J. MARQUES DE CARVALHO
CONTOS
PARAENSES
PARÁ
PINTO BARBOSA & C.—Editores
Rua 13 de Maio
1889
Obras de Marques de Carvalho
VI
CONTOS PARAENSES
DO MESMO AUCTOR
O SONHO DO MONARCHA,—poemeto, 1886, Opusculo
LAVAS, poemeto, 1886, Opusculo
PAULINO DE BRITO, perfil, com fac-simile e retrato do biographado, 1887, 1 vol.
HORTENCIA,—romance naturalista, 1888, 1 vol.
O LIVRO DE JUDITH,—versos e contos para creanças, 1889, 1 vol
A PUBLICAR
HISTORIAS D'AMOR,—contos, 1 vol.
SOROR MARIA,—romance, 1 vol.
THEODORICO MAGNO,—perfil, 1 vol.
J. MARQUES DE CARVALHO
CONTOS PARAENSES
PARÁ
PINTO BARBOSA & C.—Editores
Rua 13 de Maio
1889
Pará—Typ. dos Editores, rua 13 de Maio.—1889.
A MEU IRMÂO
Antonio de Carvalho
AO EXM.º SR. COMMENDADOR
Domingos José Dias
Reconhecimento, Amizade, Veneração.
[Alegria gauleza]
[A José Veríssimo]
Emquanto esperavamos o almoço,—aquelle almoço ás pressas encommendado no mais que modesto hotel do Pinheiro, fômos dar um passeio pela matta, sob a sombra das grandes arvores copadas.
As senhoras haviam ficado na sala do hotel, aguçando o appetite no bom cheiro de refogado, que lhes chegava da cosinha.
O meu companheiro de passeio era um velhote de 50 annos, grande rosto quadrado,[{10}] de longas suissas grisalhas em faces tostadas pelo sol da America.
Travaramos conhecimento no pequeno tombadilho da lancha que da cidade nos transportara ao Pinheiro.
Ainda não havia duas horas que nos conheciamos, e já grande familiaridade se estabelecera entre nós,—essa familiaridade facil, intima, passageira, das pessoas que viajam.
Estavamos ainda a bordo, e já o meu sympathico companheiro, sentado á amurada, contara-me ser francez, ha muitos annos residente na provincia do Pará, onde tencionava ficar até ao fim da vida.
Sentia-me cada vez mais impulsionado para aquelle sujeito cuja existencia eu ignorava algumas horas antes, e que presentemente, por motivos que eu não tratava de saber, tão vivamente me attraía a curiosidade.
Quando saltamos para terra,—emquanto subiamos pela escada da ponte,—convidei-o para almoçar comnosco, e elle acceitara rindo,—com um riso bonachão de quem é dotado de alma simples, sem duplicidade.
Fôra elle quem me propuzéra aquella excursão á matta, para darmos tempo a que o hoteleiro preparasse a refeição, que eu já prevía frugal e triste, attendendo ás condições da terra em que nos achavamos.
Acceitei-lhe de boamente a proposta, com[{11}] aquella vivacidade alegre de quem vive mezes inteiros encadeiado ao cepo do trabalho quotidiano e toma, de tempos a tempos, um bello dia para descançar um pouco, em a paz d'uma povoação de arrabalde, refestelando-se preguiçosamente na relva odorífera dos nossos grandes e soberbos mattagaes.
E fômos por ali fóra, seguindo um carreiro sinuoso, por baixo de farfalhante cupula de ramos coloridos de um verde-escuro admiravel, cuja uniformidade era quebrada pelo vermelho vivo, pelo amarello e pelo branco das varias flôres sylvestres, cujas pétalas encolhiam-se um pouco, meio-fanadas pelos raios do sol.
Um forte vento refrigerante e consolador vinha do norte, do lado por onde a vista se perdia no infinito, após o rio que fugia para o mar. O cheiro acre da marezia andava no espaço, casado ao perfume subtil e excitante da baunilha, cujas compridas favas pendiam dos escuros e velhos galhos d'aquellas arvores seculares. Pássaros voavam céleres, n'um brando ruflar d'azas, soltando pequeninos gritos estrídulos e alegres. De momento a momento, a curta distancia de nós, lagartos cinzentos ou verdes fugiam assustados, fazendo estalar o folhedo sêcco que juncava o sólo. E lá muito ao longe, no alto, sobre pedaços de ceu de um azul deslavado, que nós entreviamos pelos interstícios das ramas,[{12}] urubús recortavam-se muito negros, muito pacificos e espalmados, nos seus vôos arredondados, pairando como n'uma contemplação enamorada da terra que os sustenta com suas putrefacções, com seus resíduos infames e nojentos.
De repente, o meu companheiro disse-me:
—Sentemo'-nos aqui. O sr. ja deve estar cançado d'esta longa caminhada.
Não tinha a minima accentuação estrangeira; fallava como um verdadeiro paraense.
Alongara-se por cima de uma camada de capim verde pouco espessa, de bruços, com o pescoço estendido e o grande chapéu de palha do Chile a descer-lhe para a nuca. Imitei-lhe o gesto, defronte d'elle.
Ficamos calados por alguns minutos.
Elle fitava o solo, com as narinas palpitantes, como sorvendo em longos haustos sensuaes aquelle bom cheiro acre e sylvestre que a terra exhalava.
Perguntei-lhe de repente, não achando outra coisa a dizer-lhe:
—O sr. é casado?
Fitou-me bem na menina dos olhos, com uma expressão investigadora de quem deseja conhecer o fundo do pensamento de seu interlocutor. Depois respondeu:
—Não... Fui... Agora estou novamente solteiro: sou viuvo.
—Ah!
—É verdade. Sou viuvo e tenho-me dado[{13}] muito bem n'este novo estado de quem vive sem as preoccupações do homem casado, que tem uma familia a sustentar. Bem tolo é quem se casa...
Calou-se, a mirar-se outra vez nos meus olhos.
Um pequeno sorriso enigmatico frisava-lhe o labio superior, traçando nas duas faces profundas rugas obliquas que, nascendo das azas do nariz, partiam a perder-se nos longos fios grisalhos da parte inferior das suissas.
Eu não comprehendia bem o que diziam aquellas palavras, assim sublinhadas por similhante sorriso.
Elle pareceu-me haver adivinhado a minha duvida, porque disse, apertando-me as costas da mão direita, como para chamar para si toda a minha attenção:
—Está curioso, não? Quer talvez saber quem seja esta velha ave de arribação que vive no seu paiz e que tanta alegria traz sempre no coração, no rosto,—nos labios e no olhar? É uma historia muito longa a minha, meu caro senhor. Sou muito franco: deseja ouvil-a? Não perderá nada com isso; pelo contrario, creio aproveitará alguma coisa com a moral que tirar das minhas palavras, depois de me dar toda a razão nos actos que pratiquei. Logo que me ouvir, o sr. verificará que é muito certo o rifão: Tristezas não pagam dividas, e adquirirá a certeza de que, n'este mundo, o[{14}] melhor meio de se gosar saúde e viver tranquillo, é ter o coração calmo como a bonança e grande como a barriga do dezembargador Delfino. Ora vire p'ra cá as oiças e preste attenção.
Sentei-me. Elle fez o mesmo e começou, sorrindo sempre:
—"Quando cheguei ao Brazil, trazia algumas dezenas de contos de réis, herança de meu pae, morto quando eu era menino. Estabeleci-me, achando logo um socio que possuia capital equivalente ao meu. Ganhamos rios de dinheiro, que o meu socio conscienciosamente gastava, esbanjava com uma hispanhola réles e velhaca de um hotel da cidade.
"Um bello dia fallimos,—por causa dessas extraordinarias despezas capazes de desfalcarem os replectos cofres de um Crésus. Cuida que apaixonei-me por isso, que fiquei triste, abatido, doente, desanimado, sem vontade para continuar no trabalho honrado? Qual, meu amigo! O meu espirito é refractario a tristezas,—o meu coração grande de mais para fazer-se pequenino e mirrado por tão pouca cousa. Um ou dois contos de réis que pude ganhar em certo negocio, após o naufragio a que fôra conduzido pela doidice de meu socio, empreguei-os em comprar algumas joias de ouro falso, em mercadorias de contrabando, e, com um volumoso carregamento barato,[{15}] segui para o rio Madeira, afim de explorar em meu unico proveito a ingênua simplicidade dos seringueiros.
"Não me falharam os calculos: mezes depois voltei ao Pará, e adquiri maior carregamento, que fui de novo impingir ás remotas regiões do alto Madeira, onde os jacarés e onças respeitaram-me sempre a delicada posição de inoffensivo estrangeiro, que carece de protecção, que não deve ser offendido nunca em um paiz amigo!"
Calou-se. Em sua larga bôcca de expressão franca e descuidosa estava o eterno sorriso zombeteiro, aquelle sorriso sympathico, que me attraía para esse homem com toda a enorme força de um robusto affecto nascente.
Accendeu um charuto e continuou:
—"Para encurtar prolixidades: seis annos depois de nossa fallencia, eu regressava definitivamente ao Pará, trazendo uma solida fortuna amoedada em bons contos de réis palpaveis, em notas do Thesouro, no fundo da mala. Tratei logo de cumprir as imposições de um dever: paguei a todos os crédores da massa fallida, sem excepção de um só! Uma d'essas dividas da firma era uma anquinha,—uma anquinha!—que meu socio havia comprado para a sua Venus andaluza! Fiquei ainda com bastante dinheiro, com que estabeleci-me pela segunda vez,—d'essa[{16}] feita sem socio, para não mais ser prejudicado por ninguem.
"Quiz a sorte que eu me apaixonasse por uma formosa rapariga paraense,—farta carnação morenamente excitante e grandes quadris arredondados, divinos,—filha de um subdelegado de policia. Casei-me com ella alguns mezes depois de a ver. Não tinha educação, era estupida, mas possuía a convicção da belleza nas fórmas, a imponencia da sensualidade no olhar, e eu amava-a! Que me importava o resto?
"Dois annos vivi eu nos braços de uma felicidade illimitada. Luiza, a minha captivante mulher adorada, de dia para dia ganhava um palmo em minha infinita affeição serôdia, e cada vez mais revelava-me um esplendido segredo de sua magnifica belleza de crioula! Era um delirio, uma loucura dulcíssima e purificadora, aquelle amor que eu lhe votava com toda a vibrante virilidade do meu corpo e da minha alma! A pequenina casa em que viviamos era para mim uma Capua desejada, onde a minha languidez encontrava tranquillo bem estar, nos braços da seductora Luiza. O dia seguinte, que para muitos é um enigma atterrador, apresentava-se-me franca e gostosamente como a fiel reproducção inalteravel da vespera e do dia presente. Horas suavíssimas de um amor intenso e bom, como fostes amadas pela piéguice da ingenuidade do meu espirito!"[{17}]
Calou-se ainda, com o rosto demudado em uma espiritualisação prazenteira. Mas fitou-me, e logo o tal sorriso ironico volveu a arregaçar-lhe a rubra ponta do labio grosso e varonil.
E proseguiu, após haver accendido o charuto que se apagara:
—Eu tinha inteira confiança em Luiza. Jámais a idéa de uma perfidia de sua parte me passara pelo tranquillo espirito de marido que confia. Como poderiam enganar-me aquelles olhos tão bellamente claros e brilhantes, aquella bocca de perfumosos labios que davam beijos tão doces, tão sensuaes, tão irritantes? Santa simplicidade das almas descuidosas! O meu espirito era o espelho onde se reflectia o meu coração e onde eu suppunha ver a alma de Luiza, estava realmente a minha, a minha que em breve tinha de ser tão rudemente ferida pelos factos!
"É como lhe digo. Luiza era um demonio, longe de ser um anjo, como eu a phantasiava na benevolencia do meu illimitado amor. De imaginação creadora e ardente, apaixonara-se por um gordo vaqueiro de Marajó, que viera á cidade, e um bello dia, quando, ao caír da tarde, regressei a casa para jantar, não mais a vi: a safardana roubara-me todo o dinheiro que eu tinha em casa e fugira com o sobredito cujo mencionado[{18}] vaqueiro, como vim logo a saber, por informações ministradas pela visinhança, com grande vergonha dos meus brios de homem robusto, completo, valente e, na minha valiosa opinião, não de todo incapaz para o principal fim a que visava aquella ardente mulher material e voluptuosa.
"E que pensa o senhor que eu fiz para a castigar? Que a persegui com as leis do seu paiz em punho? Que fui buscal-a ao meio dos touros de Marajó, onde, por certo, ella repousava, muito languida e sensual, nos braços do cyclopico vaqueiro? Que expuz á irrisão publica, ás chufas da plebe, a ignara patifaria de minha mulher e a irreparavel deshonra do meu nome? Nada d'isso, meu caro! Deixei-a ir, sem me incommodar! Olhe, mandei-lhe mesmo umas camisas e anagoas de que se esquecera com a precipitação da fuga! Veja até que ponto fui complacente. Veja que santa bondade a minha!
"A desgraçada morreu um anno depois, victima de béri-béri; pois bem; para mostrar a Deus que não sou de todo mau, mandei por alma de minha mulher resar, na egreja do Carmo, uma triste missa de requiem, a que assisti com respeito e piedade."
Calou-se, sem uma commoção no rosto ou na voz. Falava como se tratasse do tempo ou da côr do céu n'aquelle momento: com a maxima placidez. E logo o seu velhaco[{19}] risinho sarcastico saltou-lhe da bôcca e veiu espreitar-me de sobre o labio superior,—como se fosse um depoimento vivo da tranquillidade d'aquella alma em face de todos os extraordinarios acontecimentos que por cima d'ella haviam passado, sem conseguirem emocional-a.
O meu companheiro, o meu extranho conviva, ergueu-se e, accenando-me para que acompanhasse-o, seguiu em direcção ao povoado, cantarolando esta pandega quadra do Dia e a Noite, de Lecocq:
Minha mulher, que Deus levou,
Foi-me infiel constantemente;
Nada d'isso me acabrunhou:
Levei o caso alegremente![{20}]
[{21}]
[A convalescente]
[Ao dr. Alvares da Costa]
Estava pallida e triste, encostada levemente á grade do camarote, n'aquella noite de estréa.
Os seus olhos, negros como a sêda que o seu delicado corpo vestia, divagavam pela platéa, indecisos, sem fixarem-se em ponto algum. Parecia uma d'essas melancholicas personagens de George Sand, phantasticas e idéaes, bellas, todavia, mesmo na falsidade da sua creação,—vivificada por um mysterio e conduzida áquella sala d'espectaculo,[{22}] onde ostentavam-se as formosuras das moças da moda e as austeras sobrecasacas dos burguezes, sob a intensa luz do gaz.
E ella estava sempre pallida, encostada levemente á grade do camarote.
Nos labios tinha ingênuo sorriso, que espiritualisava-lhe a expressão da sympathica physionomia.
Um engraçado diabrête, primo d'ella, brincava-lhe com o leque.
Quem binoculisasse aquelle camarote, havia de sentir apoderar-se-lhe da alma uma commoção de piedade, tal era a melancholica tristeza evolada d'esse logar, d'onde ella dirigia o seu negro, o seu profundo olhar para a platéa, cujo ambiente saturava-se mais e mais dos effluvios de lindos lenços rendados, dos perfumosos lenços discretos das jovens damas....
E aquella encantadora creança que, sempre triste, encostava-se á grade do camarote, apresentava na pallida physionomia os vestigios do soffrimento, que tanto a tornava sympathica aos olhos da burguezia austeramente séria sob a luz intensa do lustre.....[{23}]
[Desillusão]
[A Fontes de Carvalho]
A sra. d. Joaquina era uma d'essas impagaveis solteironas, que vivem sonhando amores e descobrindo tímidas paixões nas palavras alegremente zombeteiras dos moços que fingem cortejal-as por distracção.
Tinha ella a tez,—enrugada e molle como a casca do janipapo maduro,—salpicada d'essas manchas amarellas a que chamam sardas; encobria-as, em parte, com grandes e repetidas camadas de pó de arroz, comprado[{24}] sempre na Loja Mariposa, da qual o co-proprietario Affonso,—o sympathico Affonso,—vendia-lh'o com muita dóse de réclames e chamadas de attenção para a superioridade da fazenda.
Usava uns vestidos fóra da moda, mal feitos, com algumas nódoas, nos quaes primavam os enfeites vistosos,—uma garridice da sra. d. Joaquina.
O rosto d'ella denunciava 45 annos bem seguros entre os refêgos da engelhada epiderme,—posto que os cabellos, pretos e lustrosos como a cara suada d'um negro de Minas, mostrassem porventura uma prova de menos edade.
As pessoas que viviam mais intimamente com ella murmuravam phrases pouco lisongeiras para os seus brios de "senhora bastante apresentavel e digna do direito de aspirar a um bom casamento"—como ella pensava e dizia mui confidencialmente a certas amigas particulares.
Sempre houve maledicentes no mundo (salve a chapa!): foi por isso que uma d'essas amigas, tendo tido uma altercação com ella, retirou-se de seu trato intimo, e espalhou pelos conhecidos a noticia de que a nossa personagem pintava os cabellos, que, se não recebessem quotidianamente os respectivos affagos da esponja embebida em tintura, já deveriam estar soffrivelmente russos, quando não grisalhos. Parte dos ouvintes duvidou, suppoz equivaler aquella[{25}] affirmativa a uma intriga motivada pela recente inimizade; a outra parte acreditou, naturalmente.
A sra. d. Joaquina possuia uma educação mediocre, apenas sufficiente para conhecer os seus deveres de "moça solteira", quanto á educação moral; quanto á intellectual, lia com desembaraço e alguns tropeços prosódicos as cartas repassadas de sentimentalidade de dois ou tres namorados que tivera antigamente.
Eram essas leituras um desopilativo benefico para o seu spleen de senhora entrada em annos e votada á lastimosa condição de tia. Ai! A pobre d. Joaquina lastimava-se com tristeza de não haver em sua mocidade casado com o Guedes, o ferrageiro abastado, que se apaixonara loucamente por seus encantos, quando estes, ainda que em pequenina quantidade, escudavam-se n'uns vinte e dois annos de existencia. Ella não acceitara o amor d'elle, sonhando desposar um joven barão, muito rico e elegante, como um que conhecera n'um romance do insípido Ponson du Terrail. O barão, porém, nunca appareceu. Agora era tarde para remediar o mal: o Guedes, n'um momento de lucida reflexão, resolvera viver em calmo e economico celibato, apenas conservando em casa a Belisaria, cosinheira, mulata gorda como um cevado, a qual ministrava-lhe affagos cheios de faceiros quindins, nas horas de[{26}] amor, e bôas tortas de camarões seguidas de compotas de delicioso bacury, á sobremesa.
Dos outros ex-namorados a sra. d. Joaquina jámais tivera informações exactas, depois que por espontanea vontade os desenganara. Dizia-se vagamente que um fôra negociar ao rio Madeira, d'onde nunca regressou, talvez pela seducção d'alguma yára encantadora. Do outro constava apenas que partira para seu paiz natal,—Portugal,—afim de ir saborear á lareira, nos longos serões de inverno,—quando o suão sibila em as grandes chaminés ennegrecidas,—os succulentos nácos de paios da Beira,—d'aquelles paios tão glutonamente decantados pelo illustre poeta João Penha.
Por ess'arte, achava-se a sra. d. Joaquina em disponibilidade, e, a dizermos tudo, deveremos accrescentar que alimentava agora umas secretas e dulçurosas esperanças de captivar o rebelde coração do Francisco da Natividade, o elegante dono d'uma das melhores lojas da rua dos Mercadores. Este, porém, parecia não partilhar das mesmas intenções, porquanto ouvia-lhe os suspiros languorosos sem estremecer, sem pestanejar, sequer, n'uma impassibilidade de mumia. Ella armava-lhe ratoeiras amorosas: mandava-lhe flôres, fazia-lhe presentes de toalhas de labyrintho e fronhas bordadas, temperava-lhe o café quando elle ia á casa da familia d'ella, chegava-lhe phosphoros[{27}] accêsos aos charutos, roçando os dedos nos d'elle, para mudamente lhe revelar a sua paixão.
Comtudo, nada o commovia, e a sra. d. Joaquina rebellava-se intimamente contra o Francisco, quando, a sós, no momento de estender-se na sua fria rede de velha virgem, passava em revista pela memoria todos os seus actos relativos ao bom andamento d'aquelle amor.
Tal era o estado do coração da boa senhora na época em que o Natividade apresentou-lhe um sobrinho seu, recentemente chegado de Portugal.
A fina amabilidade do joven lisboeta, d'uma elegancia tão natural, attraíu as boas graças da digna solteirona, que logo sympathisou com elle. Em menos d'um mez o Raul tinha em a sra. d. Joaquina uma amiga sincera, uma attenciosa admiradora do "seu caracter austero."
Elle, para retribuir-lhe as affabilidades, redobrava de cumprimentos, desfazia-se nas mais requintadas delicadezas.
Levada pelas erupções d'aquelle seu coração vulcanico, ella começou a amar ao sobrinho, com o mesmo ardor com que pouco antes amara ao tio, o Francisco da Natividade. Cedo surprehendeu o bom moço as amorosas manobras da sra. d. Joaquina, e, julgando-o necessario, inteirou o parente sobre o affecto d'ella, para obedecer aos[{28}] dictames do dever. Ambos riram-se muito da nova asneira da irrisoria senhora.
—
Ou porque trouxesse de Lisboa os germens d'uma bronchite, ou porque, já no Pará, apanhasse alguma constipação, Raul adoeceu, ficou pállido, perseguido por uma pequena tosse, e uma tarde, após o jantar, sentiu uma suffocação, seguida de agudas dôres na parte interna do thorax, as quaes communicavam-lhe com as omoplatas. Como tivesse vontade de cuspir, curvou-se a meio sobre uma escarradeira e expelliu um pouco de sangue vivo.
—Santo Deus, que vejo?!—exclamou o tio, assustado.—Já, um medico, depressa! continuou, a correr attonito pela sala....
O facultativo chamado receitou-lhe um medicamento adequado, que estancou o sangue, e retirou-se depois de haver feito duas ou tres recommendações sobre o tratamento.
Raul melhorou: dormiu bem durante a noite. Na tarde seguinte, porém, teve uma verdadeira e forte hemoptysia. Lá foi o moleque chamar novamente o doutor.
Depois de auscultal-o, e interrogar sobre a vida passada e climas em que habitara, o medico aconselhou-o a partir para Portugal assim que podesse. Assoberbado por tão assustadora recommendação, o bondoso[{29}] Francisco da Natividade tratou logo de mandar o sobrinho pelo paquete que do Pará saíu seis dias depois.
No momento em que Raul despedia-se da sra. d. Joaquina, esta, chorando verdadeiras lágrymas de dó e de saudade, tirou do bolso uma carta lacrada a vermelho e deu-a ao enfermo, dizendo-lhe:
—Tome, seu Raul. Guarde isto. Quando chegar a Lisboa, leia e faça o que lhe peço. Mas, antes não a abra, pelo amor de Deus!
—Sim, minha senhora.... Os seus pedidos são ordens para mim.... Adeus!
Chegando á cidade do Tejo, estava Raul n'um auspicioso pé de restabelecimento. Todavia, entrou a medicar-se com cuidado, resguardando-se de tudo quanto podésse fazer-lhe mal. Estes uteis entretenimentos levaram-n'o a esquecer-se da sra. d. Joaquina.
—
Passaram os mezes. Raul ficou curado: estava gordo e forte. Como os medicos lhe recommendassem que não viesse ao Brazil, tratou de procurar emprego no continente. Achou um, que pareceu-lhe agradavel. Fez-se caixeiro viajante d'uma conceituada casa commercial, para ir fazer cobranças pelas provincias.
Na vespera do dia em que tinha de seguir[{30}] para a primeira excursão,—ao Alemtejo,—estava elle arrumando umas roupas, quando, introduzindo a mão no bolso d'um paletot que só vestia em viagem, encontraram seus dedos um objecto qualquer. Tirou-o para a claridade e viu uma carta toda amarrotada e suja. Reconheceu-a logo: era a carta que lhe déra a sra. d. Joaquina.
—Ah! que esquecimento o meu!—exclamou.—Que juizo não terá feito a meu respeito a impagavel senhora....
E, cheio de curiosidade, rasgou o sobrescripto.
"Meu bom amigo,—leu.—Devo dizer-lhe uma coisa, que ha muito afflue-me aos labios, sem todavia sentir-me com animo de fazel-o: amo-o, amo-o, com todo o ardor de que é capaz o meu ardente coração! (Isto copiou ella do romance A Caridade Christã, de Escrich,—pensou Raul). Peço-lhe que escreva-me logo, dizendo-me se fui por si acolhido o meu amor. (Aquelle fui é que era genuinamente d'ella, só d'ella; o Raul bem o conheceu). Espero ancioza a sua resposta, com a qual o meu amigo remeter-me-á meia duzia d'AGUA CIRCASSIANA, para eu dar de presente a uma conhecida minha. Disponha sempre do coração de sua eternamente,—JOAQUINA."
Raul casquinou uma sonora gargalhada terminando a leitura d'aquelle modelo d'orthographia,[{31}] propriedade de termos e syntaxe; mas, logo fez-se mais serio e:
—Ora bolas!—disse.—Só os cabellos encantavam-me, por serem tão pretos e lustrosos.... E era falsa aquella côr d'azeviche!.... Que desillusão!....[{32}]
[{33}]
[A "Serenata" de Schubert]
[Ao dr. Augusto Meira]
[I]
No seu pequeno quarto modesto de rapaz solteiro, João estava deitado na rêde, lendo um volume de contos de Armand Silvestre, á luz branda de uma vela de espermacete. Nove horas soaram as cornetas da outra banda do Capibaribe, na Casa de Detenção, derramando pelo ar um sôpro de tranquillidade imponente, que fazia os transeuntes apressarem o passo dirigindo-se aos respectivos domicilios. O vento norte,[{34}] que vinha de Olinda, entrava na sala, e d'esta seguia para o quarto de João, agitando a luz dentro do photo-mobile.
Na invisivel palpitação da brisa, entrou uma voz de piano vibrado na visinhança. Fanatico adorador da musica, João fechou o livro e prestou attenção. Eram as primeiras notas da Serenata de Schubert, esse magnifico poema musical que elle amava acima de todas as composições! De um pulo, achou-se abaixo da rêde, fóra do quarto, ao balcão de uma das janellas do seu humilde terceiro andar. E encostou-se á grade, com o rosto descançado na mão direita, dispondo-se a ouvir a sua peça predilecta.
Na rua, ninguem passava agora. Os reverberos alinhavam-se nos passeios, como extranhos guardas do socego publico. Um crescente de lua espalhava no azul-ferrete do céo, por entre multidões de estrellas tremeluzentes, uma diminuta claridade opalina, deante da qual fugiam mansos grandes montões de nuvens recortados em figuras indiziveis. E d'uma casa proxima saíam as vozes do piano, misturadas com a luz do gaz que irrompia pelas janellas abertas.
Como todas as musicas sentimentaes, a Serenata de Schubert possue isto de extraordinario: prende o espirito de quem a ouve, e leva-o ao centro da meditação tranquilla e saudosa das grandes cousas passadas, e que são sempre, quer dolorosas[{35}] quer alegres, um grato consolo para a alma.
Foi por isso que João, logo ao principio, deixou fugir um suspiro e, em seguida, a pouco e pouco, embrenhou-se na vasta floresta silenciosa e redolente dos seus antigos episodios de amores, quando, ainda no seu querido Pará, podia ver e ouvir quotidianamente a encantadora donzella que deve um dia ser sua esposa.[1] Foi tambem porisso que o moço estudante de direito recordou-se,—e com quantas saudades!—da magistral execução que a sua noiva sabia dar ao primor do illustre maestro allemão,—uma execução toda sentida, interpretando os minimos segredos, com dulcíssimos murmurios voluptuosos, que lhe davam melancholia ao espirito e suaves langores ao corpo.
Entrou João a imaginar que estava no Pará, ao lado de sua querida companheira, junto ao piano d'ella, no perfumado socego da sala deserta, extasiado na audição d'aquella phantasia esplendida! E logo, por uma transformação imaginativa, o piano[{36}] da desconhecida vizinha tomou aos ouvidos d'elle um som particular, intimo, que o commovia todo, chamando-lhe duas lágrymas aos cantos dos olhos! E, por esta causa tambem, á sua alma pareceu ver desfilar nas pacificas paredes da casa fronteira um tranquillo quadro do seu passado, o qual déra-lhe outrora tantos prazeres, e que tinha presentemente a expressão poetica, porém saudosíssima, de uma tela de Watteau....
Esse quadro, eil-o:
[1] Este conto foi escripto em 1886. A donzella de que se trata está hoje casada com o heroe da presente narração e póde gabar-se de ser a mais piedosa, a mais amoravel, a mais querida e a mais leal das esposas... com a vantagem de ser a mais dedicada e meiga de todas as mães.
[II]
Era noite de Natal. Nove horas acabavam de sôar no relogio da varanda. Um socego inalteravel e feliz pairava pela atmosphera da sala, onde a familia estava reunida em grupo aprazivel, ao fundo, em torno do sofá. Das ruas vinham pelas janellas abertas fortes sôpros de brisas cheirosas e sons de guitarras fugitivas, dedilhadas por alegres grupos de transeuntes. A espaços, uma voz, um grito chegava até á sala, revelando que pela cidade havia quem passeiasse, tentando festejar o anniversario do nascimento de Christo.[{37}]
Na sala a conversa era geral. Uma creancita formosamente encantadora sugava a extremidade de um tubo de mamadeira, sobre o cólo de sua virtuosa mãe, a qual, supposto conversar com o extremoso marido, não afastava do rosto da filha os grandes olhos expressivos, fluctuando n'um lago de ternura meiga e immaculavel como um beijo maternal.
Contemplando este quadro rubenesco, João pensava nos santos prazeres do lar,—elle, que era um mísero orphão, um desgraçado pariá do amor!—emquanto Dhalia, a sua querida noiva, sentada junto a elle, falava-lhe compungida ácêrca de uma infeliz mulher que, pela manhã, recebera de suas pequeninas mãos bemfazejas, roupas e sustento para os filhinhos. E dominando a todos, no meio do sofá, com a expressão suavíssima do rosto espiritualisada por um sorriso que venerandamente lhe frisava os labios, o velho Antonio, de cabellos e longas barbas sedosos e brancos, dirigia-se ao filho mais moço, ao Theodoro, aconselhando-o ao trabalho honrado, apontando-lhe como exemplo a seguir várias scenas a que assistira em sua passada vida commercial.
Uma exhalação de virtude emanava d'aquelle grupo: revelavam os rostos a tranquillidade invejavel de quem vive contente com a sorte e depõe muitas confianças no futuro.[{38}]
De repente, n'um silencio entre duas pontas de dialogo, uma voz ergueu-se da rua, fazendo-se acompanhar por uma guitarra:
Folguem todos n'esta noite,
Venha a festa sem egual:
—Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.
Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.
E a guitarra chorava em tom menor, fazendo côro ao ritornello. A voz de um agradavel tenor prendeu logo a attenção dos que estavam na sala:
Esta noite abençoada
Pertence aos que têm amor;
No presepe bethlemita
Veiu ao mundo o Deus-Senhor.
Novo ritornello choroso na guitarra.
Por isso, moços e moças,
Entregae-vos ao prazer,
Emquanto não vem a edade
Vossa fronte encanecer!
Terceira e ultima plangencia melancholica desferida na guitarra.
Aos derradeiros versos, o velho Antonio levantára a cabeça, n'uma energia de movimento,[{39}] com as narinas afflantes, os anneis da cabeça tremendo-lhe sobre os hombros.
—Tôlo!—exclamou, referindo-se ao cantor, cuja voz perdia-se agora ao longe, na extremidade da rua.—Pois que venha cá, a ver se os velhos não têm amores e prazeres!.. Que venha presenciar a este quadro e me dirá ao depois se eu não amo as minhas queridas filhas, o meu bondoso Braga, o meu Theodoro e á innocentinha que ahi dorme sob as bençãos do meu olhar!..
Um soluço gemeu-lhe no peito: Dhalia ergueu-se, radiante como a encarnação do carinho e, muito piedosa e pura,—qual um raio de sol illuminando a face de uma estatua antiga,—foi beijar amoravelmente a fronte do ancião....
Que não se affligisse, pediu-lhe affagando-o;—que não désse importancia a similhantes asneiras. Todos sabiam perfeitamente com que intensidade elle amava a familia, e que suaves prazeres tirava d'esse amor. E demais, aquella noite era de festa, como dissera o desconhecido cantor, não valia a pena entristecer-se....
—Para o lado os pezares!—terminou sorrindo.—Como distracção agradavel a todos, vou tocar ao piano a Serenata de Schubert.
Já se tinha João levantado, prevendo[{40}] este desfecho: correu ao piano, abriu sobre a estante a musica desejada e, accendendo as velas, sentou-se ao lado do banquinho, que Dhalia veiu occupar.
[III]
E começaram então as primeiras melodias da Serenata.
João cerrou os olhos, extasiando os sentidos na audição da formosa peça, tão bem executada pela donzella cuja alma eminentemente artistica comprehendia os segredos de poesia que a musica de Schubert encerra. Uma figura, ao principio fluctuante e indecisa, mas que logo tomou relevo, apparecendo em primeiro plano, desenhou-se na tela da imaginação do moço. E surgiu então um joven de bandolim em punho, debaixo dos balcões floridos de um elegante castello, que se erguia a meio de uma paizagem germanica, onde os robles farfalhavam á borda dos lagos tranquillos, sobre cujas superficies grandes garças deslisavam elegantes, ruflando as[{41}] brancas pennas em donosa magestade. E a voz a'elle era meiga qual um canto magico de yára amazonica, sentida como uma recriminação paternal, doce como um beijo apaixonado. De seus labios côr de papoula distillava-se o mel da musica de Schubert, que ia cair com uma suavidade de balsamo sobre a alma enamorada de uma joven castellã formosa, occulta entre os refólhos das colgaduras das janellas! A voz do amoroso trovador tinha um não sei quê de melancholico, um tal cunho de poesia dolente, que João emocionou-se tanto em face do quadro que a sua imaginação lhe descrevia, que não pôde deixar de cantarolar baixinho, com um meio sorriso, acompanhado pela correcta e sentida interpretação de Dhalia:
"O Châtelaine,
Entend ma peine!.."
...................
...................
Dhalia executou o morendo final da Serenata. João acordou da sua rêverie, erguendo os olhos para a pianista, em cujo rosto sympathico bailava um risinho engraçado.
De pé, encostado ao piano, estava o venerando Antonio, com o semblante illuminado n'uma expressão de ineffavel ventura.[{42}] Dos labios entreabertos parecia escapar-se-lhe uma benção muda, que se completava pelo gesto das mãos erguidas e espalmadas no espaço!.. Era o pae a abençoar o futuro feliz dos filhos idolatrados!
[IV]
Estava n'este ponto a saudosa recordação do moço estudante, na janella do seu modesto terceiro andar de uma das ruas do Recife, quando o piano da vizinha desconhecida gemia tambem o adoravel remate da Serenata.
João sentiu-se commovido por aquella musica inspiradíssima, que lhe avivára tão grata lembrança de seu venturoso passado,—agora que elle estava ausente do querido sólo natal, onde moravam todos os que possuiam-lhe a flôr do affecto. Ergueu os olhos ao céo, n'uma necessidade de soltar livremente o espirito pela amplidão infinita do vacuo. No firmamento azul tachonado de louras lucilações, o crescente de lua[{43}] vogava para o occaso como uma alegria fugitiva; pequeninos flócos de nuvens seguiam, muito calmos e ethéreos, pelo espaço adeante, projectando sombras cinzentas sobre o calçamento da rua. Da margem opposta do Capibaribe, uma voz de soldado ergueu-se bradando—alerta!—á sentinella.
Então, por um impulso de agradecimento, o espirito de João partiu pelo infinito a fóra, chegou ao Pará, atravessando a cidade, e foi ajoelhar-se piedoso á modesta pedra gradeada que sella o tumulo venerando de Antonio, o estremecido pae de sua noiva.[{44}]
[{45}]
[Que bom marido!]
[A Juvenal Tavares]
Não desejarás a mulher do teu proximo.
MANDAMENTO DE DEUS.
Havia já tres annos que estavam casados. Não tinham filhos. Viviam felizes, tranquillos, na sua casinha da estrada de S. Braz, de frente pintada a cal, onde o sol da manhã brincava alegremente n'umas scintillações que davam a nota de grande prazer interno ao passeiante que para ella dirigisse escrutador olhar.[{46}]
Elle era um velho quarentão, amanuense de secretaría, obeso, rubicundo, de rosto espalmado e barbas hirsutas e grisalhas. A mocidade que tivéra,—tempestuosa e poída nas orgias,—encanecera-lhe completamente os cabellos da cabeça, os quaes desciam para o rosto, onde cruzavam-se numerosas rugas sobre a pelle côr de ginja.
Ella tinha dezoito primavéras,—para me servir d'uma velha expressão do romantismo;—ostentava uma carinha faceira, risonha, d'olhos pretos e marotos. Têz morena e avelludada. Um sorriso excitantemente encantador descerrava-lhe os labios vermelhos, mostrando duas filas de dentes mais alvos do que os de um cão da Terra-Nova. O corpo, flexivel como a haste da angélica, era agil e dotado de seductores meneios, que impressionavam bem profundamente a mais de meia-duzia de gamenhos vadíos,—d'esses namoradores enfatuados que abundam por toda a parte.
O seu regimen de vida era, invariavelmente, este: de manhã, ás 8 horas, depois do respectivo e parco almoço, o sr. Bonifacio escovava com a manga da sobrecasaca o solenne chapéu alto, dava um chôcho á mulher e saía para a repartição com o passo do empregado publico:—impassivel e cadenciado.
Elvira acompanhava o esposo até á porta da rua, fazia-lhe uma pequena caricia e[{47}] voltava á varanda, afim de dar algumas ordens ácêrca do jantar. Dispostas as coisas para a segunda refeição, ía sentar-se á machina de costura, que dava-lhe não diminuta receita para as despezas diarias. O ganho d'esses trabalhos e os vencimentos do sr. Bonifacio formavam uma somma bem razoavel todos os mezes, a qual lhes permittia de tempos a tempos o luxo d'um camarote no theatro da Paz e um passeio a bond em noites de luar, um vestido novo para o cyrio de Nazareth, algumas duzias de pistolas e bixinhas na festa de S. João e mais outras regalias, que alegravam o gorducho amanuense e forneciam á encantadora esposa d'elle ensejo de satisfazer a sua natural vaidade de mulher bonita e nova.
Como acontece algumas vezes, a virtuosa esposa do sr. Bonifacio tinha seus adoradores,—rapazes toleirões, aos quaes ella, diga-se a verdade, não ligava muita importancia. Entre esses moços, quem mais assiduamente a requestava era um tal Jacyntho,—um leão conquistador que falava pelos cotovêllos, muito tolo, ignorante de tudo, excepto da arte do namoro atrevido. Este Jacyntho apaixonára-se por Elvira poucos dias depois do casamento d'ella, por occasião d'um passeio a Benevides. Desde essa época, o pobre namorado sem ventura passava todas as tardes pela casa do Bonifacio, quando Elvira ía para a janella,[{48}] emquanto o marido, na varanda, jogava o sólo com o taberneiro da esquina e o visinho da direita. Ao passar em frente a Elvira, enviava-lhe um sorriso e um cumprimento. A esposa do honrado amanuense retribuía a este ultimo e conservava-se muito séria, muito digna, sem corresponder áquelle. Passavam os dias, passavam os mezes, e Jacyntho era pontual á entrevista, na qual Elvira já parecia interessar-se, pois que tambem não deixava de ir para a janella assim que, lá na varanda, o sr. Bonifacio, o taberneiro e o vizinho começavam no passo e no bólo. É que a interessante senhora tinha um espirito ardente, phantasista, que não podía se contentar com os sós affagos morosos e frios do velho Bonifacio. Não obstante, nenhum passo mau desejava dar. Entregava-se áquillo a que chamava "uma distracção", mais para satisfazer uma vaga curiosidade do que para commetter um crime.
—
Jacyntho não era um homem que perdesse a paciencia. Assistia tranquillo a esse esperdicio de tempo, convicto do axioma que reza: "Agua molle em pedra dura, tanto dá até que fura." Tinha confiança[{49}] no futuro, que resolvería, com vantagem,—aquelle interessante problema de amor.
Uma tarde,—era em meiados de junho, passou o Jacyntho, devéras admirado por ver que a sua querida não estava á janella. Olhou para os dois lados da rua e não enxergou ninguem. A estrada de S. Braz apresentava a apparencia de um velho cemiterio abandonado: nem um só vivente se via.
Constrangido, dispoz-se a continuar, quando avistou uma rapariguinha mulata, que saía da casa do sr. Bonifacio. Correu a ella e perguntou:
—Onde está a d. Elvira, minha filha?
A mulatinha fitou-o espantada e, curvando a cabeça para o peito, metteu na bocca o index da mão direita, conservando-se calada.
—Vamos, fala, toma um tostão.... Onde está a d. Elvira?—insistía o leão fazendo escorregar um nickel para o seio da pequena.
Esta, ao sentir o contacto da moeda, lembrou-se dos rebuçados da fregueza e disse, ainda meio acanhada:
—Está lá dentro....
—E o sr. Bonifacio?
—Saíu.
—Dou-te outro nickel se fôres levar uma carta á tua senhora, queres?
—Eu quero....[{50}]
Jacyntho tirou do bolso uma carta que escrevera havia muito tempo e que, por cautella, não datára nem assignára. Entregou-a á mulatinha e conjuntamente outro tostão.
Depois seguiu pela estrada adeante.
Elvira não deu resposta áquella carta, que lhe revelára o grande amor que por ella sentia o Lovelace paraense. Este não desanimou: deixou de passar pela estrada de S. Braz durante dois dias, após os quaes voltou, seguindo pelo passeio, rente á janella. Sacudiu-lhe ao cólo nova epístola. Repetiu o mesmo jogo por uma semana. Finalmente, Elvira não pôde resistir mais, mandou-lhe uma carta toda cheia de temores, toda receiosa, na qual confessava que o Jacyntho não era-lhe indifferente, mas que devia abrir mãos áquelle amor, porquanto a sua "posição de mulher casada não lhe permittia tão gratas liberdades."
D'então em deante, apezar d'esses receios continuaram as cartinhas a passar dos bolsos do Jacyntho para o seio d'Elvira e do seio d'esta para os bolsos d'aquelle. É que houve uma tarde em que Elvira entrou a confrontar o physico do sr. Bonifacio com o de Jacyntho. Esse confronto e as reminiscencias de muitas leituras romanticas[{51}] deram causa á correspondencia criminosa.
Havia já alguns mezes que o amor dos dois não tivéra outras expansões além d'aquellas missivas platonicas. O temperamento de Jacyntho era mais exigente.
Uma tarde de dezembro, o sr. Bonifacio descia do bond em frente de casa, de volta d'uma visita que fôra fazer a seu chefe de secção. Transpondo o limiar da porta, encontrou a mulatinha que saía apressadamente, escondendo mal entre as dobras do vestido um objecto que attrahiu-lhe a attenção de velho curioso.
—Que levas ahi?—perguntou.
—Não é nada....—respondeu a rapariga n'essa voz cantada peculiar aos paraenses.
—Não mintas! Eu vi não sei quê!—bradou o sr. Bonifacio puxando-a pelo braço e apoderando-se do objecto.
Era um bilhete. Abriu-o, assestou-lhe os oculos e leu:
"Meu amigo, depois d'amanhã, á meia noite, meu marido vae ouvir a missa do gallo em Sant'-Anna. Finjo-me adoentada para ficar em casa, afim de conversar comsigo e saber d'essa novidade que prometteu contar-me. Venha á 1 hora. Acautelle-se bem; que ninguem o veja.
ELVIRA.»[{52}]
O Bonifacio subiu ao arame; ficou da côr da purpura e sentiu uma violentíssima dôr de cabeça. Teve impetos ardentes de ir assassinar a esposa infiel; reflectiu, porém, e soccorreu-se d'um alvitre que lhe appareceu a subitas no espirito com rubros lampejos de sanguinaria vingança.
—Toma, leva,—disse entregando a carta á rapariga.
E entrou.
—
Batem as 12 horas da noite de 24 de dezembro. Grupos folgasões de moços d'ambos os sexos passam pelas ruas de Belém em direcção ás differentes egrejas onde se deve rezar a missa do gallo.
O sr. Bonifacio, que levantou-se á ultima pancada das 11 horas, sae para a rua, deixando em casa a mulher incommodada "com muita dôr de cabeça...."
Á 1 hora, um vulto appareceu na esquina, approximando-se a passos ligeiros até chegar em frente ao domicilio do amanuense Bonifacio. Era o Jacyntho, que bateu pressuroso e baixinho em uma das janellas. Respondeu-lhe do interior um leve arruido. Jacyntho estremeceu de contentamento, pregosando os prazeres que ía fruir na conversação de Elvira, quando[{53}] subitamente exhalou um grito, dando um salto para o lado.
Era o respeitavel sr. Bonifacio, que saíndo de traz da mangueira onde occultára-se, desancava a bom desancar o peralvilho que tivéra a lembrança de namorar-lhe a mulher.
Quando Jacyntho saltou para o meio da rua, recorreu o sr. Bonifacio á pouca agilidade que ainda possuía e acompanhou-o, continuando a soval-o fortemente, n'uma agitação febril....
O pobre rapaz gritava dolorosamente. Ninguem acudiu-lhe: todos os vizinhos haviam saído para a missa do gallo.
Quando cançou, quando os braços negaram-se a continuar, o honrado amanuense, despedindo olhares terriveis para todos os lados, disse ao Jacyntho, que achava-se por terra, com os ossos quasi moídos:
—Vá-se embora, seu tratante e tenha mais juiso! Não torne a caír na asneira de namorar moças casadas!
E retirou-se para casa, a cuja porta entreaberta estava Elvira, tranzida de medo.[{54}]
[{55}]
[Noite de finados]
[A Manoel P. de Carvalho]
O cemiterio de Santa Isabel estava cheio de visitantes, todos vestidos de preto, caminhando compassada e vagarosamente por entre as sepulturas. Eram oito horas da noite sob um céo trevoso como a tristeza d'aquellas pessoas que ali se recordavam com saudades pungitivas dos parentes e amigos para sempre occultos debaixo da terra, sobre a qual compridas filas de vélas accêsas lançavam uma claridade intensa, que ia esbater-se ao fundo, na escuridão do mattagal.[{56}]
O ar estava impregnado do perfume das flôres—piedosamente depostas em cima das sepulturas por mãos amigas,—e do cheiro mystico da cêra queimada.
Ao longe, á direita da ermida, uma banda de musica executava plangentemente uma funeralesca marcha em tom menor, cujas maviosidades lugubres faziam suspirar as velhas beatas,—aspirando a uma outra vida desconhecida, além d'aquelle firmamento negro, no logar onde a omnipotencia incondicional da Divindade lhes parecia dominar em toda a sua magestade.
Entretanto, de espaço a espaço, grandes ondas de povo invadiam o cemiterio. Este, áquella hora, mal podia contel-as; porisso, as pessoas que receiavam um atropello, saíam enfadadas, murmurando indecencias.
Á porta, do lado exterior, cocheiros desboccados conversavam livremente com as pretas sentadas em frente das bandejas de doce allumiadas pelas lanternas que estavam sobre a baeta encarnada. Mendigos repellentes, de vestes sujas e mal cheirosas, plangiam supplicas, tentando demover em seu favor a caridade dos visitantes piedosos.
Alguns vadios encostados a um rico mausoleu de marmore assetteavam olhares torpemente libidinosos ás moças que entravam seguidas de suas mamães, n'um[{57}] andar assustadiço e saudando um ou outro conhecido com um meneio de cabeça. Mais adeante, n'um canto escuro, uma roliça mulata, com o vestido muito decotado, murmurava amabilidades a um preto de physionomia horrenda empertigado n'um fato novo e com a cabeça coberta por um descommunal chapéu alto. Como contraste, não muito longe, estava uma senhora pobremente trajada, com os cotovellos pousados á grade ferrugenta d'uma sepultura mal allumiada por duas vélas em castiçaes de vidro.
Dos olhos d'ella, que estavam fixos em uma corôa de perpetuas rôxas, corriam lágrymas, que das faces resvalavam-lhe para as delgadas folhas do capim que vegetava entre as junturas dos azulejos desbotados....
Era sem duvida alguma viuva que pagava á memoria do finado marido alguns annos de amorosa e suavíssima coabitação na terra...
Á esquerda, contemplando uma photographia em miniatura encerrada em negro caixilho e suspensa ao centro da cruz d'uma sepultura pequenina e toda coberta de jasmins, trevos, japanas e madre-silvas, via-se uma senhora de cabellos grisalhos, immovel, calada—como evocando passadas scenas de prazer—sem ouvir as plangencias da orchestra, que proseguia no funeral tristonho....[{58}]
O céo, no entanto, enchera-se d'uma luz suave e esbranquiçada. Grandes nuvens escuras retalhavam-se no azul-ferrete do firmamento, para as bandas da cidade. Um vento frio e murmuroso como um soluço d'almas penadas fazia farfalhar a matta proxima, causando arrepios de mal-estar ás supersticiosas moças que estavam no cemiterio.... Agora calára-se a orchestra.
Subira um prégador para um pulpito armado ao ar livre, sob uma arvore de grande côma sombria, e recitava em voz cavernosa e com largos gestos tragicos, uma homilia contristadora sobre a transitoria felicidade mundana e a perenne bemaventurança celestial.
As mulheres,—mães, filhas, esposas,—que o ouviam, ficavam caladas, muito sérias, com os olhos grandemente abertos fixos em seu rosto bronzeado; no intimo, porém, no fundo da consciencia, levantavam um brado de maldição áquella felicidade que lhes roubára a companhia dos entes queridos e amoraveis.
Um homem de cabeça encanecida, que vagueava levando pela mão uma creança de tenra edade,—um lindo e pallido orphãosinho,—voltou-lhe costas nervosamente, soluçando, e fugiu para junto de um pobre tumulo tranquillo, em cuja grade se lia este lancinante poema de uma só phrase:—Á minha esposa....
No céo, as nuvens afastavam-se, evolavam-se[{59}] como alegrias fugitivas ou prazeres expulsos, erguiam-se n'uns grandes rendilhados phantasticos de miragens variadas.
A lua appareceu, como uma saudade enorme e cruciante, n'uma serena magestade tumular, que impoz vago soffrimento ao coração de todos. Os brandões e vélas perderam o brilho, ficaram como pyrilampos lantejoulando os sepulchros sob o luar diaphano, a cuja claridade continuava o pregador a recordar a omnipotencia de Deus.
Os bonds estacionados na praça encheram-se de passageiros. Minutos depois seguiam pela estrada da Independencia, replectos de homens, de senhoras tristes, com physionomias de soffrimento.
Chegando ao largo de Nazareth, apearam-se muitos homens. O largo estava illuminado festivamente, cheio de adornos alegres. Era aquella noite a penultima da festa annual.
Então, os mesmos homens que estavam rendendo ha poucos minutos uma saudade á memoria de um amigo, d'um irmão, d'um pae, desciam agora ao centro da festa popular, procuravam as conversas ruidosas, invadiam as casas de jogo,—propellidos pela fascinação demoniaca e terrivel da roleta![{60}]
[{61}]
[Rio abaixo]
[(Ao dr. Gaspar Costa)]
A canôa seguia mansamente, per si só, impellida pela correnteza.
Sentado á prôa, fumando n'um cachimbo de longo taquary, o caboclo fitava com o olhar indolente os altos e esguios assahyseiros e as longas folhas das bananeiras d'um verde-claro alegre, beijados pelos ultimos raios do sol, que escondia-se por traz da ilha das Onças.
Na pôpa, debaixo d'uma tolda de palha d'ubim, estava o senhor moço, abanando-se[{62}] com uma ventarola de pennas vermelhas, ao lado da senhora moça, que espreitava para fóra, por um dos pequenos postigos lateraes. A seus pés, dormitava o cão Mururé, com um pedaço de lingua escarlate caída para o lado esquerdo, entre os dentes meio visiveis.
O cheiro acre da marezia saturava a tolda. Periquitos gritavam nos mattagaes da ilha proxima; cantos sonoros de passaros chegavam até á embarcação, n'uma suavidade docemente melancholica, que fazia sorrir de alegre ternura os dois viajantes.
—Que bonita paizagem, Antonio!
—É certo! Razão tinha eu dizendo-te que gostarias immenso da viagem.
—Quando chegamos ao sitio?
—Ás 9 horas, isto é, d'aqui a tres ou quatro.
—É pena chegarmos tão cedo!
—Dizes bem: vamos tão contentes....
E beijaram-se n'um impeto de prazer extraordinario.
O caboclo, que, por acaso estava a olhar para elles desde alguns momentos, voltou o rosto, embaraçado, sentindo queimar-lhe as tostadas faces um ardor de sangue equatorial em ebulição. Puxou do cachimbo demorada fumaça, para tranquillisar-se.
Os outros, os dois recem-casados,—porque Antonio e Luiza eram noivos: tinham-se matrimoniado quinze dias antes,—experimentavam, debaixo da tolda, uma sensação[{63}] de ineffavel bem-estar ao verem-se n'aquelle magestoso socego, sobre o Tocantins, dentro da embarcação. Felicitavam-se mutuamente,—com o olhar cheio de caricias,—por haverem podido esquivar-se á vida agitada que levavam em Belém, sempre rodeados de visitas, cujas conversações banaes, nullas, pouco interesse lhes davam. Mas agora,—como iriam viver felizes durante aquella quinzena de fuga, em a tranquillidade bucolica da roça, sosinhos, passeiando sem companheiros importunos, ao longo do rio, tirando caranguejos da lama, lavando reciprocamente as mãos na agua azulada e murmurosa dos igarapés!.... E que festas fariam á hora do jantar, comendo peixinhos pescados por Luiza, e pacas, roliças de gordas, caçadas pelo Antonio nas mattas do sitio?!....
Suggeridas pelo sopro de socego que parecia rodeal-os no meio do rio, estas idéas levaram-n'os a conversar animadamente, risonhamente, sem attenderem a que o sol não mais vibrava os lategos luminosos no dorso da corrente, e que, portanto, poderiam sair para o centro da canôa, afim de gozarem da viração fresca e cheirosa que agitava n'um movimento descompassado as velas mal colhidas ao mastro.
Sempre assentado á prôa, fumando sempre no cachimbo de longo taquary, o caboclo[{64}] olhava agora para o poente, como confidenciando mentalmente com o sol, que deixára um rastro avermelhado no céo, onde agrupavam-se em desordem nuvemzinhas côr de nácar, violetas, azuladas, plumbeas, côr de perola. Do lado opposto, levantava-se a noite, n'um andar manso, mathematico, extinguindo a pouco e pouco o crepusculo bruxoleante.
O gorgeio dos passaros cessára na ilha das Onças, que já tinha ficado atraz, a longa distancia; só chegavam á canôa os compassos em andante do canto de um carachué que saudava a noite d'uma pequena ilha, rente á qual passou a embarcação.
—Vê ahi no meu relogio que horas são, José, ordenou Antonio ao caboclo.
—Seis e trinta e oito, sinhor.
—Oh! então saiámos d'aqui, filha, vamos tomar fresco.
Vieram para fóra.
Luiza soltou uma exclamaçãosinha, sonora como um soneto de Paulino de Brito, engraçada como uma satyra de Julio Cezar, com a sua voz d'um timbre argentino como um filete de agua morna caindo n'uma banheira d'oiro lavrado:
—Ah!—fez ella.
E deixou-se ficar de pé, encostada ao hombro do marido, extasiada, em frente ao pittoresco panorama que apresentava-se-lhe aos olhos.
Largo em aquelle sitio, achamalotado[{65}] pela brisa, o rio abraçava numerosas ilhotas rasas, cobertas d'uma vegetação opulenta, que esbatia-se n'uns tons escuros, quasi indecisos, no limite do horisonte. Um socego de tabernaculo reinava por toda a parte, sob o azul ferrete do céo, onde as estrellas começavam a scintillar como as pedras preciosas d'um manto de rainha antiga. Nem uma nuvem occupava n'esse instante um espaço do firmamento. Ao longe, á direita da terra firme, tremulava uma pequena luz. A agua do rio, no fim da vasante, esgueirava-se pelo costado da canôa n'um murmurio dolente. A súbitas, na solemnidade do silencio, resoou um grito d'ave nocturna.
—Accende a lanterna, José,—disse Antonio ao caboclo, que obedeceu logo, voltando depois á sua posição habitual na prôa, fumando.
Antonio e Luiza tinham-se assentado sobre a mala que havia no centro da embarcação, entre dois paneiros de farinha sobrepostos, e uns grandes jarros com roseiras florídas.
Como tivesse refrescado o vento, Luiza sentiu frio, estremeceu. O marido foi á pôpa buscar um chale, cobriu-lhe com elle os hombros, conchegando-lh'o muito ao pescoço, amoravelmente.
Depois sentou-se ao lado d'ella. Era profunda a escuridão. Do logar em que achavam-se, apenas viam na prôa um ponto vermelho[{66}] como um carbúnculo: o tabaco a arder no cachimbo do caboclo. Este se tornára invisivel na densidade das trevas.
Antonio e Luiza sentiram-se bem n'aquella solidão: entraram a conversar baixinho, muito unidos, de mil cousas que lhes compunham o passado de tão agradaveis recordações. Era para ambos uma innarravel felicidade poderem pairar, assim a sós, das peripecias do curto namôro, dos longos annos que elle passou a amal-a silenciosamente, das emoções e impaciencias do dia do casamento, quando approximava-se a hora em que o parocho de Sant'Anna teria de unil-os.
Soltavam risadinhas indiscretas, acariciavam-se com amor, com delicias, n'uma excitação dos sentidos. Um movimento instinctivo,—inconsciente, talvez; cheio de affecto e volupia, com certeza,—uniu-lhes os labios n'um prolongado beijo de paixão, vibrante como um côro juvenil.
Ouvindo-o, o velho caboclo estremeceu, mudou de posição.
Poz-se a pensar nas passadas e saudosas épocas da sua felicidade, fruída com a finada mulata, a quem tanto queria, no meio da vegetação selvatica e cheia de grandiosidade das florestas amazonicas...
E um suspiro profundo, traduzindo uma saudade dolorosíssima, respondeu áquelle[{67}] beijo nascido de duas bôccas amantes no silencio de tão linda noite paraense.
Entretanto, a canôa seguia mansamente, rio abaixo, impellida pela correnteza.[{68}]
[{69}]
[Ao despertar]
[Ao sr. A. R. d'O. Gomes]
Nem tudo o que luze é ouro.
PROVERBIO POPULAR.
[I]
A alcova nupcial em noite de noivado.
Um perfume suave de flôres volita invisivelmente pela atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas variegadas em côres desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas[{70}] discretamente cerradas... Uma lámpada com vidros baços, côr de leite, esparze branda luz em torno, sem crepitação, n'uma solenne impassibilidade, que dá certo ar magestoso ao silencio do recinto.
Dois pares de pantufos de sêda branca escancaram as cavas como n'um bocejo, sobre a fina alcatifa azul, aos pés da cama.
Em cima do leito, abandonada, a grinalda de flôres de larangeira repousa meio escondida sob um lenço de fina baptista com um monogramma bordado.
Ha quinze minutos que a noiva penetrou no quarto, muito pállida e trémula, seguida pela madrinha, e atirou sobre aquella cadeira preguiçosa o elegante espartilho e o corpinho de labyrintho....
Ha quinze minutos a joven Paula, toda transida ante os mysterios que se lhe antolhavam na vida que ia começar em breve, deixou-se escorregar pelos finos lençóes e descançou a bella cabeça de paraense morena, em cima do travesseiro macio como a flôr do algodoeiro....
E ha dez minutos apenas que o seu noivo, o seu querido Alfredo, entrou a passos leves, amoroso, cheio de grandes anceios, com os labios contrahidos n'um leve rictus de satisfação, de ventura.
Dez minutos antes, elle descerrara as cortinas que se fechavam n'uma pudicicia, e murmurara baixinho, todo emocionado:
—Permittes?....[{71}]
E agora, emquanto elles dormitam, amorosamente enlaçados, sonhando felicidades paradisíacas, um perfume suave de flôres volita pela atmosphera da peça, exhalando-se dos grandes vasos de porcellana, onde as rosas multicores desabrocham opulentas, reflectindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente cerradas.
[II]
O casamento realisado n'aquelle dia fôra o epilogo de um longo namoro de seis annos, muito abundante em peripecias interessantes, como indisposições subitas, brigas e malquerenças de alguns mezes por causa de nonada, e, depois, de repente, pela influencia de não sei que espirito benefico, pazes feitas com abundantes expansões apaixonadas, reconciliações ternas e carinhosas, que os prendiam temporariamente n'um enlevo.
O pae de Paula era um velho capitalista retirado dos negocios, brazileiro obeso e rubicundo a destillar suor e essa satisfação[{72}] do homem rico que vive contentíssimo da sorte.
Creara para a filha um ideal—um casamento com um bacharel. Similhante aspiração, incontestavelmente modesta, fizera o velho procurar certa roda, para a frequentar, quando a filha chegou aos 15 annos. Viuvo,—a mulher morrera-lhe de parto, ao dar á luz um ente rachítico, inviavel,—deixava a filha nos salões e ia procurar as mesas de jogo, para encurtar o tempo.
Assim andaram os dois, por espaço de muitos mezes, em verdadeira peregrinação á cata de casamento, quando, afinal, a sorte quiz attendel-os e appareceu-lhes na fórma de um elegante mancebo, que dias antes chegara de Pernambuco, sobraçando o pergaminho que lhe conferia o titulo de bacharel em direito. O dr. Alfredo sentiu-se captivo das graças de Paula. Aquella cutis morena e avelludada; os olhos d'ella,—duas bólas d'onix engastadas em amendoas de jaspe, sombreadas por longos cilios sedosos;—os longos cabellos d'ébano, ondeando-se-lhe pelas espaduas de farta carnação; aquelle bonito torso de opulentos seios na apojadura da juvenilidade;—tudo n'ella prendia-lhe o enamorado espirito em os laços d'uma paixão tão sincera quanto profunda. Mas, sobretudo, o que mais o encantava, aquillo que mais o arrebatava a grandes êxtases gososos, debuxando-lhe nos labios um sorriso espiritualisado e[{73}] prenhe de beatitude, eram os alvos dentes que perlavam as carminadas gengivas d'ella, quando Paula fitava-o sorrindo, com duas covinhas sobre as faces, bem junto ao rosto d'elle, como desejando magnetisal-o.
Uma tarde, após haver contemplado os dentes da noiva por muitas horas, foi para casa com a alma perfumada pelo prazer e tão enthusiasmado sentiu-se, que sentou-se á secretária e entrou a fazer uma poesia,—elle que jámais fizera versos!—uma poesia em que abundavam as palavras—seductora virgem, divinal espirito archangélico, em uma terrivel mescla d'enormes pés quebrados, com grande escandalo das regras formuladas por A. Feliciano de Castilho.
Finalmente, chegou o almejado momento do enlace matrimonial.
Preparando-se afim de ir para a egreja, Alfredo só pensava nos dentes da noiva, n'esses bellos dentes muito brancos e pequenos que tanto o encantavam.
E phantasiava um capricho, cuja lembrança era sufficiente para lhe dar ao corpo agradaveis tremores e arripios: a si mesmo promettia que o primeiro beijo que désse á mulher seria nos dentes, bem no meio da bocca!
Afinal, aquelles dentes eram uma obsessão para Alfredo. Para qualquer parte que volvesse os olhos, parecia-lhe avistar os dentinhos de Paula sorrindo-lhe amoravelmente,[{74}] incitando-o a uma tentativa agradavel de roubo de um ósculo. O colete, que elle enfiava n'esse instante, assumia a apparencia de uma dentadura mordendo-lhe nos hombros, perto dos quaes pulsava o coração, arfando em anhelos. E, quando o padrinho appareceu entre as coiceiras da porta, para lembrar-lhe que já era tempo de ir para a egreja, estava tão abstracto da vida regular, tão concentrado em suas phantasiosas meditações, que abraçou-o commovido, murmurando:
—Que bella dentadura, que tens!
[III]
Na egreja e á ceia opipara que seguiu-se á ceremonia religiosa em casa do velho pae de Paula, durante a longa e—para elle,—enfadonha conversação subsequente na sala, sob a claridade dos muitos candelabros, Alfredo só pensava na dentadura da noiva, enterrado n'uma poltrona, com a fronte meditativa, que fazia os convidadas murmurarem baixinho, ao ouvido, com um sorriso eloquente por traz do lenço amarrotado[{75}] na palma da mão, opiniões em nada favoraveis á sua reputação de sobriedade em assumpto de succo de uva....