BIBLIOTHECA UNIVERSAL

ANTIGA E MODERNA

IRACEMA

POR

JOSÉ DE ALENCAR

COM UMA NOTICIA BIOGRAPHICA DO AUCTOR

13ª SERIE—NUMERO 49

LISBOA

COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Successora de DAVID CCRAZZI e JUSTINO GUEDES
40—Rua da Atalaya—52
FILIAES: Praça de D. Pedro, 137, 1º andar, PORTO
38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro
1890

Á TERRA NATAL

UM FILHO AUSENTE

INDICE

[NOTICIA BIOGRAPHICA]
[MEU AMIGO]
[IRACEMA]
CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
CAPITULO [XIII]
CAPITULO [XIV]
CAPITULO [XV]
CAPITULO [XVI]
CAPITULO [XVII]
CAPITULO [XVIII]
CAPITULO [XIX]
CAPITULO [XX]
CAPITULO [XXI]
CAPITULO [XXII]
CAPITULO [XXIII]
CAPITULO [XXIV]
CAPITULO [XXV]
CAPITULO [XXVI]
CAPITULO [XXVII]
CAPITULO [XXVIII]
CAPITULO [XXIX]
CAPITULO [XXX]
CAPITULO [XXXI]
CAPITULO [XXXII]
CAPITULO [XXXIII]
[NOTAS]
[CARTA AO DR. JAGUARIBE]

[NOTICIA BIOGRAPHICA]

José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar. O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e formar-se na eschola de Olinda.

Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario, publicando varios artigos n'um periodico intitulado: Ensaios, e redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos annos de 1840 a 1848.

Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro, entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios. Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no Correio Mercantil um artigo de critica acerca das Poesias de Augusto Zaluar. N'esse mesmo anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no Correio Mercantil umas revistas semanaes, intituladas: Ao correr da penna assignadas com a sigla Al.

Em julho de 1855 sahiu da redacção do Correio Mercantil, e passou a collaborar no Jornal do Commercio, onde escreveu, entre outros artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do Othello e outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a direcção do Diario do Rio de Janeiro, que conservou até 1858.

Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: Cartas sobre a confederação dos Tamoyos, e era uma collecção de folhetins que haviam sido publicados no Diario do Rio de Janeiro, e em que se fazia a critica do celebre poema de Gonçalves Dias.

Em 1857, finalmente, sahia o Guarany o famoso romance brazileiro, que produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de José de Alencar eram plus beaux que nature, que eram uns Indios ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena. Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de Fennimore Cooper.

Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua, romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper.

Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se consagrar a gloria do Guarany, até o grande maestro brazileiro Carlos Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o libretto da sua opera o Guarany, que é a sua obra prima, a obra prima da musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso tempo, que já hoje tem fama universal, e é representada com applauso em todos os theatros do mundo.

O que, porém, sobretudo se apreciava no Guarany, e a esse respeito não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do estylo, a magnificencia das descripções da natureza.

Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer representar uma comedia de valor secundario Verso e reverso, dava ao theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro brazileiro, O Demonio familiar. É esta comedia um magnifico estudo dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na demonstração da influencia nefasta do moleque na familia brazileira. O Demonio familiar é esse moleque, elemento permanente de discordia e de desmoralisação.

O Guarany e o Demonio familiar bastavam para assegurar a gloria de um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto quanto isso é possivel a obras humanas.

No theatro, pois, ao Demonio familiar e ao Verso e reverso seguiram-se o Credito, e os Jesuitas, drama que foi retirado de scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar. Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os Jesuitas era detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica, sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra litteraria.

Não desanimou Alencar, e deu á scena as Azas de um Anjo, drama que se modelava um pouco pela Dama das Camelias, com a excepção de que no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra verdadeiramente inepta intitulada Manual de litteratura, diz a respeito das Azas de um Anjo o seguinte:

"É uma tocante oração em favor da perdida.

"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que o francez não approvaria."

Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente qualificada.

Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e J.S. acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a abnegação tão proprias do caracter brazileiro.

José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior ao das Azas de um Anjo.

A ultima peça de José de Alencar foi a Mai, representada em 1860.

N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça, e recebia a carta de conselho.

José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario, não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida. Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no Instituto Commercial do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além de consultor do ministerio da justiça, director de secção.

A acção da politica no litterato sente-se na Guerra dos Mascates, romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco, outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de Inhomerim, etc., etc.

O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em 1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara ao lado dos dissidentes.

Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda dois dos seus melhores romances: o Gaúcho e Iracema. O caracter do gaúcho, que adora a sua egua Morena, que a entende, que lhe fala e que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. Iracema é sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos Jesuitas. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas regras mais elementares da philologia.

As Minas de prata passam por ser um dos seus menos bons romances; encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de que as paizagens da sua provincia descriptas no Til, são perfeitamente phantasistas; Ubirajara, A pata da Gazella, O tronco do ipê, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a prejudicaram tambem. O Sertanejo, muito criticado por alguns, parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que ella possa amar, está traçado com vigor.

Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o seu nome, Diva e Luciola, romances moldados pela comedia Azas de um Anjo tratam da rehabilitação de peccadoras; Cinco minutos, uma das suas primeiras obras e a Viuvinha são romances ligeirissimos, graciosamente desenhados; a Senhora encerra uma situação fortemente dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações.

No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a imagem imperial, e as Cartas de Erasmo. Publicou em volume os seus discursos parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada Estatistica da provincia do Ceará.

José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham combatido Senio, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu da scena publica.

(Do Diccionario Popular).

[MEU AMIGO]

Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas mais sublimes expressões do poder creador.

Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio, e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde.

Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem occupado.

Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a ramagem das aroeiras em flôr.

Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre, como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri.

O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas palmas dos coqueiros.

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição, qual sorte será a do livro?

Que lhe falte hospitalidade, não ha temer. As auras de nossos campos parecem tão impregnadas d'essa virtude primitiva, que quantas raças habitem ahi a inspiram com o halito vital. Receio sim que seja recebido como extrangeiro e hospede na terra dos meus.

Se, porém, ao abordar ás plagas do Mocoribe, fôr acolhido pelo bom cearense, presado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos tempos prosperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra de seu pae, a intimidade e conchego da familia.

O nome de outros filhos ennobrece nossa provincia na politica e na sciencia; entre elles o meu, hoje apagado, quando o trazia brilhantemente aquelle que primeiro o creou. N'este momento mesmo a espada heroica de muito bravo cearense vae ceifando no campo da batalha ampla messe de gloria.

Quem não pode illustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos.

Acolha pois a primeira mostra e offereça-a a nossos patricios a quem é dedicada.

Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro: o outro lhe direi depois que o tenha lido.

Muita cousa me occorre dizer sobre o assumpto, que talvez devera anticipar á leitura da obra, para prevenir a surpreza de alguns e responder ás observações ou reparos de outros.

Mas sempre fui avêsso aos prologos; em meu conceito elles fazem á obra, o mesmo que o passaro á fructa antes de colhida; roubam as primicias do sabor litterario. Por isso me reservo para depois.

Na ultima pagina me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, em mais liberdade do que teriamos n'este portico do livro, onde as etiquetas mandam receber o publico com a gravidade e reverencia devida a tão alto senhor.

Rio de Janeiro—Maio de 1865.

J. de Alencar.

[IRACEMA]

[I]

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba:

Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros:

Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas.

Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?

Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do oceano?

Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar em fora:

Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre o marulho das vagas:

—Iracema!...

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe sobre o giráu, onde folgam as duas innocentes creaturas, companheiras de seu infortunio.

N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso.

Que deixára elle na terra do exilio?

Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.

Refresca o vento.

O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, como o condor, as foscas azas sobre o abysmo.

Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite.

Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

[II]

Além, muito além d'aquella serra, que ainda azula no horisonte, nasceu Iracema:

Iracema, a virgem dos labios de mel, que tinha os cabellos mais negros que a aza da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jaty não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia no bosque como seu halito perfumado.

Mais rapida que a corsa selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipú, onde campeava sua guerreira tribu, da grande nação tabajara. O pé gracil e nú, mal rosçando, alisava apenas a verde pellucia que vestia a terra com as primeiras aguas.

Um dia, ao pino do sol, ella repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oitycica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acacia silvestre esparziam flores sobre seus humidos cabellos. Escondidos na folhagem os passaros ameigavam o canto.

Iracema sahiu do banho: o aljofar d'agua ainda a roreja, como á dôce mangaba que córou em manhã de chuva. Emquanto repousa empluma das pennas do gará as flechas de seu arco; e concerta com o sabiá da mata pousado no galho proximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto d'ella. Ás vezes sobe aos ramos da arvore e de lá chama a virgem pelo seu nome; outras remexe o urú de palha matisada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da jussára com que tece a renda, e as tintas de que matisa o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Deante d'ella e todo a contemplal-a, está um guerreiro extranho, se é guerreiro e não algum máu espirito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rapido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gottas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro impeto, a mão lesta cahiu sobre a cruz da espada; mas logo sorrio. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é symbolo de ternura e amor. Soffreu mais d'alma, que da ferida.

O sentimento que elle pôz nos olhos e no rosto, não sei eu. Porem a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da magoa que causara. A mão que rapida ferira, estancou mais rapida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando comsigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

—Quebras commigo a flecha da paz?

—Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? D'onde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

—Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuiram, e hoje tem os meus.

—Bemvindo seja o extrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das aldeias, e á cabana de Araken, pae de Iracema.

[III]

O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta.

Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros, a cabana do Pagé.

O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.

O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora.

Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras.

As tribus tabajaras, d'além Ibyapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e vindos de remota plaga ás margens do Mearim. O ancião pensou que fôsse um guerreiro semelhante, aquelle que pisava os campos nativos.

Tranquillo, esperou.

A virgem aponta para o extrangeiro e diz:

—Elle veiu, pae.

—Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken.

Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram ambos na cabana.

O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação.

Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de cajú e ananaz.

Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o cachimbo e falou:

—Vieste?

—Vim: respondeu o desconhecido.

—Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o. Dize, e todos te obedecerão.

—Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.

—Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará. Arake n nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu hospede escuta.

O extrangeiro disse:

—Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras.

—Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião.

A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite.

[IV]

O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não ficou só.

Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

—Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma.

E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.

—Tu me deixas? perguntou Martim.

—As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam.

—Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pagé.

—Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo combate.

O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.

—Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.

—Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

—Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia bebe a agua da chuva.

—A virgem suspirou:

—Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças.

—Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araken?

—O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do Ipú.

—Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos Pytiguaras.

Martim voltou á cabana do Pagé.

A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.

[V]

O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido trinado annuncia a aproximação do dia.

Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva, entra furtivamente na cabana.

Eis retroa o boré pela amplidão do valle.

Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de guerra.

—Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?

O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte, cobre o rubido olhar:

—Irapuam falou; disse.

O mais moço dos guerreiros avança:

—O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.

Troa e retroa a pocema da guerra.

O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.

O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé agil ainda e firme.

Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima lucta?

Incertos todos e mudos escutam:

—Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promette o banquete da victoria.

Desabriu emfim Irapuam a funda colera:

—Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na serra, mais forte que o ribombo do mar.

[VI]

Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a cabana do Pagé.

Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça a verde coma da floresta.

O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum dia?

Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de afflicto.

Iracema parou em face do joven guerreiro:

—É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do extrangeiro?

Martim pousou brandos olhos na face da virgem:

—Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago.

—Uma noiva te espera?

O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea.

—Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem mais formosa! murmurou o extrangeiro.

—A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.

Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam oppressos.

A virgem falou emfim:

—A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera.

Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé.

—Vem! disse a virgem.

Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro.

Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira á festa da ultima lua.

Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da floresta.

Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão.

Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taça agreste.

—Bebe!

Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas mais bellas esperanças.

Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo e terno o anjo puro dos amores infantis.

Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo abandona o tecto paterno e demanda o sertão?

Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á brisa com o crebro suspiro o doce nome:

—Iracema! Iracema!...

Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.

Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.

O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no osculo ardente.

E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para deixar-se colher.

Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, travou do arco.

[VII]

Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que afflavam.

Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.

Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de susto e mais de colera.

—Iracema! exclamou o guerreiro recuando.

—Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.

—Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.

A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:

—O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araken.

A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso:

—Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!...

—Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor.

—O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé.

Rugiu de sanha o chefe tabajara:

—A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro vae morrer.

—A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o seu povo.

—Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.

—Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo, é o passo da morte.

A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração.

Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais vencido das grandes paixões.

—A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.

Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos do extrangeiro.

Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.

Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.

—O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das arvores: suspirou a virgem.

E afastou-se lentamente.

[VIII]

A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.

Não sabia onde estava.

Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas folhas do bambú.

Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a noite que enluctam os ventos.

—As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e emmudece?

A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os leques ciciam brandamente:

—O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro poderá partir com o sol que vem nascendo.

—Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então a alegria voltará ao seu seio.

—A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o tronco nú, sem ramas, nem sombras.

Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo galho do anjico.

O mancebo murmurou:

—Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de teus mimosos labios.

Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:

—Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.

—E Iracema?

—Pois que tu morrias!

Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu sobre o peito: mas logo se ergueu.

—Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve abandonar os campos dos Tabajaras.

—Deve: respondeu a virgem como um ecco.

Depois a sua voz suspirou:

—O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da assucena.

Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em seu labio:

—O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.

—Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.

Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.

—É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.

—Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.

Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um faro suspeito.

Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema caminhou para elle.

O extrangeiro entrou só na cabana.

[IX]

O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha.

Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do ancião, e abalou o corpo decrepito.

—Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.

O velho ficou immovel:

—O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu para o Pagé, fale; seu ouvido escuta.

—O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte.

—O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus.

Vieram Cauby e Iracema:

—Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da sua caça.

—O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pae gostam de vêl-o.

O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo:

—Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará.

O somno voltou aos olhos do Pagé.

Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro do urú de palha trançada.

Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle:

—Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem. Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.

—A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.

Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza.

O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o irmão de Iracema tornou da grande taba.

—O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a noite. É tempo de partir.

A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken.

—Elle vae! murmuraram os labios tremulos.

O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle e o mancebo trocaram a fumaça da despedida:

—Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken.

O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou:

—Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé.

Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a partir.

Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz d'elle Iracema.

Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava já os preludios da suave endeixa.

A virgem suspirou:

—A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite.

O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos.