LIMA BARRETO

Autor de "ISAIAS CAMINHA"

TRISTE FIM DE
POLYCARPO QUARESMA

Typ. "Revista dos Tribunaes"

RUA DO CARMO, 55

RIO DE JANEIRO

1915

A
João Luiz Ferreira
Engenheiro Civil

Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l'homme supérieur, c'est que, si l'on y transporte les principes de l'idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l'homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l'égoisme ou la routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle

INDICE

[Primeira Parte]
Capitulo
I. [A LIÇÃO DE VIOLÃO]
II. [REFORMAS RADICAES]
III. [A NOTICIA DO GENELICIO]
IV. [DESASTROSAS CONSEQUENCIAS
DE UM REQUERIMENTO]

V. [O BIBELOT]
[Segunda Parte]
I. [NO «SOCEGO»]
II. [ESPINHOS E FLORES]
III. [GOLIAS]
IV. [«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»]
V. [O TROVADOR]
[Terceira Parte]
I. [PATRIOTAS]
II. [VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO]
III. [...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...]
IV. [O BOQUEIRÃO]
V. [A AFILHADA]

[PRIMEIRA PARTE]

I
A LIÇÃO DE VIOLÃO

Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario, bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás vezes, e sempre o pão da padaria franceza.

Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e 40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e predito.

A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou».

E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.

Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para que? Pedantismo»!

O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que, quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.

Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitavel! que seria?

E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta do exquisito sub-secretario.

Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o pinho na posição de tocar, o major, attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é , aprendeu».

Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério mettido nessas malandragens!

Uma tarde de sol—sol de Março, forte e implacavel—ahi pelas cercanias das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario povoaram-se rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do General vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.

É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.

Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava.

Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita, segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha.

Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:

—Janta já?

—Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco.

—Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse seresteiro, um quasi capadocio—não é bonito!

O major descançou o chapéo de sól—um antigo chapéo de sól, com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madreperola—e respondeu:

—Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia.

—Mas isso foi em outro tempo,—agora...

—Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes...

—Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.

O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descançando.

Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo elle era forrado de estantes de ferro.

Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que presidia a sua reunião.

Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá faltava nas estantes do Major.

De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.

Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, encyclopedias, compendios, em varios idiomas.

Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.

Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade Neves—era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada do Cruzeiro.

Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a terra que o viu nascer. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.

Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.

Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com este rival do seu rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.

Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o—Ubirajára. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que hoje o Ubirajára esta tardando».

Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no ar e respondeu:

—Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria.

Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez...

Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa».

E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido. No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado, taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de principio ao fim!

O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...

Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um astro ou de um eclypse.

No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no minimo grau.

Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em pessoa.

—Tardei, major? perguntou o visitante.

—Não. Chegaste á hora.

Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio da cidade, em cujos saráos elle e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do seu Castro, a sua presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões, até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos.

Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado—ahi, julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distincção.

Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios daquellas redondezas.

Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S. Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poetica...

Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de mineralogia e historia brasileiras.

Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais, e é simples.

De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a modinha, e tirar della um forte motivo original de arte.

Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario.

—Já sabe dar o sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.

—Já.

—Vamos ver.

Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!

—O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com petit-pois, mas Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro e que eu o substituisse por guando. Onde é que se viu frango com guando?

Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e não fazia mal experimentar.

—É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!

—Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o estomago mais exigente. Você é que deu para implicar.

—Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.

—É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi, fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...

—Em geral é assim, disse Ricardo.

—Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante.

Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e serviu dous calices de paraty.

—É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo.

—De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, drogas! Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho...

Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e foi como se todo elle bebesse o licor nacional.

—Está bom, hein? indagou o major.

—Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios.

—É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores...

E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»—rolando nas orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.

Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de chrysanthemos, de magnolias—flôres exoticas; ás nossas terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como aquellas que elle tinha ali.

Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliquescencia.

Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se ao discipulo, que já tinha o seu em posição:

—Vamos ver. Tire a escala, major.

Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação.

—Ohe, major, é assim.

E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou:

—Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...

Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.

A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a principio, se negasse.

—Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.

D. Adelaide obtemperou então:

—Cante uma de outro.

—Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac—conhecem?—quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo: se eu dissesse, como em começo quiz, n'O Pé, uma modinha minha: o teu pé é uma folha de trevo—não ia com o violão. Querem ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento: o—teu—pé—é—uma—folha—de—tre—vo.

—Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem: o—teu—pé—é—uma—uma—ro—sa—de—myr—rha. É outra cousa, não acham?

—Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma.

—Cante esta, convidou o major.

—Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a Promessa, conhecem?

—Não, disseram os dous irmãos.

—Oh! Anda por ahi como as Pombas do Raymundo.

—Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide.

Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca:

Prometto pelo Santissimo Sacramento
Que serei tua paixão...

—Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem!

E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou, as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D. Adelaide.

—Senta-te Ismenia, disse ella.

—A demora é pouca.

Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou á moça:

—Então quando te casas?

Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos castanhos, com tons de ouro, e respondia.

—Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos.

Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.

Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.

Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro, e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:—«Então quando se casa»?—«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...»

Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo...

Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita.

Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa della.

—Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.

E para lá foram.

II
REFORMAS RADICAES

Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu temperamento. De manhã, depois da toilette, e do café, sentava-se no divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e meia da manhã.

Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem bem cerejas ou figos.

O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas—o casamento das princezas, a quebra do Souto e outras—o Major continuava com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam ultimamente. Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e mergulhava nas revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas cartas de Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos, não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as relações sociaes.

Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra.

Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo—o que precizava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do Tangolomango, numa festa que o general dera em casa.

Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais plebea, mais caracteristica e extravagante.

Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem.

O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril.

O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario, almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay, para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos.

O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as cinco filhas e arranjar pistolões para fazer passar o filho nos exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem perguntava: «O general assistiu a batalha» ?Elle respondia logo: «Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta».

O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz.

Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados em pangarés desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar á sua lamentavel majestade.

Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas, quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos annos, menos de cincoenta.

Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e dêm na vista.

A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam; mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão.

Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa, triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira—um sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella aberta.

—Que desejam?

Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:

—Vovó estão ahi dous moços que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor—disse ella depois, dirigindo-se ao General e ao seu companheiro.

A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de folhinha—uma cabeça de mulher em posição de sonho—parecia olhar um S. João Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.

Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.

—Boas tardes, tia Maria Rita disse o General.

Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O General atalhou:

—Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.

—Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota?

—Vai bem.

—Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas.

—Quem sou eu, yôyô!

—Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o Bumba meu boi?

—Quá, yôyô, já mi esqueceu.

—E o Boi espacio?

—Cousa véia, do tempo do captiveiro—p'ra que sô coroné qué sabê isso?

Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar vago.

—É para uma festa... Qual é a que você sabe?

A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes immaculados:

—Vovó já não se lembra.

O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto, não attendeu a observação da moça e insistiu:

—Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?

—Só sei o bicho «Tutu», disse a velha.

—Cante lá!

—Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe!

—Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Polycarpo, se sei.

Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entôou:

«É vêm tutu'
Por detrás do murundu
P'ra cumê sinhosinho
C'um bucado de angu'».

—Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar crianças. Você não sabe outra?

—Não, sinhô. Já mi esqueceu.

Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...

Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava garantida, graças a Deus!

O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.

A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e dictados populares.

Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, porque via na sua festa,—com um numero de folk-lore, meio de chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.

A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S. Bonifácio do Cabresto.

—Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver?

O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre
Não me deixaria assim:
Dava no coração della
Um logarsinho p'ra mim.

O amor que tenho por ella
Já não cabe no meu peito;
Sae-me pelos olhos afóra
Vôa ás nuvens direito.

—Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh! Uma verdadeira epopéa comica!

Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o encarava.

O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:

—Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que o nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publical-as, sob o titulo Historias do Mestre Simão.

E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:

«O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles, porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente.

—Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer.

O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios, collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôz as suas razões.

O jaboty ouviu-os e no fim ordenou;

—Bata palmas.

Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:

—Bata palmas.

A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e tambem o juiz, atirando-se n'agua».

Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:

—Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção, muita creação, verdadeiro material para fabliaux interessantes... No dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma immortal... Ah! Então!

Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.

—Agora, continuou elle, depois de passada a emoção—vamos ao que serve. O boi espacio ou o Bumba meu boi ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está ahi o Tangolomango, conhecem?

—Não, disseram os dous.

—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.

O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.

Quaresma, foz o Tangolomango, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em côro:

Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nelle
Não ficaram senão nove.

Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.

O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folk-lore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.

Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio Tangolomango o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos nossos ares.

Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.

Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, ficaram estupefactos no limiar da porta.

—Mas que é isso, compadre?

—Que é isso, Polycarpo?

—Mas, meu padrinho...

Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

—Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!

—Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.

—De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...

Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas idéas patrioticas e o seu acto.

É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar em actos.

Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.

—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle os seus olhos muito luminosos.

Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco differente das nossas moças.

Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao padrinho.

—Então padrinho, lê-se muito?

—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.

Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de inventor feliz!

—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.

—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violencias...

Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as apresentações.

—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.

Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloquente.

—Leu então os meus versos, não é, minha senhora?

—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um trabalho seu.

—No «Tempo», não foi?

—Foi.

—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra metrica e outro systema, não acha?

—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a musica e não musica para os versos.

E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.

Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:

—O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.

—Eu sei, padrinho. Eu sei...

—Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em francez popular?

—Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o provençal, uma verdadeira lingua.

—Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.

Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a elle, disse:

—Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.

—Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...

—Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.

—O piano? perguntou Ricardo.

—Que piano! O maracá, a inubia.

—Não conheço.

—Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!

—Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.

—De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não vale nada—é um instrumento do capadocio.

—De capadocio, major! Não diga isso...

E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão calmo.

III
A NOTICIA DO GENELICIO

—Então quando se casa, D. Ismenia?

—Em Março. Cavalcanti já está formado e...

Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que se seguia ao pedido da pragmatica.

As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.

Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: «Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: «Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se casar...»

A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle—«porque, quando você se casar...»—e a menina foi se convencendo de que toda a existencia só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.

De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, meu Deus!...»

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira, tia, parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se teimosamente como uma obsessão.

Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados chamam—bonitinhas. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar.

Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.

O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: «Diga-me sempre, Maricota—dizia elle—quem são. Olho vivo!...» É melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle accedeu.

Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo paisano isto é, que não pediu, não é ainda official.

No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».

O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava dos interesses dellas.

Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.

Enfim—dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos—a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, vamos descontar esta lettra.

A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia elle:

—É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!

Ao que Castro interrogava:

—Qual dellas?

—A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.

—Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. Porque não fizeste o mesmo?

Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.

Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe isto ou aquillo.

Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de familia.

Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.

—Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.

—Mamãe, que quer que eu faça?

—Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.

Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.

Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

—Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.

Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam ao par.

A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

—Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.

A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto: