J. DE ALENCAR


O
GUARANY
ROMANCE BRAZILEIRO


QUINTA EDIÇÃO


TOMO SEGUNDO


RIO DE JANEIRO
B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71, RUA DO OUVIDOR, 71
PARIS.—E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.


Ficão reservados os direitos de propriedade.


1883

INDICE

[TERCEIRA PARTE
OS AYMORÉS]

[QUARTA PARTE
A CATASTROPHE]

TERCEIRA PARTE
OS AYMORÉS

I
A PARTIDA

Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz chamou seu filho.

O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.

Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.

Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes, tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua longa experiencia lhe aconselhavão.

Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas que escrevêra na vespera.

—Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo para S. Sebastião.

—Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando correis um perigo?

—Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.

—Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella seja.

D. Antonio apertou seu filho ao peito.

—Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios. Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma familia.

—Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado.

O fidalgo proseguio já calmo:

—Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado.

—Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus.

—E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realisarem?

—Que dizeis, senhor?

—Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de succumbir.

—Então?... exclamou D. Diogo pallido.

—Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inutil.

D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do fidalgo:

—Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é digno do pai.

—Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por aquelles que vão esperar-vos.

—Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.

—Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo preparar para a partida.

O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.

—Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de Janeiro.

—D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.

—Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo esteja prompto dentro de uma hora.

Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os aventureiros.

Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e motejavão do descontentamento de seus companheiros.

Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre desabafo ao seu máo humor.

Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e Bento Simões.

A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:

Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.

Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.

Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:

—Não se passa.

—E por que razão?

—É a ordem, respondeu Martim Vaz.

Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.

Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão á bocca em fórma de busina, gritou:

Olá! Á frente toda a banda!

Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o desfecho daquella scena.

—O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural.

Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou uma vista rapida com os seus dous complices.

—Estais entendidos? disse Ayres Gomes.

—O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto, retrucou o italiano avançando um passo.

—Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros.

—As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com uma certa solemnidade.

—Comtudo nós... ia dizendo Loredano.

—Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz.

E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á sorrelfa do seu desapontamento.

Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros, cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião seus companheiros.

Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle, esperando a explicação do que se passava.

—Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para que ninguem arrede pé da casa.

—Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros: Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós; é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos.

As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos; todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos.

Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o menor gesto o podia trahir.

Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os aventureiros:

—D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la?

Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles.

—Vós sereis o quarto, Loredano.

O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia tudo podia se descobrir.

—Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas sinto-me doente, e sem forças para uma viagem.

O cavalheiro sorrio.

—Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever; sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano.

Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros:

—Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta casa?

O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios companheiros.

—Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por elle; partis em meia hora.

Alvaro retirou-se.

Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle; mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio. Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime.

Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum tempo, rapidamente e em voz baixa.

Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta:

—Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem.

O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy Soeiro:

—Olhai os homens da guarda; é o principal.

—Ide tranquillo.

Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã.

Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha pela redea.

A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho.

II
PREPARATIVOS

Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete, Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe havia dado na vespera, e sahia da cabana.

A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, que revelava resolução violenta, talvez desesperada.

O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.

Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.

Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe fazia com o bico delicado.

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante.

—Tu estás agastada com Pery, senhora?

—Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.

Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara contrariada.

Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia suas preces.

Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torna-lo digno da estima de todos.

Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir salvando a sua alma.

Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar. É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a creatura triste acha no canto um supremo consolo.

A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos; havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios entreabertos.

O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.

—Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.

—Como?... Não te entendo!

—Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te.

—Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade.

O indio sorrio:

—Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é seu inimigo, e morre!

Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o indio tivera na vespera com o cavalheiro.

—Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo, elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não fique zangada!

—Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!...

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia encantadora:

—Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua senhora te estimará ainda mais.

—Não ficas triste?

—Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!

—Pery quer pedir-te uma cousa.

—Dize, o que é?

—Pery quer que tu risques um papel para elle.

—Riscar um papel?...

—Como este que teu pai deo hoje a Pery.

—Ah! queres que eu escreva?

—Sim.

—O que?

—Pery vai dizer.

—Espera.

Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.

Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás suas menores fantasias?

—Vamos: falla, que eu escrevo.

—Pery a Alvaro, disse o indio.

—É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.

—Sim: é para elle.

—Que vais tu dizer-lhe?

—Escreve.

A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome de Loredano e dos seus dous complices.

—Agora, disse o indio, fecha.

Cecilia sellou a carta.

—Entrega á tarde; antes não.

—Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.

—Elle te dirá.

—Não que eu...

A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.

Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era o adeos extremo que o indio lhe dizia.

Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.

D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se della.

Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.

—Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.

O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.

Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado.

Foi ter com Alvaro.

O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão os inimigos.

Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.

—Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se ficarem, o outro póde voltar.

—Não se animará! disse o cavalheiro.

—Pery não se engana! Manda sahir os dous.

—Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do Paquequer.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.

Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu infeliz amor.

Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um momento com Isabel na esplanada.

Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.

—Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.

—Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.

—Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.

—É ainda este malfadada bracelete?

—Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia teima que é elle vosso.

—Se meu é, vos peço que o aceiteis.

—Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.

—Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu irmão?

—Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.

O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.

Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel impregnadas de perfume e sentimento.

Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.

Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.

O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão offerecer seus serviços a D. Antonio.

Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei Angelo di Lucca.

III
VERME E FLOR

Erão onze horas da noite.

O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros escassos da viração susurravão na folhagem.

Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo.

O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda nocturna, como um general na vespera de uma batalha.

Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos seixos deixou-os cahir um depois do outro.

O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento nas folhas.

Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos dous homens que fazião a guarda nocturna:

—Tudo está preparado?

—Só esperamos por vós.

—Vamos! não ha tempo a perder.

Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.

Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade de uma luz.

Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.

Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um dialogo breve e rapido.

—Quantos são? perguntou o homem que chegára.

—Vinte ao todo.

—Restão-nos?

—Dezenoze.

—Bem. A senha?

—Prata.

—E o fogo?

—Prompto.

—Aonde?

—Nos quatro cantos.

—Quantos sobrão?

—Dous apenas.

—Seremos nós.

—Precisais de mim?

—Sim.

Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça:

—Ruy, vós me sois dedicado?

—Dei-vos a prova.

—Preciso de um amigo fiel.

—Contai comigo.

—Obrigado.

O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.

—Sabeis que amo uma mulher?

—Vós m'o dissestes.

—Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso que concebi este plano horrivel?

—Não; não o sabia.

—Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.

—Fallai; que quereis que eu faça?

—Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.

—Qual dizei!

—Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que...

O desconhecido hesitou:

—Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ella pode dar.

—Mas como?

—Matando-a!

Ruy sentio um calafrio.

—Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve ser para mim um gozo immenso.

—Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.

—Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o thesouro que rejetais!

O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciencia.

—Jurais? perguntou Loredano.

—Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.

—Avante então!

Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro como uma especie de ponte suspensa.

—Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.

O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.

A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.

Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre a prancha.

—Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.

—Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.

A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.

Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse momento esquivar-se a elles.

Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle impunha respeito ao aventureiro.

Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.

No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo era o italiano depositario.

Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no abysmo; não passou de um desejo.

Venceu a final a tentação.

Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha podido suster.

Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a féra.

Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.

—Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.

O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente superiora quem a morte não podia tocar.

Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da janella de Cecilia.

Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.

Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de precipita-lo.

A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se estivera solidamente pregada ao rochedo.

Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.

Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo; seu sorriso era apenas enlevo.

O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a lençaria diaphana os seios mimosos.

Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.

Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.

Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegião a innocencia.

Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel, estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer, é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura e horrivel supplicio.

A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.

Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosphera.

E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens.

Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vicio.

O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu uma vela de cera côr de rosa.

O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia appareceu cercada de uma aureola.

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que nem fôra interrompido.

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.

A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder.

IV
NA TREVA

Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos que acabavão de passar.

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.

Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites de grande calma.

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria naquella mesma noite.