EDIÇÕES
DO
ARCHIVO UNIVERSAL
THEATRO
DE
JOÃO D'ANDRADE CORVO
I
O ALLICIADOR—O ASTROLOGO
LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
rua dos Calafates, 113
1859
O ALLICIADOR
DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II
PERSONAGENS
| José Velhaco | 30 annos | O sr. Theodorico |
| Luiz do Campanario | 20 » | » Tasso |
| Antonio Prudente | 50 » | » Epifanio |
| O Vigario | 50 » | » Domingos |
| Joaquim | 40 » | » J. Antonio |
| Joanninha | 18 » | A sr.ª Soller |
| Maria das Dores | 60 » | » C. Talassi |
A scena passa-se na Madeira em 185...
ACTO PRIMEIRO
Um campo de vinha. Á direita uma choupana aceiada e grande, cercada de hortencias, bannaneiras, e moitas de flores.
SCENA I
Luiz do Campanario e Antonio Prudente
ANTONIO
(Sahindo da choupana.) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora, rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.
LUIZ
Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a esquadra, que hontem chegou ao Funchal. Quando era pela volta do meio-dia estavamos livres.
ANTONIO
Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos ajudar a viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos dão por caridade.
LUIZ
Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.
ANTONIO
Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim, não quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o melhor é não fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao senhor governo, o que seria contra os meus costumes antigos. Já estou velho para novidades; e como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta casa, e esta fazenda, que eu fiz por minhas mãos, não quero entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a gente mais cedo.
LUIZ
É verdade; lá isso é, sr. Antonio.
ANTONIO
Tu tens coisa que te dê pena?
LUIZ
Não, não tenho. Não é nada.
ANTONIO
Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.
LUIZ
Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...
ANTONIO
E o que?
LUIZ
Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...
ANTONIO
Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou toda a vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não ganhou nunca senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga de milho, e eu não lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.
LUIZ
Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que o ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não lhe queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como hoje, em que tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se mirraram as uvas...
ANTONIO
La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade Deus dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes, rapaz.
LUIZ
O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu, tenho a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de trabalho, ali na fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade pertence a minha irmã, que está casada, e cheia de filhos—pobre mulher!—E as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me servem, nem acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a companha de um barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.
ANTONIO
Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda de meu—porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias—por ter esta fazenda, e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei que todo o mundo era feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair sobre Joanninha o castigo desta minha cegueira.
LUIZ
Deus a ampare, á nossa Joanninha.
ANTONIO
Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer morgado, a minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até bordar. Heide cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não saiba nunca o que é pobreza.
LUIZ
(Com dor.) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... ser feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo para Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo... Joanninha é muito moça.
ANTONIO
Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me a separar della.
LUIZ
(Com alegria.) Então por ora não se casará.
SCENA II
Os mesmos e Joanninha
JOANNINHA
(Correndo para Antonio.) Não se casará por ora, nem casará em quanto não tiver noivo do seu gosto.
LUIZ
Joanninha!
ANTONIO
Estavas ahi, filha?
JOANNINHA
Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.
ANTONIO
Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.
JOANNINHA
Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para longe desta freguezia, onde nasci e me criei (Olhando para Luiz.) Tenho aqui todos, e tudo de que eu gosto.
ANTONIO
Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.
JOANNINHA
Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e áquelles com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (Com tristesa.) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.
LUIZ
Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.
JOANNINHA
Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os Antigos.
LUIZ
A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi, á sombra dos castanheiros.
ANTONIO
(Com inquietação.) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se finezas, que me parecem dois senhores da cidade.
JOANNINHA
Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que diz, faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria das Dores, a mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos irmãos.
LUIZ
Irmãos!... irmãos sim. (Commovido.) E o que mais me custa, é separar-me de ti...
JOANNINHA
(Assustada.) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?
LUIZ
Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma viagem... Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...
JOANNINHA
Para onde?
LUIZ
Para longe. Ainda não sei.
JOANNINHA
Não vás.
ANTONIO
Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil, talvez. Ir e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.
JOANNINHA
E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?
LUIZ
Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.
JOANNINHA
(Com as lagrima nos olhos.) Não pode ser. Assim não vae isto bem. Tua mãe está velha... e sem ti estalla de pena.
LUIZ
Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança. Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas rochas quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um pobre, vivendo de mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola, quando lhe pagam o seu trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso é que o coração cá dentro não me soffre.
JOANNINHA
E queres?
LUIZ
Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.
JOANNINHA
E se morreres?...
LUIZ
Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma pouca de terra para me deitarem por cima.
JOANNINHA
Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te ouço fallar assim, (Chorando.) Não vês que me fazes pena quando dizes dessas doidices?!
LUIZ
Não é para te fazer pena...
ANTONIO
É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra, e em morrendo acabou-se. Tambem eu heide...
JOANNINHA
Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...
LUIZ
Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim como aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um mato maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu heide da minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da gente ter vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho andado para a conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José Velhaco. Ha menos de um anno pobre como eu, e agora com grilhões de oiro, e relogio, e dinheiro, que é um pasmar. Foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas!
ANTONIO
O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem. Outros lá vão, e por lá ficam.
LUIZ
Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não foi só o José Velhaco que voltou rico. Ahi estão na Madeira mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.
ANTONIO
Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia me disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os passaros.
LUIZ
Talvez. O que for soará.
ANTONIO
Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te deixes enganar com as apparencias.—Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã, antes que se faça mais tarde. (Sae.)
JOANNINHA
Adeus Luiz.
SCENA III
Luiz e Joanninha.
LUIZ
(Detendo-a.) Uma palavra, Joanninha.
JOANNINHA
Que me queres?
LUIZ
Tenho que te dizer.
JOANNINHA
Mas agora! Meu pae espera-me...
LUIZ
Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.
JOANNINHA
Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (Aos bastidores.) Ahi vou já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um instante.
LUIZ
(De dentro.) Pois eu cá vou andando.
JOANNINHA
(A Luiz.) Diz agora o que queres de mim.
LUIZ
Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de pequenos andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não passou até hoje uma semana em que nos não vissemos?
JOANNINHA
Lembro-me.
LUIZ
Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da serra, e levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro, apanhando flores de urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?
JOANNINHA
Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol como estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo daquelle grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não tinha sentido nunca: não sei se alegria se tristeza... O coração batia-me como eu nunca o senti bater.
LUIZ
Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca mais andámos sós, um com o outro pela serra.
JOANNINHA
Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos vermos.
LUIZ
Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.
JOANNINHA
Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta que me querias fazer?
LUIZ
Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque, emfim, o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para dizer tudo.
JOANNINHA
Mas... o que querias dizer-me?
LUIZ
Não te pões mal commigo, não é verdade?
JOANNINHA
Porque?
LUIZ
Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos podiamos ver todos os dias, passou.
JOANNINHA
Então partes breve?
LUIZ
Hoje mesmo.
JOANNINHA
Deus me acuda! Hoje!
LUIZ
Hoje me vou.
JOANNINHA
Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.
LUIZ
Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe saiba. A ti tambem não queria dizer nada, mas faltou-me o animo...
JOANNINHA
Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem alegria o coração.
LUIZ
Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre, nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se tu me não disseres que não, Joanninha—para poder...
JOANNINHA
O que?
LUIZ
Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.
JOANNINHA
Não digo, não te digo que não.
LUIZ
E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu pae consinta no casamento?
JOANNINHA
Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.
LUIZ
Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou. Ainda ha pouco elle m'o disse, aqui mesmo.
JOANNINHA
Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.
LUIZ
Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar aos perigos.
JOANNINHA
Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu morreres.
LUIZ
Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade proteger-me, e eu heide voltar.
JOANNINHA
Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua festa, se tu voltares cedo.
LUIZ
Agora... Joanninha... adeus... adeus!
JOANNINHA
Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados... ralada de saudades.
LUIZ
Um abraço de despedida. (Caem nos braços um do outro.)
AMBOS
Adeus! Adeus! (Joanninha sae.)
SCENA IV
LUIZ só.
Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma para sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.—E voltarei?... tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e eu, pobre como sou, nunca heide casar-me com Joanninha.—As orações daquella santa rapariga ha de Deus ouvil-as, e basta.—Quem se não arriscou não perdeu nem ganhou.
SCENA V
Luiz e Jozé Velhaco
JOZE
Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é preciosa para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e salteado, estava a esta hora com um sacho na mão a sachar milho na fazenda d'um morgado, que, no fim de contas, me ficaria com metade do producto da minha labutação. O morgado que nasceu rico—isto é um modo de dizer—que nasceu dono de terras, e nem sabe nem tem prestimo para as cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu milho, para dar aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para enganar a fome. Santa palavra, rapaz, santa palavra!
LUIZ
Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso tens tu rasão.
JOZE
Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico como um morgado... mais do que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!
LUIZ
Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos.
JOZE
Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas... como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.
LUIZ
É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.
JOZE
Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e a comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.
LUIZ
Mas esse tempo quanto dura?
JOZE
Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz nada. Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar muros, a plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a gente sem ter nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias ficam agarradas á terra, donde se não podem arrancar.
LUIZ
Que de coisas tu sabes agora!
JOZE
É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito. Aquillo é que é terra, homem! Campos que é um gosto vel-os. Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? Ganha-se dinheiro que é um louvar a Deus!
LUIZ
Mas as febres?
JOZE
Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas não é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá se morre de febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu tens medo de morrer?
LUIZ
Eu!...
JOZE
Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as doenças lhe chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu sou animoso, valente...
LUIZ
Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?
JOZE
Pois eu não sou?... Não fui sempre?..
LUIZ
Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não fizeste nunca senão levar e calar.
JOZE
Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal ao proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que tenho mandado um pár delles para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com o bem, é de um homem como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo deitaste-me um dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado um pedaço de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para teres fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro... para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!
LUIZ
Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao que importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir. Minha mãe, pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã que é pobre, e pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe ao menos tenha um pedaço de pão para matar a fome.
JOZE
Conta comigo.
LUIZ
Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...
JOZE
Dize, que eu sou um bom amigo.
LUIZ
Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...
JOZE
Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem
LUIZ
Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de Joanninha...
JOZE
Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é bonita... e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.—Maganão!
LUIZ
Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim, se a sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e então a pedirei ao pae.
JOZE
Bem pensado—Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?
LUIZ
Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.
JOZE
Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!
LUIZ
Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo. Agora mais um favor.
JOZE
Venha lá mais esse...
LUIZ
É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou para bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe. Aqui tens vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão propria.
JOZE
Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.
LUIZ
(Dando-lhe dinheiro.) Pois vou-me, antes que ella chegue; não tenho cá dentro força, para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no bote fazer um frete até ao Funchal. Amanhã lhe contarás a verdade. Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. (Estendendo os braços para o lado donde, vem Maria das Dores.) Mãe, mãe! A tua benção, mãe; para que Nossa Senhora me não desampare! (Sae.)
SCENA VI
José Velhaco, só.
JOZE
Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte patacas que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber ámanhã do bom homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca, fazem cincoenta patacas—É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa muito mais agora, depois que os inglezes se declararam protectores dos pretos; e o Luiz vale bem dois negros de Angola—Viva... viva...—como lhe chamam elles, os inglezes?—Viva a philan... a philantropia que em vez de escravos negros, vae fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz ao caso; mas escravos ha de havel-os, em quanto houver homens com fome, em quanto houver miseria no mundo. Santa palavra! O dinheiro é que é a liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei dinheiro!... Irei ficando com as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha que ahi vem. Só para o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.
SCENA VII
José Velhaco e Maria das Dores
JOZE
Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.
MARIA
Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu Luiz?—Pareceu-me vel-o.
JOZE
Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça desarranjada, não lhe parece?
MARIA
O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe tenho prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve ir conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e nunca tive na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser «bensa-te Deus:» pois olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido andando. Se Deus me conservar o meu Luiz, á hora da morte hei de louvar a Deus, por me ter mandado a este valle de lagrimas.
JOZE
Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado, diz bem sr.ª Maria.
MARIA
Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o penso.—Hoje em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do que foram seus paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que n'outro tempo havia aos srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo de Deus. Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma grande volta.
JOZE
Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os periodicos?
MARIA
Não leio, não me ensinaram a ler.
JOZE
Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...
MARIA
Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando oiço contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e fazem-me scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas nunca lh'o digo. Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não trabalha mas nasceu morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás direitas.
JOZE
Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora, quando a viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.
MARIA
Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze, tem-me morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e eu fui ficando—Deus sabe para que.—Mas agora, se me faltasse o meu Luiz, a isso não resistia.
JOZE
Deve estar preparada para tudo.
MARIA
Porque?
JOZE
Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a minha, senhora Maria—e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que vá por esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são egualmente felizes...
MARIA
Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.
JOZE
O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados, que lhe chamam agora o villão; o desejo de deixar de ser um villão para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro, comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas; este desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O dinheiro, sr.ª Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah! ah! Santa palavra!
MARIA
Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem vergonha.
JOZE
É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive sentimentos taes... porque sou...
MARIA
Joze, Joze, sempre teve—desde pequeno que o conheço—propensão para o mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu, Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...
JOZE
Invejosos!
MARIA
Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as culpas.
JOZE
Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?
MARIA
Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.
JOZE
Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe mal zangar-se—Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.
SCENA VIII
Maria das Dores
MARIA
O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem elle... Nossa Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima, porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes para si (Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi escondida por detraz de uma moita). Ave Maria cheia de graça, o senhor é comvosco... (Continua a murmurar orações.)
SCENA IX
A mesma—Antonio Prudente—O Vigario—Joanninha
VIGARIO
Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio. Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as sabe escolher bonitas como ella.
JOANNINHA
Ora! sr. Vigario.
VIGARIO
Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores. Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos, paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras.
ANTONIO
E merece-o o menino, porque muito bom é.
VIGARIO
Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae, nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por vaidades fofas e impios preconceitos.—Este flagello dos vinculos ha de acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.
ANTONIO
E quando acabará ella sr. Vigario!?
VIGARIO
Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis; quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre o homem do povo e unidos ao nome de villão. Os grandes padecimentos do povo hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos; quando no mundo civilisado—porque o mal não existe só aqui na ilha—se não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse; quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.—Mas esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.
ANTONIO
V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são verdadeiras.
VIGARIO
O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem sei que entende o que lhe disse.
JOANNINHA
A verdade é para todos.
VIGARIO
Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.
ANTONIO
O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha... deve-lhe tudo...
VIGARIO
Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia. Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos, e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem.
ANTONIO
É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem manda.
VIGARIO
Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes, meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver; é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça de vis especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que elles procuram enganar a fome.
JOANNINHA
(Com susto.) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?
VIGARIO
Muito mais do que se pensa.
ANTONIO
É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.
VIGARIO
Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão com os pés na sepultura.
ANTONIO
Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.
JOANNINHA
E quem é, pae?
ANTONIO
O Luiz do Campanario.
JOANNINHA
Isso não póde ser.
MARIA
(Levantando-se e vindo á frente da scena.) Não pode ser. O meu Luiz não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da morte.
ANTONIO
É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...
VIGARIO
Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar, tirar-lhas-hei da cabeça.
ANTONIO
Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o pagará, meu senhor Vigario.
SCENA X
Os mesmos e Joze Velhaco
JOZE
Sr.ª Maria das Dores... Ah! (tirando o chapeo.) Boas tardes, sr. Vigario. Estou ao seu dispor.
VIGARIO
(Com mau modo.) Bons tardes, sr. Joze.
JOZE
V. S.ª está zangado, ao que parece.
VIGARIO
Talvez.
JOZE
É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...
VIGARIO
Pois dê-lhe a noticia.
MARIA
Diga, homem.
JOZE
Não tenha pressa de saber.
JOANNINHA
Falle, sr. Joze.
JOZE
O Luiz, o seu Luiz, foi-se.
AMBOS
Para onde?
JOZE
Para Demerara.
MARIA
É mentira.
JOANNINHA
Jezus!
JOZE
Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle estará a esta hora o nosso Luiz.
MARIA
Como soube...
JOZE
Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.
VIGARIO
E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?
JOZE
Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha de dar remedio a todos os males.
Cahe o panno.
Fim do 1.º acto
ACTO SEGUNDO
A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á direita uma janella.
SCENA I
Antonio Prudente e Joze Velhaco
JOZE
Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras, umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma rapariga póde desejar.
ANTONIO
Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella fica mal comigo,—olhe que é verdade,—fica mal comigo em eu lhe fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.
JOZE
Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!
ANTONIO
Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau pae de familia. É certo... é certo—deixe-me dizer o que penso—que todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem uns—foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos inglezes—outros dizem—o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa Senhora...
JOZE
E vmc. o que diz?
ANTONIO
Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que dizem mal.
JOZE
É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua casa para fora.
ANTONIO
Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr. Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se Joanninha tal soubesse!
JOZE
Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes falsos testemunhos.
ANTONIO
Quando se está innocente.
JOZE
Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha uma rapariga, que se lhe possa comparar.
ANTONIO
A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!
JOZE
Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!
ANTONIO
(Rindo muito.) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!
JOZE
(Em tom de discurso.) É preciso acabar com este odio á chamada escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira, uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...
ANTONIO
Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia falla muito, e falla bem.
JOZE
Então, decide-se o casamento?
ANTONIO
Está decidido, e hade ser já.
JOZE
Falle a Joanninha.
ANTONIO
Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.
JOZE
E ella é quem o hade decidir?
ANTONIO
Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (Com violencia.)
JOZE
Mandar, sem soffrer observações.
ANTONIO
Como um pai a uma filha desobediente.
JOZE
Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (Sae.)
SCENA II
ANTONIO PRUDENTE só
É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras, depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade, quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que succede nesta terra. (Ouve-se a voz de Joanninha cantando). Ahi vem ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer respeitar e obedecer por tua filha.
SCENA III
O mesmo e Joanninha
ANTONIO
Vens muito alegre, Joanninha.
JOANNINHA
Eu, pae!
ANTONIO
Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.
JOANNINHA
Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que me faz cantar.
ANTONIO
(Perdendo um pouco a severidade.) E diziam as trovas...
JOANNINHA
Senhora do Monte
Trazei-me o meu bem,
Com tristezas destas
Não pode ninguem.
Senhora do Monte
Trazei-mo depressa,
Fazei que o meu noivo
De mim não se esqueça.
Sem elle, alegria
E paz eu perdi,
Senhora do Monte
Trazei-m'o aqui.
ANTONIO
Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.
JOANNINHA
(Com alegria.) Elle! Pois chegou?
ANTONIO
Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.
JOANNINHA
Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta freguezia?
ANTONIO
(Colerico.) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer a teu pae.
JOANNINHA
N'isso, não.
ANTONIO
Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.
JOANNINHA
Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o sr. padre Vigario, e todos...
ANTONIO
É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo. O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.
JOANNINHA
Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo, e agora...
ANTONIO
Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.
JOANNINHA
Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...
ANTONIO
Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a seu pae.
JOANNINHA
Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.
ANTONIO
Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é demais isto, Joanna.
JOANNINHA
Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (Cae de joelhos.)
ANTONIO
As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra, que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento. Choras agora; depois hasde rir.
JOANNINHA
Pae, não me desgrace.
ANTONIO
O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e obedecer. (Sae commovido, e escondendo as lagrimas.)
SCENA IV
Joanninha, depois Maria das Dores
JOANNINHA
Pae!... pae!... Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de pura dor... que me trespassa o coração... Santo nome de Jesus, valei-me.
MARIA
(Entrando.) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo toda chorosa?
JOANNINHA
Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo, Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.
MARIA
Tornou-te a fallar no casamento?
JOANNINHA
Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle mandava e não queria ser desobedecido.
MARIA
Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem, com um homem mau, infame, não te podes casar.
JOANNINHA
Mas que se hade fazer?
MARIA
Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu Luiz... se ainda será vivo?
JOANNINHA
E sem noticias delle!... ha um anno que se foi!
MARIA
Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande dor, minha Joanninha.
JOANNINHA
Ai, não diga tal.
MARIA
Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece que me diz que elle morreu.
JOANNINHA
Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.
MARIA
Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores. Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E Deos ainda me não chamou para si!
JOANNINHA
Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para mulher de outro não.
MARIA
Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas... se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.
JOANNINHA
Então quer que eu case com o Joze Velhaco!
MARIA
Com esse não. Mas com outro...
JOANNINHA
E se Luiz não morreu?
MARIA
Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.
JOANNINHA
Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com que cara lhe havia de apparecer?... e que olhos havia de pôr em meu marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle só morta me levarão á igreja.
SCENA V
As mesmas e Joze Velhaco.
JOZE
É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?—(As duas mulheres dão um grito de terror.) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum diabo.
MARIA
Bem o parece!
JOZE
Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta ilha a perder as raparigas honestas.
MARIA
Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..
JOZE
Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.
JOANNINHA
Morreu...
JOZE
Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.
MARIA
Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...
JOZE
Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas que ella nos roga, a bruxa!
JOANNINHA
Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a minha segunda mãe?... que todos cá na freguezia a respeitam?
JOZE
Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com ingratidões o grande amor que lhe eu tenho.
JOANNINHA
Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de ruim alma, e má consciencia!
JOZE
Joanninha! (Querendo pegar-lhe na mão.) Não se deixe enganar pelas mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?
MARIA
Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os pobres da Madeira.
JOZE
Calle-se, mulher; senão!..
MARIA
Ameaças agora!
JOZE
Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.
JOANNINHA
Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não... quando me deem por marido um homem que aborreço.
JOZE
Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...
JOANNINHA
Matar-me é que elle pode.
JOZE
Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (Brandamente.) Fica-lhe bem a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um homem, que já morreu?
JOANNINHA
Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre mãe, dizendo isso?
MARIA
Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!
JOZE
Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os morgados maiores da Madeira!
MARIA
Todos te despresam!
JOZE
(Levantando a mão com colera.) É de mais. Se te não callas...
JOANNINHA
Que faz Joze? Que se atreve a fazer?
JOZE
Nada... por agora.
JOANNINHA
(Pegando nas mãos de Maria das Dores.) Venha, Maria das Dores, venha minha boa, minha santa mãe!... Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.
MARIA
Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos. (Sáem as duas.)
SCENA VI
Joze, só
JOZE
Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse acontecer-me!. (Rindo.) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!
SCENA VII.
Joze Velhaco e Joaquim.
JOAQUIM
(Batendo á porta.) Ólá, menina Joanninha!
JOZE
Não está cá a menina, saiu.
JOAQUIM
Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem não está aqui?
JOZE
Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?
JOAQUIM
Trazia-lhe um recado de meu amo.
JOZE
Do sr. Vigario?
JOAQUIM
Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer fallar á velha.
JOZE
Para que?
JOAQUIM
Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse correndo.
JOZE
(Á parte.) Que será? O Vigario em tudo se mette.
(Alto.) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores? Em! Joaquim?
JOAQUIM
Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer; mas parece-me...
JOZE
O que?
JOAQUIM
A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma hora só com elle.
JOZE
O que disseram?
JOAQUIM
Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.
JOZE
Hade ser, hade ser isso. (Á parte.) Fico mais alliviado; já não precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por doida. (Alto.) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?
JOAQUIM
Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.
JOZE
Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.
JOAQUIM
O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...
JOZE
Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz... tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade. Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim.
JOAQUIM
Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens.
JOZE
Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco tempo, sem trabalho, havia occasião.
JOAQUIM
Eu quero; oh! se quero.
JOZE
Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.
JOAQUIM
Está promettido.
JOZE
O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de segredo? Em?
JOAQUIM
Oh! homem, não me conhece ainda?
JOZE
Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (Com um gesto de ameaça.) Sempre se póde fazer callar um homem.
JOAQUIM
Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.
JOZE
(Assustado.) Então?...
JOAQUIM
(Rindo.) É... é a amizade, que lhe tenho...
JOZE
Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso. Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.
JOAQUIM
O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem que lhe dizer.
JOZE
Pois ahi está; é isso mesmo.
JOAQUIM
Então querem que vá a Demerara?
JOZE
Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.
JOAQUIM
(Rindo.) Ah! ah! ah! Rico! E como?
JOZE
Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.
JOAQUIM
Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr. Joze? Em!
JOZE
Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.
JOAQUIM
Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a um homem.... Em Demerara comem gente?
JOZE
(Rindo.) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo.
JOAQUIM
Que querem elles então?
JOZE
Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu, que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um homem váe, e volta rico sem lhe custar nada.
JOAQUIM
E isso é assim para todos?
JOZE
Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os felizes? Santa palavra!
JOAQUIM
(Rindo muito.) Agora... agora percebo—Ah! ah!... É boa! É como quem diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?
JOZE
Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?
JOAQUIM
Para quando a partida?
JOZE
No primeiro navio.
JOAQUIM
Pois amanhã lhe dou a resposta.
JOZE
Mas o segredo?...
JOAQUIM
Está dito.
JOZE
Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?
JOAQUIM
É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou procurar a tia Maria das Dores.
JOZE
Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.
JOAQUIM
Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.
JOZE
Adeus. (Joaquim sáe.)
SCENA VIII
Joze, depois Antonio Prudente
JOZE
Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente pai de familia!—Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez a governar a sua casa! (A Antonio que entra.) Ora já sei, sr. Antonio, que a sua Joanninha lhe não quer obedecer.
ANTONIO
Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio Prudente.
JOZE
Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes—ouvi-lho com estes ouvidos—repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de Joanninha era um tolo—perdão sr. Antonio, eu não faço senão repetir—que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas quizessem.
ANTONIO
Pois a velha disse isso?... diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze, em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a Maria das Dores, onde está minha filha?
JOZE
Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.
ANTONIO
Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez me porá os pés em casa.
JOZE
Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o Vigario protege-a.
ANTONIO
E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.
JOZE
Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser prudente.
ANTONIO
Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar as filhas desobedientes.
JOZE
Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me veem, não entram.
ANTONIO
Deixe-as commigo.
JOZE
Tenha moderação... paciencia!
ANTONIO
Deixe-as commigo, já lho disse. (Joze sae.)
SCENA IX
Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha
ANTONIO
Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (Ás duas que entram.) Venham ambas que temos que fallar.
JOANNINHA
(Assustada.) Que quer, pae?
ANTONIO
A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.
JOANNINHA
Pae... antes morrer.
ANTONIO
Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti. Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!... És má filha, e só te perdôo se me obedeceres.
JOANNINHA
Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!
ANTONIO
E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.
JOANNINHA
Eu... É falso, é uma falsidade infame.
ANTONIO
Calla-te.
MARIA
Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de chorar.
ANTONIO
Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae, quem a ensinou foi você, mulher.
MARIA
Que diz, Antonio?
ANTONIO
Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa, nunca mais falle com minha filha...
MARIA
Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..
ANTONIO
É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus conselhos.
MARIA
(Chorando.) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou.
ANTONIO
Pois julga que Antonio Prudente?...
MARIA
Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o enganou, o traz assim mudado.
ANTONIO
Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro. Ponha-se fora mulher. Na rua já!
MARIA
Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a este homem. (Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de fundo o Vigario.)
SCENA X
Os mesmos e o Vigario
VIGARIO
(Detendo Maria das Dores.) Antonio Prudente, que palavras são essas; porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores?
ANTONIO
Anda desinquietando minha filha.
VIGARIO
Desinquietando sua filha!..
ANTONIO
Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a desobediencia!
VIGARIO
Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria, todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito.
ANTONIO
Sr. Vigario, essas palavras são injurias.
VIGARIO
Não faço injurias, digo verdades.
ANTONIO
Mas não sabe...
VIGARIO
Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?
MARIA
(Suffocada pelas lagrimas.) Não. Pela vida de meu filho, se elle vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.
VIGARIO
Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar, pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe desventurada.
ANTONIO
Sr. eu... pensei... acreditei...
VIGARIO
Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado, Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e cegam o espirito.
ANTONIO
Mas minha filha recusa obedecer-me.
VIGARIO
Porque offendeste teu pae, Joanninha?
JOANNINHA
Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...
VIGARIO
Mas o que?
JOANNINHA
Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.
ANTONIO
Bem vê, sr. Vigario...
VIGARIO
Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da deshonra... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta, como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos desprezam.
ANTONIO
O que diz?
VIGARIO
O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse!
JOANNINHA
Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!
ANTONIO
(Com hesitação.) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de Antonio Prudente é sagrada.
VIGARIO
Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não for sacrificar sua filha.
Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto.
JOANNINHA
O que aconteceu?
VIGARIO
Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr d'aquelle pae!
ANTONIO
(Como arrastado por uma força invizivel.) Ai, se a mim me roubassem a minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos quem m'a tivesse roubado.
VIGARIO
É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.
ANTONIO
O que fez o pescador?
VIGARIO
Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca; lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes, ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas. Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens.
ANTONIO
E matou-o?
VIGARIO
Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»
ANTONIO
E então?
VIGARIO
Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.
ANTONIO
E quem foi que as roubou?
VIGARIO
Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...
ANTONIO
De quem?
VIGARIO
Do Joze Velhaco.
ANTONIO
Elle!
VIGARIO
Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido de sua filha um homem perdido de reputação.
ANTONIO
Não... sem elle se justificar.
VIGARIO
Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina; mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel.
ANTONIO
Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.
VIGARIO
Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (Vae para sair.)
JOANNINHA
Pae, escute o sr. Vigario.
ANTONIO
(Commovido.) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!
VIGARIO
Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.
ANTONIO
Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco, e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar é preciso ouvil-o.
VIGARIO
Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (Com brandura.) Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados; custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz.
ANTONIO
Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.
VIGARIO
Vá depressa.
ANTONIO
V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...
VIGARIO
Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.
ANTONIO
(Beijando a mão do Vigario.) Agradecido, agradecido. (Sae.)
SCENA XI
Os mesmos, menos Antonio Prudente
VIGARIO
Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.
JOANNINHA
Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.
VIGARIO
Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de um amigo as enchuga. (Brincando.) Eu sei, minha menina chorosa, que essa mão benefica não hade tardar muito aqui.
JOANNINHA
Ninguem pode consolar-me.
VIGARIO
Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.
MARIA
Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.
VIGARIO
Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.
MARIA
Feliz, eu?! Sem o meu filho?!
VIGARIO
Quem lhe disse isso, Maria das Dores?
MARIA
Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.
VIGARIO
Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.
MARIA
Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o meu Luiz.
JOANNINHA
Ah! diga!
VIGARIO
Joze Velhaco mentio.
MARIA
(Desfallecendo.) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na alegria!
JOANNINHA
(Pulando.) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!
VIGARIO
Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que a dôr.
MARIA
Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a duvida. Elle não morreu?
VIGARIO
Não.
MARIA
Mas está ainda longe?
JOANNINHA
Em Demerara?
MARIA
Teve noticia?
JOANNINHA
Quando chega!
MARIA
Talvez a esta hora já não viva!
JOANNINHA
É preciso mandal-o buscar.
VIGARIO
(Enternecido.) Soceguem. Já está em caminho.
MARIA
Ha quantos dias?
JOANNINHA
Virá d'aqui a tres?
MARIA
Amanhã?
VIGARIO
Mais breve.
AMBAS
Hoje!?
VIGARIO
Chegou. (As duas mulheres abraçam-se.)
MARIA
Que alegria, filha!
JOANNINHA
Jesus!
MARIA
Eu... morro, porque não posso...
JOANNINHA
Onde está?
MARIA
O meu filho? (Luiz entra precepitadamente.)
VIGARIO
Está aqui.
AMBAS
Luiz!
Cae o panno.
FIM DO 2.º ACTO
ACTO TERCEIRO
A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro de tres bicos alumia bem a caza
SCENA I
Joze Velhaco e Joaquim
JOZE
É negocio concluido. (Mostrando um papel que tem na mão.) Esta obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.
JOAQUIM
Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade! Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o, ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de quarenta patacas, que recebi...
JOZE
A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro; assim se faz em toda a parte.
JOAQUIM
Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que em outra que nem de portuguezes é.
JOZE
Pois eu falto ao que prometto, homem?
JOAQUIM
Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (Rindo-se.)
JOZE
Ri-se, Joaquim?
JOAQUIM
Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!
JOZE
(Á parte.) O maldito Luiz não ficou! (Alto.) Com esses não ajustei senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando se ganha.
JOAQUIM
(Rindo muito.) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.
JOZE
Então o que quer, Joaquim?
JOAQUIM
O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!
JOZE
De aliciador! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam bem.
JOAQUIM
Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que eu quero; e sem ella não vou da Madeira!
JOZE
Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um papel escripto.
JOAQUIM
Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!
JOZE
Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O ajuste era outro.
JOAQUIM
Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e morrer, e que o sr. Joze póde morrer...
JOZE
Mas se eu morrer de que serve o papel?
JOAQUIM
Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.
JOZE
Mas...
JOAQUIM
Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.
JOZE
(Indo a uma mesa e escrevendo.) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.
JOAQUIM
Assim é que é fallar.
JOZE
Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque sei que é meu amigo, Joaquim.
JOAQUIM
Pois não sou?
JOZE
E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.
JOAQUIM
E a obrigação?...
JOZE
Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...
JOAQUIM
O que é?
JOZE
Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim, com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.
JOAQUIM
Então o que quer?
JOZE
Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem posto duvida...não deu ainda o sim... O pae dezeja muito o casamento, e com brevidade...
JOAQUIM
Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... sapathia, que mais dezeja o sr. Joze? Case! (Com escarneo.)
JOZE
A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante.
JOAQUIM
E que remedio posso eu dar a isso?
JOZE
E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo. Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se quizer, póde servir-me de muito.
JOAQUIM
Mas como?
JOZE
Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara, furtar... levar d'aqui a Joanninha.
JOAQUIM
Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?
JOZE
Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.
JOAQUIM
E se a pequena gritar?
JOZE
A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca, quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.
JOAQUIM
Vm. lá o lê, lá o intende.
JOZE
Então está prompto?
JOAQUIM
Estou, mas venha o papel.
JOZE
Você faz de mim quanto quer. (Dá-lhe o papel.) Vá abaixo ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar.
JOAQUIM
Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.
JOZE
Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.
JOAQUIM
O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (Sae.)
SCENA II
JOZE, só
Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado, commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio.
SCENA III
Joze Velhaco e Antonio Prudente
JOZE
Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?
ANTONIO
Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto com aquella cara de bom homem!...
JOZE
(Á parte.) Que maroto! (Alto.) Bom homem de certo, devo-lhe bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?
ANTONIO
Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.
JOZE
Desgraças! Quem póde evital-as?
ANTONIO
Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado antes de lhe dar a minha filha.
JOZE
(Com admiração.) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os contos do Vigario sempre pegaram!
ANTONIO
Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É facil, e não leva muito tempo.
JOZE
A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio Prudente.
ANTONIO
Isso depois: por em quanto esperaremos.
JOZE
(Á parte.) Eu te direi logo se espero! (Alto.) O que o fez mudar, sr Antonio Prudente?
ANTONIO
(Com embaraço.) Respeito muito a opinião do nosso Vigario; e em quanto elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor... demorarmos o casamento.
JOZE
Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!
ANTONIO
A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um abraço... cuidei que o arrebentasse!
JOZE
Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim! Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr. Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra!
ANTONIO
(Apertando-lhe a mão.) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o Vigario tão má vontade?
JOZE
Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?
ANTONIO
Não me diga...
JOZE
Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do Campanario...
ANTONIO
Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver se ella o esquecia...
JOZE
Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.
ANTONIO
Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o Vigario?... Um homem que morreu.
JOZE
Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario sabe que elle está...
ANTONIO
Aonde?
JOZE
Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.
ANTONIO
Aqui?
JOZE
Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a sua por deante.
ANTONIO
Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o sr. Joze.
JOZE
Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha: sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua filha case comigo?
ANTONIO
Dou, permitto! (Battendo o pé no chão.) Hade fazer-se o casamento. (Depois de pensar um pouco.) Mas quero levar o negocio de vagar, e com prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais descanço.
JOZE
Pois fique-se com Deos.—Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas duvidas. Fie-se no que lhe digo. (Indo para sair.) É preciso que um homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (Sáe.)
SCENA IV
Antonio Prudente e Joanninha
ANTONIO
Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (Chamando.) Joanninha!
JOANNINHA
Meu pae!
ANTONIO
Anda cá. Responde-me... e não mintas.
JOANNINHA
Eu nunca lhe menti, pae.
ANTONIO
Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze Velhaco?
JOANNINHA
Já lhe disse, pae, que não.
ANTONIO
Nem com elle, nem com outro?
JOANNINHA
Dezejo ficar na sua companhia.
ANTONIO
(Colerico.) Mentes.
JOANNINHA
Eu? sou muito sua amiga!..
ANTONIO
Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.—Prometteste casar com o Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de não t'o deixar esquecer. Invencioneira!
JOANNINHA
Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..
ANTONIO
Contra minha vontade!
JOANNINHA
O coração póde mais.
ANTONIO
Creancices, filha! Isso hade passar!
JOANNINHA
Em eu morrendo!
ANTONIO
É a ultima vez que to digo, Joanna. (Severo.) Has de casar com quem eu mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem palavras do Vigario, me torcem desta resolução!
JOANNINHA
(Chorando e com muita dôr.) Eu... não choro nem lhe desobedeço. Deixo-me morrer.
ANTONIO
Historias! (Olhando para a filha com muita dôr.) As raparigas não morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer, filha... (Agarrando-a com muito amor.) Minha rica filha!
JOANNINHA
Meu pae! (Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara.) Se eu não posso viver sem elle...
ANTONIO
Viste-o hoje? Sei que chegou.
JOANNINHA
Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!
ANTONIO
Invenções... para te seduzir.
JOANNINHA
Não diga isso:..—Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres, e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça, causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...
ANTONIO
E eu a escutar-te... a chorar quasi! (Limpando os olhos.)
JOANNINHA
Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.
ANTONIO
(Repellindo-a sem violencia.) Gosto muito de ti, filha; mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz...
JOANNINHA
Elle é capaz de tudo.
ANTONIO
Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser...
JOANNINHA
A minha desgraça. Pae se soubesse...
ANTONIO
(Com muita colera.) Joanna!
JOANNINHA
Oiça; que é verdade. Escute!
ANTONIO
Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.
JOANNINHA
Quando o Luiz foi para Demerara—enganado por elle, e levado pelo amor que me tinha—entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das Dores...
ANTONIO
E então?
JOANNINHA
Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.
ANTONIO
É falso!
JOANNINHA
O Luiz e Maria das Dores não mentem.
ANTONIO
Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!
JOANNINHA
(Com firmeza.) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de mim o que quizerem.
ANTONIO
Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem deshonrado.
JOANNINHA
(Abraçando-o.) Meu querido pae!
ANTONIO
Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje inquieto para ambos nós. (Dando-lhe um beijo.) Adeos filha. Não queiras mal a teu pae. (Sae.)
SCENA V
Joanninha, depois Luiz do Campanario
JOANNINHA
Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae? (Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada na parede.) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me. Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz. (Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem ajoelhar junto de Joanninha.)
LUIZ
Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!
JOANNINHA
(Levantando-se.) Luiz!...! Aqui?
LUIZ
Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?
JOANNINHA
E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora, parece que já me sinto outra.
LUIZ
Mas teu pae não consente!
JOANNINHA
Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua innocencia.
LUIZ
Não póde mostrar!
JOANNINHA
Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do sr. Vigario!
LUIZ
Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo... havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós felizes.
JOANNINHA
Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa. Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado, e sentir-te...
LUIZ
Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»
JOANNINHA
Porque?
LUIZ
Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci. Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a Nossa Senhora que nos soccorra.
JOANNINHA
E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria! Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido.
LUIZ
Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...
JOANNINHA
Luiz.
LUIZ
Joanninha!
JOANNINHA
E quando será?
LUIZ
Cedo, bem cedo! (Esta scena deve ser representada com muita rapidez.)
SCENA VI
Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros
JOZE
(Apparecendo á janella, com uma pistola na mão.) Veremos.
JOANNINHA
Ah!
LUIZ
Joze! (Correndo alguns passos para elle.) Agóra pagarás tudo... malvado!...
JOZE
(Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada.) Nem mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.
LUIZ
(Detendo-se.) O que fazes?
JOZE
(Entrando.) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (Aos dois marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim.) Rapazes, segurem-me este heroe!
LUIZ
Maldito!
JOZE
Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!
JOANNINHA
Jezus, acudi-me!
JOZE
(Aos marinheiros.) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara, donde fugiu... o escravo!
LUIZ
(Rezistindo apenas.) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!... Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...
JOZE
(Aproximando-se de Joaninha.) Joanninha, tudo isto faço pelo muito amor, que te tenho!
JOANNINHA
E consente Deos isto?
JOZE
Vem commigo!
LUIZ
Não consintas, Joanninha!
JOANNINHA
Antes morrer.
JOZE
(Colerico.) Não morrerás, e serás minha.
JOANNINHA
Só tua, Luiz!
JOZE
Ajuda-me, Joaquim!
JOANNINHA
(Gritando.) Deixe-me, deixe-me.
JOZE
Se gritas... se dizes uma palavra. (Aponta a pistolla a Luiz.)
LUIZ
Grita... brada... pede soccorro...
JOANNINHA
Soccorro!
JOZE
(Cego de furia.) Morre, para não gritares! (Dispara a pistolla sobre Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço.) Errei! (A Joaquim) Que fizeste?...
JOAQUIM
(Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o.) Chegou tambem a tua vez, Joze! Pagarás tudo agora. (Neste momento saltam pela janella, e entram arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario.)
SCENA VII
Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio
VIGARIO
Segura-o, Joaquim.
LUIZ
(Armado com a faca de um dos marinheiros.) Tem firme, esse malvado: vou-lhe arrancar o coração!
VIGARIO
(Detendo-o.) Luiz! Luiz... diante de mim!..
LUIZ
É um preverso!
VIGARIO
A justiça o castigará.
ANTONIO
(Entrando espavorido.) Que é isto... em minha caza?
JOZE
Querem-me assassinar. Acuda-me!
VIGARIO
Calla-te...
JOZE
Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir sua filha...
ANTONIO
Seduzir minha filha?...
JOZE
E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com risco de vida... Quando ia para o castigar...
VIGARIO
Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e frustei os teus planos.
JOZE
É falso, é falso!...
VIGARIO
Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?
LUIZ
Roubou.
VIGARIO
Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?
JOAQUIM
É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (Da-o a Antonio.)
VIGARIO
Para servir de prova.
JOZE
A obrigação que me pediste?!... Traidor!
VIGARIO
Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente!
JOAQUIM
Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.
VIGARIO
(A um homem.) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?
O HOMEM
Foi, sr. Vigario!
VIGARIO
Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.
TODOS
Somos.
JOZE
É mentira.
VIGARIO
Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (Alguns homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!)
ANTONIO
Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?... salvou a minha querida Joanninha. (Abraça-a.)
VIGARIO
Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.
ANTONIO
O sr. Vigario manda nesta caza.
VIGARIO
Então mando que não haja ninguem triste. (Pondo a mão de Joanninha na mão de Luiz.)
ANTONIO
Mas, sr. Vigario...
VIGARIO
O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado Bittencourt.
LUIZ
(Com fogo) Viva o nosso Vigario!
TODOS
Viva!
ANTONIO
Deos proteja o nosso Vigario.
VIGARIO
Deus proteja a Ilha da Madeira.
Cae o panno.
Fim do 3.º acto e do drama.
O ASTROLOGO
DRAMA EM 5 ACTOS
PERSONAGENS
| Fr. Bermudo. | D. Gonçalo de Sousa. |
| D. Mendo Paes. | D. Soeiro Viegas. |
| O Infante D. Affonso. | João Sirita, Ermitão. |
| D. Pedro Framariz. | D. Bibas, bobo. |
| O Bispo D. João Peculiar. | D. Bonamiz, bobo |
| D. Tello, Prior de Santa Cruz. | Um Judeu. |
| D. Gonçalo Mendes. | Um Templario. |
| D. Egas Moniz. | D. Gontrade. |
| D. Lourenço Viegas. | D. Violante. |
| D. Guilherme Ricardo. | |
| Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de armas, frecheiros e besteiros. | |
ACTO PRIMEIRO
Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães.
SCENA I
Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um Judeu prezo com uma corda
1.º BESTEIRO
Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis.
2.º BESTEIRO
Olá!—O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.—Bons meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um judeu um sacco de oiro.
1.º BESTEIRO
E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe quanto tempo.
2.º BESTEIRO
Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas migalhas do que der a conquista.
1.º BESTEIRO
E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além do Téjo!
2.º BESTEIRO
E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre ha que apanhar.
1.º HOMEM D'ARMAS
Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.
2.º BESTEIRO
E a alma de indulgencias.
1.º HOMEM D'ARMAS
Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...
1.º BESTEIRO
E tem razão.—E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez, nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar para o inimigo como um homem.
1.º HOMEM D'ARMAS
(Em voz baixa.) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a matou.—Aquella prizão... e depois aquelle desterro...
2.º BESTEIRO
O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia. Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.
1.º BESTEIRO
Palavras inuteis... e perigosas!—Vamos levando este maldicto judeu para a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.
1.º HOMEM D'ARMAS
Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.
1.º BESTEIRO
Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.
2.º BESTEIRO
(Puxando pelo judeu) Vamos, vamos. (Ao 1.º homem d'armas.) Garcia, faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é para dar nos judeus e nos cães da moirama?
1.º HOMEM D'ARMAS
(Dando no judeu.) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem pelo diabo!
JUDEU
Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.
1.º HOMEM D'ARMAS
Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.
JUDEU
Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.
1.º BESTEIRO
Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.
JUDEU
Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.
ALGUNS BESTEIROS
Uh! uh! maldito judeu.
1.º HOMEM D'ARMAS
Has de ser assado vivo.
JUDEU
Deus de Jacob, salvae-me!
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamos, que alli vem fr. Bermudo.
1.º BESTEIRO
O feiticeiro... o magico.
JUDEU
(A fr. Bermudo.) Salvae-me... salvae-me!
SCENA II
Os mesmos, e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?
1.º HOMEM D'ARMAS
Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...
FR. BERMUDO (Colerico.)
Para o roubar, para o atormentar.—Deixae-o...
2.º BESTEIRO
Um judeu...
FR. BERMUDO
Um judeu tambem é homem.—Deixae-o.
1.º HOMEM D'ARMAS
Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.
FR. BERMUDO
Dizei-lhe que fui eu.
1.º HOMEM D'ARMAS (Com hesitação)
Mas...
FR. BERMUDO
(Com colera.) Já disse.
1.º BESTEIRO
(Baixo aos outros.) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.
TODOS
Deixemol-o. (Deixam o judeu.)
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamo-nos... depressa.
1.º BESTEIRO
Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?
2.º BESTEIRO
É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (Sáem.)
SCENA III
O judeu e Fr. Bermudo
JUDEU
(Cahindo de joelhos.) Quero agradecer-vos de joelhos.
FR. BERMUDO
Vae-te... salva-te.—Não pônhas em mim essas mãos.
JUDEU
Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe escrever o destino dos homens...
FR. BERMUDO
Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens d'armas.
JUDEU
Sois o maior homem da terra! (Sáe.)
SCENA IV
Fr. Bermudo (só)
FR. BERMUDO
(Rindo.) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (Pauza.) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão vida, e segredos que matam...—Que tem?! O futuro é um martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!... De que serve a sciencia?... E o que é ella, essa sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos fé...—Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,—porque lhe quero como se elle fôra meu filho,—como o hei de salvar?... E Violante, esse anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...—como os hei de separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino separa por um abismo! (Pausa—apontando para os astros.) Está escripto... está tudo escripto nos astros...—É fatal! (Crusa os braços e fica meditando.)
SCENA V
D. Mendo e Fr. Bermudo
D. MENDO
(Vendo Fr. Bermudo.) Aqui, fr. Bermudo!
FR. BERMUDO
Esperava por ti, D. Mendo.
D. MENDO
Por mim?... Neste sitio? Agora?
FR. BERMUDO
É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.
D. MENDO
De Violante... Quem te disse?
FR. BERMUDO
Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te venho dizer agora.
D. MENDO
Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre muito amôr?... Seremos felizes?..
FR. BERMUDO
A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...
D. MENDO
O que quer dizer tudo isso?
FR. BERMUDO
Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel fugir ao destino.
D. MENDO
Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa disposição dos astros?
FR. BERMUDO
Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha de separar-te da que amas; que depois terás a gloria...
D. MENDO
Calla-te...—Sem ella... que m'importa o resto?
FR. BERMUDO
Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu leio pelo seu livro.
D. MENDO
Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.
FR. BERMUDO
A tua estrella não se apagou.—Serás grande e forte.
D. MENDO
O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das fallanges serracenas.
FR. BERMUDO
Tudo póde o destino!
D. MENDO
Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...
FR. BERMUDO
O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os homens apagar.
D. MENDO
Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.
FR. BERMUDO
O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.—Mendo, sou teu amigo, sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo—Entre ti e Violante ha um abysmo.
D. MENDO
Hei de transpôl-o.
FR. BERMUDO
Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de sangue.
D. MENDO
Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.
FR. BERMUDO
Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.
D. MENDO
Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.
FR. BERMUDO
Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me accusam, que me condemnam.
D. MENDO
Mas...—Fr. Bermudo quero o meu segredo.
FR. BERMUDO
Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens.
D. MENDO
Esquecer este amor?—Este amor é...—Não t'o posso dizer, não me intenderias, padre.
FR. BERMUDO
Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de impuro no homem.
D. MENDO
Ai! que dôr, que dôr esta minha!... Sou o maior desventurado da terra!
FR. BERMUDO
Quem póde dizer que o é?—Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste o palpitar de um coração que batia por ti.—Tens uma esperança... Amanhã serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro.
D. MENDO
(Cobrindo o rosto.) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!
FR. BERMUDO
Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.
D. MENDO
Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma... Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.
FR. BERMUDO
Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.
D. MENDO
Não te creio...—Mentem os astros...—Violante!... não a perderei, não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!... Ella não póde tardar.—Deixa-me... Quero ter esperança; estar alegre.—Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.
FR. BERMUDO
Deus tenha dó de nós... de todos nós! (Sáe.)
SCENA VI
D. Mendo e depois D. Violante
D. MENDO
Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos vossos anjos não soffra.
D. VIOLANTE
(Entrando agitada.) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige. D. Mendo?
D. MENDO
Minha sr.ª D. Violante!... Não quizestes deixar-me partir sem vir lançar-me a força no coração.
D. VIOLANTE
Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?
D. MENDO
Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha vida!
D. VIOLANTE
(Com embaraço.) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa? (Com ternura.) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado... parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...
D. MENDO
A flôr da esperança?
D. VIOLANTE
(Cobrindo a cára.) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..
D. MENDO
Não. (
Apontando para o peito.
) Essa vive aqui,
sempre bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante.
D. VIOLANTE
(Seria.) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos dizia elle?
D. MENDO
Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!
D. VIOLANTE
Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?
D. MENDO
O que nos importa a nós isso tudo? (Levando-a para um assento de pedra) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor!
D. VIOLANTE
(Brincando, mas com muita ternura.) Mas se esse amor mudar?... O coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.
D. MENDO
Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este meu amor não mudará... não póde mudar.—E depois tudo em roda de nós está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade.
D. VIOLANTE
Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...
D. MENDO
Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do obscuro pagem.
D. VIOLANTE
Mendo!
D. MENDO
Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa felicidade!
D. VIOLANTE
Nunca.
D. MENDO
Sereis minha? sempre minha?
D. VIOLANTE
Serei.
D. MENDO
Amaes-me?
D. VIOLANTE
Mais que tudo!
D. MENDO
(Ficando triste.) Este amor será para nós uma benção do céo... será.—É de certo.
D. VIOLANTE
Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que disse elle?
D. MENDO
Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde destruir.
D. VIOLANTE
Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o coração já advinhou tudo.
D. MENDO
Para que quereis?...
D. VIOLANTE
Dizei.
D. MENDO
Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos separava para sempre.
D. VIOLANTE
(Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo.) Virgem Nossa Senhora, vallei-nos!
D. MENDO
Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!
D. VIOLANTE
Deixar-te...
D. MENDO
Não chores... Minha Violante!
D. VIOLANTE
Esta guerra!... Esta auzencia!...
D. MENDO
O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por esses certões do Al-Gharb.
D. VIOLANTE
Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um céo sereno e bello.
D. MENDO
Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves, para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.
D. VIOLANTE
Ai! Se te eu perdesse...
D. MENDO
Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!
D. VIOLANTE
Sinto gente! Adeus
D. MENDO
Violante!... (Cáem nos braços um do outro.)
D. VIOLANTE
Sou tua!... Adeus.
D. MENDO
Adeus. (D. Violante sáe.)
SCENA VII
D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz.
D. BIBAS
(Cantando o que se segue.)
Porque choras
Pagem terno?
Teu inferno
Não melhoras.
Trá—lira.
(Cantando e rindo.) Ah! Ah! Ah!
D. MENDO
Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?
D. BIBAS
(Apontando para Bonamiz.) Foi elle.
D. MENDO
(A Bonamiz.) Tu?
BONAMIZ
(Apontando para D. Bibas.) Foi elle.
D. BIBAS
(Cantando.) Uma bruxa nos guiou.
BONAMIZ
(Cantando.) Um diabo nos mandou.
AMBOS
(Cantando.)
Segredos do coração
Mui grandes segredos são.
BONAMIZ
Am!
D. BIBAS
Am!
BONAMIZ
Am!
D. MENDO
Que viste, D. Bibas?—Que ouviste Bonamiz?
D. BIBAS
Vi-te dar um abraço... e tive inveja.
BONAMIZ
Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei estar-te na pelle.
D. MENDO
Nada mais...
D. BIBAS
Ah!—Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a morte...—Que importa isso, a quem ama?
D. MENDO
Que importa?...
D. BIBAS
O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?
D. MENDO
Mas...
D. BIBAS
Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as crianças.—Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes.
D. MENDO
Deixa agora essas chocarrices.—Escutae, ambos.—Se disserdes a alguem o que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.
D. BIBAS
Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?
D. MENDO
Juro...
D. BIBAS
Não jures, que não é precizo para nada. (Serio.) Pagem namorado, somos vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de vos dizer um segredo... que segredo!
D. MENDO
O que é?
D. BIBAS
Pois deveras quereis saber.
D. BIBAS
(Cantando.)
Não has-de cazar
Não cazarás, não.
Has-de Dom Bulrão,
Solteiro ficar.
D. MENDO
Maldicto!
D. BIBAS
(Cantando.) De profundis clamavi ad te...
D. MENDO
Bobo, bobo!
BONAMIZ
Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada presta.—Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças. (Cantando.) De profundis clamavi...
D. MENDO
(Ameaçando-os.) Excomungados bobos!..
D. BIBAS
(Rindo.) Ahi vem nosso tio, o infante.
AMBOS OS BOBOS
(Fugindo.) Adeus! adeus!
SCENA VIII
D. MENDO, só
Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.
SCENA IX
O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D. Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros, Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz.
INFANTE
(A D. Mendo.) Tu aqui, Mendo?
D. MENDO
Esperava por vós, meu sr. Infante...
INFANTE
Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (Mostrando D. Gontrade.) Tua mãe foi tambem... para te vêr.
D. GONTRADE
E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.
INFANTE
Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua espada gloriosa.
D. BIBAS
Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura espada de cavalleiro.
BONAMIZ
E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.
D. LOURENÇO VIEGAS
Callai-vos ahi, bobos.
D. BIBAS
(Ao Infante.) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?
INFANTE
(Aos pagens.) Fazei callar esses bobos. (Os pagens levam os bobos.)
D. MENDO
(
Beijando a mão de sua mãe.
) Sr.ª mãe, minha senhora...
D. GONTRADE
Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.
D. MENDO
Não julguei que partiriamos tão depressa... (Abraçando-a.) Minha mãe, minha querida mãe perdoae.
INFANTE
De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a Hespanha.
D. GONTRADE
Meu filho! (Ficam abraçados.)
INFANTE
(Aos cavalleiros.) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.
D. EGAS MONIZ
Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.
INFANTE
Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as ganhava.
D. JOÃO PECULIAR
O ceu proteje as armas dos portuguezes.
D. GONÇALO MENDES
Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis—A vossa força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra, appoia-se na fé, e nas armas.
INFANTE
Sois avisado, meu lidador. (Aos prelados.) Vós, srs. oraé por nós. D. Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (Aos cavalleiros.) E vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio.
TODOS
Aos infieis! aos infieis!
D. EGAS MONIZ
(Pegando na mão do Infante e beijando-a.) Meu senhor meu amo, deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos... Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei!
TODOS
Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!
ALGUNS
Viva o nosso rei!
D. GUILHERME
A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal, a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina.
D. LOURENÇO VIEGAS
A minha espada é tua, Infante de Portugal.
MUITOS CAVALLEIROS
E a nossa.
INFANTE
(Alevantando os braços ao céu.) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor, não enganeis a nossa confiança!
D. MENDO
(Caíndo aos pés do Infante.) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno do nome que meu pae me legou!
INFANTE
Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.
(D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo.)
ALGUNS CAVALLEIROS
D. Pedro Framariz!
D. GONTRADE
(Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho.) Ganha a tua espada, e então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.
D. PEDRO FRAMARIZ
Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!
FIM DO 1.º ACTO
ACTO SEGUNDO
SCENA I
O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello
D. JOÃO PECULIAR
É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.
D. GONÇALO DE SOUZA
As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade, por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de Portugal, quem ha de defender a nossa independencia?
D. TELLO
Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que nos hade quebrar nas suas ondas.
D. GUILHERME
Morremos pela cruz.
JOÃO SIRITA
Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa como o deserto:—morreria feliz se morresse por ella!—Porém agora o combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D. Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.
JOÃO PECULIAR
João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos. (Com solemnidade.) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos.
GONÇALO DE SOUSA
Tratae tregoas com Ismael...
LIDADOR
Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei mouro não guardaria a sua fé.
ALGUNS CAVALLEIROS
Não, não peleijemos.
D. TELLO
Salvae a cruz.
UM PRELADO
Salvae a cruz sr. infante.
INFANTE
Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que estes condados se conservem livres e gloriosos.—Estamos cercados de perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave. Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda.
(Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D. Mendo.)
SCENA II
(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo).
D. EGAS
Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos inspirará o melhor conselho.
LIDADOR
Que resolveis, sr. infante?
INFANTE
Combatter e vencer.
D. TELLO
O numero dos inimigos é sem conto.—Vencêr é impossivel.
INFANTE
Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida, pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã; pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos mais uma provincia a Portugal.
D. TELLO
Cinco chefes inimigos...
INFANTE
Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses blasphemadores vingaremos a fé.
LIDADOR
Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.
INFANTE
Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos, enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (O Lidador sáe.) (A D. Mendo.) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (D. Mendo dá-lh'os.) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (D. Mendo sáe.) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.
EGAS MONIZ
N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu principe, para receber por vós os golpes do inimigo.
INFANTE
Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os amargores d'esta existencia senão tu.
EGAS MONIZ
Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.
INFANTE
(Com exaltação.) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada, e a nossa fé.
D. MENDO
(Entrando.) Está tudo prompto.—Esperam o sr. infante todos os cavalleiros reunidos...
INFANTE
Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti, Mendo.—Vamos, senhores. (Sáe com Egas Moniz, e D. Tello.)
SCENA III
D. Mendo só
D. MENDO
Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante... a gloria!... um nome egual ao de meu pae!—Ser admirado por ella; ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso, pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante, Violante!—(Triste.) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo. Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (Pausa.) Ai! perdel-a!... (Fica pensando.) Morrer!... antes morrer!
SCENA IV
D. Mendo, e fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Ainda não. É ainda cedo para morreres.
D. MENDO
Bermudo!
FR. BERMUDO
Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.
D. MENDO
Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras deixava-me matar na batalha de ámanhã.
FR. BERMUDO
Não irás buscar a morte porque amas a vida.
D. MENDO
Amo sim, porque amo Violante.
FR. BERMUDO
Não amas Violante só.
D. MENDO
Pois...
FR. BERMUDO
Amas a gloria.
D. MENDO
Para lh'a dar a ella.
FR. BERMUDO
E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (Compaixão.) Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle, era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo, uma luz, uma esperança.—Para comprehender a luz é preciso ter estado na escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os tormentos do inferno...—(Pausa.) Os corações novos, que nunca foram provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que ninguem saiba delles.
D. MENDO
Que querem dizer essas palavras?
FR. BERMUDO
Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não quero, nem posso ainda morrer.
D. MENDO
A sciencia prende-te á vida.
FR. BERMUDO
A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão miseravel... E quero a vida, mesmo assim.
D. MENDO
Queres a vida?
FR. BERMUDO
Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.
D. MENDO
Tens sofrido muito? Tens padecido?
FR. BERMUDO
Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.—Um dia, voltava de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.
D. MENDO
Vingaste a sua morte?
FR. BERMUDO
Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.
D. MENDO
E então?
FR. BERMUDO
Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para vêr se a cabeça matava as saudades do coração.
D. MENDO
E conseguiste?
FR. BERMUDO
Esse homem não tinha morrido, voltou.
D. MENDO
Matastel-o?
FR. BERMUDO
Não.
D. MENDO
Perdoaste?
FR. BERMUDO
Também não (Pausa.) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço vingador.
D. MENDO
Porque? O que te deteve o braço?
FR. BERMUDO
Amei a filha desse homem...
D. MENDO
Tu?
FR. BERMUDO
Eu?!... Não.—Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.
D. MENDO
Desgraçado!...
FR. BERMUDO
Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia; tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem, grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal. (Pausa.) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida para ti se fores ferido na lide.
D. MENDO
(Repellindo o frasco.) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser escravo, e penar. (Ouvem-se gritos do exercito ao longe.)
FR. BERMUDO
Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez para a assegurar.
D. MENDO
Pois julgas...
FR. BERMUDO
Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me o coração. (Dando o frasco a D. Mendo.) Mendo, toma essa essencia, é a vida..—Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a gloria. Vive para Portugal. (Em voz baixa.) Vive para vingar teu pae, se tens n'alma força para tanto.
D. MENDO
Acceito.
SCENA V
Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz
D. BIBAS
Quero a vida.
BONAMIZ
Não a quero.
D. BIBAS
Pela morte.
BONAMIZ
Só espero.
Sem a minha doce amante,
Viver não quero um instante.
D. BIBAS
Mas a gloria?
BONAMIZ
E os amores?
D. BIBAS
Mas os cardos?
BONAMIZ
Mas as flores?
D. MENDO
(Colerico.) Outra vez a escutar os meus segredos?
D. BIBAS
Vingativos frades;
BONAMIZ
E pagens contrictos,
D. BIBAS
Monges aguerridos,
BONAMIZ
Amantes afflictos
D. BIBAS
Só nos fazem rir.
BONAMIZ
Ai! fazem-nos rir...
FR. BERMUDO
(Colerico.) Que ouvistes?
D. BIBAS
Coisas muito para rir!—Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem mais do que os outros, que são mais avisados. (Dando uma gargalhada.) Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos bobos, todos jograes e chocarreiros.
FR. BERMUDO
Tens razão D. Bibas.
D. BIBAS
Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?—Matal-o é affastal-o de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó num casamento, excita a compaixão e o desprezo.
BONAMIZ
Mestre, estás hoje insipido.
D. BIBAS
Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o genio de um jogral fica vencido.
FR. BERMUDO
Não digaes nada do que ouvistes, bobos.
D. BIBAS
Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir contar aos outros. (Dando uma gargalhada.) Vingativos frades.
BONAMIZ
E pagens contrictos...
D. MENDO
Calae-vos ahi, bobos do inferno. (A fr. Bermudo.) Acceito, fr. Bermudo. Não quero a morte ainda.
FR. BERMUDO
Vive...
D. MENDO
Cumprir-se-ha minha sina?
FR. BERMUDO
Cumprir-se-ha. (O rumor do exercito aproxima-se)
BONAMIZ
Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.
FR. BERMUDO
Adeus. D. Mendo—Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (Sáe.)
(A noite tem-se cerrado pouco a pouco.)
SCENA VI
O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros
TODOS
Viva o nosso infante! viva!
ALGUNS
Viva El-Rei!
INFANTE
Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.
ALGUNS
Viva D. Affonso!
INFANTE
Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.
(Saem todos gritando—Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo.)
SCENA VII
O Infante e D. Mendo
INFANTE
Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa? Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos melhores lidadores de Portugal. (Sentando-se.) Ajuda-me a tirar este capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado, nem terror do futuro...
D. MENDO
Sr. infante!
INFANTE
Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.
D. MENDO
(Com excitação.) Meu senhor!
INFANTE
Falla-me com sinceridade.
D. MENDO
Amo.
INFANTE
Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és amado por ella. Sereis unidos.
D. MENDO
Unidos... Eu, e Violante...
INFANTE
Sou eu que t'o prometto.
D. MENDO
Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!
INFANTE
Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu santo nome.
D. MENDO
Vou...
INFANTE
Deixa-me só. (Mendo sáe.)
SCENA VIII
O Infante. (Só.)
INFANTE
(Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe.) Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem, combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois... depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na misericordia de Jesus Christo! (Cravando no chão a espada e pondo-se de joelhos.) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria, ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor... e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder. Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos, nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria, meu Deus!
SCENA IX
O Infante e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
(Á entrada do Real.) A victoria será tua.
INFANTE
(Levantando-se.) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou?
FR. BERMUDO
A sua benção caiu sobre ti, e os teus.
INFANTE
A victoria!... Será nossa a victoria?
FR. BERMUDO
(Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando para o Oriente.) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor estender-se sobre o teu exercito.
INFANTE
A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (Abraçando de joelhos a cruz da espada.) Gloria ao teu nome Senhor!
FIM DO 2.º ACTO
ACTO TERCEIRO
Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante. Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena.
SCENA I
D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros, Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os Cavalleiros e Damas passeiam e dançam.
D. GONÇALO DE SOUSA
(A uma dama que traz pelo braço.) Foi bello, magnifico este nosso jogo do tavolado.—Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.
DAMA
Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa?
D. LOURENÇO VIEGAS
(Aproximando-se.) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para vos offerecer, linda Branca.
DAMA
Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de espadeiro.
BONAMIZ
Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista destas, D. Lourenço.
DAMA
(Rindo.) Que tem isso?—Não se póde ser grande em tudo. (Vão para o fundo da scena.) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas batalhas do que nos amores.
D. SOEIRO VIEGAS
(Vindo á frente da scena com uma dama.) D. Sancha, sois a formosa de todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu adoro-vos como a um anjo.
DAMA
É nos campos da lide que se aprende a lisonja?
D. SOEIRO VIEGAS
Aprende-se a ser franco, e leal...
D. BIBAS
(Rindo.) Como todos os da vossa raça, dom namorado...
D. SOEIRO VIEGAS
Excommungado bobo!
D. BIBAS
Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.
(Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena.)
1.º CAVALLEIRO
Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.
DAMA
Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...
1.º CAVALLEIRO
O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro Framariz. Feliz Mendo!
DAMA
Em quanto o pagem d'El-Rei...
1.º CAVALLEIRO
Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D. Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.
DAMA
Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso que lhe dilacera o coração.
1.º CAVALLEIRO
Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume.
DAMA
Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.
1.º CAVALLEIRO
Seu filho Mendo vae casar....
DAMA
Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.
(Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)
1.º CAVALLEIRO
Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis.
2.º CAVALLEIRO
Ismael pouco resistiu.
3.º CAVALLEIRO
Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.
1.º CAVALLEIRO
Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.
2.º CAVALLEIRO
E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por nosso rei a D. Affonso Henriques.
3.º CAVALLEIRO
Agora já temos rei independente.
2.º CAVALLEIRO
Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.
(Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)
1.º CAVALLEIRO
É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.
2.º CAVALLEIRO
Honrado como Egas Moniz.
3.º CAVALLEIRO
Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para não faltar á palavra dada, á lealdade jurada.
2.º CAVALLEIRO
Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.
BONAMIZ
(Rindo.) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (Vae-se cantando.)
3.º CAVALLEIRO
Estes bobos!...
2.º CAVALLEIRO
Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um cazamento muito honroso para D. Mendo.
3.º CAVALLEIRO
Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.
2.º CAVALLEIRO
É a vontade d'el-rei, que se cazem.
4.º CAVALLEIRO
Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.
3.º CAVALLEIRO
Um homizío... dizem.
D. MENDO
(Aproximam-se de Violante que está assentada.) Violante, ficae; deixae sahir todos.
VIOLANTE
Fico. (D. Mendo affasta-se.)
Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena
1.º PRELADO
Vae-se demorando o banquete.
2.º CAVALLEIRO
Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os excommungados da Moirama...
2.º PRELADO
As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia.
3.º CAVALLEIRO
Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.
UM OVENÇAL
(Na salla d'armas, á porta.) Nobres, ricos-homens, infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.
2.º CAVALLEIRO
Em fim!
PRELADO
Vamos, vamos.
(Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se detraz de um pilar.)
SCENA II
D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)
D. MENDO
Violante!... minha Violante!
VIOLANTE
Mendo?!
D. MENDO
Uma palavra... uma palavra, por minha alma.
VIOLANTE
Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de amor.
D. MENDO
E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?
VIOLANTE
Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim. Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto.
D. MENDO
Falta-vos o amor... talvez.
VIOLANTE
(Sorrindo com muito amor.) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.
D. MENDO
O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do mundo tem havido.
VIOLANTE
Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada no meu oratorio.
D. MENDO
Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.
VIOLANTE
Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos lançastes por meio das lanças dos inimigos?
D. MENDO
Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não; era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante, tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos, tudo minha Violante!»
VIOLANTE
(Apertando a mão de D. Mendo.) Acceito.
D. MENDO
A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta divina palavra.
VIOLANTE
(Com susto.) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com a nossa felicidade?
D. MENDO
Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.
VIOLANTE
Para vos salvar?
D. MENDO
Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já, fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi assim que me salvei da morte.
VIOLANTE
E o soldado?
D. MENDO
Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata!
VIOLANTE
Tem-me consumido a vida, mas amo-a.
D. MENDO
Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura! (Beija-lhe a mão—D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente.)
VIOLANTE
Jesus!
D. MENDO
(Levando a mão á espada.) Quem ousaria?!
D. BIBAS
(Vae-se cantando com, voz lugubre.)
«Vivem loucos namorados
Vendo futuro formoso
Onde não ha mais que a dôr
De um mysterio tenebroso.»
VIOLANTE
Bobo.
D. MENDO
D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.—Louco!
FR. BERMUDO
(Entrando.) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os avisados—Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.
D. MENDO
Tudo nos separa...
D. VIOLANTE
Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (Sae.)
SCENA III
D. Mendo e Frei Bermudo.
D. MENDO
Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.
FR. BERMUDO
Não sou eu; é o teu destino fatal.
D. MENDO
Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga; não queiras que eu tome odio a ti, e á vida...
FR. BERMUDO
Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (Sáe.)
SCENA IV
D. MENDO só
Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me que lhe não posso ser grato.—Sou cavalleiro já, e agora saberei o segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa conhecer. Minha mãe—quando ao chegar da guerra a fui vêr—recebeu-me com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio. Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!
SCENA V
D. Mendo e D. Gontrade
D. GONTRADE
(Entrando.) Meu filho...
D. MENDO
(Estremecendo.) Minha mãe...
D. GONTRADE
Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho; porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não tirares vingança do assassino de teu pai.
D. MENDO
Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer; mas quem o matou é o que eu não sei ainda.
D. GONTRADE
Mendo, até ao dia em que ganhaste—gloriosamente, bem o sei—essa nobre espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou: tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza, deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado, covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!... Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de teu pai?
D. MENDO
(Com terror.) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar a mim tambem.
D. GONTRADE
Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que esse acto se cumpra.—Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a victima. (Tirando um punhal.) Foi esta a arma traidora que serviu ao crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo, mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...
D. MENDO
O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...
D. GONTRADE
E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?
D. MENDO
Morria como cavalleiro.
D. GONTRADE
Quem vingaria teu pai?—Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve ser punido... O assassino de teu pai é...
D. MENDO
Callai-vos... callai-vos...
D. GONTRADE
Que tens?
D. MENDO
Tenho medo!
D. GONTRADE
Medo?!...
D. MENDO
Se esse bomem fosse?...
D. GONTRADE
Quem?
D. MENDO
O pai da mulher que amo..
D. GONTRADE
Morreria... da tua mão receberia a morte.
D. MENDO
Minha mãi!
D. GONTRADE
É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa, se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.—O homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz.
D. MENDO
D. Pedro! Jesus, meu Deus!...—Elle!... não minha mãi, isso não póde ser.
D. GONTRADE
Hesitas?
D. MENDO
O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes defensores da fé.
D. GONTRADE
O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada, em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»
D. MENDO
Mais tarde; ainda não...
D. GONTRADE
Hoje... agora.—Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal no coração de teu pai... de meu marido.—Foi uma noite horrivel... uma noite de sangue e infamia!
D. MENDO
Assassino!... eu!...—Minha mãe, a vingança é um crime covarde e miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes de um homem desarmado, só merece desprezo.
D. GONTRADE
A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de seu pai.
D. MENDO
E Violante?...
D. GONTRADE
Entre ti e ella ha um cadaver.
D. MENDO
Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.
D. GONTRADE
Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...
D. MENDO
Que Violante não veja... que não o saiba!
D. GONTRADE
Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...
D. MENDO
Não posso... Aquelle anjo!—Pois eu hei de ser odiado por Violante! (Com muita desesperação.)
D. GONTRADE
A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (Dando o punhal a D. Mendo, que o recebe com terror) Vinga a morte de teu pai, ou sê maldicto! (Sáe.)
SCENA VI
D. Mendo, só
D. MENDO
Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me salvaes, que salvaes vosso filho! (Olhando para o punhal.) Este sangue ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem, dar-vos-hei todo o meu! (Chorando.) Se as lagrimas de um filho podem lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço, aonde está a paz? Onde existe o ceu?—Ai! Quem me livra deste martyrio? Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não perca... para que não renegue a Deus?!
SCENA VII
D. Mendo e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração, parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não estale.
D. MENDO
Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não tenho animo de executar.
FR. BERMUDO
Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.—É o ultimo sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio matal-a-hia a ella!
D. MENDO
Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?
FR. BERMUDO
Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.
D. MENDO
Porque?!
FR. BERMUDO
Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra para ti ceder-me essa vingança.
D. MENDO
E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.
FR. BERMUDO
Não te disse que Violante não podia ser tua?
D. MENDO
Que hei-de fazer?
FR. BERMUDO
Esquecel-a... se fôr possivel.
D. MENDO
Não, não... não posso... não é possivel.
FR. BERMUDO
Pobre de ti, que a amas tambem!
D. MENDO
E ella?... Se morrer, meu Deus!
FR. BERMUDO
A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...—Que morra ao menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo só conheceu os amargores. Que importa?
D. MENDO
(Chorando.) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em que ha tanta dor, e tanta miseria!...—Oh! A minha felicidade, as minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o homem por escarneo...
FR. BERMUDO
(Pondo-lhe a mão na boca.) Calla-te, não blasfemes.
D. MENDO
(Abatido.) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.
FR. BERMUDO
Não percas assim o animo, homem.—A alma é infinita nas suas forças, inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo, acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.
D. MENDO
A minha morreu de todo!
FR. BERMUDO
Ha homens que teem padecido tanto... muito mais do que tu, e que soffrem ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade, porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...
D. MENDO
Essa!... Não sei... (Pauza.) Tenho fé, tenho.
FR. BERMUDO
Tens um allivio, uma esperança—então bemdicta seja ella.—Deixa-me para mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae.
D. MENDO
(Dando-lhe o punhal.)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto, esse que te dou.
FR. BERMUDO
(Beijando o punhal.) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (Á parte.) Terei eu n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?—Irmão, meu irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças, meu irmão!
D. MENDO
Que tens?
FR. BERMUDO
(Tranquillo.) Ámanhã teu pai estará vingado.
D. MENDO
Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...—Desgraçado de mim!
FR. BERMUDO
E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me inspire... Sou fraco, sou um um fraco (Entra para a capella do fundo, e vae ajoelhar deante do altar).
SCENA VIII
D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e Cavalleiros da Côrte
D. MENDO
E eu tambem, já nem tenho alento para viver!—Ó minha fé, minha fé, accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.
D. AFFONSO
(Entrando.) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da victoria. (Aos cavalleiros.) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.
D. MENDO
Não posso acceital-a... não posso!... (Cahindo de joelhos.) Violante!... Perdão!...
D. VIOLANTE
(Desmaiando.) Mendo!
D. AFFONSO
O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade agora?
FR. BERMUDO
(Á porta da capella apontando para o altar.) A vontade do céu.
FIM DO 3.º ACTO.
ACTO QUARTO
A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena.
SCENA I
Frei Bermudo (Só.)
FR. BERMUDO
(Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando.) Os espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega a nossa ignorancia e nada mais.—O homem, em vigilias longas e virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas no céu pelos poderes da natureza. (Pauza.) Caminha, ó minha pallida estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve marcarás a hora mais fatal da minha existencia.—(Longa pausa; calla-se a orquestra). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por Violante.—Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o assassino de D. Pedro, do pai de Violante.—Se ao menos esta vingança podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!—Ai! Que dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões... a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.—Ó Violante... quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o homem que te captivou o coração. (Silencio; ouve-se de novo a orquestra muito longiquamente até ao fim do monologo.) Se nesses livros, onde homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado! Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os mysterios do material e do immaterial... (Com abatimento.) para saber quando ha de acabar este padecer, esta minha vida.
SCENA II
Fr. Bermudo e D. Violante
D. VIOLANTE
(Entrando toda vestida de branco.) Fr. Bermudo.
FR. BERMUDO
Um espirito... um anjo... falla... falla...
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, escutae-me.
FR. BERMUDO
Violante! aqui!
D. VIOLANTE
Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que vós só me podeis dar.
FR. BERMUDO
(Baixo.) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me dilaceram aqui o peito?... (Alto.) Dizei, sr.ª D. Violante, que quereis de mim?
D. VIOLANTE
Venho pedir-vos...—Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre me separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida perdi-o para sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a filha do homem que...—Horrenda idéa!—Perder uma felicidade tão grande, assim de repente, é uma dor com que não pode este coração—Fr. Bermudo, sois forte, tendes uma alma superior a estas fraquezas do mundo... A minha alma não é assim. Uma pobre mulher, como eu, tem um espirito fraco, e que não pode resistir á dor extrema...
FR. BERMUDO
Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?
D. VIOLANTE
Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode fazer mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o desalento; não é a força, é um abatimento desanimador; não é a desesperação é a esperança de acabar com um martyrio com que não posso.
FR. BERMUDO
Assustam-me essas palavras!
D. VIOLANTE
A vida é impossivel assim.—Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.
FR. BERMUDO
Violante... Que dizeis?
D. VIOLANTE
Mendo acabou, morreu para mim..—E sem luz, e sem alivio, que vida seria esta minha!?—Uma existencia nas trevas, sem esperança nem consolação.
FR. BERMUDO
Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.—Que vos importam a vós os meus padecimentos?
D. VIOLANTE
(Com alegria. ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora... posso fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que espero; porque é a paz para o coração.
FR. BERMUDO
Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós, ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.
D. VIOLANTE
A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas para orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma e eu só penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.
FR. BERMUDO
Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.
D. VIOLANTE
Mendo é homem, tem força no coração. A dôr—bemdicto seja Deus!—não lhe matou a alma, como a mim.—Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e a morte não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta é a dôr; é a idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar dilacerada ao deitar-me n'um precipicio, que me repugna.—São isto sentimentos que um homem como vós, de coração forte, não póde comprehender talvez!
FR. BERMUDO
Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.—As obras de Deus, a belleza e a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem horror.
D. VIOLANTE
Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?
FR. BERMUDO
Ha... talvez.
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.
FR. BERMUDO
Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?
D. VIOLANTE
Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera. Por piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um precipicio, ou n'um punhal.
FR. BERMUDO
(Meditando.) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem lhe dê a morte... Eu que a amo!
D. VIOLANTE
(Com horror.) Que dizeis?... Vós!... (Querendo fugir.) Virgem Maria!
FR. BERMUDO
(Detendo-a.) Ficae, Violante, ficae.—Este amor é como a vaga esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para as bellezas do ceu.
D. VIOLANTE
Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!—Se esse amor é, como dizeis, triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis intender, fr. Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não podeis, não deveis recusar-me o que vos pedi.
FR. BERMUDO
O suicidio é um crime, Violante.
D. VIOLANTE
Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar da misericordia divina.
FR. BERMUDO
Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.
D. VIOLANTE
Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os crimes dos homens.—Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr. Bermudo, pela minha alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão puro e tão sublime, vos peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma dolorosa agonia.
FR. BERMUDO
(Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza.) Aqui tendes um penhor do amor... do amor, que morreu já.—Agora acabou tudo para nós... acabou tudo para mim!
D. VIOLANTE
(Pegando no frasco.) É a paz que me daes... Irei esperar por elle no ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo a ninguem.
FR. BERMUDO
Não.—É meu. (D. Violante vae para sahir.)
FR. BERMUDO
(Com anciedade.) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!
D. VIOLANTE
Deus vos dê o descanço da morte. (Sáe.)
SCENA III
FR. BERMUDO (só)
O descanço da morte...—Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?—Não sei que poder me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além do sepulchro.
SCENA IV
D. Mendo e Frei Bermudo
D. MENDO
Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver separado do mundo, professando na ordem dos templarios.
FR. BERMUDO
Mendo!... Encontraste?...
D. MENDO
Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está tudo preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo de professar, para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao mundo. (Pausa) Ella como ficou? Vistel-a?—Eu fugi porque não podia...
FR. BERMUDO
Está mais socegada já.
D. MENDO
Pobre Violante!—El-Rei?
FR. BERMUDO
Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.
D. MENDO
Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto? Bemdicto seja Deus. (Pauza.) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de mim!?
FR. BERMUDO
Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.
D. MENDO
E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a minha!
FR. BERMUDO
E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!
D. MENDO
Que dizes?
FR. BERMUDO
Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem; que não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia, que está sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o pensamento, matando o desejo, e seccando a esperança, digo... que não comprehendes esse amor.
D. MENDO
Frade, tu amas Violante? Tu...
FR. BERMUDO
Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que nasceu n'um templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e ouso... e sinto alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do soffrimento, o instante do martyrio.
D. MENDO
Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...
FR. BERMUDO
Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este amor é um crime. (Pausa.) Este meu não, que me salvou a alma... que eu sentia perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao Santo Sepulchro do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto pela sede... um anjo me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei depois a imagem do meu Anjo Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo é o mesmo sorriso meigo e triste, o mesmo olhar celeste e candido... a mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é mais pura do que os espiritos do ceu Amei-a! Amei Violante.
D. MENDO
(Chorando.) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!... matae-me!
FR. BERMUDO
Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença, que nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.
UM MONGE
(Apparecendo á porta da esquerda.) Fr. Bermudo, está á porta do mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.
FR. BERMUDO
Conduzi-a aqui, irmão. (O monge sae.) Mendo, vae orar por nós ao Senhor.
D. MENDO
Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.
FR. BERMUDO
(Levando-o ao oratorio do fundo.) Espera aqui, em quanto vou saber o que me quer essa mulher. (D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo fecha a porta.)
SCENA V
Fr. Bermudo e D. Gontrade
D. GONTRADE (Coberta com um véo negro.)
Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?
FR. BERMUDO
Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as suas consolações aos que padecem. Mas aqui?
D. GONTRADE
Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos profundos, e as infinitas saudades, eu preciso dellas já.
FR. BERMUDO
Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever, ter comvosco.
D. GONTRADE
Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra de uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos o meu nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse crime manchou um nome illustre.—Padre, remorsos ha que não podem ter fim... nem talvez com a morte...
FR. BERMUDO
Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.
D. GONTRADE
Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?
FR. BERMUDO
Talvez; que a sua misericordia é infinita.
D. GONTRADE
Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo; porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.
FR. BRMUDO
(Áparte.) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir, meu Deus! (Assentando-se.) Dizei.
D. GONTRADE
(Ajoelhando.) Dae-me forças Senhor! (Pausa.) Padre, eu era feliz, quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu nome.—Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma, sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova.
FR. BERMUDO
(Com muita anciedade.) E vosso marido!?
D. GONTRADE
(Continuando.) Passei alguns dias no delirio do crime, sem remorsos, sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. Esses dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.
FR. BERMUDO
E o acordar desse sonho?...
D. GONTRADE
N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em que se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por toda a casa, senti, por um pressentimento subito o frio da morte correr-me pelas veias. Era meu marido que voltava da guerra.
FR. BERMUDO
E então?...
D. GONTRADE
Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um homem ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a mão armada. Apoderou-se de mim a vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me gelou... e depois, o baque de um corpo em terra.
FR. BERMUDO
E esse que morreu, era...
D. GONTRADE
Meu marido—Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.
FR. BERMUDO
(Levantando-se com horror.) Oh! maldicta de Deus!... estás maldicta, mulher!...
D. GONTRADE
(Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto.) Não é verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta de Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro peccado?...
FR. BERMUDO
Queres alcançar perdão para esse crime?
D. GONTRADE
Deus de misericordia!
FR. BERMUDO
Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora padecendo por tua causa. (Abrindo a porta do fundo a que apparece D. Mendo.) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae?
D. MENDO
Minha mãe...
D. GONTRADE
(Caindo por terra.) Meu filho!... perdoa-me.
D. MENDO
Perdôo.
FR. BERMUDO
Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a morte de meu irmão!
D. GONTRADE
Meu filho!... O irmão de meu marido!... (Caindo com a fronte por terra.) Justiça eterna!
FIM DO 4.º ACTO.
ACTO QUINTO
Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, apparencia triste e arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte de um clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos primeiros raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo fundo, mas a scena está ainda alumiada por dois brandões, seguros por braços de ferro, defronte do altar.
SCENA I
D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um templario.
O TEMPLARIO
Daqui a uma hora estará tudo prompto.
D. MENDO
D. Guilherme virá tambem?
O TEMPLARIO
O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.
D. MENDO
E el-rei?
O TEMPLARIO
El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse por vós.
D. MENDO
Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde demorar-se. Já me vae tardando.
O TEMPLARIO
Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.
D. MENDO
Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.
O TEMPLARIO
Quereis alguma cousa mais?
D. MENDO
Nada. (O Templario sáe.)
SCENA II
D. MENDO (SÓ.)
D. MENDO
É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della para me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe fallasse! Ama-a, Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo de suprema dor, elle ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer roubar?!—O sangue delle é o meu sangue; é o irmão de meu pae; não póde ser traidor.—Para que quero eu mais ouvir fallar della? Que pode agora haver de commum entre nós ambos? A dor, a dor que é o mais intimo laço que póde existir entre dois corações que se amam. Fr. Bermudo não chega, meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me vem dar alento nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... Violante... oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do meu pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a força... Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já não vivo, que me senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi separado della. Até aquella agitação convulsiva da desesperação acabou em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor! (Pausa.) Morri de todo e para sempre.
SCENA III
D. Mendo, e fr. Bermudo
FR. BERMUDO
Não percas assim o animo, Mendo.
D. MENDO
Bermudo!... E ella?!
FR. BERMUDO
Sempre a mesma.
D. MENDO
Tem padecido muito?...
FR. BERMUDO
Tem... muito.
D. MENDO
E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.
FR. BERMUDO
É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.
D. MENDO
Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!
FR. BERMUDO
Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!
D. MENDO
Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?
FR. BERMUDO
Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito á pousada de D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me levou ao oratorio, onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae faltando... forças para padecer.
D. MENDO
E Violante estava...
FR. BERMUDO
De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo dobrado pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já fria e sem alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos labios.
D. MENDO
Morta?...
FR. BERMUDO
Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de vida, a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar baixinho das palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante perguntou-me o que eu ia alli fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava della?
D. MENDO
Se me lembrava della?
FR. BERMUDO
Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da pobre Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas... Oh! os homens que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam comprehender ainda nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda curar nenhuma dessas enfermidades agudas, a que chamam paixões.—São tudo sonhos, são tudo illusões na terra; mas sonhos, mas illusões, que matam.
D. MENDO
A desgraça é uma realidade!
FR. BERMUDO
(Tranquillo). Escuta.—A desgraça é uma provação da alma, que a deve robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não soubeste desprender das cousas mundanas.—Daqui a uma hora professarás. É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando neste seculo.
D. MENDO
Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. (Vae lentamente ajoelhar diante do altar.)
FR. BERMUDO
E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo mais cruel remorso, que homens tem sentido!—Violante ainda vive, mas daqui a uma hora...—Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a persuasão, nem a força!—Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor. (Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr. Bermudo, sem que D. Mendo a veja.)
SCENA IV
Os mesmos, D. Violante.
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo.
FR. BERMUDO
Violante!
D. VIOLANTE
Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um instante; o tempo de lhe dizer que ainda o amo.
FR. BERMUDO
Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...
D. VIOLANTE
Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um instante só com Mendo.
FR. BERMUDO
É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...
D. VIOLANTE
Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide—Deixae-nos.
FR. BERMUDO
(Áparte.) Ainda mais esta dor, meu Deus!
SCENA V
D. Violante, D. Mendo—no fim Fr. Bermudo
D. VIOLANTE
(Com muita doçura.) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?
D. MENDO
(Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou subitamente, e a viu—indo para ella.) Violante! Minha Violante!—Então esta dor, esta separação, era tudo um engano.—Estás aqui, minha Violante!!..
D. VIOLANTE
Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...
D. MENDO
Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?
D. VIOLANTE
Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.—Mas não sabia, Mendo, eu não conhecia essa tenebrosa historia—Perdoa-me... perdoa a meu pae tambem. Eu não quero, não posso ficar com um remorso destes na consciencia.—Quero morrer em paz.
D. MENDO
Morrer?
D. VIOLANTE
Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime não perdoado perturbar a minha ultima oração.—Quem sabe se Deus me perdoará?
D. MENDO
Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu?
D. VIOLANTE
Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem vingança... É assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança como um crime abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar n'uma ordem, instituida para servir a Deus.—Mendo, pela religião... e pelo nosso amor que foi deixa-me fallar-te ainda uma vez desta felicidade que já passou—pelo nosso amor tão suave para mim, e para ti tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que esqueças, que te não vingues do pae da tua Violante.
D. MENDO
Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta separação não é angustia só, é a morte para mim!—Escuta, minha Violante.—Não sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me horror a idéa de odiar teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o hei-de fazer nunca.
D. VIOLANTE
E perdoas-lhe?
D. MENDO
(Depois de uma pauza.) Perdôo.
D. VIOLANTE
Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?
D. MENDO
Minha mãe é que lhe não perdoa.
D. VIOLANTE
Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa que, entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro da vingança.—E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa, padeceres uma grande dor, perdoas-me?
D. MENDO
Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer amando-te.
D. VIOLANTE
Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.—Mendo, ainda havemos de ser felizes!
D. MENDO
Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.
D. VIOLANTE
N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe destas paixões da terra, havemos de ser felizes.—Eu vi, Mendo, esta noute antevi a nossa felicidade futura.—Era um paraiso. (Ouve-se uma musica de orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena.) Um campo todo de flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago coberto de diamantes, de uma serenidade e formosura sem igual no mundo; sobre o lago nuvens, em que o ouro e a purpura se misturavam com a luz rosada da mais bella aurora; e do ceu resplandecente, scintilante, baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham pousar sobre as graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos anjos em divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu nome, Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.
D. MENDO
Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.
D. VIOLANTE
Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa. Naquella hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração tudo eram orações fervorosas, e ardentes esperanças.
D. MENDO
Que esperanças podemos nós ter ainda?
D. VIOLANTE
Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos crimes, das vinganças dos homens.—Na terra não podemos ser unidos, sel-o-hemos no ceu!
D. MENDO
E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir? Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é agora, que nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que nos vejamos; estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te, amo-te, Violante.
D. VIOLANTE
O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.—Mendo, deixa-me repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida toda!—Amo-te, amo-te.
FR. BERMUDO
(Aparecendo á porta do fundo.) Os cavalleiros do templo já estão reunidos na igreja.
D. MENDO
Violante!
D. VIOLANTE
Mendo, adeus!—Adeus para sempre! (Cae nos braços de D. Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da direita.) (Ouve-se depois a voz de Violante, já fóra de scena repetindo, « Adeus!.... adeus!»)—(A musica do orgão acaba logo depois.)
SCENA VI
D. Mendo e Fr. Bermudo
FR. BERMUDO
(Detendo D. Mendo.) Deixa-a ir só.
D. MENDO
Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.
FR. BERMUDO
De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão buscar os templarios.
D. MENDO
Mas deixal-a assim!—Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças de alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte. Naquelle espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a presciencia do remorso.
FR. BERMUDO
Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.
D. MENDO
Morrer!
FR. BERMUDO
A morte é o termo do padecer.
D. MENDO
Que dizes?
FR. BERMUDO
A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos elementos.
D. MENDO
Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.
FR. BERMUDO
Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve termo à vida corporal.
D. MENDO
Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?
FR. BERMUDO
A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio. Ella vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na sua alma pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.
D. MENDO
Violante morrer!—E como hade ella morrer?
FR. BERMUDO
Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e pediu-me, pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um veneno, para ella não padecer longas dores na hora do passamento.
D. MENDO
E tu déste-lhe o veneno?
FR. BERMUDO
Dei!.,.
D. MENDO
Tu!—a vingança levou-te a um tal crime.—Vingaste-te sobre uma innocente...
FR. BERMUDO
A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.
D. MENDO
O ciume...
FR. BERMUDO
Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, immobil como d'antes.—Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto, passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si. Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e sancto dó d'esse padecer, que a consumia.
D. MENDO
Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.—Não vás... vou eu.
FR. BERMUDO
(Detendo-o.) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora já ella terá tomado o inexoravel veneno.
D. MENDO
E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?
FR. BERMUDO
Quando a morte penetra o sanctuario da vida, quando estende o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre pode vencer o seu poder.
D. MENDO
Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia. Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te podem justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (A D. Gontrade, que apparece á porta, pallida e cadaverica.)—Oh! Vinde... vinde, minha mãi... vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante morrerá se elle a não salva.
SCENA VII
Os mesmos e D. Gontrade
D. GONTRADE
Salva-a!... e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso perdoar tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.
FR. BERMUDO
Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.
D. GONTRADE
Deixal-a morrer!... Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!
D. MENDO
Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe deu o veneno... e que a não quer salvar agora.
D. GONTRADE
Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.—Sou eu que vol-o peço n'esta minha ultima hora (Caindo de joelhos.) Salvae-a, e uni-os um ao outro, estes dois innocentes, que se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do tumulo, já perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.
FR. BERMUDO
É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...—Disseram-no os astros, e os astros não mentem... (Sáe.)
SCENA VIII
D. Mendo, e D. Gontrade
D. GONTRADE
Meu Deus, piedade!... Salvae-a, senhor!
D. MENDO
Salvae-a!... (Vae para sair.) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra sem que eu morra tambem com ella!
D. GONTRADE
(Levantando-se.) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, não me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas innocente.
D. MENDO
(Segurando-a nos braços') Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.
D. GONTRADE
Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho, meu filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares, Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, perdoa a tua mãi, que vai morrer!
D. MENDO
Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só com esta dor no mundo!
D. GONTRADE
Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio! Que sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!... Vi-o, a elle, a teu pai, cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já, abençoava... não me olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade! Senti uma alegria infinita derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o um anjo; e disse-me estas palavras divinas: «Perdoa, como eu te perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda do nosso filho... faz feliz o nosso amado filho, o nosso querido Mendo.»
D. MENDO
E o anjo...
D. GONTRADE
O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!
D. MENDO
E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!
D. GONTRADE
Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.
D. MENDO
Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.
D. GONTRADE
E deixas-me aqui morrer só!?
D. MENDO
Vamos rezar por ella, ao menos—pedir ao céu que nol-a salva. (Cáem ambos de joelhos.)
D. GONTRADE
(Levantando as mãos ao céu.) É esta a minha ultima oração... que ao menos esta seja ouvida por vós, Senhor!
D. MENDO
Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas as trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a pedir-te vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (Ouve-se um coro religioso entoando o Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que respondem a esta nossa oração, minha mãi!
D. GONTRADE
São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem vai morrer.
SCENA IX
Os mesmos, os templarios e depois D. Violante, e Fr. Bermudo
UM TEMPLARIO
É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do Templo, para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a Cruz do Redemptor.—O mestre dos templarios espera por vós.
D. MENDO
Esperae; esperae!... ainda não!., ainda não!
D. VIOLANTE
(Fóra.) Mendo! Mendo!
D. MENDO
Violante!... viva! ainda viva!
D. VIOLANTE
(Caindo nos braços de D. Mendo.) Mendo, aqui estou... sou tua... já sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (Mostrando fr. Bermudo.) Salvou-me elle.
D. GONTRADE
Agora já posso morrer.—Filho... filhos, adeus.
(Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. Gontrade.—Os templarios aproximam-se.)
FR. BERMUDO
Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.
Fim do 5.º acto e do drama.
EDIÇÕES DO ARCHIVO UNIVERSAL
Compendio elementar do sistema metrico e suas applicações ao commercio, approvado pelo Conselho Superior de Instrucção Publica, por Carlos José Barreiros—3.ª edição.
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Estudos sobre Higiene, Administração e Legislação Naval, por J. A. Maia, cirurgião de 1.ª classe da armada,1 vol. de 200 paginas em 18.º fr. (formato Charpentier) com um plano annexo do brigue Mondego.— Preço 100 rs.
ESTÁ NO PRELO
Amor de Poeta, drama em verso por J. G. Lobato Pires.