Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Agosto 2008)
Maria Amalia Vaz de Carvalho
Alguns homens do meu tempo
Maria Amalia Vaz de Carvalho
Alguns homens
do
meu tempo
A ILL.ma E EX.ma SR.a
D. MARIA MANOELA DE BRITO
(Marqueza de Pomares)
Minha querida Manoela.
Lisboa. Dezembro 1888.
Maria Amalia Vaz de Carvalho.
GONÇALVES CRESPO
Porque tardaste tanto, ó poeta? Eu te esperava
Na minha solidão!
Para alguem sou o lyrio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideaes do Christo;
Para alguem sou a vida e a luz dos olhos,
E se na terra existe é porque existo!
Esse alguem que prefere ao namorado
Cantar das aves minha rude voz,
Não és tu anjo meu, idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!
Quando alta noite me reclino e deito
Melancolico triste e fatigado,
Esse alguem abre as azas no meu leito,
E o meu somno deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus, sobre a que chora
Por mim, além dos mares! Esse alguem
É de meus dias a esplendente aurora,
És tu, dôce velhinha, ó minha mãe!...
II
Conheceram tanto dono!...
Embalaram tanto somno
De tanta sinhá gentil!...
Na rêde, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa creoula repousa e dormita,
Emquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rêde perpassam as tremulas sombras
Dos altos bambús;
E dorme a creoula de manso embalada,
Pendidos os braços da rêde nevada
Mimosos, e nús.
..........................................................
..........................................................
O vento que passe tranquillo, de leve,
Nas folhas do engá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruido,
Que dorme a Sinhá.
III
IV
Ella scisma ao luar! Todo o passado
A seus olhos avulta, illuminado
Pelos dubios reflexos da tristeza...
Por uma noite assim, limpida e clara,
Sua modesta alcôva ella deixára
Por esse que ali dorme, e que a... despreza!
V
VI
Na quadra azul da mocidade, a gente
Parte rindo e cantando, estrada fóra,
Gorgeia a cotovia em cada aurora,
Suspira á noite o rouxinol dolente.
Ai! Ditoso o que parte alegremente,
O que não vio aproximar-se a hora
Em que é força volver atraz... embora
Nos arfe o seio de illusões fremente.
Para ti ainda existe o sonho alado,
A fé robusta, e a candida alegria
Que nos chovem do céu claro e estrellado.
Nunca sejas forçada, flôr, um dia
A erguer, chorando, o braço fatigado
Em busca da ventura fugidia...
...........................................................
...........................................................
RAMALHO E EÇA
I
O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA
RAMALHO ORTIGÃO
II
A HOLLANDA
RAMALHO ORTIGÃO
III
AS FARPAS
ANTHERO DE QUENTAL
I
OS SONETOS
II
III
Razão, velha de olhar agudo e frio
E de halito mortal, mais do que a peste!
Pelo beijo de gello que me deste,
Fada negra, bemdita sejas tu!
Bemdita sejas tu pela agonia
E o lucto funeral d'aquella hora
Em que eu vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas bemfazejas
Do desengano... pela paz austera
D'um morto coração que nada espera
Nem deseja tambem... bemdita sejas!...
IV
Porque a noite é a imagem da Verdade
Que está além das coisas transitorias,
Das paixões e das formas illusorias,
Onde sómente ha dôr e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és symbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano,
Em rede de mil malhas mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição
D'uma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão...
..................................................
..................................................
De que são feitos os mais bellos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? De illusões, de dôres,
De miserias, de magoas, e agonias!
O sol, inexoravel semeador.
Sem jamais se cançar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dôr!
Oh! como cresce sob a luz ardente
A seara maldita! Como freme
Sob os ventos da vida, e como geme
N'um sussurro monotono e plangente!
Em vão luctamos! Como nevoa baça
A incerteza das cousas nos envolve;
Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve
Nas suas proprias rêdes se embaraça.
O pensamento que mil planos traça,
É vapor que se esvae, e se dissolve,
E a vontade ambiciosa que resolve
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hymno
Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um pressentir divino...
Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Echoam nossas vozes que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo!
V
Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza
—«Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão!
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Belleza
Como embalou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria,
Silenciosa e triste, ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia.
(Sem ver uma só flôr das mil que amaste)
Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado
Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...
Envolve-te em ti mesma, oh alma triste!
Talvez sem esperança haja ventura!
Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento,
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a phantasia.
Atravesso no escuro a nevoa fria
D'um mundo extranho, que povôa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
Só das visões da noite se confia.
Que mysticos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abysmos apparecem
A meus olhos, na muda immensidade.
N'esta viagem pelo ermo espaço
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! irmã do Amor e da Verdade!
Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem = proscripto rei = mendigo escuro!
Se não tens que esperar do ceu (tão puro,
Mas tão cruel!), e o coração maguado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te então na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica
Faze um templo dos muros da cadeia
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!
VI
Empunhasse eu a espada dos valentes;
Impellisse-me a acção, embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado,
Ou caíra raivoso, amortalhado
Na fulva luz dos gladios reluzentes!
Já não viria dissipar-se a aurora
De meus inuteis annos, sem uma hora
Viver mais do que sonhos e a anciedade!
Já não veria em minhas mãos piedosas
Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas
D'esta pallida e esteril mocidade!
ANTONIO CANDIDO
I
II
TEIXEIRA DE QUEIROZ
(BENTO MORENO)
SEGUNDA PARTE
Octave Feuillet
une morte
O CASAMENTO E A EDUCAÇÃO
I
II
III
OS IRMÃOS GONCOURT
I
II
GEORGES SAND
Á LUZ DA SUA CORRESPONDENCIA
II
INDICE
| Pag. | |
| Gonçalves Crespo | [1] |
| Ramalho e Eça | [37] |
| Ramalho Ortigão | [53] |
| Anthero de Quental | [107] |
| Antonio Candido | [165] |
| Teixeira de Queiroz | [225] |
| Octave Feuillet | [257] |
| Os irmãos Goncourt | [292] |
| Georges Sand | [325] |
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| [#pág. 2] | rigorosas | ... | rigorosos |
| [#pág. 102] | Ortigão gão | ... | Ortigão |
| [#pág. 105] | phantasticamenre | ... | phantasticamente |
| [#pág. 132] | indifrença | ... | indifferença |
| [#pág. 134] | vibracão | ... | vibração |
| [#pág. 139] | dolorosa, | ... | dolorosa |
| [#pág. 150] | carateriscos | ... | carateristicos |
| [#pág. 150] | concontaminados | ... | contaminados |
| [#pág. 151] | no Quental | ... | do Quental |
| [#pág. 154] | e Diario | ... | o Diario |
| [#pág. 156] | apapparece | ... | apparece |
| [#pág. 163] | enenriqueceu | ... | enriqueceu |
| [#pág. 175] | iguorante | ... | ignorante |
| [#pág. 182] | muitos notaveis | ... | muito notaveis |
| [#pág. 188] | imaginção | ... | imaginação |
| [#pág. 196] | displinadora | ... | disciplinadora |
| [#pág. 197] | demonstrucção | ... | demonstracção |
| [#pág. 202] | ou ou | ... | ou |
| [#pág. 205] | que orador | ... | que o orador |
| [#pág. 213] | livro arbitrio | ... | livre arbitrio |
| [#pág. 248] | e | ... | é |
| [#pág. 250] | positita | ... | positiva |
| [#pág. 278] | acima do do | ... | acima do |
| [#pág. 280] | accceito | ... | acceito |
| [#pág. 295] | E extraordinaria | ... | É extraordinaria |
| [#pág. 315] | chamado chamado | ... | chamado |
| [#pág. 328] | mararavilhoso | ... | maravilhoso |
| [#pág. 330] | pelos menos | ... | pelo menos |
Foram mantidas as variações de nomes próprios.