POESIAS
EROTICAS, BURLESCAS, E SATYRICAS
DE
M.M. DE BARBOSA DU BOCAGE.
Não comprehendidas na edição
QUE DAS OBRAS D'ESTE POETA SE PUBLICOU EM LISBOA,
NO ANNO DE MDCCCLIII.
BRUXELLAS
MDCCCLX.
Nota do Transcritor:
Erros tipográficos de ortografia, pontuação e indentação óbvios foram corrigidos; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos como no original.
O Índice foi movido do final para o início do livro de forma a facilitar a sua utilização.
Foi apenso ao final do livro um [Índice Exaustivo dos Poemas Contidos Neste Volume]. Poemas para os quais o editor não providenciou um título são identificados pelo seu primeiro verso em itálico. Poemas de outro autor que não Bocage têm o nome do seu autor indicado entre parênteses após o título do poema.
[INDICE DAS POESIAS QUE SE CONTÉM N'ESTE VOLUME.]
| Pag. | |
| Ribeirada, poema | [5] |
| A Manteigui, poema | [19] |
| A Empreza Nocturna | [29] |
| Epistola a Marilia (Pavorosa illusão etc. ) | [35] |
| Fragmento de Alceu | [43] |
| Arte de Amar | [47] |
| Cartas de Olinda e Alzira (VII) | [61] |
| Sonetos (LII) | [109] |
| Miscellanea | [163] |
| Elegia á morte de uma Alcoviteira | [172] |
| Notas | [177] |
| «Refutações á Pavorosa | [180] |
| «Sonetos etc. contra Bocage | [199] |
| «Sonetos contra frades | [205] |
| «Sonetos á beata d'Evora | [213] |
| «Soneto de P.J. Constancio | [216] |
[ADVERTENCIA PRELIMINAR.]
Constou que muitas pessoas, que subscreveram para a recentissima edição das Poesias de Bocage, publicada em Lisboa, e concluida já no anno corrente, desejosas de possuir tudo o que saiu da penna de tão peregrino engenho, como que se lastimavam de não poderem juntar áquella collecção para a tornar completa, as obras do mesmo autor, que por tratarem de assumptos anti-religiosos, ou pouco conformes á decencia e moralidade dos publicos costumes, foram (ao que parece) com acertado fundamento omittidas na referida edição.
Entretanto é facto incontestavel que parte d'essas obras teem já sido impressas em diversos tempos, e que outras correm desde muitos annos pelas mãos dos curiosos em copias mais ou menos viciadas e incorrectas, como é de uso em papeis conservados manuscriptos, mórmente nos de tal natureza. A esta consideração veiu naturalmente prender-se outra, de certo bem attendivel no juizo do julgador imparcial: e é que do principio ao meado do seculo XIX medea longa distancia no perigo de similhantes publicações.
Nesta conjunctura alguem se persuadiu de que prestaria mui agradavel serviço aos que ambicionam inteirar suas collecções offerecendo-lhes estampadas em egual formato, e com a mesma disposição typographica essas composições, de cuja falta tanto lhes pezava; as quaes são, pelo assim dizer, outros tantos documentos indispensaveis para se avaliar cabalmente o merito do poeta; — conhecer até que ponto chegaram suas aberrações; — e para completar o desenho das diversas feições moraes do seu retrato; attendendo principalmente a que, conforme a reflexão já feita por um juiz competente, se as poesias licenciosas de Horacio são os seus unicos versos sem espirito, pelo contrario as de Bocage bastariam de per si a dar-lhe nome, e credito, se estes podessem provir de tal genero, ou se a sua gloria não estivera cimentada em mais firmes e seguros alicerces.
Eis ahi pois os motivos da publicação do presente volume.
Sirvam estas razões de salvo-conducto com que grangeêmos obter venia perante os animos sensatos e despreoccupados: quanto áquelles para quem (na phrase de um nosso amabilissimo contemporaneo) é mais alto escandalo escrever um beijo do que tomar cento, — esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão facil quanto infallivel: — Não o comprem, nem o lêam, e ficaremos em boa paz.
[RIBEIRADA:]
POEMA EM UM SÓ CANTO
ARGUMENTO.
Quando o preto Ribeiro entregue ao somno
Jazia, lhe apparece o deus Priapo;
E com uma das mãos, por ser fanchono,
Lhe agarra na cabeça do marsapo:
Offerece-lhe depois um bello cono,
Cono sem cavallete, gordo, e guapo:
Casa o preto, e a mulher, por fim de contas,
Lhe põe na testa retorcidas pontas.
CANTO UNICO.
I
Acções famosas do fodaz Ribeiro,
Preto na cara, enorme no mangalho,
Eu pretendo cantar em tom grosseiro,
Se a Musa me ajudar neste trabalho:
Pasme absorto escutando o mundo inteiro
A porca descripção do horrendo malho,
Que entre as pernas alverga o negro bruto
No lascivo appetite dissoluto.
II
Oh Musa gallicada, e fedorenta!
Tu, que ás fodas d'Apollo estás sujeita,
Anima a minha voz, pois hoje intenta
Cantar esse mangaz, que a tudo arreita:
D'esse vaso carnal, que o membro aquenta,
Onde tanta langonha se aproveita,
Um chorrilho me dá, oh Musa obscena,
Que eu com rijo tezão pégo na pena.
III
Em Troia, de Setubal bairro inculto,
Mora o preto castiço, de quem falo;
Cujo nervo é de sorte, e tem tal vulto,
Que excede o longo espeto de um cavallo:
Sem querer nos calções estar occulto,
Quando se enteza o tumido badalo,
Ora arranca os botões com furia rija,
Ora arromba as paredes, quando mija.
IV
Adorna hirsuto rispido pentelho
Os ardentes colhões do bom Ribeiro,
Que são duas maçãs de escaravelho,
Não digo na grandeza, mas no cheiro:
Ali piolhos ladros tão vermelho
Fazem com dente agudo o pau leiteiro,
Que o cata muita vez; mas ao tocar-lhe
Logo o membro nas mãos entra a pular-lhe.
V
Os maiores marsapos do universo
Á vista d'este para traz ficaram;
E do novo Martinho em prosa, e verso
Mil poetas a porra decantaram:
Quando ainda o cachorro era de berço
Umas moças por graça lhe pegaram
Na pica já taluda, e de repente
Pelas mãos lhes correu a grossa enchente.
VI
De Polyphemo o nervo dilatado,
Que intentou escaxar a Galathéa,
Pelo mundo não deu tão grande brado
Como a porra do preto negra, e fêa:
Da Cotovia o bando gallicado
Com respeito mil vezes o nomêa,
E ao suberbo estardalho do selvagem
As putas todas rendem vassallagem.
VII
O longo, e denso veo da noute escura
Das estrellas bordado já se via;
E em rota cama a horrenda creatura
Os tenebrosos membros estendia:
Do caralho a grandissima estatura
C'os lençóes encobrir-se não podia,
E a cabeça fodaz de fora pondo
Fazia sobre o chão medonho estrondo.
VIII
Os ladros, que fieis o acompanhavam,
A triste colhoada a cada instante
Com agudos ferrões lhe traspassavam,
Atormentando a besta fornicante:
Na durissima pelle se entranhavam,
Supposto que com garra penetrante
O negro dos colhões a muitos saca,
E o castigo lhes dá na fera unhaca.
IX
Tendo o cono patente no sentido
Na barriga o tezão lhe dava murros;
E de activa luxuria enfurecido
Espalhava o caxorro afflictos urros:
Co'a lembrança do vaso appetecido
O nariz encrespava, como os burros;
Até que, em vão berrando pelo cono,
De todo se entregou nas mãos do somno.
X
Já, roncando, os visinhos acordava
O lascivo animal, que representa
C'o motim pavoroso, que formava,
Trovão fero no ar, no mar tormenta:
Com alternados couces espancava
Da pobre cama a roupa fedorenta,
Que pulgas esfaimadas habitavam,
E de mil cagadelas matizavam.
XI
Eis de improviso em sonhos lhe apparece
Terrifica visão, que um braço estende,
E pela grossa carne, que lhes cresce
Debaixo da barriga ao negro prende:
Acorda, põe-lhe os olhos, e estremece
Com quem ao terror se acurva, e rende:
Com o medo, que tinha, a porra ingente
Se metteu nas encolhas de repente.
XII
Do tremendo phantasma a testa dura
Dous retorcidos cornos enfeitavam;
E, debaixo da pansa, a matta escura
Tres disformes caralhos occupavam:
O sujo aspecto, a fêa catadura
Os rasgados olhões illuminavam;
E na terrivel dextra o torpe espectro
Empunhava uma porra em vez de sceptro.
XIII
Ergue a voz, que as paredes abalava,
E co'a força do alento sibilante
Mata a pallida luz, que a um canto estava,
Em plumbeo castiçal agonisante:
«Oh tu, rei dos caralhos (exclamava)
Perde o medo, que mostras no semblante:
Que quem hoje te agarra no marsapo
É de Venus o filho, o deus Priapo.
XIV
«Vendo a fome cruel do parrameiro,
Que essas negras entranhas te devora,
De putas um covil deixei ligeiro,
Por fartar-te de fodas sem demora:
Consolarás o rigido madeiro
N'uma femea gentil, que perto mora;
Mas não lh'o mettas todo, pois receio
Que a possas escaxar de meio a meio.»
XV
Disse; e o negro da cama velozmente
Para beijar-lhe os pés se levantava;
Mas tropeça n'um banco, e de repente
No fetido bispote as ventas crava:
Não ficando da queda mui contente
Co'uma gota de mijo á pressa as lava;
E, acabada a limpeza, a voz grosseira
Ao numen dirigiu d'esta maneira:
XVI
«Soccorro de famintos fodedores,
Propicia divindade, que me escutas!
Tu consolas, tu enches de favores
O mestre da fodenga, o pae das putas:
Viste que, do tezão curtindo as dôres,
Travava c'o lençol immensas luctas;
E baixaste ligeiro, como Noto,
A dar piedoso amparo ao teu devoto.
XVII
«Em quanto houver tezões, e em quanto o cono
Fôr de arreitadas picas lenitivo,
Sempre heide recordar-me, alto patrono,
De que és de meus gostos o motivo:
Pois me dás gloria no elevado throno,
E já, como o veado fugitivo
Que o caçador persegue, eu corro, eu corro
A procurar as bordas, por quem morro.»
XVIII
Deteve aqui a voz o rijo accento,
Que dos trovões o estrepito parece,
E logo d'ante os olhos n'um momento
A nocturna visão desapparece:
Deixa Ribeiro o sordido aposento,
Que de antigos escarros se guarnece;
E nas tripas berrando-lhe o demonio
Corre logo a tratar do matrimonio.
XIX
O brando coração da femea alcança
Com finezas, caricias, e desvelos;
A qual sobre a vil cara emprega, e lança
(Tentação do demonio!) os olhos bellos:
O fodedor maldito não descança
Sem ver chegar o dia, em que os marmellos
Que tem juntos do cú, dêem cabeçadas
Entre as candidas verilhas delicadas.
XX
Chega o dia infeliz (triste badejo!
Miseria crica! desditoso rabo!)
E ornado o rosto de um purpureo pejo
Une-se a mão de um anjo á do diabo:
Ardendo o bruto em férvido desejo
Unta de louro azeite o longo nabo,
Para que possa entrar com mais brandura
A vermelha cerviz faminta, e dura.
XXI
Principia o banquete, que constava
De dois gatos, achados n'um monturo.
E de raspas de corno, de que usava
Em logar de pimenta o preto impuro:
Em sujo frasco ali se divisava
Turva agua-pé; fatias de pão duro
Pela mesa decrepita espalhadas
A fraca vida perdem ás dentadas.
XXII
Depois de ter o esposo o bucho farto,
Abrasado de amor na ardente chamma,
Foge com leves passos para o quarto,
Ao collo conduzindo a bella dama:
Pelas ceroulas o voraz lagarto
A genital enxundia já derrama;
Só por ver da consorte o gesto lindo
Inda antes de foder já se está vindo!
XXIII
Jazia o velho thalamo n'um canto
Onde de pulgas esquadrão persiste,
Para theatro ser do afflicto pranto
Que havia derramar a esposa triste:
Oh noute de terror, noute de espanto,
Que das fodas crueis o estrago viste,
Permitte que com metrica harmonia
Patente ponha tudo á luz do dia.
XXIV
Ergue-lhe a saia o renegado amante,
Estira-se a consorte agil, e prompta;
E elle a setta carnal no mesmo instante
Ao parrameiro misero lhe aponta:
Co'um só beijo do membro palpitante
Ficou subitamente a moça tonta,
E julgou (tanto em fogo ardia o nabo!)
Que encerrava entre as pernas o diabo.
XXV
Prosegue o desalmado; mas a esposa
Que não pode aturar-lhe a dura estaca,
Dando voltas ao cú muito chorosa
Com geito o membralhão das bordas sacca:
Elle irado lhe diz, com voz queixosa:
«Não és uma mulher como uma vacca?
Porque fazes traições, quando te empurro
O mastro? quando vês que gemo, e zurro?»
XXVI
Então, cheio de raiva, aperta o dente,
E na gostosa, feminil masmorra,
Alargando-lhe as pernas novamente,
Com estrondosos ais encaixa a porra:
Ella, que já no corpo o fogo sente
Do marsapo, lhe diz: «Queres que eu morra?
Tu não vês que me engasgo, e que estou rouca,
Porque o cruel tezão me chega á bocca?
XXVII
«Ah! deixa-me tomar um breve alento,
Primeiro que rendida e morta caia…»
Mas elle, que na foda é um jumento,
Não tem dó da mulher, que já desmaia:
Sentindo ser chegado o fim do intento,
Do ranhoso licor lhe innunda a saia;
Porque dentro do vaso não cabia
A torrente, que rapida corria.
XXVIII
De gosto o vil caxorro então se baba,
E vendo que a mulher calada fica,
«Consola-te (exclamou) que já se acaba
Esta fome voraz da minha pica.»
E com muita risada então se gaba
De lhe ter esfollado a roxa crica;
Mas ella grita, ardendo-lhe o sabugo:
«Ora que casasse eu com um verdugo!
XXIX
«Fóra, fóra caxorro, não te aturo
Que me feres as bordas do coninho!»
E com desembaraço um tezo, e duro
Bofetão lhe arrumou pelo focinho:
Tomou em tom de graça o monstro escuro
A affrontosa pancada, e com carinho
Disse para a mulher: «Brincas comigo?
Pois torno-te a foder, por teu castigo.»
XXX
Estas vozes ouvindo a desgraçada
De repente no chão cahir se deixa;
E, temendo a mortifera estocada,
Ora abre os tristes olhos, ora os fecha:
Com suspiros depois desatinada
Da contraria fortuna ali se queixa;
Até que elle lhe diz, com meigo modo:
«Levanta-te do chão, que não te fodo.»
XXXI
Alma nova cobrou, qual lebre afflicta,
Que das unhas dos cães se vê liberta;
E apalpando a conaça (oh que desdita!)
Mais que bôca de barra a encontra aberta;
Mas consola-se um pouco, e já medita
Em fugir da ruina, que é tão certa;
E em vingar-se do horrivel Brutamonte,
Ornando-lhe de cornos toda a fronte.
XXXII
Tem conseguido a barbara vingança
A traidora mulher, como queria;
E o negro com paciencia branda, e mansa,
Soffrendo os cornos vai de dia em dia:
Bem mostra no que faz não ser creança,
Que de nada o rigor lhe serviria;
Porque se uma mulher quizer perder-se,
Até feita em picado ha de foder-se.
XXXIII
Agora vós, fodões encarniçados,
Que julgais agradar ás moças bellas
Por terdes uns marsapos, que estirados
Vão pregar c'os focinhos nas canellas:
Conhecereis aqui desenganados
Que não são taes porrões do gosto d'ellas:
Que lhes não pode, em fim, causar recreio
Aquelle, que passar de palmo e meio.
[A MANTEIGUI:]
POEMA EM UM SÓ CANTO.
ARGUMENTO.
Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinencia;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornigero esposo a paciencia:
Como á força de tanta caralhada
Perdendo o negro a rigida potencia,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica.
CANTO UNICO.
I
Canto a belleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil, como profano;
Corpo, que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martellos de Vulcano:
Corpo vil, que trabalha mais n'um dia
Do que Martinho trabalhou n'um anno;
E que atura as chumbadas, e pelouros
De cafres, brancos, maratás, e mouros.
II
Venus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva tambem que todas ellas;
Tu, que vinhas de Troya ás soledades
Dar a Anchises as mammas, e as canellas:
Que grammaste do pae das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez da crica a sêde,
Foste pilhada na vulcanea rêde:
III
Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jacques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lyra,
Para livrar-me do mortal quebranto:
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa
Sobre qual é mais bella, ou qual mais puta.
IV
No Cambayco Damão, que escangalhado
Lamenta a decadencia portugueza,
Este novo Ganós foi procreado,
Peste d'Asia em luxuria, e gentileza:
Que ermitão de cilicios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra teza?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?
V
Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tezões accendem;
As mammas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véos os véos offendem;
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ella ardendo,
Ás pissas pelas mãos lhe vão mettendo.
VI
Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aquelles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metaes brilhantes;
As niveas plantas, quando move os passos,
Vão pizando os tezões dos circumstantes;
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.
VII
Mas para castigar-lhe a vil cubiça
O vingativo Amor, como aggravado,
Fogo infernal no coração lhe atiça
Por um sordido cafre asselvajado;
Tendo-lhe visto a torrida linguiça
Mais extensa que os canos d'um telhado,
Louca de comichões a indigna dama
Salta n'elle, convida-o para a cama.
VIII
Eis o bruto se cossa de contente;
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
D'erguer-lhe as fraldas, de provar-lhe o bolo:
Estira-a sobre o leito, e de repente
Quer do panno sacar o atroz mampolo:
Porém não necessita arrear cabos;
Lá vai o langotim com mil diabos.
IX
Levanta a tromba o rispido elephante,
A tromba, costumada a taes batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas:
Ella enganchando as pernas delirante,
«Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não ha porra melhor em todo o mundo!
Mette mais, mette mais que não tem fundo.
X
«Ah! se eu soubera (continúa o couro
Em torrentes de semen já nadando)
Se eu soubera que havia este thesouro
Ha que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavára o cú, lavára o passarinho,
Mas só para foder c'o meu negrinho.
XI
«Mette mais, mette mais… Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não vivêras em um perpetuo engano,
Pois vir-me-hia tambem quando te vinhas:
Mette mais, meu negrinho, anda, magano;
Chupa-me a lingua, meche nas mamminhas…
Morro de amor, desfaço-me em langonha…
Anda, não tenhas susto, nem vergonha.
XII
«Ha quem fuja de carne, ha quem não morra
Por tão bello, e dulcissimo trabalho?
Ha quem tenha outra idéa, ha quem discorra
Em cousa, que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converte em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho:
Porra, e mais porra no verão, e no hynverno,
Porra até nas profundas do inferno!…
XIII
«Mette mais, mette mais (ia dizendo
A marafona, ao bruto, que suava,
E convulso fazia estrondo horrendo
Pelo rustico som com que fungava:)
Mette mais, mette mais que estou morrendo!…»
«Mim não tem mais!» O negro lhe tornava;
E triste exclama a bebada fodida:
«Não ha gosto perfeito n'esta vida!»
XIV
N'este comenos o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela camara atrevido
Como se entrasse n'um logar profano:
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sae logo, dizendo: «Arre magano!
Na minha cama! Estou como uma braza!
Mas, bagatella, tudo fica em casa.»
XV
A foda começada ao meio dia
Teve limite pelas seis da tarde:
Veiu saltando a nympha de alegria,
E da sordida acção fazendo alarde:
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: «Estás coráda! O ceo te guarde;
Bem boa alpistre ao passaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?»
XVI
«Cale-se, tolo» (a puta descarada
Grita n'um tom raivoso, e lhe rezinga)
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os hombros encolhe, e não respinga:
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que elle, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama, e foge de repente.
XVII
Deserta por temor d'esfalfamento,
Deserta por temer que o couro o mate:
Ella então de suspiros enche o vento,
E faz alvorotar todo o Surrate:
Vão procural-o de cipaes um cento,
Trouxeram-lhe a cavallo o tal saguate;
Ella o vae receber, e o grão Nababo
Pasmou d'isto, e quiz ver este diabo.
XVIII
Pouco tempo aturou de novo em casa
O cão, querendo logo a pelle forra,
Pois a puta co'a crica toda em braza,
Nem queria comer, só queria porra:
Voou-lhe, qual falcão batendo a aza,
E o courão, sem achar quem a soccorra,
Em lagrimas banhada, acceza em furia,
Suspira de saudade, e de luxuria.
XIX
Courões das quatro partes do universo,
De gallico voraz envenenados!
Se d'este canto meu, d'este acre verso
Ouvirdes por ventura os duros brados:
Em bando marcial, côro perverso,
Vinde ver um cação dos mais pescados:
Vindo cingir-lhe os louros, e devotos
Beijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.
[A EMPREZA NOCTURNA.]
Era alta noute, e as beiras dos telhados
Pingando mansamente convidavam
A gente toda a propagar a especie:
Brandas torrentes, que do ceo cahiam
Pelas ruas abaixo susurravam:
Dormia tudo; e a ronda do Intendente
Que o grão Torquato rege, o pae das putas,
Esbirro-mór, Mecenas das tabernas,
Recolhido se havia aos patrios lares.
Era tudo silencio, e só se ouvia
De quando em quando ao longe uma matraca.
Soava o sino grande dos Capuchos,
Vão-se os frades erguendo, era uma hora.
Não podia faltar: Nise formosa,
Pela primeira vez m'estava esperando.
De repente me visto, e salto fora
Da pobre cama, aonde envolto em sonhos
Mil imagens a mente me fingia.
Visto roupa lavada, e me perfumo,
N'um capote me embuço, a espada tómo,
Que nunca me serviu, mas que em taes casos
Mette a todos respeito; e qual Quixote,
Que, havendo já perdido o charo Sancho,
Sem nada recear de assalto busca
Altos moinhos, que valente ataca;
Tal eu figuro achar a cada esquina
Um Rodamonte, e prompto me disponho
A lançal-o por terra, em pó desfeito.
Assim gastei o tempo, até que chego
Ao sitio dado, onde meu bem m'espera.
Mal a porta emboquei, dentro em mim sinto
Um fogo activo, que me abraza todo.
Eis de Nise a criada, abelha mestra,
Que á mira estava ali, a mão me aperta,
Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso,
Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos,
Por acaso ao subir lhe apalpo as coxas…
Oh! caspite! que sesso! Era alcatreira,
Nunca vi cú tão duro, era uma rocha.
Foi o tezão então em mim tão forte,
Que as mãos lhe encosto aos hombros, n'ella salto,
Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!…
Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!…
Ao dizer isto a voz lhe fica presa,
Soluça, treme toda, estende os braços,
Aperta as pernas, encarquilha o cono,
Que distava do cú pollegada e meia.
Qual moinho de cartas, que os rapazes
Em tempo de verão põem nas janellas,
Tal a moça rebolla: e eu posto em cima.
Sem nada lhe dizer, tinha vertido
Na larga dorna a larga apojadura.
Acabada a funcção, em que a moçoila
(Segundo confessou) deu tres por uma,
N'um quarto me encaixou, onde os Amores
Tinham sua morada, onde Cupido
Havia receber em seus altares
Em breve espaço meus amantes votos.
Dormia tudo em casa: eis Nise bella
Um pouco envergonhada, assim ficando
Mais vermelha que a rosa, a mim se chega,
Nos meus braços se lança: então lhe toco
No tenro, e branco seio palpitante;
Trémula a voz, que o susto lhe embargava,
Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh'alma
«Quanto pode o amor n'um peito firme!
«Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço
«Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra
«Bem sei que despedaço!… Mas não temo
«Que te esqueças de mim, que ufano zombes
«D'uma infeliz mulher amante, e fraca!…»
Em quanto assim falava, me prendia
Nise c'os braços seus, e aos meus joelhos
As pernas encostava, que eu conheço
Pelo tacto, que são rijas, e grossas.
Mal podia conter-me: o ceo chuvoso
Pelas telhas cahia; o vento rijo
Pelas frestas zunia; a casa toda
Com cheiro de alfazema; a cama fofa,
Tudo emfim era amor, tudo arreitava.
Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve,
Descubro-lhe com geito o tenro peito,
Que ancioso palpita, que resiste,
Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella!
No seio virginal, onde dois globos
Mais brancos do que jaspe estão firmados,
Ancioso beijando-os, pouco a pouco
Se fizeram tão rijos que mal pude
Comprimil-os c'os beiços; n'este tempo
Pelo fundo da saia subtilmente
Lhe introduzi a mão, com que esfregava
O pentelho em redondo, o mais hirsuto
Que atéli encontrei; e como a crica
Vertido tinha já pingas ardentes,
Certos signaes, que os férvidos prazeres
Dentro n'alma de Nise á lucta andavam,
Tal fogo em mim senti, que de improviso
Sem nada lhe dizer me fui despindo,
Té ficar nú em pello, e o membro feito,
Na cama m'encaixei, qu'a um lado estava.
Nise, cheia de susto, e casto pejo,
De receio, e luxuria combatida,
Junto a mim se assentou, sem resolver-se.
Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando
Quanto cobria seu airoso corpo.
Era feito de neve: os hombros altos;
O collo branco, o cú roliço, e grosso;
A barriga espaçosa, o cono estreito,
O pentelho mui denso, escuro, e liso;
Coxas pyramidaes, pernas roliças,
O pé pequeno… Oh ceos! Como é formosa!
Já mettidos na cama em nivea hollanda,
Erguido o membro té tocar no embigo,
Qual Amadis de Gaula entrei na briga:
Pentelho com pentelho ambos unidos,
Presa a voz na garganta, ardente fogo
Exhalavamos ambos; Nise bella
Ou fosse natural, ou fosse d'arte,
O peito levantado, anciosa, afflicta,
Tremia, soluçava, e os olhos bellos
Semi-mortos erguia: a côr do rosto
Pouco a pouco murchava; era tão forte,
Tão activo o prazer, que ella sentia,
Que, cingindo-me os rins c'os alvos braços,
Tanto a si me prendia, que por vezes
O movimento do cú me embaraçava:
Co'as alvas pernas me apertava as coxas,
Titilava-lhe o cono, e reclinada
Quasi sem tino a languida cabeça,
Chamando-me seu bem, sua alma, e vida,
Faz-me ternas meiguices, brandos mimos:
Férvidos beijos, mutuamente dados,
Anhelantes suspiros se exhalavam:
Era tudo ternura; e em breve espaço
Ao som de queixas mil, com que intentava
Mostrar-me Nise um damno irreparavel,
Me senti quasi morto em todo o corpo;
Uma viva emoção senti gostosa
Dentro em minh'alma: férvidos prazeres
O peito vivamente me agitavam:
Os olhos, e a voz amortecida,
Os braços frouxos, quasi moribundos,
Languido o corpo todo, em fim mal pude
Saber o que fazia… Eis de improviso
Tornando a mim mais forte, e mais robusto,
Tentei de novo o campo da batalha:
Qual o bravo guerreiro, que se abrasa
No calido vapor, que exhala o sangue
Que elle mesmo esparziu entre as phalanges
De inimigos crueis, que vence, e mata;
Assim eu, abrasado em vivo fogo
Que de Nise sahia, me não farto
Da guerra, que intentei; de novo a aperto,
De novo beijo os seus mimosos braços;
Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca,
Os niveos peitos, a cintura airosa;
Nise outro tanto me fazia alegre,
Estreitava-me a si por varios modos:
Ora posto eu por baixo, ella por cima,
Para dar doce allivio aos membros lassos;
Ora posto de ilharga, sem que nunca
O voraz membro do logar sahisse,
Onde uma vez entrara altivo e forte;
O membro, que em tal caso era mais duro
Que alva columna de marmoreo jaspe;
Até que em fim, depois de não podermos
Nem eu, nem Nise promover mais gostos,
O brando somno, sobre nós lançando
Os seus doces influxos brandamente,
Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhos
Vieram animar nossos sentidos,
Té que chegou a fresca madrugada,
Em que á casa voltei, d'onde sahira;
E tornando outra vez á pobre cama,
Dormi o dia inteiro a somno solto.
[EPISTOLA A MARILIA.]
I
Pavorosa illusão da Eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos;
D'almas vans sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora;
Freio, que a mão dos despotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arreigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestavel crença,
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no ceo se fingem:
Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma,
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro,
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem d'um Deus quando quer faz um tyranno:
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co'a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inutil venia
Espere ás plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que ás leis, que as propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Abhorrece nos mais, nos mais fulmina:
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbitra,
E, nos ares lançando a futil benção,
Vae do grantribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de Amor, que dá, não vende.
II
Oh Deus, não oppressor, não vingativo,
Não vibrando co'a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto, que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rigida sentença,
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo.
Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro!
Monstros de vís paixões, damnados peitos
Regidos pelo sofrego interesse
(Alto, impassivo numen!) te attribuem
A cholera, a vingança, os vicios todos,
Negros enxames, que lhe fervem n'alma!
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror das barbaras cruezas,
Cobrir com véo compacto e venerando
A atroz satisfação de antigos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia,
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franquêa, e nutre:
Eil-o, em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bocca, o fel, a espuma,
Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle,
Eil-o citando os horridos exemplos
Em que aterrada observe a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo:
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Envolto em nuvens, em trovões, em raios
De Israel o tyranno omnipotente;
Lá brama do Sinay, lá treme a terra!
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto,
Ouve o terrivel Deus, que assim traveja:
«Vae, ministro fiel, dos meus furores!
Corre, vôa a vingar-me: seja a raiva
De esfaimados leões menor que a tua:
Meu poder, minhas forças te confio,
Minha tocha invisivel te precede:
Dos impios, dos ingratos, que me offendem,
Na rebelde cerviz o ferro ensopa:
Extermina, destroe, reduz a cinzas
As sacrilegas mãos, que os meus incensos
Dão a frageis metaes, a deuses surdos:
Sepulta as minhas victimas no inferno,
E treme, se a vingança me retardas!…»
Não lh'a retarda o rabido propheta;
Já corre, já vozêa, já diffunde
Pelos brutos, attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo:
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam,
Que sanha! que furor! que atrocidade!
Foge dos corações a natureza;
Os consortes, os paes, as mães, os filhos
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio:
Os campos de cadaveres se alastram,
Susurra pela terra o sangue em rios,
Troam no polo altissimos clamores.
Ah! Barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serena o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De opprimir seus eguaes com ferreo jugo;
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão valido,
É Deus do teu furor, Deus do teu genio,
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles, que não crêm que Deus existe.
III
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que em tenebrosos seculos envolta
Desde aquelles crueis, infandos tempos
Dolosa tradição passou aos nossos.
Do coração, da idéa, ah! desarreiga
De astutos mestres a fallaz doctrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos:
Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello.
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo,
Que só não leva a bem o abuso d'ellas,
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida:
Amor é lei do Eterno, é lei suave;
As mais são invenções, são quasi todas
Contrarias á razão, e á natureza:
Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos.
Natureza, e razão jámais differem:
Natureza, e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quanto nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxêa o vergão de vís algemas:
Natureza, e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania,
Que pondo os homens ao nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outros
Traçâmos fero damno, injustos males
Em nossos corações, em nossas mentes,
És, oh remorso, o precursor do crime,
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe,
Pois não pode evitar-se o pensamento,
E é innocente a mão, que se arrepende.
Não vem só d'um principio acções oppostas:
Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo,
Ou do cego furor, moleslia d'alma.
IV
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto,
Que te anceam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse.
Só de infestos mortaes na voz, na astucia
A bem da tyrannia está o inferno.
Esse, que pintam barathro de angustias,
Seria o galardão, seria o premio
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente:
Mil vezes te dirá: «Se a rigorosa
Carrancuda oppressão de um pae severo,
Te não deixa chegar ao charo amante
Pelo perpetuo nó, que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na idéa
Para tambem no amor dar leis ao mundo;
Se obter não podes a união solemne,
Que hallucina os mortaes, porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que com lagrimas, e ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder, os teus direitos
Da justiça despotica extorquidos:
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os affoguêa:
De amor ha precisão, ha liberdade;
Eia pois, do temor saccode o jugo,
Acanhada donzella; e do teu pejo
Déstra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noute, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano,
Ao risonho prazer franquêa os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymenêo as venerandas
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro o Amor, e a terra templo
Pois que o templo do Eterno é toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desafoga.
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que, só de prazer merece o nome.
Verás como, envolvendo-se as vontades,
Gostos eguaes se dão, e se recebem:
Do jubilo hade a força amortecer-te,
Do jubilo hade a força aviventar-te.
Sentirás suspirar, morrer o amante,
Com os seus confundir os teus suspiros,
Has de morrer, e reviver com elle.
De tão alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora.»
Eis o que has de escutar, oh doce amada,
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado
Ás preces, que te envia, eu uno as minhas.
Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar é um dever, além de um gosto,
Uma necessidade, não um crime,
Qual a impostura horrisona apregôa.
Céos não existem, não existe inferno,
O premio da virtude é a virtude,
É castigo do vicio o proprio vicio.
[ FRAGMENTO DE ALCEU, POETA GREGO:]
TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA
DE Mr. PARNY.
I
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,
Que os beneficos céos, os céos piedosos
Exigem nossos ais, nossos suspiros
Em vez de adorações, em vez d'incensos?
Credula, branda amiga é falso, é falso:
Longe a cega illusão. Se ambos sumidos
Em solitario bosque, e misturando
Doces requebros c'os murmurios doces
Dos transparentes, garrulos arroios,
Sempre me ouvisses, sempre me dissesses
Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa
Nosso innocente ardor faria aos Numes?
Se acaso reclinando-te comigo
Sobre viçoso thalamo de flores,
Turvasse nos teus olhos carinhosos
Suave languidez a luz suave;
Se os doces labios teus entre meus labios
Fervendo, grata Lilia, me espargissem
Vivissimo calor nas fibras todas;
Se pelo excesso de ineffaveis gostos
Morressemos, meu bem, d'uma só morte;
E se Amor outra vez nos désse a vida
Para expirar de novo: em que peccára,
Em que afrontára aos céos prazer tão puro?
A voz do coração não tece enganos,
Não é réo quem te segue, oh Natureza:
Esse Jove, esse deus, que os homens pintam
Suberbo, vingador, cruel, terrivel;
Em perpetuas delicias engolphado,
Submerso em perennal tranquillidade
Com as acções humanas não se emb'raça:
Fictos seus olhos no universo todo,
Em todos os mortaes, n'um só não param:
As vozes da razão profiro, oh Lilia!
É lei o amor, necessidade o gosto:
Viver na insipidez é erro, é crime,
Quando amigo prazer se nos franquêa.
II
Eia! Deixemos á vaidade insana
Correndo-se da rapida existencia
Sem susto para si crear segunda:
Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,
Pela immortalidade os olhos ledos;
E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.
Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praia
Onde a morte nos lança, e nos arroja,
Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,
Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.
Em quanto dura a vida ah! sejam, sejam
Nossos os prazeres, os Elysios nossos.
Os outros não são mais que um sonho alegre,
Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,
Para curvar ao jugo os brutos povos:
E o que a superstição nomêa averno,
E á multidão fanatica horrorisa;
As furias, os dragões, e as chammas fazem
Mais medo aos vivos, do que mal aos mortos.
[ ARTE DE AMAR,
OU
PRECEITOS, E REGRAS AMATORIAS
PARA AGRADAR ÁS DAMAS.
IMITAÇÃO DE OVIDIO.]
I
Se, lascivos do mundo, amais sem arte,
Lede meus versos, amareis com ella.
Tu, louro Apollo, me tempera a lyra,
Tu, branda Venus, a cantar me ensina.
Quanto nos reinos de Plutão deseja
Tantalo ardente mitigar a sêde;
Quanto suspira Promethêo, que Jove
Os duros ferros, com que o prende, rompa;
Tanto deseja a feminina turba
Ao corpo varonil unir seu corpo;
Tanto suspira por que mão lasciva
Meiga lhe toque nas columnas lisas,
E que mimoso, petulante dedo
Lhe amolgue os tezos seus virgineos peitos.
Em Junho ardente pelo seu consorte
Clama, suspira em verde ramo a rôla;
Em gelado Janeiro clama triste
A domestica tigre por marido:
Brama nos campos em sereno Maio
Mansa novilha por amado touro.
Sabia Natura o debil sexo excita,
Torpes desejos com ardor provoca:
Mas sempre firme, e simulada nega
Carnal impulso geração de Pyrrha.
Busca Diana Endymião nos bosques,
Mas finge ousada perseguir as féras;
Ardente Venus só prazer respira,
Mas seus favores solicíta Marte;
Serrana humilde reclinar deseja
Nos doces braços de um Vaqueiro o collo;
Mas d'elle foge, na montanha, esquiva,
Com elle o baile festival recusa.
II
Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiro
Á vaga turba legislou dos homens,
Severo alçando temeroso ferro
Duro reprimes da natura os gritos;
Á face mulheril, immovel d'antes,
Pudibundo rubor e pejo déstes;
Mas ah! não tema varonil caterva
Femineo pejo, sendo eu o seu mestre.
Corta o duro machado erguido tronco,
Mas vejo sempre pullular vergonteas;
Diques forçosos contra o mar se elevam,
Mas além d'elles delphins mansos nadam.
Pode mais do que as leis a Natureza,
Pratica o mundo só o que ella dicta;
Faz-se escondida em quanto a não descobrem;
Eu subtil mestre a descobril-a ensino.
Ah! não me chamem críticos austeros
Dos bons costumes corruptor profano!
Ah! não me mande Cesar irritado
No frio Euxino a viver c'os Getas.
Outra cousa não faz duro colono
Com liso arado, quando rompe a terra:
Dura codêa o calor nativo impede,
O ferro a rasga, e o calor transpira.
III
Vós, mancebos, correi, correi ligeiros
Do Tibre ás margens ferteis, e mimosas:
Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos;
Direi primeiro como Amor se enlêa,
Depois como se faz propicia Venus.
Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses,
Sabio me inspira, que não basta Apollo.
É verde louro fugitivo Daphne,
Amor ingrato do queixoso Phebo:
Tu, selvatico filho de Saturno,
Só tu não temes desdenhosas iras:
Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas,
Ou touro manso linda Europa roubas.
A face mulheril formosa, e pura
Cobrem de pejo avermelhadas rosas;
Ou dedo juvenil destro as desfolhe,
Ou calido vapor soprando as murche:
Então lasciva, sem rebuço exposta
Facil se entrega, sem temor se arroja:
Então tu, louro Apollo, serás Daphne,
A nympha fugitiva será Phebo.
Apoz o bruto filho de Neptuno
Correrá Galathéa os verdes mares;
Assim foge de Cyrce o grego Ulysses,
Assim foge de Dido o pio Enéas.
Porém, primeiro, subtilmente a inflamma;
Se acaso ardente, devorante fogo
Torrar os bofes, consumir entranhas,
Natura acode com forçoso impulso,
E mais depressa se afugenta o pejo:
Mais depressa o calor do sol derrete
Pallida massa de esfregada cêra;
Mais cedo rompe ariete forçoso
Torres antigas, ruinosos muros.
IV
Se branco rosto, que formoso esmaltam
Preciosos rubís, azues saphiras,
Face morena, que engraçados ornam
Dous pretos olhos, com que as Graças brincam;
Se airoso gesto, movimento lindo,
Se honesto modo, se sisudo termo
Feriu teus olhos no theatro, ou templo,
Eia, mancebo, tens amores, corre!…
Em pé ligeiro te sublime, e ergue;
Da vasta chusma simulado escapa,
Ou destro finjas cerebro revolto,
Ou falso mostres abafado o peito;
Logo modesto dirigindo os olhos
Á branda Tyrse, para os seus repara;
Vê se innocentes ao acaso vagam,
Ou se inquietos com destino giram;
Se por ventura teu rival encontras,
Animo forte, desmaiar não deves;
Mais honrosa será tua victoria,
Tens para o carro triumphal captivo.
V
Era consorte de Vulcano Venus,
Mas dos favores seus é digno Marte;
Com vergonha do sordido ferreiro
Preso nas rêdes fica o deus da guerra:
Quaes no prado mellifluas abelhas
Correm voando d'uma flor em outra,
Nem sobre o casto rosmaninho pousam,
Nem sobre o thymo matinal descançam:
Taes, oh mancebos, mulherís desejos
Correndo vôam de um amor em outro.
Nem destro Ulysses seu correr impede,
Nem rico Midas suas azas prende;
Oh tu cerulea, cristallina Thetis,
Quando revolta não serás tão vaga?
Oh tu suberbo, furioso Noto,
Quando liberto não serás tão doudo?
São mais constantes de um carvalho altivo
As livres folhas, quando Bóreas sopra,
Tremulam menos nos extensos mares
Flamulas soltas, que menêa o vento.
Se tu, mancebo, por acaso agradas,
Vive seguro, em teu rival não cuides;
É velho amante, tu amante novo:
Pode mais do que amor a novidade;
De novo ardia por Helena Paris,
Por isso foi de Meneláo contrario.
VI
Mas é preciso que subtil e hardido
Primeiro excites a attenção de Tyrse.
Com gesto alegre teu amor exprime,
Falem teus olhos, todo o corpo fale;
Mudo lhe dize que te assombra, e pasmam
Do seu semblante a formosura, e a graça.
Ora de espanto se amorteça a face,
Ora se accenda com venereo fogo:
O mesmo effeito teus contrarios fazem,
Todos o orgulho mulheril incensam:
O forte sexo para si reserva
De Phebo os louros, de Mavorte as palmas.
Em carros triumphaes nunca viu Roma
Matrona illustre de Cesarea casa;
Sós d'entre a chusma mulheril as Musas
Á sombra dormem de Apollineos louros;
Ao sexo lindo só agradam myrthos,
Verdes arbustos, que cultiva Venus.
Só d'entre a chusma varonil Cupido
Da Cypria deusa pode entrar no templo:
A porta guardam Furias irritadas,
Que em vez de lanças arrepellam serpes,
Com dente venenoso rasgam, mordem
Alheio sexo, que arrostal-as ousa.
Posto que fosse lindo o amor de Venus,
Morreu da sua mordedura Adonis;
Provando a furia da raivosa Alecto,
Foi convertido em tenra flor Narciso.
VII
Mas onde corre meu batel ligeiro!
Ferrando a vela para traz voltemos.
Mancebos, que me ouvis, sabei sómente
Que n'este laço se surprehendem todas.
Se acaso entrasse n'esta rêde de ouro
Lucrecia mesma ficaria presa;
Não seria Penelope tão casta,
Se os seus amantes lhe chamassem bella.
Esta gloria sómente querem todas,
Com fervoroso ardor todas a buscam:
Nem sobre as margens do Euphrates Cesar
Mais pela gloria marcial suspira.
Apraz a Venus variar de forma,
Tambem Cupido de ser vario gosta;
Um gesto sempre doce se abhorrece,
Ás vezes vale muito um desagrado.
VIII
De teu rival, mancebo, nota o modo,
E tu sempre diverso modo segue:
Não basta ser sómente amante novo,
É tambem necessaria nova forma.
Se elle inquieto namora, tu sisudo,
Se indecente se mostra, tu modesto;
Se triste se apresenta, tu alegre;
Se acanhado se mostra, tu mais livre;
Mas toma sempre virtuoso gesto,
Só lhe pareça teu amor franqueza.
Não ha no mundo tão lascivo monstro
Que a virtude não preze mais que o vicio;
E julga sempre a feminina turba
D'elles alheio quem se mostra casto:
A flamma do Ciume tambem queima,
E torra brandas mulherís entranhas;
Nem vibora raivosa, que pisada
Do vago caminhante se exaspera,
Nem besta furiosa, em cujas fauces
O nú selvagem crava a setta aguda,
Mais iradas se accendem, do que a turba,
Quando ciosa se exaspera, e arde.
O ciume foi ferro, a cujo golpe
Banhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras,
Foi elle a chamma, que abrasou Semele:
Em feroz urso transformou Calixto;
(Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede,
Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize!
Ah! formosa Corinna! Não te engano,
Só me abraso por ti, só por ti morro!…)
Porém sulquemos novos mares, fuja
Nosso veloz batel longe da praia.
IX
Mancebo, deixa o teu rival; só cuida
Em combater da bella Tyrse o peito.
Do theatro se corre o largo panno,
Aberta a scena principia o drama.
Temerario, não deves ver tranquillo
Da peça theatral o sabio jogo:
É Cupido rapaz, não tem socego,
Não perde a occasião o que amor busca;
Para os olhos de Tyrse te encaminha,
N'elles a scena figurada nota;
Se por acaso lagrimas derrama
Tu de pranto tambem as faces banha;
Finge ao menos secar com alvo lenço
O terno pranto, que verter não podes;
Se irritada parece, toma fogo,
Se com assombro pasma, tu te assombra.
X
Mas que novo segredo Amor me inspira!
Que sabias regras, que preceitos novos!
Filho de Venus, e de Marte filho,
De teus altos mysterios serei vate!
Forma novos oraculos em Cypro;
Por elles tenha esquecimento Delphos.
Namorado mancebo, Amor te fala,
Ouve com filial respeito as vozes.
Posto que tu na scena Doris ouças,
Altos prodigios, maravilhas novas,
A voz soltando bella, e sonorosa
Com que suspenda sybillantes ventos,
Não pasmes, nunca chores, ser não queiras
Réo desditoso de tão negro crime;
Cheia Tyrse de inveja, não perdoa,
Mais depressa seria o mar estavel.
A nação feminil sustenta sempre
Entre si crua sanguinosa guerra:
Inda no berço brandamente dorme,
Inda c'o leite maternal se nutre,
Já da cova sombria o negro monstro
Que come verdes enroscadas serpes,
Salta com Venenosa lingua, e lambe
Seu terno peito, seu formoso rosto;
Na bocca lhe vomita cru veneno,
Que para o brando coração lhe corre,
E nas vêas subtis introduzido,
C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa;
Não só familias com familias rompem
A paz benigna, que na terra expira;
Entre as mesmas irmãs se accende a guerra,
Por isso é hoje negro seixo Aglaura.
Até nos céos o vago monstro gira,
Minerva, e Juno fez rivaes de Venus;
Não caíram troyanos altos muros,
Só porque Paris foi roubar Helena!
Mil adulteros tinham sem castigo
Furtado esposas, maculado leitos:
No pomo da Discordia veiu envolta
A faisca fatal, que abrasou Troya.
XI
Com tudo, posto que raivosas todas
Entre si mutuamente se enfureçam,
Mancebo, não presumas que sem pena
Vejam de amor qualquer irmã queixosa.
Não houve nympha nos Thessalios campos
Que não movessem tristes queixas d'Eccho;
Só Lyriope vê com dôr Narciso,
Em branca flor Narciso as nymphas gostam:
Quando o monstro voraz, que sae dos mares
Só contra o filho de Theseo famoso,
Quando os frisões medrosos se perturbam,
Ligeiros se embaraçam, quebram redeas,
Hyppolito gentil por terra lançam,
Raivosos seu formoso corpo pizam;
A crua turba mulheril de Athenas
Festivos gritos para o céo levanta,
As tranças orna de jasmins, e rosas,
Vae dar a Venus no seu templo as graças.
XII
Oh vós, monstros crueis, geração dura!
Malignas Furias com formoso aspecto!
Sacerdote de Amor, agora o digo,
Hoje se saiba como sois geradas.
Supremo Jove, que tirou do cahos
A bruta massa, de que o mundo é feito,
Quando os homens formou, disse-lhes logo:
«De nova especie produzi sementes;
«Exista um novo sexo, em cujo seio
«O nativo calor as desenvolva:
«Formosa que a prazeres vos excite,
«Maligno, que a um cego amor vos leve;
«Os membros todos de seu corpo forme
«Formosa Venus em Cythera, ou Cypro,
«Ás Furias fique reservado o peito»
Mancebos!… Eis aqui por quem Cupido
Em subtis rêdes vos enleia todos:
Mas não vos tinja rubro pejo as faces;
Até por ellas foi novilho Jove.
Se é tecido seu peito nos infernos
É formada no céo sua cintura:
Hyppolito, Narciso lições sejam,
Com elles aprendei a não ser duros.
Posto que incestuosa chamma queime,
Devore o falso coração de Phedra,
Mostrae por ella que sentís ternura:
Acompanhe seu pranto o pranto vosso.
Tão felices agouros vendo Tyrse,
De vosso peito cego amor espera.
XIII
Longo tempo Tritão ardeu nos mares
Por Thysbe, de Nereo cerulea filha;
Dos seus amores rindo a esquiva nympha
Melhor ouvia o murmurar das ondas:
Bem como de voraz golfinho foge
Turba medrosa de miudos peixes,
Do mancebo Tritão cruel fugia
Assim nos reinos de Neptuno Thysbe.
Eis que um dia Protheo, pastor que guarda
Das aguas o maritimo rebanho,
Cuja molhada fronte cingem molles
E verdenegros juncos, que o mar cria;
Em tremulo penhasco, e ondeando enfeitam
A leve coma palludosos ramos,
Atraz do gado nadador cantava:
«Ah! misero Tritão, se queres Thysbe,
«Em leve pó mudada Troya vinga.»
Os eternos oraculos não mentem,
Deixou de ser esquiva a loura Thysbe.
Quando Circe nas praias se queixava
Do fugitivo, do perjuro Ulysses;
Tritão da sua dôr enternecido
Vingança lhe promette, chama os ventos,
Do sagrado Oceano agita as ondas,
No fundo seio as gregas náus soçobra.
Mais preciso não foi, Thysbe se rende,
Do louco amante para os braços corre,
Mil beijos lhe recebe, e mil lhe imprime…
Deveis, mancebos, presumir o resto;
Em breve tempo todo o mar povoam
Filhinhos de Tritão, de Nerêo netos.
XIV
Eis em resumo as regras necessarias,
Afim de conseguir femineo affecto:
D'ellas aprendereis, destros mancebos,
A serdes cautos, prevenindo os laços
Armados por Amor á inexp'riencia;
Pendurando assim trophéos innumeros
Ao carro triumphal da vossa gloria.
[ CARTAS
DE
OLINDA E ALZIRA.]
[EPISTOLA I.
OLINDA A ALZIRA.]
Que extranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido!
Minhas vistas ao céo languidas se erguem,
E a mim propria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assuberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.
Das mesmas sup'rioras a presença,
Que d'antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! minha chara! os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.
[EPISTOLA II.
ALZIRA A OLINDA.]
Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a Natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Precede ao fructo a flor já matizada,
Que fôra antes de flor botão mimoso.
Assim a sabia mão da Natureza
A passos insensiveis caminhando
Maravilhas em nós produz, que assombram.
Somos na infancia apenas um bosquejo
Do que nos cumpre ser annos mais tarde.
N'aquella edade a Natureza attenta
Em conservar-nos só, não desenvolve
Sentimentos, que então superfluos foram:
Inactivas nos tem, e nos conserva,
Bem como as plantas no gelado hynverno.
Porém depois que o sol da primavera
Fecundos raios sobre nós dardeja,
Então de novas fórmas animado
Pula nas vêas affogueado sangue,
E sem perder da infancia os attractivos
Da puberdade o lustre desfructamos.
Então sentimos commoções insolitas,
Que origem são dos males, que te opprimem;
Do amor, que te domina, melancolico;
Da forte agitação, que em ti presentes.
Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o,
Feliz serás, se o trilho me seguires.
[EPISTOLA III.
OLINDA A ALZIRA.]
Quanto gratas me são as tuas letras
Querida Alzira! Ao coração me falas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtude tal, que apenas lidas
D'ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, presada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a sua origem.
Se bem me lembro, outr'hora de ti mesma
Ouvi eguaes queixumes, não sabendo
Nem eu, nem tu, donde elles procediam.
Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa
Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.
Cessaram os teus males, eu os sinto…
A edade é (dizes tu) a causa d'elles;
Ah! Que extranha linguagem! Não concebo
Porque falas assim; pois traz a edade
Males, nos tenros annos não provados?
Tres lustros conto apenas: tu tres lustros
Antes de te esposar tambem contavas;
Poz o consorcio a teus lamentos termo,
Limitará os meus? Ah! dize, dize
Tu, que desassocego egual soffreste,
O seu motivo, e como o apaziguaste:
Revela á tua amiga este mysterio
D'onde sinto pender o meu repouso.
Eu não exp'rimentava o que exp'rimento:
Os meus sentidos todos alterados
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas:
O coração no peito turbulento
Pula, bate com ancia extranhamente:
O sangue, pelas vêas abrasado
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do peso da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d'antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D'outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lisos té'qui, macúla um brando pello,
Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.
Sobresalta-me d'homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos; que expressar me custa;
Amor… E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?
Já tenho lido effeitos de seus damnos;
Mas esses, que o seu jugo supportaram,
Tinham com quem seu peso repartissem,
Tinham a quem chamavam doce objecto,
Quem a seu mal remedio suggerisse.
Isto era amor; mas eu amor não sinto;
A doce inclinação, que dous amantes
Um ao outro consagram, desconheço.
Sim; dos homens a vista lisonjeira
É para mim; nenhum porém me prende;
Não sei que chamma interna me affoguêa…
Amor isto será? Alzira, fala,
Fala com candidez á tua amiga;
Ensina-me a curar a funda chaga,
Que internamente lavra por mim toda:
D'estas agitações, que me flagellam,
Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:
Tu tiveste-as tambem, já não te avexam,
Mostra-me por que modo as terminaste.
Talvez do que te digo farás mofa…
Ah! vê que por meus labios a innocencia
Comtigo é quem se exprime; tem dó d'ella,
E se os meus sentimentos são culpaveis,
Dize-m'o, que abafados em meu peito
Serei victima d'elles; se extinguil-os
Os meus exforços todos não podérem,
Comigo hão de morrer, findar comigo.
[EPISTOLA IV.
ALZIRA A OLINDA.]
Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da innocencia, me affiguras
O que por mim passou, extranho effeito
De um coração sensivel, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpavel fores de outrem aos olhos,
Aos meus és innocente, e assim te julgo.
Da inviolavel lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d'ella, é ella que t'os causa;
Ella os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remedio activo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes paes, que em sopeal-as
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ella atêa.
Nescios, de amor lhe formam attentados,
Que o coração desmente, e que não pode
Saber justificar a razão mesma.
Benignas emoções chamam flagicios,
Que infernaes penas castigar costumam;
Sem que atinem o modo por que devam
Tornal-as puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não diff'rencêam,
Amor, e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pae o emprego não tolera
Maximas impostoras, vís idéas
Que religião não soffre, e que forcejam
Para co'a religião auctorisal-as.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quaes limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de afferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com desvelo attento.
Pois que impureza, e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d'este.
Sim, chara Olinda: como tu, eu propria
Falta da sociedade, porque n'ella
Viam meus paes o escolho da innocencia,
As mesmas emoções senti outr'hora;
Nos tenros annos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassocego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh'alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D'elles jámais me fosse conhecida?
Agora os exp'rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!…
A Natureza em ti o germen lança,
Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,
Porque sensivel és; e bem que hesites
Sobre o objecto, que deve contentar-te,
Ella t'o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu dominio as forças,
Porque de jugo seu o peso é leve.
Não mais soffres fervidos desejos,
Que o coração te ancêam, e bem podem
A languidez eterna victimar-te,
Se de amor o remedio os não sacia.
Attenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d'entre elles escolhe um, cujo peito
Tão docil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abbreviada.
Se contra amor dictames escutaste,
Que seus effeitos pintam horrorosos,
Não dês credito a maximas fingidas,
Que a lingua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dois amantes se jurem fé, constancia?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce
Que beijos mil só farta, e que só pode
Nos braços de um amante saciar-se?…
Não; amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros soffrem, mais a humanidade
Em nós se augmenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizivel
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vemos
A falarmos de amor nos estimula;
Se a edade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera; assignalando
Com marcas bem sensiveis, que chegámos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existencia:
Se tudo a amar convida, e nos impelle,
Quem ousa amor chamar crime execrando?..
Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem
Virtude austera hypocritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afêam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, sómente gosam
Emprestadas caricias, vís affagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Affecta, embhora, affecta sisudeza
Já que a affectar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indemnisa:
Zomba dos seus ardís, e estratagemas;
Dize, entre os braços de um amante charo,
Que mais credulos são, do que te julgam,
Se crêem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delictos
Quando sabidos são, com veo mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d'esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n'alma sentes.
São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anhela, que ella saborêa.
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gosal-os;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem às vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te,
Por não têl-o em amar aproveitado.
[EPISTOLA V.
OLINDA A ALZIRA.]
Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!…
Das tuas instrucções é tal o fructo.
Quanto encarava em torno era a meus olhos
De lugubres idéas feio quadro:
Tudo o que vejo agora alegres, vivas,
Imagens prazenteiras, me suscita.
Os ternos sentimentos, que provava,
Mil vezes combinando com dictames
Que desde a infancia sempre m'inspiraram;
Mil vezes reflectia que dos homens,
Ou de um tyranno Deus era ludibrio:
Conceber não podia que existisse
Para experimentar contínua lucta
Entre impressões da propria natureza,
E principios chamados da virtude.
No pélago de embates tão terriveis
Fluctuando implorei o teu auxilio;
Meu coração te abri: tu leste n'elle
O que eu nem mesma deslindar sabia.
Tu me ensinaste a ver quanto fingidos
Os homens são, nas vozes, e nos gestos:
Rasgaste aos olhos meus mascara infame
Com que têem de uso todos encobrir-se;
Das bordas me salvaste de um abysmo,
Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,
Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemava
Contra a tua justiça; eu te suppunha
Auctor do mal, que os homens machinavam;
Cria-te inconsequente, e despiedado,
Pois sentimentos me imprimiras n'alma
Que ás tuas leis contrarios me pintavam!…
Tu foste, Alzira, foste a que lançaste
Um brilhante clarão ante os meus passos…
Finalmente aprendi que a singeleza
Do mundo era banida, e o seu imperio
Os homens tinham dado á hypocrisia.
Ruins!… Amor por crime affiguravam,
E nem um só de amor vivia isempto!…
Para elles não é crime um crime occulto,
Porque a simulação reina em sua alma,
Porque o remorso abafam em seu peito.
Amor um crime!… Os gostos mais completos,
E os mais puros deleites o acompanham:
Se a ventura maior se une ao delicto,
Quem ha que se não diga delinquente?
D'entre as delicias, que gosei, querida,
Com as tuas lições fugiu o crime.
Eu não senti no coração bradar-me
A voz d'esse pezar, sequaz da culpa:
No meio dos prazeres, que gostava,
Graças rendi a um Deus, que m'os concede:
Se elle troveja sobre os criminosos,
Nunca os seus raios menos me assustaram!…
Um amante acabou o que encetaste;
Elle, cujo olhar meigo me assegura
As doces qualidades, que o adornam,
Affastou-me do espirito receios,
Que de mau grado combatia ainda.
Reinava em seus discursos a franqueza,
E o fogo, que brilhava nos seus olhos,
Que o rosto lhe incendia, em seus transportes
Que eram nascidos d'alma, me dizia:
O labéo da impostura o não denigre;
Não é como o dos outros seu character;
Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!
Se tão amavel é o teu Alcino,
Ninguem como eu e tu é tão ditoso!…
Pouco preciso foi para vencer-me:
Não teve que impugnar loucos caprichos,
Com que ufanas amantes difficultam
O mutuo galardão, que amor exige:
Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos
Seus mimosos favores, porque causa
Havia de indiff'rença dar indicios,
Quando o meu peito, ancioso, palpitava?
Se eu o levava da ventura ao cume,
Não me dava elle a mão para seguil-o?
Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;
E se o pudor as faces me tingia,
Inda as chammas d'amor mais me abrasavam.
Eu nadava em desejos indiziveis;
E quantos beijos recebia, tantos
Cheios de egual fervor lhe compensava:
Seus labios inflammados ateavam
As doces labaredas, em que ardia,
E meus labios, aos labios seus unidos,
Sensações recebiam deleitosas,
Que me filtravam pelo corpo todo…
Tão grandes emoções exp'rimentava,
Que a tanto gosto eu mesma succumbia!
Presa a voz na garganta, não sabendo
Nem já podendo articular palavra,
Respirando anciada, e com vehemencia,
Os meus sentidos todos confundidos,
Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando
Signaes de vida, de prazer morria.
Excepto o meu amante, em taes momentos
Longe da idéa tinha o mundo inteiro:
O mundo inteiro então forças não tinha
Para do meu amante desprender-me.
Debalde ante meus passos furibundo
Monstro espantoso vira: em vão lançara
Do aberto seio a terra ondas de fogo;
Em vão coriscos mil o céo vibrara;
Dos braços do amante em taes momentos.
Nada, nada podia arrebatar-me.
Oh quem podéra, Alzira, descrever-te
Que extasi divinal veiu pôr termo
A taes instantes de suaves gostos!…
Isto pode sentir-se, e não dizer-se…
Agora, e só agora me parece
Que começo a existir: reproduziu-se
Uma total mudança na minha alma.
O mundo para mim já tem encantos;
Sob outras côres vejo mil objectos,
Que a phantasia me pintou tristonhos:
Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,
A Natureza seus thesouros me abre:
Tudo te devo, amiga; em todo o tempo
A teus doces conselhos serei grata:
Oxalá ditas tantas saborêes
Quantas por ti, querida, eu propria góso!
Oxalá sintas com Alcino os gostos,
Que eu exp'rimento, de um amante ao lado!
Nem ventura maior posso augurar-te,
Porque maior ventura haver não pode.
[EPISTOLA VI.
ALZIRA A OLINDA.]
A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua innocencia?
Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,
Dão-me a ver que a discipula inexperta
Ha de em breve ensinar a propria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos,
Que tanto a angustiavam… Não sabia
Qual d'extranha mudança em suas fórmas,
Em seus membros gentís a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais activo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolphar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero successo
Pretendes, tu, querida, dar-me a gloria?
Não, não fui eu; sómente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida suggeriu remedio activo!
Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!
A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em lettras,
Vejo, que annunciar-me antes procura
Apoz do que se ha feito o que se pensa,
Do que por gradações d'acção o int'resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.
Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando innocente
Menos recato n'ellas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a affectavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingenua confissão d'esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolphas.
Quero saber porque impensados lances
D'um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando, abrasada em férvidos desejos
Misturados com dôr indeffinivel,
De amor colheste attonita as primicias,
E provaste entre gostos, e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Elle te dá prazer, d'ella o confia:
Gosta os momentos, que gosar não podes,
Do goso em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embhora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sêl-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d'escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo,
Saiba eu teus momentos deleitosos.
Mas vê que o sacrificio, que te peço,
Eu propria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh'alma!
Como só elle faz meus gostos todos!
Chamem embhora apathicos estoicos
Ardores sensuaes os que me inflammam;
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Taes vilipendios valem o que eu góso!
Venha a rançosa, van theologia
Crimes fingir, crear eternos fogos;
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que elles trovejam!
Nos mais puros deleitos embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuizos,
Quaes cabeças fataes d'hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não ha para os christãos um Deus diff'rente
Do que os gentios têem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da oppressora politica productos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o off'rece:
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu throno assenta em bases,
Que firmam a Razão, e a Natureza.
Outra vez eu farei que estes dictames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando illusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta, e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões, e Larvas
Para os gostos da vida atassalhar-te,
Para a remorsos vís dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam
As emoções da propria Natureza:
Sê religiosa e firme em pratical-as.
O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N'um momento desfez o que em tres lustros
Nescios paes procuraram suggerir-me.
Por habito adoptei de uns a doctrina,
Por gosto d'outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quam perplexa
Minha alma balançava entre os combates;
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma oppunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.
Foi n'este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: occulta força
Me impellia a adoral-o; não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o apparato
Olhava com um sonho!.. É impossivel
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d'Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n'alta noute
Ao thoro nupcial foi conduzir-me.
Ficámos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba,
Que ao tiro assustador vôa, e revôa,
Aqui, e ali mal pousa, se levanta
Sem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inespontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrasava.
Não sei que meigos termos n'este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, supplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso sobre o leito
Me foi emfim lançar. Quando eu ardia
Em chammas de pudor, o mesmo incendio
Dava a Alcino soffregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciaes ornatos; e seus beijos
Convulsivos exforços, que lhe oppunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando affouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha acceso, então tomando
Mais activo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: eu languida fitando
N'elle amorosas vistas, reclinei-me
Sem resistir-lhe mais, sobre o seu collo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflammados beiços de tocarem
Occultos attractivos… longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr'hora passavamos unidas
Em innocentes brincos… feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubís, patentes foram.
Ao voluptuoso tacto palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nús, meu collo, eu toda estava
Coberta de signaes de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava,
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d'Hercules as forças
Ali vencera… As minhas que fariam?
Co'as forças o pudor desfallecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!…
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!..
«Que graças apparecem espalhadas!..
«Que thesouros de amor sobre estas bases!..
«Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!..
«Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
«Deixa imprimir meus osculos aonde
«Entre fios subtís se esconde o nacar!..
«Deixa esgotar a fonte das delicias!..
«Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!..
«Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..»
Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolphadas
Todas as sensações luctavam juntas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Communicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva acção, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu propria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebro impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emmanação de intimos membros,
Que electrisavam fogos insoffriveis,
Innundou o instrumento das delicias,
Como se ao crime seu vibrassem pena,
Ou antes dessem premio: affadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veiu ao meu unir seu rosto.
N'este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de suffocar activas chammas,
Scentelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.
A ardencia dos desejos combatia
Receio occulto, sem nascer do pejo.
N'um volver d'olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a ver quam bem talhado
D'hombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pelle; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados,
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obesso,
Egual nas proporções… Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se,
Não tendo de um a rude valentia,
Nem tendo d'outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa avidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao ver do sexo as distinctivas fórmas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre os quaes, de chofre,
Assestou o canhão, que me assustava.
Ao medo succedeu uma dôr viva,
Como se agudo ferro me cravassem....
Alcino impetuoso ía rompendo
A tenue fenda… Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia
Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lagrimas bebendo,
Respirando com ancia, e furibundo,
Com a bôca calada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagellavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros soffrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d'Alcino, a afflicção minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus exforços crueis para romper-me.
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpôr, carece de abater-lhe
Antes d'entrar, humbraes a que se encosta.
A violenta fricção traíu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me,
Da propria sanha aos impetos rendido,
Succumbiu, espumando horrendamente.
Da electrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda.
O insoffrivel ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Taes estragos causou, que mais valêra
A entrada franquear ao sitiante.
Já dor não conhecia: chammejava
Meu proprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as vêas parecia.
Na estancia do prazer lançára Alcino
Do Mont-gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expor-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a victoria, de triumphos cheia.
Tardava a meus desejos ver completa
D'Alcino a empreza; eu mesma o provocára
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse affouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dor, bem que me espedaçasse.
Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edificio tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)
O muro se escallou!… Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei; em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reducto de amor o intimo accesso
Penetra entre meus ais, e os meus gemidos;
Outra vez attingiu supremo goso,
Goso celestial, cujos effluvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Que socegou a dor, chamando a vida.
Lethargicos alentos me abysmaram
N'um pélago de gostos indiziveis;
Elevaram-me a um céo d'immensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com phrenetico ardor, com ancia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida;
Vozes, suspiros confundindo… tanto,
Tanto em fim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n'um momento
Ineffaveis delicias destillando
Alcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo,
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades…
Minha Olinda, que instantes!… Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!…
Amarga, acerba dor succumbe ao goso
Da ventura sem par… Vitaes alentos
Saborear não podem tantos gostos…
É preciso morrer entre deleites,
E melhor fôra não tornar á vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.
Sete vezes Amor chamando ás armas
Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Victoria!»
Da indefensa coragem conduzido
Morphêo veiu c'roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D'Amor com as lições sublime vôo
Erguer affouta sobre o nescio vulgo;
Este odeia o prazer por van modestia,
E as pudicas vestaes, escravas do erro,
Não cessam d'embair-nos, affectando
D'uma virtude van mimicas fórmas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Victorias, que do erro heróes alcançam.
Toma das minhas mãos, amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triumphos a ganhar, cheios de gloria:
Docil tua alma a improbos dictames,
Docil será tambem de mais bom grado,
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa Vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tacteando abysmos;
Desapprende a fingir: só quadra ao vicio
Acobertar-se com mendaces roupas.
A modestia, o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n'uma alma vil pode arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d'em torno a si, ver quam distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita.
Eu não córo de dar-me toda a Alcino,
Nem eu córo tambem de confessal-o:
Instinctos naturaes se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?…
Se é innocente a acção, a voz não pecca;
D'est'arte saborêa o que estudaste,
E d'est'arte falar, ah! não vacilles!…
Não te escuse o pensar que egual pintura
Objecto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre ha mudança,
Amor sempre varía os seus deleites.
Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras;
Usa da singeleza que te é propria,
E abre o teu coração, cheio de goso,
Qual, antes de o provar, ingenua abriste.
Se expôr da sorte infensa a crueldade
Dá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta,
Sobre-eleva o prazer á extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! annue aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.
[EPISTOLA VII.
OLINDA A ALZIRA.]
Tu não podes saber, querida Alzira,
Com que alegria as cubiçadas lettras
Da tua Olinda foram recebidas!
Não o podes saber, nem eu dizer-to.
Que pura locução, que Amor ensina!
Quam diff'rente linguagem da que falam
Os livros, que me dá o meu Bellino!
N'elles descubro o sensual estylo
Que a modestia revolta, e que não quadra
Ás puras sensações, que Amor excita.
Phrase brutal, sem arte, e sem melindre,
Qual despejada plebe usar costuma;
N'elles de Amor os gostos enxovalha
Mysterioso véo, que arrancar ousam
Com mão profana d'ante o sanctuario
Que Amor encerra, e d'onde o deus occulto
Manda aos mortaes um cento de venturas.
D'elles o numen foge, e por castigo
Leva apoz si deleites, que não provam:
Em vez de graças mil, de mil prazeres
Priapeo tropel impios incensam.
Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,
Onde o prazer fugaz, lassos os membros,
Sob mil fórmas em vão se perpetua.
Lassos os membros, lassos os sentidos,
Debalde esgotam, soffregos de gostos,
De impudicicia innumeraveis gestos.
Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;
Como é vil a expressão, e é vil o goso
Que uma Thereza, que outras taes francezas
Em impuros bordeis gabar se uffanam!
Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio
Que a um fraco sexo deleitosos modos
Fagueiros, ternos emprestar costumam,
Para do amante meu obter a custo
De obscenas producções o sacrificio,
Que o coração corrompem, e devassam
Puros desejos, sentimentos doces.
Mostrei-lhe que o prazer esmorecia
De amavel illusão sem os preludios;
E que, apezar dos seus vivos protestos,
Se os sentidos assás lisonjeava,
Mil emoções gostosas embotando,
Impellido a gosar continuamente,
Escravo do prazer na sua amante
Não fartaria hydropicos desejos:
Ardentes Messallinas buscaria,
Entre os braços das quaes mais facil era
Á vida termo pôr, que saciar-se.
Cedeu às minhas supplicas, e agora
Grato me diz — que se elle da ventura
O caminho me abriu, eu n'elle o guio:
Assim, quando os sentidos fatigados
De amor se negam a esgotar delicias,
Mana do coração inexhaurivel
Prolifica virtude, que os alenta.
Assim de gostos perennaes correntes
Franquêa Amor, a quem o não profana:
De Amor os gosos são como o diamante,
Que, sem o engaste que tocar-lhe véda,
Perdera a polidez, perdera o brilho.
Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno:
Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,
Como a ternura impera nos sentidos:
E d'um, e d'outro regulando as forças,
De amorosos tropheos requinta a gloria.
O sensual atolla-se nos vicios,
Cujo infesto vapor todo o corria
De lançar-lhe no tumulo o esqueleto;
D'outra arte aquelle, que libar suavisa
Nectar, que Amor esparge aos seus validos,
Das rugas, e das cans não teme o estrago;
Que nos ultimos annos pode ainda
Em seu transporte Amor beijar na face.
Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira,
Que a rude Olinda como tu descreva
A emmanação dos gostos, que se provam
Quando o primeiro amor os desenvolve
Da terna virgem no innocente peito?
Reclamas a candura, de que usava
Antes de me illustrar de Amor o facho?
Ousas mesmo increpar-me de artificio,
Porque eu não sube delicada têa
Urdir aos olhos teus, porque eu não sube
As effusões de amor envolver n'ella,
E, qual me envias, dar-te digna offerta?
Basta, tu mandas; vou obedecer-te.
Tenho ante os olhos instrucções sobejas
Para pintar o quadro dos deleites
Que de dous entes n'um absortos brotam.
Tu me dás os pinceis, o molde, as côres;
E no meu coração, prezada amiga,
Fecunda o goso meigos sentimentos,
Que só acabarão, se amor acaba!…
Que chimericos ceos fórma a impostura!..
Aonde móres delictas se promettem
Que as de um amante, d'outro ao lado unido?
Eu sonhava illusões, antes que fosse
Nos mysterios de amor iniciada.
Errava de um em outro labyrintho,
D'onde os conselhos teus, amada Alzira,
E Amor, dando-me o fio de Ariadna
Me fizeram sair: deixam-me forças
Para abafar o monstro, que meus dias
Tinha de funestar com vãos temores,
Filhos do erro vil, da fraude abortos.
Qual vaguêa nas trevas sem acordo
Perdido o tino, afflicto o caminhante,
D'alta terra entre as faldas pedregosas,
Ou de invia selva na espessura vasta;
Aqui tropeça, ali se encontra, e bate,
Macera as mãos, o rosto, e tenteando
Um pé lhe escapa, cai, rola-se o triste,
E n'um barathro crê despedaçar-se;
Eis improvisa luz assoma ao longe;
Attenta o infeliz, toma-a por norte,
E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:
Taes tuas lettras para mim brilharam
Na escuridão fatal, que me envolvia.
Não espaçou Amor ditoso prazo
Para no gremio seu a tua Olinda
Bemfazejo accolher. Vira eu Bellino
Passar uma, e mil vezes, attentando
Com interesse em mim, attentei n'elle,
Em seu terno olhar, e meigos gestos;
Vi que um amante o ceo me destinava:
Em breve os olhos meus lhe responderam
Ás mudas expressões, que os seus diziam:
Em breve as suas cartas, de amor cheias,
Fizeram dar egual calor ás minhas,
Accendendo os meus férvidos transportes.
N'uma cerrada noute, quando ao somno
Estava tudo entregue, Amor velando
No meu peito, e no seu, a vez primeira
Nos ajuntou em fim: elle exultava
De indizivel prazer: eu me sentia
Na agitação maior de gosto, e susto.
Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso
Té ao aposento meu, subito fogo
Calou-me as vêas, penetrou-me toda.
Mas quando, já fechados um com outro,
Vi que seus gestos, mais que suas vozes,
Sua ternura ousada me exprimiam,
Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto.
Tarda lembrança, que cedia a embates
De ignoto medo, que o rubor gerava!
Queria eu impedir-lhe ardentes beijos,
Mas vedavam-no as chammas, que accendiam;
E ás primeiras caricias insensivel,
Luctando entre o pudor, e entre o desejo,
Em mil contrarias reflexões absorta,
Meu silencio e inacção a empresas novas
De maior valor, Bellino excitaram:
Confesso, que devéras quiz oppôr-me
A seus intentos no primeiro instante:
Porém pouco tardou que abrazeada
Em chammas voluptuosas, resistindo
A seus esforços, mais lhe franqueava
Facil accesso a proximos triumphos.
Sentado junto a mim, lançando um braço
Em redor do meu collo, até cingir-me.
E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;
Com a mão sobre os peitos inquieta,
Que ao crebro palpitar os apressava;
E os labios discorrendo os olhos, faces,
Té fixal-os nos meus, ou por entre elles
Confundindo os alentos, lançar chammas
Dentro em meu coração, qual facho acceso;
A ardente lingua sua unindo á minha,
Ou, sobre o seio meu calando a bôca,
N'elle impressos deixar seus proprios beiços.
Com mão mais temeraria, do vestido
Pela abertura a occultos attractivos
Indo o fogo atear… Ah! que eu não pude
Mais resistencia oppôr a seus desejos!
Apenas leve fisga separando
Um dedo seu, que um raio parecia,
Tocou o sitio onde os deleites moram,
Subito, alvorotados uns com outros
Travando estranha lucta, me levaram
Onde, fóra de mim, quasi sem vida,
Só quanto então gosei, gosar podia.
Dos membros todos foram engolphar-se
As sensações ali; e só tornaram
A ser o que eram, quando ao mesmo tempo
Sua potencia intrinseca exhalando;
Fiquei de todo languida, e abatida:
O perverso Bellino attentos olhos
Nos meus então fitando, quiz ler n'elles
De que ficções minha alma se occupava.
Foi extremo o rubor, que de improviso
Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,
Escondendo meu rosto no seu peito,
Por não poder suster-lhe as doces vistas.
A minha terna acção atraiçoou-me:
Que o maligno, pegando-me do rosto
Com ambas suas mãos, mais me encarava;
De confusa me ver folga, e se ufana,
Com beijos mil parece devorar-me;
Entre os seus braços mais e mais me aperta,
E pouco a pouco sobre mim se inclina:
Minha cabeça no sophá encosta,
Meus pendentes pés trava, e os submette
Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo
Senti do corpo seu o pezo grato.
Meu leito era defronte: mas Bellino
No largo canapé circ'lo bastante
Habil athleta achou para o combate.
Perplexa, em mil affectos engolphada,
Irada, enternecida, em cruel lucta,
Meus sentimentos todos labutavam:
Um timido pudor activos fogos
Contrariava em vão, em vão retinha
Ignotos medos, soffregos desejos:
Suspensa, e curiosa eu esperava
Gostosa scena, em que prolixas noutes
Pensando o que seria, despendêra.
Em quanto d'esta sorte embellezado
Me tinham taes idéas, já Bellino
No phrenesi maior de gráu, ou força,
Os meus secretos votos preenchia.
Em torno da cintura levantados
Meus trajos inferiores, sobre os joelhos
Sentindo os de Bellino desprendidos,
Alargando-me os pés, tomando entre elles
Vantajosa attitude a seus projectos,
Franqueando co'a mão facil entrada
Á chammejante lança, que tocava
O mesmo sitio, que invadíra o dedo:
Forcejou para ferir-me com seus golpes,
Com impeto tamanho, com tal raiva
Que nem dos gritos meus se commovia,
Nem podia o meu pranto apiedal-o;
C'o forte impulso as movediças carnes
Levava-me ás entranhas; da ferida
Corria o sangue, mas sem que podesse
Ao ferro assolador achar bainha.
Seus dedos sanguinarios finalmente
D'uma, e outra parte com vigor sustendo
Flexiveis membros, redobrando as forças
Da valente impulsão, a cruel lança
Rompeu cruento ingresso… traspassou-me.
Que dor, Alzira!… Dei tão alto grito
Que Bellino depois disse o assustára,
Bem que fosse de meus páes distante o quarto.
Sem sentidos fiquei, em quanto o amante
Os trophéos da victoria recolhia;
E só tornei a mim, quando ao meu sangue
Suave irrigação veiu mesclar-se,
A agitações de gosto a dor cedendo,
De gosto inexhaurivel, que provára.
N'um momento apertada com Bellino,
N'activa sensação toquei com elle
A meta das delicias, transportada
De muito mais prazer do que a dor fôra.
N'este instante convulsa, e delirante,
E como se um espasmo supportasse,
Intirissada toda, os meus alentos
Senti reconcentrar-se n'um só ponto.
Findava o meu amante, inda eu gosava
(Comprimindo-o comigo) altas venturas,
De que sedenta então não poderia
Fartar-me assás: meus braços exhauridos,
Meu collo, e pés, eu toda fatigada
Do vehemente tremor, em que lidára.
Caí prostrada, quasi semi-morta.
Quando a meus olhos (que caligens densas
Tinham coberto) a luz tornou de novo,
Volvi-os sobre o amante, de tal sorte
Que ao vêl-o já supplice o instigava:
Não ficava ocioso n'este tempo,
Que no exame gastou do entrado forte,
Pasmado dos estragos, que fizera,
E dos despojos, que lucrava alegre.
Da machina, que a praça expugnou firme,
A estructura e altivez eu divisando,
Custava-me a atinar como podéra
Plantar-se o obelisco no reducto estreito.
Bellino minhas vistas comprehendendo,
Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,
Marmorea rigidez, côr escarlate,
Fórma, e calor de obuz, que disparava.
Quando submisso, da peleja lasso,
O vi depois sem o estendido conto,
Brancas roupas trajava, mais humilde:
Mas agora, affrontado, arremeçando
Monarcha ufano, a purpura do collo,
Com furor ao combate se aprestava.
Reverberou seu fogo em minhas faces,
E a vêa e vêa d'ellas espalhado
De todo o corpo me filtrou os membros.
Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,
Fez-me Bellino levantar, e tendo
Elle sentado unidos os joelhos,
Sobre elles me sentou, e franco accesso
Da lança abrindo á ponta, a foi de manso
No riste pondo, té que a meio conto
N'elle embebida, sobre si de todo
Levando o pezo meu, entrou de modo
Que fiquei té ás visceras varada.
A introducção tão forte pouco affeitos
Meus delicados membros se avexaram:
Mas curvando-me um pouco, e com justeza,
Achei convir ao estojo o instrumento;
Cuja palpitação, sem ajustar-nos,
Em cadencia reciproca alliada,
Bastava a provocar gosto indizivel,
De modo que sem mais fadiga eu pude,
Na grata posição Bellino immovel,
Attingir o prazer mais saboroso,
Nadar em mil deleites engolphada:
Aqui, amada Alzira, essa virtude
Que appellidam pudor, foi-me odiosa.
De seus grilhões liberta, possuida
De um venereo furor, impaciente
De comprimir a mim o charo amante,
Arranquei-me da lubrica attitude,
Sobre elle me arrojei, toda anciosa
De me identificar c'o meu Bellino;
Estreitada com elle, abandonada
De amor á raiva, que ambos incendia,
Sobre mim o arrastei junto do leito,
Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,
Do corpo os membros todos enlaçados
Misturando nos osculos o alento,
Nos osculos libando doce nectar,
Em tal agitação, que aos ceos alçar-me,
E abater-me aos abysmos parecia;
Ávida de absorver a grossa lança,
De soffrer-lhe a rijeza diamantina,
E de arrostar-lhe os golpes incessantes,
Sentindo o instante em que violento impulso
De celeste effusão marcava o termo,
Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,
Tanto me impertiguei, que o meu amante
Sustive sobre mim, suspenso, em quanto
Aos finaes paroxismos succumbindo
Ao meu uniu seu ultimo gemido,
E dentro das entranhas abrazadas
Lançando-me torrentes d'almo influxo,
submersa me deixou n'um mar de gosos.
Julgas, Alzira, que entre tanto gosto
Na assidua compressão me não doiam
As maceradas meliadrosas carnes?
Ah! que esta dor pelo prazer vencida
Irritava emoções deliciosas,
Sobre-elavava ás sensações mais gratas.
Qual sequioso cervo, repassado
Da calmosa avidez, suaves gotas
Rabido anhela, e quanto é mais soffrida
Ardente sêde, tanto mais ensopa
Uma, e outra vez insaciaveis fauces:
Não d'outra sorte flagellados membros
Da dor pungindos de crueis combates,
Balsamica emoção consoladora
Com avidez seccavam insoffridos:
A elluvião prolifica eu sentia,
Pruridos divinaes, e estremecendo
Á melliflua impressão, perennaes gosos
Bastante tempo apoz gosava ainda.
N'este instante expirou dentro em minh'alma
Temor nefando, que immolava ao culto.
Nova moral raiou de Olinda aos olhos;
Eu tive em pouco rispidos preceitos,
Ameaças crueis, com que ralavam
Meus annos infantís. Doeu-me, Alzira,
De ver tanta belleza definhada
Da hypocrisia victimas infaustas;
Aponta a edade, em que é d'amor forçoso
As delicias gosar; em que almo viço
Como nas plantas, n'ellas assignalam:
Grata reproducção comsigo abafam,
Envenena-se o germen da natura,
Infecção purulenta as vai minando,
Que seus dias termina, ou os condemna
A languida existencia: abate o corpo,
Abate o esp'rito corruído o alento.
Innovámos a acção, eu, e Bellino,
E eguaes em forças, sem perder coragem,
Nenhum de nós cedeu, bem que durasse
Algumas horas o combate acceso:
Mas da noute feliz o longo manto
Que os mysterios de amor commette ás trevas,
Com roseos dedos a invejosa Aurora
Cruel abrindo, faz dentro em meu peito
A escuridão entrar, que em torno tinha.
Foi-me odiosa a luz, que affugentava
De mim com o amor perennes delicias.
Uma e outra vez Amor tem facultado
Ao constante Bellino, á terna Olinda
Outros, como estes, prosperos momentos:
São de tormento para mim os dias
Que tel-o junto a mim debalde busco:
Para elle o tempo que sem ver-me gasta,
Figura-lhe de um seculo a distancia.
Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos,
Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida
Senão em machinar sua ruina,
De longo tempo não tivesse urdido
Iniquas tramas, horridas ciladas,
Que ao homem (digno premio de sua obra)
Barreiras põe na estrada da ventura.
Retrocede o infeliz d'um a outro lado,
Negras voragens abre ante os seus passos
Tropel de Furias, que comsigo arrasta,
Filhas do Erro, que animou insano.
A Fortuna que foi comigo larga,
Negou seus dons a meu querido amante.
Elle não conta nobres ascendentes,
De quem meus páes se dizem oriundos:
É quanto basta, para erguer muralhas
De alcance, entre elle e mim, inacessiveis:
O ditoso hymenêo não me é preciso,
O hymenêo, apparato de teus votos,
Para entre os braços seus tecer affouta
Indissoluveis nós c'o meu Bellino:
Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.
Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,
Abre meus olhos á Natura inteira:
Eu quero n'ella ver os meus destinos;
Só n'ella eu quero divinaes verdades
Solicita explorar, viver só n'ella:
Cumpre as gratas promessas, que me fazes,
Deva a ti só a tua Olinda tudo.
Não ha para os christãos um Deus diff'rente
Do que os gentios teem, e os musulmanos?
O que a razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o offerece;
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
Devo eu seguir o culto, que me apontam
As impressões da propria Natureza?
Tenho uma religião em pratical-as?
Que mundo é este pois, prezada Alzira?
Teem os homens levado o seu arrojo
Té forjarem um Deus na ousada mente,
Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,
Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogo
Extranhos povos a adorar constrangem,
Immolando milhões á gloria sua?
Nos labios teem doçura, e probidade,
No coração o fel, a raiva: os monstros
São máus por condição, ou máus por erro?
Não, eu não posso, Alzira, d'este enigma
Romper o denso véo: minhas idéas
Jazem n'um cahos de horrida incerteza:
Hesitar me não deixes por mais tempo:
Minha instrucção confio aos teus cuidados;
D'amizade o esplendor dá-te a mim toda;
Acaba de fazer-me de ti digna.
[SONETOS.]
[I]
Tendo o terrivel Bonaparte á vista,
Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama,
«Oh capados heróes! (aos seus exclama
Purpureo fanfarrão, papal-sacrista):
«O progresso estorvai da atroz conquista
«Que da philosophia o mal derrama!…»
Disse, e em férvido tom saúda, e chama,
Sanctos surdos varões por sacra lista:
D'elles em vão rogando um pio arrojo,
Convulso o corpo, as faces amarellas,
Cede triste victoria, que faz nojo!
O rapido francez vai-lhe ás canellas;
Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojo
Reliquias, bullas, merdas, bagatellas.
[II]
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um d'aquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:
Não quero funeral communidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a charidade:
Mas quando ferrugenta enchada idosa
Sepulchro me cavar em ermo Outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:
«Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»
[III]
Esse disforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a côr;
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:
A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até da pôr
A amotinada Europa toda em paz:
Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:
De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.
[IV]
N'um capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendo
O meu caralho, que de amor fervia:
Entre o susto, entre o pejo a moça ardia:
E eu solapado os beiços remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:
Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!
«Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada:
Não pode ella encobrir na mão langonha:
Suffocada ficou, a mãe corada;
Finda a partida, e mais do que medonha
Á noute começou da bofetada.
[V]
No canto de um venal salão de dança,
Ao som de uma rebeca desgrudada,
Olhos em alvo, a porra arrebitada,
Bocage, o folgazão, rostia o França:
Este, com mogigangas de creança,
Com a mão pelos evos encrespada,
Brandia sobre a roxa fronte alçada
Do assanhado porraz, que quer lambança:
Veterana se faz a mão bisonha;
Tanto a tempo menêa, e súa o bicho,
Que em Bocage o tezão vence a vergonha:
Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho;
Mas em vez de acudir-lhe alva langonha
Rebenta-lhe do cú merdoso esguicho.
[VI]
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas teem reinado:
Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleopatra por puta alcança a c'rôa;
Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Russia imperatriz famosa,
Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de Virgo e honra é tudo peta.
(D.)
[VII]
Tu, oh demente velho descarado,
Escandalo do sexo masculino,
Que por alta justiça do Destino
Tens o impotente membro decepado:
Tu, que em torpe furor incendiado
Soffres d'impia paixão ardor maligno,
E a consorte gentil, de que és indigno,
Entregas a infructifero castrado:
Tu, que tendo bebido o menstruo immundo,
Esse amor indiscreto te não gasta
D'impia mulher o orgulho furibundo:
Em castigo do vicio, que te arrasta,
Saiba a inclita Lysia, e todo o mundo
Que és vil por genio, que és cabrão, e basta!
[VIII]
Vai cagar o mestiço, e não vai só;
Convida a algum, que esteja no Gará,
E com as longas calças na mão já
Pede ao cafre canudo e tambió:
Destapa o banco, atira o seu fuscó,
Depois que ao liso cú assento dá,
Diz ao outro: «Oh amigo, como está
A Rita? O que é feito da Nhonhó?»
«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?
Não me darás noticias da Russu,
Que desde o outro dia inda a não vi?»
Assim prosegue, e farto já de gu,
O branco, e respeitavel camarim
Deita fora o cachimbo, e lava o cú.
[IX]
Arreitada donzella em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtís pachocho estreito:
De louro pello um circulo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e liza,
Em pingos vérte alvo liquor desfeito: