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A PARANOIA

Julio de Mattos

ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

…Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo querito della pura pazzia.

EUGENIO TANZI

Lisboa
Livraria Editora
Tavares Cardoso & Irmão
5, Largo de Camões, 6

1898

A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

PREFACIO

Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se apropriaram a designação de mentaes, os delirios systematisados, esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da psychiatria.

Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o problema posto.

Por outro caminho,—introduzindo no controvertido thema a criterio da evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes pshychiatras.

Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de uma especie em plena evolução.

Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas progressivamente por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle não segue regressivamente pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas ideativas?

Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos, n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

PRIMEIRA PARTE

Historia dos delirios systematisados

I—PHASE INICIAL

De Areteu a Esquirol—Confusão dos delirios systematisados com a melancolia—A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e expansiva.

Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e inequivocas referencias aos perseguidos.

Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].

[1] Areteu,De Melancholia, apud Trelat, Recherches historiques sur la folie, pag. 10

[2] Vid. Trelat, Obr. cit., pag. 38.

A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece explicar-se desde já.

Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de angustia animi angor, do outro, o facto intellectual de uma concepção, delirante absorvendo e fixando o espirito (in una cogitatione defixus). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo, geral e dispersivo.

Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi exclusivo».[1]

[1] Vid. Morel,Traité des maladies mentales, pag. 54.

Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura como elemento exclusivo. O angor animi de Areteu desapparecera, restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido in una cogitatione. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo e cuja razão, só parcialmente lesada, lhe permittia «dissertar perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes «possuidos das idéas de opulencia e de realeza».

A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na melancolia o delirio é muitas vezes alegre».

Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com paixão excitante».

A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma triste, tristimania, outra alegre, aménomania. Pinel admittia igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa, caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites, outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e mesmo o desespero»[1].

[1] Pinel, Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale, pag. 165.

Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de monomania o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou especies: uma, depressiva, a lypemania, outra, expansiva, a monomania propriamente dita. A lypemania, que não é senão a tristimania de Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; a monomania propriamente dita, que equivale á aménomania de Rusch e á melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas, não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.

Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente perigosa.

No seu Tratado das Doenças Mentaes affirma Esquirol que o termo monomania adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes, ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o mesmo que a melancolia dos antigos—uma affecção parcial do entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra monomania foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade: ao lado de uma monomania intellectual, tem logar uma monomania affectiva e uma monomania impulsiva. Delirios systematisados, emoções procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo entra no quadro da monomania—o mais amplo, diz Esquirol, de toda a classificação.

De sorte que, se os antigos, desviando a palavra melancolia do significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão, Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.

Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret, Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra monomania significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.

[1] Falret, Des maladies mentales

[2] Delasiauve, Les Pseudomonomanies

«Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos, dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas, se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de grupo distincto.»[2]

[1] Esquirol,Des maladies mentales, tom. II, pag. 4.

[2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.

Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.

A monomania intellectual de Esquirol, caracterisada por um delirio limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a melancolia dos antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por um delirio parcial e fixo.

Se a estas duas especies accrescentarmos a idiotia e a demencia, entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a estupidez descripta por Georget, e a paralysia geral, estudada por Calmeil, encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.

II—PHASE ANALYTICA

De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander—O delirio de perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit secundaria; a Verrücktheit originaria—Começo de interpretação pathogenica.

Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie pathologica entre as alienações mentaes».

No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no alcoolismo, nas loucuras provocadas por certas substancias narcoticas e em muitos delirios parciaes; na doença, porém, que elle descreve pela primeira vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma evolução caracteristica.

Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe dois periodos: um, de incubação, consistindo n'um mal-estar indefinido e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro, de estado, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa. Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com uma certa reserva, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo que ella é absurda; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes que a custo se lhe surprehende o primeiro grau, prolonga-se e arrasta-se em outros, que só muito gradualmente e por uma progressão bem sensivel e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance delirante.

Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle se não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal; é indefinivel, accrescenta, como os symptomas que annunciam e fazem presentir a invasão das doenças graves. O periodo de estado, esse, é como a floração da psychose: o romance systematico desenvolve-se pelo reconhecimento dos perseguidores—a policia, o jesuitismo, os magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.

Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que naturalmente se produzem,—a passagem de um trem, os passos de uma pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das allucinações auditivas, declara-as as unicas compativeis com o delirio de perseguições; e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido, diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a fundar inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes, alguns ha que percorrem todos os periodos da doença.

[1] Lasègue, Le délire des persécutions in Ètudes médicales, tom. 1., pag. 554.

[2] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.

[3] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.

[4] Lasègue, Loc. cit., pag. 555.

Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz elle, offerecem os exemplos mais frequentes—sopros internos, subitos calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros accidentes tão moveis da hysteria»[4].

[3] Lasègue, Loc. cit., pag. 556.

[4] Lasègue, Loc. cit., pag. 557.

Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro. «É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois, crêr que intenções hostis são a causa das impressões que experimento»[2].

[1] Lasègue, Loc. cit., pag. 552.

[2] Lasègue, Loc. cit., pag. 552.

Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante, a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de grandes perturbações de sentimentos. Ha perseguidos que, mudando constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e auctoridades com interminaveis queixas, conservam, todavia, uma certa egualdade de humor «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].

[3] Lasègue, Loc. cit., pag. 551.

Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica, 25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, de uma completa insignificancia: uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem equivalente no estado de saude.

Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas indicações therapeuticas».

Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria memoria de Lasègue.

Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde 1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos, affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam por delirar n'um sentido ambicioso.

Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de generalidade nos seus Estudos Clinicos, a observação de Morel tinha, contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que elle chamava a transição da melancolia depressiva á melancolia ambiciosa, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado, Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á lypemania e d'esta á monomania da vaidade, apresentando como exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente, mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não constituiriam senão étapes ou phases evolutivas, vae uma pequena distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos Estudos Clinicos em 1853 até á do Tratado das Doenças Mentaes em 1860.

Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet, notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville, retomando a questão na sua excellente memoria sobre a Loucura com predominio ao delirio de grandezas, procurou interpretar, sobretudo, a passagem—tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos incidia sobre ella—do delirio de perseguições ao de grandezas.

Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante, o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos, Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo, este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado, ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de perturbações sensoriaes, e chronicidade.

O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a megalomania, que elle define como um delirio de grandezas logicamente coordenado, associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a idéas de perseguição.

Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.

Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.

Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto, deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.

A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico. «Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo, dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].

[1] Foville, La folie avec prédominence du délire des grandeurs, pag. 345.

E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é relativamente frequente nos filhos naturaes que véem a cahir na loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].

[1] Foville, Loc. cit., pag. 346.

Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio persecutorio.

Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de surgirem depois idéas de perseguição, por uma sorte de propagação regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as situações. Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando, figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e consequencia das idéas de grandezas»[1].

[1] Foville, Loc. cit., pag. 347.

É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.

Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros; a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.

Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente o encontrou.

De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:

Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio persecutorio, como nascer d'emblèe. Não sendo um episodio morbido, nem mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de autonomia e direitos a uma designação privativa: a megalomania.

Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio parcial de grandezas.

Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand du Saulle, sob o titulo de Delirio de perseguições, em 1871, valioso, certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel, com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para o constituir de toutes pièces e fazer d'elle uma especie á parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.

[1] Legrand du Saulle, Le Délire des persécutions, pag. 11.

Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma inquietação indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um grande interesse compromettido; outro, de estado, caracterisado pela definitiva systematisação das idéas delirantes formando um romance invariavel para cada doente.

Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro periodo comparando-a á cephalalgia e ao arrepio que são muitas vezes os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem de preciso.

Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta, que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].

[1] Legrand du Saulle, Obr. cit., pag. 17.

Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle, os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha variavel»[2].

[2] Legrand du Saulle, Obr. cit., pag. 43.

Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida. Algumas considerações que faz sobre a hereditariedade, o onanismo e as perseguições infantis são de um caracter vago. Como se vê, em tudo quanto póde servir para caracterisar como especie o delirio de perseguições—na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.

Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852, Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos, depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas; attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o. N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os inimigos existem ainda»[1].

[1] Legrand du Saulle, Obr. cit., pag. 84.

«Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques, principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].

[2] Legrand du Saulle, Obr. cit., pag. 85.

Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos filhos naturaes, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]

[1] Legrand du Saulle, Obr. cit., pag. 86.

Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém, como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas apenas um acompanhamento ou complicação da doença de Lasègue.

Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e pelo sulfureto de carbone.

Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes, ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de caracter differente—vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e a tendencia d'estes doentes á formação de neologismos e de um incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

* * * * *

Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam os delirios systematisados.

Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no seu Tratado de Doenças Mentaes cuja apparição remonta a 1845, mas que só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente professor de Zurich, sob a denominação de Verrücktheit, os delirios parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar, dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas transcripções que seguem.

Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade, reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal, são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]

[1] Griesinger, Traité des maladies mentales, trad. franceza, pag. 386.

Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como na Verrücktheit; em grande numero de casos são ellas principalmente que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a accessos de colera»[1]

[1] Griesinger,Obr. cit., pag. 388.

Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as coisas … As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido … Alguns d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior deixou de existir»[2]

[2] Griesinger,Obr. cit., pag. 387.

Sobre a necessidade do neologismo nos delirios systematisados de uma longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio, Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu systema geral de absurdos»[4].

[3] Griesinger,Obr. cit., pag. 388.

[4] Griesinger,Obr. cit., pag. 388.

Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario, as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

[1] Griesinger,Obr. cit., pag. 388.

Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que d'elles faz, como quadro symptomatico d'après nature, é nas suas linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si analogos modelos.

Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a interpretação nosographica e pathogenica é profundamente diversa, porque, ao passo que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

O que é, com effeito, a Verrücktheit do psychiatra allemão? «Sob este nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes, embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A Verrücktheit é sempre, pois, uma doença secundaria, consecutiva á melancolia ou á mania»[3]. Residuos de estados de exaltação ou depressão, diz ainda em outro logar, constituem a Verrücktheit que, por isso mesmo, elle colloca no grupo dos estados de enfraquecimento psychico, ao lado da demencia.

[2] Griesinger,Obr. cit., pag. 382.

[3] Griesinger,Obr. cit., pag. 382.

Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu anteriormente e acabou por uma cura incompleta»[1]. Fallando da metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das quaes não póde nunca produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a Verrücktheit «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

[1] Albers, Memoranda der Psychiatrie.

[2] Spielmann, Diagnostik der Geisteskrankheiten.

Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas ou depressivas da Verrücktheit, delirio de grandezas ou delirio de perseguições.

Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e depressivo.

Esta fórma, que Snell denomina monomania ou Wahnsinn, é inteiramente distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez monomania parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell, não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de Vahn: delirio, e Sinn: sentidos) põe em relevo a importancia das allucinações.

Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e acaba por admittir, ao lado da Secundäre Verrücktheit, uma Primäre Verrücktheit, analoga ao Wahnsinn de Snell. Na lição de abertura do seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem protogenica d'estes estados que denomino Primäre Verrücktheit».

Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a Primäre Verrücktheit, descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma variedade congenita d'esta fórma sob a designação de Originäre Verrücktheit. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra, originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da Originäre Verrücktheit e observa que a demencia está muito longe de ser um dos seus modos de terminação.

Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados, admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865 mandava admittir quand méme uma preexistente psychose maniaca ou melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

Não morreu, como veremos ainda, a Secundäre Verrücktheit, a despeito de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da Primäre Verrücktheit.

* * * * *

Voltemos aos trabalhos francezes.

Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios—a ponto, dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança, Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava chefe dos alienistas alienisantes. Modificando as suas primitivas idéas, o celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma passiva, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se mesmo; outra activa, representada pelos que acceitam a lucta e respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado, de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

Pondo no estudo da variedade activa do delirio de perseguições o mesmo espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma passiva ou commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria, incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta, um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente, offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

Creando a variedade activa do delirio de perseguições, o notavel professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto, a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França, essa unidade do delirio de perseguições.

Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia—tudo n'elles é differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque, como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais: na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma, n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret, acceital-os como representantes de uma outra especie nosographica.

Pottier desenvolve no seu Estudo sobre os alienados perseguidores as idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos. A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda, perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados hereditarios»[1].

[1] Pottier, Ètude sur les aliénés persécuteurs, pag. 3

A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier: «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

[2] Pottier, Obr. cit., pag. 38.

Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma evolução progressiva … Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos, mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

[1] Pottier, Obr. cit., pag. 39.

A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida, estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que, nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

[2] Pottier, Obr. cit., pag. 41.

Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas, chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A explicação d'este contagio delirante procede sobretudo, segundo Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo pôr em duvida.

Os litigantes ou processomanos constituem a mais importante cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos perseguidores hypocondriacos que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento seguido, hostilisam o medico assistente.

As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de loucura lucida (folie raisonnante), sub-grupo das degenerescencias psychicas hereditarias. Nas suas Lições clinicas sobre as doenças mentaes, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

De passagem faremos notar que na Allemanha o delirio processivo tem soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples variedade da Verrücktheit, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle, fazem d'elle um sub-grupo da loucura moral.

III—PHASE SYNTHETICA

De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva—A loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional insanity—Determinação pathogenica.

Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, uma hipocondria de uma natureza mais intellectual. Em 1860 exprimia-se assim no seu Tratado o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria, disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos, basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos) chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam; quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar na phase d'este delirio especial que a designação de delirio de perseguições melhor do que todas exprime»[2].

[1] Morel, Traité des maladies mentales, pag. 706.

[2] Morel, Obr. cit., pag. 707.

Quanto ao delirio ambicioso elle seria, segundo Morel, uma terminação frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos, escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem, as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos hypocondriacos»[3].

[3] Morel, Obr. cit., pag. 716.

Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, Morel não invocava, á maneira de Foville, o raciocinio e a logica, mas a physiologia morbida: era, com effeito, ao echo psychico de uma alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia procurar a chave d'este phenomeno tão frequente quanto assombroso para os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos doentes.

Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica, naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a sua introducção na sciencia, as monomanias de Esquirol triumphavam ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de grandezas, outra. O Tratado de Marcé, o mais cotado dos livros classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de 1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no capitulo anterior.

Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o Darwin da psychiatria. Fallava para o futuro o auctor das Degenerescencias Humanas, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das idéas.

É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o Tratado de
Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
Gérente.

Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a provar com o apoio dos factos, que não existe um delirio hypocondriaco, um delirio de perseguições e um delirio de grandezas, mas uma vesania, o Delirio Chronico, de que aquelles não são senão phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos que em vez d'essas monomanias, tão artificiaes e tão confusas, de certos auctores, appareça claramente, emfim, uma só e mesma especie morbida que chamaremos o Delirio Chronico»[1].

[1] Gérente, Le délire chronique, pag. 10.

O que é, verdadeiramente, este Delirio Chronico? Segundo Gérente, uma doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o Delirio Chronico mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental, n'uma palavra, por uma hyperalgesia psychica; uma autoobservação permanente, uma sorte de habitual ruminação interior de estados physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual, sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois, um hypocondriaco o candidato ao Delirio Chronico; mas não é um alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de contrôle. Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo inicial ou depressivo do Delirio Chronico.

Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania). Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações auditivas, dominam esta phase do Delirio Chronico, de uma duração que póde ser muito longa.

Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica, enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza, ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva. Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro. Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas, sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na sua exclusividade o terceiro periodo do Delirio Chronico.

Esta lenta evolução da vesania—tão lenta que póde cobrir dezenas de annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e dissociadas.

Tal é, summariamente, a marcha typica do Delirio Chronico, segundo
Gérente,

Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo, representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças, comporta o Delirio Chronico anomalias evolutivas, que compete á clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o typo descripto sobre exemplares completos.

Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial, angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava Loucura hypocondriaca ao que Gérente denomina Delirio Chronico,

Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este psychiatra.

De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica, nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria, talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.

[1] Gérente,Obr. cit., pag. 8.

[2] Gérente,Obr. cit., pag. 9.

Mas, por outro lado, importa em relação ao Delirio Chronico attender á natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos, dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente, como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.

Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a lesão, no sentido psychologico do termo.

Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta alteração é, pois, a lesão essencial e caracteristica ao delirio chronico»[3].

[3] Gérente,Obr. cit., pag. 24.

Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente. Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob a designação de monomanias; Delirio Chronico é o nome d'essa psychose.

Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre. De facto, não só a designação de Delirio Chronico tomada por Gérente para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these. Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais tarde nas suas Lições Clinicas, publicadas em 1893, expondo uma doutrina do Delirio Chronico notavelmente diversa da proclamada por Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é que o conceito de Delirio Chronico tenha soffrido no espirito de Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á discussão da Sociedade Medico-Psychologica.

Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem muito. É o que vamos vêr.

Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o Delirio Chronico de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O Delirio Chronico, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto, porque tal particularidade basta para separar immediatamente os delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].

[1] Magnan, Leçons cliniques sur les maladies mentales, pag. 236.

Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do Delirio Chronico, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel, escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o hypocondriaco-perseguido-ambicioso possa apresentar caracteres bastante fixos para entrar no quadro do Delirio Chronico»[2].

[2] Magnan, Obr. cit., pag 221.

Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao Delirio Chronico, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do Delirio Chronico todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito, de ter admittido na evolução do Delirio Chronico quatro periodos nitidamente desenhados—o de incubação, o de perseguições, o ambicioso e o demente, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr fóra do Delirio Chronico todo o doente que d'emblèe se torna perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois perseguido»[3].

[3] Magnan, Obr. cit., pag 237.

São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do Delirio Chronico, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o tornar mais explicativo: Delirio Chronico de evolução systematica é a designação adoptada por este psychiatra nas suas Lições Clinicas.

Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular que Gérente considerava como exemplares frustres de Delirio Chronico e que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a doutrina do Delirio Chronico.

Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos, suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo todos os actos e palavras d'outrem (periodo de incubação), se tornam depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio systematisado de hostilidades (periodo de perseguições), fabricam mais tarde ainda idéas de grandeza (periodo ambicioso), e, por fim, cahem n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se esbatem e dissociam (periodo de demencia). Ninguem contestou, repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o principio, que elles fossem regra. A fatalidade do terceiro periodo do Delirio Chronico foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou que o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio de perseguições. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação que varios alienistas—Christian entre outros—apoiaram: ao passo que para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do Delirio Chronico, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não d'emblèe, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso, Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma Psychose na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um papel evolutivamente similhante ao da suppuração n'nuna erupção variolica; mas se, como pretende Falret, esse alienado póde perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa ambiciosa, tal Psychose não existe: a synthese clinica legitima não é o Delirio Chronico de evolução systematica, mas o Delirio de Perseguições, que póde ou não, sem mudar de natureza, complicar-se de um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a doutrina actualmente professada por Magnan.

Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina de Gérente, segundo a qual o Delirio Chronico, á maneira d'outras doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.

J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este argumento, que Magnan não toma a palavra demencia no restricto sentido de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se estereotypa (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão aggravar; chamar-lhe, pois, demencia, quando elle attinge um grau em que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam, não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que o medico de Sant'Anna toma a demencia quando faz d'ella a phase terminal da sua Psychose.

Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna, alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do Delirio Chronico, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do Delirio Chronico, é evidentemente absurdo invocal-os contra a legitimidade d'esta psychose.

Para Magnan, ao lado do Delirio Chronico de evolução systematica, ha os delirios que elle chama polymorphos ou d'emblèe. E as distincções entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do prognostico. Ao passo que o Delirio Chronico se caracterisa evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos, sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto, sob o ponto de vista da etiologia, o Delirio Chronico prescinde para constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio mental. Emfim, emquanto o Delirio, Chronico, na sua qualidade de psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,—é evidente, diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia do Delirio Chronico, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, ao menos n'um certo numero de casos, indiscutivelmente exacta; como por consenso de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental (Delirio Chronico de Magnan), ha doentes que fazem bruscos, irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (delirios degenerativos de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto, demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas allure diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um mesmo fundo.

Séglas viu isto—e só elle parece tel-o visto—quando na Sociedade Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a demencia, toda a differença entre o Delirio Chronico e os delirios polymorphos se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de prognose, o que não é bastante para estabelecer especies morbidas distinctas.

Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes; cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade clinica do Delirio Chronico argumentos de valor.

Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a maneira de vêr de Régis.

Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do Manual pratico de Medicina Mental sustenta que uma natural distincção existe entre as loucuras generalisadas e a Loucura parcial: ao passo que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de um elemento affectivo, excitação na mania e depressão na melancolia, a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do tonus emotivo, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O contrario d'isto se dá na Loucura parcial: um delirio mais ou menos extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a Loucura parcial é sempre idiopathica, essencial.

Ora, é n'esta verdadeira loucura que os delirios systematisados se integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios evolutivos.

No seu curso regular e typico, a Loucura parcial offereceria tres periodos: um, de analyse subjectiva, caracterisado pelo delirio hypocondriaco; outro de interpretação, revellado pelo delirio de perseguições ou pelo delirio mystico, segundo o doente attribue a pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de transformação pessoal, exteriorisado pelo delirio ambicioso. As allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da Loucura parcial.

Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de quaesquer circumstancias; isto é dizer que Loucura parcial é eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á mysantropia e ao orgulho»[1]

[1] E. Régis, Manuel pratique de médecine mentale, 2º ed., pag. 228.

Como se vê, a Loucura parcial de Régis mantem relações profundas de similhança com a Loucura Hypocondriaca de Morel e o Delirio Chronico de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres syntheses clinicas.

* * * * *

Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos, retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou na existencia de delirios primitivos de perseguições e de grandezas.

Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a seguir.

Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós, psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto; confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor. Wahnsinn, Verrücktheit e Paranoia são as palavras com que na litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria, evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

A expressão delirio systematisado, empregada por opposição á de delirio dissociado ou incoherente, significa apenas que certas idéas morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos; assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente, quer á origem d'essas idéas, quer á natureza e grau da affinidade que as liga, quer, emfim, á sua evolução. N'este sentido, tão systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por accessos.

N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados primitivos e secundarios, idiopaticos e symptomaticos, continuos e intermittentes, agudos e chronicos. E assim, a não ser nos casos extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a actividade mental. Verrücktheit é o termo empregado pela maioria dos auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e allucinações, o termo Wahnsinn é synonimamente empregado, se bem que com menor frequencia.

Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e restricto,—precisamente o que nas paginas precedentes vimos implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido exclue os delirios secundarios, os symptomaticos e os agudos para comprehender apenas os primitivos, os idiopaticos e os chronicos. Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia. Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso, typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos a que o termo systema, pedido á technologia das sciencias physico-mathematicas, implica a idéa de uma força activa e persistente de attracção ou de affinidade (systemas planetarios, systemas de crystalisação); por analogia, na esphera psychologica o systema delirante deveria resultar de uma força viva e permanente de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos, idiopaticos e chronicos,—delirios movimentados, activos, tenazes. Paranoia é o termo com que de preferencia exprimem os auctores allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á loucura systematizada dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de Gérente e de Régis.

Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo Paranoia tem esta accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como synonimo de Verrücktheit ou Wahnsinn; é o que faz, por exemplo, Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (psychose degenerativa) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida empregar as expressões de Paranoia epileptica, de paranoia masturbatoria (delirios syntptomaticos), como não deixa de occupar-se em detalhe de uma Paranoia Secundaria (estado terminal das psychoneuroses). Note-se, porém,—e isto fará cessar toda a confusão—que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas expressões Paranoia originaria, Paranoia adquirida, ou ainda Paranoia persecutoria, Paranoia ambiciosa. No primeiro caso, sendo a Paranoia uma Verrücktheit, um Wahnsinn, um delirio systematisado, importa determinar-lhe a especie; no segundo, sendo uma Primäre Verrücktheit, um Cronicher Wahnsinn, um delirio systematisado primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a variedade.

Posto isto, diremos que é sobre a Paranoia como synthese clinica e doutrina equivalente em extensão á loucura systematisada dos francezes que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos, cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras divagações.

Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que, podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia; emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras derivadas, adjectivos e adverbios.

Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a desenvolveu e aprofundou.

[1] Über Monomanie, 1863.

[2] Arch. f. Psych., 1867.

[3] Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit, 1868-69.

[4] Zeitschr. f. Psych., 1878.

Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose, mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder, como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se d'emblèe. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro clinico d'esta psychose as obsessões, que, não offerecendo a marcha e evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas, uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade, Paranoia abortiva ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura obsessiva ou das idéas fixas.

Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de facto, ao lado da fórma hypocondriaca, já conhecida desde Morel, da fórma originaria ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma chronica, de marcha progressiva ou remittente, em que d'emblèe se produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma fórmia aguda, caracterisada pela subita eclosão de allucinações principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão mental (Verwirrtheit) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos estados catatonicos de Kahlbaum.

A creação d'esta fórma aguda, que está fóra dos limites por nós traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães, das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos de estudar e precisar mais tarde.

Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma originaria reconhece um fundo degenerativo.

Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem logar na mania e na melancolia.

[1] Psychiatr. Centralblatt, 1878.

Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se tentativas de interpretação das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados emocionaes secundarios,—meras reacções do sentimento sob o contheudo das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a fórma aguda da Paranoia.

Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo, n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

[1] Alig. Zeitschr. f. Psych., 1879.

Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por n'elle abolir o senso critico.

Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia descriptas por Westphal, incluindo a aguda, que teria por ponto de partida as allucinações.

No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio processivo (Quaerulantenwahnn) como variedade ou sub-grupo da Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade (fórma activa) do delirio de perseguições.

[2] Studien über primäre Verrücktheit, 1879.

No seu Tratado, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez. Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes; assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são, pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.) implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado, a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença representa apenas o exaggero ou hyperthrophia de um caracter preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes, descrevendo uma fórma persecutoria com o seu sub-grupo processivo, e uma fórma ambiciosa com as suas variedades religiosa e erotica; e notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing, ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo o eminente professor, toda a evolução da doença.

Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e profunda.

Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes; ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são, definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem, como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará senão raciocinar justo sobre premissas falsas; a apparente lucidez dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças febris.

[1] Über primäre Verrücktheit, 1880.

Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

[1] Zeitsch. f. Psych, 1882.

Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu Compendio de Psychiatria as idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas». Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta invalidade psyquica—umas vezes congenita, adquirida outras—é, pois, a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença constituicional, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela caracteristica tendencia do doente á comprehensão egocentrica do mundo. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas persecutoria e ambiciosa de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta, descrevendo-a minuciosamente, a fórma hypocondriaca,

[1] Comp. der Psych., 1883

Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o delirio processivo, que considera uma fórma de loucura moral. Baseia-se para essa separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos, tal como se dá nos criminosos.

Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto, fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa. O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende como, ao lado das fórmas persecutoria e ambiciosa, deva dar-se no quadro da Paranoia um logar á fórma hypocondriaca, a despeito de uma errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de hypocondria e de melancolia.

[2] Alig. Zeitschr. f. Psych., 1883

Meynert expôz, em 1890, nas suas Lições Clinicas uma interessante doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo, antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos, nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta—infecções, venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso anthropomorphisado: como as suas aggressões procedem de um impulso humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular, diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural. Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens, o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e, como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores da época da encyclopedia que o homem creou os deuses à sua imagem»[1].

[1] Meynert, Lezioni cliniche di Psychiatria, trad. it., pag. 128.

Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição, Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por sensações hypocondriacas ou estimulos subcorticaes bulbares. O doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa, associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma hyperesthesia psychica seria, pois, para Meynert, como vimos que o era para Gérente, o fundamento da Paranoia.

Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.

O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.

[1] Die Paranoia, 1883.

Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente degenerativas as fórmas originaria e processiva, por elle descriptas no seu Tratado Clinico dentro do grupo das psychoses hereditarias, entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

[2] Klinische Psychiatrie, 1886.

Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a fórma abortiva de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com effeito, a debilidade de espirito, no sentido do que outros chamam invalidade psychica e ausencia de senso critico, representa na Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda, tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes. Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se altera pela integração de uma fórma aguda, sem precedentes quer em França, quer na Allemanha, antes de 1878.

[3] Compend. der Psychiatrie, 1887.

Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo rudemente combatida por Fritsch e outros.

Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas aguda e chronica da Paranoia.

Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes á demencia.

Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras). Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura, outras pela abolição das faculdades.

Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias: hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.

É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que, como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação: persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa, o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte, no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de grandeza n'elles predominem ou mesmo tendam a predominar, como alguns escrevem.

É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez, demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes, tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução, notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois, com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo, sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de variadas, são visinhas»[1].

[1] Schüle, Traité clinique des maladies mentales, trad. fr., pag. 122.

A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma erudita, mas inutil étalage de nomes proprios; por ella se fica sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses, direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim, distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor, que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade, de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o stupor. Em regra, o stupor typico (atonito) póde nitidamente distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o stupor com allucinações (pseudo-stupor) está evidentemente ligado á variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia se acharia completamente perturbada pelo delirio (estado do sonho)»[1].

[1] Schüle, Obr. cit., pag. 123.

Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por exemplo, a da Paranoia dissociativa, de Ziehen. Só quem tiver em vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia, póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de systematisação se adjective por uma palavra synonima de incoherencia.

Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até, acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução irregular e marchando tantas vezes para a cura?

A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor, vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente contrarios os casos extremos das duas fórmas, sustentam, comtudo, que a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos de transição, em que os motivos differenciaes se esbatem.

Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados, importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou esses casos sob o nome Verwirrtheit ou confusão mental, fazendo-os depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia. Decerto, a Verwirrtheit offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza, segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma doença, de marcha gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples estado transitorio, um mero syndroma de innumeras psychoses funccionaes e organicas.

Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial, Hallucinatorischer Wahnsinn, que elle colloca entre as psychonevroses ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia cerebral. De facto, segundo elle, o Hallucinatorischer Wahnsinn reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes; a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral d'emblèe, ou passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho de systematisação delirante. A passagem do Hallucinatorischer Wahnsinn á Paranoia é, pois, impossivel.

Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na Hallucinatorische Verwirrtheit, quer no Hallucinatorischer Wahnsinn. A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas. A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações fundamentaes do humor.

Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de Delirio asthenico, analogos aos produzidos pelas intoxicações medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas d'este delirio.

[1] Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn.

Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob o nome da Amencia, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como, inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios maniacos, agudos e sobreagudos.