Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Dez. 2007)
Obras de JOÃO GRAVE
| Os Famintos | Paixão e morteda Infanta | ||
| A Eterna Mentira | Os Sacrificados | ||
| O Último Fauno | Os que amam e os que sofrem | ||
| O Passado | Cruel Amor | ||
| Gente Pobre | Fogueiras de SantoAntónio | ||
| Jornada romântica | Vida doEspíríto (pensamentos). | ||
| Reflorir | |||
| Reinado trágico | |||
| A Inimiga | Noprélo: | ||
| O Mutilado | |||
| A Morte Vence | Almas ínquietas. | ||
| Vitória deParsifal |
JOÃO GRAVE
DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA
A MORTE VENCE
ROMANCE
«Sê leal a ti mesmo...»
shakespeare.
SEGUNDA EDIÇÃO, EMENDADA
PORTO
Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, L.da
editores—Rua das Carmelitas, 144
Aillaud e Bertrand—Lisboa-Paris
1922
A MORTE VENCE
I
II
— Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por uma questão, é um falador incorrigível.
Nuno, que tambêm se aproximara do grupo, todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:
—Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me da minha mudez consecutiva de meses. Frederico estava interessante...
Parou, um momento, absorvido na adoração do pequenino, que mostrava os olhos espantados e que incessantemente abria e fechava as mãosinhas rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma flor humana.
—Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...—acariciava Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do queixo. Bem disposto, hein?
—Tomou agora o seu banho, sente-se feliz—disso Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a fronte do filho.
Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava nas suas palavras uma vibração, um timbre, um enlêvo que não podia definir e que o perturbavam. Na história da sua alma fazia-se uma página de poesia e de ternura, que lhe comunicava gôzo, pacificação interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia êle essa felicidade, pelos puros dons do seu carácter, pela sua bondade, pelas suas virtudes de homem. Encontrara a mulher ideal que o completou e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade, a confiança, o repouso.
—E aqui tens tu, Frederico—disse Nuno—a minha pátria grande.
—Não! A tua família... A família é apenas a unidade da pátria, como o individuo é a unidade da família.
—Bem! Que seja então a minha pequenina pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque não procuras uma?
Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou depois Júlia, agitado por sentimentos, por inenarráveis sensações que lhe pareciam incompreensíveis porque, na sua perturbação, não conseguia explicá-los, determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma revelação fulminante, via nessa doce mulher uma imagem venerável e quási religiosa para que o seu respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento de quê? Não o sabia.
—Tenho a certeza de que a não encontrava—respondeu êle. Não possuo o génio das descobertas.
—Não será isso egoísmo, Frederico?—interrogou Júlia.
—Egoísmo? V. Ex.a é injusta com um homem que resolveu sacrificar-se só a êle para não sacrificar os outros...
—Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, Júlia!— afirmou Nuno, afagando distraídamente o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas. E temos palrado tanto, justos céus!
Entraram vagarosamente na solitude dos troncos e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante, na tarde pesada e quente. Através dos ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte, sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos arbustos que punham na suavidade da penumbra uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras, bracejando junto das árvores, trepavam às ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois para o espaço livre em festões, em grinaldas, desenhando originais movimentos decorativos. Os seus aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma, que era excitante. No grande silêncio vespertino, apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam, assustadas, da torreira do sol. Frederico e Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente. A criança palrava entre as rendas e as cambraias vaporosas; e uma bica de água, correndo perto dum maciço de cedros e plátanos enlaçando, casando os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz vesperal.
—Isto é a delícia das delícias—disse, por fim, [Frederico]. Há muito tempo já que não me reconciliava tanto com a vida.
Enquanto êles se detinham numa clareira, reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns passos, indo sentar-se num banco rústico de cortiça que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras ainda em flor. Ao vento brando que passava, arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho. Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade, á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa, à sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam êste espectáculo imprevisto.
—As flores, para serem justas, deviam-lhe essa homenagem, minha senhora—declarou o hóspede.
O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria duma geada aromática os cabelos de Júlia, o rosto da criança.
—As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada, e o principe dilecto!—observou Nuno, enternecido. É como nos contos de Perrault, nas lendas doutras idades.
Por fim, Júlia levantou-se, tôda florida, com as faces rosadas por uma ponta de sangue mais vivo, enquanto Frederico a considerava, deslumbrado. Como era encantadora e linda, na verdade!... E outra vez louvou a felicidade de Nuno, do amigo fraterno, para quem o destino tinha sido propício e generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu coração, aquela mulher incomparável.
—Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mêdo de que a criança se constipe—disse Júlia.
—Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos, filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da solidão!...—exclamou Nuno.
III
IV
afectiva do corpo». No delírio da sua febre, Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar a verdade total e que logo abandonava, como infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda indecisa e fresca se coou através das frinchas da janela, êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela vigília e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava pálido, mal disposto, cheio de tédio—e pensava então que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável de dia para dia...
V
VI
VII
VIII
IX
—Mas não podes. Como queres tu?...
—Não! Estou doida, efectivamente... Mas não me deixas?... Não estás zangado comigo?
—Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.
Foi dentro, ao escritório, abriu o cofre, tirou um maço de notas, felicitando-se pelo ardil encontrado, satisfeito na sua covardia por cortar com Branca mais suavemente do que pensava; e, reentrando na sala meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mão, murmurando:
—Leva! Podes ter precisão dêle, enquanto eu não regresso...
—Mas!...
—Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e sê-me fiel. Mandar-te hei noticias minhas. Dá-me um beijo e adeus!
Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente no automóvel, que largou numa corrida vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de alívio...
X
Miramar, 9 de novembro de 1916.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| [#pág. 53] | pefil | ... | perfil |
| [#pág. 56] | Fredrico | ... | Frederico |
| [#pág. 63] | docorreu | ... | decorreu |
| [#pág. 67] | diza | ... | dizia |
| [#pág. 67] | fertiliade | ... | fertilidade |
| [#pág. 76] | apressadamnte | ... | apressadamente |
| [#pág. 79] | mulidão | ... | multidão |
| [#pág. 81] | ferragns | ... | ferragens |
| [#pág. 81] | pincípio | ... | princípio |
| [#pág. 104] | refractário e um desejo | ... | refractário a um desejo |
| [#pág. 107] | se se isso | ... | se isso |
| [#pág. 112] | miaginação | ... | imaginação |
| [#pág. 141] | vingindade | ... | virgindade |
| [#pág. 143] | picacado | ... | picado |
| [#pág. 145] | Nes e momento | ... | Nesse momento |
| [#pág. 153] | iutermináveis | ... | intermináveis |
| [#pág. 155] | Fredico | ... | Frederico |
| [#pág. 156] | stuação | ... | situação |
| [#pág. 157] | bejou-a | ... | beijou-a |
| [#pág. 158] | subtituía | ... | substituía |
| [#pág. 159] | tran formam | ... | transformam |
| [#pág. 170] | borrocais | ... | barrocais |
| [#pág. 171] | Beetheven | ... | Beethoven |
| [#pág. 171] | capazas | ... | capazes |
| [#pág. 181] | e de medicina | ... | o de medicina |
| [#pág. 232] | Bernado | ... | Bernardo |
| [#pág. 232] | uam | ... | uma |
| [#pág. 232] | irrmediáveis | ... | irremediáveis |
| [#pág. 236] | rapares | ... | repares |
| [#pág. 238] | úni- pessoa | ... | única pessoa |
| [#pág. 241] | rua a | ... | a rua |
| [#pág. 244] | No poderia | ... | Não poderia |
| [#pág. 257] | Banca | ... | Branca |
| [#pág. 272] | compaínha | ... | campaínha |
A acentuação foi mantida de acordo com o original.