ACABA DE SER PUBLICADO
O
Plano Pangermanista
desmascarado
A temivel cilada Berlineza da "Partida Nulla"
POR
André Chéradame
Um vol. in-16 com 31 mappas no texto, brochado, 4$000
Á venda na LIVRARIA GARNIER
109, Rua do Ouvidor—Rio de Janeiro
Todos os direitos reservados
MACHADO DE ASSIS
DA ACADEMIA BRASILEIRA
Reliquias
de
Casa Velha
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71, RUA DO OUVIDOR, 71
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIS
1906
INDICE
ADVERTENCIA
Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra.
Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos e impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a absolvição da má escolha.
Machado de Assis.
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descanças dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existencia appetecida
E n'um recanto poz um mundo inteiro.
Trago-te flores,—restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Pae contra Mãe
A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras.
O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhal-o fóra, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»—ou «receberá uma boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem á desordem.
Candido Neves,—em familia, Candinho,—é a pessoa a quem se liga a historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio. Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta annos, Clara vinte e dous. Ella era orphã, morava com uma tia, Monica, e cosia com ella. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam ás tardes, olhavam muito para ella, ella para elles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ella notava é que nenhum d'elles lhe deixava saudades nem lhe accendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar á roda da isca, miral-a, cheiral-a, deixal-a e ir a outras.
O amor traz sobrescriptos. Quando a moça viu Candido Neves, sentiu que era este o possivel marido, o marido verdadeiro e unico. O encontro deu-se em um baile; tal foi—para lembrar o primeiro officio do namorado,—tal foi a pagina inicial daquelle livro, que tinha de sair mal composto e peior brochado. O casamento fez-se onze mezes depois, e foi a mais bella festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredal-a do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.
—Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
—Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Monica, depois do casamento, na casa pobre onde elles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possiveis. Elles queriam um, um só, embora viesse aggravar a necessidade.
—Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia á sobrinha.
—Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
Tia Monica devia ter-lhes feito a advertencia, ou ameaça, quando elle lhe foi pedir a mão da moça; mas tambem ella era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era commum aos tres. O casal ria a proposito de tudo. Os mesmos nomes eram objecto de trocados, Clara, Neves, Candido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ella cosia agora mais, elle saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquelle desejo especifico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu signal de si a creança; varão ou femea, era o fructo abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Monica ficou desorientada, Candido e Clara riram dos seus sustos.
—Deus nos ha de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A noticia correu de visinha a visinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da creança. Á força de pensar nella, vivia já com ella, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervallos longos. Tia Monica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
—Vocês verão a triste vida, suspirava ella.
—Mas as outras creanças não nascem tambem? perguntou Clara.
—Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco...
—Certa como?
—Certa, um emprego, um officio, uma occupação, mas em que é que o pae dessa infeliz creatura que ahi vem, gasta o tempo?
Candido Neves, logo que soube daquella advertencia, foi ter com a tia, não aspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixára de comer.
—A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar commigo. Nunca deixámos de ter o nosso bacalhau...
—Bem sei, mas somos tres.
—Seremos quatro.
—Não é a mesma cousa.
—Que quer então que eu faça, além do que faço?
—Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem.
—Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no baptisado.
Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos alugueis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de algum fugido. Já lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem.
—É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos.
—Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca!
Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir, crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se desfazer inteiramente. Clara interveiu:
—Titia não fala por mal, Candinho.
—Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se viver á mingua. Enfim...
Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,—crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo; Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua.
—Quem é? perguntou o marido.
—Sou eu.
Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse.
—Não é preciso...
—Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
—Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves, no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a creança. A alegria do pae foi enorme, e a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.» Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria. Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o pae leval-o á Roda na noite seguinte.
Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar, segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que Tia Monica lhe guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria, podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha, Candido Neves começou a afrouxar o passo.
—Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante; viria buscal-a sem falta.
—Mas...
Candido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rapido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarme. No extremo da rua, quando ella ia a descer a de S. José, Candido Neves approximou-se della. Era a mesma, era a mulata fujona.
—Arminda! bradou, conforme a nomeava o annuncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malicia. Foi só quando elle, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ella comprehendeu e quiz fugir. Era já impossivel. Candido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quiz gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguem viria libertal-a, ao contrario. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
—Estou gravida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor delle que me solte; eu serei sua escrava, vou servil-o pelo tempo que quizer. Me solte, meu senhor moço!
—Siga! repetiu Candido Neves.
—Me solte!
—Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava á porta de uma loja, comprehendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia allegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes,— cousa que, no estado em que ella estava, seria peior de sentir. Com certeza, elle lhe mandaria dar açoutes.
—Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Candido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficára na pharmacia, á espera delle. Tambem é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em direcção á da Alfandega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava poz os pés á parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apezar de ser a casa proxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, emfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda alli ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
—Aqui está a fujona, disse Candido Neves.
—É ella mesma.
—Meu senhor!
—Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Alli mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil reis de gratificação. Candido Neves guardou as duas notas de cincoenta mil reis, emquanto o senhor novamente dizia á escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dôr, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fructo de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Candido Neves viu todo esse espectaculo. Não sabia que horas eram. Quaesquer que fossem, urgia correr á rua da Ajuda, e foi o que elle fez sem querer conhecer as consequencias do desastre.
Quando lá chegou, viu o pharmaceutico sósinho, sem o filho que lhe entregára. Quiz esganal-o. Felizmente, o pharmaceutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a familia, e ambos entraram. O pae recebeu o filho com a mesma furia com que pegára a escrava fujona de ha pouco, furia diversa, naturalmente, furia de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu ás carreiras, não para a Roda dos engeitados, mas para a casa de emprestimo, com o filho e os cem mil reis de gratificação. Tia Monica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil reis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Candido Neves, beijando o filho, entre lagrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
—Nem todas as creanças vingam, bateu-lhe o coração.
Maria Cora
I
Uma noite, voltando para casa, trazia tanto somno que não dei corda ao relogio. Póde ser tambem que a vista de uma senhora que encontrei em casa do commendador T. contribuisse para aquelle esquecimento; mas estas duas razões destróem-se. Cogitação tira o somno e o somno impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relogio parado, de manhã, quando me levantei, ouvindo dez horas no relogio da casa.
Morava então (1893) em uma casa de pensão no Cattete. Já por esse tempo este genero de residencia florescia no Rio de Janeiro. Aquella era pequena e tranquilla. Os quatrocentos contos de réis permittiam-me casa exclusiva e propria; mas, em primeiro logar, já eu alli residia quando os adquri, por jogo de praça; em segundo logar, era um solteirão de quarenta annos, tão affeito á vida de hospedaria que me seria impossivel morar só. Casar não era menos impossivel. Não é que me faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama,—e não das menos bellas,—olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do commendador tratava-me com particular attenção. A nenhuma dei corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a minha unica ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por anno bastavam a um coração meio inclinado ao occaso e á noite.
Talvez por isso dei alguma attenção á senhora que vi em casa do commendador, na vespera. Era uma creatura morena, robusta, vinte e oito a trinta annos, vestida de escuro; entrou ás dez horas, acompanhada de uma tia velha. A recepção que lhe fizeram, foi mais cerimoniosa que as outras; era a primeira vez que alli ia. Eu era a terceira. Perguntei se era viuva.
—Não; é casada.
—Com quem?
—Com um estancieiro do Rio Grande.
—Chama-se?
—Elle? Fonseca, ella Maria Cora.
—O marido não veiu com ella?
—Está no Rio Grande.
Não soube mais nada; mas a figura da dama interessou-me pelas graças physicas, que eram o opposto do que poderiam sonhar poetas romanticos e artistas seraphicos. Conversei com ella alguns minutos, sobre cousas indifferentes,—mas sufficientes para escutar-lhe a voz, que era musical, e saber que tinha opiniões republicanas. Vexou-me confessar que não as professava de especie alguma; declarei-me vagamente pelo futuro do paiz. Quando ella falava, tinha um modo de humedecer os beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante. Creio que, vistas assim ao pé, as feições não eram tão correctas como pareciam a distancia, mas eram mais suas, mais originaes.
II
De manhã tinha o relogio parado. Chegando á cidade, desci a rua do Ouvidor, até á da Quitanda, e indo a voltar á direita, para ir ao escriptorio do meu advogado, lembrou-me ver que horas eram. Não me acudiu que o relogio estava parado.
—Que massada! exclamei.
Felizmente, naquella mesma rua da Quitanda, á esquerda, entre as do Ouvidor e Rosario, era a officina onde eu comprára o relogio, e a cuja pendula usava acertal-o. Em vez de ir para um lado, fui para outro. Era apenas meia hora; dei corda ao relogio, acertei-o, troquei duas palavras com o official que estava ao balcão, e indo a sair, vi á porta de uma loja de novidades que ficava defronte, nem mais nem menos que a senhora de escuro que encontrára em casa do commendador. Comprimentei-a, ella correspondeu depois de alguma hesitação, como se me não houvesse reconhecido logo, e depois seguiu pela rua da Quitanda fóra, ainda para o lado esquerdo.
Como tivesse algum tempo ante mim (pouco menos de trinta minutos), dei-me a andar atraz de Maria Cora. Não digo que uma força violenta me levasse já, mas não posso esconder que cedia a qualquer impulso de curiosidade e desejo; era tambem um resto da juventude passada. Na rua, andando, vestida de escuro, como na vespera, Maria Cora pareceu-me ainda melhor. Pisava forte, não apressada nem lenta, o bastante para deixar ver e admirar as bellas fórmas, mui mais correctas que as linhas do rosto. Subiu a rua do Hospicio, até uma officina de ocularista, onde entrou e ficou dez minutos ou mais. Deixei-me estar a distancia, fitando a porta disfarçadamente. Depois saiu, arrepiou caminho, e dobrou a rua dos Ourives, até á do Rosario, por onde subiu até ao largo da Sé; dahi passou ao de S. Francisco de Paula. Todas essas reminiscencias parecerão escusadas, senão aborreciveis; a mim dão-me uma sensação intensa e particular, são os primeiros passos de uma carreira penosa e longa. Demais, vereis por aqui que ella evitava subir a rua do Ouvidor, que todos e todas buscariam áquella ou a outra hora para ir ao largo de S. Francisco de Paula. Foi atravessando o largo, na direcção da Escola Polytechnica, mas a meio caminho veiu ter com ella um carro que estava parado defronte da Escola; metteu-se nelle, e o carro partiu.
A vida tem suas encruzilhadas, como outros caminhos da terra. Naquelle momento achei-me deante de uma assaz complicada, mas não tive tempo de escolher direcção,—nem tempo nem liberdade. Ainda agora não sei como é que me vi dentro de um tilbury; é certo que me vi nelle, dizendo ao cocheiro que fosse atraz do carro.
Maria Cora morava no Engenho Velho; era uma boa casa, solida, posto que antiga, dentro de uma chacara. Vi que morava alli, porque a tia estava a uma das janellas. Demais, saindo do carro, Maria Cora disse ao cocheiro (o meu tilbury ia passando adeante) que naquella semana não sairia mais, e que apparecesse segunda-feira ao meio-dia. Em seguida, entrou pela chacara, como dona della, e parou a falar ao feitor, que lhe explicava alguma cousa com o gesto.
Voltei depois que ella entrou em casa, e só muito abaixo é que me lembrou de ver as horas; era quasi uma e meia. Vim a trote largo até á rua da Quitanda, onde me apeei á porta do advogado.
—Pensei que não vinha, disse-me elle.
—Desculpe, doutor, encontrei um amigo que me deu uma massada.
Não era a primeira vez que mentia na minha vida, nem seria a ultima.
III
Fiz-me encontradiço com Maria Cora, na casa do commendador, primeiro, e depois em outras. Maria Cora não vivia absolutamente reclusa, dava alguns passeios e fazia visitas. Tambem recebia, mas sem dia certo, uma ou outra vez, e apenas cinco a seis pessoas da intimidade. O sentimento geral é que era pessoa de fortes sentimentos e austeros costumes. Accrescentae a isto o espirito, um espirito agudo, brilhante e viril. Capaz de resistencias e fadigas, não menos que de violencias e combates, era feita, como dizia um poeta que lá ia á casa della, «de um pedaço de pampa e outro de pampeiro.» A imagem era um verso e rima, mas a mim só me ficou a idéa e o principal das palavras. Maria Cora gostava de ouvir definir-se assim, posto não andasse mostrando aquellas forças a cada passo, nem contando as suas memorias da adolescencia. A tia é que contava algumas, com amor, para concluir que lhe saia a ella, que tambem fôra assim na mocidade. A justiça pede que se diga que, ainda agora, apezar de doente, a tia era pessoa de muita vida e robustez.
Com pouco, apaixonei-me pela sobrinha. Não me pesa confessal-o, pois foi a occasião da unica pagina da minha vida que merece attenção particular. Vou narral-a brevemente; não conto novella nem direi mentiras.
Gostei de Maria Cora. Não lhe confiei logo o que sentia, mas é provavel que ella o percebesse ou adivinhasse, como todas as mulheres. Se a descoberta ou adivinhação foi anterior á minha ida á casa do Engenho Velho, nem assim deveis censural-a por me haver convidado a ir alli uma noite. Podia ser-lhe então indifferente a minha disposição moral; podia tambem gostar de se sentir querida, sem a menor idéa de retribuição. A verdade é que fui essa noite e tornei outras; a tia gostava de mim e dos meus modos. O poeta que lá ia, tagarella e tonto, disse uma vez que estava afinando a lyra para o casamento da tia commigo. A tia riu-se; eu, que queria as boas graças della, não podia deixar de rir tambem, e o caso foi materia de conversação por uma semana; mas já então o meu amor á outra tinha attingido ao cume.
Soube, pouco depois, que Maria Cora vivia separada do marido. Tinham casado oito annos antes, por verdadeira paixão. Viveram felizes cinco. Um dia, sobreveiu uma aventura do marido que destruiu a paz do casal. João da Fonseca apaixonou-se por uma figura de circo, uma chilena que voava em cima do cavallo, Dolores, e deixou a estancia para ir atraz della. Voltou seis mezes depois, curado do amor, mas curado á força, porque a aventureira se namorou do redactor de um jornal, que não tinha vintem, e por elle abandonou Fonseca e a sua prataria. A esposa tinha jurado não acceitar mais o esposo, e tal foi a declaração que lhe fez quando elle appareceu na estancia.
—Tudo está acabado entre nós; vamos desquitar-nos.
João da Fonseca teve um primeiro gesto de accordo; era um quadragenario orgulhoso, para quem tal proposta era de si mesma uma offensa. Durante uma noite tratou dos preparativos para o desquite; mas, na seguinte manhã, a vista das graças da esposa novamente o commoveram. Então, sem tom implorativo, antes como quem lhe perdoava, entendeu dizer-lhe que deixasse passar uns seis mezes. Se ao fim de seis mezes, persistisse o sentimento actual que inspirava a proposta do desquite, este se faria. Maria Cora não queria aceitar a emenda, mas a tia, que residia em Porto Alegre e fôra passar algumas semanas na estancia, interveiu com boas palavras. Antes de tres mezes estavam reconciliados.
—João, disse-lhe a mulher no dia seguinte ao da reconciliação, você deve ver que o meu amor é maior que o meu ciume, mais fica entendido que este caso da nossa vida é unico. Nem você me fará outra, nem eu lhe perdoarei nada mais.
João da Fonseca achava-se então em um renascimento do delirio conjugal; respondeu á mulher jurando tudo e mais alguma cousa. Aos quarenta annos, concluiu elle, não se fazem duas aventuras daquellas, e a minha foi de doer. Você verá, agora é para sempre.
A vida recomeçou tão feliz, como d'antes,—elle dizia que mais. Com effeito, a paixão da esposa era violenta, e o marido tornou a amal-a como outr'ora. Viveram assim dous annos. Ao fim desse tempo, os ardores do marido haviam diminuido, alguns amores passageiros vieram metter-se entre ambos. Maria Cora, ao contrario do que lhe dissera, perdoou essas faltas, que aliás não tiveram a extensão nem o vulto da aventura Dolores. Os desgostos, entretanto, appareceram e grandes. Houve scenas violentas. Ella parece que chegou mais de uma vez a ameaçar que se mataria; mas, posto não lhe faltasse o preciso animo, não fez tentativa nenhuma, a tal ponto lhe doia deixar a propria causa do mal, que era o marido. João da Fonseca percebeu isto mesmo, e acaso explorou a fascinação que exercia na mulher.
Uma circumstancia politica veiu complicar esta situação moral. João da Fonseca era pelo lado da revolução, dava-se com varios dos seus chefes, e pessoalmente detestava alguns dos contrarios. Maria Cora, por laços de familia, era adversa aos federalistas. Esta opposição de sentimentos não seria bastante para separal-os, nem se póde dizer que, por si mesma, azedasse a vida dos dous. Embora a mulher, ardente em tudo, não o fosse menos em condemnar a revolução, chamando nomes crús aos seus chefes e officiaes; embora o marido, tambem excessivo, replicasse com egual odio, os seus arrufos politicos apenas augmentariam os domesticos, e provavelmente não passariam dessa troca de conceitos, se uma nova Dolores, desta vez Prazeres, e não chilena nem saltimbanca, não revivesse os dias amargos de outro tempo. Prazeres era ligada ao partido da revolução, não só pelos sentimentos, como pelas relações da vida com um federalista. Eu a conheci pouco depois, era bella e airosa; João da Fonseca era tambem um homem gentil e seductor. Podiam amar-se fortemente, e assim foi. Vieram incidentes, mais ou menos graves, até que um decisivo determinou a separação do casal.
Já cuidavam disto desde algum tempo, mas a reconciliação não seria impossivel, apesar da palavra de Maria Cora, graças á intervenção da tia; esta havia insinuado á sobrinha que residisse tres ou quatro mezes no Rio de Janeiro ou em S. Paulo. Succedeu, porém, uma cousa triste de dizer. O marido, em um momento de desvario, ameaçou a mulher com o rebenque. Outra versão diz que elle tentára esganal-a. Quero crer que a veridica é a primeira, e que a segunda foi inventada para tirar á violencia de João da Fonseca o que pudesse haver deprimente e vulgar. Maria Cora não disse mais uma só palavra ao marido. A separação foi immediata; a mulher veiu com a tia para o Rio de Janeiro, depois de arranjados amigavelmente os interesses pecuniarios. Demais, a tia era rica.
João da Fonseca e Prazeres ficaram vivendo juntos uma vida de aventuras que não importa escrever aqui. Só uma cousa interessa directamente á minha narração. Tempos depois da separação do casal, João da Fonseca estava alistado entre os revolucionarios. A paixão politica, posto que forte, não o levaria a pegar em armas, se não fosse uma especie de desafio da parte de Prazeres; assim correu entre os amigos delle, mas ainda este ponto é obscuro. A versão é que ella, exasperada com o resultado de alguns combates, disse ao estancieiro que iria, disfarçada em homem, vestir farda de soldado e bater-se pela revolução. Era capaz disto; o amante disse-lhe que era uma loucura, ella acabou propondo-lhe que, nesse caso, fosse elle bater-se em vez della; era uma grande prova de amor que lhe daria.
—Não te tenho dado tantas?
—Tem, sim; mas esta é a maior de todas, esta me fará captiva até á morte.
—Então agora ainda não é até á morte? perguntou elle rindo.
—Não.
Póde ser que as cousas se passassem assim. Prazeres era, com effeito, uma mulher caprichosa e imperiosa, e sabia prender um homem por laços de ferro. O federalista, de quem se separou para acompanhar João da Fonseca, depois de fazer tudo para rehavel-a, passou á campanha oriental, onde dizem que vive pobremente, encanecido e envelhecido vinte annos, sem querer saber de mulheres nem de politica. João da Fonseca acabou cedendo; ella pediu para acompanhal-o, e até bater-se, se fosse preciso; elle negou-lh'o. A revolução triumpharia em breve, disse; vencidas as forças do governo, tornaria á estancia, onde ella o esperaria.
—Na estancia, não, respondeu Prazeres; espero-te em Porto Alegre.
IV
Não importa dizer o tempo que despendi nos inicios da minha paixão, mas não foi grande. A paixão cresceu rapida e forte. Afinal senti-me tão tomado della que não pude mais guardal-a commigo, e resolvi declarar-lh'a uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove horas (accordava ás quatro) d'aquella vez não pregou olho, e, ainda que o fizesse, é provavel que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e na rua senti uma vertigem egual á que me deu a primeira paixão da minha vida.
—Sr. Corrêa, não vá cair, disse a tia quando eu passei á varanda, despedindo-me.
—Deixe estar, não caio.
Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e antes das cinco estava em pé.
—É preciso acabar com isto! exclamei.
De facto, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolencia e perdão, mas era isso mesmo que a tornava appetecivel. Todos os amores da minha vida tinham sido faceis; em nenhuma encontrei resistencia, a nenhuma deixei com dôr; alguma pena, é possivel, e um pouco de recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora era toda vida; parece que, ao pé della, as proprias cadeiras andavam e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia d'aquella creatura um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra.
Resolvi cortar o mal pela raiz, não tornando ao Engenho Velho, e assim fiz por alguns dias largos, duas ou tres semanas. Busquei distrair-me e esquecel-a, mas foi em vão. Comecei a sentir a ausencia como de um bem querido; apesar d'isso, resisti e não tornei logo. Mas, crescendo a ausencia, cresceu o mal, e emfim resolvi tornar lá uma noite. Ainda assim póde ser que não fosse, a não achar Maria Cora na mesma officina da rua da Quitanda, aonde eu fôra acertar o relogio parado.
—É freguez tambem? perguntou-me ao entrar.
—Sou.
—Vim acertar o meu. Mas, porque não tem apparecido?
—É verdade, porque não voltou lá á casa? completou a tia.
—Uns negocios, murmurei; mas, hoje mesmo contava ir lá.
—Hoje não; vá amanhã, disse a sobrinha. Hoje vamos passar a noite fóra.
Pareceu-me ler naquella palavra um convite a amal-a de vez, assim como a primeira trouxera um tom que presumi ser de saudade. Realmente, no dia seguinte, fui ao Engenho Velho. Maria Cora acolheu-me com a mesma boa vontade de antes. O poeta lá estava e contou-me em verso os suspiros que a tia dera por mim. Entrei a frequental-as novamente e resolvi declarar tudo.
Já acima disse que ella provavelmente percebera ou adivinhára o que eu sentia, como todas as mulheres; referi-me aos primeiros dias. D'esta vez com certeza percebeu, nem por isso me repelliu. Ao contrario, parecia gostar de se ver querida, muito e bem.
Pouco depois d'aquella noite escrevi-lhe uma carta e fui ao Engenho Velho. Achei-a um pouco retrahida; a tia explicou-me que recebera noticias do Rio Grande que a affligiram. Não liguei isto ao casamento, e busquei alegral-a; apenas consegui vel-a cortez. Antes de sair, perto da varanda, entreguei-lhe a carta; ia a dizer-lhe: «Peço-lhe que leia», mas a voz não saiu. Vi-a um pouco atrapalhada, e para evitar dizer o que melhor ia escripto, comprimentei-a e enfiei pelo jardim. Póde imaginar-se a noite que passei, e o dia seguinte foi naturalmente egual, á medida que a outra noite vinha. Pois, ainda assim, não tornei á casa d'ella; resolvi esperar tres ou quatro dias, não que ella me escrevesse logo, mas que pensasse nos termos da resposta. Que estes haviam de ser sympathicos, era certeza minha; as maneiras della, nos ultimos tempos, eram mais que affaveis, pareciam-me convidativas.
Não cheguei, porém, aos quatro dias; mal pude esperar tres. Na noite do terceiro fui ao Engenho Velho. Se disser que entrei tremulo da primeira commoção, não minto. Achei-a ao piano, tocando para o poeta ouvir; a tia, na poltrona, pensava em não sei qué, mas eu quasi não a vi, tal a minha primeira allucinação.
—Entre, Sr. Correia, disse esta; não caia em cima de mim.
—Perdão...
Maria Cora não interrompeu a musica; ao ver-me chegar, disse:
—Desculpe, se lhe não dou a mão, estou aqui servindo de musa a este senhor.
Minutos depois, veiu a mim, e estendeu-me a mão com tanta galhardia, que li nella a resposta, e estive quasi a dar-lhe um agradecimento. Passaram-se alguns minutos, quinze ou vinte. Ao fim desse tempo, ella pretextou um livro, que estava em cima das musicas, e pediu-me para dizer se o conhecia; fomos alli ambos, e ella abriu-m'o; entre as duas folhas estava um papel.
—Na outra noite, quando aqui esteve, deu-me esta carta; não podia dizer-me o que tem dentro?
—Não adivinha?
—Posso errar na adivinhação.
—É isso mesmo.
—Bem, mas eu sou uma senhora casada, e nem por estar separada do meu marido deixo de estar casada. O senhor ama-me, não é? Supponha, pelo melhor, que eu tambem o amo; nem por isso deixo de estar casada.
Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a guardar commigo:
—Não quer então ler?
—Não.
—Nem para ver os termos?
—Não.
—Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e voltar, disse eu cada vez mais tonto.
—Propõe isto?
—Imagine.
—Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe, que estão reparando em nós.
Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida, um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida, tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto podia sair uma impressão dupla e contraria,—uma de acquiescencia tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá completamente louco.
O que então resolvi foi realmente de louco. As palavras de Maria Cora: «Não creio que ninguem me ame com tal força»—soavam-me aos ouvidos, como um desafio. Pensei nellas toda a noite, e no dia seguinte fui ao Engenho Velho; logo que tive occasião de jurar-lhe a prova, fil-o.
—Deixo tudo o que me interessa, a começar pela paz, com o unico fim de lhe mostrar que a amo, e a quero só e santamente para mim. Vou combater a revolta.
Maria Cora fez um gesto de deslumbramento. Daquella vez percebi que realmente gostava de mim, verdadeira paixão, e se fosse viuva, não casava com outro. Jurei novamente que ia para o Sul. Ella commovida, estendeu-me a mão. Estavamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me os romances em versos de cavalleiros andantes que iam á Terra-Santa libertar o sepulcro de Christo por amor da fé e da sua dama. Estavamos em pleno romantismo.
V
Fui para o Sul. Os combates entre legalistas e revolucionarios eram continuos e sangrentos, e a noticia d'elles contribuiu a animar-me. Entretanto, como nenhuma paixão politica me levava a entrar na luta, força é confessar que por um instante me senti abatido e hesitei. Não era medo da morte, podia ser amor da vida, que é um synonymo; mas, uma ou outra cousa, não foi tal nem tamanha que fizesse durar por muito tempo a hesitação. Na cidade do Rio Grande encontrei um amigo, a quem eu por carta do Rio de Janeiro dissera muito reservadamente que ia lá por motivos politicos. Quiz saber quaes.
—Naturalmente são reservados, respondi tentando sorrir.
—Bem; mas uma cousa creio que posso saber, uma só, porque não sei absolutamente o que pense a tal respeito, nada havendo antes que me instrua. De que lado estás, legalistas ou revoltosos?
—É boa! Se não fosse dos legalistas, não te mandaria dizer nada; viria ás escondidas.
—Vens com alguma commissão secreta do marechal?
—Não.
Não me arrancou então mais nada, mas eu não pude deixar de lhe confiar os meus projectos, ainda que sem os seus motivos. Quando elle soube que aquelles eram alistar-me entre os voluntarios que combatiam a revolução, não poude crer em mim, e talvez desconfiasse que effectivamente eu levava algum plano secreto do presidente. Nunca da minha parte ouviu nada que pudesse explicar semelhante passo. Entretanto, não perdeu tempo em despersuadir-me; pessoalmente era legalista e falava dos adversarios com odio e furor. Passado o espanto, acceitou o meu acto, tanto mais nobre quanto não era inspirado por sentimento de partido. Sobre isto disse-me muita palavra bella e heroica, propria a levantar o animo de quem já tivesse tendencia para a luta. Eu não tinha nenhuma, fóra das razões particulares; estas, porém, eram agora maiores. Justamente acabava de receber uma carta da tia de Maria Cora, dando-me noticias dellas, e recommendações da sobrinha, tudo com alguma generalidade e certa sympathia verdadeira.
Fui a Porto Alegre, alistei-me e marchei para a campanha. Não disse a meu respeito nada que pudesse despertar a curiosidade de ninguem, mas era difficil encobrir a minha condição, a minha origem, a minha viagem com o plano de ir combater a revolução. Fez-se logo uma lenda a meu respeito. Eu era um republicano antigo, riquissimo, enthusiasta, disposto a dar pela Republica mil vidas, se as tivesse, e resoluto a não poupar a unica. Deixei dizer isto e o mais, e fui. Como eu indagasse das forças revolucionarias com que estaria João da Fonseca, alguem quiz ver nisto uma razão de odio pessoal; tambem não faltou quem me suppozesse espião dos rebeldes, que ia pôr-me em communicação secreta com aquelle. Pessoas que sabiam das relações delle com a Prazeres, imaginavam que era um antigo amante desta que se queria vingar dos amores delle. Todas aquellas supposições morreram, para só ficar a do meu enthusiasmo politico; a da minha espionagem ia-me prejudicando; felizmente, não passou de duas cabeças e de uma noite.
Levava commigo um retrato de Maria Cora; alcançára-o della mesma, uma noite, pouco antes do meu embarque, com uma pequena dedicatoria cerimoniosa. Já disse que estava em pleno romantismo; dado o primeiro passo, os outros vieram de si mesmos. E agora juntae a isto o amor proprio, e comprehendereis que de simples cidadão indifferente da capital saisse um guerreiro aspero da campanha rio-grandense.
Nem por isso conto combates, nem escrevo para falar da revolução, que não teve nada commigo, por si mesma, senão pela occasião que me dava, e por algum golpe que lhe desfechei na estreita área da minha acção. João da Fonseca era o meu rebelde. Depois de haver tomado parte no combate de Sarandy e Coxilla Negra, ouvi que o marido de Maria Cora fôra morto, não sei em que recontro; mais tarde deram-me a noticia de estar com as forças de Gumercindo, e tambem que fôra feito prisioneiro e seguira, para Porto Alegre; mas ainda isto não era verdade. Disperso, com dois camaradas, encontrei um dia um regimento legal que ia em defeza da Encruzilhada, investida ultimamente por uma força dos federalistas; apresentei-me ao commandante e segui. Ahi soube que João da Fonseca estava entre essa força; deram-me todos os signaes delle, contaram-me a historia dos amores e a separação da mulher.
A idéa de matal-o no turbilhão de um combate tinha algo phantastico; nem eu sabia se taes duellos eram possiveis em semelhantes occasiões, quando a força de cada homem tem de sommar com a de toda uma força unica e obediente a uma só direcção. Tambem me pareceu, mais de uma vez, que ia commetter um crime pessoal, e a sensação que isto me dava, podeis crer que não era leve nem doce; mas a figura de Maria Cora abraçava-me e absolvia com uma benção de felicidades. Atirei-me de vez. Não conhecia João da Fonseca; além dos signaes que me haviam dado, tinha de memoria um retrato delle que vira no Engenho Velho; se as feições não estivessem mudadas, era provavel que eu o reconhecesse entre muitos. Mas, ainda uma vez, seria este encontro possivel? Os combates em que eu entrára, já me faziam desconfiar que não era facil, ao menos.
Não foi facil nem breve. No combate da Encruzilhada creio que me houve com a necessaria intrepidez e disciplina, e devo aqui notar que eu me ia acostumando á vida da guerra civil. Os odios que ouvia, eram forças reaes. De um lado e outro batiam-se com ardor, e a paixão que eu sentia nos meus ia-se pegando em mim. Já lêra o meu nome em uma ordem do dia, e de viva voz recebêra louvores, que commigo não pude deixar de achar justos, e ainda agora taes os declaro. Mas vamos ao principal, que é acabar com isto.
Naquelle combate achei-me um tanto como o heróe de Stendhal na batalha de Waterloo; a differença é que o espaço foi menor. Por isso, e tambem porque não me quero deter em cousas de recordação facil, direi sómente que tive occasião de matar em pessoa a João da Fonseca. Verdade é que escapei de ser morto por elle. Ainda agora trago na testa a cicatriz que elle me deixou. O combate entre nós foi curto. Se não parecesse romanesco de mais, eu diria que João da Fonseca adivinhára o motivo e previra o resultado da acção.
Poucos minutos depois da luta pessoal, a um canto da villa, João da Fonseca caiu prostrado. Quiz ainda lutar, e certamente lutou um pouco; eu é que não consenti na desforra, que podia ser a minha derrota, se é que raciocinei; creio que não. Tudo o que fiz foi cego pelo sangue em que o deixára banhado, e surdo pelo clamor e tumulto de combate. Matava-se, gritava-se, vencia-se; em pouco ficámos senhores do campo.
Quando vi que João da Fonseca morrêra devéras, voltei ao combate por instantes; a minha ebriedade cessára um pouco, e os motivos primarios tornaram a dominar-me, como se fossem unicos. A figura de Maria Cora appareceu-me como um sorriso de approvação e perdão; tudo foi rapido.
Haveis de ter lido que alli se apprehenderam tres ou quatro mulheres. Uma destas era a Prazeres. Quando, acabado tudo, a Prazeres viu o cadaver do amante, fez uma scena que me encheu de odio e de inveja. Pegou em si e deitou-se a abraçal-o; as lagrimas que verteu, as palavras que disse, fizeram rir a uns; a outros, se não enterneceram, deram algum sentimento de admiração. Eu, como digo, achei-me tomado de inveja e odio, mas tambem esse duplo sentimento desappareceu para não ficar nem admiração; acabei rindo. Prazeres, depois de honrar com dôr a morte do amante, ficou sendo a federalista que já era; não vestia farda, como dissera ao desafiar João da Fonseca, quiz ser prisioneira com os rebeldes e seguir com elles.
É claro que não deixei logo as forças, bati-me ainda algumas vezes, mas a razão principal dominou, e abri mão das armas. Durante o tempo em que estive alistado, só escrevi duas cartas a Maria Cora, uma pouco depois de encetar aquella vida nova,—outra depois do combate da Encruzilhada; nesta não lhe contei nada do marido, nem da morte, nem sequer que o vira. Unicamente annunciei que era provavel acabasse brevemente a guerra civil. Em nenhuma das duas fiz a menor allusão aos meus sentimentos nem ao motivo do meu acto; entretanto, para quem soubesse delles, a carta era significativa. Maria Cora só respondeu á primeira das cartas, com serenidade, mas não com isenção. Percebia-se,—ou percebia-o eu,—que, não promettendo nada, tudo agradecia, e, quando menos, admirava. Gratidão e admiração podiam encaminhal-a ao amor.
Ainda não disse,—e não sei como diga este ponto,—que na Encruzilhada, depois da morte de João da Fonseca, tentei degolal-o; mas nem queria fazel-o nem realmente o fiz. O meu objecto era ainda outro e romanesco. Perdoa-me tu, realista sincero, ha nisto tambem um pouco de realidade, e foi o que pratiquei, de accôrdo com o estado da minha alma: o que fiz foi cortar-lhe um molho de cabellos. Era o recibo da morte que eu levaria á viuva.
VI
Quando voltei ao Rio de Janeiro, tinham já passado muitos mezes do combate da Encruzilhada. O meu nome figurou não só em partes officiaes como em telegrammas e correspondencias, por mais que eu buscasse esquivar-me ao ruido e desapparecer na sombra. Recebi cartas de felicitações e de indagações. Não vim logo para o Rio de Janeiro, note-se; podia ter aqui alguma festa; preferi ficar em S. Paulo. Um dia, sem ser esperado, metti-me na estrada de ferro e entrei na cidade. Fui para a casa de pensão do Cattete.
Não procurei logo Maria Cora. Pareceu-me até mais acertado que a noticia da minha vinda lhe chegasse pelos jornaes. Não tinha pessoa que lhe falasse; vexava-me ir eu mesmo a alguma redacção contar o meu regresso do Rio Grande; não era passageiro de mar, cujo nome viesse em lista nas folhas publicas. Passaram dous dias; no terceiro, abrindo uma destas, dei com o meu nome. Dizia-se alli que viera de S. Paulo e estivera nas lutas do Rio Grande, citavam-se os combates, tudo com adjectivos de louvor; emfim, que voltava á mesma pensão do Cattete. Como eu só contára alguma cousa ao dono da casa, podia ser elle o autor das notas; disse-me que não. Entrei a receber visitas pessoaes. Todas queriam saber tudo; eu pouco mais disse que nada.
Entre os cartões, recebi dous de Maria Cora e da tia, com palavras de boas vindas. Não era preciso mais; restava-me ir agradecer-lhes, e dispuz-me a isso; mas, no proprio dia em que resolvi ir ao Engenho Velho, tive uma sensação de... De quê? Expliquem, se podem, o acanhamento que me deu a lembrança do marido de Maria Cora, morto ás minhas mãos. A sensação que ia ter diante della tolheu-me inteiramente. Sabendo-se qual foi o movel principal da minha acção militar, mal se comprehende aquella hesitação; mas, se considerardes que, por mais que me defendesse do marido e o matasse para não morrer, elle era sempre o marido, terás entendido o mal-estar que me fez adiar a visita. Afinal, peguei em mim e fui á casa della.
Maria Cora estava de luto. Recebeu-me com bondade, e repetiu-me, como a tia, as felicitações escriptas. Falámos da guerra civil, dos costumes do Rio Grande, um pouco de politica, e mais nada. Não se disse de João da Fonseca. Ao sair de lá, perguntei a mim mesmo se Maria Cora estaria disposta a casar conmigo.
—Não me parece que recuse, embora não lhe ache maneiras especiaes. Creio até que está menos affavel que d'antes... Terá mudado?
Pensei assim, vagamente. Attribui a alteração ao estado moral da viuvez; era natural. E continuei a frequental-a, disposto a deixar passar a primeira phase do luto para lhe pedir formalmente a mão. Não tinha que fazer declarações novas; ella sabia tudo. Continuou a receber-me bem. Nenhuma pergunta me fez sobre o marido, a tia tambem não, e da propria revolução não se falou mais. Pela minha parte, tornando á situação anterior, busquei não perder tempo, fiz-me pretendente com todas as maneiras do officio. Um dia, perguntei-lhe se pensava em tornar ao Rio Grande.
—Por ora, não.
—Mas irá?
—É possivel; não tenho plano nem prazo marcado; é possivel.
Eu, depois de algum silencio, durante o qual olhava interrogativamente para ella, acabei por inquirir se antes de ir, caso fosse, não alteraria nada em sua vida.
—A minha vida está tão alterada...
Não me entendera; foi o que suppuz. Tratei de me explicar melhor, e escrevi uma carta em que lhe lembrava a entrega e a recusa da primeira e lhe pedia francamente a mão. Entreguei a carta, dous dias depois, com estas palavras:
—Desta vez não recusará ler-me.
Não recusou, acceitou a carta. Foi á saida, á porta da sala. Creio até que lhe vi certa commoção de bom agouro. Não me respondeu por escripto, como esperei. Passados tres dias, estava tão ancioso que resolvi ir ao Engenho Velho. Em caminho imaginei tudo: que me recusasse, que me acceitasse, que me adiasse, e já me contentava com a ultima hypothese, se não houvesse de ser a segunda. Não a achei em casa; tinha ido passar alguns dias na Tijuca. Sai de lá aborrecido. Pareceu-me que não queria absolutamente casar; mas então era mais simples dizel-o ou escrevel-o. Esta consideração trouxe-me esperanças novas.
Tinha ainda presentes as palavras que me dissera, quando me devolveu a primeira carta, e eu lhe falei da minha paixão: «Supponha que eu o amo; nem por isso deixo de ser uma senhora casada.» Era claro que então gostava de mim, e agora mesmo não havia razão decisiva para crer o contrario, embora a apparencia fosse um tanto fria. Ultimamente, entrei a crer que ainda gostava, um pouco por vaidade, um pouco por sympathia, e não sei se por gratidão tambem; tive alguns vestigios disso. Não obstante, não me deu resposta á segunda carta. Ao voltar da Tijuca, vinha menos expansiva, acaso mais triste. Tive eu mesmo de lhe falar na materia; a resposta foi que, por ora, estava disposta a não casar.
—Mas um dia...? perguntei depois de algum silencio.
—Estarei velha.
—Mas então... será muito tarde?
—Meu marido póde não estar morto.
Espantou-me esta objecção.
—Mas a senhora está de luto.
—Tal foi a noticia que li e me deram; póde não ser exacta. Tenho visto desmentir outras que se reputavam certas.
—Quer certeza absoluta? perguntei. Eu posso dal-a.
Maria Cora empallideceu. Certeza. Certeza de quê? Queria que lhe contasse tudo, mas tudo. A situação era tão penosa para mim que não hesitei mais, e, depois de lhe dizer que era intenção minha não lhe contar nada, como não contára a ninguem, ia fazel-o, unicamente para obedecer á intimação. E referi o combate, as suas phases todas, os riscos, as palavras, finalmente a morte de João da Fonseca. A ancia com que me ouviu foi grande, e não menor o abatimento final. Ainda assim, dominou-se, e perguntou-me:
—Jura que me não está enganando?
—Para que a enganar? O que tenho feito é bastante para provar que sou sincero. Amanhã, trago-lhe outra prova, se é preciso mais alguma.
Levei-lhe os cabellos que cortára ao cadaver. Contei-lhe,—e confesso que o meu fim foi irrital-a contra a memoria do defunto,—contei-lhe o desespero da Prazeres. Descrevi essa mulher e as suas lagrimas. Maria Cora ouviu-me com os olhos grandes e perdidos; estava ainda com ciumes. Quando lhe mostrei os cabellos do marido, atirou-se a elles, recebeu-os, beijou-os, chorando, chorando, chorando... Entendi melhor sair e sair para sempre. Dias depois recebi a resposta á minha carta; recusava casar.
Na resposta havia uma palavra que é a unica razão de escrever esta narrativa: «Comprehende que eu não podia aceitar a mão do homem que, embora lealmente, matou meu marido.» Comparei-a áquella outra que me dissera antes, quando eu me propunha sair a combate, matal-o e voltar: «Não creio que ninguem me ame com tal força.» E foi essa palavra que me levou á guerra. Maria Cora vive agora reclusa; de costume manda dizer uma missa por alma do marido, no anniversario do combate da Encruzilhada. Nunca mais a vi; e, cousa menos difficil, nunca mais esqueci dar corda ao relogio.
Marcha funebre
O deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de Agosto de 186... Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do imperador, e durante o baile não tivera o minimo incommodo moral nem physico. Ao contrario, a noite foi excellente; tão excellente que um inimigo seu, que padecia do coração, falleceu antes das dez horas, e a noticia chegou ao Cassino pouco depois das onze.
Naturalmente conclues que elle ficou alegre com a morte do homem, especie de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo-te que conclues mal; não foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de mezes, era daquellas que não acabam mais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre creatura humana. Cordovil sabia dos padecimentos do adversario. Alguns amigos, para o consolar de antigas injurias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo, pregado a uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alviçareiro adoptava, e repetia, e era mais sincera naquelle que neste. Emfim acabára de padecer; dahi o desabafo.
Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em politica, não gostava do mal alheio. Quando resava, ao levantar da cama: «Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa as nossas dividas, como nós perdoamos aos nossos devedores...» não imitava um de seus amigos que resava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de lingua; esse chegava a cobrar além do que elles lhe deviam, isto é, se ouvia maldizer de alguem, decorava tudo e mais alguma cousa, e ia repetil-o a outra parte. No dia seguinte, porém, a bella oração de Jesus tornava a sair dos labios da vespera com a mesma caridade de officio.
Cordovil não ia nas aguas d'esse amigo; perdoava devéras. Que entrasse no perdão um tantinho de preguiça, é possivel, sem aliás ser evidente. Preguiça amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa mingoar força á acção do mal. Não esqueça que o deputado só gostava do mal alheio em politica, e o inimigo morto era inimigo pessoal. Quanto á causa da inimizade, não a sei eu, e o nome do homem acabou com a vida.
—Coitado! descançou, disse Cordovil.
Conversaram da longa doença do finado. Tambem falaram das varias mortes d'este mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de Cesar, não por motivo do ferro, mas por inesperada e rapida.
—Tu quoque? perguntou-lhe um collega rindo.
Ao que elle, apanhando a allusão, replicou:
—Eu, se tivesse um filho, quizera morrer ás mãos delle. O parricidio, estando fóra do commum, faria a tragedia mais tragica.
Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com somno, e foi cochilando no carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa, sentiu parar o carro e ouviu rumor de vozes. Era o caso de um defunto, que duas praças de policia estavam levantando do chão.
—Assassinado? perguntou elle ao lacaio, que descêra da almofada para saber o que era.
—Não sei, não, senhor.
—Pergunta o que é.
—Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que falava a outros.
O moço approximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvil-o. Referiu-lhe então em poucas palavras o accidente a que assistira.
—Vinhamos andando, elle adeante, eu atraz. Parece que assobiava uma polka. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e disse que «morreu de repente». Foi-se juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora pegou delle. Quer ver o defunto?
—Não, obrigado. Já se póde passar?
—Póde.
—Obrigado. Vamos, Domingos.
Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.
Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver, senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.
Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam. Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, tivera uma affeição unica na vida,—aos vinte e cinco annos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe faltassem noivas,—mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.
Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já morto, totalmente morto.
—Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.
E logo emendou:
—Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. Não sentiria nada.
Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,—o apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.
Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia o finado ao cemiterio...
Cordovil quiz rir da circumstancia de imaginar além da morte, o movimento e o sahimento, as proprias noticias dos jornaes, que elle leu de cór e depressa. Quiz rir, mas preferia cochilar; os olhos é que, estando já perto de casa e da cama, não quizeram desperdiçar o somno, e ficaram arregalados.
Então a morte, que elle imaginára pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou no dia seguinte em plena sessão da Camara, appareceu alli mesmo no carro. Suppoz elle que, ao abrirem-lhe a portinhola, déssem com o seu cadaver. Sairia assim de uma noite ruidosa para outra pacifica, sem conversas, nem danças, nem encontros, sem especie alguma de luta ou resistencia. O estremeção que teve fez-lhe ver que não era verdade. Effectivamente, o carro entrou na chacara, estacou, e Domingos saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um castiçal e vela accesa o escravo Florindo. Subiu a escada, e os pés sentiam que os degraus eram d'este mundo; se fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para a cama; era a mesma dos somnos quietos e demorados.
—Veiu alguem?
—Não, senhor, respondeu o escravo distrahido, mas corrigiu logo: Veiu, sim, senhor; veiu aquelle doutor que almoçou com meu senhor domingo passado.
—Queria alguma cousa?
—Disse que vinha dar a meu senhor uma boa noticia, e deixou este bilhete—que eu botei ao pé da cama.
O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos amigos que usavam contar-lhe a marcha da molestia. Quiz ser o primeiro a annunciar o desenlace, um alegrão, com um abraço apertado. Emfim, morrêra o patife. Não disse a cousa assim por esses termos claros, mas os que empregou vinham a dar nelles, accrescendo que não attribuiu esse unico objecto á visita. Vinha passar a noite; só alli soube que Cordovil fôra ao Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo que lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma vez lhe doeu a agonia do outro. Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:
—Coitado! Vivam as mortes subitas!
Florindo, se referisse o gesto e a phrase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse arrepender da cançeira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para dormir, ouviu as ultimas ordens e despediu-se. Cordovil deitou-se.
—Ah! suspirou elle estirando o corpo cançado.
Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo: estava accordado.
A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio; eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.
—Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.
Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.
Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella. Parece que era frio, porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida. Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo, emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão mais velho,—ou mais moço, não sei.
Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.
Um capitão de voluntarios
Indo a embarcar para a Europa, logo depois da proclamação da Republica, Simão de Castro fez inventario das cartas e apontamentos; rasgou tudo. Só lhe ficou a narração que ides ler; entregou-a a um amigo para imprimil-a quando elle estivesse barra fóra. O amigo não cumpriu a recommendação por achar na historia alguma cousa que podia ser penosa, e assim lh'o disse em carta. Simão respondeu que estava por tudo o que quizesse; não tendo vaidades literarias, pouco se lhe dava de vir ou não a publico. Agora que os dous falleceram, e não ha egual escrupulo, dá-se o manuscripto ao prelo.
Eramos dous, ellas duas. Os dous iamos alli por visita, costume, desfastio, e finalmente por amizade. Fiquei amigo do dono da casa, elle meu amigo. Às tardes, sobre o jantar,—jantava-se cedo em 1866,—ia alli fumar um charuto. O sol ainda entrava pela janella, donde se via um morro com casas em cima. A janella opposta dava para o mar. Não digo a rua nem o bairro; a cidade posso dizer que era o Rio de Janeiro. Occultarei o nome do meu amigo; ponhamos uma letra, X... Ella, uma dellas, chamava-se Maria.
Quando eu entrava, já elle estava na cadeira de balanço. Os moveis da sala eram poucos, os ornatos raros, tudo simples. X... estendia-me a mão larga e forte; eu ia sentar-me ao pé da janella, olho na sala, olho na rua. Maria, ou já estava ou vinha de dentro. Eramos nada um para o outro; ligava-nos unicamente a affeição de X... Conversavamos; eu saía para casa ou ia passear, elles ficavam e iam dormir. Algumas vezes jogavamos cartas, ás noites, e, para o fim do tempo, era alli que eu passava a maior parte destas.
Tudo em X... me dominava. A figura primeiro. Elle robusto, eu franzino; a minha graça feminina, debil, desapparecia ao pé do garbo varonil delle, dos seus hombros largos, cadeiras largas, jarrete forte e o pé solido que, andando, batia rijo no chão. Dae-me um bigode escasso e fino; vêde nelle as suissas longas, espessas e encaracoladas, e um dos seus gestos habituaes, pensando ou escutando, era passar os dedos por ellas, encaracolando-as sempre. Os olhos completavam a figura, não só por serem grandes e bellos, mas por que riam mais e melhor que a boca. Depois da figura, a edade; X... era homem de quarenta annos, eu não passava dos vinte e quatro. Depois da edade, a vida; elle vivêra muito, em outro meio, donde saíra a encafuar-se naquella casa, com aquella senhora; eu não vivêra nada nem com pessoa alguma. Emfim,—e este rasgo é capital,—havia nelle uma fibra castelhana, uma gotta do sangue que circula nas paginas de Calderon, uma attitude moral que posso comparar, sem depressão nem riso, á do heróe de Cervantes.
Como se tinham amado? Datava de longe. Maria contava já vinte e sete annos, e parecia haver recebido alguma educação. Ouvi que o primeiro encontro fôra em um baile de mascaras, no antigo Theatro Provisorio. Ella trajava uma saia curta, e dançava ao som de um pandeiro. Tinha os pés admiraveis, e foram elles ou o seu destino a causa do amor de X... Nunca lhe perguntei a origem da alliança; sei só que ella tinha uma filha, que estava no collegio e não vinha á casa; a mãe é que ia vê-la. Verdadeiramente as nossas relações eram respeitosas, e o respeito ia ao ponto de acceitar a situação sem a examinar.
Quando comecei a ir alli, não tinha ainda o emprego no banco. Só dous ou tres mezes depois é que entrei para este, e não interrompi as relações. Maria tocava piano; ás vezes, ella e a amiga Raymunda conseguiam arrastar X... ao theatro; eu ia com elles. No fim, tomavamos chá em sala particular, e, uma ou outra vez, se havia lua, acabavamos a noite indo de carro a Botafogo.
A estas festas não ia Barreto, que só mais tarde começou a frequentar a casa. Entretanto, era bom companheiro, alegre e rumoroso. Uma noite, como saissemos de lá, encaminhou a conversa para as duas mulheres, e convidou-me a namoral-as.
—Tu escolhes uma, Simão, eu outra.
Estremecei e parei.