JULIA LOPES DE ALMEIDA

A FALLENCIA

2ª EDIÇÃO

RIO DE JANEIRO

Officinas de Obras d'A TRIBUNA—rua do Ouvidor 132

1901

INDICE

CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
CAPITULO [XIII]
CAPITULO [XIV]
CAPITULO [XV]
CAPITULO [XVI]
CAPITULO [XVII]
CAPITULO [XVIII]
CAPITULO [XIX]
CAPITULO [XX]
CAPITULO [XXI]
CAPITULO [XXII]
CAPITULO [XXIII]
CAPITULO [XXIV]
CAPITULO [XXV]

A FALLENCIA

[I]

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosphera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por vehiculos pesadões e estrepitosos, cheirava á café crú. Era hora de trabalho.

Entre o fragor das ferragens sacudidas, o gyro ameaçador das rodas e os corcovos de animaes contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.

Á porta do armazem de Francisco Theodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as saccas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:

—Andem com isso, que ás onze horas tenho de estar nas Docas!

E os carregadores vinham, succedendo-se com uma pressa phantastica, atirar as saccas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros, nús da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.

Ao cheiro do café misturava-se o do suor d'aquelles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.

No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das saccas, respirando a poeirada que se levantava d'ellas. Os outros respondiam com eguaes improperios, que os cocheiros dos tilburys, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.

Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquillo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da sacca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.

Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os parallelepipedos da rua.

Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam prospero. Enriqueciam-se com os sobejos.

Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra barulhenta e desharmonica.

A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao peso bruto.

Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto.

Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.

Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.

De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua.

Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa.

No de Francisco Theodoro não havia paragem.

O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.

Á porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as saccas que sahiam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café cahia cantando na soleira.

Ao fundo, um rapazinho magro e amarello, o Ribas, apontava num caderno o numero de saccas que levavam, rente á escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asphalto desgastado e denegrido do solo.

Tudo era feito numa urgencia, obrigada a grande movimento.

Um sopro ardente de vida, uma lufada de incendio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquelle extenso porão negro, sem janellas, ladeado de saccos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do tecto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo.

De vez em quando, um ruido de cascata rolava pelo interior do armazem. Era o café, que ensaccavam na área do fundo, e que na quéda das pás desprendia um pó subtil e um cheiro violento.

Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que vozes humanas e rodas de vehiculos se amalgamavam com o estrupido das patas dos animaes.

Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.

—Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!

Era o seu estribilho.

E havia sempre muito que fazer naquella casa, uma das mais graúdas no commercio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sózinho o caminho dos seus cofres, correndo para elles sem interrupção.

Ao lado do armazem e communicando com elle por uma portinha estreita, havia á esquerda o corredor e a escada, que levava ao escriptorio, acima, no primeiro andar.

Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, guarda-livros, escrevia em pé, junto á escrivaninha collocada ao centro. Em outra carteira trabalhavam os dois ajudantes, um velho, o Motta, de sorriso amavel e modos submissos; e o outro, um moço bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.

Nessa sala o trabalho era silencioso. As pennas não paravam, mal dando tempo ás mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. Diziam-se phrases sem se levantar os olhos da escripta, e as perguntas eram apenas respondidas por monosyllabos.

A um canto, sobre uma mesinha solida, entre uma das janellas e a parede, estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada, a talha de philtro já ennegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janella para o negrume do armazem, sob uma claraboia estreita, de pouca luz.

Era em um gabinete, ao lado, com uma janella para a rua e egual avareza de mobilia, que o dono da casa escrevia a sua correspondencia, bem repousado em uma larga cadeira de braços.

Elle alli estava, acabando de fechar uma carta.

Toda a sua pessoa reçumava fartura e a altivez de quem sae victorioso de teimosa lucta. Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranquillos e os dentes brancos e pequeninos, tinha um bello ar de burguez satisfeito.

Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.

Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que elle respondia com paciencia, indicando claramente as cousas, com minucias, para evitar confusões.

Francisco Theodoro, á sua larga secretária de peroba, dava a face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.

Tinha elle por habito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardados no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de aspera economia, aquillo seria feito com intenção; agora representava um acto machinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.

Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escriptorio, servindo depois os empregados do armazem.

Os degráos já gastos da escada rangiam então ao peso de um commissario visinho, o João Ramos, e do ensaccador Lemos, da rua dos Benedictinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Innocencio Braga, recentemente associado ao grupo. Ás duas horas reuniam-se sempre alli para o cafézinho, descançando o corpo e desannuviando o espirito com palestras de seu interesse e do seu gosto.

Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes appareceram.

Francisco Theodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.

—Homem! vocês tardaram...

—Culpa do Lemos...

E depois:

—O senhor está com a casa repleta!

—Tenho exportado muito café!

—Felizardo! aproveite a epocha, que não póde ser melhor!

Corria então o anno de 1891 em que o preço do café assumira proporções extraordinarias. O movimento crescia e casas pequenas galgavam aos saltos grandes posições.

—O que eu te invejo, disse o Ramos, unico que ousava tratar Theodoro por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engomma as camisas!

Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.

—Não é má essa, regougou o Lemos, o commendador Lemos, da Beneficencia, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que nem de creança.

Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Innocencio, perguntando a Theodoro:

—Aqui o seu visinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o outro, hein?

—Homem, sempre é verdade aquillo?!

—Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no negocio...

Fixaram todos a vista no Innocencio Braga. Era um homem pequenino, magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quasi imperceptivel.

—Custa-me a crêr nesses milagres ... ponderou Theodoro, pousando a chicara na bandeja que o Isidoro offerecia.

—Affirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazem e esperou a occasião. O sogro ajudou-o, está claro...

—Não meditou nas consequencias que poderiam sobrevir se se désse uma baixa.

—Quem falla em baixa?! Eu só lhe digo que o commercio do Rio de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquelle. Senhores, a audacia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados analphabetos. O negociante moderno age mais com o espirito do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento e do calculo. O Torres é de bom estofo; é d'estes. Conheço os homens.

Olhavam todos para o Innocencio com um certo respeito, reconhecendo-lhe superioridade intellectual.

—O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.

E logo o Innocencio accrescentou:

—Tambem aquelle está destinado a ser o nosso Rottschild!

Theodoro contrahiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais habil, o mais forte fôra sempre o seu sonho...

Voltando-se, inquiriu dos outros explicações meudas acerca d'aquelle negocio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e elle meditava no assumpto, alisando a barba grisalha, rente ás faces gordas e macias.

O Negreiros, tendo dado volta á sala e enfiado pela porta do escriptorio o seu enorme nariz de cavallete, virou-se para os outros e disse a meia voz:

—Que diabo! não posso acostumar-me a vêr aquelle velho como ajudante de guarda-livros!

—Que quer você? murmurou Theodoro; o Mattos empenhou-se por elle e afinal a acquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá boa conta do recado não penso em substituil-o. É assiduo.

—Outro exquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o Joaquim ... ninguem dirá que é o mesmo, lá fóra...

—Muito carnavalesco e mettido com as damas, hein? Que se divirta, aqui trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descança-me.

—Ouvi dizer que elle vae casar com a Delphina do Recreio...

—Historias! o rapaz é serio.

—Tolo é que elle não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéo.

O Innocencio despediu-se tambem; ia num pulo ao Torres. Os affazeres eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.

Quando elle sahiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O commendador Lemos sentenciou:

—Este Innocencio é espertalhão! Está aqui, está director do banco. Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por elle... Tem uma labia!

—E sabe encostar-se a boas arvores. O Barros tem-lhe dado boas commissões e não é á toa que elle procura tanto agora o Torres... Mette-se sempre na melhor roda... Aquelle não veio de Portugal como nós, sem bagagem e cheirando a páo de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda... O patife!

—São os que naufragam...

—Quando não vêm á caça e não têm o geitinho que este revela... Canta que nem um passaro, para attrahir a gente!

—É uma intelligencia superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas as mãos o collete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se no sofázinho austriaco, teve uma ponta de censura para as cousas d'esta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado, a cidade infecta.

Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadencia nem rhythmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua patria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metaes mais polidos, os passos eguaezinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.

A maldita Republica acabaria de escangalhar o resto. Veriam.

Só no fim perguntaram pelas familias.

—A proposito, perguntou o Ramos a Theodoro, aquella menina que vae tocar violino no concerto dos pobres é sua filha?

—Que concerto?

—De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal...

—Póde ser... são cousas lá da mãe ... a pequena tem um talentão; o proprio mestre espanta-se.

—E bonita! vi-a um d'estes dias, observou o Lemos.

—Não, isso não! por emquanto ainda não se póde comparar com a mãe ... protestou Francisco Theodoro, com sinceridade e um certo orgulho.

Os outros sorriram.

—Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!

Houve uma pausa.

—Realmente, insistiu Francisco Theodoro, o Gama Torres deu um cheque valente. Pois olhem, eu não dava nada por elle: um brasileirito magro...

—E começou outro dia!

—De mais a mais, parecia acanhado ... timido...

—Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, alli do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ahi está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Innocencio; aquelle está talhado para ser o nosso Rottschild...

—Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada tremula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quiz fazer o mesmo negocio e lá o meu socio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está ahi!

—Fez bem, foi prudente! Deixem lá fallar o Innocencio. Senhores, o commercio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu systema, observou Theodoro.

—Sim, o Innocencio aprecia isto de fóra, por isso diz o contrario. Chama o commercio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.

—Porco?! bradaram os outros, indignados.

—Porco, confirmou o Ramos com solemnidade.

—Tudo mais acceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.

Ramos sentiu saltar-lhe na lingua esta resposta: «porque os animaes da mesma especie não se devoram entre si»; mas por consideração ao amigo calou-se. Elle confessava-se seduzido pelas exposições do Innocencio. Que talento!

—Mas, afinal de contas, que quer o Innocencio?! perguntou Theodoro de pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do collete.

—Queria ... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transacções, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?

—Com que diabo quereria elle que trabalhassemos?

—Com a intelligencia. Está claro. E elle explicou a cousa bem. O nosso commercio é formado por gente sem escola, vinda de arraiaes... Eu por mim, confesso, mal tive uns mezes magros de collegio! Apanhei muito e não aprendi nada.

Houve um curto silencio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto placido de aldeia.

Depois de um suspiro, Theodoro concluiu:

—Que venham para cá os doutores com theorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!

Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos elles um soberano desprezo pelas classes intellectuaes. D'ahi um sorrisinho de expressiva intenção.

Mais um pouco de palestra sobre cambio, transacções da bolsa e assumptos lidos no Jornal do Commercio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim sahiram, fallando alto, dizendo que aquella casa cheirava a dinheiro.

Francisco Theodoro foi dar o seu gyro pelo armazem. Vendo-o em baixo, Joaquim acudiu logo, limpando com a lingua o bigode molhado de café, a dar informações.

—Estamos esperando o café do Simas.

O caminhão já está ahi perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquelle armazem tem engulido.

—Já sei d'isso ... bem. Mandou as contas para cima?

O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu:—sim, senhor; depois gritou para o fundo:

Seu Ribas!

O Ribas cruzou-se com Francisco Theodoro, que seguiu até á área, a ver ensaccar o café.

A gente do armazem tinha quisilia á do escriptorio: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigencias. Os caixeiros temiam-n'o; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que elle não perdoava.

O velho Motta, ajudante de guarda-livros, ainda era o unico que lhe dispensava amabilidades e cortezias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta annos em um sobradinho da rua Funda.

Francisco Theodoro demorou-se um bocado na area vendo ensaccar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.

As pás iam e vinham cantando, num compasso bem rythmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as cousas se alteram de vagar!

Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosphera carregada mal se podia respirar. Francisco Theodoro voltou. O caminhão estava já á porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguezia, accrescentando para o estimular:

—Agora mesmo venho alli do seu visinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o trapiche um numero assombroso de saccas!

O movimento do armazem interrompia-os de instante a instante. Francisco Theodoro, mal respondia, com as idéas desviadas para outro sentido.

Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe fallava com elogio e pasmo. Aquelle está destinado a ser o primeiro homem da praça, dissera-lhe o Innocencio, e o Innocencio era homem de bom faro e de exito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fôra o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edificio mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lagrimas, com sacrificios, com tantos annos de esforço e de labor?

Francisco Theodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escriptorio. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.

—Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazem...

—Não, senhor! Eu bem sei que aquillo dá felicidade...

Francisco Theodoro deteve-se um momento no escriptorio e entrou depois para o seu gabinete.

Fóra, o sol avermelhava as fachadas feias e deseguaes das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um halito ardente de verão bafejava toda a rua febril.

Os armazens, pelas boccas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda saccas e saccas de café, que as locomotoras e as carroças levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó que espalhavam no ar scintillações de ouro.

[II]

Em caminho de casa, Francisco Theodoro, recostado em um bond, persistia em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéas lhe fugiam para um curso perigoso.

O exito do Torres quisilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o caminho, impedindo-o de chegar ao seu ultimo ponto de mira. Galgava-lhe de assalto a deanteira, para se quedar sempre na sua frente, como um obstaculo.

Aquella conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canceira do trabalho. A vida tem ironias: teria elle sido um tolo?

Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quasi analphabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os sapatões barulhentos.

Tinha ainda fresco na memoria o dia do desembarque—estava um calor!—e de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal alimentado, com saudades da brôa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grillos pelas charnecas do seu logar.

Pouco a pouco outros grillos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é musica; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as oppressões, dobrando-se a todas as exigencias brutaes, numa resignação de cachorro.

Assim correram annos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lagrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente.

Aquella infancia de degredo era agora o seu triumpho. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ella, não conhecêra outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negocio. O negocio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.

Não podia explicar, como, só pelo attrito com pessoas mais cultivadas, elle fôra perdendo, aos poucos, a grossa ignorancia de que viera adornado. A letra desenvolveu-se-lhe, tornou-se firme, e a sua tendencia para contas fez prodigios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projectos, e observando attentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem.

Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo á deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para elle, o Brasil era o balcão, era o armazem atulhado, onde o esforço de cada individuo tem o seu premio.

Fóra do commercio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar...

Tempos de amargura e de esperança, aquelles!

Relembrando o passado, Francisco Theodoro procurava em si mesmo elementos com que pudesse bater influencias e oppôr-se ás especulações de afogadilho; devia encontral-os espalhados pelos dias asperos da incerteza e os macios da prosperidade.

Esta rectrospecção agradou-lhe; fixou varios periodos.

O tempo em que morara em um sobradinho do becco de Bragança, sombreado pelo beiral muito extendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada de rotula de um verde sujo.

Embaixo e defronte, caixoteiros martellavam em taboas de pinho, cujo cheiro dava ao becco immundo uma baforada fresca de floresta. E as martelladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o trabalho; de noite o theatro ou a casa da Sidonia. Que seria feito da Sidonia? Devia estar p'r'ahi, em qualquer canto ... e velha.

Aos domingos na chacara do Mattos, o solo, os jantares á portugueza, e a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe gyrava na memoria, suavemente, suavemente.

Fôra no conforto d'aquella chacara, vendo-se cercado de considerações, ao lado do amigo repousado e feliz, que elle sentiu a sua importancia e se lembrou que deveria haver na terra outras delicias; mas o seu coração, cançado de um lucta formidavel, negava-lhe novas inclinações. A patria esquecida não lhe acenava com o minimo encanto: a mãe morrera, a sua unica irmã tinha-se recolhido a um convento. Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.

Sentia-se só; começava a cançar-se e a enjoar as mulheres faceis, com quem convivia em relações momentaneas. Mesmo a Sidonia enervava-o com os seus arrufos ... e as suas denguices.

Atirou-se a proteger as instituições do seu paiz, a andar com medalhões e a fazer mordomias na Beneficencia. No fundo, não era só a distracção que elle buscava, nem a caridade que elle exercia; uma outra causa lhe filtrava n'alma aquella vocação para o beneficio...

E a commenda chegou.

Foi só depois de commendador que Theodoro se sentiu vexado d'aquella habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelaria, que mobilou a vinhatico, com exuberancia de chromos pelas paredes. Achou, ainda assim, que á sua casa alegre faltava qualquer cousa...

Viera-lhe a dyspepsia. Que insomnias!

Um medico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem á terra ou o casamento, para a regularisação de habitos. Elle achara cedo para a viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéa do casamento parecia-lhe mais salvadora.

Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma esposa dedicada e meia duzia de filhos que lhe herdassem virtudes e haveres?

No seu sonho começou a esboçar-se a idéa de um herdeiro. Teria um rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, sobretudo, um continuador d'aquella casa da rua de S. Bento, que engrandeceria com o seu prestigio, a sua mocidade, bem assente no apoio e na experiencia paterna. O filho seria a sua estatua viva, nelle reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infancia, seria instruido.

E tanto aquella idéa o perseguia, que num domingo de solo abriu-se ao Mattos, que acolheu com ar solemne e discreto as confidencias do amigo.

Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:

—Sei o que você quer. Tivemos aqui na visinhança uma familia que está mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna.

Francisco Theodoro murmurou:

—Pois uma mulher assim é que me servia.

—O diabo é que ellas vão de mudança para Sergipe...

—Então acabou-se.

—Não se acabou tal. Por emquanto estão hospedadas em casa de umas tias, no Castello. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O resto fica por minha conta.

Foi por uma noite escura que elle, já mais por condescendencia que por curiosidade, entrou com o Mattos na casa das senhoras Rodrigues, no morro do Castello.

Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente.

Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, D. Itelvina, senhora alta e secca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros ainda se cumprimentavam e já ella se sentava, erguendo o joelho agudo sob a costura. Não tinha tempo a perder.

A outra senhora da casa andava por fóra; Theodoro conhecera-a depois. Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido á novena do Carmo com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues.

Em uma sala vasta, quasi núa, mal clareada por um lampeão de kerozene, viu Theodoro, pela primeira vez, D. Emilia, uma senhora bonita, de ar magestoso e olhos trefegos, e as suas duas filhas mais velhas—Camilla e Sophia.

Camilla fazia crochet perto do lampeão; Sophia refugiara-se para um canto do canapé, queixando-se da cabeça. E a mãe começou a fallar com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de Camilla sahia-lhe da bocca com um elogio. Era a filha mais velha e a mais instruida: pilhara os tempos das vaccas gordas, quando o pae exercia um cargo lucrativo.

Os dedos de Camilla apressavam-se no crochet; com certeza ella havia de ter errado os pontos e sentido os olhares de Theodoro queimarem-lhe a pelle, que a tinha linda, de uma alvura azul de camelia.

D. Emilia asseverava que a sua Milla, como a chamavam em casa, esquecia-se das suas prendas, obrigada pela necessidade a fazer serviços domesticos.

Francisco Theodoro commoveu-se com a idéa de que aquella mulher, talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a callejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro.

Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pelle endurecida e alma feita de coragem. Olhou para a moça com veneração.

Era bonita, alta, com grandes olhos avelludados, cabello ondeado preto e uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ella mostrava pouco, sorrindo apenas. Da irmã Sophia, na sombra, mal se adivinhavam as feições.

A uma das phrases, em que a abundancia do amor materno lhe debuxava as perfeições, Camilla sahiu de ao pé da luz e foi para a janella olhar para o escuro.

Como correu depressa aquella noite!

Francisco Theodoro sahiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito? Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim.

E dias depois o Mattos pedia a mão de Camilla para o amigo.

Começou então a serie de presentes e de visitas. Milla tinha sempre o mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso.

O que ella ouvia da familia, não o podia adivinhar Francisco Theodoro, que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante.

Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação do noivado, peregrinações de Theodoro por aquelle morro do Castello, com raminhos de violetas para a Milla; todas as doçuras de namorado...

Casaram-se em um dia lindo.

Elle dera grandes esmolas aos pobres da egreja; Milla parecia um anjo entre nuvens brancas...

Depois, a familia partiu para Sergipe. O pae era chôcho, mas levava a carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha desthronada, e as irmãs iam bem enroupadas e todas tranquillas sobre o futuro de Milla e do filho mais velho, o Joca, por quem Theodoro promettera olhar, e que andava por ahi, atôa.

A sua maior commoção fôra ao entrarem casa, na rua da Candelaria. Suppuzera sempre que ella apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho, na alegria de ser a dona, a senhora de tantas cousas compradas para o agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camilla fôra para a sacada. Elle acompanhou-a.

Em frente, os telhados mais baixos succediam-se irregulares, cortando-se em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, deseguaes, accumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janellinhas de sotãos espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras e curtas, baforando fumo.

Camilla murmurára, como quem falla só:

—Se ao menos se visse o mar...

Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou perto, formidavel, prolongando-se num som que era como um gemido da cidade inteira. Milla ergueu-se com um estremeção e voltou para o perfil da egreja o olhar extatico.

Elle sorrira do susto, emquanto ella dizia:

—Como é alto!

Depois d'esse, vieram dias tranquillos. A mulher bordava almofadas para o sofá e emmoldurava os chromos com musgo e flores seccas.

Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidonia reappareceu na vida de Theodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades. Nem a pobre Camilla desconfiara nunca... Tambem, nada lhe tinha faltado e já devia ser um regalo para ella cobrir de boas roupas o seu corpo de neve, ter mesa farta, e andar pela cidade attrahindo as vistas, no deleite da sua graça...

Então iam grandes remessas para Sergipe.

Um sorvedouro, aquella familia, sempre exhalando lamurias em todas as cartas, na sêde insaciavel de dinheiro.

Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe mettia em casa, com os seus máos costumes de vadio. Elle fôra o causador de tantissimas querellas! E aggressivo na sua indolencia, mal humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais, pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquella pobre Nina, tão enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um canniço, e com uma tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Emfim, essa, ao menos, servira depois para ajudar Camilla a criar as filhas, que o Mario, esse já ella o encontrara forte como um heróe!

O Mario...

No percurso da Carioca á praia de Botafogo, Theodoro foi assim reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas memorias de familia e de trabalho, que elle se entrincheiraria contra os assaltos das novas ambições.

O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as arvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns pequenos atiravam um cão da Terra Nova á agua, e as janellas dos palacetes mal se abriam aos esplendores de fóra.

Perto do collegio, subiram para o bond duas irmãs de caridade, com ramalhetes de rosas. Theodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e distinguiam-no sempre, por sabel-o religioso. Iam levar á ermida da Copacabana aquellas flores, promettidas pela salvação de uma alumna, que estivera ás portas da morte.

Uma conversa simples, em dois minutos, foi como balsamo para o espirito fatigado do negociante.

Demais, elle achou bonito, commovedor aquillo: uma creança ás portas da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida sobre o mar...

Quando Francisco Theodoro chegou a casa, as suas filhas gemeas, Rachel e Lia, brincavam na chacara. Ao vel-o abrir o portão, as creanças atiraram-se para elle, que mal lhes passou os dedos pelos cabellos; ellas tambem pouco se detiveram e Theodoro atravessou o jardim.

O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um parque, elle erguia os seus balcões por entre palmas estrelladas de coqueiros e copas de arvores bem escolhidas. Aquillo não fôra obra sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruina o obrigara a hypothecal-a quando a construcção ia em meio e a vendel-a logo depois de concluida.

Á esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida, conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a familia palestrava, á espera de descer para o jantar. Nessa tarde só estava alli o filho mais velho, o Mario, todo derreado numa cadeira de balanço. O pae foi andando, e elle mal esboçou um movimento para levantar-se e dar-lhe as boas tardes.

Era já homem, muito moço ainda, e todo elle revelava preoccupações de luxo e cuidado da sua pessoa.

Na sala da frente fallava-se com alegria.

—Temos visitas—pensou Theodoro, vendo chapéos de homem no cabide da saleta.

Quando elle entrou na sala, a mulher dizia á filha:

—Vae ensaiar, Ruth!

A seu lado, sentado no mesmo divan, o Dr. Gervasio Gomes desenhava a lapis na carteira qualquer cousa que a fazia sorrir. Elle gabava-se de ter geito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e tres annos, trigueiro, e apurado na toilette. Era ligeiramente calvo, tinha um olhar de que as lentes de myope não attenuavam a agudeza, e um sorrisinho ironico, que lhe mostrava os dentes claros e meudos como os dos roedores.

Camilla guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquelle ar de magestade, que tanto impressionara Theodoro na primeira entrevista do Castello, adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade.

Francisco Theodoro foi direito a elles e cumprimentou-os, sem se atrever a roçar os labios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das suas acções em familia. Sentava-se já, quando ella lhe disse com leve censura:

—Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro?

Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Theodoro voltou-se para o capitão Rino:

—Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem?

—Hontem.

—Você não imagina, interrompeu Camilla; o capitão trouxe-me um presente lindissimo!

—Que foi? perguntou a meia voz o Dr. Gervasio.

Francisco Theodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia. Milla, voltando-se para o medico, explicou:

—Uma collecção de orchideas do Amazonas; e prometteu mandar vir para o lago uma Victoria Regia.

O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camilla pudesse ouvir:

—Isso de prometter é que não é bonito...

A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericordia para o outro, que palestrava agora com o dono da casa.—Não era bonito, por que?!

O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu typo de loiro e pela robustez do seu corpo. Era alto, de hombros largos. Tinha as mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança; o bigode sedoso, como que acabado de nascer, e a pelle queimada pelos ventos do mar. Só se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço, quando elle atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e desageitados. Havia qualquer cousa de infantil naquelle homem grande, uma interrogação timida talvez no olhar, e um certo abandono, de pessoa pouco afeita á sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos.

Ruth poz-se em attitude; a mãe gritou-lhe:

—Imagina que estás deante do auditorio!

Ella pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada, com a cabeça unida ao seu hombro estreito de menina, os cabellos negros, cahindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde limpido, de agua marinha, abertos para o vacuo, tinha um ar de sonnambula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias, moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas amarellas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto.

O Lelio Braga, recemchegado da Allemanha, o gordo maestro que só fallava de musica ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o silencio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom mais baixo. Ruth não ouvia ninguem; um brilho quente, de sol, sahia-lhe dos olhos verdes, voltados para a luz.

Só o capitão Rino parecia escutar a musica, olhando de esguelha para Camilla. Abominava a confiança que ella dava ao outro, ao magro Dr. Gervasio, alli tão agarrado ás suas saias, dizendo-lhe cousas que a faziam sorrir. Tudo naquelle homem o irritava: o seu luxo, o seu typo escanifrado e o seu ar de ironia, ás vezes perversa, outras insulsa.

Francisco Theodoro, nunca interessado por cousas de arte, nem mesmo pela musica, quebrava a miude as reflexões do capitão Rino, interrogando-o sobre assumptos do Norte, de puro interesse commercial.

Ainda vibrava no ar a ultima nota do violino, quando Nina, sobrinha dos donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava sympathica a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e alguns signaes aloirados na pelle pallida.

—Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camilla.

—Que sim; e, voltando-se para o capitão:

Devemos conserval-as ao ar livre ou na estufa?

O capitão fez um gesto de ignorancia.

Só á hora do jantar, Mario se reuniu á familia. A mesa, cheia de crystaes e de prataria, tinha um aspecto festivo.

O dinheiro ganho á custa de trabalho gosta de impor-se á admiração alheia. O dono da casa, refrescado no paletot de brim, não se cançava de elogiar os seus vinhos e alludia a miude á excellencia do cozinheiro.

Se alguem se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um calice de velho Madeira, elle acudia animadoramente:—Beba, que esse é legitimo; egual não se encontra com facilidade por ahi.

Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos complicados intactos. A fartura passava ao desperdicio. A copa atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a opulencia das carnes.

Á cabeceira da mesa, Francisco Theodoro gostava de, espalhando a vista por toda a longa superficie branca da toalha, vêl-a bem coberta de cousas caras e vistosas. Assim comia com appetite, gostosamente. Era o seu triumpho na vida, que todo esse luxo representava, na unica occasião em que lhe sobrava tempo para admiral-o.

Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o Dr. Gervasio havia menos instancias: conheciam-lhe os habitos de homem delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de mar valentias de estomago.

As creanças comiam á mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e exigencias.

Mario reprehendia-as, achando intoleravel que o pae consentisse aquillo!

—O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o Dr. Gervasio, ageitando a luneta no nariz.

Neptuno.

—Amado de Amphitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo o socego...

—Porque?

—Porque assim moço, bonito, e com tal suggestão, de forte envergadura precisa o senhor para resistir ás seducções das sereias...

—Que ninguem viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão ingenuamente.

—Convirá não affirmar que não as haja tambem em terras do Brasil, sublinhou o doutor com um sorrisinho, descendo o olhar para a pera que descascava.

Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de Camilla:

—Os cantos das sereias não me seduziriam...

—Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos. Se eu, em vez de medico, obrigado a deter-me com o que ha de mais prosaico na natureza, fosse ... o capitão do navio ... perdão, do vapor Neptuno, apegar-me-ia á mythologia, faria dos seus deuses a minha florida e alegre religião, e affirmo que seriam de goso para mim as noitadas no convéz, vendo ao clarão das estrellas Venus surgir das espumas e boiarem á tona da onda negra os dorsos brancos das cincoenta filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancholia das aguas, de que ás vezes os senhores se queixam. Um homem de espirito nunca está só...

O capitão sorriu e Francisco Theodoro fallou com o seu modo sentencioso:

—Elles gosam a seu modo.

—Não gosamos, não; a vida do mar é dura.

O Dr. Gervasio não póde sentir com sinceridade o que disse...

—Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um principio de que parto para todos os actos da vida, convicto de que está no proprio homem o remedio dos grandes males que o affligem.

—Se vae dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguem mais o chamará, replicou Camilla.

—Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguem tem absoluta confiança em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido para a sua funcção. Para nós, a natureza representa apenas o papel secundario da paizagem; é o accessorio, a mise-en-scène da Vida, em que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno. Não valia a pena crear coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra de honra! se fosse possivel conceber o riso, ou apenas o sorriso, na face tremenda do Omnipotente, eu diria que Elle ás vezes escarnece de nós. Á sua saúde, capitão!

—Obrigado...

—Um dia metto-me no seu Neptuno e atiro-me para o Norte. Curiosidade, simplesmente; tenho mais vontade de vêr os crocodilos do Amazonas do que ... eu sei lá! as bailarinas da Grande Opera.

—Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco Theodoro.

—Ha tambem quem affirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou o medico.

Camilla riu-se; e depois:

—E eu que nunca vi um grande vapor por dentro!

—Quer ir commigo a Manáos?

—Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o Neptuno.

O moço maritimo balbuciou, corando:

—Oh! minha senhora...

Interrompeu a phrase, porque ia dizer:—eu não desejo outra cousa! mas achou mais acertado e mais simples accrescentar sómente:—quando quizer.

—Será num domingo, para que meu marido vá tambem. E as creanças poderão ir?

—Por que não?

Lia e Rachel bateram palmas.

Ao café, no terraço, Camilla declarou preparar um grande baile para o S. João, quando a Ruth completasse os seus quinze annos.

O Dr. Gervasio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto.

—Por que?

—Porque a noitada de S. João mette medo ás casacas e assusta os decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas e crepitações, e ainda ha de ser no campo, entre gente rude que danse em torno ás chammas.

É uma festa que me dá ideia de uma cerimonia ritual, de povo primitivo. Deixe o seu baile para outro dia.