OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a 300 paginas impressa em bom papel, typo elzevir
1—Coisas espantosas.
2—As tres irmans.
3—A engeitada.
4—Doze casamentos felizes.
5—O esqueleto.
6—O bem e o mal.
7—o senhor do Paço de Ninães.
8—Anathema.
9—A mulher fatal.
10—Cavar em ruinas.
11 e 12—Correspondencia epistolar.
13—Divindade de Jesus.
14—A doida do Candal.
15—Duas horas de leitura.
16—Fanny.
17, 18 e 19—Novellas do Minho.
20 e 21—Horas de paz.
22—Agulha em palheiro.
23—O olho de vidro.
24—Annos de prosa.
25—Os brilhantes do brasileiro.
26—A bruxa do Monte-Cordova.
27—Carlota Angela.
28—Quatro horas innocentes.
29—As virtudes antigas.
30—A filha do Doutor Negro.
31—Estrellas propicias.
32—A filha do regicida.
33 e 34—O demonio do ouro.
35—O regicida.
36—A filha do arcediago.
37—A neta do arcediago.
38—Delictos da mocidade.
39—Onde está a felicidade?
40—Um homem de brios.
41—Memorias de Guilherme do Amaral.
42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.
45 e 46—Livro negro de padre Diniz.
47 e 48—O judeu.
49—Duas épocas da vida.
50—Estrellas funestas.
51—Lagrimas abençoadas.
52—Lucta de gigantes.
53 e 54—Memorias do carcere.
55—Mysterios de Fafe.
56—Coração, cabeça e estomago.
57—O que fazem mulheres.
58—O retrato de Ricardina.
59—O sangue.
60—O santo da montanha.
61—Vingança.
62—Vinte horas de liteira.
63—A queda d’um anjo.
64—Scenas da Foz.
65—Scenas contemporaneas.
66—O romance d’um rapaz pobre.
67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.
68—Noites de Lamego.
69—Scenas innocentes da comedia humana.
70 e 71—Os Martyres.
72—Um livro.
73—A Sereia.
74—Esboços de apreciações litterarias.
75—Cousas leves e pesadas.
76—Theatro: I—Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas.
77—Theatro: II—Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e flôres.—Purgatorio e Paraizo.
78—Theatro: III—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas!
79—Theatro: IV—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta e a viola.
80—Theatro: V—O Lobis-Homem.—A Morgadinha de Val-d’Amores.
CAMILLIANA
Camillo Castello Branco—Notas á margem em varios livros da sua biblioteca, recolhidas por Alvaro Neves.—1 vol. br. 600 rs.; enc. 1$000.
Camillo Castello Branco—Tipos e episodios da sua galeria, por Sergio de Castro.—3 vols., contendo inumeras transcrições da obra de Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs.
Poesias dispersas de Camillo Castello Branco—1 vol. de 247 pag. em papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. 6$000 rs.
Hosanna! Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica da 1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., br. 2$500 rs.
Os pundonores desagravados, por Camillo Castello Branco. Reprodução como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. Tiragem 60 ex., br. 1$000.
Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo, por Camillo Castello Branco.—Fl. 1$000.
COLLECÇÃO ECONOMICA
Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas
ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES
VOLUMES PUBLICADOS
1—Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin nos Alpes, por A. Daudet.
2—Esgotado.
3—Sergio Panine, por Jorge Ohnet.
4—Esgotado.
5—Soror Philomena, por Edmond e J. Goncourt.
6—Esgotado.
7—Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.
8—Esgotado.
9—Esgotado.
10—Esgotado.
11—Esgotado.
12—Esgotado.
13—Um coração de mulher, por Paul Bourget.
14—Esgotado.
15—Esgotado.
16—Esgotado.
17—Esgotado.
18—O ultimo amor, por Ohnet.
19—Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe.
20—Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.
21—Esgotado.
22—Esgotado.
23—Camilla, por G. Ginisty.
24—Trahida, por Maxime Paz.
25—Sua Magestade o Amor, por A. Belot.
26—Esgotado.
27—Os reis no exilio, por A. Daudet.
28—Esgotado.
29—Mentiras, por Paul Bourget.
30—Marinheiro, por Pierre Loti.
31—Esgotado.
32—A Evangelista, por Daudet.
33—Aranha vermelha, por R. de Pent Jest.
34 e 35—Esgotado.
36—Parisienses!... por H. Davenel.
37—Ao entardecer!... por Iveling Rambaud.
38—A confissão de Carolina, trad. de J. Sarmento.
39—Esgotado.
40—Esgotado.
41—O abbade de Faviéres, por J. Ohnet.
42—Esgotado.
43—Esgotado.
44—A nihilista, por C. Mendés.
45—Esgotado.
46—Morta de amor, por Delpit.
47—João Sbogar, por C. Nadier.
48—Viagem sentimental, por Sterne.
49—O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
50—A confissão de um rapaz do seculo, por Musset.
51—Esgotado.
52—O castello de Lourps, por J. K. Huysmans.
53—Amor de Miss, por J. Blain.
54—A sogra, por Laforest.
55—Colomba, por P. Merimée.
56—Katia, por L. Tolstoï.
57—Alma simples, por Dostoiewsky.
58—Duplo amor, por Rosny.
59—Contos fantasticos, por Hoffmann.
60—A princeza Maria, por Lermontoff.
61—Rosa de maio, por Armand Silvestre.
62—Esgotado.
63—O romance do homem amarello, pelo general Tcheng-Ki-Tong.
64—A dama das violetas, por F. Guimarães Fonseca.
65 & 66—Nemrod & C.ª, por Jorge Ohnet.
67—Prisma de amor, por Paul Bonhomme.
68—Historia d’uma mulher, por Guy de Maupassant.
69 & 70—Educação sentimental, por G. Flaubert.
71—Depois do amor, por Ohnet.
72—A fava de Santo Ignacio, por Alexandre Pothey.
73 & 74—O herdeiro de Redclyffe, por Mrs. Yongue.
75—Uma ondina, por Theuriet.
76—A familia Laroche, por Marguerite Sevray.
77—As grandes lendas da humanidade, por d’Humive.
78 & 79—A filha do Dr. Jaufre, por Marcel Prevost.
80—A dama das camelias, por A. Dumas, Filho.
81—Dezeseis annos..., por F. C. Philips.
82 & 83—O Desthronado, por A. Ribeiro.
84—Ninho d’amor, por A. Campos.
85—Bodas Negras, por Almachio Diniz.
86—Do amor ao crime, por Alphonse Karr.
87—A ilha revoltada, por Ed. Lockroy.
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—51.º Volume
A FLOR SECCA
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
A FLOR SECCA
ROMANCE
POR
M. PINHEIRO CHAGAS
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA-EDITORA
Rua Augusta, 50, 52 e 54
1904
LISBOA
Officinas Typographica e de Encadernação
Movidas a vapor
DA
Parceria Antonio Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º
1904
A JULIO CESAR MACHADO
MEU CARO JULIO
Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade.
Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez offerecer flor mais fragrante do que esta pobre Flor Secca, secca e sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria.
PINHEIRO CHAGAS.
I
Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos.
—Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.
Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.
—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.
Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, e disse-lhe:
—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á minha affeição.
—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.
Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.
Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado duas horas.
Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam sem brilho.
Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A tal convite nunca eu soubera resistir.
Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu par na polka.
O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus olhos.
—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.
—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.
Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia n’uma das suas horas de mau humor.
Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.
Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.
Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.
O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual gravidade.
—Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo as escadas do palacio.
—Pareceu-me bem, respondi eu, porque?
—É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco para o meu ouvido.
—Ah! redargui eu distraidamente.
Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu marido.
II
Esse Ah indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante, merece e vae ter uma explicação.
Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario, demasiado ardor.
Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro, terras encantadas das Mil e uma noites, choréas de brancas fadas, vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia: «Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha, são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões? Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as tristezas e amarguras da realidade!»
Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel a existencia.
Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e terra, como o caixão de Mahomet.
Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo. A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame» da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich. Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano. Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do instrumento!
Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente. Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil? Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito, enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do mundo do ideal.
Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica, ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile. Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas; via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas formosas visões.
Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle, é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real. O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens? Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma huri da Circassia?
Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido na minha alma, como altar atheniense, ao deus desconhecido. Os suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra que os exhalasse.
Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas, outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas, com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam mutuamente.
Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.
Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o Ah distrahido com que eu a acolhera?
III
Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?
Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.
D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».
Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de larangeira, emblemas nupciaes.
Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos suspensos nos copos esperavam a metamorphose.
A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas no horisonte.
Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal! Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és boa!»
Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, e...
E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e luva branca!
Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!
Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me devia conduzir á igreja.
D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.
Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar as brancas velas do baixel do meu destino.
Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!
IV
Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes.
Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da peregrinação, que eu ia principiar.
Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, a que respeitava era sua tia.
O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando sacudil-o.
Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos, que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa as lagrimas de despeito.
A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha logo um madrigal, que, pela fórma moyen-âge, revelava um adorador dos bons tempos dos trovadores das Ellas, revelação que restabelecia a verdadeira data da sua certidão de baptismo.
Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.
Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de velha, e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em censora constante das minhas acções.
Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só Pilatos ouviu da bôca de Jesus.
Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua, e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo, aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» ultima ratio da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas legendarias da idade de oiro.
Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha adversaria.
Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D. Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber.
Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me invulneravel, e, como o Achilles da Iliada, tinha o calcanhar accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico!
Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.
Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes, dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a pensamentos talvez perigosos.
Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.
Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D. Antonia da Cunha.
Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua hypocrisia beata, então é que se entoava um duetto, que desbancava a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade, ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada, enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não podia conter.
—Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber, uma costura caridosa.
—Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha nossa, até no nosso sexo acham advogadas!
Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma das minhas outr’ora tão queridas occupações.
V
Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do seu spleen incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio, arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da influencia diabolica da arte, e dos artistas.
Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu apparecer nas salas com aquelle chaperon sempre a meu lado, que me expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres, cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de quarenta annos!
Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e, apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D. Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o seu effeito.
Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos clamores, mantive a minha resolução.
Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo. Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha vida mesquinhamente agitada.
Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
—Claudio! amice! onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
—Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de braços abertos.
—Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade italiana está matando o lazzarone, a chuva mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas a bordo de um steamer. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.
—Alberto, deixa-me...
—Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, Claudio!
—Consente, Alberto, que...
—Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza devemol-a ao Beresford...
N’este momento entrou um criado com luz.
Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia.
—Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me palrar como um idiota que sou...
—Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia.
—É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido cordial e curiosamente?
Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:
—Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas ha de confessar que na escuridão era difficil...
—Ora, das velhas nunca os senhores fazem caso.
—Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe, parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?
—Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora uma loucura d’essas. Os homens...
—São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
—Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu agora de França.
—Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
—Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
Levantámo-nos e fomos para a sala.
Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do fogão.
—Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,
Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!
—Safa, que egoista! exclamou Claudio.
—Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas razões: a primeira porque são em latim...
—E a segunda? perguntei eu.
—Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
Desatei a rir.
—Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?
—Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
—Mas, parece-me...
—Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente o viajante recem-chegado?
—Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
—Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.
—Qual é? perguntou Claudio.
—O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario, que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo, andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª D. Antonia?
—O que?
—Dizer mal... que é um grande prazer.
—Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por exemplo...
—Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior. O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella?
—Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.
—Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja contemporanea.
—Bazilia!...
—Sim, mulher de D. Bazilio.
—Qual D. Bazilio?
—Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois por outro chamado Rossini!
—Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
—Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.
—Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha sido mystificada, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
—Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu marido, para dizer alguma coisa.
—Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes principalmente. Os lazzaroni andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
—Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de certo os eccos da strada Balbi. Levem-me á Italia, e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem bersaglieri? não sei, não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
—Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia de Tibullo.
Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
—Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de melodia a deliciosa serenata do Marino Faliero de Donizetti. Como por mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore branco. Avultou-me ao longe o Bucentauro, com o seu magestoso cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da chrysalida, como a Venus da espuma!
—O que! ouviu em Veneza a serenata do Marino Faliero? acudi eu com jubilo infantil.
E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava rijo, fazendo gemer os postigos.
Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia muito com a aza branca magoada!
Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que entregue a um delicioso extasi.
—Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
—Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?
—Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a Lucia e a Norma são as duas chaves do Paraizo.
—E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.
—Oh! esse é o porteiro do inferno.
Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:
—Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a darem eternamente o dó do peito. Pois onde queria que eu collocasse o author do Roberto do Diabo? No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do Roberto é a pavorosa traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da abertura do Propheta! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!
N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e saiu.
VI
Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito. Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha, e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio!
Tal era a minha situação.
Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido, torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos, engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo, e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez.
Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado, e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia.
De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir; levantei-me e approximei-me da janella.
O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente n’essa athmosphera gelada, e abri a janella.
—Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia. Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê.
—Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.
—Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.
—Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda.
—Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas.
Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui me sentar ao pé da mesa.
Seguiu-se um silencio.
Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse o campo de batalha.
—Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam de conversar com estranhos. Seu marido e a tia de seu marido, segundo parece, não são dignos de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, era melhor que não casasse. Mas estas senhoras afrancezadas querem ter um marido para gosarem toda a liberdade, e para serem um objecto de escandalo para as pessoas virtuosas e tementes a Deus. E não desejam conversação de senhoras, isso não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando conversam com homens, e todas se embebem nas suas fallas, sem nem sequer deitarem uma vista de olhos para o esposo que receberam aos pés do altar. Com estas doidas é que os homens se entendem bem. Ah! mundo! mundo!
—Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? perguntei eu, affectando socego, mas ralada pela indignação que me fervia no peito.
—Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou ella, rindo-se com um riso sarcastico.
—Eu não entendo muito bem d’essa questão de carapuças; mas, se teve intenção de me insultar, dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar satisfeito, sabendo a que improperios estou todos os dias exposta n’esta casa, que devia ser para mim abrigo inviolavel contra as injurias de qualquer, muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua familia.
—Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! Chamam-se injurias as verdades!
—As verdades! mas que verdades? tornei eu impaciente!
—As que devia ouvir com mais attenção, quando lh’as diz uma pessoa, que só quer o seu bem. Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe só attenção a elle, e não dirigindo uma palavra só nem a seu marido, nem a tia de seu marido?
—Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura culpa se nem uma vez só entraram na conversação?
—Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma palestra, em que não ouvia senão heresias! Que S. Pedro não era porteiro do céo, e não sei que mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem com tanto sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse o Claudio!