HISTORIAS DAS ILHAS

MAXIMILIANO DE AZEVEDO

HISTORIAS
DAS
ILHAS

(Reminiscencias dos Açores e da Madeira)

Desenhos de CELSO HERMINIO

LISBOA
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
50, 52—Rua Augusta—52, 54 1899

[INDICE]

LISBOA
TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA
Becco dos Apostolos, 11

O Casamento do Veterano

¿Su esposo la perdona aunque lo infama?

¿Ama y perdona?—Es imposible; no ama.

CAMPOAMOR.

I

No dia em que o Jorge casou com a filha da Isabel houve grande reboliço no Castello de S. João Baptista. Depois da missa regimental, o padre capellão de caçadores 10 recebeu os noivos, com prévia dispensa do prelado da diocese, na grande capella da fortaleza. Era numerosa a assembléa, formada especialmente pelos curiosos.

Officiaes e soldados, logo que o batalhão destroçou, correram para o templo, onde já encontraram muitas mulheres, algumas de manto, aguardando anciosas a chegada do cortejo nupcial, e fazendo em voz baixa e com enorme dispendio de gestos, abundantes commentarios, qual d’elles mais frisante, á resolução tomada pelo cabo de veteranos.—Escolher para mulher uma raparigota, que podia á vontade ser sua neta!—

—Eu cá por mim, exclamava a Luiza Braga, escancarando a boccaça meio desdentada, ía jurar que lhe deram coisa para querer bem. Aqui onde me vêm, destrinço o Jorge desde rapaz pequeno, e nunca lhe descobri tenções de casar. Não era então aos cincoenta e oito annos, que estando com o juizo todo, havia de... Nada! Nada! Elle bem sabe que «albarda nova em burro velho é matadura certa».

—E a quem o Jorge foi buscar?... Á Rosa!... acudiu a Josepha Julia, cunhada do sargento Migueis, piscando muito o olho esquerdo, unico de que era possuidora.

—Eu não digo que a rapariga seja somenas, mas sempre é filha da Isabel, e ninguem desmente o seu sangue. D’arredio, d’arredio, é que eu gosto de vel-as a ambas!

—Deixe a tia Luiza estar que a Rosa tambem não é nenhuma santinha, replicou a Josepha. Não lhe quero pôr pitafe, mas se foi verdade aquella historia com o sargento Luiz...

—Não seria, menina. Olhe que a Isabel é rata sabia e não a deixava ir á noite, sósinha, para o baluarte de S. Pedro. O 33 da artilheria é que disse, que tinha lá visto os dois, mas como todos lhe conhecem a má lingua... Pois não foi elle que andou por ahi a espalhar que a menina Josepha olhava para o alferes da segunda, um homem casado e pae de filhos?!

A Josepha, ao ouvir estas palavras, que lhe foram quasi segredadas, poz-se vermelha que nem malagueta, e redarguiu promptamente:

—Tão damnada é a lingua d’elle, como as que repetem o que o marau vomita. Ubei!

—Ó menina, olhe que eu não tenho falas com o 33!

—Nem deve ter, que a tia Luiza, por ter essa edade, não escapa a similhante navalha. Sempre que o tio Braga passa ao pé d’elle, apanha a sua risadinha e é apontado com o dedo...

A velha despediu-lhe um olhar terrivel, enguliu em secco, e atalhou:

—Bem, bem, não se fala agora nas patifarias do 33. Em todo o caso o Jorge devia saber que a Rosa não era para a sua bocca.

—E que pode empanzinar com o petisco, accrescentou a outra, já de perfeito accordo.

N’esta occasião sentiu-se o ruido dos passos de muita gente que vinha atravessando a parada, e os noivos d’ahi a instantes entravam na capella, acompanhados pelos padrinhos, pelos convidados e pelas pessoas que, impellidas pela curiosidade, tinham ido esperal-os á porta da casa terrea, onde a viuva do sargento José de Medeiros vivia desde ha muito, por mercê dos governadores do castello. O Jorge, aprumado dentro da sua farda de gola alta, botões muito lusidios e divisas alvas de neve, mal deitava os olhos para a gente que o rodeava, e, com a cara a escaldar, seguiu machinalmente pela capella adeante, ao lado da noiva, que vestida de cassa branca semeada de raminhos vermelhos, e toucada de grinalda e veo, dava mostras de vergonha, mal deixando ver os grandes olhos pretos por baixo das longas pestanas assetinadas e bastas. No rosto oval, branco e pequenino, esbatia-se um rubor intenso.

Nunca tinha imaginado poder tornar-se o alvo da attenção de tanta gente, e, se não fosse uma vergonha, fugiria d’alli, a bom correr.

Agora é que deveras se arrependia de ter acceitado a grinalda e o veo á menina Elvira, filha do capitão da segunda companhia de caçadores 10, que estava casada, desde o mez anterior, com o tenente Aurelio Joaquim, ajudante da praça. Se tivesse trazido como tencionava, o seu lenço de seda de barras azues, não daria tanto nas vistas. Era tambem esta a vontade do Jorge, porém a Isabel insistira pelo veo, proclamando-o «coisa muito mais fina».

O cortejo rompeu atravez da multidão, direito ao altar, onde havia de effectuar-se a ceremonia.

Notaram alguns dos presentes, e antes de todos a Luiza Braga, que a Rosa tinha córado mais ainda, e estremecido levemente, ao dar com os olhos no sargento Luiz, que, muito apertado na fardeta côr de pinhão, se bamboleava, com ar de escarneo, na primeira fila dos curiosos.

—Nem aqui mesmo a deixa! Já é pouca vergonha! murmurou a Luiza ao ouvido da Josepha Julia.

—Elles lá se entendem, regougou esta ultima, e concluiu, suspirando: «Tal desgraça!»

Entretanto o padre capellão ia tartamudeando as palavras sacramentaes, e o sargento Luiz muito satisfeito de si cofiava o farto bigode louro.

—Olhem! Lá está o sr. governador! murmurou a Luiza Braga para as mulheres que a rodeavam.

O coronel Jeronymo Cardoso acabava effectivamente de surgir a uma porta lateral da capella e deitava olhares perscrutadores para os noivos, sem comtudo esquecer as dores cruciantes, que lhe impunham os terriveis joanetes.

A Isabel tinha querido que o Jorge o convidasse para padrinho, e chegara até a sondar sua incellencia com exito razoavel, mas o veterano puzéra os pés á parede, e a despeito de uma formal reprimenda da futura sogra, insistiu em escolher o José Maria, seu camarada desde o cerco do Porto, que lá estava na egreja á ilharga do amigo, tentando aprumar quanto possivel o corpo já muito derreado pelos janeiros.

O jantar do casamento foi em casa do Jorge.

Tudo correu bem e só houve de notavel o pregar a Isabel, já um tanto avinhada, uma furiosa descompostura na Luiza Braga, porque a viu á porta da rua, espreitando.

Os convivas apaziguaram a questão e d’alli a pouco despediram-se, indo o José Maria, um quasi nada alegrote, acompanhar a Isabel, até casa.

—Parecemos tambem dois noivos, disse o velho, batendo-lhe, com a mão aberta, no meio das costas, e foi-se embora a trocar as pernas, em quanto a viuva lhe gritava do limiar da porta que «para um marido tanto fino só a rainha que estava em Lisboa!»

N’aquella noite, mercê das copiosas libações, dormiram mais profundamente alguns dos habitantes do burgo militar, que pousado no isthmo que liga a peninsula do Monte Brazil ao resto da ilha Terceira, olha sobranceiramente para Angra atravez das suas numerosas canhoneiras.

II

O Jorge tinha perto de cincoenta e oito annos.

Alto, espadaudo, bem conservado, era, sob o ponto de vista militar, um exemplo vivo do que tinha sido o exercito portuguez, em quanto o governou a disciplina implantada pelo marquez de Campo Maior, e conservada pelos officiaes que tinham servido com o famoso organisador inglez. Era um gosto vel-o perfilar-se deante de um superior e fazer-lhe a continencia com todos os tempos e prescripções da ordenança!

Aos domingos, para ir á missa regimental, punha ao peito o habito da Torre Espada, que tinha ganho no cerco do Porto, por estar umas poucas de horas a disparar sósinho um obuz, contra umas alturas, cujo accesso convinha a todo o custo impedir ás tropas de D. Miguel. As demais praças que primeiro guarneciam a bocca de fogo e outras que vieram substituil-as, tinham ido cahindo, a pouco e pouco, ás balas de um regimento transmontano, espalhado em atiradores na frente da bateria.

—Maior Africa tu fizeste, dizia-lhe n’essa tarde o primeiro tenente José Victorino Damasio, em ficares com ambos os braços, do que em escapar ás ameixas d’aquella sucia! Tu és doido! Servir sósinho um obuz!...

—Ó meu tenente, redarguiu o artilheiro ilheu com cara muito seria, pois elle havera de estar calado, tendo uma bocca tanto grande e sempre escancarada?! Até parecia mal!

—Em todo o caso foi doidice, continuou o tenente a rir.

—Saiba V. S.a que muitos senhores officiaes tambem dão cá á gente d’esses maus exemplos. V. S.a desculpe, mas parecia mesmo doidinho, quando n’aquelle dia em que lhe atravessaram o corpo com uma bala, queria á fina força, mal lhe fizeram o primeiro curativo, continuar a commandar a sua peça. Eu bem me lembro! Só á má cara é que o arrancámos de lá. Por isso, accrescentou o Jorge, indicando a insignia da Torre Espada que ornava o peito de José Victorino, fez muito bem o nosso Imperador dando a V. S.a essa fitinha azul ferrete.

—Pois tambem tu a mereces e has de tel-a, affirmou o official.

E teve effectivamente uma das quatro destinadas a artilheiros, na ordem do dia relativa ao combate.

Todas as testemunhas lhe foram favoraveis no inquerito, em que se baseou a concessão.

Ainda assim o Jorge, embora no seu intimo estivesse a babar-se de gosto, não se fartou de desculpar-se para com os camaradas, dizendo que tudo aquillo era obra do tenente José Victorino, e que, verdade, verdade! o que elle tinha feito, fazia-o qualquer galucho.

Depois da convenção de Evora Monte, mandaram-o para a sua terra, para a ilha Terceira, e d’alli a annos arranjaram-lhe passagem a veteranos e o emprego de fiel do material de guerra.

Tinha á sua conta o armazem fronteiro á porta dos carros do castello de S. João Baptista.

Alli, ou n’uma courella do Monte Brazil, que os governadores lhe davam para cultivar, gastou elle durante muitos annos as longas horas do dia, que sempre lhe pareciam curtas.

Era um gosto visitar o armazem, n’aquelle tempo.

Pelo pateo, rodeado de um muro baixo, espalhavam-se com symetria as pilhas de balas cuidadosamente pintadas de preto, e descançavam, em dormentes de madeira, os antigos canhões de ferro e de bronze, tão bem conservados, como se na vespera tivessem vindo da fabrica. Alegrando o quadro, floresciam em volta do recinto hortensias e gyrasoes.

Lá dentro, no casarão apenas allumiado pela claridade coada atravez das frestas envergadas e pela que vinha da porta, alongavam-se em cabides, dos dois lados, soquetes de massa negra e cabo vermelho, emparelhados com as lanadas e os sacatrapos. Os espeques, encostados ás paredes, nos cantos, continuavam a uniformidade do tom vermelho, quebrado tão sómente pela côr de chumbo das pernas da cabrilha, postas ao centro, em cabide mais forte, que sustentava tambem, inferiormente, o molinete, o cadernal e o moitão d’aquelle apparelho destinado ás manobras de força da artilheria.

Toda esta ordem e aceio eram devidos ao Jorge. Raro pedia fachinas para o coadjuvarem. Só quando havia que remover algum peso de muitas arrobas, e assim mesmo!...

Descançava emquanto engulia o boccado.

O jantar fazia-lh’o a Isabel, por um ajuste, que havia entre ambos. Farto de rancho andava elle até aos olhos, e por isso queria «comida feita por mão de mulher». Demais, a viuva bem precisava que a ajudassem, coitada! e não lhe exigia nenhum disparate.

Ás vezes, em logar d’ella, ia a filha levar-lhe o comer. Quando o contracto principiou, a Rosa já era crescidota, mas ainda assim, uns dias por outros entornava-lhe o jantar, porque ia de corrida, para se despachar mais depressa. Apesar d’isto o veterano nunca chegou a zangar-se, porque ao encaral-a, perdia o animo, vendo-lhe aquelles olhos tão pretos e tão bonitos!... E nunca disse nada á Isabel...

Quando o caso succedeu a primeira vez, a Rosa ficou muito contente, e, voltando no dia seguinte, poz a cestinha no chão mal viu o Jorge, e deu-lhe, em agradecimento, um abraço e um beijo.

Ao sentir a carne fresca e macia da rapariguinha tocar-lhe no rosto, o velho ficou exquisito, e d’alli em deante não estava bem ao pé da Rosa. O beijo voltava-lhe á memoria, e com elle a noção vaga de alguma coisa que tinha perdido, e que todos os mais gosavam...

—Nada! Nada! pensava por fim. Eu com isto dou em maluco. O melhor é dizer á Isabel que fica roto o nosso ajuste, que não me arranje mais a comida.

Mas que motivo lhe havia de dar? E custava-lhe tanto vel-a menos vezes, a Rosinha!

Passou-se tempo, a pequena tornou-se mulher, e um dia o Jorge tomou a Isabel de parte e falou-lhe em casar com a filha, de quem era «muito, muito amigo!»

A viuva do sargento Medeiros ficou banzada.

Podia lá entrar-lhe na cabeça que o veterano quizesse aquella gaiata, que não tinha onde cahir morta e que, de mais a mais, no respeitante a juizo... Quantos amargos de bocca já tinha tido em razão d’este particular!... Se havia de ter outros peiores ou de vel-a perdida, mais valia aproveitar aquelle amparo, que lhe cahia do ceu aos trambulhões... É verdade que o noivo podia ser avô da Rosa, mas era homem decidido, e saberia conserval-a no bom caminho.

Ainda assim, por descargo de consciencia, mostrou á filha as coisas como eram: que o Jorge tinha muita edade e que não seria portanto o marido que mais lhe conviesse. Lembrou-lhe, porém, que elle avezava bem bons vintens, que só querendo-lhe deveras é que se teria resolvido a pedil-a em casamento, e que não se parecia em nada com os bandalhos, que andam por esse mundo a desinquietar as raparigas.

—E a final que proveito é o d’ellas, as mais das vezes? perguntava com acrimonia a viuva, fincando as mãos nos quadris, bem especada ao meio da casa. Arranjarem filhos, sem ter apanhado marido!

A Rosa não se decidiu logo. Custava-lhe a tomar o pedido a serio.—Seu marido, o tio Jorge!...

Bem sabia que o Luiz tinha olhado para ella por brincadeira, sem tenção de casar; mas quiz fallar-lhe, para ver que effeito lhe produziria a noticia. O sargento ouviu a participação, achou que o pedido do veterano se justificava com a belleza da Rosa. Elle proprio desejaria fazer o mesmo ... mas não podia, porque o pae o tinha obrigado a prometter casamento a uma prima, em Lisboa, e seria matal-o de desgosto o escolher outra. O que faria com certeza, era ficar solteiro.

A Rosa não o acreditou, mas ficou-lhe agradecida por aquella explicação. Esperava até que o sargento a tratasse mal, quando soubesse dos projectos de casamento. Ainda assim jurou comsigo mesma, que havia de se vingar acceitando o primeiro que a quizesse para mulher, uma vez que podesse gostar d’elle. Mas o Jorge, não! Era tão velho!

Um dia a Isabel entrou fula, pela porta dentro.

A Luiza Braga, a quem ella contara o pedido do Jorge, tinha-lhe dado uma gargalhada nas bochechas, dizendo-lhe que o veterano estava de certo a caçoar com ellas, e que tirassem d’alli a sua ideia.

—Elle é isso? bradou a Rosa, tambem furiosa. Pois negra seja eu, se não estiver casada antes de um mez!

Tinha cumprido a promessa.

III

Tres semanas depois do casamento houve tourada de corda em S. João de Deus.

O Jorge, logo que a Isabel falou em irem todos ao divertimento, condescendeu, dizendo que não queria a rapariga para freira nem para bicho do buraco, e d’alli a boccado saíam do castello pela porta dos carros, os noivos na frente, a Isabel e o José Maria um pouco mais atraz.

Os caçadores da guarda piscaram os olhos uns para os outros cubiçosamente ao verem a Rosa, e um de S. Miguel, mais descarado, commentou, a meia voz, que nenhum d’elles apezar de moços, se benzeria com um «peixão de estoiro» como aquelle que o velho tinha apanhado.

O José Maria, que ainda ouviu a graçola, cuspiu-lhes a phrase: «Galuchada atrevida!» mirando de soslaio o chocarreiro.

Depois de descerem até Angra e de atravessarem parte da cidade, cujas ruas, de ordinario pouco concorridas aos dias santos, mais se despovoavam n’aquelle domingo por causa da tourada, os quatro subiram até ao arrabalde de S. João de Deus, onde já enxameava uma grande multidão.

Dos mirantes, pouco mais altos que uma pessoa, debruçavam-se muitas damas, a quem os donos das casas sempre reservam os melhores logares, e por traz d’ellas ou dos lados apinhavam-se as mulheres do povo, merecendo geralmente umas e outras os olhares de quem buscasse apenas caras bonitas, sendo porém as segundas mais dignas da attenção do pintor de costumes, em razão da variedade dos trajos, que ostentavam quasi sempre com extremada garridice.

Algumas, as mais estimadas, tinham vindo com o manto caracteristico, muito encaloradas dentro d’aquelle envolucro de alpaca preta, egual á da saia, que, franzido em volta da cintura, lhes cobria o tronco, os braços e a cabeça, formando por cima um tecto á laia de telha, duro graças ao forro de papellão que o reveste pelo interior. Quantos rostos não parecem mais encantadores no fundo d’aquelle nicho, quando entrevistos na semi-obscuridade do manto, que mão pequenina, ás vezes bem calçada, sorrateiramente descerra á altura do pescoço, para logo o fechar unindo-lhe as bordas deanteiras, de modo a ficar apenas um orificio, atravez do qual os olhos dardejam curiosos!... E o effeito não falha, porque o pomo vedado é o mais appetecido.

A par do manto, que em muitas se via descahido para traz por causa do calor, figuravam os capotes de longo cabeção e pesado capello terminado posteriormente em forma de travesseiro. Este abrigo, que constitue abobada por cima da cabeça e resguarda as faces com as abas verticaes, acabadas em bico á altura dos hombros, tinham-o tambem deitado para as costas algumas das donas, não menos encaloradas que as dos mantos, ao passo que outras, mais cautelosas, os haviam guardado dobradinhos a preceito, dentro da casa e em sitio escolhido. Nada! Que o capote para muitas é a bem dizer um dote.

Do matiz formado pelos chales e lenços de seda ou de chita, que adornavam as restantes mulheres do povo, destacava-se um ou outro capote e lenço, para ser ainda maior a diversidade dos trajos.

Quando o Jorge e os companheiros chegaram ao logar da festa, já remoinhavam pelas ruas, aos bandos, os rapazes do povo, trajando bellas roupas de panno fino, chapeus de feltro e alvas camisas, com os collarinhos unidos por dois grandes botões de ouro, lavrados em relevo imitante a filigrana e encadeados pelo pé. Só os velhos e a maioria dos senhores da cidade buscavam refugio nos mirantes e janellas.

Por entre os passeiantes esgueiravam-se, a espaços, as retardatarias. Estas—duas lindas moçoilas do campo—faziam resoar na calçada as solas de pau das galochas pregadas, em volta, de tachinhas amarellas, e enfeitadas no peito do pé com bordados escarlates a sobresahirem do fundo azul da carneira. E como ambas corriam ligeiras com aquelle calçado tão difficil de suster nos pés! Ora! Se até iriam dançar, a menos que o tirassem, para bailar em palmilhas de meias!

Quem primeiro veiu fallar ao Jorge foi o João Matheus, um leiteiro que tinha a freguezia de muitos moradores do Castello. O veterano quasi não o conheceu, tão differente o achou, de quando elle ia por lá ao seu negocio, de manhãsinha, mettido n’uma grande camisa de linho e coberto com o classico barretinho de malha, parente muito proximo do solideo ecclesiastico. O leite, levava-o em duas grandes cabaças escuras, amarradas aos extremos de um bordão ligeiramente curvo, que lhe assentava pelo meio no hombro esquerdo. Agora estava outro inteiramente, salvo no varapau, e no pé fresco, moda tão predilecta do povo açoriano: o fato cifrava-se no dos outros populares, e a cobertura da cabeça, ou, mais rigorosamente, do cocoruto era a famosa carapuça de panno azul, orlada na peripheria com um vivo encarnado e rematada dos lados por duas orelhinhas da mesma côr, reviradas para cima. Para seguir ainda mais á risca a moda popular terceirense, tinha pendente ao meio da testa, saindo por baixo da carapuça, um caracol de cabello feito a primor.

O veterano levou os companheiros para casa do José de Mello, que já o tinha convidado muitas vezes, e que mal accommodou em bom logar do mirante a Isabel e a Rosa, carregou com os dois velhos para dentro de casa, ancioso por dar-lhes a provar uma pinga de vinho novo da Graciosa, que as duas mulheres não acceitaram, mas que os tres homens foram escorropichando por tigelas de barro não vidrado, acompanhando-o de milho cosido com funcho, tremoços, favas e milho torrado, e outros hors d’œuvres, patentes na meza e destinados ás visitas.

A mulher do José de Mello, sentada a par da Isabel, disse-lhe que tomasse cuidado á passagem do bicho, porque eram já seis os touros que lhe tinham saltado para o mirante.

Mas o conselho não foi ouvido, porque o estalar de um foguete provocou immediatamente um enorme borborinho. Do touril, estabelecido n’um quintal proximo, acabava de sair o boi. Correram-lhe ao encontro os aficionados, pulando e gritando com desespero.

Appareceu finalmente um touro de pequeno corpo e de côr escura, preso, pelas hastes emboladas, a um comprido cabo, que quatro homens seguravam pela extremidade opposta, e largavam ou colhiam para dar fuga ao animal ou obrigal-o a parar.

Traziam os quatro, á laia de uniforme, calças brancas, alvas camisas avivadas de encarnado, e bonnets de copa baixa, apenas differentes dos que usam vulgarmente os cosinheiros por terem tambem vivos d’aquella côr.

A viseira que lhes occultava a metade superior do rosto, é que originou a denominação de mascarados de corda, com que o povo da ilha então os designava.

Todos quatro coxeavam mais ou menos, visto que em obediencia ao seu tradicional plano de uniformes, traziam os pés, tão deshabituados de constrangimento, n’aquelle dia apertados em sapatos de bezerro, legitimos representantes, para o caso, dos celebrados borzeguins da tortura inquisitorial.

O touro passou de corrida pela frente do mirante do José de Mello. Um enxame de homens e rapazes seguiu-o de tropel. Tanta diligencia faziam por uma ou duas marradas, que ás vezes viam coroadas as suas aspirações.

N’isto, um d’elles, mais atrevido, tropeçou e cahiu, e d’aqui resultou que outros dois tambem se estatelassem na calçada.

O touro estava perto, e, ou porque os mascarados não podessem a tempo segural-o ou porque desejassem «animar o divertimento», conseguiu chegar aos tres, e depois de uma focinhada prévia dispunha-se já para mimoseal-os com festa mais valente, quando o cabo, esticado com força, lhe deu a pancada, obrigando-o a retroceder e arrancando-lhe um mugido doloroso.

Decididamente a tourada promettia ser boa.

Os tres levantaram-se no meio de risadas estrepitosas, e um d’elles, com a cabeça partida, foi curar-se á botica proxima, sem que mais ninguem désse importancia a similhante bagatella.

Apezar de ser fanatica pelo divertimento, a Rosa tornou-se pallida mal viu o sangue, e descórou mais ainda, porque ao afastar os olhos deparou no mirante contiguo o sargento Luiz, a fital-a persistentemente, com um ar muito triste, como de quem sentisse grande pena de estar a vel-a, mas que não podesse desviar d’alli a vista, nem o pensamento. Afinal cobrou animo e, com simulada indiferença, mostrou concentrar a attenção no touro, que já ia a distancia, rodeado por uma caterva menos densa. Alguns dos perseguidores, vendo as barbas do visinho a arder, tinham-se refugiado nos vãos das portas, ou dependurado das grades de algumas janellas mais baixas.

—Não havia de olhar para elle!... Se até lhe tinha raiva!... Quando o Luiz a namorava, jurava-lhe um amor por ahi além, e afinal deixou-a casar com outro... Bem fraco amor!... Nem já se lembrava de que ella existia. Tinha-a encarado, por um simples acaso. Iria apostar que olhava já para outro sitio... Nem já alli estaria talvez...

E, para certificar-se, olhou novamente e viu outra vez o Luiz, sempre a miral-a com a mesma persistencia.

Revoltou-se e sentiu uma grande vergonha, por adivinhar que n’aquella teimosia estava a prova de que elle não a julgava mulher de bem, e a suppunha capaz, depois de casada, de olhar para outro homem, que não fosse o marido.

Ia dizer-lhe pela expressão do semblante a indignação que o atrevimento lhe causava, mas não poude, porque ao encarar com o Luiz conheceu que o seu olhar não era petulante, mas de supplica, e ainda mais terno do que no dia em que elle lhe tinha dicto que a Rosinha era a flôr do Castello, e que morria de amores por ella.

O que estava certamente era ralado de pena, porque, em obediencia ao pae, a tinha perdido!... Podia lá querer tornal-a má mulher, embora fosse unicamente nas boccas do mundo!... Até merecia dó o infeliz... Pois não o havia desprezado, para casar com o Jorge?... Coitado!...

No emtanto proseguia o divertimento na sua monotonia habitual. Percorridas as ruas do transito, o boi já vinha quasi a passar pela segunda vez em frente da casa do Mello, continuamente excitado pelos bordões, guardasoes, lenços, e até pelos casacos despidos pelos capinhas improvisados, que assim toureavam em mangas de camisa.

Perplexo, estonteado, o boi estacou ao meio da rua, olhando em derredor e escarvando o chão com as patas deanteiras. Afinal, escolhido o ponto de ataque, partiu como seta em direcção a uns cinco homens, mais impertinentes em atiçal-o, mas que desappareceram por encanto, mal suspeitaram a arremettida. Sumido o alvo, o touro não parou na corrida e foi galgar de um salto o mirante do João de Mello, antes que os mascarados lhe dessem a pancada.

Um reboliço, uma gritaria infernal.

Estes refugiavam-se esbaforidos no interior da casa, aquelles saltavam para a rua, e dois ou tres, paralysados pelo medo, deixavam-se ficar no mesmo sitio, de olhos fechados, mãos nos ouvidos, entregues ao seu destino.

Mas subiu da rua uma gargalhada estrondosa, seguida de palmas e apupos. Era a Isabel, que ao pular do mirante não tinha podido evitar que as saias se levantassem, e dava com isto um espectaculo, se não agradavel, pelo menos original.

A Rosa, colhida improvisamente no meio da sua abstracção, viu o touro cahir-lhe ao pé e desmaiou de susto: mas o sargento Luiz, n’um abrir e fechar de olhos, saltou do mirante onde estava, tomou-a nos braços e afastou-a do animal, a que os mascarados de corda esticavam no entretanto o cabo e obrigavam a descer para a rua.

Quando acordou do seu passageiro desmaio, a mulher do Jorge sentiu que a beijavam e ao abrir os olhos viu-se nos braços do Luiz.

Os dois veteranos conseguiram afinal romper atravez dos que tinham fugido para dentro da casa, e assomavam á porta, sem que nenhum d’elles soubesse ainda ao certo o que era passado. O José Maria como que viu o beijo, mas não teve bem a certeza, pois que todas as vezes que bebia uma gota a mais, ficava tonto e via coisas perfeitamente imaginarias. Convenceu-se de que fôra uma historia armada pelo vinho, quando lhe explicaram o succedido.

Para fugir aos agradecimentos, que o Jorge lhe dava sem a minima desconfiança, retirou-se logo o sargento, envolvido pela Rosa n’um olhar de reconhecimento e admiração.

A Isabel veiu furiosa da rua e quiz por força que se retirassem logo. Temia que o rapazio continuasse a dirigir-lhe chufas.

Não disse palavra a Rosa na volta para o Castello. Se por acaso dava com os olhos no marido, voltava a cara para outro lado, com um movimento brusco. Ao meio da rampa que vae dar á ponte levadiça, parou para descançar, e olhou para traz, sem saber porque.

O Luiz tinha-a seguido, de longe.

Não deram por isto os dois velhos, nem a Isabel. Notou-o comtudo a Luiza Braga, que vinha logo após o sargento, em companhia da Josepha Julia.

—Com cedo principiam! cochichou ella ao ouvido da amiga.

—Principiam? acudiu a outra ennojada. Continuam!

IV

Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da loucura que tinha feito em casar com o Jorge.

Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a sua amizade não lhe tinha feito conhecer.

Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio, que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade. Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a coisa sua.

Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de revelar-se-lhe.

O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.

—Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.

Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe, passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.

Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.

A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.

Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente, tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para que ella não gritasse.

* * * * *

Só quando o sargento lhe disse adeus, e lhe pediu muito que para o futuro fosse vel-o ao quarto d’elle, pois alli seria perigoso continuarem a encontrar-se, é que a Rosa viu bem o que tinha feito.

Jurou que nunca mais tornaria, mas sentiu logo que havia de tornar, indefesa contra a seducção, que ainda lhe fazia vibrar todo o corpo em frémitos de goso.

A segunda entrevista foi no quarto do amante.

Ninguem a reconheceria, vendo-a passar na rua. Ia de manto, e para maior segurança, pedira á mãe emprestadas as botas, sob o pretexto de que as suas lhe pisavam e que precisava ir á cidade. Estando quasi a chegar ao quarto do Luiz, apanhou um susto enorme: encontrou-se com o marido, que devia passar a manhã no monte Brazil.

O Jorge não andava a espial-a. Cumpria simplesmente uma ordem do inspector do material de guerra, que o tinha mandado chamar ao Castello, para lhe dar certas explicações relativas ao embarque de umas peças velhas de bronze, que deviam recolher á Fundição de Canhões.

Os dois amantes, muito conchegados um ao outro, estiveram tempos sem fim de ouvido á escuta por traz da porta, que ella tinha fechado subtilmente. Não sentiram nada. Apenas as pulsações desordenadas do coração de Rosa.

—És uma tola, disse-lhe por fim o sargento, dando-lhe um beijo. Podia lá conhecer-te, com esse disfarce! De mais a mais como é velho, deve ter a vista cançada.

—Elle, a vista cançada? Estás a ler. Vê perfeitamente. E para longe, ainda melhor do que eu.

Quando tornou para casa, ainda ia receiosa.

O marido appareceu d’alli a uma hora. Não fazia differença.

As entrevistas continuaram.

N’uma d’ellas a Rosa, ao sair do quarto do Luiz, topou a Josepha Julia, que a mirou dos pés á cabeça e fez um gesto de escarneo.

—Se me conheceu!... pensou a mulher do veterano, abalada pelo medo. Era o mesmo que sabel-o toda a gente!

Mas logo encolheu os hombros, e disse comsigo resolutamente:

—Ora adeus! O que está feito, está feito!

* * * * *

D’alli a poucas horas já effectivamente andavam de bocca em bocca as infelicidades conjugaes do cabo de veteranos. Para não levantar falsos testemunhos, a Josepha, muito encolhida debaixo do lenço, cosida com as paredes e a passinhos ligeiros, tinha seguido a mulher do manto. Mal teve a certeza de quem ella era, correu a casa da Luiza Braga. A velha prometteu guardar segredo, mas, tendo ficado só e vendo entrar-lhe pela porta dentro o 33 da artilheria, a pedir-lhe linha preta para coser um botão do casaco do uniforme, não teve mão em si e poz tudo em pratos limpos, sem dizer, já se vê, quem lh’o tinha contado.

A Josepha já estava em casa, costurando ao pé da janella do rez do chão. Tinha feito solemne protesto de não trocar falas com o maldizente do artilheiro, mas ouviu-lhe a «grande novidade», condimentada com varios pormenores inventados pelo narrador.

Benzeu-se, exclamou que podia ser tudo uma refinada mentira, que a Rosa era levantadinha de cabeça, mas que chegasse a tanto, lá isso não lhe parecia.

—Pois diga-le que não. Quem viu, é pessoa incapaz de mentir.

—E quem é que viu? perguntou a torta em sobresalto.

—Nun xe xabe! como dizia o gallego.

—Então pode não ser verdade. Bem sei que o marido é velho...

—Vê?... Já acreditou!

—Não acreditei nada. Vá-se d’aqui, seu grande má lingua!

Fechou a janella, com um accrescimo de indignação. No fundo estava radiante. Para o libello famoso, já tinha editor responsavel.

* * * * *

A Isabel foi aos ares no dia seguinte, quando soube pelo tio Braga o que a voz publica attribuia á Rosa, e até pregou uma valente bofetada no alviçareiro. Se lhe fez doer, não lhe causou o minimo espanto, de habituado que elle andava a tomar o peso ás mãos da cara metade.

Podia lá entrar-lhe na cabeça que a filha, casada tanto de fresco, já enganasse o marido!... Ainda se estivessem recebidos ha mais tempo!... Ella tinha-se prendido por sua livre vontade, e nem sequer podia dar como desculpa o Jorge ser velho e pouco proprio para encantar uma rapariga. Tudo isto a mãe lhe fizera ver um cento de vezes, antes do casamento.

Não levou um credo para chegar a casa da filha e como a apanhou sósinha, disparou-lhe tudo á queima roupa. Uma de duas: ou conseguia atrapalhal-a e apanhar-lhe a confissão da culpa, ou, se fosse tudo mentira, a indignação havia de patentear bem clara a innocencia.

A mulher do veterano encarou com a mãe, e disse pausadamente estas palavras, cujo effeito foi observando:

—Sim, senhora, é verdade o que lhe disseram. Fiz isso, porque não posso aturar meu marido, e porque só do Luiz é que eu gosto e hei de gostar sempre.

A Isabel cahiu sentada para cima de uma arca, e rompeu n’um grande choro, arrepellando-se, dizendo mal á sua vida.

—Cuidado, minha mãe! Olhe que se meu marido entrasse agora por ahi dentro, a desgraça ainda havia de ser maior.

—Lá isso era, porque descobria toda a verdade, e ... Deus te livrasse!...

—É o que pode fazer com esses alaridos.

Ubei! Permitta Deus que elle nunca desconfie!... Ora a minha desgraça!... Mas o que eu não quero,—fica sabendo!—é que me tornes a olhar para aquelle bonecro de engonços! Ha de ser isto assim, ou sou eu mesma que prego a ambos uma boa lição, com estas mãos que Deus Nosso Senhor me deu!

—Mau! Já vejo que não temos nada feito, disse a Rosa, afastando-se da mãe. Se as suas tenções são essas, o melhor é ir já, já ter com o Jorge e declarar-lhe tudo. Ande! Vá! Assim ao menos deixo de penar por uma vez!

—O’ rapariga, o que estás tu a dizer?

—Que hei de gostar sempre do Luiz, ou eu não me chame Rosa. Sim, senhora! Resolvi-me a tudo. Dizem mal de mim? E eu que me ralo! Ellas falam, porque se mordem de inveja!

—Ai que está variada! exclamou a Isabel, levantando-se e erguendo os braços para o ceo. Deram-lhe volta ao miolo, olá se deram. Oh! Mas isto não pode ser, e tendo-se voltado para a filha, continuou, voz em grita: Se me não tomas juizo, eu racho-te ... racho-te de meio a meio! Cuidas que por estares assim espigada, me não provas os cinco mandamentos?

—A minha mãe não me entendeu. Olhe! Se fizer isso, se quizer apartar-me do Luiz, queimada seja eu pelo fogo do inferno, se na primeira occasião em que me pilhar a sós com meu marido, não lhe conto a coisa toda como ella é, tim-tim por tim-tim. E reforçou o juramento levantando tambem para o ceo o braço direito, com a mão bem espalmada.

A Isabel, que se tinha benzido ao ouvir fallar no inferno, descahiu outra vez para cima da arca, aos soluços.

—Está doida! Doida varrida!

A rapariga aproveitou este ensejo e approximou-se da mãe, pé ante pé: fallou-lhe ao ouvido, carinhosamente; demonstrou-lhe que só havia uma coisa que fazer—evitar que o Jorge descobrisse, O mal já estava feito, e nem Deus teria poder para destruil-o. Mas se a Isabel quizesse, as coisas continuariam assim, e nunca o velho saberia o que diziam, pois ninguem se atreveria a ir contar-lh’o. Mais dia menos dia, como já era bastante edoso, podia apanhar uma macacôa que o levasse para a terra da verdade, e já ella ficaria livre para casar com o escolhido do seu coração.

—O sargento casar comtigo?... Espera por essa! Tanto como da primeira vez, murmurou a Isabel em tom lamentoso. O que elle quiz foi ... o que se está vendo; mas se julgar novamente o caso mal parado, fica certa de que nunca mais lhe pões a vista em cima. Os homens são assim! E concluiu, ainda mais lamuriante: Ai! A minha triste vida! Para o que eu estava guardada!

—Isso era bom, se o Luiz não gostasse tambem de mim; mas gosta muito, acredite, gosta muito, affirmou a Rosa, fallando ao mesmo tempo que a mãe. E está tão arrependido de me ter deixado casar, tão arrependido!...

—Historias da vida! Mas, ó mulher, foram esses os exemplos que eu te dei? Pois não tens vergonha!... Emquanto fui casada, respeitei sempre as barbas de teu pae, e depois de viuva...

Ia proseguir mas calou-se a um olhar meio serio, meio de escarneo, que a Rosa lhe dardejou sem levantar a cabeça ligeiramente inclinada para o chão, mas arregaçando de subito as palpebras, a fim de trazer bem a lume os olhos negros e expressivos.

Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:

—Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.

—Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente serenidade.

—Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse escandalo, se não soubesses ... de nada.

—E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria muito alto e louro—um rapaz bem bonito, por signal—a quem gommava a roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me, e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir. Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta, para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.

—Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a tremer.

—Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.

Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:

—E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair d’esta consumição.

—Foi praga que me rogaram! Foi praga!...

A Isabel não poude levar por deante o epiphonema, porque a filha, cingindo-lhe as costas com o braço direito e achegando-a a si brandamente, segredou:

—Bom! Bom! Deixe estar que não se arrepende... e ha de me dar razão algum dia, vendo-me feliz.

—Deus te ouvisse, filha, Deus te ouvisse! Mas o que tu me obrigas a fazer!... Olha! O melhor era deixares aquelle ... não sei que diga!

—Outra vez!... Escolha: ou a mãe consente em ajudar-me, ou eu digo hoje mesmo tudo a meu marido!

—Não, mulher, não lhe digas nada!

E com os olhos em alvo, as mãos erguidas, os dedos enclavinhados, a viuva exclamou:

—Seja tudo pelo amor de Deus!

IV

O José Maria andou uns poucos de dias a parafusar, antes que se resolvesse a dizer ao Jorge umas coisas, que lhe tinham contado muito em segredo a respeito da Rosa, e que elle acreditou, porque eram o complemento e a confirmação da scena entrevista em S. João de Deus.

Esteve quasi decidido a calar-se, porque dava razão ao dictado «Entre marido e mulher não mettas a colher», e tambem porque lhe custava muito ir destruir para sempre a alegria ao seu antigo camarada.

Quando andava n’estas indecisões, e já principiava a desculpar a Rosa, pensando que talvez a coisa não tivesse ido a mais, e que ella sempre havia de ter algum respeito pelos cabellos brancos do marido, adregou-lhe passar á porta da Luiza Braga.

—Pst! Pst! fez-lhe esta, lá de dentro.

—Isso é commigo?

—Entra, ó José Maria, que te quero perguntar uma coisa.

—Tu! Ha de ser fresca!...

Entrou e foi sentar-se n’um moxo.

—O que eu te quero perguntar, disse a velha, que estava a engommar um collarinho, é se o teu amigo já sabe o que rosna por ahi a canalha brava.

—Qual meu amigo?

—O Jorge! Mas tambem elle só deve queixar-se de si mesmo. Não se mettesse com a Isabel, nem com gente da sua geração.

—Cala-te, mulher, que já não te vejo bem! replicou o veterano, levantando-se n’um impeto.

—Eh senhor! Tu endoideceste! Por eu não querer que o Jorge ande enxovalhado por essas boccas ruins, é que tu!... Ainda em cima?... Sempre sou bem tola!

O velho conheceu que se tinha excedido, e ancioso por saber o que mais propalavam os maldizentes, moderou-se e murmurou:

—Dize lá o que querias dizer.

—Queria mas já não quero... Julgas talvez que não sou tambem amiga do Jorge? Pois ainda ha migalha estive quasi garreando com a ... cala-te bocca!... com uma certa pessoa, por não lhe poder ouvir que se elle não vae ás do cabo com a Rosa, é porque uma casa sempre se governa melhor, quando são dois, em logar de um só, a carregarem com as despezas.

—Dois?

Bei, Senhor! Pelos modos o sargento Luiz recebeu, pelo ultimo paquete, uma mancheia de patacas, que lhe deixou um tio lá de Lisboa...

—Fecha-me essa bocca suja, grande excommungada!

Juntando á palavra o gesto, o José Maria bateu-lhe com a palma da mão em cheio nos beiços, e, antes que a Luiza se recobrasse do susto, sahiu pela porta fóra, de escantilhão.

—Hei de contar tudo ao Jorge! resmungava elle, pela rua adeante. Não quero que ande vendido. Hei de contar-lhe tudo, e vae ser hoje mesmo! Que grande pouca vergonha!...

Com mais temor que resentimento, a Luiza foi á porta, para seguil-o com a vista. Não poude furtar-se a dizer com os seus botões que, tirante o Braga, todos os soldados do cerco do Porto eram homens de uma canna só.

V

Foi na courella cultivada pelo Jorge no monte Brazil, que o José Maria encontrou d’alli a pouco o seu antigo companheiro de armas.

Primeiro que entrasse no assumpto, falou de mil ninharias: das lagostas que na vespera tinha pescado na bahia do Fundão; na queda que o corneteiro-mór reformado ia dando na Quebrada, quando andava a apanhar cracas.—Ainda que se não esmigalhasse na rocha empinada e de temerosa altura, e fosse cahir no mar, não escaparia de certo ao mergulho, pois elle a nadar era mesmo um prego!

Foi tagarelando, tagarelando, mas sem alludir á Rosa. Todas as vezes que a rapariga lhe acudia á lembrança, parecia que se lhe punha um nó na garganta.

Afinal o Jorge deu por isto, e foi o proprio que perguntou:

—O’ José Maria, tu estás, a modos, exquisito? Parece que tens uma coisa para me dizer e que não te astreves...

O outro ainda lhe retorquiu com um «Olha lá!...» e quiz fingir ar de riso. Mas não poude levar por deante a dissimulação e disse por fim, deixando-se cahir sentado n’uma pedra:

—Pois tenho, tenho muito que te dizer.

—Se é da Rosa, não me digas nada! respondeu-lhe o amigo com arrebatamento. Sei que ella não vae á tua bola, e pódes ter ouvido por ahi qualquer coisa contra a rapariga, e vir então buzinar-me os ouvidos... Se adivinhei, não tenhas esse trabalho!

—Ó Jorge, pois tu fazes de mim similhante ideia?! perguntou o José Maria todo sentido e levantando-se de esfuziote. Metteu-se-te na cabeça que eu fosse capaz de dizer coisas, de que não tivesse a certeza? Bem! Bem! Como te deram volta ao juizo, já aqui não está quem falou ... isto é, quem ia falar!

—Sim, cala-te, que é o melhor! Só faltava que tambem tu me viesses ralar o interior, que já anda bem consumido. Só Deos é que sabe!...

E tendo lançado para longe o sacho com que andava cavando, levou ambos os punhos aos olhos, e desatou a soluçar. Coisa que não fazia desde creança, chorou—chorou lagrimas abundantes, que lhe escorriam pelo rosto e pelas mãos.

Certificou-se o José Maria de que mais ninguem podia ver o amigo, chegou-se a elle e passou-lhe um braço em volta do pescoço.

—Então! Que diabo! Isso não vale a pena! disse-lhe com meiguice. Pois ha mulher que mereça a vida de um homem? Não te lembras da minha serva de Deus? Bem amigo d’ella que eu era: vi-a morrer e ainda por cá estou. Com essas coisas dás cabo de ti.

—Tu, tu é que dás. Para que vieste bulir commigo? Deixasses-me quieto! E dizendo-lhe isto de mau modo, o Jorge arredou-se do camarada e ficou de costas para elle, sem comprehender que fosse dictada pela amizade aquella confidencia.

Pois não lhe trazia a certeza de que elle já receiava? Receiava, sim, mas não queria acreditar, desejoso de que o tempo viesse a embotar aquella duvida, e esperançado em que por fim se conhecesse que a rapariga estava innocente, como lh’o dizia o seu espirito cheio de rectidão. E ainda no peior dos casos, se em verdade a Rosa fosse má mulher, para que haviam de lh’o dizer, se mais dia menos dia elle mesmo descobriria tudo, com certeza?

Por isso nem queria encarar com o seu antigo camarada. Qualquer outro já teria pago bem caro o atrevimento!

O José Maria entendeu que se devia ir embora, o que era aliás seu desejo desde que alli estava.

—Haja saude, Jorge, e não me fiques querendo mal.

O outro encolheu os hombros desabridamente, sem mudar de posição.

—Não te ponhas com maus modos, homem! Aprender até morrer, bem diz o dictado.

E chegando-se mais, concluiu:

—Por me dares esse pago, não cuides que ouvindo algum marau dizer poucas vergonhas de ti, deixe de saltar-lhe para cima com vento fresco, apesar de velho e estropiado. Haja saude!

Ia a afastar-se, quando foi agarrado violentamente por um braço.

—Poucas vergonhas! Que poucas vergonhas dizem de mim? perguntava o Jorge, meio suffocado. Anda, põe já tudo em pratos limpos, se não queres fazer-me acreditar que te saiste com essa, para te vingares da minha resposta. Não! Não!...

E emendou, supplicante:

—Se não queres ver-me estalar de paixão, conta-me o que sabes, José Maria, conta-me o que sabes! Pelo amor de Deus!

Foi então que o outro lhe referiu por miudo não só o que tinha visto, mas o que andava nas boccas do mundo. Quando o ouviu falar na suspeita de que fosse connivente na sua infamia, o Jorge teve um ataque de raiva e quiz saber por força quem tinha contado aquillo, para lhe apertar as goelas, até lhe fazer deitar cá para fora toda a lingua malvada.

Apesar do que a revelação lhe fazia soffrer, reaccendendo lhe desconfianças, que a pouco e pouco se tinham ido aplacando, o seu primeiro impulso foi justificar a mulher, mostrar ao amigo que o tinham enganado, que a Rosa continuava pura como a neve. Se em S. João de Deus ella estava ao pé do sargento Luiz, era porque o medo do touro lhe fizera perder a cabeça. Pois o José Maria não a tinha tambem visto amarella como cera, quando os dois a foram encontrar? Demais, a Isabel, que tambem não podia ver o tal bonecro, explicou depois que não havia nada que se lhe dizer, e que até devia agradecer-se ao pobre rapaz o ter acudido á Rosa, quando todos fugiam assustados.

—Cantigas da viuva! objectou o José Maria. O que ella quiz foi desculpar a filha. Olha! Pergunta-lhe se tambem deves agradecer ao bandalho, o beijo que elle pregou em tua mulher!

—Um beijo? Quando?

—N’essa mesma occasião. Como se julgava a sós com a rapariga, visto os mais terem debandado, tomou esse atrevimento ... mas eu que vinha adiante de ti pude ainda vel-o.

—Viste-o? Tens a certeza?...

—Pareceu-me que sim. Bem sabes que eu, bebendo uma pinga a mais...

—Pareceu-te! Eu pergunto se tens a certeza!...

—Antes de passar a porta que dá para o quintal onde elles estavam, ouvi a modos a bulha de um beijo, e como fui dar com o sargento ainda a amparal-a, acredito que elle a beijasse, como dizem por ahi.

—Se não viste, para que repetes o que pode ser mentira? E olha que nos dias que se seguiram, lembro-me muito bem, ella não fez differença nenhuma. Nunca se tirava de ao pé de mim. E sempre alegre!... Se tivesse feito o que dizem, não sabia sustentar aquelle disfarce.

—Isso é o que tu julgas. As mulheres, quando pendem para a banda do arrocho...

—Ainda que quizesse pôr pé em ramo verde, não podia, respondeu o Jorge com impaciencia. Em quanto eu estou fóra de casa, a Isabel não perde a filha de vista. Já te disse! Não ha uma hora do dia em que a Rosa esteja desacompanhada.

—E de noite?... perguntou o José Maria, que inconscientemente tomava calor perante as objecções do camarada, e, excitado pela controversia, dizia coisas, que não lhe sairiam da bocca n’outra occasião.

—De noite está ella deitada commigo!

Mas calou-se de repente, não se atrevendo a continuar na defeza, por se lembrar de que tinha o somno pesado, e que, vinte vezes que a mulher se levantasse, elle de certo não acordaria.

—Pois a Rosa seria capaz?...

A afflicção de novo o estrangulou. Descria de todos, de tudo. Arrepanhou-se-lhe o interior do peito, ao de cima do estomago, e todo esfriou lá por dentro, como se lhe tivessem amputado subitamente essa parte do corpo, substituindo-a por uma grande pedra de gelo.

É que lhe tornava o ciume ainda com maior furia, perdida a esperança que pouco antes o animava, quando elle, na ancia de desculpar a mulher, em vez de persuadir o amigo, a si proprio se convencia.

Mas o outro comprehendia, afinal, a grande asneira que tinha feito.

Fosse a Rosa effectivamente má mulher, e nem mesmo assim elle devia dar aquelle passo.

Obedecendo a um momento de zanga, acabava de perder um amigo, para quem se tornara mensageiro do maior de quantos desgostos se lhe podiam annunciar, e fazia-o para sempre desgraçado.

Quiz ainda emendar a mão, desmanchar ou pelo menos attenuar o mal que acabava de causar, mas o Jorge percebeu-lhe as intenções, e atalhou, despedindo-o com um gesto a que o José Maria obedeceu:

—Pois sim, será o que tu dizes... Mas certas coisas, mais vale um homem cosel-as comsigo mesmo. Adeus!

VI

Quando julgou o camarada já bastante longe, de modo que lhe podesse furtar as voltas para não ser visto por elle no regresso a casa, o Jorge saiu da courela de terra e tomou o caminho do Castello, quasi a correr, ancioso por se encontrar com a Rosa.

Mas foi abrandando o passo.

O que ia dizer-lhe?

Podia lá contar-lhe o que os maraus!... Se o fizesse, é porque a julgava capaz d’isso, e então escusava de perder palavras, quando o que devia fazer unicamente era...

Teve uma hallucinação. Pareceu-lhe que via diante dos olhos a cara d’aquelle soldado miguelista, a quem matara no cerco do Porto, enterrando-lhe no peito a espada de um alferes de caçadores 5, que o outro acabava de tornar cadaver, abrindo-lhe a cabeça com a coronha da espingarda. Viu outra vez n’aquelle rosto a expressão medonha da anciedade, da afflicção e desespero do infeliz, que assim perdia a vida em plena mocidade. Os olhos, os olhos muito abertos, a saltarem das orbitas, o iris completamente emmoldurado pela alva, diziam tão energicamente o immenso odio contra o matador, que o Jorge recuou apavorado... No fim do combate passou, por acaso, ao pé do morto. Os olhos já estavam embaciados, mas ainda lhe expressavam o mesmo odio.

Entrou-lhe pela primeira vez bem clara no espirito a noção de quanto é horrivel dar a morte a um nosso similhante, e pediu a Deus que nunca mais o puzesse n’aquella dura extremidade. Assim lhe aconteceu. Até ao fim da guerra não tornou a matar ninguem, pelo menos que visse, que soubesse, pois que as balas, granadas e bombas lançadas pelas boccas de fogo que elle apontava não errariam de certo o alvo... Mas como não via essas mortes, era como se as não fizesse.

—Havia então de matar a Rosa!... A Rosa de quem, apesar de tudo, gostava tanto!...

Mas se ella effectivamente o tivesse enganado?

Subiu-lhe outra vez á garganta uma onda. Viu tudo côr de sangue... N’esse caso, esmigalhava-a, estraçoava-a, para que nenhum outro homem lhe gosasse o que era seu, muito seu!

Chegou ao pé de casa.

Lá dentro tudo em socego.

A Rosa, embainhando uma saia de chita, cantarolava a meia voz e em tom sentimental a modinha da Saudade, em quanto a Isabel, que havia tempos estava quasi sempre em casa d’elles, o que era muito do gosto do Jorge, espertava o lume para se coser a ceia. A sopa de couves com feijão fervia n’um suave romrom dentro da panella de ferro e espalhava por toda a casa um aroma capaz de fazer crescer agua na bocca ao menos famelico.

Sentiu-se menos resoluto, perante aquella tranquilidade.

—Porque todos a accusavam, havia ella de ser culpada?... E se estivesse innocente?

Enterneceu-se, invadido por uma grande commiseração.

Em consciencia, quasi lhe achava desculpa, mesmo no caso de ser verdade o que diziam. Para que a tinha escolhido assim tão nova? Deus é que não lhe devia ter posto no coração, aquelle immenso amor! Bem sabia que estava adiantado em annos, que tinha o rosto cavado de rugas e o cabello quasi todo branco, mas desde que se apaixonára pela Rosa, sentia dentro de si o viço, o frescor, a alegria dos mais formosos dias da mocidade; respirava desafogadamente e com delicia, achando o mundo mais bello do que nunca, e antevendo um futuro longo, feliz. Ás duas por tres, nas vesperas do casamento, dava por si a rir, a cantar. Era moço outra vez.

A Rosa, certamente, é que não o via do mesmo modo.

Tudo isto lhe passou de tropel no pensamento, ao entrar em casa.

Mas tinha que desabafar por força, se não rebentava.