A MÃO
E
A LUVA
Do
MACHADO DE ASSIS
da Academia Brasileira
Livraria Garnier
109, Rua do Ouvidor,109 RIO DE JANEIRO
6, Rue des Saints-Pères, 6 PARIS
COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
DA
LITTERATURA
1919
[ADVERTÊNCIA DE 1907]
Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa.
Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.
M. De A.
ADVERTÊNCIA DE 1874
Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados. Convem dizer que o desenho de taes caracteres,—o de Guiomar, sobretudo,—foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?
Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra cousa,—mais bella ou mais util.
Novembro de 1874.
M. De A.
[A MÃO E A LUVA]
[I]
O fim da carta.
—Mas que pretendes fazer agora?
—Morrer.
—Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão pouco....
—Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver. Ah! tu não sabes o que isto é?
—Sei: um namoro gorado....
—Luiz!
—.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.
Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,—que então se chamava dos Ciganos;—então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.
Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão, e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.
—Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu te pagarei com outra de philosophia.
Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos. Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi beijar a mão de sua mãe.
—Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu quarto; o Estevão passa a noite commigo.
Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,—não era difficil,—que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e uma secretaria,—vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinette, de estudo.
O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento, porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.
Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves, no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte, mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as, moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia, para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro, com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor, agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais delicioso do romance—no sentir delle—caiu de toda a altura das illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.
A namorada de Estevão,—é tempo de dizer alguma cousa della,—era uma moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto, pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse, porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida—amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella? Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos, davam a entender que o coração de Guiomar—chamava-se Guiomar—não era surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.
O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.
—Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.
Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou que outra cousa era?
Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não imagina é a dor que o prostrou,—a dor e o espanto,—quando ella, erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:
—Esqueça-se disso.
—Pois quanto a mim,—disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.
Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos, parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito, a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum tempo.
—Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria...
—Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.
Estevão ficou alguns instantes pensativo.
—Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.
—As mulheres...
—Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella fizesse esse calculo,—um bom calculo, nesse caso, todo filho do coração...
A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo, redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas, circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas, ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de Werther; leu meia duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.
Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou; nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não acceleram nem moderam o passo do tempo.
A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,—a manhã, quero dizer,—muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.
A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se della.
—Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado tão depressa. E queres um conselho?
—Dize.
—O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino, córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê, carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um «post-scriptum»...
Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.
Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,—mais romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio, como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da viagem com alguma pilheria de rapaz,—rapaz outra vez, como dantes.
[II]
Um roupão.
Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,—todas ellas, por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos. Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é della,—a pobre juventude,—é sim do tempo que lhe cae em sorte.
A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera—; bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu,—Deus lhe perdôe,—a cousas de menor tomo. Quem se não lembra,—ou quem não ouviu falar das batalhas feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,—e maduras tambem,—apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da Illiada. Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; um estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a confusão foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se as mãos,—e os pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna (dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»—«Si for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que no saguão do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»—«Patuleia desenfreada!»—«Fidalguice balofa!»
Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.
Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,—imaginem lá,—era o buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.
—Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera, aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della, e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que as queira ouvir.
Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas á sua juventude perdida. Felizmente, que só a perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay—que mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares, deixou a outros o cuidado de aproar á India.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar, mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a actual disposição de espirito.
Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.
Uma noite assistira á representação de Othello, palmeando até romper as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas, e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:
—Larga o pinto, que é das almas.
Estevão voltou-se.
—Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?
—Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras não tem Lagrua nem Othello...
—Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem; não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.
—Algum namoro? perguntou ao amigo.
—Não; uma visinha.
A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que perdera a mãe, alguns mezes antes.
A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « profundos como o ceu,» exclamava Estevão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.
O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.
Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Pratica Forense. Demos-lhe razão ao despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que valia as flores e os passaros.
Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha saíra um roupão,—elle não viu mais que um roupão,—e seguira pela rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse.
A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a natureza.
Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor,—e ser visto, digamos a verdade toda,—aquella desconhecida visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e curiosidade.
O roupão ia andando.
[III]
Ao pé da cerca.
A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,—de musselina branca,—finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.
Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.
Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave, como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della, mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais aereo, transparente, ideial.
Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas, não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.
A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,—seria abusar dos direitos do estylo,—mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.
A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro e umas aspirações á vida elegante,—nelle a inveja era quasi um sentimento desculpavel.
A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão, vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que, descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.
Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia mulher.
Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.
A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:
—Guiomar!
A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo instante murmurasse em tom de súpplica:
—Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.
Guiomar,—sabemos agora que era este o seu nome,—olhou séria e quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais. Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que affecto, murmurou:
—Está perdoado.
Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,—apertou não é bem dito,—em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que podia e devia naquella situação.
E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a mais acerba que elle podia ouvir:
—Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?
—Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.
—Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....
—Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...
—Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio, logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.
—De certo, assentiu Estevão.—Minha tia é que não deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no officio.
—Acabou?
—Morreu.
—Ah!
—Morreu ha cerca de um anno.
—Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi..., Está admirando esta flor?
Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da mão que a sustinha,—uma deliciosa mão, que devia ser por força a que se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:
—Com effeito, é linda!
—Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.
Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo, uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço, sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave, risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe alterava a serenidade e compostura.
O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida, que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos volontaria nos labios de Estevão.
Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.
Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito; faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do desenho.
A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a primeira a dizer-lh'o.
—O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a falar com un estranho neste déshabillé tão pouco elegante...
—Elegantissimo, pelo contrario.
—O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu passeio pela chacara.
—Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou Estevão.
—É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:
—Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.
Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado, resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.
Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém, passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:
—Entro num drama ou saio de uma comedia?
[IV]
Latet anguis.
O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.
—Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns segundos.
—E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro que tive aqui na chacara.
—Um encontro?
—Um homem.
—Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.
—Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha mestra de collegio... sabe que morreu?
—Quem disse isso?
—O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.
—Você está zombando commigo! Um homem na chacara?
—Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava encostado á cerca; trocámos algumas palavras.
A baroneza olhou para ella alguns segundos.
—Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus lhe deu.—Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho?
Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues, aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,—ou mais britannicamente, Mrs. Oswald,—dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs. Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação.
—São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de epidemias.
—Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me, que o passeio começou tarde.
—Porque me não mandou chamar?
—Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...
—Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!
—Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.
Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da toilette; e a baroneza que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.
Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.
Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a consolação da saudade.
—Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza, que se achava a alguns passos de distancia.
Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.
Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:
—Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.
—Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios.
—Benefícios!
—E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado, a confiança...
—Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos de outra cousa.
—Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um obstaculo: a pouca disposição...
—Só esse?
—Que outro mais?
—Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.
—Mas que é?
—Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.
—Tudo o que?
—Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomeça agora,—agora, que ella já não é a simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu coração.
A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia, não era razão para suppor uma paixão anterior.
—Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento. Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.
A baroneza abanou a cabeça.
—Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e que relações de affecto houve no passado.
—Parece-lhe possivel?
—Naturalmente!
A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada para ella, como quem reflectia.
—Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia, e de quem Deus me fez mãe...
A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.
Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu, expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido de glacé, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e pouco mais, era toda a moldura do painel,—um dos mais bellos paineis que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.
—Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar á porta da saleta.
E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.
A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa senhora sorriu de contentamento.
—Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.
Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.
[V]
Meninice.
Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e determinou-se á luta e á victoria.
A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de familia lhe chamavam a attenção.
Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,—e a coser e bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,—ao menos nessa parte,—sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo á applicação.
A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a infancia,—mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,—mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia aquelle viver,—a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe descair tambem a alegria.
Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez, uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram. Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida?
A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos. Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se, e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que passára.
A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e fez-se tão jovial como nos melhores dias.
Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os primeiros elementos.
Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio, onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.
Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário.
Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.
—Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta aspiração.
—Como assim? perguntou a madrinha.
—Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve cumprir. A minha é... é ganhar o pão.
Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força. O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.
—Guiomar! exclamou a baroneza.
—Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.
A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,—assentimento de boca, a que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.
Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quasi levou a mãe á sepultura.
A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.
O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe disse que a iria em breve buscar para sua casa.
—Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já agora teria outra consolação.
—Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.
A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente, com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou para si.
Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado, durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.
Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito, mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,—melhor diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta fazia esquecer a chrysalida.
[VI]
O post-scriptum.
Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão. Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um post-scriptum. Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse aquella. O post-scriptum lá estava no fim.
Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca, uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no coração.
Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.
Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.
A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega; era naturalmente a mesma pessoa.
—Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.
Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do que elle proprio costumava ser.
Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,—as menos amargas,—e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosphera,—a mesma que o seu espirito almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da cittá dolente, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas ambições.
Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.
Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de a ver: uma no Lyrico, onde se cantava Somnambula, outra no Gymnasio, onde se representavam os Parisienses, sem que elle ouvisse uma nota da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação; a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno; comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do logar em que elle ficára.
Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e attenção. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.
Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite, a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos o unico remedio que elle nessa occasião pedia;—a chave daquella porta. Luiz Alves era esse homem.
—Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo. Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve lá?
—Quero.
Luiz Alves reflectiu alguns intantes.
—E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...
A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.
—Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...
—Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...
Luiz Alves estacou.
—Emfim? perguntou Estevão.
—Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção sequer, e eu voltei aos meus autos.
—Então... gostas della? perguntou Estevão.
—Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se acceitasse, casava-me; não acceitou...
—Já vês que somos differentes.
—Queres, então?...
—Um serviço de amigo.
—Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso da consciência.
Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o outro.
A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção, foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.
De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e desattendida.
—Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois a Guiomar.
Guiomar fez um gesto de estranheza.
—Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?
—Talvez.
—O Dr. Estevão.
Guiomar fez um gesto de desdem.
—Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.
—Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:
—A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que a merece...
Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza, murmurando:
—Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.
[VII]
Um rival.
Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar, apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio:
—Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue commigo.
—Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque? Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga....
—Desgosto?
—Para mim.... e naturalmente para elle.
Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido, como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume, lhe disse:
—Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a senhora?
—Parece.
—Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me adorassem somente, não lhe parece?
E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.
—Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e resignada, uma adoração..
E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:
Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»
—Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.