MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
Scenas
do seculo XVIII
em Portugal
PORTUGAL BRASIL Lᴰᴬ
SOCIEDADE EDITORA
LISBOA
DA AUTORA:
- Primavera de mulher (poema), 1867.
- Vozes do ermo (versos), 1876.
- Serões no campo.
- Mulheres e crianças (Notas sôbre educação), 1880-1887.
- Contos e fantasias, 1880.
- Contos para os nossos filhos, 8 edições.
- Arabescos, 1880.
- Um conto, 1885.
- Cartas a Luísa (Moral, educação e costumes), 1886.
- Alguns homens do meu tempo (Impressões literárias), 1889.
- As crónicas de Valentina, 1890.
- Cartas a uma noiva.
- Pelo mundo fora, 1896.
- Arte de viver na sociedade ou Manual da vida elegante, 4 edições.
- Vida do Duque de Palmela, 3 vols., 1898-1903.
- Em Portugal e no estrangeiro (Ensaios críticos), 1899.
- Figuras de ontem e de hoje, 1902.
- Cérebros e corações, 1903.
- As nossas filhas (Cartas às mães), 2 edições, 1905-1906.
- Ao correr do tempo, 1906.
- No meu cantinho (Homens. Factos. Idéas.), 1909.
- Duqueza de Palmela (In memoriam), 1910.
- Impressões de História, 1911.
- Cousas de agora, 1913.
- Páginas escolhidas, 1920.
MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO
SCENAS DO SÉCULO XVIII
EM PORTUGAL
LISBOA
PORTUGAL-BRASIL LIMITADA
SOCIEDADE EDITORA
58—RUA GARRETT—60
RIO DE JANEIRO
COMPANHIA EDITORA AMERICANA
LIVRARIA FRANCISCO ALVES
Reservados todos os direitos de reprodução: em Portugal, conforme preceituam as disposições do Código Civil Português; no Brasil, nos termos do convénio de 9 de setembro de 1889 e lei n.ᵒ 2.577 de 17 de janeiro de 1912; nos países convencionados, em harmonia com a Convenção de Berne, a que Portugal aderiu por decreto de 18 de março de 1911.
Imprensa PORTUGAL-BRASIL—Rua da Alegria, 100—Lisboa
A MARQUESA DE ALORNA
CAPÍTULO I
O nascimento de Leonor de Almeida.—Seu avô Pedro de Almeida nas guerras da sucessão de Espanha. O seu govêrno da Índia. Sucessos que o assinalaram.—O título de marquês de Alorna.—Sua avó a marquesa de Távora D. Leonor no terremoto. Versos que ela inspirou.—A marquesa de Távora D. Leonor na Índia.—Festas pomposas.—Tragédia de Corneille.—O teatro de Pangim.—Influências atávicas do carácter de Leonor de Almeida.—Influências directas.—O atentado contra D. José.—A prisão dos fidalgos.—O tribunal da inconfidência.—A sentença.—O cadafalso de Belém.—A morte da marquesa de Távora.—Com que altiva elegância ela sofre a execução.—A carnificina de 13 de Janeiro de 1759.—José Maria Távora.—Duelo de morte entre Pombal e a nobreza da côrte.—A política pombalina.—A ferocidade de todos os condutores de homens.—Como é que na bravura de carácter português conseguem destoar vigorosamente os tipos de fôrça.—Lógica medonha da situação.—A marquesa de Alorna na Junqueira.—A marquesa de Alorna e Leonor de Almeida em Chelas.
Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, conhecida na literatura portuguesa pelo seu título de marquesa de Alorna, nasceu em Lisboa aos 13 de Outubro de 1750.
Foi seu pai D. João de Almeida Portugal, segundo marquês de Alorna, quarto conde de Assumar, veador da casa real, comendador da ordem de Cristo, e capitão de cavalaria na côrte. Foi sua mãe D. Leonor de Lorena, quarta filha dos terceiros marqueses de Távora. É das mais ilustres a ascendência de D. Leonor. Mas não é sómente pelo sangue e pela antiguidade que se recomenda a sua família. A futura marquesa de Alorna tem de quem opulentamente herdar a beleza feminina, o carácter viril e o extraordinário talento.
Sem nos perdermos nos meandros de uma remota e complicada genealogia, e indicando, a quem se interessa por êsses estudos a notícia que acompanha a edição completa das obras da marquesa, mandada fazer por suas filhas, basta remontar à origem do título de Alorna, que data do meado do século XVIII, para vermos como êle foi nobremente conquistado pelo avô da nossa biografada.
D. Pedro de Almeida, que mais tarde foi marquês de Castelo Novo e herdeiro de seu pai, teve o título de conde de Assumar (3.ᵒ), a comenda de S. Cosme, de S. Damião e de Cristo e mais bens da corôa e de ordem[1]. Distinguiu-se desde os vinte e dois anos como bravo militar e como capitão inteligente e hábil.
Nas guerras da sucessão de Espanha D. Pedro militou sob as ordens do marquês das Minas, e comandou um corpo à frente do qual se bateu como um valente na batalha de Saragoça. Depois tão nobremente se portou na de Vila Viçosa, que na participação escrita da batalha, o marechal austríaco Staremberg cita-o como um dos cinco mestres de campo generais que mais denodo e mais bravura manifestaram no combate.
Feitas as tréguas e assentes os preliminares do futuro tratado, foi a D. Pedro que se confiou a custosa missão de reconduzir a Portugal, sob a má vontade disfarçada ou clara dos espanhóis, o corpo de tropas que havia tomado parte, debaixo do comando directo do conde da Atalaia, nas duas batalhas de Saragoça e de Vila Viçosa.
Esta retirada, que não vem ao caso narrar aqui, foi uma verdadeira odisseia, que deixou lembrado nos fastos da história portuguesa o nome fidalgo de D. Pedro de Almeida. Em tão delicada conjuntura o môço general revelou não sómente a coragem ingénita da sua raça mas o tino, a prudência, a razão clara que são raros em curtos anos, que infelizmente se iam tornando raríssimos na casta a que êle pertencia.
Tais provas da mocidade indicavam eloqùentemente o seu nome para futuros serviços prestados à pátria. Estava esta numa das horas mais sombrias da sua degeneração lenta e dolorosa, num dêstes lances de angústia inconsolável que de há três séculos para cá tanta vez a teem pôsto a pique de subverter-se em abismo, que se não sabe bem aonde vai, se ao mar sem fundo, se ao pântano lodoso.
Em 1747 foi D. Pedro de Almeida, avô de Leonor, nomeado governador da Índia, num dos momentos mais críticos daquela nossa tão ilustre quanto descurada possessão.
O estado da Índia chegara nesse lance ao mais miserável extremo de objecção e abandôno. Um deficit formidável; o govêrno desorganizado e sem prestígio; desfalque na receita dos tributos, grave diminuìção no comércio; paralisia em todos os órgãos, de corrupção em tôdas as células dêsse corpo em que, por um momento, tinha circulado o mais puro, o mais generoso sangue português. A província fôra invadida pelos maratas, a raça indomável e feroz, da qual os europeus tremiam, e que só a férrea dominação inglesa, mixto de astúcia e fôrça, de traição e de energia, conseguiu definitivamante amordaçar.
D. Pedro de Almeida não teve mêdo à implacável, à selvagem e impetuosa bravura dessa casta de bandidos, e afrontando com supremo valor o poder marata correu ao assalto da fortaleza de Alorna, já que encontrara perdida, ao chegar à Índia, a de Pondá, que pouco havia nos tinha pertencido. Não foi sem resistência que a praça de Alorna foi tomada aos maratas; os portugueses sofreram grandes perdas, e muitos oficiais sucumbiram naquele primeiro assalto das nossas armas, que o desleixo tinha enfraquecido e embotado.
Aproveitando, porêm, com a sua costumada habilidade, o prestígio readquirido pelo nome português, na vitória que fôra renhida e bravamente disputada pelos contrários, o marquês de Castelo Novo tomou logo, quási sem resistência, as fortalezas de Bicholim, Avara, Tyracol e Bary[2].
A notícia destas vitórias excitou verdadeiro entusiasmo em Portugal. Estava por um fio a conservação dessas tristes relíquias do poder português na Índia. Se o marquês de Castelo Novo não se apossasse com tão feliz e pronta bravura de umas poucas de praças cobiçadas pelo inimigo, sustendo assim a roda de uma fortuna que tão contrária nos ia sendo, quem sabe se o que possuimos ali seria ainda hoje nosso! A êste homem notável pela decisão do carácter, e pela arte com que executava os seus planos arrojados, se deve porventura a conservação do nosso poder no Oriente.
D. João V recompensou o general vitorioso com o título de marquês de Alorna, que lhe foi concedido por um decreto muito honroso em 9 de Novembro de 1750.
Leonor de Almeida comemorava com justo desvanecimento e invocava com o legítimo orgulho os heróis da sua raça. Vê-se que tinha razão. Não era sómente pelos serviços de ante-câmara, ou pelas manhas de destros cortesãos, que os seus maiores tinham ascendido à posição que nobremente gozavam.
No mesmo ano de 1750, data do nascimento da ilustre mulher, cuja vida tentamos escrever, partia tambêm para o palácio dos vice-reis da Índia outro ascendente seu, o marquês de Távora, pai de sua mãe. Estava êste predestinado, não à celebridade do heroismo, brilhante e prestigiosa, mas à outra, que fica mais profundamente gravada nas almas, que inspira a universal simpatia, que gera as piedosas lendas... à celebridade do martírio.
A marquesa de Távora D. Leonor, espôsa dêste novo vice-rei e avó da marquesa de Alorna, fôra uma das fulgurantes belezas da côrte de D. João V, tão rica em formosuras, ou provocadoras e sensuais, ou deliciosamente sugestivas de místicos arrebatamentos de alma. Era natural que assim fôsse; essas mulheres eram indispensável ornato de uma côrte, cuja pompa lembrava a de uma satrapia oriental, cujos requintes galantes, cujo fausto devoto, cujo fanatismo violento e pagão, constituiam o espanto da Europa culta do tempo. Ninguêm entendia como tão extraordinários contrastes se podiam fundir num todo único. Mafra e Odivelas; as devoções a Nossa Senhora, e os amores com a cigana Margarida do Monte; o ajoelhamento permanente diante da côrte de Roma a pedir-lhe bênçãos, indulgências, privilégios, patriarcado, e a crónica apimentada que baixinho se repetia em todo o reino, tudo isto era tão extravagante que se perdia a cabeça na contemplação de tais prodígios.
Mas a marquesa de Távora conservou-se impecável no meio deletério e estonteante em que a devoção era um sensualismo mais doce, mais requintado que os outros, e o amor, precisava da sombra sonora e fresca dos claustros, do cheiro do incenso, das flores expirantes entre velas do altar...
Por um dêstes segredos de toucador, de que as privilegiadas não confiam de ninguêm o segrêdo precioso, conservou-se ela formosa até aos cinqùenta e cinco anos. Sabe-se isso, porque no ano do terremoto, em que contava justamente essa idade, Teodoro de Almeida escreveu um mau poema, Lisboa destruída, no qual se refere à sua rara formosura. Nesse poema, que só viu a luz em 1803, porque o seu autor, é claro, não se atreveu a publicá-lo em vida de D. José I, há uma vinheta em que se vê a miniatura da marquesa D. Leonor, e diz a tradição que era um retrato fidelíssimo em que o artista se esmerou a rogos do poeta. Estão com ela a filha, condessa de Atouguia, a nora, marquesa de Távora e uma neta.
Camilo, que é a fonte, fonte inexgotável e genuína, de onde tirámos estas informações, acrescenta naquela sua frase cunhada em oiro de Lei:
«O congregado Teodoro de Almeida não extrema a marqueza velha das mais novas, quanto a beleza:
Neste ponto avistaram de repente
Junto a si três matronas mui formosas.
«O certo é que a marquesa aos cinqùenta e cinco anos era ainda uma esbelta senhora, com o aprumo juvenil e o garbo da mocidade sadia e alegre. Ás maneiras fidalgas e altivez de raça ajuntava a superioridade do espírito, essa segunda fidalguia que devia torná-la odiosa à estupidez de suas primas.»
Um dos mil poetas detestáveis daquele tempo, dedicou à marquesa de Távora uns versos em que lhe celebrava o denodo na ocasião de embarcar para a Índia, de onde voltou justamente um ano antes do terremoto, para morrer da trágica maneira que sabemos[3].
Em Goa os marqueses de Távora celebraram com festas pomposas, ao gôsto da época, mas espiritualizadas por um toque de talento, que então não era vulgar, a aclamação de D. José I—o rei sob cujo poder êles tinham de vir a sofrer tão afrontosa morte!
O espírito da gentil e orgulhosa vice-rainha desentranhou-se em graciosas invenções que revelavam a sua cultura superior. Nessas festas quis ela manifestar aos estrangeiros a magnificência, um tanto ôca, as mais das vezes, fictícia quási sempre, do génio português. No teatro, mandado construir pela marquesa na capital da Índia, e que foi edificado dentro do paço de Pangim, houve durante três dias representações de gala. No primeiro representou-se em francês a peça de Corneille Porus vaincu par Alexandre. Dos seis personagens da peça cinco eram franceses e um português; e haver naquela época uma senhora da côrte freirática de D. João V que soubesse apreciar com lúcido critério o valor literário do nome de Corneille, indica da sua parte uma ilustração desproporcionada com o seu triste meio. Só ela tinha, porêm, ali essa cultura fenomenalmente rara, pois que o auditório não entendia palavra... «mas foi a representação feita com tão vivas expressões, que ajudados de um sumário em português, que a senhora marquesa tinha mandado traduzir da ópera, todos saíram satisfeitos e agradados da novidade, nunca até ao presente vista em Goa»[4].
Quem talhou os costumes e dirigiu o guardaroupa foi a própria marquesa, que respeitando a côr local, porque a tragédia se passava na Índia, seguiu o rigor dos trajos opulentíssimos, assistindo ela própria a todos os preparativos e trabalhos. Depois da tragédia houve baile e ceia opípara oferecida às fidalgas de Goa. Na noite seguinte representou-se uma ópera portuguesa desempenhada por curiosos, em que entraram os Correias de Sá, irmãos do visconde de Asseca. A esta festa seguiram-se outras em que a vice-rainha continuou a exibir as suas faculdades inventivas e a alta compreensão que possuia da grande vida e do luxo inteligente.
Nos intervalos dessas festas, ou no remate delas, mandava distribuir fartas esmolas pelas famílias fidalgas decaídas na miséria, «relíquias dos antigos potentados da Ásia arruinados pela dissipação, e durante os quatro anos do seu vice-reinado subsidiava com mesadas os que não podiam vir ao paço receber as esmolas. Êsses mendigos envergonhados eram os legítimos representantes da Índia portuguesa»[5].
Tinha um defeito a marquesa de Távora: era soberba da sua estirpe em grau inadmissível. Ás suas ironias desdenhosas de fidalga se atribuiu grande parte do ódio que o marquês de Pombal mais tarde manifestou cruamente aos seus. Mas êsse pecaminoso orgulho, de que se contam mil anedotas típicas, transformou-se na fôrça estoica com que suportou o martírio; depurou-se na energia inquebrantável com que recebeu a morte e a tortura moral que a precedeu, sem dobrar nem envilecer a sua bela cabeça aristocrática.
Neste nosso tempo de alta civilização intelectual em que as noções mais complicadas da sciência humana penetram, por meio da extrema vulgarização das ideas, até nos espíritos menos preparados por uma forte educação técnica para as receberem; neste nosso tempo—quem pode ignorar as influências poderosas que a hereditariedade exerce na formação de um organismo?
De um lado a energia indomável do ânimo da marquesa de Távora, o seu amor pelas especulações da inteligência ou pelas graças e encantos da literatura; o fino orgulho de raça que a exalta, a sua capacidade extraordinária de sofrer, com altiva resignação, a injusta fortuna: por outro lado a valentia heróica de D. Pedro de Almeida, a sua superioridade de inteligência e de carácter manifestada em acidentados lances, reflectir-se hão, com as mudanças inevitáveis de circunstâncias e de meio, na fisionomia de Leonor de Almeida, marquesa de Alorna.
Mas não sómente influências atávicas tinham de actuar eficazmente no seu espírito; outra fôrça ainda mais enérgica, ainda mais directa e positiva havia de exercer a sua acção dominante nesse temperamento delicado e resistente, enérgico e flexível, capaz de dobrar-se com a graça pendida de uma flor, e de reagir com a inquebrantavel coragem de uma alma de antiga têmpera.
A infância de Leonor de Almeida foi obumbrada pela tragédia histórica que, numa espécie de rubra nuvem de sangue, envolveu tôda a sua bela, florescente e poderosa família e a fulminou com raio sinistro.
Não contaríamos aqui essa catástrofe por demais conhecida, se não atribuíssemos, tanto a ela em si como às circunstâncias impressionadoras que a revestiram, uma influência decisiva no espírito de Leonor de Almeida. As sombrias ramificações dêsse drama enlaçaram estreitamente o destino da nossa heroína.
Á sombra densíssima que a cingiu desde a infância; às lagrimas maternas que lhe regaram a cabeça infantil e deliciosamente linda; ao horror mil vezes lembrado do suplício dos seus; à crudelíssima e longa clausura desse pai adorado, com quem ela viveu em íntima comunhão espiritual; às tristezas da sua adolescência, que buscara na poesia um refúgio abençoado, um voluptuoso anestesiante das torturas da alma; à disciplina férrea a que ela sujeitou o seu alto entendimento—a tôdas estas circunstâncias romanescas e dolorosas deveu ela de-certo parte do seu talento singular. As duas qualidades predominantes desta inteligência de mulher são o vigor quási viril do pensamento experimentado, e a extrema cultura adquirida em longos anos de prisão. Resistiu ao desespêro pelo trabalho e pelo estudo; resistiu ao tédio mortal pela curiosidade viva das cousas, que a teve sempre em comunicação simpática com o mundo exterior.
Foi, portanto, a desgraça dos seus, o género especial e trágico e grandioso dessa desgraça immerecida, que fêz dela a mulher forte, desenganada e triste que a vemos ser desde os quinze anos!
Uma noite, a 3 de Setembro de 1758, espalhava-se pela cidade o lúgubre boato de que el-rei D. José, voltando de, não sei que misterioso passeio nocturno, a caminho da Ajuda, fôra vítima de uma tentativa de regicídio, de que muito a custo escapara com vida.
Deveu-se o insucesso parcial da criminosa emboscada ao facto de el-rei, sentindo-se ferido pelo primeiro tiro, disparado (dizem) pelo duque de Aveiro ou pelo seu criado José Miguel, se lembrar de repente de que o cirurgião mor do paço morava na Junqueira, e ordenar, portanto, ao cocheiro que retrocedesse naquela direcção.
Morava ali perto o marquês de Angeja, D. Pedro José de Noronha, para cuja casa D. José quis ir, e que, alucinado de surpresa e de terror, recebeu, e deitou na sua própria cama o rei ferido.
Os conspiradores, distribuídos em diversos lugares e todos a cavalo, esperaram debalde por D. José, que uma intuìção, que diríeis milagrosa, salvara da morte, contrariando os planos tenebrosos dos seus inimigos.
Justamente na ocasião em que êste crime, gravíssimo hoje e verdadeiramente sacrílego naquele tempo, se perpetrava, o marquês de Pombal pedia ao destino um pretexto que o justificasse e favorecesse na guerra com que êle ambicionava pôr ponto ao poder ilimitado, à soberba arrogância da fidalguia portuguesa. Estadista à maneira de Richelieu, de Cromwel, de Frederico II, de Bismarck, o sangue derramado, as torturas impostas, as lágrimas choradas eram-lhe pequeno obstáculo à linha recta da sua implacável e brônzea vontade.
Vendo a nação devastada pelas plantas parasitas que lhe sugavam tôda a seiva, a sua ambição foi salvá-la custasse embora muito cara a salvação.
O que a história nos conta dessa hora sinistra da vida de Portugal, assombra e enoja a um tempo. Charnecas desertas e incultas, enormes extensões de terrenos despovoados, destruídas as manufacturas da Covilhã, do Fundão, de Bragança, de tôdas as cidades onde os cristãos novos—agora expulsos pela inquisição—tinham feito da sua energia, da sua inteligência, do seu trabalho, do seu amor pelo ganho, instrumento de riqueza para êste país desgraçado; caminhos impraticáveis tornando impossível o tráfego comercial e o transporte de mercadorias ou pessoas[6]; o exército sem disciplina, sem decôro, onde os soldados e até os oficiais subalternos faziam mister de criados dos seus superiores, servindo-lhes à mesa, e executando os mais humilhantes ofícios, quando não pediam como mendigos andrajosos pelas ruas das cidades mais populosas[7]; a têrça parte do solo nacional possuído pela Igreja, e a sentir-se em todo o país a tríplice e funesta influência do clero devasso, ignorante e cobiçoso, da nobreza da côrte, ociosa e insolente, e da inquisição ameaçadora, que, na caça feroz ao judeu, tinha aniquilado tôdas as actividades produtoras, tinha expulsado do país tôdas as fôrças vivas, tinha quebrado e destruído tôdas as energias fecundas. O mau clero embrutecendo, a inquisição queimando os resistentes e depravando sob a influência do seu terror os ânimos que a cobardia dobrava servilmente, tinham feito de Portugal e da Espanha dois países mortalmente condenados.
Comercialmente, éramos uma reles feitoria de Inglaterra, que pelo tratado de Methwen nos enfeudava sem defeza aos seus interesses. Espiritualmente, éramos a mina extinta de que Roma extraíu cento e oitenta milhões de cruzados a trôco de privilégios cultuais[8], de canonizações de santos[9], de bulas especiais para diversos usos. Bandos capitaneados pelos primeiros fidalgos da côrte, o duque de Cadaval, o marquês de Cascais, os condes de Aveiro e de Óbidos, traziam Lisboa em permanente susto e permanente sobressalto, espancando as rondas, matando as autoridades que lhes resistiam[10], travando entre si bulhas de que muitas vezes resultavam mortes e gravíssimos ferimentos. Sob a tirania e o livre arbítrio da realeza, e sob o ôco beatério da nobreza e do povo, havia o desenfreamento dos mais baixos instintos, a brutalidade mais soez, a devassidão mais desbragada. O exemplo, partindo de alto, alastrava com vertiginosa rapidez por tôdas as camadas sociais eivadas da mesma ignorância e submersas no mesmo embrutecimento. O abêtissez-vous de Pascal, aplicado pelos jesuítas e pela inquisição, fôra o único meio que Roma encontrára para defender o seu baluarte ameaçado. A Península ibérica fôra o teatro escolhido para essa horrenda experiência, que fazia da mutilação do pensamento uma arma política, e perdoava o desenfreamento audaz dos instintos brutais, contanto que a consciência não tentasse despertar sequer do seu adormecimento e do seu ignóbil torpor...
O marquês de Pombal encontrou êste quadro horrendo e grotesco ao tomar posse do país, que pretendia regenerar, na volta da sua longa permanência em Londres e em Viena. Na Inglaterra é claro que Pombal não aprendeu nenhum dos processos da política liberal a que êsse robusto país deve a integridade da sua duração e a solidez da sua grandeza, mas viu—e com que humilhação melancólica para um coração português!—o que era ali a aristocracia comparada ao que estava sendo entre nós!
Para o confirmar na idea que ela de-certo lhe inspirou, bastou-lhe assistir ao formar da brilhante e formidável oposição contra o poder corrupto de Walpole, porque não foi num período glorioso da vida política de Inglaterra que Pombal ali viveu. É provável que êle observasse de perto com o seu olhar de miope, tão espirituoso e penetrante, as notáveis e características figuras que constituem essa colisão famosa[11]. Pitt, o futuro lord Chattam, tinha então trinta anos e já pronunciara contra o ambicioso ministro, agarrado ao poder como a ostra à concha, alguns dêsses belos discursos clássicos e pomposamente teatrais, que tão viva impressão produziram no seu auditório político. Carteret, conde de Grenville, formosa figura de estadista e de erudito, falando tôdas as línguas mortas e vivas, inclusivamente o português, brilhava então deslumbradoramente na scena política pela coragem, pela ambição nobre, pela eloqùência declamatória ou pela agudeza e agilidade do debate parlamentar. Chesterfield era o tipo consumado da elegância cortesã, do gôsto cultivado e fino, das maneiras galantes. Garrick acabava de estrear-se, e logo adorado, adulado pela aristocracia londrina, fazia chorar o seu patrício auditório interpretando na scena Shakespeare, como mais tarde o fará convulsivamente rir, arremedando nas salas a figura e os modos estranhos, tão cómicamente dolorosos, de Samuel Johnson, então desconhecido ainda. Pope vivia no pé de perfeita igualdade com a alta sociedade elegante e política do tempo, mas literáriamente era então uma excepção única. Em Inglaterra, como em Portugal, aquele período era da mais desoladora esterilidade literária, mas ali era apenas o intervalo entre duas fases brilhantes. Desaparecera a geração de Addisson, de Prior de Steele, de Congreve, de Foe, de Swift, mas iam aparecer Goldsmith, Fielding, Burke, Collins, Thompson, e outros mais.
E em todo o caso a Sebastião José de Carvalho e Melo era indiferente que a literatura estivesse ou não numa fase gloriosa. O que devia impressioná-lo, indigná-lo ali, pela triste comparação a que se via forçado, era a vida intensa, o alto valor social e moral, a utilidade e a fôrça dessa classe aristocrática, que na Inglaterra nunca aceitou privilégios a que não estivessem ligados graves e austeros deveres cívicos, ao passo que nada havia mais estéril, mais imbuído da sua falsa importância, mais perturbador da ordem e do equilíbrio nacional do que a nossa nobreza degenerada, vivendo, salvas excepções raríssimas, que podem apontar-se, dos bens da corôa, da munificência régia e dos abusos e privilégios; voluntáriamente ignorante e gabando-se de o ser, reduzida, pela paz prolongada e pela inércia em que o país caíra nos braços do jesuíta manhoso, ou sob o látego do inquisidor cruel, aos ofícios de ante-câmara e às manhas e intrigas da côrte.
D. Luís da Cunha, um dos privilegiados, mas um dos raros que ilustravam a sua classe, melhor do que ninguêm pôs o dedo nas misérias que Portugal chamara sôbre si nesse período sombrio da sua existência nacional.
O ministro de D. José, que D. Luís da Cunha[12] indicara como o mais apto para dar algum remédio a tantos males, aproveitou, portanto, o ensejo que a nobreza lhe dava para travar com ela a terrível luta em que afinal foi vencido pelo destino e por ela...
É por esta ordem de considerações que o cadafalso de Belêm, erguendo-se diante dos nossos olhos, tristes sim, mas conhecedores das circunstâncias que o explicam e da crueldade semi-bárbara dos costumes e da jurisprudência do tempo, não se nos afigura um facto isolado, sem outra significação alêm da que dá o nosso humanitarismo sentimental da actualidade.
Devemos, portanto, emmudecendo a infinita piedade que nos confrange o coração, contemplar as vítimas que ali vieram expirar, à luz de um critério que não é de hoje. Devemos considerá-las, infelizmente, como acusados políticos da peor espécie, réus do maior dos crimes, do que envolvia todos os outros, pois que no tempo de D. José,—o qual foi o representante mais genuíno e mais puro entre nós, dêsse absolutismo monárquico que em tôda a Europa ocidental precedeu e como que preparou, sem o prever nem pressentir, o regímen moderno,—o rei era ao mesmo tempo o pai, o emissário divino, a figura inviolável, impecável e sagrada, cuja mão ungia, cuja dominação exaltava, cujo serviço era tão honroso e glorioso como o do próprio Deus.
Não basta, porêm, ver sómente êste aspecto do complexo assunto. É necessário acrescentar que o julgamento dos fidalgos mais directamente suspeitados, a execução do duque de Aveiro e dos desventurados e porventura inocentes Távoras, o aparato inaudito de que êsse acto de tirania se revestiu, as prisões em que tantos inocentes, reconhecidos por tais, foram apanhados na rêde tenebrosa de uma política implacável, tudo isto, na perspectiva longínqua em que o pensador hoje o contempla, não é mais que um lúgubre, um terrível e sangrento episódio dêsse duelo de morte, que o marquês de Pombal, o último português que soube o que era ter vontade, travou furiosamente com uma ordem de cousas em que êle via a desgraça de Portugal.
Aqueles desgraçados expiavam, ali, não sómente o seu crime, suposto em todos, dizem alguns, real em quási todos, asseveram outros,—mas principalmente, e é esta a face cruel mas terrívelmente lógica do facto—os crimes longos, os crimes imperdoáveis de uma casta inteira, contra a qual se insurgia o espírito impiedoso de Pombal, atribuindo-lhe o estado de decadência da nação, que êle ambicionava erguer como um novo Lázaro do chão da morte...
¿Tinha razão o marquês em atribuir completamente à fidalguia e à fradaria portuguesa a desgraça em que achava êste país?
Não tinha. Os frades e os fidalgos ignorantes, soberbos e ociosos eram já produtos e não causas de uma decadência moral e intelectual, que vinha de longe, de muito longe; deviam os seus defeitos a circunstâncias talvez fatalmente consubstanciadas no próprio destino de Portugal, talvez feitas da própria essência do seu organismo.
Mas o marquês tinha a sciência do seu tempo, o que não se lhe deve levar a mal, porque, como tão bem diz um grande pensador, o débil alcance da inteligência humana, e a brevidade da nossa vida comparada à lentidão do desenvolvimento social, conservam-nos a imaginação, sobretudo no que respeita às ideas políticas, inteiramente sob a dependência estreita do meio em que habitamos. «A cabeça mais forte da antiguidade, o grande Aristóteles, de tal modo foi dominado pelo seu século, que não pôde conceber uma sociedade sem ter por base a escravidão»[13].
Assim tambêm o marquês de Pombal, não conhecendo o recente segrêdo das leis sociológicas, julgava que a reconstrução de uma sociedade é um acto de pura mecânica. Desbravar o terreno, ou deitar por terra as edificações carunchosas que o atravancavam, transportar para longe o entulho que se amontoara dessas ruínas em grande, e proceder imediatamente, livre de obstáculos e de peias, ao seu trabalho de arquitecto namorado da ordem rectilínea e da simétrica regularidade, parecia-lhe uma tarefa tão legítima quanto realizável. ¿Que fôssem instituìções ou fôssem homens os que embaraçavam a sua obra, que lhe importava? Para êle eram simplesmente obstáculos. Tinha uma concepção das cousas muito diversa da que hoje reina. Nunca lhe poderia entrar na cabeça que a sociedade fôsse, como o indivíduo, um organismo. Não percebia que, da dissolução a que o corpo social tinha chegado, podiam surgir, em resultado de irredutíveis leis orgânicas, novas combinações e novas formas de vida, mas nunca operar-se aí uma cura radical, uma transformação impossível.
Os factos provaram-lhe ainda em vida, na sua dolorosa, na sua angustiada velhice, que êle errara nas apreciações e nos pontos de vista. Mas o desmoronamento, quási completo na parte política, administrativa e moral da sua obra, não o pôde esclarecer ainda assim a respeito das causas que o determinaram.
Ainda pela consciência e pelo entendimento humano não passara aquele abalo violento, sob a influência do qual nós todos pensamos hoje, tanto amigos como adversários do novo regímen.
O marquês não estava em suficiente avanço do seu século para compreender que os fenómenos políticos se regulam, como os outros, por leis naturais!
A reconstrução civilista e burguesa que êle sonhara tinha de realizar-se, não no carcomido, no gasto, no anémico Portugal, mas nas outras nações latinas, depois da luta intensa e prolongada contra o regímen anterior, depois da demolição longa e laboriosa, feita pela escola negativa e crítica do século, depois de um interregno de desordem, no meio do embate, sem método preconcebido, de contraditórias fôrças inconscientes, porque nenhum progresso político ou social deixou de ser precedido por êsse período de cáos e de surda germinação. É êle que prepara a nova ordem de cousas, favorecendo de um lado o desenvolvimento dos elementos que virão a constituí-la, estimulando por outro as faculdades reorganizadoras da sociedade pela experiência cruel dos males da anarquia[14].
Tão favorável era então o ensejo para que a mão aspérrima de Pombal caísse com todo o seu pêso enorme sôbre a nobreza mais alta da côrte,—que houve muito quem aventasse a hipótese de que tal emboscada não existira, ou antes fôra simulada pelo astuto ministro.
Á posteridade, porêm, não parecem duvidosos, nem o atentado contra D. José, nem a culpabilidade do duque de Aveiro.
O embaixador francês, que a êsse tempo estava em Lisboa, dizia para a sua côrte, que o duque de Aveiro—carácter imperioso e duro, espécie de relíquia feudal perdida num tempo que já não estava em harmonia com as suas altivas pretensões, e num país onde o feudalismo existira nas ideas sem nunca ter existido própriamente nas instituìções—que o duque de Aveiro era formalmente detestado.
Nascera filho segundo, e fôra destinado para a mitra; mas a loucura amorosa do irmão mais velho, cuja fuga para Espanha com D. Maria da Penha de França, casada com Luís de Almada, deu brado naquele tempo, fê-lo logo marquês de Gouveia, e duque de Aveiro mais tarde, quando, contra uma nobre família de Espanha, ganhou a demanda que disputava à sua casa os bens e os títulos daquele ducado.
A boa fortuna exaltara-lhe a soberba, fizera-lhe do orgulho indomável uma arma perigosa. Irritavam-no até à epilepsia as audácias reformadoras e niveladoras do ministro e a subserviência e docilidade do rei. Tentou, portanto, matando êste, aniquilar o ilimitado poder daquele.
Pelo contrário a família Távora, verdadeiramente típica da lhana e afável fidalguia portuguesa, apenas intratável em questões de precedência, de tratamento, de formas, etc., era estimada e querida em Portugal.
Mas à veia satírica da espirituosa marquesa não escapara a fraqueza mais flagrante do ministro de D. José, aquela ânsia de provar com documentos a sua fidalguia, o que não é deveras permitido a um homem que em tanta maneira excedia o nível do seu tempo, e cujo alto espírito o devia pôr ao abrigo de tais aberrações de entendimentos medíocres.
Ficaram na tradição os chasques de prosápia orgulhosa com que ela se desforçava da decadência do poder da sua casta, e do advento dessa outra potência irresistível de que Sebastião José de Carvalho foi um dos mais genuínos e mais célebres e prestigiosos representantes, e que êle no entanto parecia renegar com as suas ideas fantásticas acêrca da própria fidalguia.
Desta loquacidade mordaz de mulher ofendida à cumplicidade do nefando regicídio vai um abismo, e conquanto a história dê uma causa, mais íntima, mais justificável quási, à suposta cumplicidade dos Távoras, pois se contou, e escreveu, que a marquesa filha tinha as boas graças do rei, e êsse escândalo causava a desolação de sua honesta sogra, ainda assim um triste ponto de interrogação subsiste em face dêsse processo misterioso, mais instaurado e vencido para meter espanto e terror a uma dada ordem social, do que escrupulosamente conduzido para levar a luz de uma convicção inabalável à consciência dos que assistiram ao desenvolvimento das suas peripécias tremendas.
Durante alguns dias de suspensão e de indeterminada angústia ecoou vagamente no público a notícia do crime, sem que um passo sómente fôsse dado para a busca e prisão dos réus. Todos êles foram colhidos com extraordinária facilidade, quando Sebastião José de Carvalho, acordando de súbito do fingido torpor em que pareceu ficar paralizado, mais uma vez demonstrou por um golpe de irresistível mestria, a sua implacável vontade e a sua fôrça pronta e sagaz.
Depois de três meses de um dêsses soturnos silêncios, cortados de ansiedade sombria, que tanta vez precedem os cataclismos da natureza e os da sociedade, no dia 13 de Setembro de 1758 foram cercadas as casas do marquês de Távora, D. Francisco de Assís, o vice-rei da Índia das festas teatrais e das pomposas cerimónias; do conde de Atouguia D. Jerónimo de Ataíde; do conde de Óbidos D. Manuel de Assís Mascarenhas; de D. Manuel de Sousa Calhariz; do conde de Vila Nova, Manuel de Távora; do desembargador António da Costa Freire, de muitas outras pessoas suspeitas; de todos os jesuítas do reino, e afinal, o que principalmente importa para a nossa história, do marquês de Alorna, D. João de Almeida Portugal, pai de Leonor, gentil e diserto cavaleiro de vinte e cinco anos, que fôra ou estava para ser nomeado embaixador em Paris, e cujo crime baldadamente se procura em todos os documentos do célebre e crudelíssimo processo.
O duque de Aveiro, de todos aqueles em quem incontestávelmente recaem as mais graves suspeitas de haver perpetrado o crime, ou de o ter feito executar por mandatários seus, estava na sua quinta de Azeitão, nessa Sintra da Outra Banda, onde as grandes famílias portuguesas do século XVII e do século XVIII tinham tão lindas, pitorescas, majestosas e artísticas vivendas, hoje reduzidas a ruínas abandonadas, a ruínas ignóbeis, que nenhum luar de saudade espiritualiza e doura, de que nenhum culto reverente consagra a tradição melancólica.
Diz-se que êle se preparava para fugir, tendo sabido do movimento de tropas que se notara em Aldeia Galega, por onde inesperadamente passara um corpo de cavalaria, e tambêm das prisões de Lisboa, cuja notícia soara com a rapidez misteriosa com que os casos graves se propagam.
De todos aqueles a quem o ministro omnipotente desejou prender só lograra escapar José Policarpo de Azevedo, cuja trágica odisseia Camilo Castelo Branco há de narrar com a sua linguagem de tão máscula e inimitável elegância, de tão grave e impressionadora tristeza.
O marquês de Alorna não soube nunca a que fatalidade inexplicável devera o achar-se envolvido no horrendo trama. O duque de Chatelet na Viagem em Portugal, que fêz, muitos anos depois dos acontecimentos, e em que miúdamente se refere a muitos actos da administração de Pombal, diz que foi atribuída a cumplicidade do marquês ao facto, aliás absolutamente inocente, de êle haver emprestado uma espingarda de caça ao filho do duque de Aveiro, que no próprio dia do atentado contra a vida do rei, lh’a tinha pedido.
¿Mas quem não vê hoje, na distância em que estamos, que o fim de Pombal era muito diverso daquele que então lhe atribuíam as suas vítimas desgraçadas?! O que êle queria era castigar, humilhar, amordaçar, inutilizar, vencer essa fidalguia da côrte, que a cada instante se erguia como um obstáculo, como um tropêço diante dos seus planos de audaz reformador da sociedade portuguesa. Áspero de génio, inflexível de vontade, de natureza cruel como todos os condutores de homens (nem com índole diversa êles o seriam), pouco se importava com a inocência ou com a culpa dêsses fidalgos arrogantes, que ousavam defrontar-se com êle em permanente oposição. O que pretendia era destruí-los de vez, ou emmudecer para sempre os que por ventura lograssem escapar à vindicta da lei.
O marquês de Alorna, generoso, altivo e franco, falando alto e bom som com a sua hombridade de fidalgo, e sabendo o que dizia porque tinha ilustração e talento, raros então na sua classe—com certeza que devia ser dos mais notórios na oposição ao homem que todos julgavam inimigo da nobreza, e pronto a cercear-lhe os privilégios e as regalias. Pagou com uma prisão de dezoito anos êsse crime de rebeldia mental.
Emquanto se efectuava em Azeitão a captura do poderoso duque de Aveiro, e na côrte a dos outros suspeitos, reinava em Lisboa um terror súbito, ressurgido após três meses de espectativa já quási adormecida, porque tinham aparecido, afixados em tôdas as esquinas, dois decretos, um dos quais datado de 9 de Dezembro, em que se narrava, na enfática e declamatória linguagem do tempo, o atentado de que el-rei nosso senhor tinha por milagre escapado, anunciando-se exposta às vistas do público, na cocheira do paço, a carruagem onde el-rei ia, quando lhe foram disparados os tiros; e outro, datado de 13 do mesmo mês, em que se tomavam as mais vexatórias disposições para que os culpados não pudessem fugir, ordenando várias precauções administrativas e políticas, que a tirania do tempo de sobejo legalizava.
No dia 14 de Dezembro foi presa e conduzida ao convento das Grilas a marquesa de Távora D. Leonor. A marquesa D. Teresa, nora desta e amada pelo rei a ponto de a poupar impudentemente em todo o processo, foi conduzida para o convento das comendadeiras de Santos, onde se conservou com uma tença régia, e rodeada de cómodos e confortos até à morte.
A duquesa de Aveiro foi para o Rato[15], a condessa de Atouguia para Marvila; a marquesa de Alorna e as suas duas filhas, crianças adoráveis de seis e sete anos foram para Chelas.
Criou-se uma junta ou tribunal chamado da inconfidência, presidido pelos três secretários de estado, e o lúgubre processo correu envolto em profundo segrêdo, conhecendo-se apenas, que seguia o seu curso, pelas prisões que vinham, de vez em quando, sobressaltar Lisboa, fazer tremer de horror a mais qualificada fidalguia da côrte, e povoar de altos dignitários e de cortesãos, outrora validos, os fortes do Tejo e os cárceres do Estado.
Ainda hoje se não sabe o que no seio da Junta se passou. Previu-se, porêm, desde logo que ia mais longe, do que primitivamente se podera supôr, o alcance e a significação dêsse processo, eivado da terrível pecha de todos os processos políticos em que os réus já vão responder ao tribunal préviamente sentenciados. Tal foi o sistema do absolutismo triunfante em tôdas as fases da sua história, em todos os pontos em que o seu poder se exerceu; tal foi o sistema do jacobinismo violento da convenção, e do comité de salut public na França revolucionária, e o sistema da França napoleónica, no processo do joven duque de Enghien—o sangue de Condé!
A 13 de Janeiro de 1759, por uma madrugada nevoenta e triste «por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas, que a espaços saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais», a cadeirinha da marquesa de Távora D. Leonor chegou ao largo de Belêm, onde se erguia o cadafalso em que tôda a sua família ia expirar.
O fúnebre cortejo constava primeiramente de um esquadrão de dragões, em seguida dos ministros criminais que tinham julgado o processo iníquo, e que vinham a cavalo, uns com a toga, outros de capa e volta. O corregedor da côrte, atrás dêsses, era quem precedia a caixa negra entre dois padres, onde a marquesa se dirigia ao suplício.
Alas de tropa cercavam o préstito.
«Á volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham jofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou-se da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de cinqùenta minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as rôscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu entre os dois padres a escada, na sua natural atitude altiva, direita, com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos. Trajava de setim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos (tinha sido presa ao sair de um baile na embaixada inglesa), envolta numa capa alvadia roçagante.
«Assim tinha sido presa um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse a camisa nem o lenço do pescoço.
«Receberam-na três algozes no tôpo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida.
«Depois, mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o masso de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras, as aspas em que se haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostraram e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa e mandou-a sentar num banco de pinho no centro do cadafalso, sôbre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas e não podia compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se e com um movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz pôs-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço.—Não me descomponhas—disse ela, e inclinou a cabeça, que lhe foi decepada pela nuca de um só golpe»[16].
Fazemos a longa transcrição do suplício da marquesa, porque, depois de Camilo ter deixado, fundida em bronze, esta escultura de soberbo horror, parecia-nos artístico sacrilégio qualquer tentativa de imitação ou de aproximação. Isto que aí fica escrito é definitivo, é inultrapassável. Ao lê-lo as carnes arrepiam-se, e aquele vento de que fala a escritura passa sôbre as nossas cabeças, pondo-nos os cabelos em pé.
A carniceria continuou lenta, medonha, infindável, sob o nevoeiro sinistro e o plúmbeo céu triste e calado.
Depois da marquesa de Távora, o primeiro a morrer entre suplícios foi José Maria Távora, o filho segundo dela, criança de vinte e um anos, mimoso pagem louro, cuja beleza de efebo comovia os corações mais duros. Levava o seu lindo traje preto de cortesão, e meias de sêda côr de pérola. Supremo requinte de graciosa e juvenil garridice!
Quantos sonhos em flor desabrochariam sob aquela fronte de adolescente...
Front pâli sous des baisers de femme,
...que tanta vez se iluminara com a esperança da glória ou se espiritualizara de fugaz melancolia em caprichosos e vagos devaneios de Cherubin.
E no entanto êle, que não conhecia nem de nome a maldade ou o ódio, teve o seu corpo aspado, quebrado, esmigalhado pelos ferozes instrumentos do mais bárbaro suplício, em castigo de um crime que não sonhara em cometer.
Atrás dêle morreu o irmão mais velho, o marquês Luís Bernardo, espôso daquela a quem a crónica escandalosa do tempo atribuía a cumplicidade num adultério régio.
Depois o conde de Atouguia, seu cunhado, e os três réus vilões, que apareceram, descalços, em mangas de camisa, e que até ali, na promiscuidade do sangue e do suplício tiveram, como insígnia que os separasse dos seus fidalgos companheiros, aquele ignóbil desalinho que parecia roubar-lhe à morte a dignidade...
Depois de um intervalo em que os carrascos descansaram, seguiu-se o suplício do marquês de Távora Francisco de Assis, o velho general encanecido no serviço público, e do duque de Aveiro, talvez de todos o único culpado, e por fim o de António Álvares Ferreira, o sacrílego executor do crime, pelo qual todos morriam, o que dera na sagrada pessoa de el-rei nosso senhor,—à hora em que êle regressava ao paço da Ajuda depois de uma nocturna excursão de galhofeiro o amoroso Júpiter—o tiro que lhe havia rasgado a preciosa carne do seu braço.
Durou dez horas o nefando espectáculo a que uma turba enorme, mosqueada de medonhas caras negras de olhos fuzilantes, assistia com mórbida, perversa e brutal curiosidade.
Estremece-nos a alma de piedade e de pavor ao relembrar que há século e meio apenas era, não direi sómente permitido, mas, o que é mais, sancionado pela jurisprudência humana tamanho acervo de inolvidáveis horrores. E isto não só neste canto da península, neste limite extremo da Europa, afastado então de todo o convívio scientífico com o resto do mundo, mas ainda na própria França, onde pela mesma época, pouco mais ou menos, a canivetada de Damiens—um doido!—em Luís XV era castigada por um suplício muito mais atroz, se em tal inferno pode haver gradações, e pelo menos muito mais fecundo em requintadas invenções de horror, porque nas feridas abertas a tenazes rubras, até chumbo derretido lhe deitaram, esquartejando-lhe depois o miserável corpo atado a quatro cavalos robustos incessantemente chicoteados pelos algozes praguejantes[17]. ¿E sabem quem ali, naquela cidade onde reinava o idílio pompadour e as graças pastoris de Watteau e de Bernis assistia ao medonho espectáculo canibalesco? Era, nas janelas da praça de Gréve, alugadas por alto preço, tôda a nobreza e tôda a alta finança. Era la cour et la vile em pêso, que viera, com a ferocidade que tanto aproxima as civilizações apodrecidas da barbarie extrema, saciar-se perversamente daquela tortura e daquele horror!... Nesse ponto, Portugal menos civilizado, deixara à ignóbil turba-multa das praças e das vielas o privilégio de tão doce vista! A França não! Eram as suas marquesas de altos penteados voluptuosos, de riso cristalino, o riso que ecoava pelos salões esplêndidos de Versailles, que iam ali cevar-se de sensações violentas e de frémitos de agonia! Eram as suas financeiras opulentas, as suas actrizes afamadas, a élite intelectual daquele mundo falso e garrido, que aplaudia a tragédia repugnante e atrocíssima, achando já sem sabor para o seu gôsto embotada a inspiração soberba do Cid ou as ardentes objurgações de Hermione e de Fedra...
Os adversários do marquês de Pombal atribuem exclusivamente ao ministro de D. José a culpa desta execução, que fêz naquele tempo estremecer de horror a Europa, sobretudo porque eram da mais alta fidalguia os executados; mas o historiador imparcial terá de reconhecer que, embora a índole naturalmente dura do marquês não recebesse do trágico acontecimento a impressão que ela devia inspirar-lhe, embora lhe houvesse sido possível obstar à morte cruel de alguns dos padecentes, a verdade é que a responsabilidade do espantoso caso cabe tanto ao ministro e ao rei, que não perdoaram, como aos juízes abominávelmente subservientes que subscreveram a sentença e julgaram o processo, como ao tempo, aos costumes relaxados e crueis simultâneamente, à completa incapacidade que ainda então havia em todos os povos, de dar à vida humana, à dor humana a suprema importância que nós hoje, bem mais felizes, aprendemos a dar-lhe.
¿Tão duro como era Pombal, tão inflexível e enérgico de vontade como êle, podia um ministro de hoje mesmo ao abrigo da lei escrita, permitir tais crimes?
Não deminuiu talvez a sôma de bem e de mal arbitráriamente dividido pela humanidade, mas deminuiu de um modo extraordinário a possibilidade em que ela está de expandir à vontade os seus instintos crueis. Se, como diz Spenser, o progresso se faz muito mais sentir na inteligência que na moral, em todo o caso a inteligência domina bastante o homem social para amordaçar permanentemente nêle a fera primitiva. Se não lucra o princípio abstracto da moral, lucra certamente e muitíssimo a civilização, a vida do homem, a segurança dos indivíduos, a ordem das sociedades[18].
Quem, pois, tentar arrancar ao livro do passado uma das suas páginas e convertê-la em história, não poderá fazer juízos absolutos, nem sujeitar a um critério que não seja relativo os acontecimentos e os homens que descrever e julgar. O tempo estabelece entre os mesmos factos passados em momentos diversos as diferenças mais profundas.
O crime de hoje pode ter sido a razão de Estado de hontem. A crueldade implacável de um homem do antigo regímen não tem a significação e o valor que as nossas actuais ideas lhe dão. O passado está cheio de factos que para nós são crimes e que foram nêle heroicidades. ¿Que lista enormíssima de algozes, desde Torquemada, não conta a inquisição, e no entanto foram criminosos todos êsses homens que obedeceram ou julgaram obedecer a uma lei de salvação pública e de política suprema? Quantas execuções sumárias, quantas crueldades inauditas e atrozes não ordenaram Gama, Albuquerque, Pacheco e Pizarro, os nossos heróis peninsulares! ¿E mereciam êsses homens sentar-se então no banco de ignomínia em que hoje se punem crimes tais?
Deve notar-se, entre parêntesis, que sendo a fraqueza de vontade um dos característicos da alma portuguesa, os homens que entre nós mais destacam, é pela dureza de aço do seu querer que se distinguem! Exemplos: o infante D. Henrique, que deixou morrer o irmão em Fêz, mas não cedeu um ápice do que entendia necessário à grandeza da pátria que ilustrou; todos os capitães terríveis que acabamos de citar, e cuja vida está cheia de actos de uma suprema e implacável fôrça; finalmente Pombal, em quem a vontade é positivamente a faculdade predominante.
De resto não se pode ser político, isto é, exercer esta imoral sciência, que nenhum esfôrço de coração, nenhuma alta aspiração espiritualista conseguirá tornar nobre e bela, senão escravizando sob a pressão de uma energia brônzea as fraquezas que nos circundam!
Foi sempre êste o sistema dos grandes políticos.
Luís XI foi um dos príncipes a quem a França mais deveu. Aniquilou o feudalismo, destruiu o poder dos grandes vassalos, cuja indisciplina selvagem se opunha à centralização e à grandeza da pátria francesa! Quantos crimes na vida de Luís XI, que a posteridade se não atreveu a julgar com demasiado rigor, vendo que êle obedecia a uma razão poderosa do bem pátrio e de salvação civilizadora, vendo sobretudo que se êle matou, perseguiu e rebaixou os poderosos, levantou os humildes, e protegeu contra a tirania dos grandes o seu pobre povo oprimido!
D. João II fêz julgar tambêm—com que irrisório julgamento!—o duque de Bragança, e apunhalou o duque de Vizeu, e no entanto Portugal considera-o um grande rei, e Izabel a Católica chamava-lhe o homem, achando nêle, por excelência, o tipo da energia e da prudência régia.
Tôdas as execuções de Richelieu foram feitas, como as de Pombal, ao abrigo da jurisprudência do seu tempo. Chalais, Marillac, Montmorency, Bouteville, todos responderam perante tribunais criados para o caso, de comissões e juntas nomeadas à maneira do tribunal da inconfidência, e todos foram implacávelmente sacrificados à política monárquica e centralizadora do ministro.
Anular o terrível efeito da dispersão de fôrças políticas do país, robustecer a monarquia, destruindo a nobreza, poder intermediário entre ela e o povo, e que a neutraliza muitas vezes, preparar inconscientemente, pelo advento e a exaltação da classe média, a democracia de hoje—e é esta a obra que durou, de tantas empreendidas pelo marquês de Pombal—tal foi a sua missão, superior nalguns pontos à sua própria vontade, da qual êle nem sempre teve a consciência definida e clara.
Richelieu tambêm teve um único fim: criar a monarquia una, poderosa, que depois foi a de Luís XIV. Tambêm êle—¿e quem lh’o havia de vaticinar que o não indignasse furiosamente?—foi um predecessor terrível do terrível Robespierre, um preparador inconsciente da revolução burguesa de 89, e nesse ponto as ideas dos dois ministros e o resultado final da sua obra parecem-se imensamente.
No entanto Richelieu e Pombal morreram sem remorsos do que haviam feito, julgando ter obedecido à divisa que era de ambos: Salus populi suprema lex est.
Esta mesma doutrina atroz, mas como nenhuma eficaz, salvou a França, pelo terror, da invasão estrangeira, da desmembração e da ruína.
¿Quem pode aplaudir os medonhos crimes do terror? ¿E quem não sabe que o povo francês lhe deveu a salvação?
A linha recta, a inflexibilidade terrível, a implacável resolução são os predicados e tambêm os defeitos dêsses políticos sombrios, dêsses sinistros estadistas—para quem o fim justifica todos os meios—e o indivíduo em si não passa de um zero, e só tem importância a sociedade, exactamente como para a implacável natureza só tem valor a espécie.
Não nos espanta por isso, conquanto nos encha o coração de lágrimas, essa execução dos fidalgos, que está na lógica da férrea política pombalina.
Mais nos repugnam—porque não tiveram a mínima influência política,—as longas clausuras, as lentas dores inflingidas friamente em dezoito longos anos de prisão a tantos inocentes!
O marquês de Alorna foi um dêles e em Chelas a espôsa e as duas pequeninas filhas, agradeciam a Deus, de mãos postas, diante do altar onde a extrema piedade ortodoxa de uma, e o poético instinto religioso das outras as prostravam, a graça infinita que Deus lhes fazia, em conservar ao menos com vida, embora no desamparo e no frio, e na privação de tudo, embora nas masmorras da Junqueira, aquele querido ausente, que podia, tão bem como os outros, ter expirado em tratos no cadafalso de Belêm. É a sombra tenebrosa e gigantesca dêsse cadafalso, em cuja história, por isso mesmo, nos demorámos tanto, que vai enublar a mocidade, que vai exaltar intensamente a viva imaginação de Leonor de Almeida, a heroína dêste livro.
NOTAS DE RODAPÉS:
[1] Memórias históricas e genealógicas dos grandes de Portugal, por D. António Caetano de Sousa. Nestas memórias se encontra a genealogia da família de Távora, de Assumar, etc.
[2] Estas praças que fazem parte das Novas Conquistas, ainda hoje pertencem à corôa portuguesa. Alorna fica na província de Pangim. Está edificada a fortaleza sôbre o rio Mhaporá, que ali toma o nome Alorna. Terá hoje 1:668 habitantes, 308 fogos e 63 praças de guarnição.
[3] Como especime do estilo do tempo e do abismo ou antes tremedal imundo em que caíra a poesia na pátria de Sá de Miranda, de Ferreira e de Camões, aí vão os versos que caracterizam uma época:
Vai, oh formosa heroína,
Do mar essas ondas sulca,
Que, se é Vénus na beleza
Vénus nasceu das espumas,
Se és Divindade, não temas
Da salgada água a fúria,
Que até impera nos mares
Immortal a formosura.
Vai ser de Thetis inveja,
Ser de Neptuno ventura,
Das sereias lindo encanto.
Das nymphas formosas injúria.
Os tritões e as Napeias
Sendo alegres testemunhas,
A nau—carroça; tu—Deusa,
Passeia as ondas ceruleas.
Vai que é pequeno hemisfério,
Um só mundo às luzes tuas,
E quem em um só não cabe
Justamente o outro busca.
São do sol os diamantes
Produção brilhante e sua;
Se produz lá um sol tantos
Três que farão? Conjectura.
Vai examinar o oriente
De onde sai a luz mais pura,
Verás do teu nascimento
Belo esplendor, cópia justa.
Vai! conheça o mundo todo,
Mais alto poder divulga,
Que o sexo que em ti domina,
O sangue que em ti circula.
(C. Castelo Branco, Noites de insónia).
[4] Anual Índico Lusitano dos sucessos mais memoráveis e das acções particulares do primeiro ano do Felicíssimo govêrno do il.ᵐᵒ e ex.ᵐᵒ sr. Francisco de Assis de Távora, marquês de Távora.
[5] Camilo Castelo Branco.
[6] Testamento político de D. Luis da Cunha.
[7] Costigan, Sketches of society and manners.
[8] A capela real metropolitana e depois a patriarcal, podendo celebrar festas com pompa igual à do Vaticano. Os beneficiados poderem usar meias de uma certa côr. Uma colegiada na capela real com seis dignidades, dezoito cónegos e doze beneficiados.
Requerimento de Alexandre Gusmão a el-rei D. João V. Inéditos. Os padres poderem rezar três missas em dias de finados.
[9] El-rei D. João V conseguiu elevar à categoria de santos da côrte do céu Luís Gonzaga, Estanislau Kotska, João Francisco Regus Vicente de Paula, Camilo Lellis.
[10] Tableau de Lisbonne. O cavaleiro de Oliveira. Camilo Castelo Branco.
[11] Macaulay, Essays.
[12] No seu Testamento político D. Luís da Cunha aconselha a D. José que chame para seu ministro a Sebastião José de Carvalho.
[13] Comte, Cours de philosophie positive.
[14] Comte, Cours de philosophie positive.
[15] Chegou esta, para comer um duro pão regado com lágrimas, a ser criada das freiras e andar descalça, vestida de chita, como a última das mendigas.
[16] Camilo Castelo Branco.
[17] Michel Chevalier, Le marquis de Pombal, Revue des deux mondes.
[18] Escrevendo há mais de treze anos estas palavras, mal sonhávamos que havíamos de publicá-las num tempo em que elas já não teem exacta aplicação.
Nós somos os desgraçados contemporâneos dos horrores da grande guerra, dos crimes inauditos da Rússia e da Alemanha, e que de longe vimos o morticínio horrendo de que foram vítimas inocentes as filhas e o filho do Czar, e o assassínio atroz dos Pais, os que chegámos à velhice saciada de horror, vendo a humanidade peor do que nunca foi, vendo a civilização a tão falada civilização num retrocesso tenebroso que nos apavora e nos assombra.
Tudo que afirmamos com tamanha fé, nos parece falso, ilusório, mentido. O sentimento do horror há tanto desconhecido tornou-se a apossar dos nossos cérebros e dos nossos corações. Um pavor medonho oprime hoje as almas. Pensar é descer ao mais negro e profundo dos abismos!
CAPÍTULO II
Leonor em Chelas.—Antiguidade e origem dêste convento.—Vida conventual.—As cartas do marquês de Alorna a sua mulher.—Não são escritas com sangue.—Correspondência entre Leonor e o pai.—O incidente entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia.—Versão correcta e autêntica dêste incidente que anda desfigurado nas biografias de Leonor.—Estudos.—Leitura dos filósofos franceses.—Lutas de Leonor com o pai, a mãe, a condessa do Vimieiro.—O esquecimento do passado e do presente procurado no estudo.—Confiança que Leonor tem no pai.—Festas de Chelas.—Outeiros.—Representação de Atália.—Intermédios jocosos.—Coragem e alegria de Leonor através de todo o seu infortúnio.—O problema religioso.—Ilusões simpáticas do espírito de Leonor.—O marquês de Alorna condena Voltaire a ser queimado.—Admirável resposta de Leonor.—Discussões acesas de Leonor com os confessores do convento.—Lutas de consciência.—Antagonismo entre Leonor e o seu meio.—Fantásticos projectos de salvar seus pais.—Cartas a Luís XV e a Voltaire.—Mau francês e óptimos sentimentos.—Controvérsias literárias e poéticas entre o marquês de Alorna e Leonor.—Bom senso e bom gôsto do marquês.—O que Leonor diz a respeito do amor.—A Zamparini e várias anedotas da côrte.—O marquês de Gouveia e Maria de Almeida.—Entusiasmo com que Leonor antevê a factura existência dos seus no campo.—Influência de Rousseau.—Dois projectos de casamento para Leonor.—Retrato de um fidalgo ignorante.—Versos de Chelas.—Os sonhos de Leonor.—O príncipe azul.—Morte do rei que vem libertar a família de Alorna.
Como no anterior capítulo foi dito, a 14 de Dezembro de 1758 entravam a marquesa de Alorna e suas filhas Leonor e Maria, no convento de Chelas. Fica, como se sabe, nos subúrbios de Lisboa êste mosteiro, ao qual frei Luís de Sousa consagra longos períodos de que citaremos os que seguem:
«Junto à cidade de Lisboa, ao norte dela, em distância de quási uma légua, há um vale por cópia de quintas e frescura de hortas e pomares assás deleitoso, que chamam Vale de Chelas. Havia nêle pelos anos em que vamos, de 1223, uma igreja tão antiga na primeira fundação que, sem haver quem disso duvidasse, se referia ao tempo em que a primitiva igreja florescia com favores do céu e perseguições da terra, porque sendo regada com rios de sangue de infinitos mártires, que cada hora padeciam, tomava fôrças do mesmo ferro e fogo com que era perseguida, e ia crescendo e pulando, e tomando posse do mundo. Assim é cousa certa que deram ocasião a se fundar esta igreja os gloriosos mártires S. Felix e Santo Adriano, porque padecendo ambos em tempo de Diocleciano imperador, animosa e santamente pela fé, Felix em Gerona de Catalunha, aonde veio buscar o martírio, fugindo da cidade Scilitana em que nascera, e da de Cesária em África, onde seus pais o criavam no estudo, e Adriano sendo martirisado em Nicomédia de Bithinia, por varios casos, e em tempos diferentes, vieram as santas relíquias de ambos, com muitas de outros companheiros do martírio aportar neste vale, e no lugar da igreja onde naquele tempo chegava o mar, que agora lhe fica longe quási meia légua. Foram os mártires conhecidos pela relação de quem os acompanhava, mas logo reconhecidos e reverenciados por meio de esclarecidos milagres que obraram.
«Edificou-lhes igreja a devoção de Lisboa, e foram honrados nela debaixo do nome de S. Felix, ou porque padeceu em terras de Espanha, ou porque foi o primeiro em chegar ao vale; e em testemunho da grande antiguidade ficou com o nome quási trocado no povo, chamando-se S. Pero Fins de Achelas.
«Na entrada dos mouros, que depois sucedeu, de crer é que o mêdo e a confusão que por castigo do céu oprimia os ânimos, usaria do remédio mais fácil para salvar as santas relíquias, que era enterrá-las no mesmo lugar e encomendá-las aos mesmos santos»[19].
«Lançados os mouros de Lisboa pelo braço e valor de el-rei D. Afonso Henriques, purificadas as igrejas que haviam em pé, e reedificadas pouco a pouco as que estavam em ruína, foi povoada esta de frades, o que se vê das provisões e outros instrumentos autênticos do cartório dela, que particularmente vimos, notámos e cotámos»[20].
Parece que os mouros reconquistando Lisboa aos leonenses expulsaram de Chelas seus habitantes, e converteram a igreja em mesquita, porquanto el-rei D. Afonso Henriques, tratando de purificar e restituir ao culto divino vários templos que os infieis tinham profanado, fôra um dêles o convento de Chelas, sendo celebrante o bispo de Lisboa D. João Peculiar, e assistindo o soberano à cerimónia da purificação e ao descobrimento e transladação das relíquias que estavam em duas caixas de mármore, as quais foram colocadas na capela mor, de modo que ficaram servindo de altares de S. Felix e de Santo Adrião[21].
Primeiramente foi o convento duplex, e povoado pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho. Deixou depois de ser duplex, e só nêle ficaram religiosas; não se sabe, porêm, o ano em que isto sucedeu.
O que, porêm, de tudo que acêrca dêle se escreveu pode com certeza deduzir-se, é que êste convento de Chelas é dos mais antigos e memoráveis de Lisboa.
A porta principal da entrada é de um lindo gôsto manuelino. O convento vasto, mas sem nenhuma beleza de arquitectura digna de nota. O côro em 1883 ainda se podia considerar um pequeno museu[22] onde se encontravam várias obras artísticas, tais como quadros, jarras de merecimento, imagens de prata, loiças do Japão, etc.
Não se recomendavam pela austeridade da clausura nem pelo ascetismo contemplativo das monjas os conventos do século XVIII em tôda a Europa ocidental.
Passara havia muito o tempo dos milagres, das visões místicas, da loucura da cruz. Já ninguêm se supliciava em martírios de uma pungitiva delícia, na expiação de grandes paixões terrenas, ou na esperança ardente de uma sonhada bemaventurança. Um frígido sôpro passara, esterilizante e devastador, pelas almas e pelas consciências do tempo.
Leonor de Almeida não teve, pois, a sentir ali uma pressão que em parte alguma já existia nessa época. Pelo contrário; seria doce e calma a vida conventual para quem não tivesse lá dentro um desgôsto a minar-lhe a existência.
Reflecte-se uma espécie de suavidade íntima, de alegria transcendente no rosto das mulheres consagradas desde a mocidade à vida do claustro ou às missões da caridade. Despindo as tumultuosas paixões e as intermitentes alegrias humanas, elas despem tambêm a faculdade de se interessarem, de se entristecerem, de vibrarem ao influxo dos sentimentos mundanos.
Apagado nas almas o sombrio ascetismo mediévico, essa nevrose de que o mundo cristão sofreu tão intensamente durante séculos, ficou a doce calmaria conventual a substituí-lo. As rezas variadas, as minuciosas práticas do culto, o cultivo caprichoso das mais lindas e cheirosas flores, a produção geitosíssima de flores artificiais, de paramentos ricamente bordados, de doces em que se exibia a fantasia colectiva de cada convento, as distracções inocentes que dava a cada uma êste trabalho, para todos proveitoso, a tagarelice natural a pobres mulheres ignorantes sem responsabilidade de árduos deveres nem compreensão nítida do seu sacrifício, as visitas à grade de parentes e amigos enchiam ali o monótono giro dos dias e dos anos.
O século XVIII tinha tambêm os seus outeiros, as suas eleições, as suas festas de locutórios e de igreja.
Acudiam poetas às solemnidades do abadessado e, desde Filinto até Bocage, quantos ali fizeram brilhar o seu engenho, glosando motes, improvisando sonetos, repetindo quadras e décimas amaneiradas e requintadas. Os filhos segundos das primeiras casas do país interrompiam então as tropelias de toureiros, as arruaças nocturnas com que se deleitavam em assustar o burguês pacífico, e vinham tambêm espreitar sob o véu que a meio lhes ocultava o rosto, os lindos olhos coriscantes, os rubros lábios risonhos, as morenas faces penugentas como pêssegos, das suas primas e parentes, as lindas noviças, as doces raparigas destinadas ao serviço de Deus, por não haver cá fora quem as quisesse sem dote, ou por não consentirem as famílias que elas deslustrassem a sua altiva prosápia em casamentos menos dignos da preclara origem do seu nome.
Era um tempo estranho êste. A crença primitiva embotara-se nas almas, deixando ainda nos lábios o seu vocabulário especial, a sua tecnologia sagrada. Ninguêm se revoltava ainda abertamente contra os abusos de um regímen religioso e político que, degenerando da sua nobre origem, tinha conservado os defeitos e perdido as grandes qualidades que o haviam feito longamente viver; ninguêm se revoltava em palavras, mas as obras correspondiam ao relaxamento de tôda a disciplina, à tibieza crescente de tôda a fé.
Leonor de Almeida, dentro do convento de Chelas, pôde, mercê dessa transformação completa da disciplina conventual, ler, pensar, instruir-se, formar uma concepção pessoal do mundo e da vida, sem que ninguêm ousasse intervir no fôro íntimo da sua juvenil consciência.
Ninguêm, engano-me. Intervinham amiudadas vezes o pai, a mãe, a amiga mais querida de Leonor, a condessa de Vimieiro, Teresa de Melo Breyner, a quem ela, em versos e cartas, chama poéticamente e arcádicamente à moda do tempo, a sua Tirce. Mas a todos estes ela iludia com hábeis sofismas, ou contradizia com rigorosos argumentos. O mais penetrante espírito com que o seu se correspondia era o do pai, o marquês de Alorna, muito mais ilustrado, muito mais inteligente que o vulgar da sua classe e do seu meio, mas imbuído de muitos dos preconceitos de ambos.
Temos felizmente à vista parte das cartas inéditas dirigidas por Leonor de Almeida ao marquês seu pai, e por elas podemos reconstruir a vida das três senhoras no convento de Chelas, modificando e corrigindo com a publicação de documentos autênticos alguns dos erros que se notam no prólogo às obras poéticas da marquesa, publicadas em seis voluno ano de 1844.
Nesse prólogo, que não traz nome de autor, mas no qual se sente a inspiração da filha da marquesa de Alorna, D. Henriqueta, então dama camarista da senhora D. Maria II, se diz que o marquês de Alorna, pai de Leonor, escrevia à espôsa do seu cárcere da Junqueira, tendo por tinta o próprio sangue. Exagêro romanesco êste, que se acha desmentido no prefácio do folheto escrito pelo próprio marquês de Alorna, e publicado mais tarde pelo presbítero José de Sousa Amado, sob o título que damos em nota[23].
Citemos o período que explica e esclarece êste ponto importante da vida do prisioneiro:
«Naquelas prisões, onde por tanto tempo gemeu a inocência e o merecimento, os presos eram privados de tinteiros, talvez pelo receio de se relacionarem uns com os outros, ou com suas famílias. O autor, porêm, desta memória excogitou um meio que muito bem lhe surtiu, para haver tinta; e foi lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de vermelho, com o vinagre que lhe ia ao jantar.»
Foi com esta tinta, de um róseo desmaiado, que temos à vista, que o marquês escrevia à mulher e à filha.
Sem serem própriamente as clássicas masmorras de séculos mais cruéis do que êste, que ainda o era tanto, os cárceres da Junqueira eram suficientemente escuros e lôbregos e infectos para que não seja necessário acrescentar à sua história tenebrosa a lenda do sangue usado como tinta pelos prisioneiros desgraçados.
Em algumas das celas em que os presos viviam—como, por exemplo, na do marquês—tão débil era a claridade do dia que penetrava por uma estreita fresta, que a luz tinha de estar perpétuamente acesa para que os infelizes que ali habitavam podessem escrever ou ler ou remendar os seus miseráveis andrajos[24]. Por falta de tratamento e de curativo ali enlouqueceu o conde de S. Lourenço, ali morreram o conde de Óbidos e o conde da Ribeira. Ali sofreu inocente a mais atroz miséria D. Martinho de Mascarenhas, o filho do duque de Aveiro, conhecido entre os presos pelo Marquesito, e a cuja caridade engenhosa, a cuja bondosa solicitude o pai de Leonor tanto deveu na sua enclausuração. O marquês de Alorna foi, porêm, dos poucos que suportaram, em plena integridade mental e sem grandes sofrimentos físicos, êsse período tenebroso e cruel, êsse período de tormentosa perseguição que durou dezoito anos.
As cartas de Leonor, e algumas do marquês, que tivemos a fortuna de ler, revelam os finos quilates dêsse carácter de fidalgo, fiel à religião em que se criara, e na qual achou confôrto e fôrça para o longo suplício; fiel à instituìção monárquica a cujos abusos devia a sua imensa desgraça e a dos seus; coerente consigo próprio, como se não pode ser nas épocas de transição, tais como aquela em que a filha vai desenvolver-se e vai viver. O marquês de Alorna viajara, vira a côrte de França no seu ainda absoluto esplendor de etiqueta e luxo; comparara as cousas lá de fora com as nossas, e percebia a fundo a abjecta decadência em que a pátria tinha caído.
No prefácio das obras, já citado, vem a narração do incidente, ligeiramente cómico, havido entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia, mas em circunstâncias que as cartas que temos à vista contradizem.
Nem o arcebispo ameaçou Leonor com as iras do marquês de Pombal, nem a condenou a dois anos de clausura ainda mais estreita do que já era a sua; nem tão pouco a gentil poetisa de Chelas lhe deu a resposta corneliana de que reza o prefácio. Foi muito mais pacífica e muito menos romanesca a sua entrevista com o prelado. Ouçam-na tal qual ela a narra a seu pai, em uma das suas cartas:
«Chegou meu irmão a Lisboa, bem galante e estimabilíssimo, não obstante as melhoras de minha mãe, o ar frígido e coado das grades meteu mêdo ao médico e não houve remédio de condescender com os desejos que ela tinha de o ver. Passados três dias de meu irmão estar em Lisboa fêz que, muito impaciente de ver minha mãe, obtivesse um tácito consentimento da prelada, entrasse com um barril de água, que lhe custou, mas deu tudo de barato. Jantou connosco, tivemos um dia de folga, todos juntos, e saíu meu irmão à noite, segundo o costume conventual, o qual admite aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto. Minha mãe estava fora da cama, muito contente com o filho, e nós igualmente com o irmão, nem por sombras imaginávamos que isto seria prejudicial a coisa nenhuma. Entretanto as freiras, furiosas contra nós, davam conta aos prelados, com o aspecto mais horroroso que é possível, e no dia seguinte veio a aia da prioreza chamar-me a mim e à mana, da parte do arcebispo de Lacedemónia. A primeira coisa que me lembrou foi responder que não queria lá ir. Mas permitiu Deus que minha mãe julgasse o contrário, e fomos ambas, eu e a mana. Ao entrar na grade apresentaram-se-nos dois homens; um dêles valia por um esquadrão; era uma baleia de rebuço em um capote de baeta usada, um daqueles cónegos que pasma à l’aspect d’une soupe, e sem mais cumprimento com as pupilas se assentaram os nossos dois prelados. Êste gordo era o inspector, e o arcebispo, de menor volume, disse: «V. Ex.ᵃˢ podem estar a seu gôsto.» Sentámo-nos, escarrou êle, tossiu e se rengorgeant na cadeira, principiou: «Sua majestade, a quem constou o atentado que hontem cometeram seu irmão e v. ex.ᵃˢ, violando a clausura, me manda repreender a v. ex.ᵃˢ ásperamente, e é servido ordenar que v. ex.ᵃˢ não tornem à grade até segunda ordem, e que andem vestidas honestamente, e que as suas criadas se reformem nestes oito dias, passados os quais, se o não fizerem, tem a prelada ordem para serem expulsas.» Eu e a mana ouvimos em silêncio, modestamente, estes quatro versos, e acabada uma grande prelenga que êle fêz sôbre as imunidades da clausura, respondi eu que o nome augusto de sua majestade bastava para que pessoas que tinham sido educadas com honra olhassem só com respeito quaisquer ordens, e que eu segurava a s. ex.ᵃ que elas seriam executadas com fidelidade e prontidão. Porêm, que o nome atentado era tão horroroso, que depois de protestarmos a nossa obediente submissão, restava ainda pôr na sua verdadeira luz o pretendido atentado e convertê-lo numa acção generosa, digna da piedade dos nossos legisladores, e alêm disso conforme às liberdades que eram concedidas a minha mãe. Pintei-lhe com côres bastantemente vivas um filho que despreza o trabalho mais penoso para consolar uma mãe aflita, e satisfazendo com o seu cansaço as apertadas leis da clausura. Disse-lhe que havia uma multidão de casos idênticos, e que só dezesseis anos de pezares sem esperança de alívio davam motivo a que abusassem do nosso estado as nossas acusadoras... A respeito dos vestidos os nossos não foram invejados senão por limpos, e o arcebispo mesmo se riu das respostas filosóficas (sic) que lhe dei, e da prontidão com que me quis logo vestir de côr à sua escolha, achando-me muito honrada, que el-rei se dignasse dar ordens em uma matéria que eu muitas vezes deixava ao arbítrio do mercador... A reforma das criadas consiste em dois covados de cassa postos na cabeça. Considere v. ex.ᵃ que dificuldades e que casos fazem rodar um arcebispo de Lisboa aqui, chamar-nos, repreender-nos, e no fim dizer-nos que não necessitávamos de enfeites porque somos muito bonitas. Ria-se meu querido pai, e olhe para estas cousas como merecem.»[25]
Esta citação dá o estilo epistolar de Leonor de Almeida, que sómente ousámos alterar na pontuação e na ortografia, pois que ambas são muito defeituosas. Viva e pronta na réplica, animosa na crise, sem covardia de género nenhum, nem moral, nem física, e usando com
facilidade e graça a fraseologia peculiar do seu tempo em que a filosofia intervem a propósito de tudo. Contamos por inteiro a anedota por não ser inteiramente conforme à que se conta no prefácio das obras poéticas da marquesa de Alorna, e por esta última versão ter sido inalterávelmente repetida por todos os biógrafos que se teem ocupado da nossa poetisa[26].
Nos dezoito anos do seu cativeiro, a primeira e mais querida ocupação de Leonor de Almeida consiste no estudo e na leitura incessante de todos os livros que lhe vêm parar às mãos. Não preside a essa leitura nem método rigoroso, nem critério seguro. Em Portugal, e naquele tempo não o havia nem nos melhores espíritos.
Muita vez Leonor se entusiasma por um autor que não merece êsse preito, muita vez mistura à lista de grandes mestres, em literatura ou em filosofia, um nome absolutamente medíocre; outras vezes, falando de autores mais célebres, deixa entrever que os compreende mal, ou que não os compreende de todo.
Mas a sêde de saber devorante, angustiosa, intensa e viva, como uma paixão que é nela absorvente, ilude-lhe deliciosamente os longos anos, os intermináveis dias da sua estreita e monótona clausura.
Leonor estuda latim e com singular aproveitamento; estuda o francês, o italiano, o inglês, o alemão; chega a estudar o árabe! Aprende e cultiva a música, canta no côro as belas melopeias sacras da liturgia católica e conventual, e na grade, no lucutório, nos serões da abadessa as cançonetas italianas com letra de Metastásio, as árias dos compositores do tempo, franceses e italianos.
Por conselho do Dr. Inácio Tamagnini, seu médico e seu amigo, põe-se um belo dia a estudar lógica, declarando ao pai que «não basta a lógica natural, que isso não é mais que um caminho andado para a saber, e por melhores que sejam as disposições, se a arte nos não diz que cousa é proposição lógica, se nos não faz conhecer que cousa é idea da imaginação ou do entendimento, quais são os erros que nos vêm dos sentidos e quais da autoridade, que cousa é crítica, o que são as ideas simples ou complexas, o silogismo, o maior, o menor, a conclusão, antimema, dilema, sorite, etc., nada disto revela a natureza.»[27]
Portanto, ei-la que lê com afinco o professor Félice, o padre Teodoro, e Wolfio, e Verney e Port Royal, aconselhando estes autores e estes livros ao Marquesito de Gouveia, companheiro de cárcere do marquês de Alorna, e que êste sonhara dar mais tarde por marido a D. Maria de Almeida, a encantadora e fina irmã de Leonor, tão letrada ou quási tão letrada como ela, e para agradar à qual não bastam a nobreza, a elegância patrícia, a formosura viril, é tambêm indispensável a filosofia e a lógica!
A respeito dêste novo estudo compreendido sob os conselhos do bom médico, a quem o marquês de Alorna manda agradecer da Junqueira, a vida e a educação intelectual da talentosa filha, eis como o pai lhe responde inteiramente ao corrente do assunto versado:
«Parece-me muito bem o estudo da lógica, de que depende tudo quanto cabe no discurso humano, e muito particularmente a poesia e a retórica.
«Desta última arte tambêm seria conveniente que visses algum tratado.
«Nesta matéria bem sabes que te tenho falado há muito tempo. A lógica que algum dia te inculquei foi de Port Royal. Não conheço a de Mr. Félice, mas como nessa matéria não se pode inventar nada de novo tudo vem a dar no mesmo, com mais ou menos impertinência. É estudo algum tanto fastidioso, principalmente para os que teem mais lógica natural, mas os desta casta em pouco tempo o poderão devorar, e melhor é que não se dilatem nêle com excesso, porque nesta matéria o demorado artifício faz algum dano à boa natureza. Esta casta de lição tem um certo tempo em que consiste a sua conveniência, e da mesma forma que é muito proveitoso ter regras para se não equivocar com falsas aparências, como sucede muitas vezes aos poetas, tambêm o espírito sofístico não presta para nada.»
No meio dos seus estudos mais enfadonhos, as horas de distracção são tomadas pela leitura.
Pede licença ao pai para ler Rousseau[28] e Condillac, e Diderot, e Voltaire: decora Racine e Corneille, e ainda mais, Crébillon tambêm, a quem a França chamou por muito tempo o seu Sofocles! Lê Pope, lê Boileau, lê Cervantes. Tudo que lê a encanta, sem grande crítica, sem muita finura de percepção, sem um pensamento de síntese a que tanta leitura se subordine, mas devorada de curiosidade, e justificando o dito de Fontenelle de que basta a curiosidade para alimentar a existência.
De vez em quando, as influências de que já falámos e a superstição implacável do seu meio, congregam-se numa espécie de conspiração contra essa insaciável sêde de saber, que fatalmente há de ir minando nela a integridade e a pureza da sua fé católica, a sua ingenuìdade de menina e môça, e transformando-a numa criatura em absoluta desproporção, em mal disfarçado antagonismo com a sociedade hipócrita e beata, ignorantíssima e formalista, até ao fanatismo e à demência, em que ela pelo seu nascimento e posição será chamada mais tarde a viver.
Então, da alma fogosa e irrequieta de Leonor saem palavras quentes de viva eloqùência, defendendo o acesso dêsse mundo interior cujas visões a distraem, cujas maravilhas a enlevam, cujos prazeres puramente espirituais a trazem absorta e esquecida da vida rial tão pungente e tão lúgubremente solitária!...
Não, isso é que ela não consente que lhe roubem, essa vida fictícia que ela edificou com os seu livros, com os seus poetas, com os amigos dilectos da sua inteligência ávida e curiosa!
Nem os pedidos assustados da querida mãe, que ela envolve em carícias, em cuidados, em requintes de filial meiguice; nem os conselhos prudentes dêsse pai, a quem a sua alma se confessa com tão inefável e incansável ternura de todos os instantes, com quem o seu espírito tanto se compraz em conversar livremente, nem as cartas e as súplicas da amiga, entre tôdas preferida, a demovem do seu plano.
E êste plano é bem próprio dêsse século literário que tanto viveu pelo espírito, e que embora em Portugal não irradiasse os esplendores intelectuais que teve lá fora, ainda assim nos deu aqui alguns representantes típicos da ânsia de saber, de prescrutar, de sondar, de conhecer que é como que o seu cunho inconfundível e profundo. Consiste em estudar sempre, em estudar tudo, em fugir, pelos interesses vivos da inteligência, às ansiedades extenuantes da vida quotidiana, em esquecer o presente rial e concreto, pelas distracções violentas, que a uma imaginação tão irrequieta e tão ardente oferecia o mundo infinito da erudição, da poesia e da arte!
E depois é necessario não esquecer que Leonor de Almeida tinha no passado um fantasma sanguinolento e trágico: o cadafalso de Belêm! Tinha no presente um pesadelo lúgubre a entenebrecer-lhe a existência, sempre que por um momento a abandonava a seu estranho sonambulismo de erudita e de poetisa: o cárcere em que o pai ia consumindo hora a hora a sua virilidade florente e bela! Tinha permanentemente a pairar como nuvem lúgubre e prenhe de tempestades essa incerteza do seu destino, êsse pavor do desconhecido, que o capricho e a tirania de um homem omnipotente podia transformar em eterna clausura rigorosa e inquebrantável[29].
Por isso, segundo mil vezes o repete, o estudo é a disciplina que ela impôs ao espírito para o furtar ao desespêro, é o seu alibi artificialmente inventado, com que ela se furta às visões tenebrosas que lhe enchem de angústia a mocidade.
Muito orgulhosa, muito viva, muito rica de energia e de fôrça espontânea, tendo uma destas organizações fadadas para o movimento, para a luta, para o desdobramento magnífico de maravilhosas faculdades complexas, ela sente quanto lhe é fácil sucumbir, logo que, defrontando com o seu próprio destino, o contemple face a face, na trágica realidade que o reveste.
E por isso foge de si própria, e por isso pede ao pai com eloqùência sentida, que a deixe estudar, ler, trabalhar, para não sofrer muito, para não cair vencida a meio do seu caminho áspero e duro!
«Minha mãe diz que sempre que abre os livros que v. ex.ᵃ sabe que eu tenho, lhes encontra uma blasfémia. É certo que o seu modo de falar (sic) que é inteiramente diverso da excessiva devoção de minha mãe pode produzir êste efeito. Emfim, eu que me limito sempre ao que v. ex.ᵃˢ podem querer, procuro modelar o horror desta melancólica inacção com a lição que me é permitida. Leio tôdas as manhãs Bourdaloue ou Fénélon, e depois disto história, poemas, lógica, metafísica. São as matérias de que gosto e creio que me são permitidos os livros em que me instruo, porque nenhum dêles deixa de ser nomeado por v. ex.ᵃ.
«A história natural faz as minhas delícias, e se v. ex.ᵃ me privar disto, seguro que me priva daquilo que mais me recreia. Concluindo, estou pronta para queimar mr. Buffon e todos os que me vierem à mão dessa espécie.»
O pai que é, como já dissemos, um homem de sólido bom senso, que tem a prudência dos pais, aguçada pela inteligência do meio em que a filha terá de viver, não desanima e continua a aconselhar!...
Uma vez, por exemplo, escreve-lhe depois de lhe falar largamente de um refutador de Voltaire, e a respeito das obras dêste:
«...Nisto é que me fundo, segundo o que alcança o meu entendimento, para pretender que tu não leias muitas obras de Voltaire. A maior parte são dignas de fogo, assim como o teem sido das censuras da Igreja, e por êsse motivo até as que não teem embaraço devem ser lidas com cautela. Êste autor é tido justamente pelo mais prejudicial que tem havido há muito tempo, por ser católico, e depois disto não tanto pela sua sabedoria como pela sua grande arte de falar. Com efeito não será fácil encontrar-se outra maior, mas ao mesmo tempo nem sei que houvesse nunca mais mal empregada, porque uma grande parte das suas obras, bem se pode dizer afoitamente que compreendem quanto há de pior na escola do deismo, do materialismo, do desafôro e da mais alta patifaria. Fala em diferentes lugares como nunca falou um infiel nem hereje contra a igreja romana. Procura sempre com o maior cuidado ocultar ou destruir quanto nela houver de edificativo, e exagera quanto pode o que se lhe tem visto de débil e humano. Essas coisas que a todos devem fazer horror, são muito nocivas aos juizos novos, vivos e femininos, e sem embargo de destituídas de provas, e às vezes opostas às mais leves luzes naturais, são ditas com expressões tão engenhosas que o demónio depara, e proferidas de um modo tão deliberado que fazem muitas vezes grande impressão, principalmente em quem for mais sensível à fôrça do consoante. Mas não é só Voltaire o autor pernicioso de quem tu deves ter cuidado de fugir; há outros, tambem modernos, de que te deves igualmente precatar, e contra os quais a lição de Bourdaloue e de Fénélon não é certamente preservativo bastante.
«O teu entendimento, tambêm podes ter a certeza que não basta, porque não houve até agora nenhum que fôsse livre de tentação e de ilusão; mas alêm disto a minha conta tambêm se funda em que muito maior será o proveito literário que vocês tirem dos livros que lhe não podem preverter o coração e o juizo, do que dêsses que, por conta da moda e de um apetite cego, se arriscam a resultar-lhe grande dano. No que toca a história natural ninguêm no mundo com razão a pode condenar. É das lições mais indiferentes que pode haver, mas sôbre a de mr. Buffon, e só no que respeita a anatomia, me parece que não convêm a uma pessoa do teu estado pela liberdade filosófica que tomou, etc.»[30] Ao que Leonor, já se vê, se submete na aparência. Logo, porêm, que o conflito se declara abertamente, ela ilude a vontade dos que a cercam ou lhe resiste com pertinácia invencível, embora envolta nas formas do mais cerimonioso respeito, da mais formal submissão.
É que rialmente sem êsse forte derivativo do estudo, que é nela uma idea fixa, seria incomportável o seu destino[31].
«Em vinte e dois anos que já conto não se acha paciência nem filosofia bastante para sofrer inalterávelmente tanto dano sem a esperança do futuro.»[32] «Estes dias (o dia dos anos da mãe) em que se renovam as memoráveis ideas que temos do passado, parece-me que trazem consigo um pêso formidável.»
E esta idea de distrair-se violentamente para esquecer, aparece mil vezes sob diversas formas, mas sempre expressa com sinceridade espontânea.
O seu temperamento, diz ela, é muito melancólico. «Quando estou divertida não sinto nada; quando rezo, e sou tão miserável que me não diverte isso nada, sofro infinitamente.»
—«O que me custa é considerar a nossa infelicidade. É ver preso, oprimido, pobre e tão distante a v. ex.ᵃ, é ver como se desbaratam tôdas as ideas de felicidade que minha mãe formou, e a impossibilidade que desgraçadamente tenho para poder desempenhar os meus desejos a benefício de meus pais. Estas são as causas das montanhas que tenho sôbre o peito, e dos meus desfalecimentos.»[33]
É contra esta tristeza medonha que a sua impressionável e ardente imaginação reage com insólita vivacidade. E sem afectação nem fingimento, assim como descreve ao pai as torturas que a pungem longe dêle, tambêm lhe narra as distracções com que ilude ou anestesia o seu sofrer.
Nas noites de inverno reùnem-se no quarto de uma. Cantam, dansam, dizem versos, falam em literatura, recitam poesias italianas.
Outras vezes há no convento exames dos respectivos estudos que teem versado.
Leonor, mais erudita e sisuda, dá conta dos primeiros oito séculos da história eclesiástica. (!) Maria, aquela doce e poética Maria que Filinto Elísio crismara em Daphne, como crismara Leonor em Alcipe, é examinada em poesia e em música!
Na eleição da abadessa acodem aos outeiros de Chelas, já celebrado por ter enclausuradas as duas lindas, discretas e infelizes filhas do marquês de Alorna, os poetas do tempo, os fidalgos tafuis parentes de ambas, os belos espíritos curiosos daquela estéril quadra literária, Garção, Filinto, etc.
E Leonor, alegre e vivaz, atira-lhe da janela para o pátio, em que se êles atropelam curiosos e ávidos de vê-las, os motes alambicados, os conceitos preciosos, ao estilo do tempo.
—Alcipe, venha mote!—clamam de baixo os vates freiráticos.
E Alcipe, e a irmã Daphne e a companheira Amaryllis (!) respondem infatigáveis, e as décimas chovem, entrelaçam-se os acrósticos, e o soneto desdobra-se monótono e falsamente majestoso, com o seu remate, que pretende ser conceituoso e que é banal, como tôda essa poesia dos outeiros e saraus poéticos do nosso século XVIII, tão vazio de pensamento e tão pobre de forma.
Um dos encantos com que Alcipe deslumbra o seu auditório consiste na memória prodigiosa que ela possue e que manifesta, repetindo a décima galanteadora ou o alambicado soneto, mal o seu autor acaba de improvisá-lo.
Há uma vibração de intensa alegria na descrição incorrecta, desordenada, sem relêvo plástico, mas cheia de vida, que Leonor faz ao pai dêsses dias de agitação, de festa, de comoção literária.
Vê-se que ela foi feita para brilhar, para gozar acremente e violentamente da vida,—não da vida feita pelos obscuros e ásperos deveres quotidianos, que dessa triunfam sómente os temperamentos contrários ao de Leonor de Almeida: os que aceitam as tarefas monótonas com resignação inquebrantável e o pêso do destino adverso com passiva tranqùilidade, os que sabem enfastiar-se com coragem e aborrecer-se com fleugma heróica;—mas da outra, da mais brilhante, que se compõe de dias felizes e noites vitoriosas, da que embriaga o espírito, da que excita perigosamente os sentidos, da que exalta em agudos espasmos a imaginação e a fantasia...
Leonor não tem, infelizmente para ela, os salões esplêndidos de uma côrte artística e literária como aqueles em que brilharam Vitória Colona ou Margarida de Navarra, madame de Lafayete ou a marquesa de Sévigné...
Não tem um centro de polida e graciosa conversação em que se toquem ao de leve, polvilhando-os de oiro, os assuntos mais fúteis e os mais áridos, os mais técnicos e os mais gerais, como aquele que, no seu tempo, em Paris se substituía à própria côrte de Versailles, e acabava por ofuscá-la absolutamente, aquele em que a parisiense, sua contemporânea, se vingava com brilho incomparável da longa obscuridade a que a mulher fôra condenada, no qual ela surgia envolvida nos mais subtis encantos da inteligência, e nas mais deslumbradoras pompas da beleza e da elegância, rainha voluptuosa de um mundo que a arte iluminava com a sua luz azul, que a literatura impregnava do seu capitoso encanto, e onde até a filosofia se fazia ligeira, acessível e risonha para que ela a assimilasse, a propagasse, a compreendesse e lhe rendesse culto.[34]
E emquanto lá fora a apoteose da mulher se celebra magnificamente, ostentosamente, no meio do requintado luxo de uma época de sensualismo espiritualizado—é muito obscuramente, no ridículo outeiro de um convento do extremo da península, que esta criatura, feita para brilhar na mais ampla e mais elevada esfera, se deleita em mostrar o seu inquieto espírito, borboleta embriagada pelo néctar de uma falsa poesia.
¿Mas que importa o scenário, se ela o transfigurara com a sua imaginação de chama? ¿Se ela o enfeita com tôdas as pompas de seu espírito de sonhadora? ¿Se ela consegue ali conhecer o intenso gôzo de ser admirada, de todos o mais forte, o mais entontecedor para certos organismos de excepção?
Numa das oito noites consagradas à festa da eleição Leonor representa com Maria de Almeida, sua irmã, algumas scenas da tragédia de Racine Atália. Atália é Maria de Almeida. Eis como ela a descreve:
—«A mana ficou linda. Estava de donaire[35] com um vestido de uma espécie de velilho que se usa agora (porque a pragmática vai-se profanando fortemente), com o fundo côr de rosa e prata, com listas negras para fazer a rainha viúva, um véu do tal velilho branco e prata, penteadas de plumas côr de rosa e negras.
«Eu ia vestida de um velilho azul claro e prata, com listas azul ferrete, que é a côr que me fica melhor. O meu vestido foi copiado de uma estampa do sumo sacerdote, e tinha barbas que me chegavam à cintura.»[36]
Depois desta grave tragédia racineana, houve ainda um intermédio jocoso em que Leonor reaparece vestida de frialeira[37], com gibão côr de rosa e prata, mantéu verde e saia arregaçada, côr de rosa, branca, côr de fogo e prata[38].
No baile que se seguiu à representação, tôdas as noviças de Chelas queriam dansar com as duas irmãs. É que elas são de-veras lindas e deliciosas de espírito, graça, gentileza e veia cómica. Leonor com o seu belo rosto altivo, de uma correcção que não exclue o mimo, a bôca finamente e espirituosamente recortada numa linha rubra e sinuosa, o cabelo opulentíssimo que se levanta nos voluptuosos penteados do tempo, ou que se espraia em ondas pelas espáduas esculturais, inspirando à irmã versos entusiastas[39]; Maria, mais pálida, mais melancólica, de olhar estranho e doce, e cuja voz celebrada por Filinto[40] é a delícia dos serões de Chelas, como será mais tarde a delícia dos saraus aristocráticos de Lisboa, onde ela aparecerá envolta no misterioso véu de etérea graça com que se cobrem aquelas que a morte tem de colher em flor!...
No dia dos anos do pai, mesmo preso e distante como está, da mãe doente e triste, ou de qualquer das duas irmãs, há festa em Chelas para obedecer ao tradicional costume antigo, cuja memória não deve quebrar-se.
A iniciativa engenhosa de Leonor é que faz tudo. De dia vai ela para a cozinha, arregaça as mangas, põe a nú os seus braços de deusa de uma plástica impecável e de uma brancura lirial, e rola as finas massas, e bate as alvas espumas, e manipula os saborosos cozinhados e faz ela própria o jantar com a elegante majestade com que lavavam roupa as princesas de Homero. Depois, findos os trabalhos grosseiros do dia, vestem ambas belos vestidos de setim côr de laranja ou côr de rosa que elas próprias cortaram e fizeram, de que inventaram ou executaram os bordados ou as rendas, e convidando alguma amiga preferida, ou mesmo descendo ao locutório e recebendo algum amigo dilecto, partilham com êles do seu pequenino banquete. Á noite dansam, cantam, tocam, riem até que o uso conventual as obrigue ao sossêgo da noite.
Quanta vitalidade, que poderoso optimismo bebido nas suas belas e pacificadoras leituras, as filhas de Alorna não manifestam nesta reacção contra a injusta fortuna e o bárbaro destino!
Não são lânguidas heroínas de um romantismo bastardo, são duas organizações perfeitas, de pronta e viva sensibilidade, tão acessíveis à dor como ao prazer, tão capazes de sofrerem com violência como de gozarem com arrebatamento.
No meio da sua miséria, das suas iniqùidades, da tirania negra que pesava sôbre as almas e sôbre os corpos, da superstição que nublava os horizontes, era optimista e forte o século XVIII; e os seus filhos não teriam obrado tão altas maravilhas, se a vontade fôsse nêles amolecida e doente como nos seus descendentes miseráveis! A sensiblerie começava, é certo, a ser moda em França, e a formular-se em livros, em tratados filosóficos, em tiradas trágicas, em quadros simbólicos, etc., etc. Mas a emotividade vibrante, estranha doença moderna, que nos faz tão fracos, tão susceptíveis, de um melindre tão mórbido ante as próprias dores e as alheias, não existia ainda. Foi o produto de uma lenta evolução que então começava. Os defeitos grandíssimos e as grandíssimas qualidades de que o passado se reveste aos nossos olhos, vem justamente dessa ausência quási absoluta de sentimentalismo e de ternura.
É isto que o faz ao mesmo tempo duro como o granito e resistente e forte como êle. Despreza a vida humana, é verdade; mas não se enternece diante das suas próprias dores, o que é um grande bem e quási que uma virtude.
Ás grades de Chelas acodem os amigos mais queridos da família de Alorna. Garção é um dêles[41], e Filinto Elísio é outro. Nas obras do erudito escritor e nas da futura Marquesa de Alorna encontram-se as poesias que entre si trocavam os dois. Uma vez doente, e julgando-se perto da morte, Leonor consagra a