HISTORIAS SEM DATA

OBRAS DO AUTOR


MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS1 vol.
HISTORIAS SEM DATA1 vol.
PAPEIS AVULSOS1 vol.
HELENA1 vol.
YAYÁ GARCIA1 vol.
A MÃO E A LUVA1 vol.
RESURREIÇÃO1 vol.
PHALENAS, poesias1 vol.
AMERICANAS, poesias1 vol.
CHRYSALIDAS, poesias1 vol.
CONTOS FLUMINENSES1 vol.
HISTORIAS DA MEIA NOITE1 vol.
TU SÓ, TU, PURO AMOR1 vol.
OS DEUSES DE CASACA, comedia1 vol.
DESENCANTOS1 vol.
THEATRO1 vol.

MACHADO DE ASSIS


HISTORIAS SEM DATA

A EGREJA DO DIABO—O LAPSO—ULTIMO CAPITULO
CANTIGA DE ESPONSAES—UMA SENHORA
SINGULAR OCCURRENCIA—FULANO—CAPITULO DOS CHAPÉOS
GALERIA POSTHUMA
CONTO ALEXANDRINO—PRIMAS DE SAPUCAIA
ANECDOTA PECUNIARIA—A SEGUNDA VIDA—EX-CATHEDRA
MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO
AS ACADEMIAS DE SIÃO
NOITE DE ALMIRANTE—A SENHORA DO GALVÃO


RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER.—LIVREIRO-EDITOR
71—Rua do Ouvidor—77

1884.


Typ. lith. a vapor, encadernação e livraria LOMBAERTS & C.


INDICE

PAGS.
[ADVERTENCIA][vij]
[A EGREJA DO DIABO][1]
[O LAPSO][17]
[ULTIMO CAPITULO][33]
[CANTIGA DE ESPONSAES][49]
[SINGULAR OCCURRENCIA][57]
[GALERIA POSTHUMA][71]
[CAPITULO DOS CHAPÉOS][87]
[CONTO ALEXANDRINO][113]
[PRIMAS DE SAPUCAIA!][131]
[UMA SENHORA][147]
[ANECDOTA PECUNIARIA][161]
[FULANO][181]
[A SEGUNDA VIDA][191]
[NOITE DE ALMIRANTE][205]
[MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO][219]
[EX CATHEDRA][235]
[A SENHORA DO GALVÃO][251]
[AS ACADEMIAS DE SIÃO][263]

ERRATA

Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros, estes: coser-lhe por coser (pag. 43); estar-lhe a contar por estar a contar-lhe (pag. 182); deram a força por lhe deram a força (pag. 211); evidente mais por evidentemente mais (pag. 272), etc.

[ADVERTENCIA]

De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente não levam data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo Historias sem data parecerá a alguns inintelligivel, ou vago. Suppondo, porém, que o meu fim é definir estas paginas como tratando, em substancia, de cousas que não são especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o titulo está explicado. E é o peor que lhe póde acontecer, pois o melhor dos titulos é ainda aquelle que não precisa de explicação.

M. de A.

{1}

[A EGREJA DO DIABO]

[CAPITULO I]

[DE UMA IDÉA MIRIFICA]

Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde seculos, sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras religiões, e destruil-as de uma vez.

—Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura, breviario contra breviario. Terei{2} a minha missa, com vinho e pão á farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de affirmar; ha só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de odio, asperos de vingança, e disse comsigo:—Vamos, é tempo. E rapido, batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.

[CAPITULO II]

[ENTRE DEUS E DIABO]

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que engrinaldavam o recem{3} chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.

—Que me queres tu? perguntou este.

—Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do seculo e dos seculos.

—Explica-te.

—Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...

—Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

—Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de dissimulação... Boa idéa, não vos parece?

—Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.{4}

—Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a minha pedra fundamental.

—Vai.

—Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?

—Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?

Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

—Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha egreja; atraz d'ellas virão as de seda pura...

—Velho rhetorico! murmurou o Senhor.{5}

—Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o ardor,—a indifferença, ao menos,—com que esse cavalheiro põe em lettras publicas os beneficios que liberalmente espalha,—ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miudas; não fallo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda... Vou a negocios mais altos...

N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o Diabo.

—Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os{6} signaes vivos do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que elle fez?

—Já vos disse que não.

—Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde achas ahi a franja de algodão?

—Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.

—Negas esta morte?

—Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...

—Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.{7}

[CAPITULO III]

[A BOA NOVA AOS HOMENS]

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra, todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para rectificar a noção que os homens tinham d'elle e desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

—Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas, dos contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico, o proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do coração dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei d'elle um trophéu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...{8}

Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar os indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso quanto á substancia, porque, ácerca da fórma, era umas vezes subtil, outras cynica e deslavada.

Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras, que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do que a mãi da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem o furor de Achilles, não haveria a Illiada: «Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as melhores paginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hyssope; virtude tão superior, que ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem litteraria ou historica, para só mostrar o valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria que era muito{9} melhor sentir na bocca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os máus boccados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia substituir a vinha do Senhor, expressão metaphorica, pela vinha do Diabo, locução directa e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto á inveja, prégou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao proprio talento.

As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que elle dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluia: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, elle não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros dextros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuista do tempo chegou a confessar que era um monumento de logica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercicio de um direito{10} superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéo, cousas que são tuas por uma razão juridica e legal, mas que, em todo caso, estão fóra de ti, como é que não pódes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua propria consciencia, isto é, tu mesmo? Negal-o é cair no absurdo e no contraditorio. Pois não ha mulheres que vendem os cabellos? não póde um homem vender uma parte do seu sangue para transfundil-o a outro homem anemico? e o sangue e os cabellos, partes physicas, terão um privilegio que se nega ao caracter, á porção moral do homem? Demonstrando assim o principio, o Diabo não se demorou em expôr as vantagens de ordem temporal ou pecuniaria; depois, mostrou ainda que, á vista do preconceito social, conviria dissimular o exercicio de um direito tão legitimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hypocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injurias e outras maximas de brandura e cordialidade. Não prohibiu formalmente a calumnia gratuita, mas induziu a exercel-a mediante retribuição, ou pecuniaria,{11} ou de outra especie; nos casos, porém, em que ella fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, prohibia receber nenhum salario, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as fórmas de respeito foram condemnadas por elle, como elementos possiveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a unica excepção do interesse. Mas essa mesma excepção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento applicado e não aquelle.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo grave á nova instituição. Elle mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolvaveis; não se devia dar ao proximo se não indifferença; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou mesmo á demonstração de que a noção de proximo era errada, e citava esta phrase de um padre de Napoles, aquelle fino e lettrado Galliani, que escrevia a uma das marquezas de antigo regimen: «Leve a breca o proximo! Não ha proximo!» A unica hypothese em que elle permittia amar ao proximo era quando se tratasse de amar as damas{12} alheias, porque essa especie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do individuo a si mesmo. E como alguns discipulos achassem que uma tal explicação, por metaphysica, escapava á comprehensão das turbas, o Diabo recorreu a um apologo:—Cem pessoas tomam acções de um banco, para as operações communs; mas cada accionista não cuida realmente se não nos seus dividendos: é o que acontece aos adulteros. Este apologo foi incluido no livro da sabedoria.

[CAPITULO IV]

[FRANJAS E FRANJAS]

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa ás ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A egreja fundára-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma lingua que não a traduzisse, uma{13} que não a amasse. Diabo alçou brados de triumpho.

Um dia, porém, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus fieis, ás escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, ás occultas. Certos glotões recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro vezes por anno, justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros davam esmolas, á noite, ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores do erario restituam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos fallavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais directamente e mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incomprehensiveis, como o de um droguista do Levante, que envenenára longamente uma geração inteira, e, com o producto das drogas soccorria os filhos das victimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camellos, que tapava a cara para ir ás mesquitas. O Diabo deu com elle á entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; elle negou, dizendo que ia alli roubar o camello de{14} um drogman; roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi dal-o de presente a um muezzin, que rezou por elle a Allah. O manuscripto benedictino cita muitas outras descobertas extraordinarias, entre ellas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apostolos era um calabrez, varão de cincoenta annos, insigne falsificador de documentos, que possuia uma bella casa na campanha romana, telus, estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a metter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas acções secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. Diabo mal póde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de reflectir, comparar e concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao passado. Voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a causa secreta de tão singular phenomeno. Deus ouviu-o com infinita complacencia; não o{15} interrompeu, não o reprehendeu, não triumphou, sequer, d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:

Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a eterna contradicção humana.

FIM DA EGREJA DO DIABO.

{16}
{17}

[O LAPSO]

E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno até ao grande.

E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica na tua presença.

JEREM. XLII, 1, 2.

Não me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que elle veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o Conde de Azambuja, que a principio se disse o mandára buscar; esta versão durou pouco. Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar que era medico e hollandez. Viajára muito, sabia toda a chimica do tempo, e mais alguma; fallava correntemente cinco ou seis linguas vivas e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma theoria da formação dos diamantes. Não conto os melhoramentos{18} therapeuticos, e outras muitas cousas, que o recommendam á nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contrario, a vida e a pessoa d'elle eram como a casa que um patricio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelissima, onde elle morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, tão modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem do conto. Vamos ao principio.

No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal Thomé Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas inducções, vereador da camara. Vereador ou não, este Thomé Gonçalves não tinha só dinheiro, tinha tambem dividas, não poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os seus atrazos, a velhacaria tambem; mas quem opinasse por uma ou outra dessas interpretações, mostraria que não sabe ler uma narração grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguem a tarefa de escrever algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do seculo passado, um homem que, por velhacaria ou deleixo, deixava de pagar aos credores. A tradição affirma que este nosso concidadão era exacto em todas as{19} cousas, pontual nas obrigações mais vulgares, severo e até meticuloso. A verdade é que as ordens terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir (era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que usava pagar), não lhe regateavam provas de affeição e apreço: e, se é certo que foi vereador, como tudo faz crer, póde-se jurar que o foi a contento da cidade.

Mas então...? La vou; nem é outra a materia do escripto, senão esse curioso phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de procissão, Thomé Gonçalves, trajado com o habito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a ninguem. Nas janellas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na esquina do becco das Cancellas (a procissão descia a rua do Hospicio), depois de ajoelhados, resados, persignados e levantados, perguntaram um ao outro, se não era tempo de recorrer á justiça.

—Que é que me póde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo, melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso negar o que me pedir, e na esperança de receber os atrasados,{20} vou fiando... Não, senhor; não póde continuar assim.

—Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa da minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa tão importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as minhas cabelleiras?

Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da Sé, que vendera ao Thomé Gonçalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A procissão passára inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar os meirinhos ao Thomé Gonçalves. O cabelleireiro advertiu que outros muitos credores só esperavam um signal para cahir em cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveniencia de metter na conjuração o Matta-sapateiro, que vivia desesperado. Só a elle devia o Thomé Gonçalves mais de oitenta mil reis. N'isso estavam, quando por traz d'elles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando porque motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tornados de profunda veneração; em seguida disseram que tanto{21} não era doente o devedor, que lá ia andando na procissão, muito teso, pegando uma das varas do pallio.

—Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que está doente dos braços, nem das pernas...

—Do coração? do estomago?

—Nem coração, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com muita doçura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que não podia dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a entendel-o. Se eu tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um calção—accrescentou para os não affligir,—é provavel que não alcance as regras dos seus officios tão uteis, tão necessarios ao Estado... Eh! eh! eh!

Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo que a noticia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no proposito de cobrar as dividas. Se até os mortos pagam, ou alguem por elles, reflexionou o cabelleireiro, não é muito exigir aos doentes igual obrigação. O alfaiate, invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este babado:—Pague e cure-se.

Não foi dessa opinião o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma razão secreta nas palavras{22} do doutor Jeremias, e propoz que primeiro se examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo. Convidaram então outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo, em casa de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um baptizado. A precaução era discreta, para não fazer suppor ao intendente da policia que se tratava de alguma tenebrosa machinação contra o Estado. Mal anoiteceu, começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e, como a illuminação publica só veiu a principiar com o vice-reinado do conde de Rezende, levava cada qual uma lanterna na mão, ao uso do tempo, dando assim ao conciliabulo um rasgo pintoresco e theatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta—e não eram todos.

A theoria de Ch. Lamb ácerca da divisão do genero humano em duas grandes raças, é posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto d'aquelles homens, o desespero de alguns, a preoccupação de todos, estavam de antemão provando que a theoria do fino ensaista é verdadeira, e que das duas grandes raças humanas,—a dos homens que emprestam, e a dos que pedem emprestado,—a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as{23} maneiras rasgadas e francas da segunda, the open, trusting, generous manners of the other. Assim que, n'aquella mesma hora, o Thomé Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os vinhos e gallinhas que comprára fiado; ao passo que os credores estudavam ás escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de rehaver o dinheiro perdido.

Logo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espiritos. Uns inclinavam-se á demanda, outros á espera, não poucos aceitavam o alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer não o defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer cousa nenhuma; eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro oppunha-se-lhe, e perguntava que molestia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas o Matta-sapateiro:—«Sr. compadre, nos não entendemos d'esses negocios; lembre-se que o doutor é estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem cousas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, só perdemos algum tempo e nada mais.» Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabelleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliabulo{24} dissolveu-se na patuscada. Terpsychore bracejou e perneou diante d'elles as suas graças jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a ulcera secreta que os roia. Eheu! fugaces... Nem mesmo a dor é constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e oito horas da manha. «Entrem, entrem...» E com o seu largo carão hollandez, e o riso derramado pela bocca fóra, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava n'esse momento uma cobra, morta de vespera, no morro de Santo Antonio; mas a humanidade, costumava elle dizer, é anterior á sciencia. Convidou os tres a sentarem-se nas tres unicas cadeiras devolutas; a quarta era a d'elle; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objectos de toda a casta.

Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questão; era dos tres o que reunia maior cópia de talentos diplomaticos. Começou dizendo que o engenho do Sr. doutor ia salvar da miseria uma porção de familias, e não seria a primeira nem a ultima grande obra de um medico que, não desfazendo nos da terra, era o mais sabio de quantos cá havia desde o governo de Gomes Freire. Os credores de Thomé{25} Gonçalves não tinham outra esperança. Sabendo que o Sr. doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidadão a uma doença, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso á justiça. A justiça ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, além de outros achaques humanos, havia o de não pagar as dividas, se era mal incuravel, e, não o sendo, se as lagrimas de tantas familias...

—Ha uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente commovido, um lapso da memoria; o Thomé Gonçalves perdeu inteiramente a noção de pagar. Não é por descuido, nem de proposito que elle deixa de saldar as contas; é porque esta idéa de pagar, de entregar o preço de uma cousa, varreu-se-lhe da cabeça. Conheci isto ha dois mezes, estando em casa d'elle, quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia «pagar-lhe a fineza de uma visita». Thomé Gonçalves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o que era pagar; accrescentou que, alguns dias antes, um boticario lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe até que já a ouvira a outras pessoas; por ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser latim.{26} Comprehendi tudo; tinha estudado a molestia em varias partes do mundo, e comprehendi que elle estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois senhores que não demandassem um homem doente.

—Mas então, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro está completamente perdido...

—A molestia não é incuravel, disse o medico

—Ah!

—Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dous grandes casos: um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, á noite estendia a mão para arrancar as estrellas do céu, e uma senhora da Catalunha, que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida, querendo sahir pelas janellas mais altas das casas, como se estivesse ao rez do chão...

—Santo Deus! exclamaram os tres credores.

—É o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto á dama catalã, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D. Hermogenes, e, no tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em tres mezes ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.{27}

Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes de esperança; tudo fazia crer que o Thomé Gonçalves padecia do lapso, e, uma vez que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui pegou o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo, embora entretivesse relações com elle; não podia ir offerecer-lhe os seus prestimos. Thomé Gonçalves não tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o medico, nem os credores podiam tomal-a a si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabelleiro, exprimiram este alvitre desesperado; cotisarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e appetitosa, convidarem o Dr. Jeremias á cura; talvez o interesse... Mas o illustre Matta via o perigo de um tal proposito, porque o doente podia não ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angustia; tudo parecia perdido. O medico rolava entre os dedos a boceta de rapé, esperando que elles se fossem embora, não impaciente, mas risonho. Foi então que o Matta, como um capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas primeiras palavras tinham commovido o medico, e tornou ás lagrimas das familias, aos filhos sem pão, porque elles não{28} eram senão uns tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Thomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes, cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saude... Saude, sim, senhor; os callos de suas mãos mostravam bem que o officio era duro; e o alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que entisicava, ás noites, á luz de uma candeia, zas-que-darás, puchando a agulha...

Magnanimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos humidos de lagrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de um coração pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a sciencia ao serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambem e principalmente do proprio Thomé Gonçalves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que elle tinha tanta culpa como o doudo que pratica uma iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em rapa-pés infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a almoçar, obsequio que elles não aceitaram, mas agradeceram com palavras cordialissimas. E, na rua quando elle já os não podia ouvir, não se fartavam de elogiar-lhe a{29} sciencia, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os modos tão simples! tão naturaes!

Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do medico, e, não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a ideia de pagar, como as ideias co-relatas de credor, divida, saldo, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria, constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua de comparações extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais promptamente veiu ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam n'elle mais de sessenta credores que se debatiam lá embaixo com o ranger de dentes da Escriptura. Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o, começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:—o modo geral e abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções co-relatas—era a parte confiada á droga; e o modo particular e concreto,{30} insinuação ou designação de uma certa divida e de um certo credor—era a parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O medico levava o doente ás lojas de sapatos, para assistir á compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção de pagar; fallava da fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os preços do calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a casa de Thomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o boticario, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho anterior, d'onde lhes vinha a compensação da demora.

Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se transcrevem as bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves, pasmado de tantas dividas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela accumulação.{31}

—Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.

—Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.

Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr. Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle! a modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como acanhado de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E aliás era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo methodo usado em relação á dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe mettia á cara, entrou a rarear as visitas; mas o Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de ir lembrar a divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria popular:—Matheus, primeiro os teus—A boa justiça começa por casa—Quem{32} é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Thomé Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha um só credor no mundo:—o Dr. Jeremias.

Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.

—«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:

—Grande homem, mas pobre diabo.

FIM DO LAPSO.

{33}

[ULTIMO CAPITULO]

Ha entre os suicidas um excellente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar, é um acto de cortezia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo logar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes posthumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, ás vezes uma semana mais.

Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra ultima pudesse levar-me alguma complicação á eternidade. Mas um incidente de ha pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um{34} escripto, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo de autobiographia. E note-se que não dou o segundo escripto senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumby, alugado a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinario. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de ha pouco, e o incidente liga-se á minha vida inteira.

Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mór Salvador Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos fallecidos. Sou natural de Corumbá, Matto Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de março de 1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha uma locução proverbial, que{35} eu litteralmente realisei. Era em Corumbá; tinha sete para oito annos, embalava-me na rede, á hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu commigo no chão. Cahi de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava occasião de vir abaixo, aproveitou a commoção e cahiu tambem. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito commigo. O conego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná comnosco, soube do episodio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exactamente este absurdo de cahir de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples inicio de cousas futuras.

Não me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além d'isso, mandei fóra o rapaz que me serve, e elle póde vir mais cedo, e interromper-me a execução do projecto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns episodios doloridos, entre elles, o de umas cacetadas que apanhei por engano.{36} Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas applaudiram secretamente a illusão. Tambem não fallo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobrissimo, e minha mãi não lhe sobreviveu dois mezes. O conego Brito, que acabava de ser eleito deputado, propoz então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veiu commigo, com a idéa de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a acção constante do caiporismo.

Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um conego da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de sachristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso, e possuisse algumas lettras latinas, não fui admittido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução. Tive até alguns auxilios, a principio; faltando-me elles depois, lutei por mim mesmo; emfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma excepção na minha vida caipora, porque{37} o diploma academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de flagellar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não attribuo nenhum influxo especial ao grau juridico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sósinha as algibeiras. Não, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou quinze, fructo de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viuva mais velha do que eu sete ou oito annos, mas ardente, lepida e abastada. Morava com um irmão cégo, na rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dous d'elles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente para que vissem as finas cousas que ella me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viuva não esperava senão que eu concluisse os estudos. Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabens,{38} accentuando a sua convicção com esta phrase definitiva:

—O teu casamento é um dogma.

E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cincoenta mil réis; era para uma urgente precisão. Não tinha commigo os cincoenta mil réis; mas o dogma repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descancei em todo esse dia, até arranjar-lh'os; fui leval-os eu mesmo, enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratidão. Seis mezes depois foi elle quem casou com a viuva.

Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a vel-os, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hypothetica; na realidade, não fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascenção da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viuva. «Deus, que me ouve (dizia uma d'ellas), sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua...» E, no meu atordoamento, blasphemava commigo:—Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé d'elle, e por isso desmentiu a viuva:—nem outro dogma além do catholico, e por isso{39} desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cincoenta mil réis.

Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se elle tambem. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os outros, a successão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, anno e meio, voltei á côrte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de anno: o Gonçalves.

Este Gonçalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia á copa e ia palestrar com os creados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de comprehensão, nos assumptos menos arduos ou menos complexos, com a facilidade de expôr, e, o que não era pouco para um pobre diabo{40} batido da fortuna, com uma alegria quasi sem intermittencias. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham, matavamos as horas com excellente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era d'elle, ou fallassemos de politica, ou de mulheres, assumpto que lhe era muito particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questão de hypotheca. Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo proximo. Fui; namorei-me da filha d'elle, D. Rufina, moça de dezenove annos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meia morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casámo-nos poucos mezes depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na egreja, entre as barbas rapadas e as suiças lustrosas, pareceu-me ver o carão sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que, no acto mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento,{41} estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o padre me dictava...

Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me esta figuração chromatica) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apathia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ella nenhuma gloria, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do somnambulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella, não; aceitou-me como aceitaria um sachristão, um magistrado, um general, um empregado publico, um alferes e não por impaciencia de casar, mas por obediencia á familia, e, até certo ponto, para fazer como as outras.{42} Usavam-se maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada mais antipathico á minha propria natureza; mas estava casado.

Felizmente—ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o adverbio pertence ao estylo, não á vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domesticas de Rufina davam-lhe muito merito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janellas. Vivia comsigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha «das francezas», como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervallo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espirito, matando o tempo, uma hydra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a differença é que, mandando-me Jupiter um cepo, não lhe pedi outro, por que viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a logica e a constancia do meu destino.{43}

Outro felizmente; e este não é só uma transição de phrase. No fim de anno e meio, abotoou no horisonte uma esperança, e, a calcular pela commoção que me deu a noticia, uma esperança suprema e unica. Era o desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento regio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ebano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanellas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, prompto a bailar diante d'elle, como David diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu morto.

Quem me consolou no mallogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia, disse-me, serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.{44}

—E pensas que não? redargui.

Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já minutava petições, já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver, dizia elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que ás vezes eram picantes demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a ellas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel casar tambem. Eu, á mesa, fallei do assumpto.

—Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?

—É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.

Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle. Cinco mezes depois... A transição{45} é rapida; mas não ha meio de a fazer longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.

Cousa singular:—em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi substituida pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupára tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á má estrella; era levantar o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes recusavam-se aos sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho; emfim, as crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era immortal. Com ella podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes azas de{46} condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direcção da noite e do silencio...

Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de cousas minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque póde vir, e adeus. Ninguem imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os minutos voam como se fossem imperios, e, o que é importante n'esta occasião, as folhas de papel vão com elles.

Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde hontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um{47} charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista; era uma victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as janellas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de attracção, anterior e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preoccupação d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miseria ou guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para elle, um par de botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com ellas, elle calca com ellas o chão de um globo que lhe pertence. D'ahi o orgulho das attitudes, a{48} rigidez dos passos, e um certo ar de tranquillidade olympica... Sim, a felicidade é um par de botas.

Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas eu fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de que era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria unico. Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia, caiporas! que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!

FIM DO ULTIMO CAPITULO.

{49}

[CANTIGA DE ESPONSAES]

Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não fallo sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer{50} familiar e publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é mestre Romão,»—equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois: «Entra em scena o actor João Caetano»;—ou então: «O actor Martinho cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma visinha.{51}

—Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.

—Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papeis de musica; nenhuma d'elle...

Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns diziam isto, outros{52} aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta:—a causa da melancholia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico, encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o{53} tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação da felicidade extincta.

—Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

—Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

—Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...

O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do coração:—molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o medico.

—Para que? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,—outro que eram amores. Mestre{54} Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.

—Está acabado, pensava elle.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras enganadoras:—Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...

Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:—rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

—Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O principio do canto rematava em um certo ; este , que lhe cahia bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos{55} hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

—Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que elles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao la...

Lá, lá, lá...

Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.

Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos presas e os braços passados nos hombros um do outro; a differença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

Lá... lá... lá...{56}

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.

FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.

{57}

[SINGULAR OCCURRENCIA]

—Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

—De preto?

—Justamente; lá vai entrando; entrou.

—Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.

—Deve ter quarenta e seis annos.

—Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viuva, naturalmente?

—Não.

—Bem; o marido ainda vive. É velho?

—Não é casada.

—Solteira?

—Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria{58} de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietaria, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.

—Por exemplo, ao senhor.

—Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.

—Apezar d'isso, a Marocas...?

—É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa interessante.

—Diga.

—A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito, no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja{59} deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça; elle ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

—Como eu estou.

—Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem jardim, e ir á casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Gymnasio, dava-se a Dama das Camelias; Marocas estava lá, e, no ultimo acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sosinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra affeição, não cogitando de nenhum outro interesse.

—Como a dama das Camelias.

—Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu depressa.{60} Comprehende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada; contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos; e... não sei por que negal-o,—algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ella interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade da affeição... Um dia, uma festa de S. João, o Andrade acompanhou a familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio—Janto com minha mãi—e disse-me que, não tendo familia para passar a festa de S. João, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um retrato;{61} mas não seria o da mãi, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ella, porém, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com a mão.

—Gosto d'esse gesto.

—Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modestia da moça, que não queria receber d'elle mais do que o estrictamente necessario. Ha mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca de tres semanas antes, a Marocas empenhára algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pôl-a ao abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltámos. O Andrade deixou a familia{62} em casa, na Lapa, e foi ao escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil réis. Era um sugeito réles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe tres mil réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas, perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que sim.

—Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?

—Ella mesma; afastemo-nos da esquina.

—Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.

—Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...

—Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.

—Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas, emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera, perto das{63} dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle, para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...

—Não me diga isso!

—Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe{64} segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte mil réis.—«Prompto!»—«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»

—Oh!

—Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal vingança.

—O outro aceitou?

—Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.—«É esta senhora?» perguntou elle.—«Sim, senhor», murmurou o Leandro com voz sumida, porque ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem que as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectação, tirou uma{65} nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu, foi breve, mas dramatica. Não a soube inteiramente, porque o proprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe escapou. Ella não confessou nada; mas estava fóra de si, e, quando elle, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.

—Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram habitos d'ella?

—Não.

—Não?

—Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto; mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á evidencia? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal,{66} vivesse para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventára o artificio e pagára ao Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova é que o Leandro, não querendo elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E agarrado a esta inverosimelhança, tentava fugir á realidade; mas a realidade vinha—a pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que elle arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!

—Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»

—Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta pedia-nos por tudo, que fossemos descobrir a ama.{67} «Não é costume d'ella sahir?» perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. «Está ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de novo empolgára o coração do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A preta respondeu que na vespera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja afflicção crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possivel encontral-a; fomos á policia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltámos á policia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum desastre se déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram cahir ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas inuteis. Não era só a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida, ao menos, da consciencia,{68} em presença de um possivel desastre, que parecia justificar a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era natural fazer o que fez, no delirio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois tornava a affirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vespera tentara provar que era falsa; o que elle queria era acommodar a realidade ao sentimento da occasião.

—Mas, emfim, descobriram a Marocas?

—Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas, quando recebemos noticia de um vestigio:—um cocheiro que levára na vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a versão; accrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou na vespera; apenas pediu uma chicara de café; parecia profundamente abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu á porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.{69}

—Tudo se explicou?

—Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique. A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois, uma casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois annos. Quando elle seguia para o norte, em commissão do governo, a affeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?

—Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

—Não inventei nada; é a realidade pura.

—Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.{70}

—Não: nunca a Marocas desceu até os Leandros.

—Então por que desceria n'aquella noite?

—Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas as suas relações pessoaes; d'ahi a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!

FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.

{71}

[GALERIA POSTHUMA]

[I]

Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e ainda na vespera fôra a um baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de um amigo d'elle, que lhe tomou do braço, e lhe disse:

—Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os velhos são capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa grossa,—estavamos em junho de 1879—mettendo a calva na{72} carapuça, accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta, tirou um de muitos folhetos manuscriptos,—e escreveu durante tres ou quatro minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas: «Em summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma quadrilha; á porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruido com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com as moças. E depois, muito serviçal, prompto a escrever cartas, a fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se á noite alguns intimos da visinhança, e ás vezes de outros bairros; jogavam o voltarete ou o whist, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido deputado até á dissolução da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. Não conseguindo ser reeleito, abandonou a vida publica. Era{73} conservador, nome que a muito custo admittiu, por lhe parecer gallicismo politico. Saquarema é o que elle gostava de ser chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que nos ultimos tempos desligou-se do proprio partido, e afinal da mesma opinião. Ha razões para crêr que, de certa data em diante, foi um profundo sceptico, e nada mais.

Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a primeira invasão da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias, com grande magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperança durante algum tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus bellos cachos de 1845 até meiados do segundo neto; outra, mais moça e tambem viuva, pensou retel-o com algumas concessões, tão generosas quão irreparaveis. «Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasiões em que ella insinuava a solução conjugal, por que não continuaremos assim mesmo? O mysterio é o encanto da vida.» Morava com um sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim Fidelis deu-lhe educação e fel-o estudar, até obter diploma de bacharel em sciencias juridicas, no anno de 1877.{74}

Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um coração unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a expressão tragica; mas a originalidade da mascara perdeu-se.

—Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo Villares, ao receber noticia do caso.

Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim Fidelis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram os outros quatro, logo depois, um a um, estupefactos, incredulos. Primeiro chegou o Elias Xavier, que alcançára por intermedio do finado, segundo se dizia, uma commenda; depois entrou o João Braz, deputado que foi, no regimen das supplencias, eleito com o influxo do Joaquim Fidelis. Vieram, emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe não deviam diplomas, commendas nem empregos, mas outros favores. Ao{75} Galdino adiantou elle alguns poucos capitaes, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno e recordavam a ultima festa, a do outro domingo, tão intima, tão expansiva! E, mais perto ainda, a noite da ante-vespera, em que o voltarete do costume foi até ás onze horas.

—Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do Carvalhinho.

—E depois?...

—Depois de amanhã, cá estou.

E, á sahida, deu-lhes ainda um maço de excellentes charutos, segundo fazia ás vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e duas ou tres pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo acabado!

Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos; mas as argolas do caixão foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum d'elles quiz ceder a ninguem esse ultimo obsequio, considerando que era um dever cordial e intransferivel. O adeus do cemiterio foi proferido pelo João Braz, um adeus tocante, com algum excesso de estylo para um caso tão urgente,{76} mas, emfim, desculpavel. Deitada a pá de terra, cada um se foi arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao trabalho posterior e indifferente dos coveiros. Não arredaram pé antes de vêr cheia a cova até acima, e depositadas sobre ellas as coroas funebres.

[II]

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a almoçar.

—Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse elle.

Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual estava.{77} Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos, programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos manuscriptos, numerados e datados.

—Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe depressa, e João Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica, anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do finado, as graças do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela impressão typographica; Benjamim dizia que sim, com a condição de excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular.{78} E continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia. Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de horas; João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura. Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as comichões coçam-se: é o que elles queriam fazer, lendo.

—Até amanhã, disseram.

—Até amanhã.

Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas, admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos. Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos, outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu{79} com o Diogo Villares. E leu estas poucas linhas:

«DIOGO VILLARES.—Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o. Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim, acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda melhor. C'est le genre ennuyeux. Não é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e credulo. Com intervallo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um ministerio que era excellente e detestavel:—differença dos interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê pela primeira vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo dia dá-lhe piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as bochechas, que lhe emprestam um certo ar superior.»

A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia negal-o,{80} era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o Elias:

«ELIAS XAVIER.—Este Elias é um espirito subalterno, destinado a servir alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua. Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita de que ha entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo, porque todos lhe rasgam muitas cortezias. É intelligente, risonho e fino. Conversa muito bem. Não conheço comprehensão mais rapida. Não é poltrão nem maldizente. Só falla mal de alguem, por interesse; faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima é gratuita. Dedicado e insinuante. Não tem idéas, é verdade; mas ha esta grande differença entre elle e o Diogo Villares:—o Diogo repete prompta e boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as{81} suas e plantal-as opportunamente na conversação. Um caso de 1865 caracterisa bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do Paraguay, ia receber uma commenda. Não precisava de mim; mas veiu pedir a minha intercessão, duas ou tres vezes, com um ar consternado e supplice. Fallei ao ministro, que me disse:—«O Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta só a assignatura do imperador.» Comprehendi então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido.»

—Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns instantes, reflexionou comsigo:—Estou lendo um coração, livro inedito. Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto primitivo e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca... Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar, meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a verdade do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas, com as maneiras cordiaes e{82} graciosas do tio, e sentia-se tomado de um certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o finado? Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto algumas damas, alguns homens publicos, deu com o Fragoso,—um esboço curto e curtissimo,—logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o João Braz. Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes, talvez a mesma com que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia assim:

«FRAGOSO.—Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não me custou casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria adoração,—quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e chocha.»

«GALDINO MADEIRA.—O melhor coração do mundo e um caracter sem macula; mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe algum dinheiro, por motivo da familia, e porque me não fazia falta. Ha no cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no vacuo. Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de imagens, de phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras expressões, surradas como colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se{83} facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em perder, e em mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros. Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous annos, dizia-me com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de lhe pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»

«JOÃO BRAZ.—Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem maneiras. Não póde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os olhos. Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem carreira, a ambição vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que serviu de deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor com que anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha alguns mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é atheu, mas não affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e severa, mas o caracter{84} tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»

Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.—«Este meu sobrinho, dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo menos. Discreto leal e bom,—bom até á credulidade. Tão firme nas affeições como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no direito o vocabulario e as formulas.»

Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro para contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é provavel que a mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade de dissipar a impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria para reagir contra o escripto; mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o sem contraste. Então considerou se o tio não teria composto essas paginas nas horas de máu humor; comparou-as a outras em que a phrase era menos aspera, mas não cogitou se alli a brandura vinha ou não de molde.{85}

Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as horas de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a pilheria grave; em logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e o labio arregaçado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. Não podendo rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e concertar-lhe a bocca; mas tão depressa o fazia, como a palpebra tornava a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já não era o homem, era o auctor do manuscripto.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde, apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com instancia para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e aquillo, inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na sala, por traz d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar só, e ver se com elles desapparecia a visão. Assim se passaram trinta a quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e deliberaram{86} sahir; despediram-se ceremoniosamente, e foram conversando, para suas casas:

—Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah! Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!

FIM DA GALERIA POSTHUMA.

{87}

[CAPITULO DOS CHAPÉOS]

GÉRONTE

Dans quel chapitre, s'il vous plait?

SCAGNARELLE

Dans le chapitre des chapeaux.

MOLIÈRE.

Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra, naquella manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéo, leve, não deselegante, um chapéo baixo. Conrado, advogado, com escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias á cidade, ia com elle ás audiencias; só não o levava ás recepções, theatro lyrico, enterros e visitas de ceremonia. No mais era constante, e isto desde cinco ou seis annos, que tantos eram os do casamento. Ora, naquella singular manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou a enrolar um cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma cousa.{88}

—Que é, meu anjo?

—Você é capaz de fazer-me um sacrificio?

—Dez, vinte...

—Pois então não vá mais á cidade com aquelle chapéo.

—Porque? é feio?

—Não digo que seja feio; mas é cá para fóra, para andar na visinhança, á tarde ou á noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...

—Que tolice, yayá!

—Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio frouxa e supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva, meiga, de uma plasticidade de encommenda, capaz de usar com a mesma divina indifferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é que, tendo tido uma vida de andarilha nos ultimos dous annos de solteira, tão depressa casou como se affez aos habitos quietos. Sahia ás vezes, e a maior parte dellas por instancias do proprio consorte; mas só estava commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos suppriam-lhe os{89} filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordancia da pessoa com o meio, que ella saboreava os trastes na posição occupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das tres janellas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meia aberta; nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava ás exigencias monotonas da mulher, que mantinha sem alteração a desordem dos livros, e até chegava a restaural-a. Os habitos mentaes seguiam a mesma uniformidade. Marianna dispunha de mui poucas noções, e nunca lêra se não os mesmos livros:—a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoe e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l'enigme, de Madame Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapéo? Na vespera, á noite, emquanto o marido fôra a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados, o pae de Marianna veiu á casa d'elles. Era um bom velho, magro, pausado, ex-funccionario publico, ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que elle, ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor suspeita, a solemnidade da morte ou a gravidade da despedida ultima, mas por esta menos{90} philosophica, por ser um costume antigo. Não dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar ás duas horas, nem de vinte usos mais. E tão afferrado aos habitos, que no anniversario do casamento da filha, ia para lá ás seis horas da tarde, jantado e diggerido, via comer, e no fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho e café. Tal era o sogro de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapéo baixo do genro? Supportava-o calado, em attenção ás qualidades da pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porém, naquelle dia, vel-o de relance na rua, de palestra com outros chapéos altos de homens publicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe o chapéo baixo como a abominação das abominações, e instou com ella para que o fizesse desterrar.

Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a docilidade da mulher, não entendeu a resistencia; e, porque era autoritario, e voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente. Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal ironia e desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Marianna quiz levantar-se duas vezes; elle obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe{91} levemente no pulso, a segunda subjugando-a com o olhar. E dizia sorrindo:

—Olhe, yayá, tenho uma razão philosophica para não fazer o que você me pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.

Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e entrou a bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:

—A escolha do chapéo não é uma acção indifferente, como você póde suppor; é regida por um principio metaphysico. Não cuide que quem compra um chapéo exerce uma acção voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A illusão da liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez ensaiar trinta ou quarenta chapéos, e sair sem comprar nenhum, imaginam que elle está procurando livremente uma combinação elegante. O principio metaphysico é este:—o chapéo é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab eterno; ninguem o póde trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não occorreu a ninguem. Os sabios tem estudado{92} tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar bibliographicamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecanica Celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar deante do chapéo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha uma metaphysica do chapéo. Talvez eu escreva uma memoria a este respeito. São nove horas e tres quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflicta comsigo, e verá... Quem sabe? póde ser até que nem mesmo o chapéo seja complemento do homem, mas o homem do chapéo...

Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada d'aquella nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era um sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu d'ahi a alguns minutos, e parou deante della com o famoso chapéo na cabeça. Marianna achou-lh'o, na verdade, torpe, ordinario, vulgar, nada serio. Conrado despediu-se ceremoniosamente e sahiu.

A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humiliação subsistia. Marianna não chorou, não clamou, como suppunha que ia fazer; mas, comsigo mesma, recordou a simplicidade do{93} pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fôra um pouco exigente, não achava justificação para taes excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi á sala de visitas, chegou á janella meia aberta, viu ainda o marido, na rua, á espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpissimo chapéo na cabeça. Marianna sentiu-se tomada de odio contra essa peça ridicula; não comprehendia como pudera supportal-a por tantos annos. E relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus modos, na acquiescencia a todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso d'aquella manhã. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como tantas outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que tratavam os maridos como elles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem metade nem uma sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou á ideia de sahir. Vestiu-se, e foi á casa da Sophia, uma antiga companheira de collegio, com o fim de espairecer, não de lhe contar nada.

Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte, muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta lhe não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto{94} e grande. Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe tudo. Sophia riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa não era do marido.

—Bem sei, é minha, concordava Marianna.

—Não seja tola, yayá! Você tem sido muito molle com elle. Mas seja forte uma vez; não faça caso; não lhe falle tão cedo; e se elle vier fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéo.

—Veja você, uma cousa de nada...

—No fim de contas, elle tem muita razão; tanta como outros. Olhe a pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou com um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado do inglez! Naturalmente nem deu pela falta. A gente póde viver bem com seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia. Não lhe peço uma cousa que elle me não faça logo; mesmo quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era elle que teimaria assim por causa de um chapéo! Tinha que vêr! Pois não! Onde iria elle parar! Mudava de chapéo, quer quizesse, quer não.{95}

Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a situação, esta Sophia não era só muito senhora de si, mas tambem dos outros; tinha olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta, mas namoradeira; o termo é crú, e não ha tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que ella distribuia a todos os pobres que lhe batiam á porta:—um nikel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apolice. Ora este sentimento caritativo induziu-a a propor á amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros chapéos bonitos e graves. Marianna aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava cançada de viver captiva. Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.

Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala, irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella semana,{96} marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.

—Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça masculina,—com excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade, aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino. Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapéo resgatava-os; não que fosse um chapéo alto; era baixo, mas proprio do apparelho equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.

Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a ainda mais{97} vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia um pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não accrescentasse que Sophia tinha consciencia da superioridade, e que apreciava por isso mesmo as bellezas do genero Marianna, menos derramadas e apparentes. Se é um defeito, não me compete emendal-o.

—Onde vamos nós? perguntou Marianna.

—Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?

—Não.

—Nem tirar o retrato?

—Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?