AS DONATARIAS DE ALEMQUER

Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado


J. P. FRANCO MONTEIRO

AS
DONATARIAS D’ALEMQUER

Historia das Rainhas de Portugal
e da sua casa e estado

com uma carta-prefacio
POR
OLIVEIRA MARTINS

LISBOA
M. GOMES—Editor
LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
Rua Garrett (Chiado) 70-72
1893

Typ. Castro Irmão


A meu Pae


Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.

A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo.

Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no titulo. É o que eu sinto. As donatarias de Alemquer são as rainhas de Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho prova serem estas paginas as primicias de um escriptor.

Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo: a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine. Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade. Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas. O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que se encontram diamantes.

Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois, a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse serem tempo perdido.

Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne

Seu
M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ

Oliveira Martins

Casa de V. Ex.ᵃ

25 de março


ADVERTENCIA

No seu principio, as Donatarias foram uns simples artigos de dilletantismo litterario, não se concebendo ainda o plano d’um volume.

Destinadas á publicação em periodico, accommodei-as ao pequeno espaço que me dispensava um dos mais honrosos jornaes da capital; porém, estimulado pelo favor e cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo o pensamento, chegando emfim ao projecto de as colleccionar em separado.

É o que faço hoje, não lhe alterando a fórma primitiva; corrigindo-as em parte, mas não lhe transtornando o molde, por lealdade, talvez exaggerada, ao meu primeiro pensamento.

Tambem não quiz mudar de titulo, que parece de uma obra local—feição esta que se encontra um tanto accentuada na primeira dynastia.

Como vi a luz n’uma aldeia do concelho d’Alemquer, entendi que bem proprio era o meu primeiro livro ser dedicado á terra que me foi berço. Começa-se a amar a Patria amando os campos e as flores do nosso lar; é ahi que desabrocha o sentimento civico, é ahi que se enraiza a adoração por todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade de sentimentos, de linguagem, d’aspirações e de crenças, que fórma o Paiz.

Além d’isso, Alemquer desempenhou na Historia portugueza um papel importante, embora hoje esteja reduzida ás suas tradições e ao movimento industrial das fabricas, que actualmente lhe tornam conhecido o nome, que, sem essa circumstancia, estaria de todo olvidado.

Outr’ora capital da Casa das Rainhas, villa predilecta das soberanas, que nas suas muralhas encontravam defeza leal, que nos seus montes e nos seus vergeis buscavam o desenfado da vida cortezã, é justo que essas memorias hoje sejam invocadas[1] por quem nasceu no seu termo, por quem viu ao despontar da vida, as ruinas do velho castello que Affonso Henriques tomou aos mussulmanos e que D. João I destruiu como padrão d’ingloriosas, ainda que valentes recordações!

Aconselharam-me que ampliasse o livro e o intitulasse—A Casa das Rainhas; era mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro trabalho... Reagi, conhecendo a justiça do conselho, pelos motivos que acima expuz, despretenciosamente, sem outros calculos que não sejam os da lealdade do sentimento.

Procurei julgar os diversos personagens que menciono, conforme o meu sentir os define. Na philosophia da Historia, o leitor me julgará, porque quem escreve é um reu que tem de sujeitar-se ás impressões que suggeriu aos cultos e até aos incultos. Ahi é que o historiador sobrepuja o erudicto na manifestação da sua intellectualidade. Isto não é julgar-me a mim proprio. Digo-o em geral, como regra assente. O erudicto busca, trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos dos archivos o pergaminho desejado. Não o impelle a sua philosophia, mas sim as suas aspirações; porém, ao resolver do problema, nos mostra na critica do documento achado, os dotes da sua intuição, revela-nos bem qual é a grandeza da sua alma, qual a força do seu raciocinio. Entretanto, sem erudictos não poderia haver philosophos; uns completam os outros, no ideal dos que escrevem a Historia:—mostrar aos presentes, para sua licção e dos futuros, o que foram os passados, o rigor dos seus defeitos e a suavidade de suas virtudes.

Alicerce da minha vida litteraria, as Donatarias vêem a luz sem pretenções, mas com o apoio favoravel d’um dos nossos primeiros escriptores, que obsequiosamente, se promptificou a prefacial-as. Agradeço-lh’o com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei das suas palavras, como incentivo tenaz para o trabalho que mesmo que não traga gloria, sempre traz proveito.

Egualmente me confesso reconhecido aos srs. dr. Xavier da Cunha, conservador da Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel da Costa Basto, director do Archivo da Torre do Tombo, pelos bons serviços com que me brindaram no decurso das minhas buscas investigadoras.

Franco Monteiro

Cortegana, março de 1893.


A CASA DAS RAINHAS
(NOTICIA SUMMARIA)

Para sustento de suas consortes costumavam os antigos reis doar-lhes o rendimento de algumas villas, juncto a varias attribuições civis que variavam conforme a confiança que o soberano depositava na esposa.

Em 1188 Sancho I tencionou visitar a Palestina; na duvida de succumbir na empreza, doára a sua mulher a rainha D. Dulce os rendimentos de Alemquer, Terras do Vouga, do Porto e de Santa Maria; mas, retirada a idéa da jornada, não se sabe se D. Dulce continuou a usufruir os bens testados, ou se elles voltaram para a corôa.

O sr. visconde de Figanière no seu explendido livro Memorias das Rainhas de Portugal, pag. 63 e 64, quasi que affirma que esta senhora foi donataria de Alemquer; Francisco da Fonseca Benevides nas Rainhas de Portugal (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) segue o mesmo caminho. Entretanto, são simples conjecturas as opiniões dos dois illustres e sabios escriptores. Que D. Dulce possuiu propriedades no termo de Alemquer, é innegavel;[2] assim como possuiu na Beira varias fazendas ao sul do Mondego;[3] mas que tivesse o senhorio d’esta villa, não é certo, embora com probabilidades.

A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa de seu filho Affonso II; esta princeza teve os senhorios de Torres Vedras, Obidos e Lafões, existindo na Torre do Tombo um documento em que o herdeiro de D. Sancho regula a applicação dos rendimentos de D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, e como da mulher de D. Affonso II existem provas de haver casa propria, não nos parece fóra de razão enumeral-a como a primeira senhora (não proprietaria) de terras.

De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia que viesse a possuir quaesquer villas em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão teve Torres Novas, Alemquer e Torres Vedras, que lhe foram doadas por seu esposo, D. Affonso III, sendo-lhe mais tarde concedido o padroado d’estas villas. Santa Izabel, mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote Abrantes, Obidos e Porto de Moz, por carta d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.[4] Mais tarde teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, Cintra, Ourem, Feira, Gaia, Lamoso, Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e Monte Alegre; sendo esta concessão ampliada com varias rendas em dinheiro e com as villas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho de 1304)[5] e Athouguia (19 de outubro de 1307). Possuiu além d’isso os reguengos de Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a Quinta de Fandega da Fé, em Torres Vedras e a leziria d’Atalaya.

Não ha documentos que affiancem que Izabel d’Aragão possuisse Torres Vedras e Alemquer; no que diz respeito a esta segunda villa, o amor que a rainha sempre lhe consagrou, leva-nos a suppor que de facto fosse sua proprietaria.

Depois de Santa Izabel apparece-nos D. Brites, esposa d’el-rei D. Affonso IV. Esta soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha de Sancho IV de Castella e da rainha D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro de 1309 com o infante D. Affonso, que mais tarde, por morte de seu pae (7 de janeiro de 1325), succedeu na corôa portugueza.

Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz confirmou-lhe a doação que o marido lhe havia feito (20 de outubro do mesmo anno) da villa de Vianna do Alemtejo, com todos os poderes civis e criminaes. O mesmo seu sogro deu-lhe em arrhas Evora, Villa Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo estas duas ultimas trocadas por Cintra (26 de maio de 1334) com todos os seus pertences.

Teve varias herdades em Santarem, que pertenceram a Fernão Sanches; e a leziria d’Atalaya (5 de novembro de 1337).[6] Em 7 de junho de 1357 el-rei D. Pedro I, para lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê de Torres Novas. D. Beatriz de Castella procurou imitar Santa Izabel no exercicio da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos pios, influiu por destruir o antagonismo entre Affonso XI de Castella e Affonso IV de Portugal, e o resentimento de seu filho D. Pedro para com o pae, o infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu esta rainha em Lisboa, e jaz sepultada na sé da mesma cidade.

D. Constança Manuel, primeira mulher de D. Pedro I, teve em arrhas as villas de Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor Telles, esposa de D. Fernando, foi presenteada por seu marido com Villa Viçosa, Almada, Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, Torres Vedras, Obidos, Athouguia, Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, Unhos, e Terras de Meréles. Esta carta de arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro de 1372.[7] Passados dois annos fez-se a troca de Villa Viçosa por Villa Real de Traz-os-Montes, onde D. Leonor exerceu toda a jurisdicção. A 20 de março de 1376 a seductora do mallogrado soberano de Portugal ainda teve artes de adquirir Pinhel.

D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, dotou-se com as rendas da Alfandega de Lisboa, da portagem e do paço da Madeira e com as villas de Alemquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres Novas e Torres Vedras.

D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas de seu marido trinta mil florins de ouro de Aragão, e por hypotheca Santarem com todos os seus rendimentos. Em 1453 D. Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra e Torres Vedras, vindo mais tarde a possuir outras terras da rainha sua sogra. D. Isabel de Lencastre, filha do grande infante D. Pedro, o das Sete Partidas, foi donataria de todas as villas da sua predecessora. D. Leonor de Lencastre, além d’estas mesmas villas, teve por doação de seu marido D. João II as cidades de Silves e Faro e as villas de Aldeiagallega e Aldeiagavinha, tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. Desde esta epocha ficou constituida a Casa e Estado das Senhoras Rainhas de Portugal.[8]

Tinham as augustas esposas dos nossos soberanos a faculdade da nomeação dos empregados do fisco, os recebedores das rendas, das patentes d’officiaes, etc., ficando o senhorio eminente na posse da corôa.

D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de julho de 1643) um Tribunal da Fazenda da Casa e Estado das Senhoras Rainhas, que a administrou até que o alvará de 25 de janeiro de 1770 transmittiu o seu governo para o Erario.

Foi este o primeiro golpe na Casa das Rainhas, de todo extincta por decreto de 9 d’agosto de 1833.


AS DONATARIAS DE ALEMQUER

D. Dulce

Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe no throno seu filho Sancho I, que ao tempo contava trinta e um annos de edade.

Achára traçadas as linhas da monarchia portugueza pela espada e pela politica do pae, continuando a sua obra com a tomada de Silves, a primeira tentativa da conquista do Algarve, mais tarde gloriosamente seguida por seu neto Sancho II e só ultimada por Affonso III, graças ao valor incomparavel de D. Paio Peres Correia.

Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz e de D. Pedro, o cru, na administração interna do paiz. Tendo outros horizontes que não só os da guerra, tomou a hombros o povoar as praças e logares conquistados, em proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia essa edade média bulhenta, que vivia da conquista e tinha por unico objectivo a gloria da cruz e o engrandecimento do territorio.

Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o principe a D. Dulce de Aragão, filha de D. Ramon Berenguer, decimo quinto conde de Barcelona e de D. Petronilha, rainha do Aragão, filha de Ramiro, o monge. Longos e abençoados foram os fructos d’este consorcio; D. Dulce deu á luz onze filhos, entre os quaes trez filhas se elevaram aos altares.

Depois de vinte e tres annos de casada, a rainha succumbiu em Coimbra (primeiro de septembro de 1198), sendo sepultada em Santa Cruz.

Apesar de não haver documentos que provem que esta princeza foi senhora de Alemquer, auctores ha que a têem como tal, parecendo corroborar esta opinião o facto de seus bens serem repartidos pelas filhas (D. Constança, D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, D. Branca e D. Berenguella) e ser D. Sancha possuidora da villa.

Não nos embrenharemos na discussão d’este assumpto embora estejamos convencidos do contrario (permitta-se-nos dizel-o), apesar do senhorio de D. Sancho e da rainha possuir terras n’este concelho, segundo julgamos, proximas á quinta da Condessa.

No emtanto, como temos por nullo o nosso sentir, curvaremos a cabeça ás baseadas affirmações dos mestres, mencionando-a como a primeira donataria.


D. Sancha

Deve-se escrever com animo grato a biographia d’esta princeza. Sympathica e boa, religiosa e casta, foi sem duvida um dos grandes premios que a Providencia destinou ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica das epochas medievaes, procurando com o cilicio a expiação da carne, que nunca abandonára o pudor!

Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, a sacrificada esposa d’Affonso IX, de Leão, predilecta filha do rei povoador, a ella o paiz deve relevantes serviços, porque foi ella a introductora dos franciscanos em Portugal, que tantos sabios nos deram e tantos beneficios nos prestaram.

D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção especial; fôra-lhe doada pelo pae, que a enriquecêra com um paço, em que a santa senhora recebeu os cinco martyres de Marrocos, e onde buscou, muitas vezes, a retirada residencia, no alto monte, em que á vontade contemplava a maravilhosa obra do Creador!

D’este paço só resta a chamada capella de Santa Sancha, unica reliquia d’uma das maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.

Lendo a historia, examinando a guerra um tanto justa que Affonso II moveu ao feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem o pae, no seu testamento, se houve d’um modo liberal de mais, vemos na resistencia de D. Sancha, não a ambição do poder, nem da fortuna, que sempre desprezou, mas, talvez, visionariamente, o amor á terra de quem ella se teria de apartar, uma vez expulsa do seu senhorio.

Estas guerras civis tomaram proporções que o rei, se unicamente fosse dominado pelo desejo da concentração do poder, poderia evitar. Excommungado pelo pontifice e perseguido pelo soberano de Leão, o monarcha portuguez encaminhou a contenda para uma via diplomatica. Enviado a Roma um embaixador, foi o pleito julgado por dois abbades de Cistér, que condemnaram D. Affonso a uma multa extraordinaria, para satisfazer as custas da peleja encetada por elle.

Não se conformando com a sorte, foram os castellos entregues aos templarios, como depositarios e administradores dos bens. O papa morreu; rixas intestinas entre o clero e a corôa portugueza interromperam a demanda, que ficou por decidir no reinado d’Affonso II, fallecido a 25 de março de 1223. Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado e valente, mas de todo infeliz. Este monarcha acabou o litigio com as irmãs de seu pae, não só por conveniencias, mas por decencia.

Era uma vergonha a desharmonia da familia real; e o chefe, reprovando no seu intimo a generosidade do avô, cedeu ás imposições do mundo... nem parecia da edade média.

Combinou-se que as donatarias prestassem homenagem ao soberano e contribuissem com gente para a hoste real, obrigando-se o rei a defender-lhes a propriedade.

Como dissemos, D. Sancha residiu algumas vezes em Alemquer, até que, movida do seu instincto religioso, professou no mosteiro de Cellas, onde falleceu em 13 de março de 1229. Jaz em Lorvão.

O senhorio da villa passou á irmã, D. Thereza, esposa do rei de Leão, D. Affonso IX, de quem se separou por motivos de parentesco. Recolhida a Portugal, fez-se monja em Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de junho de 1250.

No reinado de D. João V foram estas senhoras beatificadas pelo Papa Clemente XI; os seus corpos trasladaram-se, com pompa digna do Salomão portuguez, para o altar mór da egreja onde ambas jaziam.

Depois d’estas princezas, passou Alemquer para o dominio das rainhas. Só mais tarde D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, teve o senhorio da villa por successão a sua mãe, D. Filippa, até que D. Leonor d’Aragão, esposa de D. Duarte, tomou posse da terra que estava destinada para joia preciosa do diadema brilhante das Soberanas de Portugal.


D. Beatriz de Gusmão

Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 de março de 1223. Subira ao throno pela morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de março de 1211), de quem foi herdeiro, conforme o direito de primogenitura.

Ainda infante, casou com D. Urraca, filha de Affonso VIII, de Castella, e de D. Leonor, filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.[9]

D’este consorcio nasceram quatro filhos: Sancho, que herdou a corôa e foi o segundo no nome; Affonso, que casou em França com Mathilde, Condessa de Bolonha; Leonor, esposa de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. Fernando, o infante de Serpa, desposado de D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór de Castella.

O Conde de Bolonha foi o primeiro principe que deu exemplo de perfidia na corôa portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo alma dos magnates que depozeram D. Sancho (1245), por não lhe servir as ambições, negando a politica do avô, investira o poder depois de exilado o irmão, conquistador valeroso, a quem a patria, mesmo depois de seiscentos annos, só tem dispensado palavras vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra no pantheon dos monarchas![10]

Póde ser que nos ultimos tempos do seu governo D. Sancho cedesse á amante a vontade de rei; póde ser—e foi—que o soberano, inebriado pelos fascinadores olhares de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu povo; mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, praças que tomou ao islamismo, mereciam melhor recompensa que a proscripção e o exilio em Castella.

Que tempos os medievaes! No castello de Coimbra, depois do osculo de mais intenso amor; depois de mutuas juras de fidelidade, passadas as scenas que tornam celestial o remanso do lár, um vulto de guerreiro assoma á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla o marido, que dorme, e, tão bella como perfida, lança-se nos braços de Raymundo Viegas de Portocarrero, cavalga o fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo do cavalleiro, que a roubára pela politica do infante bolonhez, penetra os muros d’Ourem, onde esforços do apaixonado D. Sancho não conseguem escalar!

Abandonado pela mulher a quem confiára o seu coração, perseguido pelo clero que o intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice, refugiou-se em Toledo, onde falleceu aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida a sua morte, o conde de Bolonha tomou o titulo de rei. Este soberano para quem a historia só encontrou o cognome de bolonhez, apezar de ter conseguido a libertação do Algarve, foi tão perfido com a condessa Mathilde, como traidor ao irmão.

Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, contrahiu segundas nupcias com D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de Castella, e de D. Maria Guillen de Gusmão.

Embora fosse o primeiro coito damnado que se sentou no throno, D. Brites foi um anjo de paz como a sua successora, Santa Izabel. Ella serviu de medianeira quando a guerra rebentou entre Castella e Portugal, e mais tarde Affonso X, desthronado pelo herdeiro ambicioso, encontrou na filha um thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio da desgraça.

O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação d’Alemquer, em 1267.[11] A estima de Affonso III demonstra a importancia que a villa então possuia, pois é licito acreditar que a generosidade do rei condissesse com o amor consagrado á esposa. Dezesete annos estivera Alemquer annexa á corôa, encontrando na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, digna herdeira de D. Dulce e de suas filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a terra em si, embora as suas virtudes lhe servissem d’ornamento, materialmente nada lucraria, se a rainha só cuidasse de receber as rendas, deixando no olvido os beneficios com que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites alcançára do esposo (28 de junho de 1277)[12] o padroado das egrejas e capellas do seu senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, deu principio á construcção da egreja de S. Francisco, onde outr’ora foram os paços reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco martyres de Marrocos.

Acanhado e pequeno o primitivo templo, começou-se a obra da nova egreja, em 1280. Não a poude vêr concluida a rainha, que falleceu em 7 d’agosto de 1300, e a egreja só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, seu filho, el-rei D. Diniz, continuou, dignamente, o empenho da mãe, como o attesta a seguinte inscripção:

Esta igreja fundou
A muy nobre rai(nh)a Dona
Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso
seu filho nobre
Rey de Port(ugal) comprido de vertude
Do(m) Denis
[13]


Santa Izabel

Tres annos após o fallecimento de Affonso III (16 de fevereiro de 1279), seu filho, o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel de Aragão, filha de D. Pedro, o grande, e de D. Constança de Napoles. O consorcio realisou-se em 24 de julho de 1282, nascendo, passados oito annos, a infanta D. Constança, desposada de Fernando IV, rei de Castella, e logo depois (8 de fevereiro de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso IV, cuja ambição tanto alanceou a rainha sua mãe.

Exactamente como de D. Dulce, não existem documentos que provem o dominio d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a sua residencia aqui, os seus beneficios á terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos a contal-a entre as donatarias, enchendo-nos de orgulho por possuirmos uma senhora tão grande.

Perseguida e intrigada, como todas as almas virtuosas e nobres, soube impôr o seu vulto á calumnia, incutindo uma veneração no espirito do marido, que a perfidia não conseguiu debellar.

Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em Alemquer, onde esteve algum tempo.

Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora, e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria, onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes.

Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas, como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota, com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora.

Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos com Deus...

Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as rainhas de Portugal.[14]


D. Constança

Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, o cru.

Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; o santo, rei de Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão.

O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho, oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis.

Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D. Constança no paiz de seu marido.

Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15]

Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração. Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem, ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido, que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de poder, mais á vontade, chamar sua áquella que amava!...

Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor louco, immenso, incomparavel!

Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente este amoroso idyllio.

A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!

Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias, folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!

Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...

D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego, espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol, defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste, presenciar o espectaculo.

Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu ciume.


D. Leonor Telles

Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da devassidão.

Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel impudico só o representou como comedia.

Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro, respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso.

Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia.

Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.

D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella, guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II.

Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas, não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor adultero.

Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem.

Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era um costume.

Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de idyllios imaginarios.

D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor, e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.

Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre soberano!

Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração sente.—Receava magoar a honra d’aquella mulher. Poz de parte o receio; mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D. Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava, mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.

Lisboa alvoraçou-se com a nova.

Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro. A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato. Socegaram os animos.

Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua mulher.

Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco, e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus pertences.

Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.

Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados: D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião (coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!

O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.

O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios. Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou; assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.

O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de todos os nossos monarchas.

Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim! Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!

Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia da privança do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o valido. Consumado este acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!

D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro, quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia. No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido, embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.

Houveram então valentes combates!

Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo para a causa de Portugal.

Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao prolongado sitio, vendo se assim se rendia.

Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de 1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o Defensor do Reino a faltar aos compromissos tractados na capitulação.

Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.

Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de 1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.


SEGUNDA DYNASTIA

D. Filippa

Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor. No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos Lusiadas; que é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do propheta.

O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o advogado soubéra dominar a legislação.

Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica, symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze, como em vida lhes votou todo o seu amor!

Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14 d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant, pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa, filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer, Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.

O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387), debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.

Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior; mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo, certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.

D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.

Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei de boa memoria, e de ter gerado em seu ventre

...........quem governasse,

Quem augmentasse a terra mais que d’antes,

Inclyta geração, altos Infantes.

(Lusiadas—canto IV, est. 50.)


D. Izabel de Lencastre
(Duqueza de Borgonha)

Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o martyr benjamim da familia.

Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice; D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D. Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas masmorras de Fez.

Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.

Os outros filhos d’el-rei, altos infantes que Camões cantou, foram modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]

Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados tambem pelas jaculatorias d’um povo.

Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido, dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a familia as lagrimas e os soluços.

Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D. Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á rainha a infanta sua filha.

D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.

N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.

Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.

Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa formalidade seria sagrada por todos os titulos.

Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.

No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas Sete Partidas quão fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de boa memoria, e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D. Maria, a sympathica filha do rei venturoso, e em Camões, a expressão mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, os primeiros padrões da vassallagem do oceano á gente ousada que lhe rasgava o corpo virginal.

Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha, Filippe, o bom, conde de Flandres.[18]

Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.

Bella aureola a da honra e a da gratidão!

D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro, de 1471.

Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.


D. Leonor d’Aragão

Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada casa das rainhas, verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre, mulher de D. João II.

Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como presagio do descanço eterno.

O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.

As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos; esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle, vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.

Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado por uma nuvem negra.

Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.

Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma caricia para lhe subjugar a vontade.

Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.

Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!

Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da dynastia d’Aviz.

A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram com todas as suas forças o objectivo da nova edade.

Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos amestrados já no valor da arte da guerra.

Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa companheira, teve a fraqueza de ceder.

Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao accrescimo do imperio.

D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de junho de 1443.

Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a expedição. Era o que lhe valia.

Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19] Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia do reino a sua mulher.

A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a guerra civil.

Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e de esposa.

Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, em logar de anjo de paz.

A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para fatalidade da Patria.

De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu apaixonado esposo.

Que a critica lhe seja leve.


D. Isabel de Lencastre
(MULHER DE D. AFFONSO V)

A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do desbragamento de Leonor Telles.

D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.

Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.

Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham destinado.

Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.

Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.

De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião, santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao filho a honra das donas e donzellas.

Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus corceis e batessem-se com elle...

Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o Avranches...

Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.

A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de tres damas que a elle deviam o sêr.[22]

Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que allumia um cadaver.

Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?

Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira acharam-se frente a frente.

Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais segura.

Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.

Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão, havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses D. Pedro.

Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.

De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.

D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse estas palavras: Fartar rapazes! vingar agora villanagem.

Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.

Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande Morto, que esteve tres dias insepulto.

Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.

Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.

O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D. Leonor e a sua avó D. Filippa.

Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.

N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não foram infundadas.

Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]

Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a morte de seu avô.

No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.

Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com um terrivel vingador.

Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.


D. Leonor de Lencastre

A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.

Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D. Henrique.

Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.

Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.

Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de desenganos e de crueis penas do triste passado.

Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em Cintra aos 28 de agosto de 1481.

Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos tempos da vida do pae governava de facto o reino.

N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto lavasse as mãos no sangue dos assassinos.

A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.

Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.

N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.

Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de Bragança.[25]

Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.