograf. Antiq. liv. 2. cap. 1 § 16.

[94] Plin. liv. 1. cap. 24. Gruter. p. 1155. Vasconcel lib. 5. de Eborensi Municip. p. mihi 24. Duarte Nun. Deser. de Portug. p. 13. Brandaõ t. 3. Cardos. no Agiol. t. 2. p. 374. Barreiros na Corograf. p. 50. v.

[95] Bivar ad ann. 145.

[96] Plin. liv. 4. cap. 22. Benedict. Lusit. part. 4. trat. 2. p. 173. Abreu Vid. de S. Quiter. p. 203.

[97] Medin. l. 2.

[98] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. & tom. 1. p. 457.

[99] Leal, Mem. do Bisp. da Guard. p. 14. & seq.

[100] Id. Dissertaç. Exegetic. not. 5. n 28.

[101] Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 26.

[102] Mela liv. 5. cap. 24.

[103] Resend lib. 2. Antiq. p. 66. mihi. Baudrand. Diction. Geogr. verb. Erythia. Marinh. de Azeved. Antiguid. de Lisb. p. 105.

[104] Paiv. Exam. de Antig. p. 42.

[105] Montejar, Antig. de Hesp. part. 2 disquis. 5. §. 2. cap. 2.

[106] Salmac. Exercit. Plinian. p. 284. Avien. in Oris maritim. vers. 308. Bochart. Geograf. Sacr. p. 679. Car. Antig. de Sevilh. l. 3. cap. 25. Cellar. Geogr. antiq. liv. 2. cap 1. §. 127.

[107] Vasconcel. in Annotat. ad Resend. Barreir. Corograf. p. 50.

[108] Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 11.

[109] Ibid. l. 5. cap. 17.

[110] De La Cled. Hist. de Portug. tom. 1.

[111] Monarq. ut supr.

[112] Argot. nas antiguid. da Chancellar. de Brag. p. 128.

[113] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. liv. 2. cap. 6. n. 525.

[114] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.

[115] Estaç. Antig. de Portug. cap. 87. Barreir. Corog. tit. de Talaver. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 34.

[116]

Dicitur Ardiburi posuisse Lacobriga septem
Victori toties statuas, totiesque per illum
Eruta Wandalicis bello insurgente procellis.
Mantuan. in Agelaric.

[117] Vasconcel. Descript. Regn. Lusitan. p. 797.

[118] Mousinh. no Afric. cant 3. est. 14.

[119] Gabr. Pereir. na Ulyss. cant. 8. est. 146.

[120] Argot. Mem. de Brag. liv. 4. cap. 4. p. 670.

[121] Resend. de Antiq. Lusit. lib. 4. p. mihi 188. e 209.

[122] Andr. Schotti, Isaac Vosio, Plinio, Antonin, e outros apud Cellar. lib. 2. cap. 1. §. 20. Geograf. antiq.

[123] Monarq. liv. 9. cap. 27. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 68.

[124] Argot. Mem. do Arc. de Brag. p. 649.

[125] P. Henriq. de Abreu, Vid. de S. Quiter. p. 203.

[126] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. l. 2. cap. 14. dissert. 3.

[127] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2 & 16. cap. 45. Cardos. Agiol. Lusitan. tom. 2. a 20 de Abril, & tom. 3. p. 726. Arauj. nos Success. Milit p. 109. & seqq.

[128] Corograf. Port. tom. 1. p. 210.

[129] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. p. 396.

[130] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 11.

[131] Purific. Chronic. August. tom. 1. p. 134. vers.

[132] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 546.

[133] Fr Leaõ de S. Thom. Benedictin. Lusit. tom. 2 p. 279. Saavedr. Coron. Gotic. part. 1. cap 12.

[134] S. Max. ad an. 550. Prope Osset oppidum Lusitaniæ in Diœcesi Pacis Augustæ fontes Baptismatis in pervigilio Paschatis excitantur.

[135] Plin. l. 3. cap. 1.

[136] Bochart. Geogr. Sacr. lib 1. cap. 34. tom. 2.

[137] Resend. l. 4. p. 201. Gruter. p. 274.

[138] Strab. liv. 3. p. 99.

[139] Nun. Descr. de Portug. pag. 13. Poyar. Diccion. Geogr. pag. 184.

[140] Rodrig. da Cunh. Hist. de Brag. part. 2. cap. 61. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 1. Prolog. § 6.

[141] Id. Card. tom. 2. Agiol. p. 10. Vide etiam Argaes Dialog. 3. cap. 8.

[142] Argot. Memor. do Arceb. de Brag. p. 325.

[143] Id. ibid. p. 359.

[144] Ibid. p. 370.

[145] Plin. lib. 4. cap. 22. Barreir. Corogr. p. 63.

[146] Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. §. 9.

[147] Mend. da Silv. Poblac. gen. de Hesp.

CAPITULO III.
Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre.

1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional, o primeiro porto, que se nos offerece, he

2 Caminha. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os Lugares de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se

3 Viana na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de fóra da ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade para ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais entupida de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, dous revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para sua defensa. Daqui se continúa até