NOTICIAS
DE
PORTUGAL

ESCRITAS POR

MANOEL SEVERIM

DE FARIA

CHANTRE, E CONEGO DA SÉ DE EVORA.

Em que se declaram as grandes commodidades, que tem para crescer em gente, industria, commercio, riquezas, e forças militares por mar, e terra, as Origens de todos os appellidos, e Armas das Familias Nobres do Reyno, as Moedas, que correraõ nesta Provincia do tempo dos Romanos atè o presente, e se referem varios Elogios de Principes, e Varoens Illustres Portuguezes.

Nesta Segunda Impressão acrescentadas,

PELO PADRE

D. JOZÉ BARBOSA

CLERIGO REGULAR, ACADEMICO DO

Numero da Academia Real.

OFERECIDAS

AO MUITO REVERENDO DOUTOR

JOZÉ CALDEIRA

Presbitero do habito de S. Pedro, Prothonotario Apostolico de S. Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. Senhora da Purificaçaõ no Lugar de Sacavem.

LISBOA OCCIDENTAL,

NA OFFICINA DE ANTONIO ISIDORO DA FONSECA.


Anno M. DCC.XL.

Com todas as Licenças necessarias.

Á custa de Manoel da Conceiçaõ Livreiro, vendese na sua Logea na rua direita do Loreto.

AO MUITO REVERENDO SENHOR DOUTOR

JOZÉ CALDEIRA

PRESBITERO DO HABITO DE S. PEDRO, PROTHONOTARIO Apostolico de S. Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. S. da Purificaçaõ no Lugar de Sacavem, &c.

M. R. SENHOR:

Fora acerto a naõ ser eleiçaõ dedicar a V. m. as Noticias de Portugal, que escreveo Manoel Severim de Faria, porque alèm de naõ poderem buscar mais seguro asylo contra a malevolencia dos Criticos modernos, tem nelle tambem manifesto o motivo para o patrocinio. Porque sendo esta Obra escrita pela elegante penna de hum homem consagrado ao Culto Divino, e a quem todo o genero de erudiçaõ, e doutrina fez conhecidamente grande, com bem fundada razaõ devia apparecer novamente no theatro do Mundo debaixo da protecçaõ de quem lhe fosse semelhante no Estado, e na Sciencia.

Desta fizera agora o paralello, senão conhecera ser pequeno o campo de huma Dedicatoria para tão largo assumpto. Alem de que he escusado persuadir huma verdade, que facilmente confessaraõ os que attenderem ao profundo dos conceitos, ao elevado da discriçaõ, á eloquencia das vozes, e a utilidade dos argumentos, que V. m. diz, ou propoem para a admiraçaõ universal nos Pulpitos, em que discorre, merecendo sigularmente o applauso commum dos ouvintes, por unir com rara felicidade partes difficeis de encontrar em qualquer Orador. Poderaõ fingir os Poetas, que Mercurio com a suavidade do Caduceo atrahia as Almas daquelle lugar, a que negou fatal passagem o Principe de todos elles: e eu naõ duvida-rey affirmar, que V. m. com a vara de ouro da sua eloquencia, arrebata os affectos, e move os animos dos que tem a fortuna de o ouvirem. Mas naõ me admira, que V. m. como se fallara desde a cortina de Apollo, pronuncie em harmoniosa frase graves sentenças, e Sabios Oraculos, por conhecer, que a dilatada Esfera da sua comprehensaõ chegou venturosamente a alcançar o perfeito conhecimento daquella nobre Rainha das artes, para cuja excellente noticia pedia o Principe da Eloquencia Romana hum entendimento Divino: donde posso eu dizer com acertada razaõ, ser o seu a todos os mais superior. Finalmente o mesmo Tullio para formar a idea adequada de hum Orador, diz se requer nelle o ornato de quasi todas as Sciencias, e Artes Liberaes, e como em V. m. admiramos esta notavel grandeza, por isso o busco para Protector de Manoel Severim. Confesso, que sim me ocorreo procurar o patrocinio de algum Grande, mas arrependido logo da ignorancia, e da temeridade deste pensamento, tomey a firme resoluçaõ de implorar o de V. m. por que só hum Sabio pode tomar debaixo do seu amparo outro Sabio, pois só na semelhança se encontra o amor, sem o qual se faz muitas vezes desagradavel este obsequio. No trato ordinario dos homens cada dia se experimenta, que os que padecem a irremediavel falta de juizo zombaõ dos discretos, e não era justo ficasse a memoria de Manoel Severim exposta aos perigos que podia achar na grossaria, de quem naõ conhecesse a estimaçaõ, que lhe he devida. E jà que a minha eleição foy taõ venturosa, que ainda sem a liberdade do arbitrio logra os creditos de muy acertada, parece fica V. m. obrigado a receber este meu, se tenue, reverente obsequio, que affectuosamente lhe dedico, para immortal gloria do nome do Author, e para eterna memoria da honra, que costuma fazer aos seus criados. Deos guarde a V. m. pelos annos que desejo,

Seu obrigadissimo criado
Manoel da Conceiçaõ.

AOS LEITORES

No anno de 1625, dey à estampa alguns Discursos; e Elogios para instrucçaõ das Artes, em que haõ de ser doutrinados os mancebos nobres da Republica, conforme os preceitos do Filosofo: e tendo eu naquelle tempo huma obra grande, que intitulava: Noticias de Portugal, e suas conquistas jà quasi em estado para se poder imprimir, como testificaõ os Doutores F. Antonio Brandaõ, Geral que foy de Alcobaça, e Antonio de Sousa de Macedo, que entaõ a viraõ; com tudo como as cousas daquelles annos para cà tiveraõ taõ grande mudança, recresceraõ taes inconvenientes, que sobreestive na execuçaõ deste intento. Porèm entendendo eu, que naõ seriaõ de menor serviço do bem publico alguns Discursos dos muitos, que nesta obra se continhaõ sobre diversas materias, assim politicas, como de varia liçaõ, me pareceo cõmunicallos a todos, e pelo que participaõ de seu primeiro original, dar-lhes o titulo de Noticias de Portugal. E ainda que pòde haver sogeitos, que façaõ mayor estimaçaõ dos livros pela quantidade, que pela qualidade delles; com tudo para os que saõ versados na liçaõ das boas letras, sey que naõ tem em menos as obras por pequenas, quando nellas se contem a doutrina necessaria ao assumpto de que trataõ; antes vemos, que em todos os escritores saõ mais presados estes pequenos tratados, que os mayores volumes, que seus Authores composeraõ; como se vè entre os Filosofos nas obras de Plataõ, e Aristoteles, nos Moraes de Plutarco, e nas de quasi todos os Padres, principalmente S. Basilio, S. Gregorio Nazianzeno, S. Jeronymo, e na mòr parte das de Santo Agostinho. E ainda que os Scholasticos tiveraõ por argumento principal as materias de Theologia; com tudo naõ saõ menos estimados os Opusculos de Santo Thomaz, e Dionysio Carthusiano, que as outras suas obras Theologicas, e Escriturarias. Pelo que assaz fica approvado este genero de escritos, quando por outra cousa o naõ desmerecerem.

Os motivos, que tive para communicar estes Discursos, saõ os seguintes. O primeiro Discurso he sobre o augmento da povoaçaõ deste Reyno, porque sendo a multidaõ da gente o fundamento de todos os Estados, em Portugal he isto muito mais necessario, pois tem mais Conquistas, que nenhum outro Reyno de Europa; e assim necessita mais de tratar desta materia.

No segundo se refere a ordem da Milicia, com que este Reyno se defendeo de seus contrarios por espaço de quasi 500. annos, e os meyos, e forças, que agora tem, para poder melhor conservarse, que de antes.

O terceiro he o da Nobreza, em que se mostra a origem dos Appellidos, e Brazoens de cada uma das Familias do Reyno, noticia taõ desejada atègora, e taõ occulta a quasi todos os que da Nobreza trataraõ, como se vè de seus escritos,

Seguese outro Discurso sobre as Moedas Portuguesas, tratado muito necessario para a intelligencia das historias, computaçoens, e noticia dos tempos; o que neste Discurso se ajusta com a pontualidade possivel; pois se faz pelos textos das mesmas leys, e authoridade das Chronicas deste Reyno.

O Catalogo das Universidades de Hespanha serà agradavel aos estudiosos; principalmente por ser manifesto, que a noticia das Sciencias de Hespanha teve principio na nossa Lusitania.

A advertencia sobre a prègaçaõ do Evangelho nas Provincias de Guinè é quase devida, naõ só por caridade, mas tambem por singular obrigaçaõ, pois em tantos anos se tem feito taõ pouco, ainda que se tem trabalhado tanto, por se naõ accomodarem os meyos à conveniencia da obra, cousa que facilmente parece se pòde alcançar.

O Discurso sobre se evitar a grandeza das Nàos da India; pòde ser que se tenha pelo mais importante; pois por esta causa padece Portugal, quasi todos os annos taõ grandes perdas de gente, fazenda, embarcaçoens, e do principal cabedal deste Reyno, tendo a demasiada grandeza das Nàos contra si tantos exemplos, e Provisoens Reaes, e o juizo dos mais desinteressados homens, que nellas navegaraõ.

O Discurso sobre os inconvenientes da Peregrinaçaõ pode servir para nos aproveitarmos do tempo, procurando empregallo mais no conhecimento da nossa patria, que das alheyas. E debaixo do titulo deste mesmo discurso foraõ (por inadvertencia do Impressor) os Elogios seguintes, a saber.

O Catalogo dos Cardeaes que escrevi ha muitos anos; porque vulgarmente senaõ sabia delles sendo Varoens taõ insignes, e Principes da Igreja; e ainda que ao presente nos Authores modernos se faz mençaõ de alguns delles, com tudo naõ he de todos, nem se achaõ juntos como aqui vaõ.

O Elogio do P. Fr. Bernardo de Brito fiz entre outros muitos, que deste argumento tenho compostos; e pareceo tambem ao Reverendissimo P. Fr. Antonio Brandaõ Abbade de Alcobaça, e Geral neste Reyno dos Religiosos de Cister, que mo pedio para a primeira, e segunda parte da Monarquia Lusitana, a que o P. Fr. Bernardo deu principio. Não teve o Padre Geral tempo para dar à execução o que desejava: mas nem por isso he razaõ que por esta causa falte ao Padre Fr. Bernardo a demonstraçaõ do agradecimento que todos os Portugueses devemos à sua boa memoria.

A inclita Cidade de Evora he dignissima de soberanos Elogios, pois a ella reconhece este Reyno o principio de sua liberdade, e merece por isso eternos louvores. O Reverendo Abbade de Pera quiz referir parte deste Elogio nos seus Successos militares; mas como està alli impresso taõ diminuto, e com tantos erros, me pareceo se devia publicar na fórma, em que primeiramente foy escrito.

O Elogio delRey D. Joaõ III. he feito por Antonio de Castilho Chronista Mòr que foy deste Reyno, e do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu Embaixador em Inglaterra, e hum dos homens, que melhor fallaraõ a lingua Portuguesa, a juizo de todos os doutos: e assim por esta causa, como por ser de hum Rey, que governou com mayor acerto, e felicidade a Portugal, me pareceo muy conveniente tirallo das trevas do esquecimento em que estava sepultado; pois he dignissimo de sahir à luz, e andar nas mãos de todos. E se antigamente como affirma Plinio, era mais prezada a Coroa de Carvalho, que se concedia ao que conservava a vida de hum Cidadaõ Romano, que as dos mais preciosos metaes, e Seneca diz della: Nullum ornamentum Principis fastigio dignius, pulchriusque est, quam illa corona ob cives servatos; com razaõ deve ser estimada esta minha diligencia; pois com elle se conserva, naõ sómente a memoria quasi acabada de tal Cidadaõ, e taõ Illustre Escritor; mas ainda a do governo de hum nosso Principe natural, cujos prudentissimos dictames pòdem ser exemplos aos melhores Politicos do Mundo.

No mesmo estado passava esquecido o Panegyrico da Senhora Infanta Dona Maria digna dos mayores louvores entre as Princesas do seu tempo por suas insignes virtudes, e por a excellencia singular de seu engenho. Foy composiçaõ do nosso grande Joaõ de Barros; o qual como seu pay era morador de Viseu, celebrou com este Panegyrico a boa sorte daquella Cidade, quando ElRey D. Joaõ a deu à Senhora Infanta com titulo de Duquesa della. He obra igual ao Panegyrico de Trajano, que se estima pela melhor de Plinio: ainda que para o engenho de Joaõ de Barros se pode ter esta por huma pequena linha; com tudo quando ella he lançada pela maõ de Apelles, naõ fica sendo de menor estima, que a mais famosa imagem de Phidias. E como o Elogio de Joaõ de Barros ao mesmo Rey D. Joaõ o III. he obra, em que se ve a grande erudiçaõ, e delicadissimos pensamentos de hum homem taõ excellente, se imprime agora, ainda que com alguns erros, que senaõ puderaõ emmendar na falta do original, e de copia exactissima; e como estes Elogios naõ tinhaõ ordem, se lhes deo a que pedia a sua materia.

LICENÇAS
DO SANTO OFFICIO.

CENSURA DO M.R.P.D. CAETANO DE GOUVEA C.R. Qualificador do Santo Officio, Examinador das Tres Ordens Militares, e Academico da Academia Real, &c.

EMINENTISSIMO SENHOR,

Vi as Noticias de Portugal de Manoel Severim de Faria com as addiçoens, que de novo se lhe acrescentaõ, e com o excellente Panegyrico, que o grande Joaõ de Barros fez a ElRey D. Joaõ III. e nenhuma cousa encontrey opposta à pureza da Fè, e bons costumes, pelo que me parece este Livro digno da licença para se tornar a imprimir. Lisboa Occidental 13. de Outubro de 1739.

D. Caetano de Gouvea C.R.

Vista a informaçaõ, pode-se tornar a imprimir o livro de que se trata, com as addiçoens, que se apprezentaõ, e depois de impresso tornarà para se conferir, e dar licença, que corra, sem a qual naõ correrà. Lisboa Occidental 13. de Outubro de 1739.

Fr. R. de Alencastre. Teixeira. Sylva. Soares. Abreu.

DO ORDINARIO.

Póde-se tornar a imprimir o livro de que se trata, e depois de impresso tornarà para se conferir, e dar licença para que corra, sem a qual naõ correrà. Lisboa Occidental 14. de Outubro de 1739.

Gouvea.

DO PAÇO.

Aprovação do M. R. P. D. Antonio Caetano de Sousa C. R. Qualificador do Santo Officio, Consultor da Bulla da Cruzada, e Academico da Academia Real, &c.

SENHOR.

Este Livro que no anno de 1655. imprimio Manoel Severim de Faria Chantre na Cathedral da Cidade de Evora, com o titulo Noticias de Portugal, foy estimado dos Erudîtos, como merecia a producçaõ de hum taõ insigne Antiquario, como foy Manoel Severim de Faria, a cujos incansaveis estudos devem huma grande luz todos os curiosos da nossa historia, e he bem de sentir, que se perdessem, ou sepultassem, que he tudo o mesmo, as diversas obras, e memorias, que elle escreveo, que tanto acreditavaõ a patria, em cujo obsequio trabalhou toda a vida este Eruditissimo Author. Esta obra, que agora se pertende juntamente reimprimir, se hia fazendo taõ rara, que difficultosamente poderia chegar às mãos daquelles, que se applicaõ com curiosidade a ler, assim he de louvar o zelo de novo se imprimir com addiçoens, que a fazem mais estimavel por serem noticias, que instruem, e poem a obra depois de quasi hum seculo no nosso tempo. No fim se lhe ajunta aquelle celebre Panegyrico feito no anno de 1533. a ElRey D. Joaõ III. por aquelle insigne Varaõ o grande Joaõ de Barros, cujo nome he o mayor Elogio, para a recomendaçaõ da obra. Assim, Senhor, nenhum motivo pòde haver para que senaõ dè a Manoel da Conceiçaõ a licença, que pede. Este he o meu parecer. V. Magestade mandarà o que for servido. Lisboa Occidental na Casa de Nossa Senhora da Divina Providencia 18. de Outubro de 1739.

D. Antonio Caetano de Sousa C. R.

Que se possa imprimir com o acrecentamento junto, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impresso tornarà à Mesa para se conferir, e dar licença, que sem isso naõ correrà. Lisboa Occidental 20. de Outubro de 1739.

Pereira. Teixeira. Cardeal. Vaz de Carvalho. Coelho.

LICENÇAS

DO SANTO OFFICIO.

Visto estar conforme com o seu original, pòde correr. Lisboa Occidental 5. de Abril de 1740.

Fr. R. de Allencastre. Teixeira. Sylva. Soares. Abreu.

DO ORDINARIO.

Visto estar conforme com o original, pòde correr. Lisboa Occidental 5. de Abril de 1740.

Gouvea.

DO PAÇO.

Taxaõ este livro em mil e duzentos reis em papel para que possa correr. Lisboa Occidental 4. de Abril de 1740.

Pereira. Teixeira. Vaz de Carvalho

VIDA
DE
MANOEL SEVERIM
DE FARIA:

Escrita pelo Adicionador.

Entre os grandes homens de que Lisboa tem a gloria de ter sido Patria, foy hum Manoel Severim de Faria, que teve por Pays a Gaspar Gil Severim Executor Mòr do Reyno, e Escrivaõ da Fazenda Real, e sua segunda mulher Dona Juliana de Faria. Naõ pude descobrir o dia, em que veyo à luz do Mundo, mas pela idade, em que falleceo, devia de ser o anno do seu nascimento o de 1581. ou 82. Sendo ainda menino foy para Evora assistir em casa de seu Tio Balthesar de Faria Severim, Chantre que era daquella antiga, e illustre Cathedral. Aprendeo em Evora Filosofia, e Theologia, em que fez progressos taõ grandes, que em ambas estas Faculdades tomou o grào. Vendo-o o Tio jà capaz, naõ menos pelos annos, que pelas letras, de lhe succeder no Chantrado, o renunciou nelle em 16. de Setembro de 1609. e depois de lhe dar a posse, se recolheo ao Convento da Cartuxa da mesma Cidade, aonde professando com o nome de D. Basilio, deixou dos seus estudos, e virtudes igual memoria. Naõ se esqueceo Manoel Severim de Faria com a nova Dignidade do que estudàra, como muitas vezes succede; mas procurando adiantarse cada vez mais em todo o genero de Sciencias, se applicou à liçaõ da Sagrada Escritura, da Theologia Mystica, da Historia, da Politica, da Geographia, e das Antiguidades Romanas, e Portuguesas, em que foy insigne. A mayor parte do rendimento daquelle pingue beneficio converteo em livros, de que juntou huma grande copia, naõ só estimavel pelo numero, como pela qualidade, pois àlem de algũs, a que a raridade dos exemplares fazia preciosos, se achavaõ naquella celebre Livraria alguns Volumes escritos no Papyro do Egypto, outros em folhas de palmas com pena de ferro, a que chamaõ estilo, e entre elles as obras de Fr. Luiz de Granada traduzidas na lingua do Japaõ. A sua generosa, e conhecida curiosidade o fez Senhor de hum thesouro de Moedas Romanas, e Portuguesas, pois como se lè em algumas das suas obras, eraõ tantas as que se lhe levavaõ, que parece que a terra se desentranhava para o enriquecer. Conservou grande numero de vasos, e outras reliquias da grandeza Romana, de que formou hum Museo digno de hum Principe; mas por sua morte desapareceo de maneira, que delle naõ ha mais que huma lastimosa tradiçaõ. Tendo renunciado em outro Sobrinho seu do mesmo nome o Chantrado de Evora, depois de huma dilatada emfermidade de Tericia, falleceo naquella Cidade em 16. de Dezembro de 1655. em idade de setenta, e dous annos. Foy de boa estatura, muito corpulento, olhos azues, naturalmente descorado, mas de agradavel presença. O seu Cadaver foy levado com a mayor pompa que se pòde considerar, porque àlem das Communidades Religiosas, da Cleresia, e Confrarias da Cidade, concorreo toda a Nobreza, e Povo, porque de todos era igualmente bemquisto, e respeitado. Deose lhe sepultura em hum dos angulos da Cemiterio da Cartuxa, e sobre a Campa, em que estaõ abertas as Armas dos Severins, e Farias, se lè esta inscripçaõ.

Manoel Severim de Faria Chantre, e Conego da Sè de Evora, elegeo para si esta Sepultura, assim por sua devoçaõ, como por estar nella o Corpo do P. D. Basilio de Faria seu Tio, que falleceo sendo do Prior deste Convento a 5. de Abril de 1625.

INDEX
DOS PARAGRAFOS, QUE SE CONTEM neste Livro.

[DISCURSO I.]

Dos meyos com que Portugal pòde crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ. §. I. [pag. 1].

Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque. §. 2. [p. 5].

Do remedio para a falta da gente, da primeira causa, que saõ as Conquistas. §. 2. [pag. 10].

Como se remediarà a segunda causa da falta da gente com a introducçaõ de algumas artes mechanicas. §. 4. [pag. 15].

Do remedio da terceira causa da falta da gente, que saõ as novas Colonias no Reyno. §. 5. [pag. 20].

De outro remedio para a falta da gente popular, que he o amparo dos orfaõs. §. 6. [pag. 25].

Do remedio da primeira causa da extincçaõ da Nobreza pela uniaõ dos Morgados. §. 7. [pag. 28].

Do remedio da segunda causa da falta da Nobreza, com a diminuiçaõ da grandeza dos dotes. §. 8 [pag. 30].

[DISCURSO II.]

Sobre a ordem da Milicia, que antigamente avia em Portugal, e das forças militares que hoje tem, para se conservar, e ficar superior a seus contrarios. §. 1. [pag. 32].

Do officio, que fazia ElRey no Exercito, e dos Ministros, que serviaõ à pessoa Real na guerra, e da dignidade do Condestable. §. 2. [pag. 35].

Do Marichal. §. 3. [pag. 38].

Do Alferes Mòr, e Capitaõ dos Genetes. §. 4. [pag. 39].

Dos Annadeis, e Coudeis Mòres. §. 5. [pag. 41].

Do Adail Mór, e Almocadeis, e Ceremonias com que eraõ creados. §. 6. p. [42].

Das gentes, de que constava o Exercito. §. 7. [pag. 43].

Das Leys Militares, que se guardavaõ no Exercito. §. 8. [pag. 46].

Da guerra de Castella. §. 9. [pag. 48].

Da Milicia da Ordenança. §. 10. [pag. 54].

Das armas. §. 11. [pag. 56].

Das Fronteiras do Reyno, e Alcaides Mòres das fortalezas. §. 12. [p. 59].

Da Milicia maritima, e do officio de Almirante. §. 13. [pag. 63].

Do Capitaõ Mòr, e General das Galès. §. 14. [pag. 65].

Das Armadas ordinarias do Reyno, e da grande brevidade, com que em Lisboa se aprestaraõ poderosos socorros para fóra da Barra. §. 15. [pag. 67].

Do modo, com que se ordenou andassem armados os Navios do comercio do Reyno. §. 16. [p. 72].

Da instituiçaõ das Ordens Militares, para defender o Reyno. §. 17. [p. 74].

[DISCURSO III.]

Da Nobreza das Familias de Portugal, com a noticia, de sua antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazoens das Armas de cada huma. §. 1. [p. 81].

Da origem dos Appellidos dos Nobres de Portugal. §. 2. [p. 84].

Das origens das armas que trazem os Fidalgos e Nobres de Portugal. §.3. [p. 86].

Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros Animaes, que se trazem nos Escudos. §. 4. [p. 87].

Da origem das Faxas, Bandas, Barras, Esquaques, que se trazem nos Escudos. §. 5. [p. 89].

Da origem das Cruzes floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge, que se trazem nos Escudos. §. 6. [p. 90].

Da origem das Aspas. §. 7. [p. 93].

Da origem das Vieiras. §. 8. [p. 94].

Da origem das meyas Luas. §. 9. [p. 95].

Da origem das Estrellas. §. 10. [p. 96].

Da origem das Arruellas. §. 11. [p. 97].

Da origem das flores de Lis. §. 12. [ibidem].

Dos Castellos. §. 13. [p. 98].

Cifras dos Appellidos. §. 14. [p. 99].

Descendencia. §. 15. [p. 101].

Armas tomadas por casos particulares. §. 16. [p. 104].

Origem dos Timbres. §. 17. [p. 108].

Dos Oficiaes, que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das insignias dos Nobres, e da Casa das armas de Cintra. §. 18. [p. 109].

Do modo com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria. §.19. [p. 117].

Dos titulos, que antigamente se davaõ aos Grandes do Reyno, e particularmente dos Ricos Homens. §. 20. [p. 120].

Dos Vassallos. §. 21. [p. 122].

Dos Infançoens. §. 22. [p. 124].

Da antiguidade dos Duques em Portugal, e do que a sua dignidade pertence §. 23. [p. 126].

Dos Marqueses, que ha no Reyno, e das ceremonias com que eraõ creados antigamente. §. 24. [p. 136].

Da origem dos Condes, e sua antiguidade, e preeminencia em Portugal. §. 25. [p. 133].

Dos Viscondes, e Baroens. §. 26. [p. 138].

Do titulo de Senhor. §. 27. [p. 140].

Da dignidade da Cavalleria. §. 28. [p. 141].

[DISCURSO IV.]

Sobre as Moedas de Portugal. §. 1. [p. 144].

Moedas Romanas. §. 2. [p. 145].

Moedas Goticas. §. 3. [p. 147].

Leovigildo. §. 4. [p. 148].

Hermenegildo. §. 5. [p. 149].

Recaredo. §. 6. [p. 151].

Liuva §. 7. [p. 152].

Uviterico. §. 8. [p. 153].

Gundemaro. §. 9. [p. 154].

Sisebuto. §. 10. p. [ibidem].

Sventila. §. 11. [p. 156].

Sissenando. §. 12. [p. 157].

Tulgan. §. 13. p. [ibidem].

Chindasvindo. §. 14. [p. 158].

Recesvinto. §. 15. p. [ibidem].

Uvamba. §. 16. [p. 80].

Ervigio. §. 17. [p. 161].

Egica. §. 18. [p. 162].

Uvitiza. §. 19. [p. 164].

D. Rodrigo, §. 20. p. [ibidem].

Moedas Arabigas. §. 21. [p. 165].

Moedas dos Reys Portugueses. §. 22. [p. 168].

Dobras delRey D. Sancho. §. 23. [p. 169].

Moedas delRey D. Affonso IV. §. 24. [p. 170].

Moedas delRey D. Pedro. §. 25. p. [ibidem].

Dos Gentis, Barbudas, Graves, Pilartes, e Fortes delRey D. Fernando. §. 26. [p. 171].

Moedas delRey D. Joaõ I. §. 27. [p. 173].

Moedas delRey. D. Duarte. §. 28. [p. 174].

Moedas delRey D. Affonso V. §. 29. [p. 175].

Moedas delRey D. Joaõ II. §. 30. [p. 177].

Moedas delRey D. Manoel. §. 31. [p. 178].

Moedas delRey D. Joaõ III. §. 32. [p. 182].

Moedas delRey D. Sebastiaõ. § 33. [p. 181].

Moedas delRey D.Joaõ IV. §. 34. [p. 182].

Moedas delRey D. Affonso VI. §. 35. [p. 183].

Moedas DelRey D. Pedro II. §. 36. [p. 184].

Moedas DelRey D. Joaõ V. §. 37. [p. 185].

Das Livras. §. 38. [p. 187].

Das Livras de dez soldos. §. 36. [p. 188].

De outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente. §. 40. [p. 189].

Dos Soldos. §. 41. [p. 190].

Dos Dinheiros. §. 42. [p. 191].

Das Mealhas. §. 43. [p. 194].

De outras Moedas Estrangeiras, que corriaõ no Reyno. §. 41. p. [ibidem].

[DISCURSO V.]

Sobre as Universidades de Hespanha. §. 1 [p. 196].

Principio das Sciencias na Lusitania. §. 2. [p. 197].

Catalogo das Universidades de Hespanha: Universidades de Portugal: Universidade de Coimbra. §. 3. [p. 200].

Universidade de Evora. §. 4. [p. 202].

Universidade de Salamanca. §. 5. [p. 203].

Universidade de Toledo. §. 6. [p. 204].

Siguença. §. 7. [p. 205].

Alcalà de Henares. §. 8. [ibidem].

Osma. §. 9. [p. 206].

Avila. §. 10. p. [ibidem].

Valhadolid. §. 11. [p. 207].

Oropesa. §. 12. p. [ibidem].

Ossuna. §. 13. p. [ibidem].

Sevilha. §. 14. [p. 208].

Granada. §. 15. p. [ibidem].

Baeça. §. 16. [ibidem].

Murcia. §. 17. [p. 209].

Compostella. §. 18. p. [ibidem].

Onhate. §. 19. [p. 210].

Oviedo. §. 20. p. [ibidem].

Huesca. §. 21. [p. 211].

Çaragoça. §. 22. [ibidem].

Lerida. §. 23. [ibidem].

Perpinhaõ. §. 24. [p. 212].

Barcelona. §. 25. [ibidem].

Tarragona. §. 26. [ibidem].

Girona. §. 27. [p. 220].

Valença. § 28. [p. 215].

Luchente. §. 29. [ibidem].

Origuela. §. 30. [ibidem].

Gandia. §. 31. [p. 214].

Hirache. §. 32. [ibidem].

Estella. §. 33. [p. 215].

Pamplona. §. 34. p. [ibidem].

[DISCURSO VI]

Sobre a propagação do Evangelho nas Provincias de Guinè. Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guinè. §. 1. [p. 216].

Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na conversaõ dos Povos de Guinè. §. 2. [p. 227].

De como se pòdem remediar todas essas tres cousas, avendo Seminarios destas naçoens. §. 3. [p. 222].

Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem estes Seminarios. §. 4. [p. 222].

Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo. §. 5. [p. 226].

[DISCURSO VII.]

Sobre as causas dos muitos naufragios, que fazem as Nàos da Carreira da India, pela grandeza dellas. [p. 230].

[DISCURSO VIII.]

Sobre a Peregrinaçaõ. [p. 237].

[ELOGIOS.]

Memorial de alguns Cardeaes Portugueses. [p. 247].

S. Damaso Summo Pontifice. §. 1. [ibidem].

O Cardeal D. Payo. §. 3. [p. 249].

O Cardeal D. Joaõ. §. 3. [p. 250].

Joaõ XX. dito XXI. Summo Pontifice. §. 4. [p. 251].

O Cardeal D. Martinho. §. 5. [p. 252].

O Cardeal D. Joaõ Affonso de Azambuja. §. 6. [ibidem].

O Cardeal D. Pedro da Fonseca. §. 7. [p. 254].

O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves. §. 8. [p. 255].

D. Luiz de Amaral. §. 9. [p. 257].

O Cardeal D. Gemes. §. 10. [p. 258].

O Cardeal D. George da Costa. §. 11. [p. 259].

O Cardeal D. Affonso. §. 12. [p. 263].

O Cardeal D. Miguel da Sylva. §. 13. [p. 264].

O Cardeal D. Henrique. §. 14. [p. 266].

O Cardeal D. Verissimo de Lencastro. §. 15. [p. 267].

O Cardeal D. Luiz de Sousa. §. 16. [p. 269].

O Cardeal Nuno da Cunha de Ataide. §. 17. [p. 273].

O Cardeal D. Jozè Pereira de Lacerda. §. 18. [p. 275].

O Cardeal D. Joaõ da Mota, e Silva. §. 19. [p. 277].

O Cardeal D. Thomàs de Almeida. §. 20. [p. 278].

Panegyrico a ElRey D. Joaõ III. por Joaõ de Barros. [p. 287].

Elogio a ElRey D. Joaõ III. por Antonio de Castilho. [p. 381].

Panegyrico à Infanta Dona Maria. [p. 395].

Elogio do Doutor Fr. Bernardo de Brito. [p. 430].

Elogio de Evora. [p. 441].

ERRATA.

Pag.RegraErratasEmendas.
4.21.da Sedasdas Sedas
4.30.cousrscousas
22.23.ChanceaCharneca
56.§.II.XI.
63.§.XI.XIII.
74.§.VII.XVII.
101.9.DenarciusDenarius
196.2.do prismeirodo primeiro
197.3.que o mesmo lusoque he o mesmo que luso.
210.§.IXX.XIX.
213.§.XXXX.XXX.
231.alijadaalojada.
239.se pos a [pag. 139].em lugar de 239.
245.1.carerecarcere.
257.32.a despeitoa respeito
307.30.estas cheasestaõ cheas
319.3.por sobre Epiphanespor sobrenome Epiphanes
347.34.lembarselembrarse
348.10.muitamuito.
377.31.desengavavadesenganava
386.37.departirrepartir
405.22.hostoriashistorias
411.19.NanolesNapoles

DISCURSO I.

Dos meyos com que Portugal pode crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ.

§. I.

Querendo Salamaõ encarecer, quanto importava ao Rey, e ao Reyno haver muita gente nelle, diz no cap. 4 das suas Parabolas: In multitudine populi dignitas, & in paucitate plebis ignominia Principis. Que he o mesmo que dizer: A grandeza dos Reys està na multidaõ do povo, e dos poucos Vassallos nasce a falta da reputaçaõ do Principe. A razaõ he, porque a multidaõ dos subditos defende o senhorio proprio, e pòde conquistar o alheyo. A multidaõ da gente cultiva o terreno, de maneira, que naõ sómente basta para os naturaes, mas pòde prover os estranhos. Da muita gente se colhe a riqueza do Principe pelos direitos, que se pagaõ dos frutos da terra, obras de mãos, e mercancias. Acontece isto naturalmente; porque como cada hum procura a sustentaçaõ de sua propria vida por preceito natural, tanto que chega a idade conveniente, de força a ha de buscar pelos meyos, com que melhor, e com mais commodidade a possa alcançar. Estes commummente se reduzem a quatro, que saõ Agricultura, para a sustentaçaõ necessaria às Artes mechanicas, para a vida politica, e à Mercancia, para levar os frutos proprios às Provincias alheyas, e trazer das alheyas, os que nos faltaõ, e à Milicia, para defensaõ da patria. Pela qual razaõ fica claro, que onde houver muita gente, haverà muita Agricultura, muitas Artes, e muita Mercancia, e muitos Soldados; que saõ as quatro cousas, em que se funda, e consiste a riqueza, o poder, e a felicidade de hum Reyno.

Tratando primeiramente da lavoura, e Agricultura, he de notar, que para por esta via se tirarem della muitas riquezas, he necessario haver muita gente. Grande exemplo temos disto em nossa Espanha no Reyno de Granada; porque no tempo que os Arabes estavaõ Senhores deste Reyno, por ser entaõ habitado de muitos Mouros, que lançados de todas as mais partes de Espanha, se foraõ recolhendo nelle, todos os montes se viaõ cubertos de vinhas, e arvores fructiferas, os valles, e campinas de sementeiras, e hortas, de maneira que naõ se podia ver no mundo terra mais abastada, e abundante de todas as cousas.[1] E era tanto isto assim, que sómente as folhas das amoreiras da Veiga de Granada rendiaõ a ElRey mais de 30U. cruzados, e as rendas das sedas, que se creavaõ no Reyno, rendiaõ mais de 42. contos,[2] e punha o Rey de Granada mais homens de cavallo em campo, que os outros Reynos de Espanha; com serem os mais delles muito mayores, que o de Granada;[3] o qual agora pela falta, que tem de gente, està taõ dessemelhante daquelle tempo, como se naõ fora o mesmo torraõ da terra, e por esta causa vieraõ as rendas delRey naquelle Reyno a tanta quebra, que naõ chegaõ hoje a ametade do que dantes valiaõ.

Na China por ser infinita a gente, he tanto o mantimento, que dà a terra, e tanta a industria com que a cultivaõ seus naturaes, que sendo elles tantos, que por não caberem nas povoaçoens, habitaõ em barcos nos rios, e enseadas; comtudo naõ padecem falta delles, antes os levaõ della continuamente de mercadoria para outras partes.

Nem contra isto se pòde dizer, que ainda, que haja muita gente naõ haverà cultivaçaõ da terra, se ella for de si infructifera, e esteril; porque confórme aos naturaes, e o que se nota nas leys das partidas,[4] nenhuma terra he infructifera; antes he cousa certa, que se alguma terra naõ for boa para dar trigo, serà para produsir cevada, centeyo, ou milho; e quando naõ, serà conveniente para vinhas, pastos de gado, mel, e cera; e a que naõ poder produzir árvores de fruto, darà arvores silvestres, ou pinheiros para madeira, como temos por exemplo nas terras, que estaõ da outra banda do Tejo defronte de Lisboa, onde vemos huma area solta dar excellentes vinhas, e produsir infinidade de pinheiros, e lenha, sem a qual se naõ poderia sustentar o grande povo de Lisboa.[5] O Author das Chiliadas diz, que as campinas de Brabante saõ de area esteril, mas os naturaes com sua multidaõ, e industria as fazem abundar de trigo, mostrando a experiencia contra o proverbio, que naõ he trabalho baldado lançar semente na area: In Brabantia, diz elle, fiunt agricolæ tam industrij, qui sitientissimas arenas cogunt & triticum ferre. Bem se vè logo, que onde houver muita gente haverà todos os frutos, e proveitos, que da terra se pòdem tirar, e que a falta da gente he a causa da caristia delles.

Quanto às artes, e industria, com que grande parte do povo se mantèm; estas naõ as pòde haver, nem pòdem florecer onde naõ houver muita gente; porque huns ensinaõ os outros, e inventando cada hum novas cousas, fica aos outros mais facil aperfeiçoarem a arte, confórme ao que se diz: Facilius est inventis addere. E assim vemos, que depois, que os Estados de Flandes cresceraõ em multidaõ de gente, floreceraõ entre elles mais artes, e industria, que entre todas as mais naçoens de Europa. Porque nesta Provincia se tecem as ricas, e maravilhosas tapeçarias, de que se usa em todo o mundo; que por esta causa se chamaraõ pannos de Arràs, tomando o nome da principal Cidade, em que se principiaraõ; nella se fazem as mais, e as melhores impressões de livros; della vem as pinturas, as olandas, os cofres, e caixas, os espelhos, e milhares de miudezas, e brincos, que em nenhuma outra parte do mundo se fazem, se naõ nesta: donde vem a ser huma das mais ricas Provincias de Europa; sendo assim, que naõ tem minas de ouro, nem prata.

Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a mechanica, que a ella se attribue a invenção da impressaõ, polvora, e artilheria, as maravilhosas fabricas dos relogios, e dos mais dos instrumentos Mathematicos; de entre elles sahio a artificiosa invençaõ do papel, de que hoje usamos, das quaes cousas todos os antigos naõ tiveraõ noticia.

Isto nasce da multidaõ da gente de Alemanha, que por ser muita, cada hum busca por sua industria, e arte seu melhoramento, e de maneira tem em honra esta occupaçaõ, que desde o Emperador, atè o ultimo homem da Republica se professa algum officio mechanico, e se preza muito de fazer obras de mayor preço. Esta foy a causa porque antigamente em Grecia chegaraõ a tanta perfeiçaõ as artes da pintura, e escultura, porque segundo Plinio[6] toda a nobreza se occupava nellas: o que durou tanto tempo naquella regiaõ, que ainda se refere do Emperador Theodosio II. que as illuminaçoens, que fazia, vendia por grande preço, e se prezava muito disso.

O mesmo succede na China, a qual por ser a mais povoada Provincia do Oriente, tem mais artificios, e obras mechanicas, que todas as outras; porque della vem os leitos, escritorios, bofetes, e mesas douradas, as camas bordadas de ouro, e seda, as perçolanas finas, as telilhas, damascos, tafetàs, e outras mil invençoens da sedas em tão grande quantidade, que todas as Provincias do mundo estaõ cheyas destas mercadorias; e ainda confórme à opiniaõ de alguns modernos, elles acharaõ primeiro, que os Alemaens, o papel, a impressaõ, a polvora, e fundiçaõ da artilharia.

Da copia da Agricultura, e das Mechanicas nasce a mercancia; porque naõ sendo os frutos da terra, e materiaes comuns a todas as Provincias, procuraõ os mercadores levar os frutos, e obras, que nas patrias tem de sobejo a outras partes, onde as taes cousas faltaõ; e trazerem dellas as que se naõ daõ nas suas terras; o que naõ pòde ser, se não havendo abundancia de gente, que se possa occupar nestes tratos, e viagens, como vemos em Alemanha, Flandes, Inglaterra, Italia, e na China,[7] que com a multidaõ de seus baixeis mercantis correm o mundo todo, e o enchem de suas mercadorias.

Porèm para nenhuma cousa he mais necessaria a multidaõ de gente, que para a Milicia; porque como os soldados saõ ordinariamente a gente superflua na Republica, naõ havendo destes muitos, naõ pòde haver exercitos grandes, com os quaes sómente se fundaraõ as quatro Monarquias. Dos Assirios, e Persas lemos, que os exercitos eraõ taõ grandes, que lhes naõ bastavão para beber as agoas dos rios. Os successores de Alexandre, que podemos dizer foraõ os possuidores da Monarquia Grega, tambem se valeraõ de exercitos grossissimos, e a Republica Romana adquirio o senhorio do mundo, não menos com o grande numero das suas Legioens, que com sua prudencia, e valor. A ruina do Imperio de Roma foy mais causada das innumeraveis gentes, que do Norte sahiraõ, que não de sua destreza militar: o mesmo experimentamos no senhorio dos Arabes, que com sua multidaõ subjugarão o Imperio Grego, o Egypto, e Africa, e tiveraõ muito tempo tiranizada a Espanha. Pelo que sem grande numero de gente, não se pòde adquirir, ou conservar, grande Senhorio.

§. II.

Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque.

Se quizermos considerar o que ordinariamente lemos nas historias antigas, não poderemos deixar de confessar, que do tempo do diluvio, ate o presente, sempre a geraçaõ humana foy em grande crescimento, e que de cada vez vay em mayor augmento, e multiplicaçaõ. Porque deixadas as historias muito antigas, e da Sagrada Escritura, onde vemos, que de oito pessoas, que escaparaõ do diluvio, se encheo o mundo de gente, e de 70. que da familia de Jacob entrarão em Egypto, sahirão depois 600000. soldados de peleja, a fóra as mulheres, e meninos: quem ler, e vir as taboas da Geographia de Ptolomeu, e depois os Mapas, que traz Abraham Ortelio no seu Theatro do mundo, verà claramente como em cada Provincia erão sem comparação muito menos as Villas, e Cidades no tempo de Ptolomeu, que as que sabemos estão hoje edificadas, e habitadas. Nem contra isto se pòde dizer, que naquelle tempo se não sabia tanto das Provincias, como hoje se sabe; porque isso seria da India, e de outras terras incognitas, de que Ptolomeu não podia ter perfeita noticia; mas o que trazemos por exemplo, saõ as Provincias da nossa Europa, como Italia, França e Espanha; nas quaes hà agora em cada huma muitas mais povoaçoens do que dantes havia. Bozio contra Machiavelo lib. 3. cap. I. nomea só no Reyno de Napoles muitos milhares de povos mais, que os que tinha toda Italia antigamente segundo Estrabo, Ptolomeu, e Plinio, o qual chega a contar atè os Casaes, e Bozio não conta lugar de menos de 300. visinhos. Flandes, que hoje contèm em si 17. Estados nobilissimos, nos quaes se contaõ 208. Cidades, e mais de 6300. Villas, sem contar as Aldeas, Castellos, e Fortalezas, que saõ em grandissimo numero, sabemos, que no anno de 878, o Papa Joaõ VIII.[8] no Synodo de Troyes concedeo hum só Bispo a Flandes, por ser terra até aquelle tempo cheya de bosques, e pouco povoada, e que então se começava a cultivar, e habitar. E as Ilhas de Holanda, e Zelanda, que saõ as mais povoadas destes Estados, quasi neste mesmo tempo estavão ainda cobertas do mar Oceano, do qual se foraõ descobrindo pouco, e pouco, e agora estaõ todas cheyas de fortissimas, e riquissimas Cidades. Colligese tambem esta mesma verdade dos livros das Cidades de Joaõ Braum, onde se vèm quasi todas com duas cercas, e muralhas; as primeiras, e mais antigas mais pequenas, e quasi interiores, e as modernas muito mais grandes, e capazes, que por os povos crescerem em grande numero, e naõ caberem nos primeiros muros, vem a ser necessarios outros mayores. E para que nos não cansemos com exemplos estrangeiros, venhamos a este nosso Reyno; o qual do tempo delRey D. Afonso Henriques, atè o em que estamos, naõ cresceo menos, que qualquer das outras Provincias, que acima nomeamos. O que se colige evidentemente das Villas, e Cidades fundadas pelos Reys Portuguezes, assim neste Reyno, como fóra delle (alèm das muitas, que particulares Senhores edificarão, e lhes derão seus Foraes) fundou ElRey D. Afonso Henriques de novo as Villas de Almada, Villa-Franca, Villa-Verde, Azambuja, e Lourinhãa. No tempo delRey D. Sancho se povoaraõ por seu mandado as Villas de Penamacor, Sortelha, Valença do Minho, Montemòr o Novo, Penella, Figueirò, Covilhaã, Folgosinho, e a Cidade da Guarda. ElRey D. Afonso III. fez novas povoaçoens em muitas partes do Reyno, que eraõ deshabitadas; entre as quaes edificou de novo Estremòs, e reformou, e povoou de novo a Villa de Pinhel, Vinhaes, Villa-Flor, Mirandella, Freixo de espada na cinta, Villa-Nova de Cerveira, Villa-Real, Muja, Salvaterra, Atalaya, Aceteira, Montargil, e outros muitos lugares; que por todos passaõ de 40. A todos seus antecessores excedeo ElRey D. Diniz, porque podemos dizer, que povoou meyo Reyno. E depois, que o Infante D. Henrique começou o descobrimento da Costa de Africa, e Ilhas do mar Oceano, e se continuou atè chegar à India, foy esta multiplicaçaõ de gente Portugueza em muito mayor crescimento; porque se povoaraõ todas as Ilhas, Brasil, Costa de Africa, e se fundaraõ de novo todas as Cidades, e Fortalezas, e mais povoaçoens do Estado da India. Pelo que consta, que tem os Portuguezes fundado da Barra para fóra hum numero immenso de povoaçoens, em que entraõ muitas, e grandes Cidades.

Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos lavradores de escravos de Guinè, e mulatos. Pelo que apontaremos as causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que parece saõ as seguintes.

A primeira causa da falta da gente, que se padece neste Reyno, saõ as nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade, assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o comercio do mundo, toda via defraudaraõ muito este Reyno da gente, que lhe era necessaria. E assim naõ sómente deste tempo por diante naõ cresceo a gente neste Reyno, como era conveniente para as muitas povoaçoens, que jà nelle havia, e para se poder defender, e offender aos inimigos, mas alèm disto se foy despovoando com as muitas armadas cheyas de gente, que cada anno partem de Portugal para estas Conquistas; e com as muitas Colonias, que se tiraõ para estas povoaçoens. Pelo que ainda que a gente naturalmente và em crescimento, como temos provado; com tudo a nossa naçaõ Portugueza depois, que houve estas Conquistas, se foy diminuindo, naõ por falta da multiplicaçaõ natural, se naõ por os Portuguezes se irem de sua patria a povoar, e fundar tantas Cidades, e lugares, como temos dito, em terras taõ remotas, e taõ largas.[9] Por onde do tempo destes descobrimentos para cà naõ se fundaraõ de novo no Reyno, nem Villas, nem lugares, como atè entaõ se tinhaõ fundado.[10] E passando ElRey D. Joaõ I. à tomada de Ceita com mais de 20U. homens, e ElRey D. Afonso V. às empresas de Africa com exercitos de 30U. homens, no tempo delRey D. Sebastiaõ era jà taõ pouca a gente, que com levar os mais dos soldados por força, naõ pòde ajuntar mais, que onze mil Portuguezes. Donde claro se mostra naõ sómente, que hà falta de gente em Portugal, mas que a primeira causa della saõ as Conquistas; pois do tempo dellas a esta parte se foy sentindo esta diminuiçaõ. Daqui veyo o ser necessario trazerem se Cafres, e Indios para o serviço ordinario. E já em tempo delRey D. Joaõ III. passava isto em tanto crescimento, que disse Garcia de Resende numa copla da sua Miscellanea.

Vemos no Reyno metter
Tantos cativos crescer
E irem-se os naturaes.
Que se assim for, seraõ mais
Elles que nòs a meu ver.

A segunda, causa porque falta a gente deste Reyno, he por naõ terem officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meyo, que Deos deo para a sustentaçaõ de cada hum; e como os homens naõ tem de que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se fazem vàdios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens, e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa, que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar. Outros se passaõ a Reynos estranhos, principalmente para os de Castella pela facilidade da vizinhança, onde antes da Acclamaçaõ havia tantos Portuguezes, que muitas pessoas affirmavaõ, que a quarta parte dos moradores de Sevilha eraõ nascidos em Portugal, e que em muitas ruas daquella Cidade se fallava a nossa lingua, e naõ a Castelhana. Quasi o mesmo se podia dizer de Madrid; e por toda Castella a Velha, e Estremadura he notorio, que os mais dos mechanicos eraõ naturaes deste Reyno, os quaes por não terem cà em que trabalhar, hiaõ là ganhar sua vida.

A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ, porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ bastantemente povoadas, e não hà nellas lugar para se fundarem nòvos pòvos, que possa cultivar a gente, que cresce. E Alentejo, que podèra socorrer a esta falta (porque he quasi tão espaçoso, como o resto do Reyno) como està todo dividido em herdades, e as mais dellas muito grandes, nem se povôa, nem se cultiva. Porque sendo as herdades de muitas folhas, ficão de ordinario as tres partes dellas por semear, faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher, e a cõmodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que não achaõ lugar, onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isto se embarca tanta gente para fóra da Barra, obrigando-os a necessidade a ir buscar terras, em que vivaõ a outras partes do mundo; pois lhe faltaõ em sua propria patria.

Estas trez saõ as causas da falta da gente popular deste Reyno; mas as da falta da gente nobre se pòdem reduzir a duas. A primeira he a união de muitos Morgados numa pessoa; porque quando se conserva hum Morgado per si, cada possuidor casa, e propaga sua familia; mas juntando-se muitos Morgados numa só pessoa, essa sómente casa, e as mais familias, para que os outros Morgados foraõ instituidos, ficaõ extintas. Isto tem acontecido em Portugal a grande numero de Morgados;[11] e he tão grande este danno, que já os Reys lhe quizeraõ acodir, como se vè no 4. livro das Ord. tit. 100. onde se diz, que com esta união dos Morgados se ficaõ extinguindo as Casas, e Familias, e faltando a gente nobre para a defensaõ, e conservaçaõ do Reyno. Pelo que esta he a principal razão da falta da Nobreza.

A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das mulheres nobres; pois vay em tanto excesso, que poucos saõ os Fidalgos, que pòdem casar huma filha, e quasi nenhum duas, como se disse no capitulo das Cortes do Estado da Nobreza a ElRey Nosso Senhor[12] pedindo-lhe remedio para este danno, por ser gravissimo, e que extinguia grandemente a Nobreza de Portugal.

§. III.

Do remedio para a falta da gente da primeira, causa, que saõ as Conquistas.

As Conquistas, que este Reyno intentou fóra da Barra, humas não passarão do Cabo de Boa Esperança, como as Ilhas Terceiras, Madeira, e Cabo-Verde, Costas de Guinè, e Provincias do Brasil; outras foraõ alèm do Cabo, e pertencentes ao Estado da India. Das Colonias, que não passarão o Cabo, padecemos menos prejuizo; porque como estão mais perto, e nellas não intentamos guerras com Principes confinantes, não nos occuparão tanta gente; e os que a ellas forão, tornarão a vir com mais facilidade ao mesmo Reyno. E assim destas Colonias louva muito João Botero aos Portuguezes, dizendo, que elles sós entre todos os povos de Europa se souberão aproveitar das Colonias; e levando a gente, que no Reyno não tinha com que viver, povoarão a Madeira, e o Cabo-Verde, a Ilha de S. Thomè, e o Brasil, membros importantes de seus Estados, donde agora tiraõ grossos retornos de gente, mantimentos, e riquezas: I Portoghesi (diz elle) soli trà tuti i popoli di Europa, si son saputi valer di questa arte, per che con la gente piu povera, e bisognosa, che fosse in quel Regno hano popolato la Madera, il Capo Verde, la Isola di S. Thomaso, il Brasile, membri importanti de gli Stati loro. Onde hora cavano ajuti grossi, & di gente, & di vetovaglie, & di thesori.

Das nossas Colonias das Ilhas Terceiras, e Madeira foy socorrido este Reyno por vezes com gente, e com cavallos, e com muito trigo. De Angola se tem tirado innumeravel gente, que serve naõ sómente nos engenhos do Brasil, mas ainda neste Reyno, assim na cultivaçaõ do campo, como no serviço ordinario. Da povoaçaõ do Brasil resultou a mercancia do assucar em tanta abundancia, que delle provemos quasi toda Europa. Donde se vè, que estas Colonias naõ nos saõ de tanto prejuizo, porque nos levaõ menos gente.

Porèm na conquista da India naõ succedeo assim; porque estando tantas mil leguas distante de Portugal, e com navegaçaõ taõ perigosa, foy necessario tirar-se do Reyno muita gente tornando pouca, ou nenhuma della; porque se intentaraõ povoar muitas Cidades postas nas fronteiras dos mais poderosos Principes do Oriente, como foy Ormuz na Persia, Dio, e outros pòrtos na Cambaya, Goa junto ao Idalcaõ, Columbo, e outras forças em Ceilaõ, Malaca defronte de Samàtra, as Malucas no estremo do Emispherio, e Macào às portas da China; alèm de outras muitas Fortalezas, que se naõ referem, para as quaes se requeria grande numero de soldados, e huma despeza infinita.[13] Pelo que foy de opiniaõ D. Francisco de Almeida primeiro Viso-Rey da India, que naquelle[14] Estado naõ nos convinha ter mais que huma, ou duas Fortalezas nos pòrtos, em que haviaõ de invernar as nossas Nàos, e Armadas para poder continuar livremente o comercio: e que fóra disto, quantas mais Fortalezas sustentassemos, tanto mais fracos ficariamos.[15] Deste parecer foraõ muitos Conselheiros delRey D. Manoel, demaneira, que chegou a dizer o Governador Afonso de Albuquerque, que mais merecia a ElRey, por lhe defender Goa dos Portuguezes, que pela tomar duas vezes aos Mouros. Com tudo o contrario se seguio, povoando-se pelos nossos tantas terras, e Ilhas em Asia, como se fosse huma Provincia confinante com Portugal; sendo cousa notoria, que a navegação da India se intentou para comercio, e naõ para conquistas. Porque a conquista só convèm, quando he para segurança do Estado proprio. Mas sendo a India taõ longe de Portugal, e as forças taõ espalhadas, e divididas, naõ podia servir para conservaçaõ deste Reyno, se naõ para diminuiçaõ delle.

Porèm estas razoens politicas forão vencidas da Providencia Divina, que obra suas acçoens contra as causas naturaes, para mostrar, que naõ necessita de nossos meyos para produzir seus effeitos; e assim querendo, que se promulgasse a Fè naquellas Provincias, ordenou, que os nossos Reys, e seus Conselheiros approvassem esta Conquista, e com milagres evidentes ficaraõ os Portuguezes quasi senhores de todos os mares do Oriente, e dos principaes pòrtos de suas Costas, ganhando fama immortal com o soberano esforço, que nestas heroicas empresas mostraraõ, e prègando-se o Sagrado Evangelho por este meyo a todas aquellas Gentes com grande gloria de Deos, e proveito de innumeraveis almas, que se bautizaraõ.[16] Mas andando o tempo, ou por algumas daquellas naçoens se fazerem indignas daquella doutrina por sua contumacia, ou por culpa dos nossos, a quem a cobiça fez faltar na boa administraçaõ dos seus governos, se foraõ perdendo as praças mais distantes; porque por estarem muito apartadas de Goa, naõ poderaõ ser a tempo socorridas: e assim se senhorearaõ nossos inimigos das Malucas, Ormuz, Malaca, e Mascate. Deste modo ficou o Estado mais proporcionado tendo menos Fortalezas, e naõ taõ desmembrado; pois as principaes se reduzem agora a Moçambique, Goa, Cochim, Columbo, e Dio. Pelo que està hoje a India naõ peyor para o trato das especiarias, que he o principal cõmercio; e juntamente està mais defensavel, se houver nella milicia paga; porque tirando o tempo do Veraõ, em que os soldados andaõ nas Armadas, os Invernos ficaõ na terra, sem terem quem lhes dè de comer, chegando muitos a pedir esmola pelas ruas, e Portarias dos Conventos. Pelo que obrigados huns da necessidade, e outros da cobiça, se passaraõ muitos os annos atrazados à terra firme a servir os Reys Gentios daquellas Provincias; os quaes dando-lhes soldos aventejados, vieraõ a ter muito mayor numero de Portuguezes em seu serviço, do que ElRey de Portugal tinha nas suas Armadas, ou Fortalezas. Com este mào exemplo se foraõ muitos viver nas mesmas povoaçoens dos Gentios acrescentando-as em opulencia, como foy a de Meliapòr, e outras;[17] de modo, que podemos dizer, que muitos pòrtos das Costas da India se povoaraõ de Portuguezes casados na terra em tanto numero, e poder, que muitos delles se intitularaõ Reys, e Senhores dos mesmos lugares, como foy na Ilha de Sundiva, nos Bandeis de Bengalla, em Siriaõ, e em Camboja, e outras partes; posto que todos elles acabaraõ as vidas miseravelmente, castigando-os Deos com grande rigor, por deixarem as terras dos Christaõs, e irem-se viver entre os Gentios. Esta he a causa porque affirma Diogo de Couto,[18] que em tempo de ElRey D. Sebastiaõ avia na India 16U. Portuguezes, e com tudo naõ se poderaõ mandar 800. a Malaca, para a ir governar Antonio Moniz Barreto, nem D. Leoniz Pereira.

Este desamparo dos soldados na India, posto, que sempre se experimentou, atègora se naõ tem remediado, e em quanto se naõ atalhar, havendo naquelle Estado huma milicia com numero certo de Companhias com seus Capitaens, e pagas assinaladas, naõ pòde deixar de se seguir este danno gravissimo: que he pedir-nos a India sempre gente, e naõ se valer o Estado della. Porque no principio os Governadores mandavaõ dar mesa aos soldados no Inverno, porèm de muitos annos a esta parte naõ hà mesas, se naõ em quanto se curaõ no Hospital. Para o que he de saber, que de dous mil soldados, que vaõ ordinariamente em trez Nàos para a India cada anno, morre grande parte delles na viagem; porque como vaõ sete centos, e oito centos, e inda mais numa Nào, naturalmente adoece, e fallece graõ numero delles, por se corromper o ar dentro das cubertas com os bafos, e immundicias; de maneira, que o mesmo he descer a ellas, que entrar em hum lugar pestilente. E o pobre do soldado, que adoece, naõ tem cama, nem limpeza, nem regalo, nem consolaçaõ alguma.[19] Diogo de Couto na 9. Decada cap. 11. diz que na Nào, em que o Viso-Rey D. Antonio de Noronha passou à India, em que o mesmo Diogo de Couto hia embarcado, partiraõ de Lisboa 900. pessoas, de que na viagem morreraõ as quatro centas, e cincoenta; e que quasi o mesmo foy pelas outras Nàos; porque de 4U. soldados, que o Viso-Rey nellas levava, falleceraõ na viagem os 2U. e Duarte Gomes[20] nas Informaçoens sobre a Companhia Oriental, diz, que na Nào S. Valentim morreraõ quatro centas pessoas, e isto tem acontecido muitas vezes. Pelo que chegando esta soldadesca jà taõ disimada à India, e naõ achando provimento algum, com que se sustente, huns inficionados do mal da viagem, outros do grande desamparo, pobreza, e miseria, e apalpados da terra caem em mayores infirmidades; e assim vaõ quasi todos parar ao Hospital, onde se diz, que muitas vezes fallecem mais de 600. e 700. homens destes: de maneira, que desta soldadesca, que tanto custa à Fazenda Real a pòr na India, se perde a mayor parte, sendo a causa o desamparo, com que se trataõ os soldados naquelle Estado. Pelo que sem haver na India gente paga, e pratica para andar nas Armadas, e presidiar as Fortalezas, naõ se pòde esperar nenhum bom effeito da nossa milicia, pois alèm do que temos dito, toda ella he feita cada anno em Goa tumultuariamente, e de soldados armados com toda a desigualdade, assim no numero, como nas Armas, porque cada hum traz as que quer: de maneira, que em hum Navio os mais levaõ espadas, e rodellas, e vaõ poucos tiros de fogo, e nenhuns mosquetes. Alèm disso os mesmos soldados saõ de ordinario bizonhos, e naõ quaes convèm à milicia; porque os soldados, que em Lisboa se assentaõ nas nossas Náos, saõ os mais delles moços de quinze, e dezeseis annos que vem a ser huma infantaria pueril: e por isso vindo a pelejar com os inimigos de Europa, ficamos quasi sempre na India inferiores nos successos pela grande ventagem, que nos levaõ na escolha dos soldados, nas armas, e na ordem da milicia: o que nos naõ tem acontecido na Ethiopia, e Brasil, onde muitas vezes vencemos a estes mesmos contrarios, por termos milicia ordenada.

Contra esta nossa desordem nos pòdem servir de exemplo os mesmos Holandeses; pois em cada embarcaçaõ naõ levaõ de ordinario mais de 300. homens; nem sustentaõ na India mais pòrtos, que o de Jacatrà, e Malaca, e os que lhe convem em Ceilaõ para o trato da Canella: de maneira, que naõ tem em toda a India commummente mais de mil homens pagos pouco mais, ou menos, e estes andaõ divididos, comerceando, e militando. Do mesmo modo os Castelhanos sustentaõ as Philippinas com hum terço de 400. homens pagos com seus Officiaes; e naõ assentaõ governo em Provincia alguma, sem primeiro ordenarem nella milicia certa.[21] Pelo que he impossivel defendermos na India taõ grande numero de Cidades, e Fortalezas, que necessitaõ de muitos mil soldados; sendo os nossos sempre poucos, e bizonhos, e sem nenhuma ordem. Nem se pòde responder, que sempre na India se militou desta maneira, porque antigamente naõ havia nella inimigos de Europa, se naõ de ordinario piratas Malavares. E se houve na India Armadas de fóra, como as do Soldaõ, e do Turco, foy nos primeiros annos, em que as nossas Armadas eraõ taõ numerosas, que excediaõ as destes contrarios, o que agora totalmente naõ hà. E assim havendo milicia certa, e escolhida, poderà o Estado da India tornar a florecer, se as Nàos forem menores, e da grandeza, com que se começou o comercio, como adiante se mostrarà porque deste modo chegaràõ os soldados com saude, e elles voltaràõ com especiarias a salvamento, e naõ se levarà tanta gente todos os annos infructuosamente deste Reyno.

§. IV.

Como se remediarà a segunda causa da falta da gente com a introducçaõ de algumas artes mechanicas.

O remedio para a segunda causa, porque falta a gente neste Reyno, serà exercitarem-se nelle as artes mechanicas, de que carece. Affirmaõ os Politicos, que naõ há cousa, que importe mais para fazer huma Provincia numerosa de habitadores, e rica de todos os bens, que a multidaõ das artes; das quaes humas saõ necessarias, outras commodas à vida civil; porque dellas se segue o grande concurso de gente, que ou trabalha, ou menea o trabalho, ou administra a materia aos trabalhadores, compra, vende, e leva as obras de hum lugar a outro. De maneira, que importa muito mais a industria do homem para fazer hum lugar populoso, que naõ a fertilidade do terreno; porque as cousas produsidas da industria humana saõ muitas mais, e de muito mayor preço, que as cousas geradas pela natureza. O exemplo, que disto trazem os Politicos, he a laã, a qual he fruto simples, e grosseiro da natureza, mas a arte, quaõ excellentes pannos, quaõ varios, e de quanta diversidade fabrîca desta materia? Sustentando-se della, naõ só o que a cria, mas os que a cardaõ, fiaõ, urdem, tecem, tingem, cortaõ, cozem, e a formaõ em mil materias, e a levaõ de hum lugar a outro. O mesmo se diz da seda, que he fruto simples; e com tudo quanta variedade forma della a arte? Bem se vè em Florença, Genova, e Veneza, onde com a arte da seda, e da laã se mantem quasi dous terços dos habitadores. O mesmo acontece em toda a outra materia. Italia he Provincia, na qual naõ hà mineral de importancia de ouro, ou prata, como tambem o naõ hà em França; e com tudo huma, e outra he abundantissima de dinheiro, e de thesouros pela industria das artes, e mercancia. Flandes também naõ tem veas destes metaes; e por sua muita industria, naõ hà Provincia em Europa mais habitada, nem onde haja tantas Cidades, e taõ grandes, e taõ frequentadas de Estrangeiros, e taõ florentes em riquezas. Por tanto o Principe, que quizer fazer populoso o seu Reyno, deve introdusir nelle toda a sorte de industria, e de officios; o que farà com trazer Officiaes excellentes de outras Provincias, e dar-lhes salarios, e commodidades convenientes, e com favorecer os bons engenhos, e estimar as invençoens, e as obras, que participaõ do singular, e do raro, e com sinalar premios à perfeiçaõ, e excellencia.

Mas sobre tudo he necessario, que naõ permita, que se levem para fóra de seus Estados os materiaes crùs, como saõ as laãs, seda, madeira, metaes, nem outras semelhantes cousas; porque com os materiaes vaõ tambem os Officiaes, que os lavraõ. E alèm de viver muita mais gente do trato da materia lavrada, que da materia simples, como apontamos, as rendas do Principe saõ com excesso mayores pelas sacas das obras, que dos materiaes. Mais tira dos veludos, damascos, e semelhantes teas, que da simples seda, mais dos pannos, que da laã tosca; mais das teas de linho, que do linho; mais da cordoalha, que do canamo. O que vendo hà annos os Reys de França, e Inglaterra, prohibiraõ levar a laã para fóra de seus Estados. O mesmo fez tambem depois ElRey Catholico; ainda que estas ordens naõ se observaraõ com o effeito, que convinha.

Neste Reyno tambem houve esta prohibiçaõ; mas estava taõ esquecido o cuidado do bem publico pela falta dos Principes naturaes, que toda a laã se levava para fóra; de maneira, que no anno de 1645. só em Evora em poucos dias se compraraõ com dinheiro de Mercadores Estrangeiros 9U. arrobas. Pelo que S. Magestade, que Deos guarde, mandou de novo prohibir estas compras; porèm naõ basta sómente esta prohibiçaõ; mas o que importa, e o para que trazemos estes exemplos, he que se introduzaõ no Reyno estas mechanicas, e teares, fazendo, que destas nossas laãs se teçaõ no Reyno os mesmos pannos, que os Estrangeiros tecem dellas nos seus, e nos trazem depois a vender. Porque disto se nos seguiràõ duas grandes utilidades, a primeira, que ficarà no Reyno todo o dinheiro, que ouvera de ir para fóra por razaõ destes pannos, a segunda, que naõ dependerà da vontade dos Estrangeiros trazerem nos esta mercadoria, de que totalmente necessitamos, e por-lhe os preços à sua vontade tendo-a nòs em nossa casa. Isto se pòde ordenar fazendo, que se lavrem neste Reyno as baetas, que vem de Inglaterra, pois saõ tecidas com as nossas mesmas laãs. Agora no principio se poderà fazer conduzindo com premios alguns Officiaes, mandando-os vir de Londres, ou de outras partes; e fazendo assentar este trato nos lugares, que parecem mais convenientes, como em Estremòs, Borba, Portalegre, Covilhãa, e com isto se daria principio a hum trato de grandissimo proveito, assim para as rendas Reaes, porque com estes direitos cresceriaõ muito, como para o bem cõmum, porque teria o Reyno as baetas muito mais baratas, e em mayor abundancia, e para a sustentaçaõ do povo; porque muita parte delle se manteria com esta occupaçaõ.

O mesmo que digo da baeta se pòde fazer com as sarjas; por quanto estes saõ os dous generos de mercancias, de que mais necessitamos. Da seda tambem se poderiaõ introdusir neste Reyno teares de veludos lavrados, damascos, sitins, e tafetaz dobrados; pois em nenhuma parte de Europa se dà a seda com tanta perfeiçaõ, como em Portugal; como notaõ os Authores Italianos, e só falta occuparem-se mais neste arteficio. Diz o Escolano na historia de Valença,[22] que naõ havendo em Espanha atè o tempo dos Godos seda, nem assucar, nem arroz, os Mouros depois, que nella entraraõ, trouxeraõ cà estas sementes, as quaes se cultivaõ hoje em Valença com tanta utilidade, que affirmaõ importar cada huma destas cousas hum milhaõ cada anno. Em Murcia, e Cordova todas as mulheres se occupaõ com a creaçaõ da seda. E a seda, que o Marquez Fernaõ Cortez introdusio no Mexico, tem crescido de maneira, que agora he a mayor mechanica, que hà naquella Provincia, como se vè da arte, que escreveo da sua creança Gonçallo de las Casas, que anda no fim da Agricultura de Herrera. O mesmo se pòde fazer em outras artes, que nos saõ necessarias para a milicia, e navegaçaõ. ElRey D. Joaõ o V. nosso Senhor fez instituir no Sitio da Cotovia extra muros desta Corte huma nova Fabrica de sedas de todas as qualidades no anno de 1735. a qual tinha antes principiado no Sitio da Fonte Santa.

He o ferro de Portugal o melhor do mundo, delle se lavraraõ as mais prezadas escopetas pedidas pelos Principes, e que se lhe offereciaõ por peças de muita estima, sendo-nos taõ necessarias estas armas, he erro grande mandarmolas buscar de outras Provincias, sendo as Estrangeiras muito inferiores às nossas, como se vè nas muitas, que arrebentaõ cada dia nas Fronteiras, o que as nossas naõ fazem.

Naõ he menos importante o lavor do linho canamo, de que se fazem as amarras, cordoalhas, e enxarceas, excedendo o nosso a todos os de Alemanha, de maneira, que huma amarra de Portugal sustenta mais, que duas, e trez de Flandes. E sendo estas cousas taõ necessarias para a navegaçaõ, que sem ellas senaõ pòde fazer; he lastima, que seja tal o nosso descuido, que vamos buscar estas cousas às terras de nossos inimigos, dandonolas Deos em nossa casa. E o peor he, que confessa hum Contratador dos nossos[23] num livro, que apresentou ao Conselho, que todas as amarras, e cordoalhas, que nos mandaraõ de Flandes, naõ somente eraõ as peores, mas de proposito, e por industria falsificadas, e fallidas, para que naõ pudessem servir, se naõ com a apparencia. ElRey D. Manoel, e D. Joaõ III. tiveraõ feitorias deste lavor do Canamo nos lugares do Reyno, em que se dà com mòr abundancia. O mesmo se poderà tornar agora a fazer dando privilegios, e commodos aos Officiaes, que nisto se occupassem.

O lavor dos pannos de algodaõ se poderà introdusir neste Reyno com muita facilidade: pois somos senhores do algodaõ do Brasil, e Cabo-Verde, que he infinito, e finissimo. E para Mestres se poderàõ mandar buscar os Teceloens da India, que saõ os melhores do mundo, e fazer em Lisboa os canequins, e bofetàs, que là himos buscar com tanto trabalho, e perigo.

O papel tambem he cousa de muito uso, e que todo nos vèm de fóra. No Reynado delRey D. Joaõ V. que Deos guarde se introdusio esta Fabrica no Reyno na Villa da Lousaã junto à Cidade de Coimbra, em que se faz papel ordinario, florete, e imperial, e em Paramos junto à Cidade de Braga hà outra Fabrica, em que se faz papel pardo, como o de França. ElRey D. Joaõ o IV. quiz jà introdusir esta arte no Reyno, e mandou para isso fazer huma Officina em Villa-Viçosa, que com as occasioens presentes naõ teve effeito.

Diz o Doutor Laguna no seu Commento de Dioscorides,[24] quando falla da graã, que a graã, que nasce em Portugal, he a melhor, que se conhece em Europa, e como tal he buscada dos Estrangeiros com grande culpa nossa; pois dando-nos Deos esta tinta taõ excellente neste Reyno, naõ se tece nelle hum covado de graã; e os Estrangeiros nos tornaõ a vender o que he proprio nosso, a mais subido preço, podendo nós vendello a elles. O mesmo se pode dizer do pào do Brasil, e pastel das Ilhas, que sendo quasi mercadorias estanques, nòs as damos em materia simples a todas as Naçoens da Europa para com ellas tingirem os seus pannos, podendo nòs usar dos mesmos tratos, e ser os vendedores dos pannos, e naõ os compradores. Estas, e outras mechanicas se poderàõ obrar com grande utilidade do bem publico, assim para as rendas Reaes, como para a multiplicaçaõ, e sustentaçaõ do povo. E naõ hà, que reparar em parecer, que serà isto cousa difficultosa, ou muito custosa, se naõ ordinaria, e facil; pois o grande trato das sedas de Sicilia teve principio em ElRey Rogerio trazer de Corintho, e Athenas, quando as entrou, alguns Officiaes de seda para Sicilia: e estes bastaraõ para fazerem naquella Ilha hum trato de seda, que a tem tanto enriquecido.[25] Da mesma Sicilia mandou vir o nosso Infante D. Henrique os Mestres para ensinarem a plantar, e beneficiar o assucar na Ilha da Madeira.[26] Este principio bastou para fazer aquella Ilha a mais rica do mar Oceano; e para della sahirem depois os Mestres, que introdusiraõ este trato na Ilha de S. Thomè, e em todo o Brasil, que se naõ sustenta de outra causa, e he o mayor rendimento, que agora tem a Coroa de Portugal. Pelo que pois temos jà em casa o exemplo, e experiencia, naõ nos pòde parecer este arbitrio novo, ou de pequeno effeito.

Poucos annos há, que hum Oleiro, que veyo de Talaveira a Lisboa, vendo a bondade do barro da terra, começou a lavrar louça vidrada branca, naõ só como a de Talaveira; mas como a da China; porque na formosura, e perfeiçaõ pòdem competir as perçolanas de Lisboa com as do Oriente; e imitando-o outros Officiaes, cresceo a mercadoria de maneira, q́ naõ sómente està o Reyno cheyo desta louça; mas vay muita de carregaçaõ para fóra da Barra. Do mesmo modo quasi por este tempo começaraõ pelo districto de Coimbra a fazer searas de milho grosso de maçaroca, que vem de Guinè; e aos primeiros seguiraõ outros em tanto numero, que he hoje o mantimento mais ordinario para a gente vulgar, quasi em toda a Beira, e entre Douro, e Minho; de que se seguio grande beneficio a estas Provincias; porque como as searas saõ de regadio, nunca faltaõ; e fundindo muito, vem a ser o mantimento muito barato, com que o povo fica de todo abastado. Pelo que se estas mercadorias se introdusiraõ em nosso tempo só pela industria dos particulares; com quanto mòr facilidade, e felicidade se poderaõ introdusir as outras, que apontamos, pelo poder, e authoridade dos Principes?

§. V.

Do remedio da terceira causa da falta da gente com se fazerem novas Colonias no Reyno.