MEMORIAS POSTHUMAS
DE
BRAZ CUBAS
POR
MACHADO DE ASSIS
RIO DE JANEIRO
TYPOGRAPHIA NACIONAL
1881
OBRAS DO AUTOR
Memorias Posthumas de Braz Cubas
Helena, romance
Yayá Garcia, romance
Resurreição, romance
A mão e a luva, romance
Historias da meia noite
Contos Fluminenses
Americanas, poesias
Phalenas, poesias
Chrysalidas, poesias
Tu só, tu, puro amor, comédia
Os deuses de casaca, comédia
Desencantos, comédia
Theatro
[AO LEITOR]
Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa, na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que empreguei na composição destas Memorias, trabalhadas cá no outro seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.
Braz Cubas.
AO VERME
QUE
PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
DO MEU CADAVER
DEDICO
COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMORIAS POSTHUMAS
[CAPITULO I]
Obito do autor
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce que chovia—peneirava—uma chuvinha miuda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de minha cova:—«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso illustre finado.»
Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ancias nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,—minha irmã Sabina, casada com o Cotrim,—a filha, um lyrio do valle,—e... Tenham paciencia! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu obito era cousa altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crêr na minha extincção.
—Morto! morto! dizia comsigo.
E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das ruinas e dos tempos,—a imaginação dessa senhora tambem voou por sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil... Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente, ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha, esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.
Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
[CAPITULO II]
O emplasto
Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara, pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas caixinhas do remedio, estas tres palavras: emplasto Braz Cubas. Para que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico, outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde de nomeada. Digamos:—amor da gloria.
Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.
Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.
[CAPITULO III]
Genealogia
Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealogico.
O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade, se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós—dos avós que a minha familia sempre confessou—, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei conde da Cunha.
Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um calembour. Era um bom caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle imaginou as tresentas cubas mouriscas.
Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia, por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo; vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.
[CAPITULO IV]
A idéa fixa
A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira. Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro banana,—ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos, e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sabio.
Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos; a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,—formula Suetonio.
Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.
Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella, com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a comparação não presta.
[CAPITULO V]
Em que apparece a orelha de uma senhora
Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações menos lucidas e não menos triumphantes.
Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a sorte dos homens.
Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina. Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...
[CAPITULO VI]
Chimène, qui l'eut dit?—Rodrigue, qui l'eut cru?
Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto, e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a agora não qual era, mas qual fôra, quaes foramos ambos, porque um Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples saudade.
Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.
Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa saber é que Virgilia—chamava-se Virgilia—entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.
—Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.—Ora, defuntos! respondeu Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:—Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.
—Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.
E vendo o relogio:
—Jesus! são tres horas. Vou-me embora.
—Já?
—Já; virei amanhã ou depois.
—Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...
—Sua mana?
—Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.
Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com gravidade:
—Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, virei com o Nhonhô.
Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao filho:
—Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer fallar para fazer crer que está á morte.
Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...
Era o meu delirio que começava.
[CAPITULO VII]
O delirio
Que me conste, ainda ninguem relatou o seu proprio delirio; faço-o eu, e a sciencia m'o agradecerá. Se o leitor não é dado á contemplação destes phenomenos mentaes, póde saltar o capitulo; vá direito á narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.
Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinez, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica de S. Thomaz, impressa n'um volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéa esta que me deu ao corpo a mais completa immobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguem as descruzava (Virgilia de certo), porque a attitude lhe dava a imagem de um defunto.
Ultimamente, restituido á fórma humana, vi chegar um hippopotamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança, mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogal-o, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.
—Engana-se, replicou o animal, nós vamos á origem dos seculos.
Insinuei que deveria ser muitissimo longe; mas o hippopotamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas cousas; e, perguntando-lhe, visto que elle fallava, se era descendente do cavallo de Achilles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dous quadrupedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir á ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas taes ou quaes cocegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos seculos, se era tão mysteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consummação dos mesmos seculos; tudo isto reflexões de um cerebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio augmentava com a jornada, e que chegou uma occasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com effeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava n'uma planicie branca de neve, com uma ou outra montanha de neve, vegetação de neve, e varios animaes grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei fallar, mas apenas pude grunhir esta pergunta anciosa:
—Onde estamos?
—Já passámos o Eden.
—Bem; paremos na tenda de Abrahão.
—Mas se nós caminhamos para traz! redarguiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou a parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incommodo, a conducção violenta, e o resultado impalpavel. E depois—cogitações de enfermo—dado que chegassemos ao fim indicado, não era impossivel que os seculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como elles. Em quanto assim pensava, iamos devorando caminho, e a planicie voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquillamente em torno de mim. Olhar sómente; nada vi, além da immensa brancura da neve, que desta vez invadira o proprio ceu, até alli azul. Talvez, a espaços, me apparecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silencio daquella região era egual ao do sepulchro: dissera-se que a vida das cousas ficára estupida deante do homem.
Cahiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto immenso, uma figura de mulher me appareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das fórmas selvaticas, e tudo escapava á comprehensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita voz diaphano. Estupefacto, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava; curiosidade de delirio.
—Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
Ao ouvir esta ultima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o effeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.
—Não te assustes, disse ella, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se affirma. Vives: não quero outro flagello.
—Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existencia.
—Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dôr e o vinho da miseria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciencia rehouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.
Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabellos e levantou-me ao ar, como se fôra uma simples pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorsão violenta, nenhuma expressão de odio ou ferocidade; a feição unica, geral, completa, era a da impassibilidade egoista, a da eterna surdez, a da vontade immovel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais debil e descrepito dos seres.
—Entendeste-me? disse ella, no fim de algum tempo de mutua contemplação.
—Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fabula. Estou sonhando, de certo, ou, se é verdade que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma cousa vã, que a razão ausente não póde reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagello, nem, como tu, traz esse rosto indifferente, como o sepulchro. E porque Pandora?
—Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?
—Sim; o teu olhar fascina-me.
—Creio; eu não sou somente a vida; sou tambem a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra echoou, como um trovão, naquelle immenso valle, afigurou-se-me que era o ultimo som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição subita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos supplices, e pedi mais alguns annos.
—Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do expectaculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos afflictivo: o alvor do dia, a melancholia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o somno, emfim, o maior beneficio das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?
—Viver somente, não te peço mais nada. Quem me poz no coração este amor da vida, se não tu? e, se eu amo a vida, porque te has de golpear a ti mesma, matando-me?
—Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, suppõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoismo, dizes tu? Sim, egoismo, não tenho outra lei. Egoismo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocinio da onça é que ella deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atravez de um nevoeiro, uma cousa unica. Imagina tu, leitor, uma reducção dos seculos, e um desfilar de todos elles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos imperios, a guerra dos appetites e dos odios, a destruição reciproca dos seres e das cousas. Tal era o expectaculo, acerbo e curioso expectaculo. A historia do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a sciencia, porque a sciencia é mais lenta e a imaginação mais vaga, emquanto que o que eu alli via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevel-a seria preciso fixar o relampago. Os seculos desfilavam n'um turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delirio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,—flagellos e delicias,—desde essa cousa que se chama gloria até essa outra que se chama miseria, e via o amor multiplicando a miseria, e via a miseria aggravando a debilidade. Ahi vinham a cobiça que devora, a colera que inflamma, a inveja que baba, e a enxada e a penna, humidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancholia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruil-o, como um farrapo. Eram as formas varias de um mal, que ora mordia a viscera, ora mordia o pensamento, e passeiava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da especie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia á indifferença, que era um somno sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagellado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atraz de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpavel, outro de improvavel, outro de invisivel, cosidos todos a ponto precario, com a agulha da imaginação; e essa figura,—nada menos que a chimera da felicidade,—ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ella ria, como um escarneo, e sumia-se, como uma illusão.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angustia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me puz a rir,—de um riso descompassado e idiota.
—Tens razão, disse eu, a cousa é divertida e vale a pena,—talvez monotona—mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fôra concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o expectaculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas digere-me.
A resposta foi compellir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os seculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham ás gerações, umas tristes, como os Hebreus do captiveiro, outras alegres, como os devassos de Commodo, e todas ellas pontuaes na sepultura. Quiz fugir, mas uma força mysteriosa me retinha os pés; então disse commigo:—«Bem, os seculos vão passando, chegará o meu, e passará tambem, até o ultimo, que me dará a decifração da eternidade.» E fixei os olhos, e continuei a ver as edades, que vinham chegando e passando, já então tranquillo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada seculo trazia a sua porção de sombra e de luz, de apathia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de systemas, de idéas novas, de novas illusões; em cada um delles rebentavam as verduras de uma primavera, e amarelleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendario, fazia-se a historia e a civilisação, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construia o tugurio e o palacio, a rude aldêa e Thebas de cem portas, creava a sciencia, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecanico, philosopho, corria a face do globo, descia ao ventre da terra, subia á esphera das nuvens, collaborando assim na obra mysteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancholia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distrahido, viu emfim chegar o seculo presente, e atraz delle os futuros. Aquelle vinha agil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco diffuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miseravel como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e egual monotonia. Redobrei de attenção; fitei a vista; ia emfim ver o ultimo,—o ultimo!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a comprehensão; ao pé della o relampago seria um seculo. Talvez por isso entraram os objectos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo,—menos o hippopotamo que alli me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era effectivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava á porta da alcova, com uma bola de papel...
[CAPITULO VIII]
Razão contra Sandice
Já o leitor comprehendeu que era a Razão que voltava á casa, e convidava a Sandice a sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:
La maison est à moi, c'est à vous d'en sortir.
Mas é sestro antigo da Sandice criar amor ás casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, difficilmente lh'a farão despejar. É sestro; não se tira dahi; ha muito que lhe callejou a vergonha. Agora, se advertirmos no immenso numero de casas que occupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amavel peregrina é o terror dos proprietarios. No nosso caso, houve quasi um disturbio á porta do meu cerebro, porque a adventicia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sotão.
—Não, senhora, replicou a Razão, estou cançada de lhe ceder sotãos, cançada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sotão á sala de jantar, dahi á de visitas e ao resto.
—Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mysterio.
—Que mysterio?
—De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão poz-se a rir.
—Has de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa...
E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fóra; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas supplicas; ainda grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a lingua de fóra, em ar de surriada, e foi andando... foi andando... Provavelmente andará até á consummação dos seculos.
[CAPITULO IX]
Transição
E vejam agora com que destreza, com que fina arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delirio começou em presença de Virgilia; Virgilia foi o meu grão peccado da juventude; não ha juventude sem meninice; meninice suppõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura apparente, nada que divirta a attenção pausada do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do methodo, sem a rigidez do methodo. Na verdade, era tempo. Que isto de methodo, sendo, como é, uma cousa indispensavel, todavia é melhor tel-o sem gravata nem suspensorios, mas um pouco á fresca e á solta, como quem não se lhe dá da visinha fronteira, nem do inspector de quarteirão. É como a eloquencia, que ha uma genuina e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engommada e chocha. Vamos ao dia 20 de Outubro.
[CAPITULO X]
Naquelle dia...
Naquelle dia, a arvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos. Não é impossivel que meu pae lhe ouvisse tal declaração; creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratifical-a com duas meias dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heroe da nossa casa. Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio João, o antigo official de infantaria, achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pae não pôde ouvir sem nauseas; meu tio Ildefonso, então simples padre, farejava-me conego.
—Conego é o que elle ha de ser, e não digo mais por não parecer orgulho; mas não me admiraria nada se Deus o destinasse á um bispado... É verdade, um bispado; não é cousa impossivel. Que diz você, mano Bento?
Meu pae respondia a todos que eu seria o que Deus quizesse; e alçava-me ao ar, como se intentasse mostrar-me á cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com elle, se era intelligente, bonito...
Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar annos depois; ignoro a mór parte dos pormenores daquelle famoso dia. Sei que a visinhança veiu ou mandou comprimentar o recem-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa. Não houve cadeirinha que não trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calção; e se hão conto os mimos, os beijos, as admirações, as bençãos, é porque, se os contasse, não acabaria mais o capitulo, e é preciso acabal-o.
Item, não posso dizer nada do meu baptizado, porque nada me referiram a tal respeito, a não ser que foi uma das mais galhardas festas do anno seguinte, 1806; baptizei-me na egreja de S. Domingos, uma terça feira de março, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o coronel Rodrigues de Mattos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas familias do norte e honravam devéras o sangue que lhes corria nas veias, outr'ora derramado na guerra contra Hollanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e certamente os dizia com muita graça, ou revelava algum talento precoce, porque não havia pessoa extranha diante de quem me não obrigassem a recital-os.
—Nhonhô, diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho.
—Meu padrinho? é o coronel Paulo Vaz Lobo Cezar de Andrade e Souza Rodrigues de Mattos; minha madrinha é a Excellentissima Senhora D. Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Mattos.
—É muito esperto o seu menino, commentavam os ouvintes.
—Muito esperto, concordava meu pae; e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e elle espalmava a mão sobre a minha cabeça, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.
Item, comecei a andar, não sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a natureza, obrigavam-me cedo a agarrar ás cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me carrinhos de páu.—Só só, nhonhô, só só, dizia-me a mucama. E eu, attrahido pelo chocalho de lata, que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cahe aqui, cahe acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.
[CAPITULO XI]
O menino é pai do homen.
Cresci; e nisso é que a familia não interveiu; cresci naturalmente, como crescem as magnolias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnolias são menos inquietas do que eu era na minha infancia. Um poeta dizia que o menino é pae do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o maleficio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis annos. Prudencio, um moleque de casa, era o meu cavallo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, á guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e elle obedecia,—algumas vezes gemendo,—mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um—«ai, nhonhô!»—ao que eu retorquia:—«Cala a boca, besta!»—Esconder os chapéos das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabelleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um genio indocil, mas devo crer que eram tambem expressões de um espirito robusto, porque meu pae tinha-me em grande admiração; e se ás vezes me reprehendia, á vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.
Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéos; mas opiniatico, egoista e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéos, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabelleiras.
Outrosim, affeiçoei-me á contemplação da injustiça humana, inclinei-me a attenual-a, a explical-a, a classifical-a por partes, a entendel-a, não segundo um padrão rigido, mas ao sabor das circumstancias e logares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu sentia que, mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a boa regra perdia o espirito, que a faz viver, para se tornar uma vã formula. De manhã, antes do mingáu, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade, e meu pae, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: Ah! bregeiro! ah! bregeiro!
Sim, meu pae adorava-me, tinha-me esse amor sem merito, que é um simples e forte impulso da carne; amor que a razão não contrasta nem rége. Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cerebro e muito coração, assaz credula, sinceramente piedosa,—caseira, apezar de bonita, e modesta, apezar de abastada; temente ás trovoadas e ao marido. O marido era na terra o seu deus. Da collaboração dessas duas creaturas nasceu a minha educação, que, se tinha alguma cousa boa, era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio conego fazia ás vezes alguns reparos ao irmão; dizia-lhe que elle me dava mais liberdade do que ensino, e mais affeição do que emenda; mas meu pae respondia que applicava na minha educação um systema inteiramente superior ao systema usado; e por este modo, sem confundir o irmão, illudia-se a si proprio.
Havia em minha mãe uma sombra de melancholia, que eu herdei, como herdei de meu pae a fatuidade. Os aspectos da vida accrescentaram-lhe a natural tendencia. Tinha coração de mais, uma sensibilidade melindrosa, exigente, doentia.
De envolta com a transmissão e a educação, houve ainda o exemplo extranho, o meio domestico. Vimos os paes; vejamos os tios. Um delles, o João, era um homem de lingua solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze annos entrou a admittir-me ás anecdotas, reaes ou não, eivadas todas de obscenidade ou immundicie. Não me respeitava a adolescencia, como não respeitava a batina do irmão; com a differença que este fugia logo que elle enveredava por assumpto escabroso. Eu não; deixava-me estar, sem entender nada, a principio, depois entendendo, e emfim achando-lhe graça. No fim de certo tempo, quem o procurava era eu; e elle gostava muito de mim, dava-me doces, levava-me a passeio. Em casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu achal-o, no fundo da chacara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa; e ahi é que era um desfiar de anecdotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguem podia ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fóra, inclinadas sobre as peças de roupa, a batel-as, a ensaboal-as, a torcel-as, iam ouvindo e redarguindo ás pilherias do tio João, e a commental-as de quando em quando com esta palavra:
—Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!
Bem differente era o tio conego. Esse tinha muita austeridade e pureza; taes dotes, comtudo, não realçavam um espirito superior, apenas compensavam um espirito mediocre. Não era homem que visse a parte substancial da egreja; via o lado externo, a hierarchia, as preeminencias, as sobrepelizes, as circumflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infracção dos mandamentos. Agora, a tantos annos de distancia, não estou certo se elle poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a historia do symbolo de Nicéa; mas ninguem, nas festas cantadas, sabia melhor o numero e caso das cortezias que se deviam ao officiante. Conego foi a unica ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observancia das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuia algumas virtudes, em que era exemplar, mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impôr aos outros.
Não digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim; essa differençava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco tempo em nossa companhia, uns dous annos. Outros parentes e alguns intimos não merecem a pena de ser citados; não tivemos uma vida commum, mas intermittente, com grandes claros de separação. O que importa é a expressão geral do meio domestico, e essa ahi fica indicada,—vulgaridade de caracteres, amor das apparencias rutilantes, do arruido, frouxidão da vontade, dominio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flôr.
[CAPITULO XII]
Um episodio de 1814
Mas eu não quero passar adeante, sem contar summariamente um galante episodio de 1814; tinha nove annos.
Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o explendor da gloria e do poder; era imperador e grangeára inteiramente a admiração dos homens. Meu pae, que á força de persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si proprio, nutria contra elle um odio puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João, não sei se por espirito de classe e sympathia de officio, perdoava no despota o que admirava no general, meu tio padre era inflexivel contra o corso, os outros parentes dividiam-se; dahi as controversias e as rusgas.
Chegando ao Rio de Janeiro a noticia da primeira quéda de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo publico, julgaram mais decoroso o silencio; alguns foram além e bateram palmas. A população, cordialmente alegre, não regateou demonstrações de affecto á real familia; houve illuminações, salvas, Te-Deum, cortejo e acclamações. Figurei nesses dias com um espadim novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antonio; e, francamente, interessava-me mais o espadim do que a quéda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse phenomeno. Nunca mais deixei de pensar commigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita pagina rumorosa de grandes idéas e maiores palavras, mas não sei porque, no fundo dos applausos que me arrancavam da boca, lá echoava alguma vez este conceito de experimentado:
—Vae-te embora, tu só cuidas do espadim.
Não se contentou a minha familia em ter um quinhão anonymo no regozijo publico; entendeu opportuno e indispensavel celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruido das acclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou, quando menos, de seus ministros. Dito e feito. Veiu abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luiz Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da India; matou-se um capado; encommendaram-se ás madres da Ajuda as compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçaes, arandellas, as vastas mangas de vidro, todos os apparelhos do luxo classico.
Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade selecta, o juiz de fóra, tres ou quatro officiaes militares, alguns commerciantes e lettrados, varios funccionarios da administração, uns com suas mulheres e filhas, outros sem ellas, mas todos commungando no desejo de atolar a memoria de Bonaparte no papo de um perú. Não era um jantar, mas um Te-Deum; foi o que pouco mais ou menos disse um dos lettrados presentes, o Dr. Villaça, glosador insigne, que accrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse hontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabelleira de rabicho, casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo indice, que apontava para o tecto; e, assim posto e composto, devolver o mote glosado. Não fez uma glosa, mas tres; depois jurou aos seus deuses não acabar mais. Pedia um mote, davam-lh'o, elle glosava-o promptamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração.
—A senhora diz isso, retorquia modestamente o Villaça, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do seculo, em Lisboa. Aquillo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Immenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, ha dias, a Sra. duqueza de Cadaval...
E estas tres palavras ultimas, expressas com muita emphasis, produziram em toda a assembléa um fremito de admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com duquezas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal homem, as damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-n'o com respeito, alguns com inveja, não raros com incredulidade. Elle, entretanto, ia caminho, a accummular adjectivo sobre adjectivo, adverbio sobre adverbio, a desfiar todas as rimas de tyranno e de usurpador. Era á sobremeza; ninguem já pensava em comer. No intervallo das glosas, corria um borborinho alegre, um palavrear de estomagos satisfeitos; os olhos, molles e humidos, ou vivos e calidos, espreguiçavam-se ou saltitavam de uma ponta a outra da meza, atulhada de doces e fructas, aqui o ananaz em fatias, alli o melão em talhadas, as compoteiras de crystal deixando ver o doce de coco, finamente ralado, amarello como uma gemma,—ou então o melado escuro e grosso, não longe do queijo e do cará. De quando em quando um riso jovial, amplo, desabotoado, um riso de familia, vinha quebrar a gravidade politica do banquete. No meio do interesse grande e commum, agitavam-se tambem os pequenos e particulares. As moças fallavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo, e do minuete e do solo inglez; nem faltava matrona que promettesse bailar um oitavado de compasso, só para mostrar como folgára nos seus bons tempos de criança. Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro noticia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra-carta em que... Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquella occasião. O que afiançava é que podiamos contar, só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.
—Trás...trás...trás...fazia o Villaça batendo com as mãos uma na outra. O rumor cessava de subito, como um estacado de orchestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador. Quem ficava longe aconcheava a mão atraz da orelha para não perder palavra; a mór parte, antes mesmo da glosa, tinha já um meio riso de applauso, trivial e candido.
Quanto a mim, lá estava, solitario e deslembrado, a namorar uma certa compota da minha feição. No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando que fosse a ultima; mas não era, e a sobremeza continuava intacta. Ninguem se lembrava de dar a primeira voz. Meu pae, á cabeceira, saboreava a goles extensos, a alegria dos convivas, mirava-se todo nos carões alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais distantes espiritos, influxo de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para elle e delle para a compota, como a pedir-lhe que m'a servisse; mas fazia-o em vão. Elle não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas succediam-se, como bategas d'agua, obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o doce; emfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pae, que seria capaz de me dar o sol, se eu lh'o exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancára-me da cadeira e entregára-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repellões.
Não foi outro o delicto do glosador: retardára a compota e dera causa á minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, cousa que de alguma maneira o tornasse ridiculo. Que elle era um homem grave o Dr. Villaça, medido e lento, quarenta e sete annos, casado e pae. Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabelleira; havia de ser cousa peor. Entrei a espreital-o, durante o resto da tarde, a seguil-o, na chacara, aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusebia, irmã do sargento-mór Domingues, uma robusta donzellona, que se não era bonita, tambem não era feia.
—Estou muito zangada com o senhor, dizia ella.
—Porque?
—Porque ... não sei porque ... porque é a minha sina ... creio ás vezes que é melhor morrer...
Tinham penetrado n'uma pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Villaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volupia.
—Deixe-me, disse ella.
—Ninguem nos vê. Morrer, meu anjo? Que idéas são essas! Você sabe que eu morrerei tambem ... que digo?... morro todos os dias, de paixão, de saudades...
D. Eusebia levou o lenço aos olhos. O glosador vasculhava na memoria algum pedaço litterario, e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das operas do Judeu:
—Não chores, meu bem; não queiras que o dia amanheça com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ella resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.
—O Dr. Villaça deu um beijo em D. Eusebia! bradei eu correndo pela chacara.
Foi um estouro esta minha palavra; a estupefacção immobilisou a todos; os olhos espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos, á socapa, as mães arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pae puxou-me as orelhas, disfarçadamente, irritado devéras com a indiscrição; mas no dia seguinte, ao almoço, lembrando o caso, sacudiu-me o nariz, a rir:—Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
[CAPITULO XIII]
Um salto
Unamos agora os pés e demos um salto por cima da eschola, a enfadonha eschola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhal-as, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propicio a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lições arduas e longas, e pouco mais, mui pouco e mui leve. Só era pesada a palmatoria, e ainda assim... Ó palmatoria, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cerebro o alphabeto, a prosodia, a syntaxe, e o mais que elle sabia, benta palmatoria, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorancias, e o meu espadim, aquelle espadim de 1814, tão superior á espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras lettras? Lição de cór e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é a mestra das ultimas lettras; com a differenca que tu, se me mettias medo, nunca me metteste zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinellas de couro branco, capote, lenço na mão, calva á mostra, barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma pitada inicial, e chamar-nos depois á lição. E fizeste isto durante vinte e tres annos, calado, obscuro, pontual, mettido n'uma casinha da rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua mediocridade, até que um dia déste o grande mergulho nas trevas, e ninguem te chorou, salvo um preto velho,—ninguem, nem eu, que te devo os rudimentos da escripta.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta pagina: Ludgero Barata,—um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, tres vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças,—umas largas calças de enfiar—, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se elle a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chammejantes, dizia-nos os ultimos nomes; eramos sevandijas, capadocios, mal criados, moleques.—Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
Uma flôr, o Quincas Borba. Nunca em minha infancia, nunca em toda a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flôr, e não já da eschola, senão de toda a cidade. A mãe, viuva, com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, aceiado, enfeitado, com um vistoso pagem atraz, um pagem que nos deixava gazear a eschola, ir caçar ninhos de passaros, ou perseguir lagartixas no morro do Livramento e da Conceição, ou simplesmente arruar, á toa, como dous peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espirito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, elle escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificencia nas attitudes, nos meneios. Quem diria que... Suspendamos a penna; não adeantemos os successos. Fujamos sobretudo desse passado tão remoto, tão coberto, ai de mim! de cruzes funebres. Vamos do um salto a 1822, data da nossa independencia politica, e do meu primeiro captiveiro pessoal.
[CAPITULO XIV]
O primeiro beijo
Tinha dezesete annos; pungia-me um buçosinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição verdadeiramente mascula. Como ostentasse certa arrogancia, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corsel nervoso, rijo, veloz, como o corsel das antigas balladas, que o romantismo foi buscar ao castello medieval, para dar com elle nas ruas do nosso seculo. O peor é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deital-o á margem, onde o realismo o veiu achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou deante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me captivou logo foi um ... uma ... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castissimo. Mas vá lá; ou se ha de dizer tudo ou nada. A que me captivou foi uma dama hespanhola, Marcella, a «linda Marcella», como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Asturias; disse-m'o ella mesma, n'um dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um lettrado de Madrid, victima da invasão franceza, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ella tinha apenas doze annos. Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pae, lettrado ou hortelão, a verdade é que Marcella não possuia a innocencia rustica, e mal chegava a entender a moral do codigo. Era boa moça, lepida, sem escrupulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permittia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquelle anno, morria ella de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tisico,—uma perola.
Vi-a, pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminarias, logo que constou a declaração da independencia, uma festa de primavera, um amanhecer da alma publica. Eramos dous rapazes, o povo e eu; vinhamos da infancia, com todos os arrebatamentos da juventude. Vi-a sahir de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras. —Segue-me, disse ella ao pagem. E eu segui-a, tão pagem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe «linda Marcella», lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
Tres dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcella. O Xavier, com todos os seus tuberculos, presidia ao banquete nocturno, em que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. Que gentil que ella estava a hespanhola! Havia mais uma meia duzia de mulheres,—todas de partido—, e bonitas, cheias de graça, mas a hespanhola... O enthusiasmo, alguns goles de vinho, o genio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma cousa unica; á sahida, á porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.
—Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcella de pé, no patamar.
—O lenço.
Ella ia abrir-me caminho para tornar á sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ella disse alguma cousa, se gritou, se chamou alguem; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ebrio.
[CAPITULO XV]
Marcella
Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcella, não já cavalgando o corsel do cégo desejo, mas o asno da paciencia, a um tempo manhoso e teimoso. Que, na verdade, ha dous meios de grangear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cysne de Leda e a chuva de ouro de Danae, tres inventos do padre Zeus, que, por estarem fóra da moda, ahi ficam trocados no cavallo e no asno. Não direi as traças que urdi, nem as pitas, nem as alternativas de confiança e temor, nem as esperas baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Affirmo-lhes que o asno foi digno do corsel,—um asno de Sancho, deveras philosopho, que me levou á casa della, no fim do citado periodo; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.
Primeira commoção da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser, na creação biblica, o effeito do primeiro sol. Imagina tu esse effeito do primeiro sol, a bater de chapa na face de um mundo em flor. Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito annos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.
Teve duas phases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que eu de nomes não curo; teve a phase consular e a phase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e eu, sem que elle jamais acreditasse dividir commigo o governo de Roma; mas, quando a credulidade não pôde resistir á evidencia, o Xavier depoz as insignias, e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a phase cesariana. Era meu o universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso colligir dinheiro, multiplical-o, invental-o. Primeiro explorei as larguezas de meu pae; elle dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem reprehensão, sem demora, sem frieza; dizia a todos que eu era rapaz e que elle o fora tambem. Mas a tal extremo chegou o abuso, que elle restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Então recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava ás escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso ultimo: entrei a saccar sobre a herança de meu pae, a assignar obrigações, que devia resgatar um dia com usura.
—Na verdade, dizia-me Marcella, quando eu lhe levava alguma seda, alguma joia; na verdade, você quer brigar commigo... Pois isto é cousa que se faça... um presente tão caro...
E, se era joia, dizia isto a contemplal-a entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensaial-a em si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidencia impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vêl-a assim. Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcella juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ninguem nunca jámais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era propria. Eram solidos e bons os moveis, de jacarandá lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixella,—uma linda baixella da India, que lhe doára um desembargador. Baixella do diabo, deste-me grandes repellões aos nervos. Disse-o muita vez á própria dona; não lhe dissimulava o tedio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho. Ella ouvia-me e ria, com uma expressão candida,—candida e outra cousa, que eu nesse tempo não entendia bem; mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso mixto, como devia ter a creatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um seraphim de Klopstock. Não sei se me explico. E porque tinha noticia dos meus zelos tardios, parece que gostava de os açular mais. Assim foi que um dia, como eu lhe não pudesse dar certo collar, que ella vira n'um joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estimulo.
—Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste idéa, concluiu ameaçando-me com o dedo.
E logo, subita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com ellas o rosto, puxou-me a si e fez um tregeito gracioso, um momo de criança. Depois, reclinada na marqueza, continuou a fallar daquillo, com simplicidade e franqueza. Jámais consentiria que lhe comprassem os affectos. Vendera muita vez as apparencias, mas a realidade, guardava-a para poucos. O Duarte, por exemplo, o alferes Duarte, que ella amára devéras, dous annos antes, só a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de valor, como me acontecia a mim; ella só lhe aceitava sem reluctancia os mimos de escasso preço, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas.
—Esta cruz...
Dizia isto, mettendo a mão no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e pendurada ao collo.
—Mas essa cruz, observei eu, não me disseste que era teu pae que...
Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:
—Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado commigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...
—Não digas isso! bradei eu.
—Tudo cessa! Um dia...
Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido:—Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.
—Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia. Sorriu e ficou.
Entretanto, pagava-me á farta os sacrificios; espreitava os meus mais reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia a tudo, risonha e palreira.
—Você é das Arabias, dizia-me.
E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de encantar.
[CAPITULO XVI]
Uma reflexão immoral
Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita, Marcella amou-me...
[CAPITULO XVII]
Do trapezio e outras cousas
... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.
—Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:—Gatuno, sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...
Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, e sacudiu-m'os na cara;—Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou ficas sem cousa nenhuma.
Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.
—Porque não?
—Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...
—Qual delles: o hortelão ou o advogado?
Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
—Não me aborreça, disse.
Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.—Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.
Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza me bradava que era preciso levar Marcella commigo.
—Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.
Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados, trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente de marfim; corri á casa de Marcella.
Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.
—Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro, terás tudo o que quizeres...Olha, toma.
E mostrei-lhe o ponte com os diamantes. Marcella teve um leve sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.
—Prompto, disse eu.
—Doudo! foi a sua primeira resposta.
A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de reprehensão:
—Ora você! dizia.
—Vens commigo?
Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu resolutamente:
—Vou. Quando embarcas?
—Daqui a dous ou tres dias.
—Vou.
Agradeci-lh'o de joelhos. Tinha achado a minha Marcella dos primeiros dias, e disse-lh'o; ella sorriu, e foi guardar a joia, emquanto eu descia a escada.
[CAPITULO XVIII]
Visão do corredor
No fim da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar, apalpar-me, convocar as idéas dispersas, rehaver-me emfim no meio de tantas sensações profundas e contrarias. Achava-me feliz. Certo é que os diamantes corrompiam-me um pouco a felicidade; mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcella; podia ter defeitos, mas amava-me...
—Um anjo! murmurei eu olhando para o tecto do corredor.
E ahi, como um escarneo, vi o olhar de Marcella, aquelle olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e uma noites! Vi-te alli mesmo correr atraz da mulher do vizir, ao longo da galeria, ella a acenar-te com a posse, e tu a correr, a correr, a correr, até a alameda comprida, donde sahiste á rua, onde todos os correeiros te apuparam e desancaram. Então pareceu-me que o corredor de Marcella era a alameda, e que a rua era a de Bagdad. Com effeito, olhando para a porta, vi na calçada, tres dos correeiros, um de batina, outro de libré, outro á paisana, os quaes todos tres entraram no corredor, tomaram-me pelos braços, metteram-me n'uma sege, meu pae á direita, meu tio conego á esquerda, o da libré na boléa, e lá me levaram á casa do intendente de policia, donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a resistencia era inutil.
Tres dias depois segui barra fóra, abatido e mudo. Não chorava sequer; tinha uma idéa fixa... Malditas idéas fixas! A dessa occasião era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcella.
[CAPITULO XIX]
A bordo
Eramos onze passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous rapazes que iam a passeio, quatro commerciantes e dous criados. Meu pae recommendou-me a todos, começando pelo capitão do navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais, levava a mulher tisica em ultimo gráu.
Não sei se o capitão suspeitou alguma cousa do meu funebre projecto, ou se meu pae o poz de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar commigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quasi sempre n'uma camilha raza, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era impossivel que não morresse de uma hora para outra. O capitão fingia não crer na morte proxima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher tisica, no meio do oceano? O mundo para mim era Marcella.
Uma noite, logo no fim do uma semana, achei ensejo propicio para morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto á amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.
—Algum temporal? disse eu.
—Não, respondeu elle estremecendo; não; admiro o explendor da noite. Veja; está celestial!
O estylo desmentia da pessoa, assaz rude e apparentemente alheia a locuções rebuscadas. Fitei-o; elle pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua, perguntando-me porque não fazia uma ode á noite; respondi-lhe que não era poeta. O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, metteu a mão no bolso, saccou um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, á luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida maritima. Eram versos delle.
—Que tal?
Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que elle me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da parte da mulher.—Lá vou, disse elle; e recitou-me o terceiro soneto, com pausa, com amor.
Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espirito os pensamentos máus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que metteu medo a toda a gente, menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, n'uma berlinda; a morte de uma filha fôra a causa da loucura. Não, nunca me ha de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pallido, a coma hirsuta, descomposta. Ás vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar delle; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Emfim, a tempestade amainou depois de longas horas; e confesso que foi uma diversão excellente á tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fital-a quando ella veiu ter commigo.
Amainou o temporal, o capitão veiu perguntar-me se tivera medo, se estivera em risco, se não achára sublime o expectaculo; tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar; o capitão perguntou-me se não gostava de idyllios piscatorios; eu respondi-lhe ingenuamente que não sabia o que era.
—Vae ver, respondeu elle.
E recitou-me um poemasinho, depois outro,—uma egloga,—e emfim cinco sonetos, com os quaes rematou nesse dia a confidencia litteraria. No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão maritima, porque a avó queria que elle fosse padre, e com effeito possuia algumas lettras latinas; não chegou a ser padre, mas não deixou de ser poeta, que era a sua vocação natural; e em prova de que tal era a sua vocação, recitou-me logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um phenomeno: os ademanes que elle usava eram taes, que uma vez me fizeram rir; mas o capitão, quando recitava, de tal sorte olhava para dentro de si mesmo, que não viu nem ouviu nada.
Os dias passavam, e as aguas, e os versos, e com elles ia tambem passando a vida da mulher. Estava por pouco. Um dia, logo depois do almoço, disse-me o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana.
—Já! exclamei.
—Passou muito mal a noite.
Fui vel-a; achei-a, na verdade, quasi moribunda, mas fallando ainda de descançar em Lisboa alguns dias, antes de ir commigo a Coimbra, porque era seu proposito levar-me á Universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas, que vinham morrer na costado do navio, e tratei de o consolar; elle agradeceu-me, relatou-me a historia dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher, relembrou os versos que lhe fez, e recitou-m'os. Neste ponto vieram buscal-o da parte della; corremos ambos; era uma crise. Esse e o dia seguinte foram crueis; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao expectaculo, tinha-lhe repugnancia. Meia hora depois encontrei o capitão, sentado n'um mólho de cabos, com a cabeça nas mãos; disse-lhe alguma cousa de conforto.
—Morreu como uma santa, respondeu elle; e, para que estas palavras não pudessem ser levadas á conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo.—Vamos, continuou, entreguemol-a á cova que nunca mais se abre.
Effectivamente, poucas horas depois, era o cadaver lançado ao mar, com as ceremonias do costume. A tristeza murchára todos os rostos; o do viuvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio. Grande silencio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo, fechou-se,—uma leve ruga,—e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, á popa, com os olhos naquelle ponto incerto do mar em que ficava um de nós... Fui dalli ter com o capitão, para distrahil-o.
—Obrigado, disse-me elle comprehendendo a intenção; creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços. Deus é que lh'os ha de pagar. Pobre Leocadia! tu te lembrarás de nós no céu.
Enxugou com a manga uma lagrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era a paixão delle. Fallei-lhe dos versos, que me lera, e offereci-me para imprimil-os. Os olhos do capitão animaram-se um pouco.—Talvez aceite, disse elle; mas não sei... são bem frouxos versos. Jurei-lhe que não; pedi que os reunisse e me désse antes do desembarque.
—Pobre Leocadia! murmurou elle sem responder ao pedido. Um cadaver... o mar... o céu... o navio...
No dia seguinte veiu ler-me um epicedio composto de fresco, em que estavam memoradas as circumstancias da morte e da sepultura da mulher; leu-m'o com a voz commovida devéras, e a mão tremula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do thesouro que perdera.
—São, disse eu.
—Não haverá estro, ponderou elle, no fim de um instante, mas ninguem me negará sentimento, se não é que o proprio sentimento prejudicou a perfeição....
—Não me parece; acho os versos perfeitos.
—Sim, eu creio que... Versos de marujo.
—De marujo poeta.
Elle levantou os hombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composição, mas já então sem tremuras, accentuando as intenções litterarias, dando relevo ás imagens e melodia aos versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada, eu disse-lhe que sim; elle apertou-me muito a mão e predisse-me um grande futuro.
[CAPITULO XX]
Bacharelo-me
Um grande futuro! Em quanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte mysterioso e vago. Uma idéa expellia outra, a ambição desmontava Marcella. Um grande futuro? Talvez naturalista, litterato, archeologo, banqueiro, politico, ou até bispo,—bispo que fosse,—uma vez que fosse um cargo, uma preeminencia, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse aguia, quebrou nessa occasião o ovo, e desvendou a pupilla fulva e penetrante. Adeus, amores; adeus, Marcella; dias de delirio, joias sem preço, vida sem regimen, adeus. Cá me vou ás fadigas e á gloria; deixo-vos com as calcinhas da primeira edade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas materias arduas, e não sei se profundas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o gráu de bacharel; deram-m'o com a solemnidade do estylo, após os annos da lei; uma bella festa que me encheu de orgulho e de saudades,—principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um academico estroina, superficial, tumultuario e petulante, dado ás aventuras, fazendo romantismo pratico e liberalismo theorico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escriptas. No dia em que a Universidade me attestou, em pergaminho, uma sciencia que eu estava longe de trazer arraigada no cerebro, confesso que me achei de de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por alli fóra assaz desconsolado, mas sentindo já uns impetos, uma curiosidade, um desejo de acotovellar os outros, de influir, de gozar, de viver,—de prolongar a Universidade pela vida adeante...
[CAPITULO XXI]
O almocreve
Vae então, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, elle deu dous corcovos, depois mais tres, emfim mais um, que me sacudiu fóra da sella, e com tal desastre, que o pé esquerdo me ficou preso no estribo; tento agarrar-me ao ventre do animal, mas já então, espantado, disparou pela estrada fóra. Digo mal: tentou disparar, e effectivamente deu dous saltos, mas um almocreve, que alli estava, acudiu atempo de lhe pegar na redea e detel-o, não sem esforço nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e puz-me de pé.