UM CONTO PORTUGUEZ

UM CONTO PORTUGUEZ

EPISODIO DA GUERRA CIVIL

A MARIA DA FONTE

POR

MIGUEL J. T. MASCARENHAS

PORTO
Typographia Lusitana
84--Rua das Flores--84
1873.

DEDICATORIA

A MEU FILHO

GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS

Dedico-te o meu unico livro.

Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta annos repletos de provações.

Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez», deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos physicos, que me não consentem atturados trabalhos de nenhum genero.

Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

Teu pae muito amigo

Miguel J. T. Mascarenhas.

PROLOGO

Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.

Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa de não compôr mais versos.

Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as letras.

Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia, como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr em letra redonda a minha «letra de mão»?!

Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita leitura, de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita audacia, que é o fructo da ignorancia.

Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...

Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...

Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.

Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder, que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não curo do concerto, para não desabar o edificio. Se continuasse a apresentar o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza: morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas as palavras.

Seria melhor?...

São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios personagens.

Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem. Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:

«Arranca o estatuario uma pedra d'essas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois, feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que se póde pôr no altar.»

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

Miguel J. T. Mascarenhas.

PRIMEIRA PARTE

HONRA

«No que o mundo chama honra ha muitas vezes mais vaidade que virtude».

(Dr. Corrêa de Lacerda).

UM CONTO PORTUGUEZ

I
TREZ DONZELLAS

«.....................................
Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Tres são as Graças,
Tres, as Virtudes,
Tres.»

«João de Deus--flor do campo.»

Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846, avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa, das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam essas feições caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.

Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho: por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1]

D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta, o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca, ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de trezentos mil cruzados em dote.

Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.

A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida, e muito além do geral das senhoras portuguezas.

Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.

Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.

As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima, estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os nomes.

Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas; fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.

Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças religiosas, que tocavam na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas apparencias, a que ella sabia chamar phantasias sagradas.

Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas da mesma classe.

A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas dezoito primaveras.

Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo, o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.

Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras, como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera embebidos os olhos, e a alma presa.

Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.

Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os rumores de que se faz echo.

Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo. Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua laboriosa e rude familia.

Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham, aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição humilde.

Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só d'esta herança desdenham.

Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma geração briosa, e heroica!

Porquê?

É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...

Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de todas as classes sociaes.

Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a muito.

Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?

Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer, com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira engastada em oiro purissimo.

O colloquio das tres donzellas, fôra assim:

--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel Anna, o que tens tu?

--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela interrogada, a falladeira Rosa.

--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga, como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...

--Diz bem fidal... snr.a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices... mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas, que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.

--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?

--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.

--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras me assusta; e...

--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso. Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas graças, a nossa commum amiga?

--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.

--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.

--Se tu confessas que foram aprendidos, como posso eu ter culpa das culpas alheias?... Não é assim, minha senhora?

--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O favor que me fazes de tua senhora, é que eu não queria receber. Chamai-me só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e proprio das nossas idades, como eu appetecia.

--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...

--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a muito se fôres bem fadada por Deus.

--Vês, Rosinha, minha vassalla, que o mal da inveja tambem toca nas almas como a da nossa Annitas!?

--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que pensa o que diz... mas é muito de crêr que nem sempre diga o que pensa...

--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido... Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente reunida na serra de Guilhufe!...

--É muito povo, é, snr.a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas, as duas amigas da fidalga.

--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle ajuntamento...

Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo, respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a outro--é... a «Maria da Fonte!»

[1] Na Historia da casa de Lara, e n'um manuscripto, de 1676, do padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se escripto==Avendanho==; mas os modernos senhores do nome, assignam-se--Abendanho. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas manchadas de sangue, com a legenda: Sine sanguine non est victoria.

II
RUGIDO

«Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça todos esses remedios?»

(Vieira--ARTE DE FURTAR.)

Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão. Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D. Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os velhos senhores d'ella.

Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação, que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção, encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações portuguezas.

Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio florido, ainda ao brasido»--havia lume no fogão. Em cima de uma mesa circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas gerações.

Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S. Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D. João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.

Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.

Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.

Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de D. Maria da Gloria, e verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito, apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes, castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.

Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.

Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita. Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares, sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores, merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.

D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza, pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de seus cinco filhos varões. Toda entregue á direcção interna do seu casal, só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do dia seguinte.

Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao esposo.

A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--fidalga das chaves--dito pelo povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo, avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a denominava--chaveira dos pobres,--em grata allusão ás immensas esmolas, que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se assemelhava á portaria d'um convento.

Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres donzellas.

Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27 annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos; sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras lettras; e o seu verdadeiro estudo principiou aos quinze annos de idade, e teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.

Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo dinheiro, o rei do mundo.

Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o considerava do modo que já dissemos.

Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o terreiro, ouviram-se badalar as Ave-Marias no campanario da terra, o que logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um respeitoso osculo.

As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas visitas.

Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.

Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos, occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala, onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo. Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria: só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem asperezas, que só em pó se desfazem.

Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com Arthur o seguinte dialogo:

--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?

--Tenho que dar a v. ex.a a desagradavel noticia de que o povo se agita em desordem, começada por não sei que «Maria da Fonte» das proximidades de Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que miram os curas da imprensa desenvolta.

--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que, como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?

--O povo diz, que abaixo o ministerio e as contribuições, e queima os mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições, reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!

--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de uma nação?!

--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.a o modo de vêr da moderna eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.a manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem sabe, que sou liberal...

--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade de que V. S.a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu preito. É V. S.a o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...

--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.a, que ainda confie no futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e de prosperidade.

Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.mo Leopoldo de Moraes Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.

Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro, lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver escudeiros com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve, e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e lealdade.

Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo criterio da imparcialidade.

Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.

D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio, embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua vontade.

Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto, como se fôra a continuar a conversa interrompida.

O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava entrada na sala, o Exc.mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo moço.

--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.a meu presadissimo primo e senhor da Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com um ligeiro curvar de cabeça.

--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.a em nome da soberania popular, para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino. A provincia do Minho, ao grito da heroina «Maria da Fonte,» está toda revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente do que V. Exc.a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço; logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram a honra de sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.a, que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete dos sentimentos d'elles perante V. Exc.a Não consenti que entrassem n'esta sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que fui encarregado.

Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor, abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo, que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho, mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.

Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos domingueiros a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:

--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo tambem a v. ex.a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos, póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os fidalgos e as pessoas illustradas.

«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não, que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr. meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice, que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.a mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim escaparem a algum discurso dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v. ex.a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o snr. Arthur Soares mando servir o chá.

--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois do que v. ex.a acaba de pronunciar...

--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v. ex.a... João, acompanha meu primo até ao portal.

Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo. Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.

Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita, caminhou este até ao pé das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois, cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura: Deos vos proteja, minhas filhas!...

III
AO LUAR

«Na minha terra, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bella! é tão feliz!...»
.............................

(João de Lemos--Cancioneiro.)

Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do morgadio.

Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino. Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais que o rendimento.

Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos innocentes. Deixára Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a formatura.

Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro objecto, além da sua figura.

O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez, para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo desviava os olhos das suas façanhas.

Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo, o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede. E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja moeda falsa que empobrece quem a recebe; muito ao avêsso ia logrando insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta filha das apparencias.

Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo, estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous, algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.

Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o povo recolhesse a suas casas.

--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.a, é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um verdadeiro inimigo.

--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.a tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu fidalgo primo.

--Não me parece tanto assim, snr.a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida Anna--O snr. Lencastre é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde parecer...

--Estimavel; virtuosa e carinhosa, deves acerescentar, minha beatinha, porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...

--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que nunca me fizesse mal...

--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr...

--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e, com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.

--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á inexcedivel virtude de V. Exc.a, e á que adorna as suas interessantes discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.a se refere.

--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é indiferente...

--Tens cousas...

--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor, é toda a historia da vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.a D. Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.a D. Maria...

--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto indisposta...

--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite, atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.a, snr.a D. Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia, que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.

--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados, principalmente por V. S.a, que é um amigo d'esta casa, a quem meu pae devéras estima.

--Não me accuso, snr.a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.a, porque me diz a alma que eu era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da Mesquita--póde V. Exc.a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.

--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas ser eu, a dizer a V. S.a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga Rosa, deixo-os agora á vontade, para...

--Sou eu que me devo retirar, snr.a D. Maria... E retiro-me com a convicção bem formada de que nunca mais as minhas palavras, dirigidas ao snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e mestra, porque hei de medital-as muito...

--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do snr. de Lencastre.

Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor, sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.

--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a janella,--que a snr.a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo, fazendo presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr. Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é o vêr que a snr.a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que V. Exc.a tão de barato lhe concede!... Manifestar ciumes ao snr. Soares, minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...

--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.a quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter! Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas, fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo afidalga-se com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias, abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena, só pouco edificante desde que V. Exc.a entrou n'ella... Peço ao snr. Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr. meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.

--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.a me podia impôr...

--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo, porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.a, nobilissima snr.a D. Maria da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.a, com o sobrinho do senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V. Exc.a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que podiam ensinar os mestres...

--Das lições de V. Exc.a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes acontecimentos, que lhe descobriram o coração.

--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...

--E o despreso, snr. meu primo?...

--V. Exc.a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.a para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.a D. Maria da Gloria Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos do mais apertado amor, com dispensa de sacramentos, ao sobrinho do snr. reitor da freguezia...

Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra do insulto, e já o som de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de todos.

As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella, a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado fidalgo.

Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se gasta a contal-o.

Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:

--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos accelerados, não dando assim logar a maior castigo.

João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.

--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo causa involuntaria das mágoas de V. Exc.a... Esta noite foi para mim ao mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem, terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus, snr.a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.a esta arma por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões, mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr. Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.a póde estar presa alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar alguem com o seu suicidio...

--Pois V. Exc.a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que deve ser entregue por V. S.a em pessoa a mim, ou, de minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á residencia do thio.

IV
MÃE E MADRE

«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em v. m. padrões de espirituaes exemplos.»

(Fr. Ant. das Chagas--Cartas espirit.)

Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa, acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite, defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras, o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e, reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora. Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a horas bem importunas, implorar de V. Exc.a a minha tranquilidade domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.a sabe, a maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!... Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me, quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia. Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome, que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas, que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente, pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente, que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça, que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver, podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido, disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas, tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar verdadeira interpretação.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos, por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da extincção d'aquelle convento.

É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes de João Vidal, o escudeiro.

V
UM LEVITA

«Apostolo é o pae que se afadiga
Só para que descance o filho amado;
Apostolo é a rocha em que se abriga
Ave agoureira e pobre desgraçado;
Apostolo é a lagrima que amiga
Cae pela face em peito amargurado;
E esse monstro do Céu que solitario
Correu o mundo á busca do Calvario.»

(J. de Deus--Flor. do Campo.)

Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas, tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo, quando mais farto era o anno, com o avanço de seu alvitre, segundo o uso e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro para os que o queriam e podiam dar.

É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos, marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade, e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias, confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella, como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada, transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada. Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario, em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá já buscar meu pae?

--Para quê?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a passam meus paes... Já não quero ser... padre!

--Foi elle, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo como diz aquelle seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor, é que rompo o véu do meu coração!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural desfecho d'aquellas relações.

A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois de scenas assim expansivas, é que nós não ficamos pela continuação da pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das solidões,--á solidão d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de Esporões.

Alvaro, era presbytero!

VI
CELIBATO

«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia do céu!»

Alex. Herc.--Eurico.

O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:

«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...

«Celibato puro!!...

«Para quê, decretar contra a natureza?!...

«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem, a Tua existencia no mundo?...

«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou, depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Então de que mal padece a snr.a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses quebrantos?! Será isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... Elle, está cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a snr.a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu, commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:

«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar, que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor, pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das lagrimas, e disse-lhe:

--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer? Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da lembrança...

Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo, depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.