POESIAS COMPLETAS
MACHADO DE ASSIS
MACHADO DE ASSIS
DA ACADEMIA BRAZILEIRA
POESIAS
COMPLETAS
CHRYSALIDAS, PHALENAS
AMERICANAS, OCCIDENTAES
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71-73, RUA DO OUVIDOR, 71-73
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIS
1901
[ADVERTÊNCIA]
Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. Chamo ao ultimo Occidentaes.
Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.
Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.
Rio, 22 de Julho do 1900.
MACHADO DE ASSIS.
[CHRYSALIDAS]
1864
[MUSA CONSOLATRIX]
Que a mão do tempo e o halito dos homens
Murchem a flôr das illusões da vida,
Musa consoladora,
E no teu seio amigo e socegado
Que o poeta respira o suave somno.
Não ha, não ha comtigo.
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De intima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flôr cheirosa,
Que vales tu, desillusão dos homens?
Tu que pódes, ó tempo.
A alma triste do poeta sobrenada
Á enchente das angustias,
E, affrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcyone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A ultima illusão cair, bem como
Folha amarella e secca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me,—e haverá minha alma afflicta,
Em vez de algumas illusões que teve,
A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!
[VISIO]
Eras pallida. E os cabellos,
Aereos, soltos novellos,
Sobre as espaduas as cahiam...
Os olhos meio-cerrados
De volupia e de ternura
Entre lagrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquelle delirio,
Suave, doce martyrio
De pouquissimos instantes,
Os teus labios sequiosos,
Frios, tremulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquelle sonho desperto,
Olhei... silencio de morte
Respirava a natureza—
Era a terra, era o deserto,
Fôra-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira:
Tu e o teu olhar ardente,
Labios tremulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e vehemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a phantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquelle sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indifferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquellas visões amenas
Que á mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes;
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raizes.
Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Désse-me Deus que fingida
Tivesse aquella ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora.
Chorára de agradecida!
[QUINZE ANNOS]
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,
Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?
ALFRED DE MUSSET
Era uma pobre criança...
—Pobre criança, se o eras!—
Entre as quinze primaveras
De sua vida cançada
Nem uma flôr de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a douda da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
—Pobre criança, se o eras!—
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os affectos de sua alma
Havia-os levado á feira,
Onde vendera sem pena
Até a illusão primeira
Do seu doudo coração!
Pouco antes, a candura,
Co'as brancas azas abertas,
Em um berço de ventura
A criança acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para accordal-a era cedo,
E a pobre ainda dormia
Naquelle mudo segredo
Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.
Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da seducção... e acordou-te!
Colhendo as limpidas azas,
O anjo que te velava
Nas mãos tremulas e frias
Fechou o rosto... chorava!
Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flôres
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por ellas, um só espinho
Não te feriu... vás andando...
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma
De tanta illusão, perdida
Aquella primeira calma
Do teu somno de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de belleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;
Então, quando nos teus olhos
Uma lagrima buscares,
E seccos, seccos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angustias
São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio spectro
Do abandono e da penuria
Vier aos teus soffrimentos
Juntar a ultima injuria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daquelles que são agora
Os desvellados comtigo;
Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás,—então já tarde,—
Que por taes gozos não vale
Deixar os braços de Deus.
[STELLA]
Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o ultimo pranto
Por todo o vasto espaço.
Tibio clarão já córa
A téla do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.
Á muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pallidas estrellas,
E vão, e vão com ellas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o humido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a nevoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos intimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lagrimas a pares,
Do amor silencioso,
Mystico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do ethereo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina....
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.
[EPITAPHIO DO MEXICO]
Dobra o joelho:—é um tumulo.
Em baixo amortalhado
Jaz o cadaver tepido
De um povo aniquilado;
A prece melancolica
Reza-lhe em torno á cruz.
Ante o, universo attonito
Abriu-se a extranha liça,
Travou-se a luta fervida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó seculo,
Venceu a espada e o obuz.
Venceu a força indomita;
Mas a infeliz vencida
A magoa, a dôr, o odio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna macula
Seus louros murchará.
E quando a voz fatidica
Da santa liberdade
Vier em dias prosperos
Clamar á humanidade,
Então revivo o Mexico
Da campa surgirá.
[POLONIA]
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao
corpo, e a nação resuscitará.
MICKIEWIEZ.
Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horizonte innunda.
E talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cangado de te ouvir o inutil pranto,
Alfim resurge no dourado Oriente.
Eras livre,—tão livre como as aguas
Do teu formoso, celebrado rio;
A corôa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvellada mãe, a irmã cuidosa,
A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
Á porta dos teus lares vigiava.
Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tyranos
Veio enlutar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
Sobre ti, moribunda,
Viste cahir os duros oppressores:
Tal a gazella que percorre os campos,
Se o caçador a fere,
Cae convulsa de dôr em mortaes ancias,
E vê no extremo arranco
Abater-se sobre ella
Escura nuvem de famintos corvos.
Presa uma vez da ira dos tyranos,
Os membros retalhou-te
Dos senhores a explendida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus—escravos—
Viram descer um véu de luto á patria
E apagar-se na historia a gloria tua.
A gloria, não!—É gloria o captiveiro
Quando a captiva, como tu, não perde
A alliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz communs a dôr, o odio, a esperança.
Um dia, quando o calix da amargura,
Martyr, até ás fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãe, a liberdade
Parecia-soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus labios
Tremulos de anciedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.
Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação caída.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duello atroz e infausto
Que a triste humanidade
Inda verá por seculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue!
A mãe via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
E todas abençoavam
A heroica legião que ia á conquista
Do grande livramento.
Coube ás hostes da força
Da pugna o alto premio;
A oppressão jubilosa
Cantou essa victoria de ignominia;
E de novo, ó captiva, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
Deus continha
Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quiz que nesse dia infausto
Teu macerado corpo allumiasse.
Resignada á dôr e ao infortunio,
A mesma fé, o mesmo amor ardente
Davam-te a antiga força.
Triste viuva, o templo abriu-te as portas;
Foi a hora dos hymnos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas azas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
A casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão da egreja.
Pobre nação!—é longo o teu martyrio;
A tua dôr pede vingança e termo;
Muito has vertido em lagrimas e sangue;
É propicia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
Não ama a liberdade
Quem não chora comtigo as dôres tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua resurreição, finada heroica!
[ERRO]
Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na phantasia
E não chega ao coração;
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indifferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outr'ora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que,—como obra de um dia,
Passou-me essa phantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frivolas chimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pendula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A gloria de me arrastar
Ao teu carro... Vãs chimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...
[ELEGIA]
A bondade choremos innoccente
Cortada em flôr que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada d'entre a gente.
CAMÕES.
Se, como outr'ora, nas florestas virgens,
Nos fosse dado—o esquife que te encerra
Erguer a um galho de arvore frondosa,
Certo, não tinhas um melhor jazigo
Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes
Da florente estação, imagem viva
De teus cortados dias, e mais perto
Do clarão das estrellas.
Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa a noite, alli derramaria
Do seus negros cabellos puro orvalho;
Á beira do teu ultimo jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem letra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,
Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transumpto
De virtudes e graças.
Mal havia transposto da existencia.
Os dourados umbraes; a vida agora
Sorria-lhe toucada dessas flôres
Que o amor, que o talento e a mocidade
Á uma repartiam.
Tudo lhe era presagio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o iris da esperança;
Era, emfim, entre os seus a copia viva
Dessa ventura que os mortaes almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem,
Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pallido da morte
A presentiu feliz e bella e pura,
E, abandonando a região do olvido,
Desceu á terra, e sob a aza negra
A fronte lhe escondeu; o fragil corpo
Não pôde resistir; a noite eterna
Veio fechar seus olhos;
Emquanto a alma abrindo
As azas rutilantes pelo espaço,
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,
No seio do infinito;
Tal a assustada pomba, que na arvore
O ninho fabricou,—se a mão do homem
Ou a impulsão do vento um dia abate
O recatado asylo,—abrindo o vôo,
Deixa os inuteis restos
E, atravessando airosa os leves ares,
Vai buscar n'outra parte outra guarida.
Hoje, do que ora inda lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra della;
O attento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outr'ora ao seu contacto respondiam.
Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esphera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam
As palmas da virtude.
Mas, quando assim a flôr da mocidade
Toda se esfolha sobre o chão de morte,
Senhor, em que firmar a segurança
Das venturas da terra? Tudo morre;
Á sentença fatal nada se esquiva,
O que é fructo e o que é flôr. O homem cego
Cuida haver levantado em chão de bronze
Um edificio resistente aos tempos,
Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
O castello se abate,
Onde, doce illusão, fechado havias
Tudo o que de melhor a alma do homem
Encerra de esperanças.
Dorme, dorme tranquilla
Em teu ultimo asylo; e se eu não pude
Ir espargir tambem algumas flôres
Sobre a lagea da tua sepultura;
Se não pude,—eu que ha pouco te saudava
Em teu erguer, estrella,—os tristes olhos
Banhar nos melancolicos fulgores,
Na triste luz do teu recente occaso,
Deixo-te ao menos nestes pobres versos
Um penhor de saudade, e lá na esphera
Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo,
Possas tu ler nas pallidas estrophes
A tristeza do amigo.
[SINHÁ]
O teu nome é como o oleo derramado.
Cantico dos Canticos.
Nem o perfume que expira
A flôr, pela tarde amena,
Nem a nota que suspira
Canto de saudade e pena
Nas brandas cordas da lyra;
Nem o murmurio da veia
Que abriu sulco pelo chão
Entre margens de alva arêa,
Onde se mira e recreia
Rosa fechada em botão;
Nem o arrulho enternecido
Das pombas, nem do arvoredo
Esse amoroso arruido
Quando escuta algum segredo
Pela brisa repetido;
Nem esta saudade pura
Do canto do sabiá
Escondido na espessura,
Nada respira doçura
Como o teu nome, Sinhá!
[HORAS VIVAS]
Noite: abrem-se as flôres...
Que esplendores!
Cynthia sonha amores
Pelo céu.
Tenues os neblinas
Ás campinas
Descem das collinas,
Como um véu.
Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquellas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabellos,
Em novellos,
Puros, louros, bellos,
A voar.
—«Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Illusões!
—«Quantas, quantas vidas
Vão perdidas
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Annos apoz annos,
Tão insanos,
Vem os desenganos
Afinal.
—«Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês?—por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos—horas vivas
De dormir—»
[VERSOS A CORINNA]
Tacendo il nome di questa gentilissima.
DANTE.
I
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo
N'uma hora de amor, de ternura e desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;
Depois, depois vestindo a fórma peregrina,
Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna!
De um jubilo divino os cantos entoava
A natureza mãe, e tudo palpitava,
A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude,
De uma vida melhor e nova juventude.
Minh'alma adivinhou a origem do teu ser;
Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver;
A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,
Palpitou, reviveu a pobre creatura;
Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes;
Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes;
Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região;
Era o dia marcado á minha redempção.
Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de cherubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bella como Helena!
Era assim, a mulher que extasia e domina,
A mulher que reune a terra e o céu; Corinna!
N'este fundo sentir, nesta fascinação,
Que pede do poeta o amante coração?
Viver como nasceste, ó belleza, ó primor,
De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
Viver,—fundir a existencia
Em um osculo de amor,
Fazer de ambas—uma essencia,
Apagar outras lembranças,
Perder outras illusões,
E ter por sonho melhor
O sonho das esperanças
De que a unica ventura
Não reside em outra vida,
Não vem do outra creatura;
Confundir olhos mos olhos,
Unir um seio a outro seio,
Derramar as mesmas lagrimas
E tremer do mesmo enleio,
Ter o mesmo coração,
Viver um do outro viver...
Tal era a minha ambição.
Donde viria a ventura
Desta vida? Em que jardim
Colheria esta flôr pura?
Em que solitaria fonte
Esta agua iria beber?
Em que encendido horizonte
Podiam meus olhos ver
Tão meiga, tão viva estrella,
Abrir-se e resplandecer?
Só em ti:—em ti que és bella,
Em ti quo a paixão respiras,
Em ti cujo olhar se embebe
Na illusão de que deliras,
Em ti, que um osculo de Hebe
Teve a singular virtude
De encher, de animar teus dias,
De vida e de juventude...
Amemos! diz a flôr á brisa peregrina,
Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôr
Cantemos esta lei e vivamos, Corinna,
De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
II
A minha alma, talvez, não é tão pura,
Como era pura nos primeiros dias;
Eu sei: tive choradas agonias
De que conservo alguma nodoa escura,
Talvez. Apenas á manhã da vida
Abri meus olhos virgens e minha alma,
Nunca mais respirei a paz e a calma,
E me perdi na porfiosa lida.
Não sei que fogo interno me impellia
Á conquista da luz, do amor, do gozo,
Não sei que movimento imperioso
De um desusado ardor minha alma enchia.
Corri de campo em campo e plaga em plaga.
(Tanta ansiedade o coração encerra!)
A ver o lyrio que brotasse a terra,
A ver a escuma que cuspisse—a vaga.
Mas, no areal da praia, no horto agreste,
Tudo aos meus olhos avidos fugia...
Desci ao chão do valle que se abria,
Subi ao cume da montanha alpestre.
Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me
Em meus sonhos de moço e de poeta;
E contemplei, nesta ambição inquieta,
Da muda noite a pagina sublime.
Tomei nas mãos a cythara saudosa,
E soltei entre lagrimas um canto...
A terra brava recebeu meu pranto
E o éco repetiu-me a voz chorosa.
Foi em vão. Como um languido suspiro,
A voz se me calou, e do invio monte
Olhei ainda as linhas do horizonte,
Como se olhasse o ultimo retiro.
Nuvem negra e veloz corria solta
O anjo da tempestade annunciando;
Vi ao longe as alcyones cantando
Doidas correndo á flôr da agua revolta.
Desilludido, exausto, ermo, perdido,
Busquei a triste estancia do abandono,
E esperei, aguardando o ultimo somno,
Volver á terra, de que foi nascido.
—«Ó Cybele fecunda, é no remanso
Do teu seio—que vive a creatura,
Chamem-te outros morada triste e escura,
Chamo-te gloria, chamo-te descanso!»
Assim fallei. E murmurando aos ventos
Uma blasphemia atroz—estreito abraço
Homem e terra uniu, e em longo espaço
Aos écos repeti meus vãos lamentos.
Mas, tu passaste... Houve um grito
Dentro de mim. Aos meus olhos
Visão de amor infinito,
Visão de perpetuo gozo
Perpassava e me attrahia,
Como um sonho voluptuoso
De sequiosa fantasia.
Ergui-me logo do chão,
E pousei meus olhos fundos
Em teus olhos soberanos,
Ardentes, vivos, profundos,
Como os olhos da belleza
Que das escumas nasceu...
Eras tu, maga visão
Eras tu o ideal sonhado
Que em toda a parte busquei,
E por quem houvera dado
A vida que fatiguei;
Por quem verti tanto pranto,
Por quem nos longos espinhos
Minhas mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é menos pura
Do que era pura nos primeiros dias,
Porque não soube em tantas agonias
Abençoar a minha desventura;
Se a blasphemia os meus labios polluira,
Quando, depois do tempo e do cansaço,
Beijei a terra no mortal abraço
E espedacei desanimado a lyra;
Podes, visão formosa e peregrina,
No amor profundo, na existencia calma,
Desse passado resgatar minha alma
E levantar-me aos olhos teus,—Corinna!
III
Quando voarem minhas esperanças,
Como um bando de pombas fugitivas;
E destas illusões doces e vivas
Só me restarem pallidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe Quimera,
Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens flammejantes
Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia,
Em que, por completar minha tristeza,
Nem possa ver-te, musa da belleza,
Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro,
Voto minh'alma á escura soledade,
Sem procurar melhor felicidade,
E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, de fallaz miragem
Volta desenganado ao lar tranquillo,
E procura, naquelle ultimo asylo,
Nem evocar memorias da viagem;
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados
A tudo mais,—a minha phantasia
As asas colherá com que algum dia
Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior gloria de minha alma,
Se o meu amor profundo não te alcança,
De que me servirá outra esperança?
Que gloria tirarei de alheia palma?
IV
Tu que és bella e feliz, tu que tens por diadema
A dupla irradiação da belleza e do amor;
E sabes reunir, como o melhor poema,
Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre nevoas deslisas
Aos versos do poeta um desvellado olhar,
Corinna, ouve a canção das amorosas brisas,
Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
[AS BRISAS]
Deu-nos a harpa colia a excelsa melodia
Que a folhagem desperta e torna alegre a flôr,
Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?
Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?
Que alma de serafim volteia aos labios teus?
Donde houveste o segredo e o poderoso encanto
Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
[A LUZ]
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;
Sou o vivo alimento á viva creação.
Deus lançou-me no espaço. A minha realeza
Vai até onde vae meu vivido clarão.
Mas se derramo vida a Cybelle fecunda,
Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,
A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda,
Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.
[AS AGUAS]
Do nume da belleza o berço celebrado
Foi o mar; Venus bella entre espumas nasceu.
Veio a edade de ferro, e o nume venerado
Do venerado altar baqueou:—pereceu.
Mas a belleza és tu. Como Venus marinha,
Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor.
Se páras, és um nume; andas, uma rainha,
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!
Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vaga
A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús,
Buscar adorações de uma plaga a outra plaga,
E das regiões da nevoa ás regiões da luz!
[AS SELVAS]
Um silencio de morte entrou no seio ás selvas.
Já não pisa Diana este sagrado chão;
Nem já vem repousar no leito destas relvas
Aguardando saudosa o amor e Endymião.
Da grande caçadora a um solicito aceno
Já não vem, não acode o grupo jovial;
Nem o éco repete a flauta de Sileno,
Apoz o grande ruido a mudez sepulchral.
Mas Diana apparece. A floresta palpita,
Uma seiva melhor circula mais veloz;
É vida que renasce, é vida que se agita;
A luz do teu olhar, ao som da tua voz!
[O POETA]
Tambem eu, sonhador, que vi correr meus dias
Na solemne mudez da grande solidão,
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O ultimo suspiro e a ultima oração;
Tambem eu junto a voz á voz da natureza,
E soltando o meu hymno ardente e triumphal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza
E banharei minh'alma em tua luz,—Ideal!
Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás maguas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cantico das aguas,
Não procures, Corinna, o caminho do mar!
V
Guarda estes versos que escrevi chorando
Como um alivio á minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um éco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
Unico em meio das paixões vulgares,
Fui a teus pés queimar minh'alma anciosa,
Como se queima o oleo ante os altares;
Tive a paixão indomita e fogosa,
Unica em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança,
Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha illusão fez-me, talvez, criança;
E eu pretendi dormir aos teus abraços,
Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado á sombra do mysterio
Pude cantar meu hymno doloroso;
E o mundo ouviu o som doce ou funereo
Sem conhecer o coração ansioso
Refugiado á sombra do mysterio.
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de princeza
Transluz uma alma ardente e compassiva
Capaz de reanimar minha incerteza;
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Como um réo indefeso e abandonado,
Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;
E se a perseguição me tem cansado.
Embora, escutarei o teu aresto,
Como um réo indefeso e abandonado.
Embora fujas aos meus olhos tristes,
Minh'alma irá saudosa, enamorada,
Acercar-se de ti lá onde existes;
Ouvirás minha lyra apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos tristes.
Talvez um dia meu amor se extinga,
Como fogo de Vesta mal cuidado
Que sem o zelo da Vestal não vinga:
Na ausencia e no silencio condemnado
Talvez um dia meu amor se extinga.
Então não busques reavivar a chamma,
Evoca apenas a lembrança casta
Do fundo amor daquele que não ama;
Esta consolação apenas basta;
Então não busques reavivar a chamma.
Guarda estes versos que escrevi chorando,
Como um alivio á minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um éco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
VI
Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano;
É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano.
Solta do chão, abrindo as asas luminosas.
Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas,
Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna,
Reveste a natureza a purpura divina!
Lá, como quando volta a primavera em flôr,
Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;
Ao influxo celeste e doce da belleza,
Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;
Mais languida e mais bella a tarde pensativa
Desce do monte ao valle; e a viração lasciva
Vai despertar á noite a melodia extranha
Que falam entre si os olmos da montanha;
A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia;
O mar tem novos sons e mais viva ardentia;
A onda enamorada arfa e beija as arêas,
Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!
O esplendor da belleza é raio creador:
Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor.
Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida,
Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffrida
Da saudade que punge e do amor que lacera,
E palpita e soluça e sangra e desespera.
Sinto em torno de mim a muda natureza
Respirando, como eu, a saudade e a tristeza;
É deste ermo que eu vou, alma desventurada,
Murmurar junto a ti a estrophe immaculada
Do amor que não perdeu, co'a ultima esperança,
Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.
Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda,
Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda!
Como divaga a abelha inquieta e sequiosa
Do calice do lyrio ao calice da rosa,
Divaguei de alma em alma em busca deste amor;
Gota de mel divino, era divina a flôr
Que o devia conter. Eras tu.
No delirio
De te amar—olvidei as lutas e o martyrio;
Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma,
Sentir e ver o amor atravez de uma alma;
De outras bellezas vans não valeu o explendor,
A belleza eras tu:—tinhas a alma e o amor.
Pelicano do amor, dilacerei meu peito,
E com meu proprio sangue os filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;
Por elles reparti minh'alma. Na provança
Ella não fraqueou, antes surgiu mais forte;
É que eu puz neste amor, neste ultimo transporte
Tudo o que vivifica a minha juventude:
O culto da verdade e o culto da virtude,
A venia do passado e a ambição do futuro,
O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro.
Deste profundo amor, doce e amada Corinna,
Accorda-te a lembrança um éco de afflicção?
Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma commoção?
Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!
Vou, sequioso espirito,
Cobrando novo alento,
N'aza veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao carcere,
Que á terra me tem prezo,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!
Então, se á hora languida
Da tarde que declina,
Do arbusto da collina
Beijando a folha e a flôr,
A brisa melancolica
Levar-te entre perfumes
Uns timidos queixumes
Echos de magua e dôr;
Então, se o arroio timido
Que passa e que murmura
Á sombra da espessura
Dos verdes salgueiraes.
Mandar-te entre os murmurios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;
Então, se no silencio
Da noite adormecida,
Sentires—mal dormida—
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas palpebras,
Um nome aos teus ouvidos,
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração;
Da magoa que consome
O meu amor venceu;
Não tremas—é teu nome,
Não fujas—que sou eu!
[ULTIMA FOLHA]
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao éco dos sagrados ermos
A ultima harmonia.
Dos teus cabellos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.
Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda na poente
Não quebra os raios pallidos e frios
O sol resplandecente.
Vês? Li ao fundo o valle arido e secco
Abra-se, como um leito mortuario;
Espera-te o silencio da planicie,
Como um frio sudario.
Desce. Virá um dia em que mais bella,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.
Então coroarás a ingenua fronte
Das flôres da manhã,—e ao monte agreste,
Como a noiva phantastica dos ermos,
Irás, musa celeste!
Então, nas horas solemnes
Em que o mystico hymeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;
Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;
E o rio, a arvore e o campo,
A arêa, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;
Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A gloria da natureza,
A ventura, o amor e a paz!
Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;
Lá onde, abrindo as azas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao éco dos sagrados ermos
A ultima harmonia!
[PHALENAS]
(1870)
[FLOR DA MOCIDADE][1]
Eu conheço a mais bella flôr;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bella flôr.
Tem do céu a serena côr,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bella flôr,
És tu, rosa da mocidade.
Vive ás vezes na solidão,
Coma filha da briza agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive ás vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive ás vezes na solidão,
Como filha da briza agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flôr morta já nada vai.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
[QUANDO ELLA FALLA]
She speaks
O speake again, bright angel!
SHAKESPEARE
Quando ella falla, parece
Que a voz da briza se cala;
Talvez um anjo emmudece
Quando ella falla.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exhala.
E volta ao gozo perdido
Quando ella falla.
Pudeste eu eternamente,
Ao lado d'ella, escutal-a,
Ouvir sua alma innocente
Quando ella falla.
Minh'alma, já semi-morta,
Conseguíra ao céu alçal-a,
Porque o céu abre uma porta
Quando ella falla.
[MANHÃ DE INVERNO]
Coroada de nevoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de somno e de preguiça,
Nos olhos da fantastica indolente.
Nevoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capellas, lagrimas mais puras.
A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.
Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras humidas da chuva;
Erma de flôres, curva a planta o collo,
E o chão recebe o pranto da viuva.
Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas tremulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua historia escreve.
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
Ás nevoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o valle;
Já se vão descobrindo os horizontes.
Sobe de todo o panno; eis apparece
Da natureza o esplendido scenario;
Tudo alli preparou co' os sabios olhos
A suprema sciencia do emprezario.
Canta a orchestra dos passaros no matto
A symphonia alpestre,—a voz serena
Acorda os écos timidos do valle;
E a divina comedia invade a scena.
[LA MARCHESA DE MIRAMAR][2]
A miserrima Dido
Pelos paços reaes vaga ululando.
GARÇÃO.
De quanto sonho um dia povoaste
A mente ambiciosa,
Que te resta? Uma pagina sombria,
A escura noite e um tumulo recente.
Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas
Viu erguer, viu cahir teu fragil throno
Meteoro do seculo, passaste,
Ó triste imperio, allumiando as sombras.
A noite foi teu berço e teu sepulcro.
Da tua morte os goivos inda acháram
Frescas as rosas dos teus breves dias;
E no livro da historia uma só folha
A tua vida conta: sangue e lagrimas.
No tranquillo castello,
Ninho d'amor, asylo de esperanças,
A mão de aurea fortuna preparára,
Menina e moça, um tumulo aos teus dias.
Junto do amado esposo,
Outra corôa cingias mais segura,
A corôa do amor, dadiva santa
Das mãos de Deus. No céu de tua vida
Uma nuvem sequer não sombreava
A esplendida manhã; extranhos eram
Ao recatado asylo
Os rumores do seculo.
Estendia-se
Em frente o largo mar, tranquilla face
Como a da consciencia alheia ao crime,
E o céu, cupula azul do equoreo leito.
Alli, quando ao cair da amena tarde,
No thalamo encantado do occidente,
O vento melancolico gemia,
E a onda murmurando,
Nas convulsões do amor beija a areia,
Ias tu junto d'elle, as mãos travadas,
Os olhos confundidos,
Correr as brandas, somnolentas aguas,
Na gondola discreta. Amenas flôres
Com suas mãos teciam
As namoradas Horas; vinha a noite,
Mãe de amores, solicita descendo,
Que em seu regaço a todos envolvia,
O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.
Mas além, muito além do céu fechado,
O sombrio destino, contemplando
A par do teu amor, a etherea vida,
As santas effusões das noites bellas,
O terrivel scenario preparava
A mais terriveis lances.
Então surge dos thronos
A prophetica voz que annunciava
Ao teu credulo esposo:
«Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe,
No fundo do oceano, envolto em nevoas,
Salpicado de sangue, ergue-se um throno.
Chamão-no a elle as vozes do destino.
Da tranquilla mansão ao novo imperio
Cobrem flôres a estrada,—estereis flôres
Que mal podem cobrir o horror da morte.
Tu vais, tu vais tambem, victima infausta;
O sopro da ambição fechou teus olhos....
Ah! quão melhor te fôra
No meio d'essas aguas
Que a regia nau cortava, conduzindo
Os destinos de um rei, achar a morte:
A mesma onda os dous envolveria.
Uma só convulsão ás duas almas
O vinculo quebrára, e ambas iriam,
Como raios partidos de uma estrella,
Á eterna luz juntar-se.
Mas o destino, alçando a mão sombria,
Já traçára nas paginas da historia
O terrivel mysterio. A liberdade
Vela n'aquelle dia a ingenua fronte.
Pejam nuvens de fogo o céu profundo.
Orvalha sangue a noite mexicana....
Viuva e moça, agora em vão procuras
No teu placido asylo o extincto esposo.
Interrogas em vão o céu e as aguas.
Apenas surge ensanguentada sombra
Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,
Um soluço profundo reboando
Pela noite do espirito, parece
Os échos acordar da mocidade.
No emtanto, a natureza alegre e viva,
Ostenta o mesmo rosto.
Dissipam-se ambições, imperios morrem,
Passam os homens como pó que o vento
Do chão levanta ou sombras fugitivas,
Transformam-se em ruina o templo e a choça.
Só tu, só tu, eterna natureza,
Immutavel, tranquilla,
Como rochedo em meio do oceano,
Vês baquear os seculos.
Sussurra
Pelas ribas do mar a mesma briza;
O céu é sempre azul, as aguas mansas;
Deita-se ainda a tarde vaporosa
No leito do occidente;
Ornam o campo as mesmas flôres bellas...
Mas em teu coração magoado e triste,
Pobre Carlota! o intenso desespero
Enche de intenso horror o horror da morte.
Viuva da razão, nem já te cabe
A illusão da esperança.
Feliz, feliz, ao menos, se te resta,
Nos macerados olhos,
O derradeiro bem:—algumas lagrimas!
[SOMBRAS]
Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as palpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um éco do passado,
Em teu seio revive?
Ó tumulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria
Do teu passado escreve a mysteriosa historia?
Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio?
Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio
Apenas alumia a nave e o grande altar
E deixa todo o resto em treva,—e o nosso olhar
Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas,
As sombras immortaes das creaturas mortas,
Palpita o coração de assombro e de terror;
O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor,
Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama;
O animo esclarece aquella eterna chamma;
Ajoelha-se contricto, e murmura-se então
A palavra de Deus, a divina oração.
Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;
Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo;
Corre sobre o passado impenetravel véu;
Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.
[ITE, MISSA EST]
Fecha o missal do amor e a benção lança
Á pia multidão
Dos teus sonhos de moço e de criança,
A benção do perdão.
Sôa a hora fatal,—reza contricto
As palavras do rito:
Ite missa est.
Foi longo o sacrificio; o teu joelho
De curvar-se cançou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite missa est.
De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos labios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite missa est.
Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada,
A hostia do perdão,
A victima divina e profanada
Que chamas coração.
Quasi inteiras perdeste a alma e a vida
Na hostia consumida.
Ite missa est.
Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde; beija a cruz;
Na lampada em que ardia o fogo activo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.
Ite missa est.
[RUINAS]
No hay pájaros en los nidos de antaño.
PROVERBIO HESPANHOL.
Cobrem plantas sem flôr crestados muros;
Range a porta ancian; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sitios caros da infancia.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as rôxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dôr occulta aos olhos;
—Dôr que á face não vem,—medrosa e casta,
Intima e funda;—e dos cerrados cilios
Se uma discreta e muda
Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto;
Melancolia tacita e serena,
Que os écos não acorda em seus queixumes,
Respira aquelle rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Eil-os percorrem
Com tardo passo os relembrados sitios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepusculo.
«Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
«No teu languido olhar um raio deixa;
«—Raio quebrado e frio;—o vento agita
«Timido e frouxo as tuas longas tranças.
«Conhecem-te estas pedras; das ruinas
«Alma errante pareces condemnada
«A contemplar teus insepultos ossos.
«Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo
«Sinto não sei que vaga e amortecida
«Lembrança de teu rosto.»
Desceu de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vesper nos seus hombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas corrêram. No outro dia,
Quando as vermelhas rosas do oriente
Ao já proximo sol a estrada ornavam,
Das ruinas sahião lentamente
Duas pallidas sombras...
[MUSA DOS OLHOS VERDES]
Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;
Tu que junto do berço o infante cinges
C'os fulgidos cabellos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;
Tu que fazes pulsar o seio ás virgens;
Tu que ás mães carinhosas
Enches o brando, tepido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!
Já cançada de encher languidas flôres
Com as lagrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.
Azas batendo á luz que as trevas rompe,
Piam nocturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silencios graves.
Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancolica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!
[NOIVADO]
Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas?
Além d'esses outeiros
Vai descambando o sol, e á terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubece,
Traz no rosto um véu molle e transparente;
No fundo azul a estrella do poente
Já timida apparece.
Como um bafo suavissimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As arvores agita e imprime ás folhas
O beijo somnolento.
A flôr ageita o calix: cedo espera
O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flôr querida;
Vem contemplar o céu, pagina santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asylo;
Encontrarás aqui o amor tranquillo.....
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte opposto
A lua, como lampada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os cirios vão arder no altar sagrado,
Estrellinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de balsamos rescende
A c'rôa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão comtigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No emtanto eu preparei teu leito á sombra
Do limoeiro em flôr; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e molle alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até á morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gosaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.
[A ELVIRA]
(LAMARTINE)
Quando, comtigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda; e eu, namorado,
Ás volupias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando ás solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
—Tão só eu,—teus ternissimos suspiros;
E de meus labios solto
Eternas juras de constancia eterna;
Ou quando, emfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos tremulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como ás folhas da rosa avida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empallideço, tremo;
E no seio da gloria em que me exalto,
Lagrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e tremula,
Nos teus braços me cinges,—e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
«Que dôr secreta o coração te opprime?»
Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares....
«Falla! eu abrandarei as penas tuas!
«Falla! eu consolarei tua alma afflicta!»
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado em teus niveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Languidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque n'essas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura co' o tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma vôa ás sombras do futuro,
E eu penso então: «Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas.»
[LAGRIMAS DE CÊRA]
Passou; viu a porta aberta.
Entrou; queria rezar.
A vela ardia no altar.
A igreja estava deserta.
Ajoelhou-se defronte
Para fazer a oração;
Curvou a pallida fronte
E pôz os olhos no chão.
Vinha tremula e sentida.
Commettêra um erro. A cruz
É a ancora da vida,
A esperança, a força, a luz.
Que rezou? Não sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E á pia se encaminhou.
Da vela benta que ardêra,
Como tranquillo fanal,
Umas lagrimas de cêra
Caíam no castiçal.
Ella porém não vertia
Uma lagrima sequer.
Tinha a fé,—a chamma a arder,—
Chorar é que não podia.
[LIVROS E FLORES]
Teus olhos são meus livros.
Que livro ha ahi melhor,
Em que melhor se leia
A pagina do amor?
Flôres me são, teus labios.
Onde ha mais bella flôr,
Em que melhor se beba
O balsamo do amor?
[PASSAROS]
Je veux changer mes pensées en oiseaux.
C. MAROT.
Olha como, cortando os leves ares,
Passam do valle ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, á tarde, cobre transparente véu;
Voam tambem como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da furia dos contrarios ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.
Porque o céu é tambem aquella estancia
Onde respira a doce creatura,
Filha de nosso amor, sonho da infancia,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flôr, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!
Vão para aquella estancia, enamorados,
Os pensamentos de minh'alma anciosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lagrimas e dôr;
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos écos a canção primeira
De um livro escripto pela mão do amor.
Dirão tambem como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
Da tua imagen vaporosa e linda,
Unico alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrellas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.
[O VERME]
Existe uma flôr que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benefica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flôr virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flôr o calix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flôr é o coração,
Aquelle verme o ciume.
[UN VIEUX PAYS][3]
... juntamente choro e rio.
CAMÕES
Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière,
Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir;
Un pays de blasphème, autant que de prière,
Né pour le doute et pour l'espoir.
On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge,
Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;
Le bonheur y paraît quelquefois dans un songe
Entre les bras du sombre ennui.
L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire,
Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;
Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire
Qui n'est peut-être qu'un sanglot.
On va dans ce pays de misère et d'ivresse,
Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;
Je l'habite pourtant, j'y passe ma jeunesse....
Hélas! ce pays, c'est mon cœur.
[LUZ ENTRE SOMBRAS]
É noite medonha e escura,
Muda como o passamento
Uma só no firmamento
Tremula estrella fulgura.
Falla aos écos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E n'um canto somnolento
Entre as arvores murmura.
Noite que assombra a memoria,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencoria.
No entanto... minh'alma olvida
Dôr que se transforma em gloria,
Morte que se rompe em vida.
[LYRA CHINEZA][4]
I
O POETA A RIR
(Han-Tiê.)
Taça d'agua parece o lago ameno;
Tem os bambús a fórma de cabanas,
Que as arvores em flôr, mais altas, cobrem
Com verdejantes tectos.
As ponteagudas rochas entre flôres,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
II
A UMA MULHER
(Tchê-Tsi.)
Cantigas modulei ao som da flauta,
Da minha flauta d'ebano;
N'ellas minh'alma segredava á tua
Fundas, sentidas mágoas.
Cerraste-me os ouvidos. Namorados
Versos compuz de jubilo,
Por celebrar teu nome, as graças tuas,
Levar teu nome aos seculos.
Olhaste, e meneando a airosa frente,
Com tuas mãos purissimas,
Folhas em que escrevi meus pobres versos
Lançaste ás ondas tremulas.
Busquei então por encantar tu'alma
Uma saphira esplendida,
Fui depôl-a a teus pés... tu descerraste
Da tua boca as perolas.
III
O IMPERADOR
(Tchu-Fu)
Olha. O Filho do Céu, em throno de ouro,
E adornado com ricas pedrarias,
Os mandarins escuta:—um sol parece
De estrellas rodeado.
Os mandarins discutem gravemente
Cousas muito mais graves. E elle? Foge-lhe
O pensamento inquieto e distrahido
Pela janella aberta.
Além, no pavilhão de porcellana,
Entre donas gentis está sentada
A imperatriz, qual flôr radiante e pura
Entre viçosas folhas.
Pensa no amado esposo, arde por vêl-o,
Prolonga-se-lhe a ausencia, agita o leque...
Do imperador ao rosto um sopro chega
De rescendente briza.
«Vem della este perfume,» diz, e abrindo
Caminho ao pavilhão da amada esposa,
Deixa na sala olhando-se em silencio
Os mandarins pasmados.
IV
O LEQUE
(Tan-Jo-Lu.)
Na perfumada alcova a esposa estava,
Noiva ainda na vespera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia,
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa lettra feito
Havia este conceito:
«Quando, immovel o vento e o ar pesado,
«Arder o intenso estio,
«Serei por mão amiga ambicionado;
«Mas volte o tempo frio,
«Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»
Lê a esposa este aviso, e o pensamento
Volve ao joven marido.
«Arde-lhe o coração n'este momento
«(Diz ella) e vem buscar enternecido
«Brandas auras de amor. Quando mais tarde
«Tornar-se em cinza fria
«O fogo que hoje lhe arde,
«Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»
V
A FOLHA DO SALGUEIRO
(Tchan-Tiú-Lin.)
Amo aquella formosa e terna moça
Que, á janella encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio á margem
Casa faustosa e bella.
Amo-a, porque deixou das mãos mimosas
Verde folha cair nas mansas aguas.
Amo a briza de léste que sussurra,
Não porque traz nas azas delicadas
O perfume dos verdes pecegueiros
Da oriental montanha.
Amo-a porque impelliu co'as tenues azas
Ao meu batel a abandonada folha.
Se amo a mimosa folha aqui trazida,
Não é porque me lembre á alma e aos olhos
A renascente, a amavel primavera,
Pompa e vigor dos valles.
Amo a folha por ver-lhe um nome escripto,
Escripto, sim, por ella, e esse... é meu nome.
VI
AS FLORES E OS PINHEIROS
(Tin-Tun-Sing.)
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flôres
Os calices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flôres tresloucadas
Zombam d'elles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneiando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sitio onde escutára
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flôres.
VII
REFLEXOS
(Thu-Fu.)
Vou rio abaixo vogando
No meu batel e ao luar;
Nas claras aguas fitando,
Fitando o olhar.
Das aguas vejo no fundo,
Como por um branco véu,
Intenso, calmo, profundo,
O azul do céu.
Nuvem que no céu fluctua,
Fluctua n'agua tambem;
Se a lua cobre, á outra lua
Cobril-a vem.
Da amante que me extasia,
Assim, na ardente paixão,
As raras graças copia
Meu coração.
VIII
CORAÇÃO TRISTE FALLANDO AO SOL
(Su-Tebon.)
No arvoredo sussurra o vendaval do outono,
Deita as folhas á terra, onde não ha florir
E eu contemplo sem pena esse triste abandono;
Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cahir.
Como a escura montanha, esguia e pavorosa
Faz, quando o sol descamba, o valle ennoitecer,
A montanha da alma, a tristeza amorosa,
Tambem de ignota sombra enche todo o meu ser.
Transforma o frio inverno a agua em pedra dura,
Mas torna a pedra em agua um raio de verão;
Vem, ó sol, vem, assume o throno teu na altura,
Vê se pódes fundir meu triste coração.
[UMA ODE DE ANACREONTE]
(A MANUEL DE MELLO)
PERSONAGENS
LYSIAS.
CLEON.
MYRTO.
TRES ESCRAVOS.
A scena é em Somos.
Sala de festim em casa de Lysias. A esquerda a mesa do festim; á direita uma mesa tendo em cima uma lampada apagada, e junto da lampada um rolo de papyro.
SCENA I
LYSIAS, CLEON, MYRTO.
(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)
LYSIAS.
Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos!
Aos prazeres!
CLEON.
Eu bebo á memoria de Samos.
Samos vai terminar os seus dourados dias;
Adeus, terra em que achei consolo ás agonais
Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!
MYRTO.
Querem-lhe os deuses mal?
CLEON.
Não; dous olhos, os teus.
LYSIAS.
Bravo, Cleon!
MYRTO.
Poeta! os meus olhos?
CLEON.
São lumes
Capazes de abrasar até os proprios numes.
Samos é nova Troya, e tu és outra Helena,
Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha amena,
Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã,
Armar-se-ha contra nós.
LYSIAS.
Lesbos é boa irmã.
MYRTO.
Outras bellezas tem, dignas da loura Venus.
CLEON.
Menos digna de tu.
MYRTO.
Mais do que eu.
LYSIAS.
Muito menos.
CLEON.
Tens vergonha de ser formosa e festejada,
Myrto? Venus não que beleza envergonhada.
Pois que dos immortaes houveste esse condão
De inspirar quantos vês, inspira-os, Myrto.
MYRTO.
Não;
São teus olhos, poeta; eu não tenho a belleza
Que arrasta corações.
CLEON.
Divina singeleza!
LYSIAS (á parte).
Vejo através do manto as galas da vaidade.
(Alto.)
Vinho, escravo!
(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)
Poeta, um brinde á mocidade.
Trava de lyra e invoca o deus inspirador.
CLEON.
«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla, amor!»
MYRTO.
Versos de Sapho!
CLEON.
Sim.
LYSIAS.
Vês? ó modestia pura.
Elle é na poesia o que és na formosura.
Faz versos de primor e esconde-os ao profano:
Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é lesbiano...
MYRTO.
Ah! tu és...
CLEON.
Lesbos foi minha patria tambem,
Lesbos, a flôr do Egeo.
MYRTO.
Já não é?
CLEON.
Lesbos tem
Tudo o que me fascina e tudo o que me mata:
As festas do prazer e os olhos de uma ingrata.
Fugi da patria e achei, já curado e tranquillo,
Em Lysias um irmão, em Samos um asylo.
Bem hajas tu que vens encher-me o coração!
LYSIAS.
Insaciavel! Não tens em Lysias um irmão?
MYRTRO.
Volto á patria.
CLEON.
Pois que! tu vais?
MYRTO.
Em poucos dias...
LYSIAS.
Fazes mal; tens aqui os moços e as folias,
O gozo, a adoração; que te falta?
MYRTO.
Os meus ares.
CLEON.
A que vieste então?
MYRTO.
Successos singulares.
Vim por acompanhar Lysicles, mercador
De Naxos; tanto póde a constancia no amor!
Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia; fomos
Comprar o vinho a Creta e a Tenodos os pomos.
Ah! como é doce o amor na solidão das aguas!
Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas.
Zephyro ouviu por certo os osculos febris,
Os jubilos do affecto, as fallas juvenis;
Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa
A indiscreta ventura, a effusão doce e terna.
Para a furia acalmar da sombria deidade,
Nave e bens varreu tudo a horrivel tempestade.
Foi assim que eu perdi a Lysicles, assim
Que eu semi-morta e fria á tua plaga vim.
CLEON.
Ó coitada!
LYSIAS.
O infortunio os animos apura;
As feridas que faz o mesmo Amor as cura;
Brandem armas iguaes Achilles e Cupido.
Queres ver n'outro amor o teu amor perdido?
Samos o tem de sobra.
CLEON.
Eu, Myrto, eu sei amar;
Não fio o coração da inconstancia do mar.
Não tenho galeões rompendo o seio a Thetys,
Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Lethes.
Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte;
Pódes doar-me a vida ou decretar-me a morte.
MYRTO.
Mas, se eu volto...
CLEON.
Pois bem! aonde quer que te vás
Irei comtigo; a deusa indomita e fallaz
Ser-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a escura
Noite parece aurora, e é berço a sepultura.
MYRTO.
Quando falla o dever, a vontade obedece;
Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.
LYSIAS.
Tens razão, bella Myrto; escuta o teu dever.
CLEON.
Ai! é facil amar, difficil esquecer.
LYSIAS (a Myrto).
Queres pôr termo á festa? Um brinde a Venus, filha
Da mar azul, belleza, encanto, maravilha;
Nascida para ser perpetuamente amada.
A Venus!
(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)
Queres tu, mimosa naufragada,
Ouvir de hermonia serva, em lyra de marfim,
Uma alegre canção? Preferes o jardim?
O portico talvez?
MYRTO.
Lysias, sou indiscreta;
Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.
LYSIAS.
Nume não pede, impõe.
CLEON.
O mando é lisongeiro.
LYSIAS.
Pois começa.
SCENA II
OS MESMOS, UM ESCRAVO.
ESCRAVO.
Procura a Myrto um mensageiro.
MYRTO.
Um mensageiro! a mim!