TRES CAPITAES
Impresso em machina Marinoni,
na Typ. Minerva de Gaspar Pinto de Sousa & Irmão
V.ª N.ª de Famalicão
José Augusto Corrêa
Tres Capitaes
FAMALICÃO
TYP. MINERVA DE GASPAR PINTO DE SOUSA & IRMÃO
20—Rua de Santo Antonio—24
1909
RAZÃO DE SER
É opportunissimo o momento de estudar e de tentar descrever as duas grandes capitaes da America do Sul, rivaes pela opulencia, vizinhança, estimulo e por consubstanciarem e traduzirem a riqueza, o porvir, a grandeza e a gloria de duas pujantissimas nacionalidades, destinadas aos mais brilhantes destinos.
Montevideu, capital de um pequeno Estado, comparado com o Brasil e a Republica Argentina, entre os quaes agita-se, febrilmente, servindo-lhes de constante pomo de discordia, não obstante ser uma cidade importante e interessantissima, póde considerar-se um compasso de espera no parallelo entre o Rio de Janeiro e Buenos-Aires.
Das três capitaes trata este livro; porém o seu interesse maximo concentra-se na apreciação d’estas duas famigeradas metropoles que, encarniçadamente, disputam-se a primazia sul-americana.
O auctor percorreu-as pessoal e minuciosamente, detendo-se, com especialidade e interesse, nos pontos em que o seu orgulho e patriotismo de cidadão brasileiro, teve de ceder o logar á admiração pelos progressos affirmados, ha muitos annos, em varios aspectos da grandiosa capital argentina.
Do terreno sacrosanto e utilissimo da actividade e competencia nas diversas manifestações da civilização e do progresso dos povos e das nacionalidades, não deve admittir-se, hoje em dia, que ultrapasse a rivalidade entre os membros da grande familia humana, collectiva e individualmente considerados.
Toda a America é um grandioso laboratorio, onde o trabalho e o capital dão-se as mãos no desenvolvimento dos tres grandes factores da prosperidade das nações—a agricultura, o commercio e a industria.
Os Estados Unidos da America do Norte, porém, attingem, actualmente, o vertice da escala progressiva, tendo dado, ao mundo, o assombroso exemplo de quanto póde a energia de uma raça preponderante, auxiliada pela collaboração de todos os povos da Terra.
A America Central está dividida em pequenas Republicas que, a cada passo, guerreiam-se e esphacelam-se em mesquinhas lutas de interesses.
É na parte meridional d’aquelle immenso e uberrimo continente que, n’este instante da vida universal, produz-se, principalmente, a vitalidade da raça latina, quasi expurgada dos vicios hereditarios das suas antigas metropoles, pelos beneficios da immigração e pelas excellencias das instituições democraticas, fundidas no preciocissimo cadinho de uma natureza bella e fecunda.
Na America do Sul, todavia, nem todas as nações progridem á altura das suas instituições politicas e do sólo ubérrimo que as alimenta.
No Mar das Antilhas, a Venezuela, dá-nos o degradante espectaculo de uma democracia subjugada por um tyranno demente e senil.[1]
A Colombia, cujo territorio é banhado pelos dois maiores oceanos do nosso planeta, vegeta em condemnavel apathia.
Encravada entre ella e o Perú, a Republica do Equador mantem-se, equilibrada, no concerto sul-americano.
Das tres nacionalidades que degladiaram-se, ha annos, por questões de territorio, apenas o Chile conserva relativa importancia, devido á sua invejavel e especialissima situação geographica e topographica.
Quanto á Bolivia e ao Perú, tardiamente recuperarão as energias perdidas.
O Paraguay e a Republica Oriental do Uruguay, abafadas pela approximação de dois colossos, debatem-se entre as ambições e os interesses de ambos, influenciadas ora por uma ora por outra das parcialidades rivaes.
Só o Brasil e a Republica Argentina estão em plena e progressiva prosperidade, pleiteando-se, honrada e gloriosamente, no campo da actividade humana. Por vezes, essa effervescencia ameaça degenerar em conflicto armado, por causa de ambições desmedidas e, especialmente, de vinganças e de represalias entre personalidades rivaes e preponderantes em um e outro paiz.
Estanislau Zeballos, por exemplo, estadista e escriptor de merecimento, alto commissario e arbitro argentino no pleito das Missões, nunca poude perdoar ao Brasil, em geral, e particularmente ao Barão do Rio Branco, representante brasileiro n’esse litigio, a victoria d’este ultimo.
Esses dois eminentes cidadãos encontraram-se, ao mesmo tempo, á frente do ministerio das relações exteriores dos seus respectivos paizes. D’ahi más vontades, animosidades, ameaças de rompimento, mal estar geral, atmosphera pesada e quente.
O Barão do Rio Branco, á força de prudencia e de diplomacia, conseguiu conjurar a tormenta, vencendo, mais uma vez, o seu terrivel adversario.
Este não desanimou, porém, e saíndo do ministerio, foi para as columnas de «La Prensa», o mais importante jornal argentino, mover tremenda campanha contra o Brasil e o seu rival.
Crêmos, todavia, que como aquellas, falharão todas as tentativas que, n’uma e n’outra nacionalidade, sejam feitas para alterar a paz entre os dois povos. Estes são bem os successores e os continuadores de hespanhoes e portuguezes, para os quaes o pontifice Alexandre VI dividiu o mundo, em duas partes iguaes, e que gravaram, nas paginas da Historia, feitos de tanta e tão imperecivel gloria, que desafiam a acção deleteria do tempo, e fulgirão, deslumbrantemente, pelos seculos além, até ao ultimo alento vital da humanidade.
Brasileiros e argentinos continuarão, pacifica e activamente, a desenvolver as suas aptidões e os seus recursos naturaes, de cuja actual importancia póde avaliar-se pela descripção das suas soberbas capitaes.
O conhecimento e a comparação dos elementos progressivos de ambas, assim como as suas preciosidades e defeitos, poderão servir de orientação e de estimulo no aproveitamento de uns e na eliminação e substituição de outros.
Eis a razão de ser d’este livro, escripto com toda a imparcialidade e inspirado no interesse e no amôr a que tem direito a grande familia humana, e não sómente o povo entre o qual nascemos e as encostas e os valles que repercutiram os nossos primeiros vagidos e beberam as nossas e as lagrimas das nossas mães.
[1] No momento d’este livro entrar no prélo parece finda a dictadura do general Castro.
RIO DE JANEIRO
Domingo de Ramos
Ás 5 horas da manhã de 12 de Abril de 1908, o velho e rapido transatlantico Magellan, da Messageries Maritimes, passou por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, e deixando atrás de si a de Villegaignon, fundeou defronte das ilhas Fiscal e das Cobras, N’este momento já o astro-rei emergia do Oriente, a realçar e aureolar a maravilhosa e incomparavel belleza natural da bahia de Guanabara, e do immenso e formosissimo scenario que a abraça em deslumbramentos de apotheose.
A amplidão da bahia, semeada de muitas e grandes ilhas, circumdada de duas cidades e de ridentes povoações, a alvejarem por entre verdejantes e floridos maciços; as serras e montanhas, opulentamente vestidas, até aos vértices, e que encantadoramente fecham a orla do horizonte; todo esse empolgante conjuncto, que constitue o mais bello e arrebatador panorama do nosso globo, patenteava-se alli, á nossa vista deslumbrada.
Ao mesmo tempo, o nosso pensamento, enlevado nas sublimidades do supremo encanto e da belleza maxima, divinizava-se aos esplendores eternos.
Approximavam-se as visitas officiaes e, após ellas, immensos botes e pequenos vapores conduzindo parentes e pessôas amigas dos passageiros.
Em um d’elles lobrigamos gente querida, havia muito tempo ausente, e com ella desembarcamos, radiantes de contentamento e anciosos de revêr e percorrer de novo a terra idolatrada, hoje transformada e onde se passaram os melhores annos da nossa mocidade. Era ainda cêdo para almoço. Que fazer?
—Dar um passeio, de bonde, até á Gavea, alvitrou alguem.
Unanimamente approvada a ideia e ... a caminho.
Estavamos em Botafogo, o bairro da aristocracia, do luxo, da elegancia, da formosura e do supremo gosto.
O bonde electrico começou a deslisar e os nossos olhos não sabiam o que mais admirar, se os primôres irradiantes da paisagem, se as curiosidades que nos cercavam, quasi originaes para nós, empolgantes e interessantissimas.
O vehiculo parou defronte da matriz de S. João Baptista, e foi invadido por numeroso grupo de crianças e senhoras, que empunhavam floridos ramalhetes, de varios tamanhos, vélas de cêra enfeitadas a papeis de côres e cannas servindo de hastes a ramos de flôres.
—O que é isto? inquirimos.
—Domingo de Ramos, foi a resposta.
Continuamos a observar as devotas. Nada póde haver de mais bizarro e extravagante.
A variedade de colorido cançaria a paciencia ao mais habil classificador de nuances.
Desde o negro retinto e do preto suavisado pelo cruzamento do sangue, até ao vermelho aloirado das filhas de Albion e da Germania, tudo alli se via em mistura de encantos, a contrastar cora as côres berrantes dos vestuarios e com os deslumbramentos da paisagem, ridente de primôres e abrasada de sol.
A manhã brilhava na suavidade e frescura do arvoredo, no dorso azulado das montanhas, ao longe acariciadas e envoltas por nuvens que hauriam-lhes as humidas e fecundantes exuberancias.
E o electrico continuava sempre a correr entre a apotheose da natureza e os vividos quadros realçados pelas cariocas que empunhavam os ramos commemorativos da entrada triumphal de Christo na cidade deicida.
O bonde parára á porta de outra egreja. Era a matriz da Gavea. Grande e garrula renovação, de passageiras.
Como as primeiras, as nossas novas companheiras de passeio eram igual e altamente interessantes nas côres do rosto, do vestuario, dos floridos tropheus e, principalmente, n’essa linguagem cantante e dulcissima, que é um encanto para quem vae acostumado ao forte e classico portuguez de Portugal. O tempo aquecêra, porém. A atmosphera tornára-se pesada e humida. As devotas, acclimadas, dessoravam a essencia das suas côres naturaes, emquanto que o nosso possante e adiposo tecido desfazia-se em liquidas camarinhas e ardentes exhalações.
Attingiramos o ponto extremo da linha dos electricos da Botanical Garden, depois de, por largo espaço, havermos seguido parallelamente a essa maravilha das curiosidades fluminenses que se chama Jardim Botanico.
Restava-nos retroceder.
As nossas garridas companheiras tinham ficado pelo caminho e desapparecido por entre frondosos e bellos jardins, que abraçavam lindissimas chacaras. Outras passageiras as substituiram; porém o interesse de observal-as tinha, pouco a pouco, cedido o logar a um appetite devorador e á morbida prostração causada pelo vazio do estomago e pela ardencia rigorosa e dissolvente da canicula.
Em todo o caso, a primeira impressão fôra de ineffavel agrado e de saudosissimas recordações. Elle ahi estava, bem patente ao nosso olhar investigador, esse Rio de Janeiro exuberante de seducções e de primôres, em profundo renovamento esthetico, mas sempre soberbo e magnificente nos inesgotaveis thesouros da sua pujantissima natureza, que eternamente o sublimarão á hierarchia da mais bella cidade da Terra.
E como dirigissemos um ultimo olhar de despedida e de admiração á paisagem circundante, vimos o dorso imponente e alteroso do Corcovado, ligeiramente occulto pelas proprias emanações, liquidificadas em diaphana e alvissima nuvem. O Chapéu de Sol, a refulgente auréola do seu vértice, velado pelas opulencias do ether, trocava segredos com os mysterios do infinito, talvez haurindo dos arcânos da immensidade nova e deslumbrante apotheose, com que divinizar o já inextinguivel diadema de soes, que realça os naturaes esplendores da capital brasileira aos deslumbramentos divinos.
Situação e Aspecto Geral
Entre 22°43´ e 23°6´ de latitude Sul, 4° de longitude Este, e 35° long. Oeste, abre-se a entrada da bahia e do porto do Rio de Janeiro, apenas com 1:500 metros de largura, mas que, no interior, attinge a amplidão de 28 kilometros por 30 kilometros de comprimento.
Os transatlanticos passam por entre as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, deixando, á esquerda, a gigantesca mole do Pão de Assucar e a fortaleza de S. João.
N’esse momento enfrentam a fortaleza de Villegaignon, já em plena bahia, deixam-n’a á rectaguarda e vão fundear no quadro dos navios mercantes, além das ilhas Fiscal e das Cobras.
D’ahi, do centro do mais vasto e bello porto de mar do mundo, a vista abrange um dos mais empolgantes e arrebatadores panoramas do nosso planeta. A magestosa bahia, semeada de oitenta ilhas e ilhotas, é ladeada pelas cidades de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro, na margem oriental, e do Rio de Janeiro, capital da Republica dos Estados Unidos do Brasil, do lado occidental. O horizonte do observador é limitado por serras e cordilheiras, das quaes a mais importante é a dos Orgãos, ao Norte. Ao contemplal-a, da entrada do porto, nota-se a figura de um gigante, deitada sobre o dorso.
A immensa bahia de Guanabara, capaz de abrigar todas as esquadras bellicas e mercantes do nosso globo, forma ainda duas enseadas, a de Botafogo e a de Jurujuba.
O aspecto geral da capital da Republica, visto do porto é, ao mesmo tempo, formoso e imponente, se bem que, em grande parte, prejudicado pela sua configuração topographica e, especialmente, pelos morros que pejam e encobrem a cidade, ao centro, nas extremidades e em toda a sua circumferencia.
Os primeiros são os do Castello, de Santo Antonio, de Santa Thereza, da Gloria e de S. Bento e os outros os da Conceição, Saude, Livramento, Providencia, Mundo Novo, Santos Rodrigues, Urca, Babylonia, Pinto, Paula Mattos, Pasmado, Viuva, Corcovado e Pão de Assucar.
A cidade occupa uma superficie de cêrca de dois mil kilometros quadrados, tendo 14 kilometros de extensão, de Norte a Sul, e 16 ditos, de Leste a Oeste. É limitada ao Norte e a Oeste pelos riachos Guandú, Merity e Guandú-Mirim, e ao Sul e Leste pelo Oceano Atlantico.
As condições climatericas da capital do Brasil estão hoje muito melhoradas com as importantissimas e grandiosas obras de saneamento e aformoseamento, effectuadas nos ultimos annos, e ainda por outras em execução. Emquanto, porém, o governo e a municipalidade não se resolverem a arrasar, entre outros, os morros do Castello e de Santo Antonio, dando mais ar, mais luz e mais ampla vista á cidade, as manifestações endemicas não deixarão de produzir-se, periodicamente, e com maior ou menor intensidade.
A temperatura média é de 24.°, subindo além de 30.° nos mezes de Dezembro a Abril, e descendo a 20.°, de Junho a Setembro.
A atmosphera é, quasi sempre, humida, o que explica-se pela abundancia de vegetação, que envolve o Rio de Janeiro em um perenne amplexo de frescura e de belleza.
A brisa terrestre, de manhã e á noite, e a que sopra do mar, desde as 11 horas da manhã ao crepusculo, são o providencial lenitivo dos fluminenses, na maior parte do anno.
Para abranger-se e gosar-se a mais ampla e a melhor vista geral do Rio de Janeiro, é preciso ascender ao Chapéu de Sol, vértice do morro do Corcovado. Para vistas parciaes, ou geraes, menos extensas do que aquella, prestam-se, entre outros pontos, o Observatorio Astronomico, no morro do Castello, a ponta do Curvello, em Santa Thereza, o Somaré, n’esta montanha, e o zimborio da Candelaria.
O aspecto geral da povoação é interessante e variadissimo.
O desembarque, no caes Pharoux, praça Quinze de Novembro, proporciona a vista dos dois passeios ajardinados, que formam esta praça, do palacio do Ministerio da Agricultura, do ex-palacio imperial, hoje repartição central dos Correios e Telegraphos, da estatua do general Osorio, ao centro; do Chafariz Colonial, da Cathedral e do templo do Carmo.
Seguindo-se a rua Primeiro de Março, ou boulevard Carceler, ampla e bella arteria que se prolonga ao morro de S. Bento, entra-se em plena cidade commercial. Ahi ostentam-se os grandiosos edificios da Bolsa, da egreja da Cruz dos Militares, do Correio Geral, do Supremo Tribunal Federal e do Arsenal de Marinha. D’ella partem e ahi bifurcam-se as estreitas e animadas ruas do Ouvidor, que terá menção especial, do Rosario, Hospicio, Alfandega, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni e Visconde de Inhaúma. Tomando-se pela primeira das ruas citadas, e depois de deixar-se, de um e outro lado, as ruas Julio Cesar, Quitanda e travessa do Ouvidor, entra-se na magestosa Avenida Central, que será descripta em capitulo separado. Atravessando-a, continuaremos, ainda pela rua do Ouvidor, que é cortada n’esse trajecto pelas ruas Gonçalves Dias e Uruguayana, até ao Largo de S. Francisco de Paula, centro civico de grande movimento, ponto central dos bondes das Companhias de S. Christovão e Carris Urbanos, as unicas empresas de viação carioca, ou fluminense, que ainda adoptam a tracção animal.
N’este largo admira-se a elegante frontaria do templo de S. Francisco de Paula, a estatua de José Bonifacio e o edificio da Escola Polytechnica.
A antiga rua do Theatro, communica a praça anterior com a da Constituição, em cujo centro eleva-se a estatua equestre, em bronze, de D. Pedro I, do Brasil. O theatro de S. Pedro de Alcantara, ostenta ahi a sua pesada architectura. Pela ampla rua da Constituição attinge-se a praça da Republica, uma das mais vastas do mundo, com um magnifico parque, circumdado, entre outros, pelos edificios da Municipalidade, Escola Normal, Quartel General do Exercito, Estação Central da E. F. D. Pedro II, Casa da Moeda, Senado e Archivo Nacional.
As ruas do Senador Eusebio e do Visconde de Inhaúma, principalmente, communicam a praça da Republica com a praça Onze de Junho e a Avenida do Canal do Mangue, que termina na avenida marginal do novo porto, actualmente em construcção.
N’este longo trajecto percorrido pelos bairros mais centraes e interessantes do Rio de Janeiro, a parte mais animada é a comprehendida entre as praças Quinze de Novembro e da Republica. É n’esse espaço, com as suas proximas dependencias, que concentra-se e desenvolve-se a vida commercial e civica da colossal metropole brasileira.
Outra corrida de orientação, para o observador intelligente, é a que partindo do ponto central dos bondes electricos da Botanical Garden, na Avenida Central, dirige-se ao extremo norte da grandiosa arteria e deixando, á esquerda, o elegante pavilhão de Monroe e o bellissimo Passeio Publico, junto a este entra na grandiosa e bella Avenida á Beira-Mar. Seguindo-a, o passeiante gosa dois panoramas rivaes em interesse e formosura, o da terra e o da bahia.
O primeiro proporciona-lhe os encantos irradiantes dos artisticos monumentos do Centenario, da fonte Ramos Pinto, da estatua do Visconde do Rio Branco; o pittoresco dos morros cobertos de casaria, que fecham o horizonte; em frente o legendario outeiro da Gloria, encimado pelo seu celebérrimo santuario e, ao fundo, o famigerado Pão de Assucar, em cuja cúspide será um dia erecta a gigantesca e symbolica estatua da Patria Brasileira que, empunhando o facho deslumbrante da Liberdade e da Gloria, illuminará a immensidade oceanica, a superficie terraquea e os mundos do firmamento com os esplendôres da pujante nacionalidade sul-americana.
Deixando, sempre á direita, o Palacio da Presidencia da Republica, a praça do Duque de Caxias, com o bello monumento d’este general, a estatua de José de Alencar e outros monumentos e numerosos bairros, arruados e edificios artisticos e interessantissimos, o forasteiro dará entrada no amplissimo e magestoso Botafogo, precioso escrinio da elegancia, da belleza e do luxo da capital fluminense.
Ahi a perspectiva é differente da anterior, mas igualmente empolgante e fascinadora.
Do lado esquerdo está a pequena e lindissima enseada de Botafogo que, nascendo da pujante Guanabara, por entre os morros da Viuva e da Urca, vem espraiar-se junto ao paredão da Avenida á Beira-Mar, que continuaremos a percorrer, deslumbrados pelo panorama geral, até que ella termine nos contrafortes da montanha Babylonia, magnifico scenario do ultimo certamen nacional.
Dos jardins e avenidas que decoram a esplanada da enseada de Botafogo, partem muitas e formosas ruas, algumas extraordinariamente extensas, como a dos Voluntarios da Patria, e todas ladeadas de lindas chacaras, no meio de floridos jardins e de bosquetes encantadores.
É aos portões d’esses minusculos paraisos que, passada a hora da ardencia solar, grupos de formosas e gentis senhoras concorrem a realçar a imponencia arrebatadora do quadro, aureoladas pelos deslumbramentos do crepusculo.
O aspecto geral do Rio de Janeiro de hoje, é o de uma grande cidade em completa e radical transformação para melhor.
Já muito pouco resta da velha metropole colonial, irregularmente edificada, ao acaso e ao capricho dos influentes locaes.
A independencia nacional e, nos ultimos vinte annos, a mudança de regimen politico, deram causa ao despertar de energias civicas que, em breve prazo, farão do Rio de Janeiro, não só a primeira cidade da America do Sul, mas tambem a rival gloriosa das mais celebres capitaes do nosso orbe.
Se, interiormente, a metropole fluminense é o que, rapidamente, vimos apreciando e vamos conhecer em detalhe, os seus arrabaldes e suburbios encerram e irradiam tanta pujança, belleza e encantos taes e tão maravilhosos, que a penna, por impotente, não póde traduzir nem pallidamente descrever.
Sob este ponto de vista, a capital do Brasil não conhece nem admitte rivaes.
O ineffavel amplexo da natureza que, perennemente, a envolve em deslumbramentos de apotheose, attestará ás gerações vindouras que é aqui o paraiso terreal e a metropole universal, por excellencia, onde, em porvir pouco distante, os povos da Terra celebrarão, com a gloria da nacionalidade brasileira, a civilização, o progresso e a grandeza da humanidade.
Historia
Os historiadores não são concordes sobre a data precisa em que a bahia do Rio de Janeiro foi entrada pelo primeiro europeu.
Emquanto uns fixam o anno de 1501 como o da descoberta da magnifica perola fluminense, outros affirmam que só no anno seguinte as aguas da poetica Guanabara foram sulcadas por embarcações portuguezas.
Parece mais acceitavel a versão de que o dia 1 de Janeiro de 1502 auxiliou o almirante lusitano Gonçalo Coelho a lançar as ancoras dos seus tres navios nas profundidades guanabarinas.
O navegador dirigia-se da Bahia de Todos os Santos a explorar a costa meridional da Terra de Santa Cruz. O facto do almirante não dar o nome de um santo ou santa á nova descoberta, como fizera a outros pontos da costa, anteriormente visitados, explica-se, talvez, pela supposição de que a bahia, que occupava, fôsse a foz de um rio, devido á sua configuração e amplitude.
D’ahi o nome de Rio de Janeiro, com que Gonçalo Coelho a baptisou e que ninguem, depois d’elle, se atreveu a mudar.
Tanto no littoral como nas principaes ilhas que enfeitam a bahia, o almirante portuguez encontrou estabelecidos os tamoyos, indios da raça tupy, cujas tabas, ou aldeias, estendiam-se em maior e mais densa quantidade, de Uruçumirim, hoje praia do Flamengo, até Paranapuan, ou seja a actual ilha do Governador.
Gonçalo Coelho continuou a navegar no rumo do Sul, e só 17 annos depois da sua descoberta, a bahia de Guanabara foi entrada por outra expedição europeia, commandada ainda por um portuguez, Fernão de Magalhães, mas ao serviço da Hespanha. D. Manoel, que ao tempo reinava em Portugal, tinha muito que fazer na Europa e para os lados do Oriente, não lhe sobrando o tempo para occupar-se de novas e longinquas descobertas.
Só no reinado de D. João III, seu filho e successor, entrou no Rio de Janeiro a primeira expedição militar portugueza, porque ao rei constára que, desde 1528, os francezes occupavam a bahia e as margens circumvisinhas.
Christovão Jaques commandava a esquadrilha lusitana, de reconhecimento, a que seguiu-se o grosso da expedição, sob as ordens de Martim Affonso de Souza, em 1531. Este desembarcou na pequena praia, fóra da barra, que se estende do morro da Babylonia ao da Urca, e que ainda hoje é conhecida pelo nome de porto de Martim Affonso.
Expulsos os intrusos, o commissario de D. João III, voltou, com as suas caravellas, para a Bahia de Todos os Santos, ficando novamente Rio de Janeiro desguarnecido.
Foi preciso que, vinte e quatro annos depois, em 1555, os francezes voltassem á carga, sob o commando do almirante Nicolas Durand de Villegaignon, para que o rei de Portugal, passados cinco annos, ordenasse a Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil, que expellisse os invasores.
Villegaignon, que sonhára fundar a França Antartica em terras de Santa Cruz, desembarcou á entrada da barra, na ilha da Lage, hoje fortificada, passando a occupar e a guarnecer a ilha de Serygipe, que, desde então, é conhecida pelo nome do almirante bretão, não obstante elle havêl-a baptisado Fort Coligny.
Quando, em 1560, Mem de Sá entrou, com onze navios, o porto do Rio de Janeiro, encontrou os francezes na melhor harmonia com os tamoyos, e reforçados por uma esquadrilha, ao mando de Bois Le Comte. Batidos, os invasores fugiram nos destroços dos seus navios, porém voltaram quatro annos, mais tarde, e estabeleceram-se na actual ilha do Governador, então Moracaia, ou Paranapuan.
D’esta vez foi um sobrinho de Mem de Sá, Estacio de Sá, que partiu directamente de Portugal ao Rio de Janeiro, a fazer frente aos obstinados usurpadores.
Foi em Abril de 1565 que a nova expedição deu entrada na bahia de Guanabara, e depois de reconhecer as fortes posições dos francezes, desembarcou no porto de Martim Affonso. Ahi, entre os morros da Urca e de Babylonia, o oceano Atlantico e a enseada de Botafogo, fundou Estacio de Sá uma povoação, Villa de S. Sebastião, Durante dois annos conservou-se o commandante portuguez n’esta posição, em continuas escaramuças com os francezes e os tamoyos, seus alliados, até que em 18 de Janeiro de 1567, appareceu Mem de Sá com cinco galeões e seis caravellas, bem guarnecidas, em auxilio do sobrinho. Logo tres dias depois, em 20 de Janeiro, os indios e os francezes fôram atacados e destroçados por mar e por terra. Em pleno combate, Estacio de Sá, teve o rosto varado por uma flexa, morrendo trinta dias depois e sendo sepultado na ermida de S. Sebastião.
Para celebrar a victoria, Mem de Sá, elevou a nascente povoação á cathegoria de cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, resolvendo transferil-a para o actual morro do Castello, sitio mais central e menos accessivel aos ataques dos inimigos.
Realisado este intento, e depois de cercar a nova cidade de muralhas e de fazer erigir no cume da montanha uma capella sob a invocação do orago da localidade, o governador geral regressou á Bahia, entregando o governo do Rio de Janeiro, a outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá. Este, alguns annos depois, fez trasladar a ossada do primo, da velha ermida, junto do Pão de Assucar, para a capella-mór do novo santuario. Cobre o tumulo uma lapide, com os seguintes dizeres:
«Aqui jaz Estacio de Sá Capitão e conquistador d’esta terra e Cidade. E a campa mandou fazer Salvador Corrêa de Sá, seu primo, segundo capitão e Governador, com suas armas. E esta capella acabou no anno de 1583».
A inscripção esquece-se de mencionar o principal titulo e a gloria immortal da pessôa a quem se refere—a de fundador do Rio de Janeiro. Da sua leitura conclúe-se que Estacio de Sá conquistou a cidade, o que não é verdade.
Salvador Corrêa de Sá, que governou durante trinta annos e morreu na idade de 113 annos, teve a habilidade de transformar os tamoyos em amigos dos portuguezes, e a tal ponto que o chefe indigena Ararygboia, foi o seu principal auxiliar nas luctas que teve de sustentar com os francezes, que não podiam conformar-se com a ideia de dar de mão á sua sonhada colonia Anctartica.
Taes foram os progressos da nova cidade, e tambem das suas immediações que, em 1608, o governo de Lisbôa elevou-a á cathegoria de governo geral, comprehendendo as capitanias de S. Paulo, do Espirito Santo e do Rio de Janeiro.
Depois da audaciosa tentativa de Villegaignon, o mais sério ataque dos francezes contra a preciosa perola de Portugal, realisou-se em 1710, sob o commando de Duclerc. Tendo desembarcado, em 11 de Setembro d’esse anno, na praia de Guaratiba, o inimigo conseguiu penetrar até ao centro da cidade, onde foi batido pela pequena guarnição militar, poderosamente auxiliada pelo povo e, especialmente, pelos estudantes. Dos 1:100 invasores, 400 pagaram, com a vida, as velleidades de conquista, entregando-se os restantes á benevolencia dos vencedores.
Quanto a Duclerc, foi assassinado por um desconhecido, seis mezes após estes acontecimentos.
O celebre Duguay-Trouin foi encarregado de vingar a derrota do collega, o que conseguiu, ganhando um combate naval, nas aguas guanabarinas, contra a armada lusitana e obrigando os habitantes da cidade a pagar-lhe um tributo de 610:000 cruzados, cem caixas de assucar e 200 bois.
Quando, em 1733, o conde de Bobadella, general Gomes Freire de Andrade, foi nomeado governador do Rio de Janeiro, esta cidade entrou em activa phase de prosperidades, sendo, em 1762, elevada a capital do Brasil, e recebendo o conde de Bobadella o titulo de vice-rei. No seu governo foi importada, de Cayenna, a planta do café e construido, entre outros melhoramentos, o famoso aqueducto da Carioca.
Desde 1763, anno em que falleceu Gomes Freire de Andrade, até 1808, data da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, governaram o Brasil, o conde da Cunha, o conde de Azambuja e o marquez de Lavradio.
Com a presença e demora da côrte portugueza, pelo espaço de treze annos, desenvolveu-se extraordinariamente a capital brasileira.
O fugitivo monarcha começou por franquear os portos do Brasil ao commercio de todo o mundo, em 1 de Junho de 1808, memoravel data, cujo centenario foi, no anno passado, celebrado pela Exposição Nacional. D. João VI fundou, no Rio de Janeiro, a Côrte de Justiça, a Academia de Marinha, o Supremo Conselho Militar, a Fabrica de Polvora, o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, o Tribunal do Commercio, os Archivos Militares, a Imprensa Real, o Jardim Botanico, a Bibliotheca Nacional, etc. Em 10 de Setembro de 1808, publicava-se a «Gazeta do Rio de Janeiro», primeiro jornal fluminense, impresso em uma typographia da rua dos Barbonos. Foi de 1:200 contos de réis o primeiro capital do Banco do Brasil, inaugurado em 12 de Outubro de 1808, data inolvidavel na prosperidade e grandeza da nação brasileira.
O rei tabaqueiro, na phrase dos seus detractores, que na metropole fizéra má politica e pessima administração, acabando por abandonar a patria ao jugo dos invasores, com a mudança de hemispherio, mudou de temperamento e quiçá de ideias politicas e administrativas, a tal ponto, que a sua viagem forçada á grande colonia sul-americana, assignalou um periodo de assombroso desenvolvimento para o Brasil.
O rei cercou-se de gente de grande valor e de prestigio, tal como Lebreton, membro do Instituto de França, os irmãos Taunay, João Baptista Delbret, Zeferino Ferrez, sabios e artistas do pincel e do escopro e, acima de todos, Grandjean de Montigny, que nos legou a admiravel concepção architectonica da Academia das Bellas Artes, álem de outros trabalhos de que teremos conhecimento.
Em 26 de Abril de 1821, D. João VI regressou a Lisbôa, deixando na regencia do Brasil, o principe D. Pedro, seu filho. Logo no anno seguinte, em 7 de Setembro, andando o regente a viajar por S. Paulo, taes noticias recebeu da côrte de Portugal, inadmissiveis pelas suas exigencias, que alli mesmo, nas margens do Ipyranga, proclamou a independencia do Brasil.
A 30 d’esse mez, apresentou-se o principe no Rio de Janeiro, em um camarote do theatro S. Pedro d’Alcantara, ostentando a legenda—Independencia ou Morte.
Este acto é especialmente notavel por antecipar acontecimentos que forçosamente teriam de realisar-se em breve futuro, devido ao gráu de prosperidade da mais preciosa joia de Portugal e ás absurdas medidas adoptadas pelas côrtes portuguezas, no intuito de contrariar os desejos de independencia, que já começavam a manifestar-se no Brasil. Foi a antiga colonia transformada em imperio e o seu regente em imperador. Este facto teve logar no Rio de Janeiro, em 12 de Outubro de 1822.
Em 7 de Abril de 1831, D. Pedro I foi obrigado a abdicar a corôa em seu filho D. Pedro d’Alcantara, criança de 5 annos, e a retirar-se para a Europa. As principaes causas d’esta resolução foram os actos absolutistas do novo imperador, entre os quaes avultaram a dissolução da Assembleia Constituinte e um vergonhoso tratado celebrado com Portugal. Á abdicação precederam as noites das garrafadas, ou de motins populares, sangrentos para a população do Rio de Janeiro.
Durante o reinado de D. Pedro II, e álem do facto capital da guerra do Paraguay, muitos acontecimentos politicos se deram na capital do imperio, que seria longo e fastidioso enumerar, e augmentariam demasiadamente este capitulo.
Não podemos, todavia, deixar de mencionar o 13 de Maio de 1888 e o 15 de Novembro de 1889, datas, respectivamente, da abolição da escravidão em todo o territorio nacional e da proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil.
O aureo e glorioso decreto de 13 de Maio, foi assignado por D. Izabel, regente do imperio, ex-princeza imperial e ainda hoje condessa d’Eu, na ausencia de seu pae, o imperador D. Pedro II, que viajava pela Europa. Não obstante os protestos dos conservadores, interessados e tradicionalistas, tal acontecimento foi motivo de grande regosijo para a população fluminense, e teve por immediata consequencia a mudança de instituições politicas, em 15 de novembro do anno seguinte, pelo exercito e pela armada, com o tacito consentimento do povo brasileiro, em geral, e muito especialmente dos habitantes do Rio de Janeiro.
Na presidencia do marechal Floriano José Vieira Peixoto, 2.º presidente da Republica e successor do marechal Manoel Deodoro da Fonseca, teve logar, na bahia de Guanabara, de 1892 a 1894, a revolta da armada, sob o commando do contra-almirante Custodio José de Mello. No espaço de muitos mezes, a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e muito damnificada, se bem que com a hostilidade da esquadra mais soffresse a sua visinha fronteira, a cidade de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro.
No Arsenal de Marinha, um soldado de infantaria tentou assassinar o dr. Prudente José de Moraes Barros, presidente da Republica, de 1894 a 1898, conseguindo trespassar, com a bayoneta, o marechal Machado Bettencourt, ministro da guerra, que se interpuzéra. Desde então, a paz não tem sido perturbada, na capital da Republica, que Municipio Neutro, por decreto de 1884, e Districto Federal, pela Constituição de 24 de Fevereiro de 1891, conta hoje uma população superior a 900 mil habitantes e, concluidos os melhoramentos que a transformam, por completo, será, indiscutivelmente, a primeira cidade da America do Sul e uma das mais bellas e importantes metropoles do mundo.
Phases Fluminenses
Nos dois primeiros seculos de existencia civica, Rio de Janeiro progrediu morosamente, por duas causas principaes—o abandono da metropole e as constantes hostilidades dos francezes e dos indios. Em 1618, isto é, 43 annos depois da sua fundação, a cidade apenas contava uns 3:500 habitantes, incluindo a guarnição militar.
Dois seculos mais tarde, quando D. João VI desembarcou na capital do Brasil, apenas havia, mal edificadas, 46 ruas, 19 praças, campos e largos e 4 travessas. Foi n’essa epocha que teve inicio o grande desenvolvimento da cidade. Em cincoenta annos de progresso, o seu activo era de 284 ruas, 47 praças, 42 travessas, 27 morros e 30 praias habitadas, nas proximidades.
A povoação, já immensa, galgava e contornava as collinas que a pejam e circumdam, estendendo-se pelo Engenho de Dentro, Laranjeiras, Andarahy Grande, Gavea, Tijuca, Villa Izabel e outros pontos.
A segunda fortaleza construida para defeza da cidade occupava o logar da actual egreja da Cruz dos Militares, que era então beira-mar.
As egrejas de S. Domingos e da Lampadosa foram construidas, no seculo XVIII, fóra da cidade que, em 1700, apenas attingia o ponto por onde hoje passa a rua de Uruguayana.
Em 1572 foi uma temeridade edificar-se, no sertão, o templo de S. Francisco Xavier. O primitivo santuario da Candelaria, foi construido em 1604, e as egrejas de Santa Luzia e de N. S. da Conceição, em 1592 e 1600, respectivamente.
A actual egreja de S. Sebastião do Castello é a terceira erguida no mesmo local, desde a trasladação da cidade, não obstante a data que encima o portico ser a da fundação do primeiro santuario, inscripção conservada no mesmo logar, assim como, na capella-mór, tem sido respeitado o tumulo de Estacio de Sá, o primeiro dos fluminenses.
O primeiro corpo administrativo e municipal que teve o Rio de Janeiro, com o nome de Senado da Camara, era constituido por tres vereadores, um procurador, um escrivão, dois almotacés e o Juiz de Fóra, que presidia.
No anno da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, este senado estabeleceu, por meio de marcos de pedra, os limites da cidade junto aos rios das Laranjeiras e Comprido, por um lado, e por outro junto ao mar, em toda a circumferencia.
Foi tal o desenvolvimento commercial e civico da capital, no primeiro quartel do seculo XIX, e eram tão estreitas, tortuosas e deficientes as arterias publicas existentes n’essa epocha que, em 1838, a Camara publicou uma postura ordenando que todas as vias publicas da cidade, e seu termo, tivessem, pelo menos, sessenta palmos de largura. Em 1893, a Prefeitura decretou que essa amplitude fôsse, no minimo, de 17 metros.
O primeiro nivelamento das ruas, calçamento e illuminação, foi começado em 1854, e dois annos depois a municipalidade prohibiu as aguas furtadas e mandou que todos os projectos de construcção fôssem submettidos ao seu exame e approvação.
Deve-se, porém, á Republica, em geral e, especialmente, a tres eminentes patriotas—o dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica; dr. Lauro Müller, ministro da Viação e Obras Publicas e dr. Francisco Pereira Passos, Prefeito Municipal, a transformação do Rio de Janeiro colonial, com todos os defeitos das povoações da metropole, aggravados pelos caprichos dos mandões locaes, em uma grande cidade, moderna, rival das mais bellas capitaes do nosso planeta.
Pertence á iniciativa e execução do Governo, principalmente, a construcção do porto, com cáes acostaveis, na extensão de 3:500 metros; a magestosa e formosissima Avenida Central, de mar a mar, rasgando 16 das velhas e movimentadas ruas da cidade, e as obras especiaes de saneamento da capital, que déram em resultado a extincção da febre amarella e de outras molestias endemicas e epidemicas, de ha muito acclimadas no sólo fluminense.
A Prefeitura, ou Municipalidade, no espaço de 4 annos, de 1903 a 1906, executou e iniciou os seguintes melhoramentos:
—Avenida á Beira-Mar, do Passeio Publico á Praia Vermelha, no comprimento de 5:200 metros e com a largura de 33 metros.
—Avenida Mem de Sá, na extensão de 1:540 metros, desde o largo da Lapa até á rua Frei Caneca, atravessando as ruas dos Arcos, Lavradio, Riachuelo, Rezende e Invalidos.
—Avenida Salvador de Sá, ligando a rua Estacio de Sá, com a rua Frei Caneca.
—Alargamento, para 17 metros, d’esta rua e das do Visconde do Rio Branco, Carioca e Assembléa.
—Prolongamento e alargamento da antiga rua de S. Joaquim, hoje Marechal Floriano, até ao largo de Santa Rita.
—Prolongamento da rua Visconde de Inhaúma até ao mar, na extensão total de 1:500 metros e largura de 23.
—Prolongamento da rua do Sacramento até á rua do Marechal Floriano, com a largura de 15,ᵐ60.
—Alargamento da rua Camerino.
—Prolongamento e alargamento da rua da Prainha, hoje do Acre, até ás ruas Marechal Floriano e Uruguayana.
—Transformação d’esta rua, com a largura de 17 metros, arborisação e edificação de grandiosos predios.
—Alargamento e transformação da rua Treze de Maio.
—Ajardinamento do largo da Gloria, da esplanada de Botafogo, do Alto da Boa Vista, na Tijuca, e da praça Quinze de Novembro.
—Ampliação e embellezamento do Cáes Pharoux.
—Prolongamento da travessa de S. Francisco ao largo da Carioca.
—Transformação da praça Marechal Deodoro.
—Ampliação do palacio da Prefeitura.
—Construcção da estrada das Furnas, na Tijuca.
—Canalização do Rio Carioca.
—Construcção do Theatro Municipal.
—Construcção do Mercado Central e de mais tres mercados regionaes.
—Decretação do alargamento e recúo de oitenta ruas.
—Aperfeiçoamento do calçamento de numerosas ruas e augmento da sua illuminação.
—Transformação do quadrilatero da praça da Republica, defronte do Quartel General do Exercito.
Para tão pequeno espaço de tempo é assombroso o trabalho realisado pela municipalidade do Rio de Janeiro.
O governo geral está procedendo á construcção de uma gigantesca avenida, que começando junto da Avenida Central, passe defronte do novo porto e vá terminar na praia de S. Christovão, communicando assim esta com a bellissima praia de Botafogo, na extensão de 10:500 metros. Será, incontestavelmente, a primeira arteria do mundo, em dimensões, porque em belleza, supplantal-a-ha a Avenida Oceanica que, partindo da Avenida Beira-Mar, na Praia Vermelha, contornará, exteriormente, o Pão de Assucar e, pelas praias da Copacabana, do Leme e de Ipanema irá terminar no extremo-sul da praia da Gavea.
E de tudo isso que ahi fica exposto, o que ainda não está prompto ou iniciado, será concluido no espaço de poucos annos, porque o Brasil, em geral, e muito especialmente a sua esplendorosa capital, entraram, decididamente, pela descentralisação administrativa e sob a egide de instituições democraticas, na rapida e brilhantissima senda dos seus gloriosos destinos.
Monumentos
Candelaria
Ha duas versões sobre a fundação d’este santuario.
Segundo a maioria dos auctores, Antonio Martins da Palma, hespanhol, da ilha de Palma, e com mandante de um navio de trafego, vendo-se naufragado, prometteu á Virgem da Candelaria, muito venerada na sua ilha, erigir-lhe uma capella no primeiro terreno que pisásse, vindo aportar ao Rio de Janeiro e desembarcando no local do actual templo, acompanhado de sua mulher, Leonor Gonçalves.
Outros escriptores affirmam que á primitiva ermida foi dado o nome de uma velha náu, chamada N. S. da Candelaria, encalhada n’aquelle local, e que foi com o madeiramento d’essa embarcação que se edificou o primeiro santuario, em 1604.
As obras do actual monumento foram começadas em 1776, e cento e vinte e dois annos se passaram antes da sua conclusão.
Francisco João Roscio, engenheiro e sargento-mór de Portugal, fez o desenho do exterior do templo, em estylo barroco. Concluiu a obra, em 1898, o engenheiro civil dr. Antonio de Paula Freitas, que a dirigiu durante vinte annos, succedendo aos architectos Job Justino de Alcantara, Gustavo Waehnldt, Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
A frontaria, toda de granito e ladeada por dois soberbos campanarios, é de magestoso aspecto, e melhor sobresairia se mais vasto fôsse o espaço em que se eleva.
Quatro portas de bronze dão entrada ao imponente e artistico santuario, ellas mesmas primôres de arte e devidas á genial concepção do esculptor portuguez Teixeira Lopes.
A decoração interior é em estylo corinthio e constitue o principal valor e attractivo do monumento.
É marmoreo todo o revestimento mural, niveo, de Carrara, nas pilastras, cornijas e entablamento, preto nos pedestaes e vermelho nos paineis. Álem d’estas tres côres e qualidades, o altar-mór ostenta o lapis-lazuli, o brocatello, o verde antigo, o malachito e o amarello de Verona.
Os nove altares lateraes são de marmore branco, de Carrara.
Nas abobadas, revestidas de alvenaria de tijolo, ha pinturas historicas de Zeferino da Costa.
Numerosos quadros, bellas esculpturas e preciosos dourados completam a decoração interior da Candelaria, santuario da religião e da arte.
O templo é aberto em tres naves, a do centro formosa e vastissima; as lateraes apenas a communicar os altares. Todo o monumento occupa a area de 3:520 metros.
As suas dimensões, quanto á planta geral do edificio, são de 80 metros de comprimento por 44 de largura. O corpo de entrada, ou principal, tem 43,ᵐ40 de comprimento, por 12 de largo, excluindo as naves lateraes.
A altura total do edificio, sobre o nivel do mar, é de 76 metros.
As torres teem 57 metros de altura. Este precioso monumento é coroado por um zimborio de cantaria, tijolo e marmore de Lisbôa, formado por 1:422 blócos de pedra, com o pêso de 630 toneladas, e alto de 64 metros. Do seu vértice descortina-se amplo e bello panorama geral da cidade, bahia, arrabaldes e suburbios.
O zimborio foi construido, successivamente, pelos engenheiros-architectos Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
Álem das pinturas decorativas das abobadas e muralhas, executadas, principalmente, pelos artistas Costa e Tunes, e cujos assumptos prendem-se á lenda dos fundadores do santuario e ás phases da sua construcção, ha a admirar, entre outras artisticas curiosidades, o Baptisterio, á esquerda da entrada principal. A pia é de roseo marmore da Arrabida, e a tampa é de bronze cinzelado, trabalho de Manoel Ferreira Tunes. É dourada a fogo e produz maravilhoso effeito.
Do lado posterior do baptisterio vê-se um precioso tabernaculo, sobre uma banqueta.
Na parede do fundo avulta um baixo-relevo, em cedro, representando o baptismo de Christo, trabalho do mesmo artista.
Theatro Municipal
Dez annos antes da inauguração das obras, que teve logar em 20 de Novembro de 1904, já a municipalidade tributava as companhias theatraes, as emprezas de diversões publicas e até os vendedores de bilhetes para espectaculos, com destino á edificação do Theatro Municipal.
No momento da publicação d’este livro estará elle concluido e, talvez, inaugurado. É um grandioso e bello monumento, que occupa a area de 4:127 metros quadrados, entre a Avenida Central, o becco Manoel de Carvalho, a rua Treze de Maio e a praça Ferreira Vianna. Está edificado sobre cêrca de 1:700 estacas de massaranduba, sapucaia, oleo vermelho, graúna e angelim pedra, batidas em terreno barrento e arenoso.
Trabalharam regular e diariamente 500 operarios, durante os cinco annos da sua construcção e decoração, que consumiram quantia superior a 12:000 contos de réis.
O auctor do projecto e engenheiro-chefe da sua execução, foi o dr. Francisco de Oliveira Passos.
Eis algumas notas escriptas durante uma visita a este monumento, em Maio de 1908:
No rez-do-chão, deposito d’agua com a capacidade de 200:000 litros. Motor da força de 115 cavallos, para ventilação.
Entradas especiaes, para o Presidente da Republica, do lado da Avenida Central e para o Prefeito Municipal, pela rua Treze de Maio.
Paredes decoradas a mosaico francez, representando scenas das principaes peças do theatro universal. Escadarias de marmore branco, decoradas a bronze dourado. Sala de espectaculo.
Uma ordem de frisas, duas de camarotes e uma de amplas galerias. Pintura em branco e profusa illuminação. Camarotes especiaes, á direita, para o Chefe do Estado, á esquerda para o Prefeito Municipal. Tecto pintado sobre téla, por Visconti. Lotação total, para 1:700 pessôas. Cinco entradas para a plateia.
Todo o pavimento dos corredores dos camarotes é a mosaico, bem como o das frisas e galerias.
O vestibulo é em marmore de côres, avultando o verde e o côr de rosa. Elegantes columnas de roseo marmore circumdam os pavimentos superiores, ornamentando a escadaria. Os capiteis das columnas são a bronze dourado.
Todo o marmore empregado no edificio foi importado de Portugal, da França e da Italia.
Ha dois terraços—varandas, lateraes e exteriores, a seis columnas de marmore mesclado e pavimento a mosaico.
As bancadas geraes da ultima ordem são de peroba e comportam mais de 800 pessôas.
Na caixa do theatro, todos os pannos são movidos a electricidade.
Os camarins, em tres pavimentos, com installação hydrotherapica no 1.º, são vastos, arejados e profusamente illuminados.
Em um prédio contiguo estão os motores electricos para a illuminação geral do edificio.
O porão do theatro, está seis metros abaixo do nivel do sólo.
Em caso de incendio, a scena será immediatamente inundada por machinismo especial.
Todos os relogios da casa funccionam electricamente, pela energia que lhes é transmittida por um relogio central.
A illuminação da sala é feita por um systema original, que consiste em lampadas disfarçadas no oval dos balaustres. A mobilia da plateia e dos camarotes é de mogno vermelho, com incrustações de páu-marfim.
O fundo dos camarotes e galerias é de pellica côr de rosa, bem como as guarnições das balaustradas.
Ha um ascensor para a communicação geral da caixa do theatro e um salão para bibliotheca da especialidade. As portas e janellas do foyer são de carvalho e crystal.
O aspecto geral, como os detalhes, até aos mais minuciosos, obedecem ás mais modernas condições, de hygiene, aceio e luxo.
Gabinete Portuguez de Leitura
A associação fundadora d’este monumento, data de 10 de Setembro de 1847, e a inauguração do edificio teve logar cincoenta annos depois. Eleva-se na rua Luiz de Camões, defronte da travessa da Academia, a pouca distancia do largo de S. Francisco de Paula.
O Gabinete é uma joia artistica, interior e exteriormente, e o mais bello padrão de gloria da colonia portugueza no Rio de Janeiro.
A frontaria, elegantissima, é de pedra lioz, em estylo manuelino. Decoram-n’a as estatuas de Camões, Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral e do Infante D. Henrique.
No interior, além da secretaria e de varias peças interessantes, ha dois salões notabilissimos pelas dimensões e pela belleza architectonica e decorativa.
O salão da Bibliotheca, occupa toda a altura do edificio, na dimensão de 23 metros. É ladrilhado a mosaico e illuminado por bellissima claraboia de vitraes coloridos. Está dividido em tres pavimentos, por galerias circulares, guarnecidas a columnas de ferro dourado. O golpe de vista é empolgante e maravilhoso.
As artisticas estantes que forram este salão, comportam 85:000 volumes, entre elles a mais celebre camoneana do mundo.
O salão nobre, ou de Honra, é decorado com os escudos de todas as cidades de Portugal.
Ha mais a admirar, o album commemorativo de Eduardo de Lemos, o fundador do Gabinete; os bustos do mesmo, de Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, de Eça de Queiroz e de D. Carlos I; a miniatura da canhoneira Patria, vitrinas com preciosidades bibliographicas, a mesa da Directoria, etc.
O monumento importou em 592 contos de réis, mas quasi outro tanto se tem gasto em melhoramentos e reparações.
O Gabinete conta um fundo social de 800 contos e 114 socios benemeritos, 39 honorarios, 26 correspondentes, 1:327 remidos e 357 contribuintes. Foi architecto do edificio o portuguez Frederico José Branco.
Academia das Bellas Artes
Foi fundada em 1816, pelo vice-rei Conde da Barca, que contratou 11 professores francezes, para as cadeiras de desenho, pintura, esculptura, architectura e mechanica. Chamou-lhe o fundador, Real Academia de Desenho, Pintura, Esculptura e Architectura Civil. A frontaria é obra de Grandjean de Montigny. Nota-se um artistico portão de ferro, do mesmo artista; baixos relevos, de Zeferino Ferrez; uma sacada com balaustres de bronze, e seis columnas jonicas; as estatuas de Minerva e de Appolo e, a rematar, o frontão decorado pela classica quadriga, execução de Ferrez, como o restante é de Montigny.
Em 1855, este edificio foi augmentado pelo architecto Job Justino de Alcantara.
A Academia foi inaugurada em 5 de Novembro de 1826, por D. Pedro I, e por iniciativa do ministro Visconde de S. Leopoldo. A primeira exposição publica de trabalhos artisticos, teve ahi logar em 1829, expondo, entre outros, os artistas Debret, Grandjean e Marcos Ferrez.
A sala de leitura é decorada a pinturas de Montigny e de Ferreira, seu sobrinho. Ha ahi muitos retratos de pintores celebres.
Bibliotheca da especialidade.
Ao subir a dupla escadaria, veem-se quadros de Pedro Americo, Grandjean e Ferreira. A notar, Santa Thereza de Jesus, pelo primeiro. Salão da Escola Nacional. Ao centro, Batalha de Avahy, por Pedro Americo. O proprio pintor está retratado á frente do regimento n.º 33. Em frente, Batalha de Guararapes, por Victor Meirelles. O Ultimo Tamoyo, esplendido trabalho de Rodolpho Amoedo.
Do mesmo auctor:—Partida de Jacob. De Henrique Bernardelli:—Os Bandeirantes.
Segue-se uma galeria de escólas estrangeiras, de pintura, onde está principalmente representada a escóla italiana. Ha preciosidades artisticas de Raphael, Rubens, Ticiano, Ribera, Velasquez, e de outros pintores immortaes, que o visitante não póde apreciar, devido á péssima exposição dos quadros.
A notar, ainda, A Noite, de Pedro Americo.
A collecção artistica d’esta Academia, é avaliada em 4:000 contos. O magnifico palacio das Bellas Artes, em construcção na Avenida Central abrigará, brevemente, estas e outras preciosidades esparsas por diversos edificios da capital da Republica.
Grupos e Estatuas
Monumento do Centenario—Na praça da Gloria, que mede 20:000 metros quadrados, e sobre um pedestal de granito, da altura de 4 metros, eleva-se o grupo, em bronze, commemorativo do 4.º centenario da descoberta do Brasil. É alto de 10 metros e consta das figuras bem lançadas de Pedro Alvares Cabral, Pero Vaz de Caminha e Fr. Henrique de Coimbra, respectivamente commandante, escrivão e capellão da frota descobridora.
O monumento é de Rodolpho Bernardelli, e foi encommendado pela Associação do Quarto Centenario do Descobrimento do Brasil. A arte casa-se aqui com a imponencia e a formosura do aspecto geral.
Fonte Ramos Pinto—Este gracioso e artistico monumento está collocado ao centro do jardim que aformoseia a Praça da Gloria. Foi offerecido á cidade do Rio de Janeiro, pelos viticultores portuenses Adriano Ramos Pinto & Irmão, e é um gigantesco blóco de marmore branco, decorado por quadros estatuas.
A execução, do esculptor Thevenet, é primorosamente artistica, especialmente a da figura feminina que, tendo um joelho poisado sobre uma anfractuosidade da rocha, mostra a parte posterior ao publico. É tão perfeito este trabalho, que provocou a regeição do prefeito Francisco Pereira Passos, com o pretexto de que excitaria os instintos libidinosos das baixas camadas populares. Com grande reluctancia, Thevenet praticou o enorme delicto artistico de cobrir a estatua com uma ligeira camisa, que não deixa de accusar-lhe o primôr das fórmas.
Estatua Equestre de D. Pedro I—A erecção d’este monumento foi approvada em sessão do Senado da Camara Municipal do Rio de Janeiro, a 11 de Maio de 1825. Esta resolução não teve seguimento, bem como outras posteriores tentativas, até que em 7 de Setembro de 1854, a Camara Municipal approvou nova proposta do seu presidente, dr. Roberto Jorge Haaddock Lobo. Para o custeio foi aberta uma subscripção publica, por intermedio das camaras municipaes de todo o paiz. Tambem foi aberto concurso entre artistas nacionaes e estrangeiros, cabendo o 1.º premio ao brasileiro João Maximiano Mafra, quanto ao projecto e desenho, sendo a execução confiada ao esculptor francez Luiz Rochet, o 3.º concorrente premiado. A pedra fundamental do monumento foi collocada em 1 de Janeiro de 1862, realisando-se a inauguração em 30 de Março do mesmo anno. A estatua, que custou 334:710$375 réis, occupa o centro da praça da Constituição. A base é de granito, seguindo-se-lhe o pedestal, em bronze, ornamentado a grupos que representam os grandes rios do Brazil—Amasonas, Paraná, Madeira e S. Francisco, symbolisados por indigenas, cuja expressão é eminentemente artistica.
O friso do pedestal é guarnecido por escudos, que representam as vinte provincias brasileiras. D. Pedro I está a cavallo e em grande uniforme de general. Na mão direita, o imperador empunha a Carta Constitucional do Brasil.
O peso total do monumento é de 55:000 kilos. A sua altura é de 3,ᵐ30 na base, 6,ᵐ40 no pedestal e 6 metros da estatua equestre.
Estatua do Visconde do Rio Branco—Eleva-se ao sul da Praça da Gloria, e a pouca distancia da Fonte Ramos Pinto. É de bronze e foi modelada e fundida pelo esculptor francez Charpentier. A figura está sentada e veste o uniforme de senador do imperio. A mão direita descansa sobre dois livros do Visconde—A Convenção de 20 de Fevereiro e Collecção de Leis do Brasil.
A base, de gneiss do Brasil, sustenta o pedestal, de pedra do Jura, e a estatua da Historia, em bronze, que lê, em uma tábua, a seguinte phrase de Tacito—Autoritate Constantia fama inquantam proeumbante imperatoris fastigio datus clarus.
Este monumento foi inaugurado em 13 de Maio de 1902, anniversario da promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil, e em homenagem ao estadista que fez votar a lei do ventre livre.
Estatua do Duque de Caxias—Este primôr de esculptura, talvez o melhor trabalho de Rodolpho Bernadelli, ergue-se, desde 15 de Agosto de 1899, ao centro do Jardim e da Praça do Duque de Caxias. O monumento é equestre, em bronze, e assenta sobre um pedestal de marmore de Carandahy.
São notaveis, como obra de arte, os baixo-relevos que ornam o pedestal. O marechal, que monta um cavallo de raça, sustenta, na mão direita, um oculo de alcance.
Estatua de José de Alencar—Foi inaugurada em 1897, e ergue-se na pequena praça que enfrenta o Hotel dos Estrangeiros, entre o Cattete e Botafogo. É de bronze e de Rodolpho Bernardelli. Alencar está sentado em uma poltrona que tem, por base, um blóco de marmore cinzento.
Nas quatro faces do pedestal ha baixo-relevos representando scenas de Iracema, do Guarany, do Sertanejo e do Gaúcho, obras primas do eminente cearense, que brilhou no romance, no drama, na poesia e no jornalismo.
Estatua de João Caetano dos Santos—Eleva-se defronte da fachada principal da Academia das Bellas Artes, em um hemicyclo traçado por Grandjean de Montigny, para dar espaço, ar e luz á primorosa frontaria do palacio. É obra do esculptor fluminense Chaves Pinheiro, modelada em 1859, no Rio de Janeiro, e fundida em Roma, em 1890. É de bronze, tendo estado, o modelo, exposto na exposição de Philadelphia, em 1876.
Estatua do General Osorio—Foi inaugurada em 12 de Novembro de 1894, e fundida com o bronze de canhões, tomados aos inimigos da patria. O monumento é equestre, eleva-se ao centro da praça Quinze de Novembro e foi modelada por Bernardelli.