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Rita Farinha (Jun. 2009)

A Morgadinha dos Cannaviaes
[Volume I]
[Volume II]

BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
XXIII


ROMANCE
III
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
Vol. I

CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337

JULIO DINIZ

A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES

(CHRONICA DA ALDEIA)


DECIMA-SETIMA EDIÇÃO

LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920

OBRAS DE JULIO DINIZ

A Morgadinha dos Cannaviaes
Os Fidalgos da Casa Mourisca
As Pupillas do Senhor Reitor
Uma Familia Ingleza
Ineditos e Esparsos
Poesias
Serões da Provincia
Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças)


Todos os direitos d'esta publicação
estão reservados em conformidade com a lei
em Portugal e Brasil

J. Rodrigues & C.a

A MORGADINHA DOS CANNAVIAES


I

II

III

desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições a pastel da mão de Pillement.
A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava observando.
—É preciso sair! é preciso sair!—disse Henrique comsigo.—Quero vêr isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.
E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa toilette, saiu do quarto.
Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.
—Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?
—Deliciosamente minha querida tia—respondeu elle, abraçando-a com maior affecto e bom humor do que na vespera.
O que é sentir-se a gente bem!
—Então não estranhaste?
—Estranhei immenso!
—Sim?!—disse a tia, mortificada.
—Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a mais estranha das occorrencias.
A tia sorriu satisfeita.
—Pois antes assim. E agora...
—E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um paraiso terreal.
—Espera, menino. Não vás sem almoçar.
—Almoçar! Pois que horas são?
—Não é cêdo; são já sete horas.
—Já sete horas!
E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.
—E então acha que se pode almoçar ás sete horas?
—Por que não? Se está já prompto.
—Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia. Principiemos por este.
Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.
Foi por elle que principiou o almoço.
Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado sôro, a que estava habituado na cidade.
D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o costume, continuadamente.
Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e paciencia.
Falaram em muitas coisas.
A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança, sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as aquella manhã.
Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o almoço apressou-se a sair para o campo.
—E se te perdes, menino?—lembrou a tia.
—Se me perder, farei por achar-me.
Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres pensamentos.
Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas, sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços, creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se dirigiam todos os olhares.
Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.
Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique entrou na repartição.
Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de posse s. s.a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.
Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o nome de Henrique.
Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e, achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio não chegára ainda.
—Saiba v. s.a que ainda não—respondeu o sr. Bento Pertunhas—mas não deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.a ahi vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de latinidade.
—Ah!...
—É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão era a musica. Eu ainda queria que v. s.a me ouvisse tocar trompa, que é o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.a se demorar ha de fazer-me o favor...
—Com muito gôsto.
—Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!
—Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.
O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.
—Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que se tem falado no mundo! Se é que se falou—accrescentou em voz baixa.
—Então duvida que se falasse latim?—perguntou Henrique, sorrindo.
—Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois—continuou elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação—e depois as differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor; diz-se regnum e regna e regni e regno e regnis e até regnorum. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!
Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar, depois do que ouviu.
—Ai, meu caro senhor—continuou o atribulado magister—eu se me vejo um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.
É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a Virgilio.
Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia Virgilio 1.º, 2.º e 3.º, como quem se refere aos monarchas homonymos, que succederam n'um mesmo reino.
—Não me salvo se morro mestre de latim—proseguia elle.—Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe.
Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta, principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não comportava mais ninguem.
—Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi vem!—diziam todos á uma.
O funccionario principiou a impacientar-se.
—Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer? Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem logar. Não vêem que estão molestando este senhor?
Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, como se lhe valesse algum especial privilegio.
—Saia você, mulher—dizia um.
—E você por que não sae? Olha agora!
—A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá por estar aqui não é que...
—Pois então saia tambem. Ora essa!
—Ó santinha, não empurre.
—Ó filho, quem é que lhe faz mal?
—Por onde é que se quer metter, homem de Deus?
—Eu não sou menos que os outros.
—Que quereis vós d'aqui, canalhada?
—Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.
—Espera que eu te falo.
Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a alvoroçada anciedade do povo.
Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia da vida de cada um.
Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os pezares!
Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.
Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.
Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que lhes dominava os animos.
Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a Henrique:
—Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.
Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.
—Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?
—Ah! pois já as espera hoje?
—Não é provavel; porém...
Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.
Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.
A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
—Luiza Escolastica, do logar dos Cójos—lia mestre Pertunhas.
—Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!—exclamou uma mulher joven, apoderando-se ávidamente da carta.
—Joanna Pedrosa, de Serzedo—continuava elle.
—Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?—disse uma velha, pobremente vestida.
—Será do seu Antonio, será—respondeu o insensivel funccionario;—o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
—Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella—disse um dos circumstantes.
—Coisas do mundo!—respondeu outro.
Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.
—João Carrasqueiro.
—Prompto, senhor—bradou um velho.
—A mezada, hein?—disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos oculos.—O rapaz não se esquece.
—Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.
—D. Magdalena Adelaide de...
—É a morgadinha, é a morgadinha—disseram a um tempo muitas vozes.
—Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação—disse o Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:
—Leve-lh'a a casa.
E proseguiu:
—Augusto Gabriel...
—É o mestre-escola...
—Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve tambem...
—João Cancella.
—É o João Herodes.
—Esse foi a Lisboa.
—Então, quando vier, que appareça.
—O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.
—Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.
A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu, redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario fechou a tarefa.
—E acabou-se.
Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel sorte.
Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.
Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra occasião, bastaria para o fazer doente.
Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.
Parou a certificar-se.
Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde tentava passar, que se estava falando.
Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade.
Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.
Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço do immovel quadrupede.
A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do rancho.
Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique, as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio.
Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos antes, vira na casa do correio.
Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.
Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave, elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi dar nome apropriado.
Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos, porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular, se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.
Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse; olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar; coração, que não se perturbasse na sua presença.
Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas delicadas.
Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.
Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o carinho com que ella o fazia.
Henrique applicou a attenção.
—...«E por isso, minha mãe»—lia ella—«se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»
Aqui a leitora parou para perguntar:
—Então que historia é esta das arrecadas, Anna?
—É, senhora, que o aluguer estava vencido...
—E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?
—Ora, senhora, bem basta o que...
—Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda a coragem!
E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.
Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre mulher, a quem era dirigida.
Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de filho para mãe; outra de noivo para noiva.
Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.
A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era evidente que estava exultando de jubilo.
Com esta terminou a leitura.
Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma castellã rodeada dos seus vassallos.
Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.
Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por entre as arvores do caminho.
Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?
Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo; tinham dispersado.
Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.
Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.

IV

V

Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis, difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.
Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas mulheres assim, é uma belleza subjectiva.
De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão, mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha—que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava contraste completo com sua prima.
Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.
D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á tia.
Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora classificára como mania.
Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
Henrique tornou para ella os olhos.
—Ó menina, de que ris tu?—perguntou D. Victoria, com certo tom de severidade.
—Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? Ora diga?
—Eu?... mas...
—Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...
—Então não crê na realidade d'ellas.
—Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações. É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o pode olhar a sério.
—Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.
—Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.
—Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...
—Ah! tambem?—Com esse aspecto de robustez?!...
—Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!—disse D. Victoria, que não tinha percebido bem o dialogo.
—É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode curar-se.
—Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.
—Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...
—Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso renuncio á cura.
—Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...
—Acabe.
—Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.
—Eu adoro as sinceridades.
—Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo... desaffectado.
Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.
—Então acha?...
—Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e perdidos.
—Ó meninos, eu não vos entendo—repetia D. Victoria.
Magdalena sorriu.
—Digo eu que...
Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.
—Sempre chegou o correio!—exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo as cartas.—Por que veio tão tarde?
—A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...
—Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
—Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a a correr.
Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
—É de meu pae—disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir licença, começou a ler para si.
—Pois agora—dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique—o que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Christina?
—Eu! disse Christina, córando.
—Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...
—Á Senhora da Saude, mamã.
—Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...
—A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a pé—notou Christina do lado.
—Isso é por os açudes.
—Pois por onde haviamos de ir?
—Por a Granja, que é melhor.
—Por a Granja! É uma legua!
—Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.
—Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr. Henrique...—disse Christina, embaraçada ao continuar.
—Eu o quê, minha senhora?
—Perdão—interrompeu D. Victoria.—Por que não has de tu chamar primo ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?
—Por isso mesmo, mamã,—respondeu Christina—os sobrinhos da tia Dorothéa não são...
—Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,—acudiu Henrique—eu acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus primos.
Christina baixou os olhos, sorrindo.
Henrique proseguiu:
—Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.
—Não tem que saber—disse D. Victoria, caminhando para uma janella.—Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.
—Tendo duas tão galantes companheiras de viagem—tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou—parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.
—O que eu lhe digo, primo—accrescentou D. Victoria—é que se acautele, porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.
—Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus a morte.
—Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento—disse Magdalena, que continuava a ler.—Logo ajustaremos contas.
—É implacavel esta nossa prima, não acha?—perguntou Henrique, sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.
—Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para mim, e depois estes criados...
Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta:
—Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.
As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.
D. Victoria zangou-se.
—Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a sua obrigação!
As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o seguinte:
—Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!
—Pschiu! Calae-vos!—bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para Magdalena:—Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que vem...
—Nas vesperas do Natal.
—Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
—Depois dos Reis.
—Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...
—O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?
—Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...
—Não ha nada menos confuso... É só isto.
—Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...
—Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque...
—Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre promptos para desculpal-os. São elles...
—Ó Lena, Lena—diziam as creanças—o primo Angelo não torna para Lisboa?
—Ha de tornar.
—Ora!
—Olha lá, ó Lena—disse D. Victoria—sabes tu o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...
Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:
—Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.
D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos labios.
—Saiam d'aqui!—exclamava ella, quando conseguiu estar séria.—Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então, Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!
A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.
A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.
Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe affectuosamente:
—Ora ahi está o que é muito bem pensado.
—Pois sim, sim, mas o peor é... os criados—disse D. Victoria.
—Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Dorothéa.
—Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam os de cá com a Maria.
—Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, melhor—aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.
—Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já não estou. Então, não.
—Está resolvido—disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da tia.—Aqui o sr. de Souzellas—accrescentou, com maliciosa inflexão—fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.
—Acceito da melhor vontade.
—Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....
—Ó menina, tens coisas!—disse D. Victoria.—Deixe-a falar, primo.
—Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.
—E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os pratos em que puzer a mão. Que mais querem?
Foi alegremente acolhida a promessa.
As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, difficultando-lhe as respostas.
—Havemos de jogar o rapa, não havemos?
—Havemos de jogar, havemos—respondeu Henrique.
—E o par ou pernão?
—Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.
—E?...
—Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
—Olhe: e sabe contar historias?
—Sei tambem contar historias.
—Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.
—Ora, o sr. Henrique já as sabe—disse, fazendo-se sisuda, Marianna.
—Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.
—Ó meninos!—exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.—Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá confiança, está arranjado, primo.
—Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; pegam-se.
—E não o diga a brincar—disse Magdalena—que tambem confio n'essas creanças para o curarem dos seus males.
—Então devéras emprehendeu curar-me?
—Com toda a certeza.
—N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.
—Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido com fé, e cega.
Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.
—Lena—disse ella—que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?
—A das consoadas? Excellente.
—Não, menina, a do passeio á ermida.
—Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.
—Quando queres?
—Depois de ámanhã, que é quinta feira.
—Seja.
—Que diz, primo Henrique?
—Quando quizerem, primas; agora mesmo...
—Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?
—Pois não viu hoje?
—Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que se levante ás horas, a que se deitava na cidade.
—Que estás a dizer, Lena?—acudiu Christina.—Deixa-a falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco horas.
—Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.
—Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou valetudinario.
—Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui muita indolencia.
—Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora havemos de vêr—disse Christina.
Magdalena poz-se a rir.
E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos de vista.
Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que promettera á tia Dorothéa.
Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.
Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.
Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira de D. Victoria.
Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a immortalidade.
De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no eden, onde a mão de Deus o collocára.
—Anda, vagaroso, anda—disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu chegar.—Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.
—Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
—Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?
—É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A morgadinha, sobretudo, é adoravel!
—Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa malicia.
—Que quer dizer, tia?
—Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preoccupado e distrahido no resto da tarde.

VI

VII

O dinheiro paga tudo,
Não se fica a dever nada;
Toma, toma o limão verde,
Ó da fresca limonada.

VIII

IX

Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.
Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.
O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que o almoço estava prompto.
—Pois devéras temos um almoço?—exclamou Henrique, sinceramente surprehendido.
—Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o appetite—respondeu Magdalena. E logo após continuou para Henrique:—Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena fingiu não perceber.
E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das iguarias convidavam.
Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido, correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á cozinha do Mosteiro.
Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.
Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com vontade das que ouviu a Augusto.
A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
—Bravo!—exclamou, depois de as ler para si—não imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir?
E leu:

Se estás mais perto do céo
N'estas alturas da serra,
Ai, porque tens, peito meu
Inda saudades de terra?
Em vez-de erguer os olhares
Á luz d'este firmamento,
Desço-os á sombra dos lares,
Onde tenho o pensamento.

Em vez de erguer os olhares.
Á luz d'este firmamento

Os abaixaria aos lares
Onde tenho o pensamento.

X

XI

XII

O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e conversando com aquella familiaridade, tão sabida de candidatos a procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. Até chegou a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu.
Não se lhe percebia porém no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle tão apparente a superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de côrte: presença agradavel, modos insinuantes, palavras tão astuciosamentelisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as tinham.
Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos e suissas, que usava talhadas á moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas fórmas certa rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia distincta de casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas, havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que não perdera ainda.
Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lançado sobre elle.
Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a parte, desde o mais perfumado gabinete da moda, até o menos asseiado local de um comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafés com rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem á vontade, acabando, quasi sempre, por captar sympathias.
Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, a phrase conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga energicamente expressiva; mas, como os espadachins de profissão, jogava-as todas com frieza de animo, cada qual na occasião opportuna e com perfeita observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes.
Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères,que, a cada passo, ahi encontramos no mundo; illudia os mais atilados. Ás vezes parecia abrir-se tão do intimo, tão completamente e sem condições nem reservas, havia tal uncção de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras, falava verdade, mas com taes hesitações na voz, com tal mobilidade no olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creança experimentaria o despontar da primeira dúvida.
Já se vê que um homem d'estes era um contendor de muita fôrça, para poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudéra contra elle; nem ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido.
Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.
Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae á porta da venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.
Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com aquelle alvoroço do coração, que conhece quem já foi estudante e se recorda ainda do que experimentava ao vêr de longe despontar o telhado da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas férias.
Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas feições um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao mesmo tempo attrahente do conselheiro.
O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis naturaes, com grande vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte.
Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do Mosteiro estavam todas obscuras, á excepção das aguas-furtadas, correspondentes aos quartos das creanças. Angelo desmontou e cautelosamente se dirigiu a pé para casa.
Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe acontecia.—Angelo pôde assim penetrar sem ser percebido até o mais intimo da casa, até os aposentos onde dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára luz.
A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no coração uma suave e encantadora alegria.
O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava meio nú e de joelhos sobre o leito com as mãos erguidas e os olhos fitos em um crucifixo que tinha á cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe as palavras da oração, que a creança repetia, cheia de fervor.
Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar das continuadas advertencias da prima.
Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou tambem um beijo nas faces da irmã.
Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e cingiu-o nos braços com effusão.
A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e correram a abraçar Angelo.
—Vens só?—perguntou Magdalena ao irmão, quando uma pergunta lhe foi possivel.
—O pae ficou na loja do Canada—respondeu Angelo.—Estava em sessão a assembleia dos notaveis. E como estás tu, minha Lena, tu e Christe e a tia? Como vae toda essa gente?
—Anda tu mesmo sabêl-o.
—Eu vou dizer á mamã—disse Marianna, saindo aos saltos.
—Eu vou chamar Christe—disse Eduardo, imitando-a.
E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.
O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se tornar a levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.
—Dize-me—continuava no entretanto este para a irmã—tens-te enfastiado muito, aqui só?
—Não, tenho-me divertido até.
—Devéras? E que fazes? Em que passas o tempo?
—Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio muito; trabalho mais.
—Que tens lido?
—Quasi sempre relido.
—O quê?
—Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a mão, quando os vejo sobre a mesa.
—O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?
—Todos os dias.
—E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?
—Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; valeu-lhe o Augusto para o salvar.
—Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa?
—Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas; conheces?
—Eu não.
—É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe chamemos primo. Aviso-te d'isso.
—Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?
—Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que com muita ingenuidade se me veio queixar de que ella até o anjo da guarda lhe occupava em serviço proprio. Tu sabes que a tia, quando está com muito somno, tem aquelle costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas. Mas vamos.
—Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?
—Trouxe.
—É verdade; e a filha d'elle? A Lindita?
—Já cá me ia tardando a pergunta—notou a morgadinha, rindo.—Essa anda contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.
—Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.
—Então devéras esse coração está assim tomado?
—Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d'aqui vou. Cá me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que estado m'o entregas?
—Muito doente.
—Sim? E o teu?
—O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto decorações são como as creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu coração é um modelo de serenidade.
—Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...
—O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediações, capaz de ferir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o sr. Joãozinhodas Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que...
—É verdade—disse Angelo, rindo—lá vi tambem esse javali na venda do Damião Canada. Mas...Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de dizer umas coisas.
—A mim? A respeito de quê?
—Do teu coração.
—Que sabes d'elle?
—A seu tempo direi.
—Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios? Não tinhas isso, quando d'aqui foste.
—Ás vezes vê-se melhor de longe.
—Os de vista cançada... de muito vêr.
—Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não tarda ahi.
De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braços, tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficara pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.
A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas, familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia.
Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que para todos é de igual interesse a narração dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de tres annos, os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato favorito, as razões ponderosas que aconselharam a mudança de um movel, a combinação economica que favoravelmente modificou o orçamento domestico, a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas coisas, que é forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o que obriga a esforços sobrehumanos.
É natural aquella illusão; e pathetica a dissemos nós tambem, porque os que mais decoração se entrega má vida domestica, são os mais sujeitos a ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a imaginação de romancista fecundo. E quem se lembra de que é individualissimo esse interesse, inherente á pessoa e não aos factos, ás causas que tão curiosos lh'os fazem ser?
Eu e o leitor, estranhos á familia do Mosteiro, vêr-nos-iamos, se fôssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posição da pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios domesticos, a que sobre tudo são tão inclinadas as mães de familia.
É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse curioso é porque realmente o era. D'esta vez, porém, damol-o por suspeito, porque o conselheiro tinha coração e,quando esta viscera se alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas sympathicas fraquezas.
O politico, o diplomata reservado, fica fóra do portão da quinta do Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque em todos confiava, contente por não ter de estudar na expressão dos rostos os pensamentos que seguardam; nas palavras o sentido, que n'ellas não vem explicito.
Era um salutar descanço dos continuados esforços da sua vida de Lisboa; lá a lucta; aqui o repouso.
Por isso ouvia com attenção e applaudia com vontade as narrações da cunhada, de Magdalena, de Christina e até da pequena Marianna.
E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro não poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso movimento da sua vida politica.
Eram-lhe já necessidade aquella contenção, aquelle esforço de espirito, aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe tomavam em Lisboa todo o tempo.
Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.
A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no coração; cêdo, porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia, e de novo nos arrasta.
O caracter intimo da conversação foi levemente modificado por a entrada de D. Dorothéa e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram visitaro conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada.
O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa. Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, por mais de uma vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e discussões communs.
Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o serão animou-se de novo, fragmentando-se porém a conversação.
D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa e passou a fazer-lhe amargas queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorothéa acudiu com conselhos de resignação christã.
Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia rir.
Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, estavam empenhados n'um dialogo muito animado.
O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por esta face.
—É uma triste verdade—dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto adeantado da conversa, referindo-se a algumas considerações de Henrique sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.—Tenho esta familia que vê; todos me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á fatal necessidade que me arranca de todos estes braços para me lançar ao turbilhão da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devéras a minha Lena, creia.
—É um dever que cumpre. N'estes tempos de má fé politica, quem se sente com a coragem de se votar, corpo e alma, á defeza despreoccupada dos bons principios...
Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de descrença, meio de melancolia.
—Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer—respondeu elle.—Olhe, Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo, vae vêr em mim o homem que talvez não esperasse e que, já lhe digo, debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa. O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o repetirei lá. É verdade que estes ares do campo tambem actuarão em si para me apreciar e tomar á boa parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se por acaso não a aproveitasse como arma politica contra mim...
—Pois julga?...
—Peço perdão, se o offendi com isto. Não eraesse o meu intento, mas é pratica tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe não desejo, dir-me-ha.
Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversação.
Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:
—Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que não sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no Mosteiro, acho-me muito ás ordens da minha consciencia, a qual não me deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria partido. Porque, qual é o que vê nas condições de constancia de opiniões que disse? Tenho crenças politicas, é verdade; espóso no coração certos principios que quizera vêr realisados, mas não combato por elles a todo o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro em transacções, que são a completa negação da divisa da minha bandeira. E este peccado não sou eu só que o commetto; é um peccado venial da nossa época. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para sustentar umas insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fóra nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me persuado de que não são de todo desculpaveis? quando... porque o não direi? quando sinto remorsos de os ter commettido? É aqui, é perante a boa fé, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que me considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante os generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella creança—e indicava Angelo com o gesto.—Parece-me que tenho n'elles juizes inflexiveis, eescondo por isso a minha face politica dos seus olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo é já indulgente, mas que receio elles me não perdoassem.
Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:
—Estou a vêr que não esperava estas palavras da minha bôca; esta confissão de peccador contricto.
—Confesso que não.
—Então que quer? Surprehendeu-me aqui como coração aberto. Já agora deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual é? Vê aquella creança que alli está? Angelo? É uma intelligencia que, de dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. Não é a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha de dar-me razão. Mas o que ha além d'isso n'elle é um senso profundamente moral, raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando penso n'elle por algum tempo, e conjectura que não serão poucas as vezes em que o faço?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos a embriagar as intelligencia se onde presinto que a d'elle terá o direito, senão o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que na atmosphera d'aquellas regiões não duram muito estas primitivas canduras da alma, tão adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que Angelo será um dia... o que eu já hoje sou, um pouco desilludido, um pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais não valeria dizer-lhe: Angelo, vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfações do coração. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas não te fará feliz.
—Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a vida politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo credo?
O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:
—É difficil. Se um dia a fôrça das circumstancias realisasse, como um phenomeno natural, uma revolução completa nas camadas politicas do paiz a ponto de trazer á superficie de uma só vez uma geração nova, impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenças, então sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia, a inquinação que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a sós com os seus principios e com os seus esforços, insulados no meio de uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, após uma lucta impotente de momentos, ou se retirará, fiel aos principios, mas desanimado pela inefficacia da sua intervenção, ou ficará, cedendo á corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as massas. Só um d'esses caracteres de excepção, que são raros na historia do mundo, é que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de Angelo não chega o meu affecto paterno.
—Não o fazia tão pessimista, sr. conselheiro;—disse Henrique—conceda-me que julgue em demasia carregadas as côres do quadro que me faz. Eu não creio que a corrupção...
—Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxação, tibieza de fé politica, indifferentismo... em todo o caso será uma doença social. Assim abrandada a fôrça da expressão,nãoponha difficuldades em adoptal-a. Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.
—Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me não tenho ainda assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a égide de uma convicção profunda, pode...
O conselheiro interrompeu-o.
—Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? É aquella de que nos dá uma eloquente mostra a historia do aldeão do Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco montanhez, e escudado só da sua boa fé, achar-se de repente no meio de um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra; vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel á austera e rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas longas horas de vigilia e de estudo, que lá teve; cair embora, mas cair fiel á consciencia, como um leal cavalleiro da idade média caía pela dama de quem trazia a divisa: é uma especie de lucta, para que não abundam lidadores, e nem sempre se deve lançar o labéo de traidores aos que mentem á sua antiga profissão de fé. A maioria cede com boas intenções. O perigo está em chegar a persuadir-se de que as suas convicções eram sonhos, em perder oamor ás utopias. Eu confesso que só quando aqui estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro tempo lhes tive.
N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação especialissima, reguladorada propriedade rural, fomenta estas disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as miserandas victimas.
Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.
O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica abstracta, sentiu, na presençado recem-chegado que de novo o abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica, sob a feição mais mexeriqueira que ella pode revestir.
Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça ou vontade dos representantes.
Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.
Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores; reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de Christina.
D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa, e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas consoadas.
Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o Tapadas:
—Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso é que eu não transijo. Ninguem é mais condescendente do que eu, menos no que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo, levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graças a um preconceito tolo, á má fé de alguns padres, á frouxidão das auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da igreja onde a extrema devoção d'este povo accumula em certos dias, durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto, com isso não transijo. Hei de acabar com o abuso.
—Pois sim... mas agora na occasião das eleições... sr. conselheiro, não sei se faz bem.
—Para compensação trataremos de apressar o principio das estradas; tambem o pude conseguir.
—Inda assim... Receio alguns motins.
—Reprimem-se.
—O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa arma contra nós.
—Quem?
—Ora! não falta quem. Basta o missionario, que já prégou contra isso.
—Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia. Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao ouvido d'esse tal missionario...O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum canonicato? É preciso vêr isso.
—Elle diz que não quer nada.
—Bem sei, todos dizem o mesmo—disse o conselheiro,com a sua descrença de homem politico.
Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto aopinião publica era, por toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo não estavade todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeição ao conselheiro obrigava-o a digerir a disposição legal, conforme podia.
Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:
—Vem em má occasião a medida, vem; é arrojadapara épocas eleitoraes; se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso não transijo.
Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique voltou com a tia para Alvapenha.

XIII

—Que lamentavel tragedia,
Que os meus olhos tristes viram!
E publicam minhas vozes
Aquelles que não ouviram!
E principalmente o rei,
Que se chama o rei tyranno,
N'esta região remota
Do Egypto dilatado.

—Que lamentavel tragedia
Que meus olhos tristes viram...

—Tenho mil linguas, mil bôcas...

—Tenho mil linguas, mil bôcas...

Sabei que aquelle Herodes,
Lobo cruel carniceiro,
Tremendo de inveja pura
Lhe venham tirar o reino...

Feria raios de fogo
De seus olhos com mudança;
E só pretende fazer
Alvo da sua vingança.

Que quantos até dois annos
Em Belem fôssem nascidos,
E toda a sua comarca
Matassem a ferro frio

Sem excepção a pessoa
Que nos districtos se achasse,
Entendendo d'esta sorte
Que nós lhe não escapassemos.

Para livrarem seus filhos
Da morte dos innocentes,
Dos braços faziam cruzes
Aquellas mães impacientes.

XIV

Ó infante suavissimo,
Vinde, vinde já ao mundo
Livrar-nos do captiveiro
D'este jazigo profundo.

XV

Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas. Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle cultivava.
Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.
A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.
O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos.
É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que á mesma hora se celebrava no Mosteiro.
De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos poucos que se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a habitação do velho.
Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs, nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na confecção da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do Porto de promettedora côr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados nas explorações scientificas do velho, taes como caixas de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para alastrarem o chão.
Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes que, em attenção á solemnidade da noite, o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaía n'aquellas paredes nuas e caiadas.
Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se desembaraçado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem mais longe a associarem-se á sua mais lenta companheira.
Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia alheio a quanto o rodeava.
O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o braço estendido para o calice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio:
—Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creança?
—O quê, tio Vicente?—perguntou Augusto, inquieto.
—O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o coração: são dons do Céo, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabeça de fogo, mas coração de gêlo... todos os meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe servem; mas coração como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do Senhor.
—Não o entendo, tio Vicente,—disse Augusto, com manifesta confusão.
—Não! Olha para mim. E vê se te atreves a repetil-o.
Augusto baixou a cabeça.
O velho sorriu com ar de commiseração e sympathia.
—Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas que me não havia de custar, se não tivesse acertado?—E, depois de breve pausa, continuou:—Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim te deixaste enfeitiçar!...—E tomando o calice, que tinha defronte de si, disse com resolução—Quero beber á tua saude, Augusto, e para que em breve se te desfaça essa loucura.
Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão de Augusto susteve-lhe o braço.
—Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz assim.
—Ah!—disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.
Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um não costumado rubor:
—Sim. Por que o não hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso sim. É uma adoração como aquella, em que de pequenos nos educam para com a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer que lhe diga? Vêl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenças que ella amima; soccorrer, com o meu óbulo de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa as dadivas da sua abençoada opulencia... e, ahi está; são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento. Leu no meu coração, disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas não viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este sentimento um enxame de esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se, porém, tio Vicente; vê agora que se enganou, não é verdade? Essas esperanças não existem. Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não me teria impellido a ambição pelo caminho de realisal-as? Não se me teem offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura maior.
O herbanario escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de quem não punha demasiada fé n'aquellas palavras.
—Aos vinte annos!...—disse elle por fim—sentir o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e verás... verás depois...
—Tem dez annos—disse Augusto, sorrindo.
—Dez annos!
—É verdade. De creança a conheço, a paixão que diz; por isso confio n'ella. Tenho fé em que se não transviará.
—Dez annos!—repetia o velho, admirado.—Porém... ha dez annos...
—Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma pobre creança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Saí d'aqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia, n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanças, muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia á parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicações ás pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue ás creanças. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma turba de creanças elegantes, que se me figuravam de uma essencia superior á minha. As creanças são desapiedadas, quando assim em companhia. Cêdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexões a meu respeito, cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas, dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto, de minha mãe; e achei-me alli tão só, tão sem conforto nem amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição de rapaz aldeão, quasi me pareceu de intervenção divina. Abriu-se a porta e entrou na sala uma creança, que eu não tinha ainda visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe disse ao ouvido. Ella correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.
—Não conhecias já da aldeia, Magdalena?—perguntou o herbanario.
—Não; minha mãe veio para aqui no anno em que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que os reflexos d'aquella suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha mãe; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança o coração. Com ella não senti mais aquelle acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com tanta deferencia e attenção, que me inspirava coragem, e julgo que me estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus desdens e acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. Já uns me lançavam os braços ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e cêdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creança...
—Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o não soubesse. Não podia deixar de ser ella—exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a illuminar-lhe o olhar.—Era ella; sempre assim foi!
—Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significação moral. Pois não é mais apreciavel n'uma creança esta prova de superioridade de caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o calculo a impõem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo espontaneidade. Desde então a adoro.
O herbanario parecia não ter já animo para sorrir.
—Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. Tão novo!
—É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia progressos no discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo ar de gravidade, que aquella creança já então tomava, perguntou-me, no meio de uma conversa propria de creanças: «E sente-se com genio para ser padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia. Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde então m'a repetia sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era, como sabe, vêr-me padre. Mas em vão! foi desde então uma dúvida constante com que luctava. Com a morte de minha mãe tudo mudou. Pela primeira vez respondi á interrogação, que havia tanto tempo dirigia a mim proprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu passado.
—E por que disseste «Não»?
—Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto.
—Só? Não te illudirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Estás bem certo de que não ha uma esperança dentro do teu coração?
—Se a tivesse...
Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cêdo batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fóra:
—Está acordado ainda, tio Vicente?
O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena.
Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retêl-o.
—Onde vaes?
—Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. Não estou preparado com a minha indifferença.
—Pobre mascara!—N'esse caso sae pelo quintal.
—Tio Vicente!—repetiu Magdalena, de fóra.
—Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera—continuou em voz baixa para Augusto:—dá-me a tua palavra que não escutarás.
—Dou; mas... promette que nada lhe dirá?
—Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, quanto mais... Adeus!
Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da rua á morgadinha.

XVI

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
XXIII


ROMANCE
III
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
Vol. II

CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337

JULIO DINIZ

A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES

(CHRONICA DA ALDEIA)


DECIMA-SETIMA EDIÇÃO

LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920

A MORGADINHA DOS CANNAVIAES


XVII

XVIII

Não ha vida mais inquieta,
Nem mais cheia de cuidados,
Do que a de um rei que pretende
Conservar os seus estados.

Começarei desde logo
A publicar leis tyrannas,
Que aterrem os meus montes,
Os palacios e as choupanas.
Será tal o meu furor,
Tal a minha indignação,
Que ninguem se atreverá
A conquistar meu brazão.

Não temas, ó rei cruel,
Que te conquiste o docel.

Porém o furor me incita!

O brio dá-me ousadia.

Para defender o sceptro
A favor da tyrannia!

Será cada lança um raio!

Cada espada um corisco,

Cada soldado um trovão,

Cada golpe um basilisco!

Não se pode ter criados
Hoje em dia, n'esta vida,
Ou quem houver de os ter
Não lhes deve dar guarida.

O meu amo, com ser rico,
Gosta d'estas patuscadas.
Nunca os senhores tiveram
As pitadas tão baratas.

Jesus, Jesus, que é isto?
Jesus do meu coração!
O signal da cruz me livre
De tão terrivel visão.

Desci dos celestes córos,
Por Deus mandada a escutar
Da infancia as queixas e os choros,
Para lh'os ir confiar.
Desci. Na terra, nos mares
Tanta miseria encontrei.
Que os meus magoados olhares
Da terra e mar desviei.
Desci. E tantos gemidos,
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quiz recuar... mas desci.

N'esta colheita de dôres
Pelo mundo todo andei,
No pranto dos peccadores
As minhas vestes molhei.
Vagueando dias e dias,
Chegára á Judéa emfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.
O sol, o sol inflammado
D'estas terras orientaes,
Tinha no disco afogueado
Não sei que estranhos signaes.
Soavam menos distantes
Sinistros brados de dôr,
Choros de mães e de infantes,
Cantos de morte e terror.
Vi anjos de azas nevadas
Em bandos subir ao céo,
Quaes pombas amedrontadas
Fugindo á voz de escarcéo.
«Onde ídes? Quem vos persegue?
A que tormentas fugis?»
Um, que triste o bando segue,
Estas palavras me diz:
«Somos as almas de infantes
Mortos em guerra feroz;
Inda das mães delirantes
Nos chama a sentida voz.
«Só a materna saudade
Nossa carreira detem,
Embora no céo, quem ha de
Esquecer, o amor de mãe?»
Disse e o semblante formoso
Com as azas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.
Eu segui. Na impia cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!

Que scena! Corre nas praças
Sanguinaria multidão,
Como nuvem de desgraças
Semeando a desolação.
Cáem por terra sem vida
Tenras creanças ás mil,
E uma turba enfurecida
Corre á matança febril,
As mães pallidas, chorosas,
Supplicam, pedem em vão!
N'essas feras sanguinosas
Não palpita um coração.
Outras tentam em delirio,
Os seus filhos disputar,
E com elles no martyrio
Gostosas se vão juntar.
Sobre a terra ensanguentada
Eu soluçando, ajoelhei,
E de intensa dôr magoada,
A Deus piedade implorei.
Findava a prece, e uma estrella
No horisonte despontou,
Pura, scintillante, bella
O caminho me traçou.
Á humilde e escondida estancia
Da venturosa Belem
Cheguei; vi um Deus na infancia
Nos ternos braços da mãe.
Minha colheita de dôres
N'aquelle berço depuz,
Da humanidade aos rigores
Pedi remedio a Jesus.
No olhar do divino infante
Raiou a luz e fulgor,
Foi a aurora radiante
Que annuncia um redemptor.

XIX

Viva a senhora D. Dorothéa,
Raminho de bem-me-queres,
Quando põe a sua touca
É a rainha das mulheres.

Viva a senhora Maria,
A perola das criadas,
Quando se chega á janella
Ficam as estrellas pasmadas.

XX

—Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!
A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
—Meu Deus! Isto que é, meu Deus?—exclamava, mais assustado, o pae.—Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?
E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação d'aquelle doloroso mysterio.
Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais commovido:
—Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim? Fala!
E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.
Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto.
Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.
Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.
É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.
Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta descoberta lançou o coração d'aquelle.
Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de ambos.
A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do Cancella.
Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe amontoavam no coração:
—Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É com este desamor?! e com esta ingratidão?!
—Meu pae! meu pae!—implorava Ermelinda, suffocada pelo pranto.—Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A vaidade é um peccado grande.
—Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? Fala!...
—Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!
—Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
—O missionario...—ia a dizer Ermelinda.
O pae não a deixou proseguir.
—Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus...
—Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.
—Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus, e eu não o reconheço nem adoro!
Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.
—Por amor de Deus—murmurava ella, com a voz chorosa e quasi sumida—por alma de minha mãe!...
—Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora!
E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.
—Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!—dizia ella.—Se soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da minha alma, porque...
—E foi tua madrinha que t'os cortou?
—Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do Cancella.
—Querem matar-me a filha—bradava elle.—Ó meu Deus! pois não é isto um grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem traz assim o desespero ao coração de um pae.
E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia oração, quasi extatica, quando o pae entrou.
—Coração de Maria!—disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para si.—Coração de mãe, e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres—continuou allucinado, voltando-se para a imagem—e se não podes ser adorada senão assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!
E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços no pavimento.
Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.
Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua benta, bradando:
—Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.
Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a levou de rastos á outra sala.
Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo despedaçava ou rasgava.
N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver.
Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
A sr.a Catharina parou.
—Que vem fazer aqui, mulher?—dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
—Eu...
—Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares, onde metteu a tristeza?
E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava outro.
Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.
—Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:
—Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!
Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.
A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia.
—Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto. Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella precisa.
E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.
Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára de falar.
Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. Ermelinda tinha aberto os olhos.
Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o aspecto d'elle lhe causasse terror.
—Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com maior consternação na voz e no olhar.
Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
—Deixe a pequena!—disse a beata—não vê que lhe faz mêdo? E com razão, pobre creança! depois do que viu!
—Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?—repetiu timidamente o pae.—Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
—Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que desgraçado que eu sou!...
A scena era bastante commovente, para que se não sentissem impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do infeliz, em quem entrára o desespero no coração.
Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.
Ouviram-se perfeitamente estas palavras:

Vinde, vinde, ó missionarios,
Com a palavra de Deus
Libertar-nos do peccado,
Encaminhar-nos aos céos.

Minha alma por vós anceia,
Ó ministros do Senhor!
E o meu peito em chammas arde,
Em chammas do vosso amor.

XXI

XXII

Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam.
Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de familia.
É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para os actos domesticos.
Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e penosa impressão que lhe ficára da leitura.
Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom já apparentemente sereno:
—Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas não se pronuncia claramente.
N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de manhã os fogões da casa.
Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
—Aqui entre nós—dizia Henrique—vejamos em quem se pode, com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta o Mosteiro...
E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para elle com um gesto espantado:
—Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.as livres para me instaurarem processo.
—Ora essa, primo Henrique!—exclamou D. Victoria.—Era o que faltava! Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este episodio.
Henrique proseguiu:
—Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações, porém...
Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, antes de enuncial-a.
—Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
—Diga, primo, diga—acudiu logo D. Victoria.
—A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores velhas...
—Então julga que foi o Vicente?—perguntou D. Victoria.—Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
—Não digo que fôsse elle, minha senhora—disse Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse lendo o pensamento.
—Então?—insistia D. Victoria.
—Mas—proseguiu Henrique—o velho exerce certa fascinação na gente da terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte.
—Faz bem em o abandonar, primo Henrique—disse Magdalena, com severidade.—Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar.
—Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.
D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:
—Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.
Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.
Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.
A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.
—Muito bons dias, sr. Augusto,—disse D. Victoria affavelmente—então são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!
—Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte das minhas obrigações—disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e Henrique.
—Como?
—Pois v. ex.a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu logar?
—Que me diz?
Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.
D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O gesto de Henrique tinha uma expressão particular.
—Recebi ha dias a participação official—continuou placidamente Augusto.
—Mas—proseguiu D. Victoria—o mano tinha aqui dito que o seu despacho estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos...
Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.
—Bem vê v. ex.a—disse Augusto, com leve tom de amargura—que ás vezes ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.
Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.
A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe manifestou na contracção da fronte.
—V. ex.a dá-me licença que principie os meus trabalhos?—disse Augusto.
—Ai, quando quizer—respondeu D. Victoria.—Os pequenos estão na sala verde.
Augusto saiu.
D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.
—Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um homem—dizia ella.—Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.
E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do filho.
—Não vejo ...—disse ella, remexendo os papeis.—Isto que é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.
Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.
—Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não entendo, mas hão de estar bons.
E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma attenção.
—Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a leio... Quer vêr?
Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos filhos.
Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.
Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a impressionou:
—Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças não a comprehenderiam bem.
Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a ler.
Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim.
Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.
D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.
—Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
—É que ha momentos, minha tia,—respondeu Magdalena, fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas—em que eu não sei como se resiste á loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que protege os bons.
E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos soluços.
D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que ella não podia comprehender.
Henrique respondeu simplesmente:
—Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.
D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da resposta.
—Mas... n'esse caso... visto isso...
—Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de verdade.
D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:
—Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...
—Eu retiro-me—disse Henrique, pegando no chapéo para sair.
—Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...
—Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.a e elle, e, se me é licito um conselho, bom será que não seja demasiado violenta.
Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.
Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?
Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que commettemos um mal, formulando uma accusação.
Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.
D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.
Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que lhe esquecêra na sala.
—Que procura?—disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.
—Uma pasta que deixei aqui!
—Será esta?—disse D. Victoria, mostrando-a.
—É essa mesma—respondeu Augusto, indo para buscal-a.
—Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. Augusto?—perguntou D. Victoria, retendo a pasta.
—Muito bem, minha senhora.
—Já entenderam esta carta?
Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.
—É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.a me deu.
—Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que fez, para se mandar pagar.
D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito.
Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia comprehender aquellas singulares palavras.
—Diz v. ex.a que...
Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:
—Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia nem o que queria dizer tudo aquillo.
—Mas, por amor de Deus, minha senhora,—disse elle, já sobresaltado—que quer dizer tudo isto?
—Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em esconder as provas da sua villeza.
—Minha senhora!—exclamou Augusto, fazendo-se pallido.
—Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a carta.
—Oh, meu Deus! pois suspeita-se...
E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.
Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:
—Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o mundo...
Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e scintillou-lhe o olhar de cólera:
—Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame, uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...
—Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos—disse D. Victoria, interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.
Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:
—Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia tão cêdo.
D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.
É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, commovida.
Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios.
Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.
—Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não succumbir;—exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o rubor da exaltação—obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.
Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.
Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.
—Espere,—disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda melancolia—não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente.
Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.
Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a estender-lhe a mão.
Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.
—Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!—exclamou elle—precisava d'essas palavras para não enlouquecer.
—Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente.
—E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa generosa confiança. Juro-lh'o.
As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando Christina entrou na sala.
Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos dois.
Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.
Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando correr livremente o pranto.
Christina correu a abraçal-a.
—Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?—exclamou Christina.
E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel ingenuidade:
—Pois tu... amaval-o?
Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.
E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.

XXIII

XXIV

XXV

Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.
As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.
Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.
Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára adoentada.
Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.
Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda devia ser sepultada.
O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, que as nuvens não toldavam.
A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior intensidade.
A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os combatia e censurava.
Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa inclinação que lhe era habitual em vida.
As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.
Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais formoso.
A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que morrem.
Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda da sepultura.
O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.
As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma [coisa por] entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.
Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.
Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o factotum Cosme.
Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:
—Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
—Esperem! Isso não vae assim!
—Não façam a festa sem nós!
—Fóra com os do cemiterio!
—Morram os pedreiros-livres!
—Para a igreja!
—Enterre-se na igreja!
—Olá, sr. abbade, espere por nós!
—Aqui vamos para abençoar a cova!
E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.
A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.
O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
—Que querem d'aqui?—perguntou elle, fitando-os—com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
—Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio—respondeu o sr. Joãozinho.
—É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!—confirmaram differentes vozes.
—Por quê?—continuou o padre—julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
—Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
—Eu não lhes reconheço o direito de querer.
—Ora o padre mestre tem vagares!—disse o façanhudo Cosme—e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d'ahi.
E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.
—A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!—exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.
Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares, que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres.
A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
—Viva o missionario!
—Viva o santo!
—Abaixo os pedreiros-livres!
E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
—Abaixo os maçonicos!
—Morram os jacobinos!
—Viva a santa religião!
Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.
A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento popular.
Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
—Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo estas pedras—bradou elle, apontando para o tumulo da familia do conselheiro.
—É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
—São invenções dos pedreiros-livres!
—É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
—Abaixo! Abaixo!
O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
Magdalena collocou-se deante d'elle.
Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da indignação.
—Afaste-se, senhor!—bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.
O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e ficou enleado.
Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca humana.
Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
—Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
—Ah! ah! Faz-se fidalga!—disse o sr. Joãozinho, despeitado.—Pois não anda bem.
O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de escutal-o, bradou:
—Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
—Abaixo!...—repetiram muitas vozes.
—Pois vá abaixo!—repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o machado.
—Para traz!—exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
O sr. Joãozinho sorriu.
—Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!—e soltou, ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
—Abaixo, abaixo!—repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda que fôsse á custa da propria vida.
Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a palavra «piedade».
O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
—Mau! se temos chôro, nada feito.
Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de profanação.
O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
Imitaram-n'o muitos.
Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da violencia.
Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns baixaram-n'os, como arrependidos.
O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a scena.
Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
—Tirem essa mulher d'ahi.
Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo popular.
Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.
Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.
Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no logar do motim.
Era tempo.
A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas luctas em que elle toma parte.
—Que é isto aqui?—disse o homem, rompendo com os braços potentes a onda que se lhe antolhava.
Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até ao meio do circulo.
Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
—O Herodes... É o Herodes!...—diziam, afastando-se.
Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o atormentara.
O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as ultimas noticias recebidas.
Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a acudir-lhe.
Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos cruzadas da creança.
Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
—Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.
—Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr assim!
E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
O Cancella continuava:
—Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
—Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha filha não me perdoou?
Magdalena respondeu a custo:
—Que tinha ella a perdoar-lhe?
—Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
E outra vez a estreitava nos braços.
Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com voz alterada:
—Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de minha filha morta?
—Queremos que elles a enterrem na igreja—responderam, já tibiamente, algumas vozes.
—Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
—Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha pobre filha!
E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez aquella de que mal podia separar-se.
Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.
Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
—A falar verdade—dizia um—este pobre homem tem alguma razão. Isto de metter scismas ás creanças!...
—E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
—Tambem é de mais.
—Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro os convocára.
Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de joelhos, suffocado em pranto.
As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita aquella idade, choraram tambem.
Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais desafogado pranto do que nunca.
A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. Responderam-lhe as creancas!
Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.

XXVI

XXVII

XXVIII

Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de um corredor pareceu-lhe divisar luz.
Henrique parou indeciso.
—Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre perguntarei.
E bateu as palmas.
Ninguem lhe respondeu.
Bateu outra vez; o mesmo resultado.
Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco brilhavam ainda uns carvões candentes.
—Parece uma historia de fadas!—pensava Henrique.—Dar-se-ha que a alma da morgada goste ainda das commodidades?
Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:
—Procurava alguem, o senhor?
—Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes.
—A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
—Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui ninguem.
—E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.a morgada.
—A sr.a morgada?—perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar da resposta e de tudo que via.
—Sim, senhor; a sr.a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.
—Ah! A sr.a morgada esperava-me?
—É verdade—disse a mulher, sorrindo.—Adivinhou que o senhor vinha aqui. E o que é que ella não adivinha?
Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.
—Então é a sr.a morgada em pessoa que...
—Que o convida para tomar uma chavena de chá—disse uma voz por traz d'elle.
Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras, que de tantos encantos a revestia.
Henrique exclamou, admirado:
—A prima Magdalena!
—A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.
—Mas como soube que eu?...
—Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem em recolher-se... Ouve?
E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.
—O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.
—O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros—notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio.
—Pois sabe que Christina vem?
—Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco hospitaleiro.—Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a cozinha está pouco habitavel.
Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de Souzellas.
—Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
—Pois não diz que sabe tudo?
—Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia de quem as fórma, repugne acceitar.
—Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?
—Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas doenças.
—De duas?
—Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.
—Então?
—A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia.
—Estou curado d'isso.
—Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era doença.
—Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
—Ah! e experimentou a receita?
—Experimentei e curei-me.
—Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são perigosas as recaidas.
—Pois teme que eu recaia?
—Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum accidente.
—É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios que prescreve.
—Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
—Confesso que algumas...
—E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.
—Desde o primeiro dia? Pois Christina...
—Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
—Querido anjo!
—Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua, timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem e mais fé no futuro.
Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para Magdalena:
—Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?
—E quem lhe disse que as tinha?
—Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a observam.
—Ah! Então leu?
—Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado n'ella. Cego, como eu fui.
—Não leria?—perguntou Magdalena, sorrindo.—Está certo d'isso?
—E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses.
Magdalena tornou, mudando de tom:
—É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
—E por que demora o tratamento?
—Pois parece-lhe que será urgente o caso?
—Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do que....
—Silencio!—disse a morgadinha, escutando.—Pareceu-me ouvir...
N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo em voz baixa:
—Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
—Então depressa—disse Magdalena.—Abra-nos o côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do côro.
Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem Christina e Torquato.
Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
Tudo ficou depois em silencio.
Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a devoção promettida.
Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim!
Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
—Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
—Não peça a Deus o que está na sua mão—respondeu-lhe em voz baixa Magdalena.
—Que diz?
—Está ou não sinceramente apaixonado?
—Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
—Crê na pureza d'aquelle coração?
—Como na dos anjos.
—Está convencido de que o pode salvar, ella?
—Não ha crédo que professe com mais fé.
—Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
—E consente?
A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
—Aqui tem o caminho—disse ella.—Siga-me. E, servindo-se da lanterna de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns passos, parou junto de um reposteiro.
—Agora faça o que lhe dictar o coração—disse ella para Henrique.
Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava por detraz d'ella, não o viu chegar.
Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
—Não tenha receio, Christina. Sou eu.
Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar explicações. Henrique accrescentou:
—Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha alma.
E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem ousára retirar das suas.
—Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de mãe, de irmã, e de...
—Henrique!...—murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada creança.
—É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
Christina tremia sem poder responder.
Magdalena entrou por sua vez na capella.
—Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique—disse ella.
Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e inesperadas apparições, correu para a prima.
—Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
—Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito terminantemente, a tua mão.
Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
—Não responderam os labios, primo,—continuou a morgadinha—mas falou o coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
—E disse?...
—Que havia de dizer? Que sim.
E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado.
Suppôz que almas penadas andavam na capella.
O bom do homem não ousava approximar-se.
Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
—Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita intimidade.
—Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!—disse Henrique.—Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
—É verdade, como foi que vieram aqui?—perguntou Christina, já mais desenleiada.—Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O que merecia!...
—Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
—N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a indiscreção—disse Magdalena.
—Que é?—tornou a prima.
—É a discreção.
—Então por quê?
—Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que a verdade.
—Eu...—ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o interrompeu.
—Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
—N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
—Que hei de eu dizer?
—Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
—Ora, já o sabem.
—Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
—Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
—Que diz, primo Henrique?
—Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
—Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida por um sentimento de piedade e de...
—Lena!
—Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
Christina poz-se a rir.
—Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
—Eu?!
Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
—Se eu o soubesse!...
—Eu... eu não disse... eu... só disse...
Henrique tomou a palavra.
—Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
—Eu? Soube-o tambem do Torquato.
—Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
—Isso é que não. Eu não disse á sr.a D. Magdalena... Ella é que...
—Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o segredo.
—Como?
—O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
—Eu a esse não disse.
—Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
—Ora, ora...
—O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo.
—Eu não disse...
—E depois a prima...
—Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final falou.
—Mas sabia tambem que eu vinha?—perguntou Henrique.
—Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de receber o primo em minha casa.
—E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
—Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
—São mesmo coisas tuas—disse Christina, rindo.
—Mas eu não disse nada—insistiu Torquato.
—Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?—perguntou Henrique.—Que imaginava elle a final?
-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo Henrique...
—Ah! percebo agora—disse Henrique, rindo.—O velho é ciumento por procuração.
Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, sorriu com elles.
O Torquato foi o unico que nada percebeu.
Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de voltarem a casa.
—Choverá?—perguntou Brizida.
—Julgo que não—respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o firmamento.
Henrique acompanhou-a.
—A noite está serena—disse ella.—São horas de voltarmos.
—Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas—disse Henrique, —Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas—disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:—Mas que agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
—Vamos, vamos,—respondeu Magdalena—o dia d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque...
N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
—Que foi?—perguntou Henrique, que o percebeu.
—Nada—respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
—Viu a alma da morgada?—perguntou jovialmente Henrique, vendo-a preoccupada.
—Não—respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.—Pode porém haver apparições peores.
—Que é, Lena? Que viste tu?—perguntou Christina, assustada.
—Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua quasi desolação.

XXIX

XXX

[principalmente] quando, por sobre as cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas.
O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro.
Era caso desesperado.
Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a nossa narração.
Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre os quaes o Zé P'reira.
Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.
O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que era contra a expressa determinação do artigo 61.º, § unico, da lei eleitoral.
Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé P'reira. Era uma nódoa de vinho.
Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.º.
A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a maior candura:
—Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que vocemecê me deu.
O proprio conselheiro desatou a rir.
O brazileiro resmungou:
—Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?
-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir—disse o Tapadas, e accrescentou:—ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.
Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista caiu na urna.
Estava a findar a primeira chamada.
Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.
A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.
Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do herbanario, cuja inicial era um V.
Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição inevitavelmente.
O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.
O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.
—Vicente Rodrigues da Fragosa—disse elle, preparando-se já para voltar o caderno.
—Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe—disseram alguns.
E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:
—Presente.
Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.
Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.
Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.
Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido, segurando a lista que vinha lançar na urna.
Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito, senão com supersticioso terror.
Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.
O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.
Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.
Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.
O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao encontro, dizendo commovido:
—Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...
O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.
—Arreda-te!—disse com severidade—deixa-me, serpente, que mordes a mão do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia, quando estiver a expirar!
O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas palavras.
—Ó tio Vicente!...—exclamou, ajuntando as mãos—pois eu que lhe fiz?
—Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso: eu não o quero para mim.
E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:
—Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.
Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.
—Manoel,—disse-lhe o velho em voz sumida—não me cegava tanto o resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.
—E sel-o-has sempre, Vicente.
—Sempre que o seja... por pouco tempo será—respondeu o velho, sorrindo tristemente.
—Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?
—Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e outros mais.
A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na garganta.
—Já não posso...—murmurou elle.—Queria dizer-te...
E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:
—Era... d'este... Elle é... elle está...
Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.
Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras morto, quando o fôram a erguer.
O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o. Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.
Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.
Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.
Ia principiar a segunda chamada.
O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.
O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, acharam-se sós junto do cadaver.
A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em que o conselheiro esteve só com Augusto.
N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao resentimento.
—Augusto—disse elle a meia voz—a morte não deixou este infeliz completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.
E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.
Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:
—A mão que v. ex.a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso. Desde que uma vez v. ex.a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro, a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico mais em paz com o meu orgulho.
A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.
Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.
Augusto acompanhou a casa o herbanario.
O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco disposto a permanecer alli.
—Fique se quizer—disse elle para Henrique.—Não estou em estado de receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande novidade. Adeus.
E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.
Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias circumstancias que a acompanharam.
Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.
A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das suas previsões, infelizmente realisadas.
Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira, o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que se lhe preparava na urna.
Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.
Assim, por exemplo, dizia elle á filha:
—Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer; a vida politica ia-me cançando já.
Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal simulada satisfação!
Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia já.
Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de votos.
Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.
Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas.
O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da certeza.
É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os ramos cortados?
O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.
Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando viesse, feril-o-ia como imprevista.
Sempre assim succede.
No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.
O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.
Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo bateram precipitados.
A causa estava, emfim, decidida.
A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?
O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um sorriso amargo, disse para a familia:
—Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!
—Quem sabe, mano? Ás vezes...
Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:
—Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!
—A correr?!—disse o conselheiro, em quem esta simples noticia infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.
As senhoras seguiram-n'o alli.
O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.
—Parece o Domingos, o criado do Tapadas...—disse o conselheiro, affirmando-se.
—Mas que pressa elle traz!—notou D. Victoria.
—Já nos viu—disse Angelo.
—Lá acenou com o chapéo—exclamaram todos.
—Que quer elle dizer com aquelles signaes?—tornou o conselheiro, nervoso.
—Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.
—Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É boa!—disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer que lhe descubram uma esperança.
Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.
Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir alli. Mal se respirava.
—Eil-o—disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle appareceu.
—Viva! sr. conselheiro, viva!—bradou elle de lá, apesar de esfalfado.
O conselheiro teve quasi uma vertigem.
—Elle que diz?... Como pode...
Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com frenetico enthusiasmo.
Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a commoção que esta produz, se se realisa.
O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:
—Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...
Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez a sair d'ella.
Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.
O conselheiro interrogou o.
—Então que dizes tu? Que vivas são esses?
—Digo que vencemos—respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na primeira pessoa do plural.
—Estás a sonhar?
-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.ê... tinha v. s.a mais cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola...
—Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!
—Cento e cinco!
—Estás bem certo no que te disse teu amo?
—Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.
O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel aquillo que lhe annunciavam.
Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do facto.
Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!
O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram estrondosas.
A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.
O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.
Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.
—Que quer dizer isto?—perguntou o conselheiro, abraçando-os.
—Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem menos—respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.
—Cento e trinta e cinco—repetiu o Pertunhas.
—Mas d'onde vieram!
—Ora essa é boa! De Pinchões.
—De Pinchões—repetiu o Pertunhas.
—Como?... Pois o morgado?...
—Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!
—É verdade... votou... comnosco—dizia mestre Pertunhas.
—Mas não se viu ainda ha pouco...
—Que estavam com metralha inimiga?—concluiu o Tapadas.—Que tem lá isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.
—Mas explica-me isso, Tapadas.
—Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda. Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles, pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!
E o Tapadas terminou com outra gargalhada.
O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo:
—Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.
E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que estavam proximos:
—Este Tapadas tem cada graça!
Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito calculam.
As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as suas demonstrações de alegria.
O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e das festas populares que se faziam no pateo.

XXXI

XXXII

—Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te acompanhasse aqui.
—Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo, que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse pensamento não está cumprido ainda.
—Vejo que não.
—Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.
E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar:
—Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação, até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem, os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo. Terás que me ralhar por causa d'ella?
Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos apaixonados.
Magdalena não teve pressa de retiral-a.
Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á pergunta d'ella.
Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os.
O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.
—Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas. Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...
Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o rosto.
Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:
—E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro.
Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com firmeza:
—Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.
Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só.
O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de resolução o seu companheiro de jornada.
Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.
Estes não conseguiram dissuadil-o de partir.
Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento.
Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.
O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas paixões, que desisto de descrevel-as.

XXXIII

CONCLUSÃO

FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
Volume I
[#pág. 144]precipios...precipicios
[#pág. 162]se se sentem...se sentem
[#pág. 169]a seu seu vêr...a seu vêr
[#pág. 264]uma uma explicação...uma explicação
Volume II
[#pág. 27]gloŕia...gloria
[#pág. 68]examimal-a...examinal-a
[#pág. 95]encontrassse...encontrasse
[#pág. 148]coisapor...coisa por
[#pág. 200]ovialmente...jovialmente
[#pág. 215]fregrezia...freguezia
[#pág. 218]principalte...principalmente
[#pág. 248]saparámo-nos...separámo-nos