MAXIMO GORKI
A MÃE
Romance traduzido do manuscripto por S. PERSKY
Versão portugueza de AUGUSTO DE LACERDA
1907
ANTIGA CASA BERTRAND
José Bastos & C.a
73, RUA GARRETT, 75
LISBOA
INDICE
PREFÁCIO
A Mãe não é uma obra de pura imaginação. É, antes de tudo, uma pintura exacta—poderia até dizer-se uma vista cinematographica—do movimento revolucionario na Russia. Este bello livro introduz na litteratura russa typos que faltavam n’ella quasi por completo: os revolucionarios operarios e camponezes, cujo papel tem sido tão importante nas ultimas tempestades politicas do paiz dos tsars.
Graças aos escriptores que se teem succedido de Tourguenev a Leão Tolstoi, o revoltado sahido da classe intellectualmente cultivada é mais ou menos conhecido.
Por que motivo não havia ainda um retrato completo do seu irmão oriundo das obscuras camadas do povo? Principalmente porque os revolucionarios d’esta categoria são de recente data.
Prepararam-se durante muito tempo nas mysteriosas profundezas das massas, recrutando-se em silencio, multiplicando-se pouco a pouco, até ao dia em que, na sequencia dos acontecimentos de que a Russia acaba de ser o theatro, os viram surgir de chofre por toda a parte, tanto nas aldeias as mais reconditas da provincia, como nas grandes cidades.
O povo desperta do seu somno secular, como de sobresalto, e este despertar abre uma era nova na historia do movimento da libertação russa. Entre os intellectuaes e os illettrados, até hoje distanciados uns dos outros, forma-se um laço solido, e um mesmo ideal inflamma o exercito dos que marcham á conquista da liberdade.
Descrever esta nova fase da revolução russa, evocar os heroes obscuros que se votaram á grande tarefa da emancipação, analisar nas suas manifestações as mais variadas, e até as mais inesperadas, esta resurreição da consciencia popular,—eis o que Maximo Gorki se propoz nas paginas que ides lêr. Tarefa ardua como poucas, mas de molde a tentar a alma ardente do auctor. Raras vezes Gorki attingiu tal acuidade de observação, uma variedade mais completa no descriptivo, uma tão perfeita certeza d’analyse psichologica. Mais do que nunca, foi o homem identificado com a sua obra. Filho do povo, ascendendo das mais sordidas camadas sociaes, revolucionario unicamente dedicado ao seu puro ideal de justiça (sempre protestou contra a violencia, viesse ella d’onde viesse) Gorki tinha, mais do que outrem, os requisitos para escrever esta pagina tragica da historia contemporanea.
No personagem tão profundamente humano da mãe, Gorki mostra como uma mulher cheia de doçura e de timidez, espancada pelo pae, pelo marido, esmagada impiedosamente pela sorte, immersa na ignorancia e no desbragamento, vae adquirindo pouco a pouco a consciencia da sua misera situação, se alevanta sob a influencia do seu filho, até tornar-se como elle revolucionaria enthusiastica, sacrificando por fim as suas mais queridas affeições, a propria vida mesmo, á causa do povo.
Em torno da mãe e do filho—os dois heroes principaes—agita-se um amontoado de outros personagens. D’uma parte, os amigos: um russo-menor—alma d’abnegação e de commovente simplicidade,—raparigas sacrificando felicidade e riqueza para soffrerem a prisão e as provações de toda a especie; operarios robustos e safados reclamando, com o direito á vida, algumas liberdades; camponezes que, depois de seculos de cega submissão, se recusam finalmente a considerar os representantes das auctoridades como enviados do céo. D’outra parte, os inimigos: officiaes de policia, guardas e espiões, instrumentos doceis do poder. Toda esta gente, tão estranha e tão viva, estas luctas, estes julgamentos, estes martyrios, episodios d’uma guerra cruel e sem clemencia movida contra os apostolos do ideal novo, tudo isto é a realidade, a realidade de hontem, de hoje, de ámanhã, tudo isto existe e existirá, emquanto na Russia durar a lucta libertadora.
De muitas paginas d’este livro emana uma emmoção profunda.
No decurso de uma conversa com os seus companheiros, André, o russo-menor, exclama:
—Que importam os meus soffrimentos, as minhas desgraças! Quando penso em que um dia a patria será livre, o meu coração dilata-se de jubilo... tenho vontade de chorar, tão feliz me sinto!
E quando Pavel diz, falando de um seu amigo desgraçado mas sempre bem disposto d’espirito:
—Sabes? aquelles que mais riem são aquelles cujo coração soffre incessantemente.
Um companheiro responde:
—Qual historia! Se assim fôsse, toda a Russia morreria de riso!
O principe Ouroussof, antigo ministro adjunto do Interior, na Russia, conta nas suas Memorias que a rainha da Rumania, falando-lhe dos escriptores russos contemporaneos, collocava a muito alto a obra de Gorki, que ella conhecia perfeitamente. «Sabe captar a attenção do leitor, declarava ella, e introduziu processos absolutamente novos na litteratura moderna.»
Carmen Sylva alludia provavelmente ao dom que Gorki possue de fascinar o leitor com o poder das scenas que descreve. Taes são, n’este romance, a morte do revolucionario Iégor, a prisão do camponez Rybine, a audiencia do tribunal a que comparecem Pavel e os seus amigos, a scena final em que as mãos dos guardas espancam a pobre mãe. Quantas passagens poderiamos citar ainda! Por exemplo, aquella em que Sophia toca uma symphonia de Grieg. O auctor não diz o nome d’aquelle trecho, mas qualquer musico o reconhecerá immediatamente pela rapida e flagrante descripção que d’elle faz Gorki.
O governo russo entendeu dever apprehender A Mãe em todo o imperio. Poucos dias depois da apparição da obra, a policia fazia buscas em todas as livrarias tanto de S. Petersburgo como da provincia. Chegou muito tarde e só poude apprehender poucos exemplares, por estar já vendida a parte maxima de uma larga edição.
Ao mesmo tempo, as auctoridades entregavam aos tribunaes Gorki e o seu editor, sob a accusação de «excitação á revolta» e de «achincalhamento das coisas santas», crimes que ellas dizem existirem n’este romance. Segundo a lei russa, sob os culpados impende a pena de trez a cinco annos de prisão ou de exilio na Siberia.
Ha trez annos somente, Gorki foi encarcerado na fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, por motivos analogos.
A opinião publica sentiu-se abalada em todo o mundo: de todos os paizes civilisados affluiram petições colossaes, reclamando a libertação do mestre. Gorki foi posto em liberdade.
Soffrendo do peito, o auctor da Mãe está desde ha muitos mezes em Capri. Regressará em breve ao seu paiz.
A prisão estará esperando novamente um dos melhores filhos da Russia?
París, novembro, 1907.
S. Persky
A Mãe
PRIMEIRA PARTE
I
Todos os dias, na atmosphera esfumaçada e grave do bairro operario, o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então, creaturas toscas, com os musculos ainda fatigados, sahiam rapidamente das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na fria meia-luz, iam pela rua estreita em direcção aos altos muros da fabrica que os esperava implacavel e cujos inumeros olhos quadrados, amarellos e viscosos illuminavam a calçada lamacenta. A lama estalava sob os seus pés. Vozes estremunhadas resoavam com roucas exclamações; pragas cortavam o ar; e uma onda de ruidos vagos acolhia os operarios: a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal encaradas como sentinellas, as altas chaminés negras prefilavam-se acima do bairro, semelhantes a grossos bastões.
Á tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos illuminavam as vidraças das casarias, a officina vomitava das suas entranhas de pedra todas as escorias humanas, e os operarios enegrecidos pelo fumo, espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atraz de si exhalações lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam. Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados tinham concluido por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o descanço.
A fabrica absorvia o dia, as maquinas sugavam nos musculos dos homens todas as forças de que ellas precisavam. O dia fôra riscado do computo da vida, sem deixar vestigios; o homem tinha dado mais um passo para o tumulo, sem d’isso se aperceber; mas podia entregar-se ao goso do descanço, aos prazeres da sordida taverna, e estava satisfeito.
Nos dias santificados, dormia-se até quasi ás dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia á missa, censurando aos novos a sua indifferença em materia religiosa. Ao regressarem da egreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até á tarde.
A fadiga accumulada durante longos annos tirava o appetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estomago preguiçoso com a ardencia do alcool.
Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuiam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse secco; os que tinham um guarda-chuva, com elle sahiam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeavel ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorisar-se ao seu visinho, seja de que maneira fôr.
Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fabrica, das maquinas, dizia-se mal dos contramestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A intelligencia desastrada e impotente lançava apenas umas scentelhas isoladas, um tenue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organisavam pequenas reuniões em casa d’um ou d’outro, tocavam harmonio, cantavam canções estupidas e ignobeis, dançavam, contavam historias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensivel que precisava de encontrar sahida. Então, pelo mais futil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animaes selvagens. Havia contendas sangrentas.
Nas relações dos operarios entre si, dominava este mesmo sentimento d’animosidade encubada; inveterara-se n’elles, tanto como a fadiga dos musculos. Estes seres nasciam com a doença da alma, herança de seus paes; e como uma sombra negra acompanhava-os até ao tumulo, impellindo-os á realisação de actos repellentes pela sua inutil crueldade.
Nos dias santificados, os novos regressavam tarde a casa, com os fatos esfarrapados, cobertos de lama e de poeira; com as caras esmurradas, gabavam-se dos murros que tinham dado nos companheiros; as injurias soffridas encolerisavam-nos ou faziam-nos chorar; eram lastimaveis na sua embriaguez, desgraçados e repugnantes. Por vezes, os paes levavam para casa os filhos que haviam encontrado a cahir de bêbedos na rua ou na taverna; as injurias e os murros choviam nos rapazes embrutecidos ou excitados pela aguardente; depois mettiam-nos na cama com tal ou qual precaução, e pela manhã accordavam-nos, apenas o silvo do apito da fabrica cortava os ares.
Embora repreendessem os rapazes e lhes batessem, a sua embriaguez e as suas contendas eram coisas naturaes para a familia; quando os paes eram ainda novos tinham bebido tambem e entrado em desordens, sendo egualmente castigados pelos paes e pelas mães. A vida decorria sempre assim; continuava a decorrer, não se sabia até onde, regular e lenta como um rio lodoso.
Appareciam por vezes no bairro creaturas estranhas, que a principio despertavam a attenção, simplesmente porque eram desconhecidas; mas dentro em pouco habituavam-se a ellas, e acabavam por passar despercebidas. Das suas conversas concluia-se que a vida do operario era em toda a parte a mesma coisa. E desde que era assim, para que falar sobre tal assumpto?
Havia porem alguns que diziam coisas novas para o bairro. Não discutiam com elles, não prestavam mais do que uma attenção incredula ás suas palavras extravagantes, que excitavam n’uns uma irritação cega, n’outros uma especie d’inquietação, ao passo que outros ainda sentiam-se perturbados por uma vaga esperança, e desatavam a beber ainda mais que de costume para afastarem tal impressão.
Se o recemchegado apresentava algum traço caracteristico extraordinario, os moradores do bairro punham-no em rigorosa quarentena, tratavam-no com instinctiva repulsão, como se receassem vel-o trazer para a existencia de todos o que quer que fosse perturbador do rame-rame penoso, mas tranquillo. Acostumados a serem opprimidos pela vida, aquella gente considerava todas as transformações possiveis como proprias somente a tornarem o seu jugo ainda mais pezado.
Resignados, faziam o vacuo em torno d’aquelles que pronunciavam palavras estranhas. Então estes desappareciam não se sabe para onde; se ficavam na fabrica, viviam á parte, não conseguindo confundir-se na multidão uniforme dos operarios.
Depois de ter vivido assim uns cincoenta annos, o homem morria.
II
D’esta maneira vivia o serralheiro Mikhaíl Vlassof, homem sombrio, de pequeninos olhos desconfiados e maus, protegidos por espessas sobrancelhas. Era o melhor serralheiro da fabrica e o hercules do bairro. Tinha porem modos grosseiros para o chefe; por isto ganhava pouco; todos os domingos sovava algum; todos o temiam e ninguem o estimava. Por varias vezes, haviam tentado dar-lhe uma tareia, mas nunca conseguiram. Quando Vlassof previa uma agressão, agarrava n’uma pedra, n’uma taboa, n’um bocado de ferro, e, solidamente firme nas pernas abertas, esperava em silencio o inimigo.
Com a cara coberta, desde as orelhas até ao pescoço d’uma barba negra, as suas mãos pelludas despertavam um terror geral. Principalmente tinham medo dos seus olhos penetrantes que atravessavam o proximo como pontas d’aço; quando lhe encontravam o olhar, sentiam-se em presença d’uma força selvagem, inaccessivel ao terror, prestes ao ataque impiedoso.
—Eh lá! Vá d’aqui, canalha! dizia elle roucamente.
Na espessa tez do seu rosto, os dentes amarellos brilhavam ferozes. Os seus adversarios recuavam, invectivando-o.
—Canalha! gritava elle ainda, e os seus olhos disparavam sarcasmos acerados como sovelas. Depois, erguendo a cabeça com ares provocadores, seguia os seus inimigos, berrando de quando em quando:
—Então! quem quer morrer?
Ninguem queria.
Falava pouco. A sua expressão favorita era: «canalha». Qualificava assim os chefes da fabrica e da policia; empregava o mesmo epitheto quando se dirigia á mulher.
—Ó canalha, não vês que as minhas calças estão rôtas?
Quando o seu filho Pavel tinha quatorze annos, Vlassof sentiu ainda uma vez o desejo de levantal-o ao ar pelos cabellos. Mas Pavel, deitando a mão a um martello, disse resumidamente:
—Não me toques!
—O quê? perguntou o pae, encaminhando-se para o pequeno de fôrmas esbeltas e delicadas. Dir-se-ia uma sombra cahindo sobre uma betula.
—Basta! exclamou Pavel. Não te deixarei continuar...
E agitou o martello, abrindo desmedidamente os grandes olhos negros.
O pae olhou para elle, pôz as mãos pelludas atraz nas costas, e disse em ar de troça:
—Está bem...
Depois accrescentou com um profundo sorriso:
—Ah! canalha!
Logo declarou á mulher:
—Nunca me peças mais dinheiro para os sustentar, a ti e ao Pavel.
—Vaes gastar tudo na bebida? ousou ella perguntar.
Deu um murro na meza, exclamando:
—Que tens tu com isso, canalha? Vou arranjar uma amante!
Não a arranjou; mas a partir d’aquelle dia até á morte, durante cerca de dois annos, nunca mais olhou para o filho nem lhe dirigiu palavra.
Tinha um cão tão forte e pelludo como elle. Todas as manhãs o animal o acompanhava até á porta da fabrica, onde o esperava á tarde. Nos dias santificados, Vlassof ia para a taverna. Andava sem dizer palavra, e como se procurasse o que quer que fosse, lançando olhares furtivos aos que passavam. Durante todo o dia, o cão seguia-o, com a espessa cauda descahida. Quando Vlassof, bêbedo, entrava em casa, ceava e dava de comer ao cão no seu proprio prato. Nunca batia no animal, assim como não lhe ralhava nem o acariciava. Depois da refeição, se a mulher não conseguia levantar a meza no momento opportuno, atirava com a louça ao chão, punha na sua frente uma garrafa de aguardente e, com as costas contra a parede, com a bôca muito aberta e os olhos fechados, cantava em voz roufenha uma canção melancólica. Os sons discordantes baralhavam-se-lhe no bigode, do qual cahiam migalhas de pão; os seus dedos grossos alizavam os pellos da barba. As palavras da canção eram incompreensiveis, arrastadas, a melodia recordava os urros dos lobos no inverno. Cantava emquanto durava a aguardente; depois estirava-se no banco ou encostava a cabeça á meza e dormia assim até que o apito da fabrica o chamava. O cão deitava-se ao seu lado.
Morreu d’uma hernia, apoz longa agonia. Durante cinco dias, enegrecido pelo soffrimento, agitou-se incessantemente no leito, com as palpebras cerradas, com a bôca em contorsões. De quando emquando, dizia para a mulher:
—Dá-me arsenico. Envenena-me! Ella chamou o medico, que receitou cataplasmas, informando de que seria indispensavel uma operação, e de que era preciso levar o doente para o hospital immediatamente.
—Vae para o diabo, canalha! Morro bem, sósinho! respondeu elle.
Quando o medico sahiu, a mulher lavada em lagrimas, quiz resolvel-o a submetter-se á operação; Milkhaíl declarou-lhe ameaçando-a de punho cerrado:
—Não experimento. Se eu ficasse bom, haverias de pagal-o caro!
Uma manhã, morreu, emquanto o apito da fabrica chamava os operarios ao trabalho. Deitaram-no no caixão; tinha o sobrolho franzido e a bôca aberta. Foi levado á ultima morada pela mulher, pelo filho, pelo cão, e por Danilo Vessoftchikof, velho ladrão e bêbedo expulso da fabrica, e por alguns miseraveis do bairro. A mulher chorou um pouco. Pavel tinha os olhos sêccos. Os que encontraram o prestito funebre pararam e persignaram-se, dizendo:
—Com certeza que Pélagué está satisfeita com a morte do marido.
Alguem emendou:
—Não morreu: rebentou.
Depois do caixão descer á terra, os que o acompanharam voltaram para casa; o cão ficou deitado na terra humida, farejando por muito tempo. Decorridos alguns dias, mataram-no; não se soube quem.
III
Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl:
—A ceia!
Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a, pondo-lhe o braço no hombro, e disse:
—Depressa, mamã!
—Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa.
—Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a custo a lingua rebelde.
Era a primeira vez que se embriagava.
O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a consciencia; perguntava a si proprio:
—Estou bêbedo?... Estarei bêbedo?
As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se ainda mais embriagado.
E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor, dizendo suavemente:
—Não devias ter feito isso...
Pavel começava a sentir nauseas.
A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem nexo.
—É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu tenho nauseas.
A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:
—Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida?
Respondeu, fechando os olhos:
—Todos bebem...
Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto, retorquiu:
—Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe.
Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu estado normal, examinava-a.
Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido, obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.
E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.
—Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!
—Vou buscar agua gelada...
Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças ou irritadas.
Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.
A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe. O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.
Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.
Um dia, a mãe perguntou-lhe:
—E então, divertiste-te hontem á noute?
Respondeu com sombria irritação:
—Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!... Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.
Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi invadida por vaga inquietação.
Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.
—Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.
—Vou bem, vou! respondeu.
—Estás tão magro! suspirou ella.
Ficou silencioso.
Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora habituaes no seu falar.
Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato; movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação, diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá no bairro...
Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução, a coragem.
—É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.
O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:
—Respeitas o Christo e não vaes á egreja...
Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.
O rapaz dizia a miudo «a sr.a» quando se dirigia á mãe, a quem tambem chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.
—Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.
E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse forte e serio, que lhe agradava.
Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:
—Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade... Tão grave!... Não é proprio da sua idade...
Perguntava a si mesma:
—Terá uma amiga?
Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle entregava-lhe quasi toda a feria.
Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.
IV
Uma noite, á ceia, Pavel, tendo fechado as cortinas das janellas, assentou-se a um canto e pôz-se a lêr, depois de ter pendurado na parede, por cima da cabeça, uma lampada de metal.
A mãe tinha acabado o serviço da cozinha; approximou-se d’elle. Pavel ergueu a fronte e fixou-a com olhar interrogador.
—Não é nada... mesmo nada! disse ella rapidamente.
E afastou-se, pestanejando, a modos confuza. Mas depois de ter ficado immovel por um instante, no meio da cozinha, lavou as mãos e voltou, pensativa, preoccupada.
—Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com simpleza.
Elle pôz o livro nos joelhos.
—Assenta-te, mamã.
Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na espectativa de alguma coisa grave.
Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou.
—Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido saber a verdade. Percebeste?
Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué teve medo, por elle.
—Para que é isso, Pavel?
Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente:
—Quero saber a verdade.
A sua voz era em tom baixo, mas firme; brilhava-lhe no olhar um desejo obstinado. Pélagué comprehendeu que o filho se consagrára para sempre ao que quer que fôsse misterioso e terrivel. Tudo lhe parecera sempre inevitavel; estava acostumada a submetter-se sem reflectir; por isto começou de chorar baixinho, sem encontrar palavras no seu coração confrangido pela angustia e pela dôr.
—Não chores! disse-lhe Pavel, carinhosamente—e á mãe parecia que elle lhe dizia um adeus—reflecte! Que vida a nossa! Tu tens quarenta annos, e, francamente, podes dizer que tenhas vivido? O pae batia-te... compreendo agora que era o seu pezar da vida o que elle desabafava assim nas pancadas que te dava... o pezar da vida que o opprimia, e que elle nem mesmo sabia d’onde lhe vinha. Trabalhou durante trinta annos; começou quando o edificio da fabrica não tinha mais do que dois predios, e hoje tem sete! As fabricas desenvolvem-se e nós morremos trabalhando para ellas...
Pélagué ouvia-o, com receio e ao mesmo tempo com avidez. Os bellos olhos azues do rapaz luziam; com o peito apoiado á mesa, approximou-se da mãe, e tocando quasi no seu rosto banhado de lagrimas, dizia-lhe o seu primeiro discurso sobre a verdade, tal como elle a compreendia. Com a ingenuidade da juventude e com o ardor d’um collegial orgulhoso dos seus conhecimentos e sinceramente convicto de importancia d’elles, falava de tudo que lhe parecia tão evidente, falava tanto para se avaliar a si mesmo como para convencer sua mãe. Detinha-se por vezes quando lhe faltavam as palavras, e então via o rosto inquieto no qual brilhavam aquelles bons olhos velados pelas lagrimas, cheios de terror, de preplexidade. Apiedou-se de sua mãe e novamente falou d’ella.
—Que alegrias tens tu conhecido? perguntou. Que tiveste no passado que fosse bom?
Ella meneou a cabeça tristemente; invadia-a um sentimento novo, desconhecido ainda, doloroso e alegre ao mesmo tempo, que lhe acariciava deliciosamente o coração dolorido. Pela primeira vez, falavam-lhe d’ella e da sua propria existencia; vagos pensares, adormecidos havia muito, despertavam no seu ser, reanimavam os sentimentos extinctos com um vago descontentamento, as recordações, as saudades da sua mocidade longinqua.
Falou da sua vida, dos seus amigos, de todo o passado; mas, como os outros, não sabia mais do que lamentar-se; ninguem explicava o motivo da sua vida tão penosa e ardua. E agora, com o filho sentado a seu lado, tudo quanto os olhos de Pavel, o seu rosto, as suas palavras lhe diziam, tudo lhe falava captivantemente ao coração, enchendo-a de altivez: era o seu filho quem compreendera a vida da mãe e quem lhe apresentava a verdade sobre os soffrimentos, quem a lamentava.
Em geral, não ha quem lamente as mães.
Ella bem o sabia. Não compreendia que Pavel não falava d’ella só, mas tudo o que elle dissera da vida feminina era a verdade, verdade nua e crua. Eis porque lhe parecia que no seu peito se agitava um sem-numero de sensações que a aqueciam como desconhecida caricia.
—O que queres tu fazer? perguntou-lhe, interrompendo-a.
—Aprender e depois ensinar aos outros. Devemos aprender, sim, devemos saber, devemos compreender a razão porque a vida nos é tão penosa.
Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces.
Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz, que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham.
Sentiu desejos de dizer-lhe:
—Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás!
Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão intelligente, tão transformado...
Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação, falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes, meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho:
—E tens a certeza de que isso é assim?
—Tenho! respondia elle com a voz forte e firme.
E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões, exilados para o degredo pelos inimigos da vida.
—Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores almas deste mundo!
Estes seres excitavam o terror da mãe, que tinha vontade de perguntar ainda:
—E tens a certeza de que isso é assim?
Mas não se atrevia, preferindo ouvir exhaltar creaturas que ella não compreendia e que tinham ensinado ao seu filho uma maneira de pensar e de falar tão perigosa para elle.
—Pouco falta para nascer o dia. Se tu te deitasses, se dormisses... É preciso ires para o trabalho ámanhã.
—Vou deitar-me, vou, concordou.
E abeirando-se d’ella, perguntou-lhe:
—Compreendeste-me?
—Sim! suspirou a mãe.
De novo lhe rebentáram as lagrimas, e acrescentou entre soluços:
—Morrerás!...
Elle ergueu-se e entrou de passear pelo quarto.
—Bem! Sabes agora o que faço, aonde vou! Disse-te tudo! Supplico-te, mãe, que se me amas, não me detenhas!
—Meu querido filho! exclamou ella. Teria sido melhor nada me haveres dito!
Pavel pegou-lhe na mão, apertando-a fortemente entre as suas.
Ella ficára impressionada por aquella palavra «mãe» pronunciada com ardor juvenil, e por aquelle aperto de mão tão novo e raro.
—Nada farei para te contrariar, disse em tom saccudido. Recommendo-te apenas: toma cuidado! toma cuidado!
E sem bem saber em que elle devia tomar cuidado, accrescentou tristemente:
—Estás cada vez mais magro.
E envolvendo n’um olhar caricioso o corpo robusto e harmonico do filho, disse em voz baixa:
—Que Deus esteja comtigo! Vive como quizeres, não te impedirei! Só te peço uma coisa: não fales levianamente. É conveniente desconfiar dos mais, que mutuamente se odeiam! Vivem d’avidez, vivem d’inveja! Todos se sentem felizes quando fazem mal. Quando quizeres accusal-os, julgal-os, odiar-te-ão, levar-te-ão á morte!
De pé, no limiar da porta, Pavel ouvia estas palavras dolorosas, ás quaes respondeu sorrindo:
—O proximo é mao, sim. Mas quando aprendi que havia na terra uma verdade, o proximo pareceu-me melhor.
Sorriu ainda e continuou:
—Eu mesmo nem sei como isto me veio. Na minha infancia, tinha medo de todos e de tudo... Quando cresci, comecei a odiar, a uns pela sua covardia; a outros... nem sei porquê. Mas agora já não acontece o mesmo: creio que tenho piedade d’elles. Não comprehendo como, mas o meu coração tornou-se mais terno quando soube que havia uma verdade para os homens e que elles não são todos culpados da ignominia da sua vida.
Calou-se por um instante, como para escutar o que quer que fosse dentro d’elle, e depois concluiu pensativo:
—É assim que a verdade transpira!
Ella, tendo-lhe lançado um olhar rapido, murmurou:
—Transformaste-te d’uma maneira perigosa! Meu Deus!
Quando elle adormeceu, Pélagué levantou-se cautelosamente e approximou-se-lhe do leito. O rosto moreno, de feições severas e obstinadas desenhava-se distinctamente sobre o travesseiro branco. Com as mãos juntas no peito, com os pés descalços, em camisa, a mãe permanecia immovel; os seus labios moviam-se em silencio, e de seus olhos desciam lentamente fartas e tôrvas lagrimas.
V
A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.
Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:
—No sabbado ha de vir gente cá a casa.
—Que gente?
—Gente d’aqui... e gente da cidade.
—Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.
—Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?
Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:
—Não sei... Porque sim.
Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:
—Tens medo?
—Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!
Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:
—É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.
Afastou-se, exclamando:
—Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...
A mãe atalhou, chorando:
—Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.
Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:
—Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.
Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...
No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:
—Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.
Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?
Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:
—Seria o mesmo. Para que sairia eu?
Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.
Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.
Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.
Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.
Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:
—Boa noite.
Pélagué cumprimentou em silencio.
—O Pavel ainda não veio?
O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:
—O casebre pertence-lhes ou é alugado?
Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:
—Alugamol-o.
—Não é grande coisa! observou o homem.
—O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.
—É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.
A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:
—Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?
Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:
—E o que tem o tiosinho com isso?
Elle voltou-se de todo.
—Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.a. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.
Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:
—Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?
O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:
—Ainda não... ainda não sou tartaro.
—É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.
—A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.
—E ha muito tempo que está por cá?
—Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.
Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:
—Quer chá?
—O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.
Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:
—Ainda venho a tempo?
—Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?
—Podera! A sr.a é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.
—E o seu pae? perguntou Pélagué.
—Vassilievna. E a sr.a?
—Pélagué Milovna.
—Bello! Estamos apresentados!
—Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.
E sorrindo observou a rapariga.
O russo-menor perguntou:
—Faz frio?
—Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...
Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.
—Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.
—Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!
—Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.
E saíu para a cozinha.
Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.
—Porque está triste, André? perguntou a rapariga.
—Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.
—Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...