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OBRAS POETICAS
DE
NICOLÁO TOLENTINO DE ALMEIDA.
TOM. II.
LISBOA.
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.
ANNO M.DCCCI.
Com licença da Meza do Desembargo do Paço.
QUINTILHAS
Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço.
Ante vós, Claro Senhor,
Que pondes os sãos cuidados
De bons estudos no amor,
E que d'homens applicados
Sois o exemplo, e o protector;
Levanto sem pejo a voz;
Que essa alma nunca despreza
O pouco que encontra em nós;
Não produz a Natureza
Muitos homens como vós;
Pois vi outr'ora amparado
O discreto, e doce Brito,
Triste moço, em flor cortado,
Que hia alevantando o esprito,
De vossas luzes guiado;
Pois na vida lhe adoçastes
De seu fado a má ventura,
E não vos envergonhastes,
Quando a fria sepultura
Com as lagrimas lhe honrastes;
Se os seus Versos sonorozos
Inda repetis com mágoa;
E pensamentos saudozos
Vos trazem aos olhos agua,
Que os deixa, Senhor, formozos;
Hoje, outro triste vos faça
Nascer iguaes sentimentos;
Com os vossos pés se abraça;
Não tem os mesmos talentos;
Mas tem a mesma desgraça;
Nascido em baixa pobreza,
Quiz buscar huma Colu'na,
Foi sempre baldada a empreza,
Achou ingrata a fortuna,
Inda mais, que a natureza.
Em vão paternal ternura
Com vivo zêlo me assiste;
Foi trabalho sem ventura;
Crescia no Filho triste,
Com a idade, a desventura;
Das boas Artes no estudo
Bom Pai empenhar-me quiz;
Traçava o velho sizudo
Que fosse hum Filho feliz
Dos outros Filhos o escudo;
Forão seus intentos vãos;
Zombou desgraça importuna
Destes pensamentos sãos;
Para vencer a fortuna
Não ha lagrimas, nem mãos;
Cortado então de agonias,
Só esperei ter ventura,
Quando envolto em cinzas frias
Escondesse a sepultura
Meu nome, e meus tristes dias;
E em quanto o vento forceja,
E no mar, que em flor rebenta,
Meu fraco lenho veleja,
Demando, em tanta tormenta,
Por porto a Casa de Angeja;
Surgi em lugar seguro,
Onde achei mil acolhidos;
Clareou o dia escuro;
E meus molhados vestidos
Pelas paredes penduro;
De meu fado a força dura
Foi hum pouco enfraquecendo;
E ainda que em sombra escura,
Vem-me ao longe apparecendo
O bom rosto da Ventura;
Vossos Sobrinhos me dão
(Porque de meus males sabem)
Principios de protecção;
Mandai-lhe que em mim acabem
Esta obra da sua mão.
Mandai, que apressem o passo,
Que inda longe a méta vejo,
Pois nas supplicas que faço,
Não se vence com dezejo,
Vence-se á forca de braço;
Mandai, pois tendes direito,
Que o turvo mar arrostando,
A' corrente ponhão peito;
Fallai, Senhor, que em fallando,
O vosso mandado he feito.
Não vedes venal incenso
Por astuta mão queimado;
Fallo, Senhor, como penso;
Eu sei quanto he respeitado
O Erudîto São Lourenço;
Eu sei bem o alto conceito,
E as geraes estimações,
Que todos de vós tem feito;
Oiço ternas expressões,
Filhas de amor, e respeito;
Do bom Irmão, e Sobrinhos
Oiço tod'ora louvar-vos;
Oiço-lhes doces carinhos;
De poderem agradar-vos
Dezejão achar caminhos;
Vosso Irmão, e pregoeiro
Ordena, como sizudo,
Ao Illustre Neto, e Herdeiro,
Que das Sciencias no estudo
Vai dar o passo primeiro,
Se encoste a vós, sem desvio,
Qual ao Choupo Hera silvestre;
Que em Artes, virtude, e brio,
Mais, do que as regras do Mestre,
Siga os dictames do Tio;
Com que gosto oiço, e contemplo,
Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,
Segue-o no estudo, e no Templo;
Elle te dê as doutrinas;
Elle te sirva de Exemplo.
Mas sigo inutil empreza,
Pois sabeis quaes são seus peitos,
Mistura-se esta fineza
Com os sagrados direitos
Do sangue, e da natureza;
Todo o mundo, em vosso abono,
Põe na boca os corações,
E delles vos chama dono;
Oiço mil acclamações
Desde a plebe até ao Throno;
A geral estimação
Nos arma de authoridade;
Vinde pôr nesta obra a mão,
E dai-me felicidade,
Como me dais instrucção;
Sabeis a fundo, e de cór,
Tudo quanto ha bom, escrito;
Juntai extremos, Senhor;
Ao homem mais erudíto,
Juntai o mais bemfeitor.
Pois sabeis da Antiguidade
Prozas sans, e sã poezia,
Deveis sentir mais piedade;
Quem tem mais filozofia,
Vê melhor a humanidade:
Que eu nesta fresca espessura,
Entre estes Loiros sagrados,
Sentado sobre a verdura,
Cantarei Versos limados
A quem me fez ter ventura.
Deixarei em mil letreiros
O vosso Nome entalhado
Nos troncos destes Loureiros;
Possa elle ser respeitado
Do negro vento, e chuveiros;
Ramos sobre elle estendendo,
Dafne no seu peito o tome;
E eu, doces hymnos tecendo,
Verei ir o tronco, e o Nome
Té ás Estrellas crescendo.
QUINTILHAS
Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do Lavradio.
Se os Versos, que outra ora fiz
Escutastes prompto, e attento;
E se aos pés, que abraçar quiz,
Achou grato acolhimento
A minha Muza infeliz;
Dai-me benignos ouvidos
A outros, em dôr traçados,
D'arte, e de enfeite despidos;
Pela verdade dictados,
E a vós, Senhor, dirigidos;
Em louvores não os fundo,
Pois sei que sempre os pizastes;
E co'as mais acções confundo
As do tempo, em que tomastes
As rédeas do Novo Mundo;
Mas se eu disser parte dellas,
Não me julgueis lizonjeiro;
Que vos poupo em não dizellas?
Se vedes, que o Mundo inteiro
As vai erguendo ás Estrellas?
Diz que vio a Capital
Cheia de pompa, e grandeza;
E que a ergueis a lustre tal
D'entre os braços da molleza,
Que he no Clima natural.
Que nas mãos, onde se encerra
Alto Poder respeitozo,
Mostraste na nova Terra
Ao Vizinho revoltozo,
N'uma a paz, em outra a guerra.
Que offreceis a vida então
Para a palavra salvar-se,
Que, os bons Reis não dão em vão;
Acção digna de contar-se
Entre as de Mario, ou Catão;
Que a mão que as Quinas voltêa,
Justiça ao Povo reparte;
E que igualmente menêa,
Ora as Bandeiras de Marte,
Ora as Balanças de Astiéa;
Mas já vossa austeridade
Minha narração reprime;
Ouvis-me contra vontade;
Perdoai, Senhor, hum crime,
De que foi causa a verdade;
Pois que vos não dão desvelos
Louvores, que préza a gente,
Eu vou, Senhor, suspendellos;
E vou dar-vos novamente
Motivos de merecellos.
A minha longa fadiga
Já sabeis qual he, Senhor;
Levai-me a bem, que a não diga;
Deixai-me poupar a dôr
De abrir huma chaga antiga.
Pintar Irmans desgrenhadas
Co'as creanças innocentes.
Nos débeis braços alçadas,
E de lagrimas ardentes,
Quasi sem fruto, banhadas.
Mostrar-lhe os olhos magoados,
Onde inutil pranto assiste,
Immoveis no chão pregados,
Nutrindo hum silencio triste,
Falsa paz dos desgraçados;
Contar-vos, que entre os Irmãos,
Diz o bom Pai, com ternura,
Que ao Ceo levantem as mãos;
Que assim se emenda a ventura,
E não com queixumes vãos:
Que he do espirito fraqueza
Perder suspiros no vento;
Que venção a natureza;
Que fação co'soffrimento
Honroza a dura pobreza;
Não lhe ver de dor sinais;
Ter no rosto olhos serenos,
E no peito agudos ais;
Que porque se escutão menos,
Por isso me córtão mais:
Dar-vos huma inteira idéa
Da desgraça minha, e delles,
Pintura de pranto chêa;
Se he preciza, he para aquelles,
A quem não dóe dor alhêa.
As almas tão bem nascidas,
Como a vossa vejo ser,
Para serem condoîdas,
Não tem precizão de ver
Correr sangue das feridas;
Sabeis, que soffro a impiedade
De vã fortuna traidora;
Mudai pois de heroicidade;
Vinde pleitear agora
A cauza da humanidade;
Por vós tirar não podeis
Penas, que a alma me abafárão;
Mas ante o Throno valeis;
E se o Sceptro vos fiárão,
Que vos negarão os Reis?
Reger-lhe os vastos Estados,
Ir dar-lhe hum novo esplendor,
São feitos famigerados;
Mas inda o será maior
Ir pedir por desgraçados,
Disse a Cezar o Orador,
Que os Soldados tinhão parte
No perigo, e no louvor;
Que fosse em outro Estendarte
Elle só o Vencedor;
Que era, de doce brandura
O deixar-se então vencer,
Mór victoria, e mais segura;
Onde não tinhão poder
Nem ferro, nem má ventura.
Vencei vós sem ter Soldados;
Fazei de dias de dor
Dias bemaventurados;
E possa essa mão, Senhor,
Mais do que podem meus fados;
Claros Avós imitastes,
Que o Mundo apenas abrange;
No berço palmas achastes;
Dos Heróes que vio o Gange,
O sangue, e as acções herdastes;
Remotos Povos vencêrão,
E mares bravos abrindo;
As Quinas desenvolvêrão;
Ante eles o Gange, e o Indo,
Tintos de sangue corrêrão.
Vós, que em obras semelhantes
Fostes ser a Copia honroza
Do que elles fizerão d'antes,
Na série maravilhoza
Das vossas acções brilhantes;
Consenti, que a larga historia,
Que Almeidas levanta aos Ceos,
Lhes deixe no Altar da Gloria
Pendente, entre os mais Troféos,
Huma negra Palmatoria.
A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na occasião do seu Casamento.
Senhora, o Forte da Estrella,
Chorando o bem que perdeo,
Das suas justas saudades
Por portador me escolheo;
Quiz que eu viesse contallas
Ao som desta rouca Lyra,
De longos annos affeita
A acompanhar quem suspira;
Não fallo nos ternos Pais;
Nelles a alta Jerarquia
Tempéra saudozo pranto
Com o pranto da alegria;
Ao nome dos seus Passados
Planos caminhos achárão,
Unindo ao sangue de Heróes
O sangue de Heróes que herdárão;
Não fallo no amavel Conde;
Esse não faz compaixão;
Tem seges, tem bons cavallos,
Tem o remedio na mão;
Sobre rápidos ginetes,
Quebrando a dura calçada,
Com o Francisco a reboque,
Andará sempre na estrada;
Tambem das caras Irmans
Não venho as mágoas pintar;
Co'a terna Mãi muitas vezes
As virão desafogar;
Fallo da triste Familia,
Que em amoroza manîa
Accuza o Ceo, que vos deo
Formozura, e Fidalguia;
Dons, de seu mal cauzadores;
E que deixão coroado,
Na mais illustre Conquista,
O mais ditozo Soldado;
Ralham delle a toda hora;
Foi cauza do seu tormento;
Elogião, e praguejão
Seu alto merecimento;
Se he Soldado, siga a Guerra,
E as funestas glorias della;
Ataque milhões de Fortes,
Mas deixe em paz o da Estrella;
Tem figura, tem talentos;
Tem alta Estirpe preclara;
Oxalá que assim não fosse,
Ella então o desprezára; =
Mas, Senhores, perdoai-lhes;
A's vezes na grande dor
Fallão palavras de raiva
A linguagem de amor;
O Silva, o Authomato honrado,[1]
Anda mais abstracto, e mudo;
Põe o doce antes da sôpa;
Queima o Café, quebra tudo;
[Nota de rodapé 1: Copeiro.]
O hirsuto, austéro Rodrigues,
Semblante de poucas pazes,
Desafoga a sua dor,
Dando murros nos rapazes;
Vossa Aya, de tres idades,
Em canto escuro assentada,
Vos manda calado pranto,
N'um cobertor abafada.
Outras vezes esquecida
De quanto seu Fado he crú,
No queixo ajustando o lenço,
E sobrepondo o bajú:
Ergue ao ar cansados ossos;
E sem temer ventos frios,
Tirando-lhe Amor o pezo
Dos gelados pés tardios;
Do bom costume enganada,
E com a uzada cautela,
Para dar, e ter, bons dias,
Vos vai abrir a janela;
A janela a desengana;
Renova-lhe a dor no peito;
Chama em vão o vosso nome,
Abraçando hum ermo leito.
Do peito das mais Creadas
A saudade se não risca,
Desde as Ayas ralhadoras,
Té á ladina Francisca.
E pois que o sangue de Reis,
Pois que a Augusta Ceremonia,
Bem a pezar das Creadas,
Vos trouxe a Santa Apollonia;
Ide, Senhora, mil vezes
Curar-lhes a fresca chaga;
Seu pranto he filho de amor,
E amor com amor se paga;
Na rica, airoza Berlinda,
Dando ao digno Espozo parte,
Aos patrios lares vos leve
Amor nos braços de Marte.
O Téjo, abaixando as ondas,
Vossos pés virá beijar;
Vai das Ninfas que creou,
Ver a Ninfa Tutelar.
Os Prazeres com os Rizos
Sejão a vossa equipagem;
Revôem em torno as Graças,
De quem sois a inveja, e a imagem:
Entrai nos tectos dourados,
Hoje lugar de saudade;
Ide, dos braços do Amor,
Lançar-vos nos da Amizade;
Levai-nos as doces noites,
Em que a voz que se escutava,
Sobre as azas da harmonia,
Nos nossos peitos entrava;
Quando o Cómico travêsso,
Entre geitos, e corcovos,
Habilmente arremedava
Todos os Muzicos novos,
O triste, calado Cravo;
Já não sente a déstra mão;
Apenas he perseguido
Pelo Senhor Dom João.[2]
[Nota de rodapé 2: Menino.]
Ide, Senhora, levar-nos
No vosso rosto a alegria;
Fazei á triste Junqueira,
O que faz o Sol ao dia;
Mas, Senhora, a minha Muza
Tem talvez errado os Cultos;
Cuidando ter feito obsequios,
Talvez tenha feito insultos;
Dirão, que, trocando as cordas
Forão meus sons desiguaes;
Que errei em fallar aos Filhos,
Sem fallar primeiro aos Pais.
Que podia esta Embaixada
Se désse em mais habil mão,
Cumprir as leis da Saudade,
Sem violar as da razão;
Mas, Penalvas, dito, dito;
Defendo o meu sacrilegio;
Sois tudo; mas não sois Noivos,
E he este o seu privilegio.
No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha, hoje Condeça de Valladares.
Senhora, os pobres vestidos
Do vosso humilde Compadre,
Não o deixão ir aos Annos
Da sua Illustre Comadre;
O conhecido Colete
De bordadas guarnições,
Encartado ha longo tempo
Em Colete das Funções;
Sobre os seus cançados annos,
De humido Inverno Assaltado,
Cheio de invenciveis manchas
Me foi hoje apresentado;
Em vão bemfeitor miôlo
Lhe esfrega o quarto offendido;
A minha choroza Mana
Dá o cazo por perdido;
E se assim me apresentasse
A tão alta Companhia,
As suas nódoas serião
Manchas da seda, e do Dia;
Do Tempo a fôice raivoza
Não me dá só hum revéz;
Além de me fazer velho,
Faz-me tambem descortez;
Mas elle honrou hoje o Mundo;
Sois do Mundo ornato, e inveja;
Deo hoje mais huma paga
A' Illustre Caza de Angêja.
Sua mão, que aperfeiçoa
Altos dons da Natureza,
A huns lindos, modestos olhos
Vai augmentando a belleza;
Altêa a airoza figura
Sobre a das Graças moldada;
A huma alma a mais digna, e nobre
Dá a mais digna morada;
Justo Tempo, eu abençôo
O teu poder desigual;
E em honra de tantos bens,
Eu te perdoo o meu mal;
Cem vezes nas tuas azas
Nos mande este dia o Ceo;
As Virtudes o consagrem
Nos altares de Hymenêo.
E Vós, Illustre Senhora,
Perdoai Coletes rotos;
Valem mais, que inuteis sedas,
Puro incenso, puros votos;
Quiz mandallos em bons versos;
Suou em vão meu topete;
Fui achar a minha Muza
Como achei o meu Colete.
A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, quando lhe nasceo huma Filha.
Senhora, he couza sabida,
Que aos Deozes não são vedados
Os escondidos segredos
Do escuro livro dos Fados;
E pois que em tempos antigos
Já tive alguma valia
Co'aquelle, a quem coube em forte
O governo da Poezia;
Não esperando do Tempo
O vagarozo progresso,
E desejando augurar-vos
O vosso feliz successo;
Na raiz do alto Parnazo,
Curvando o humilde joelho,
Exclamei = Se aqui se escutão
Votos de hum Poeta velho,
Não te peço, esquivo Apollo,
Teus verdes, sagrados loiros;
Não aspirão a coroas
Desta testa os velhos coiros;
Abre, sim, a densa nevoa
Do vindoiro tempo escuro;
E ante meus ávidos olhos
Rasga as sombras do futuro;
Saiba meu justo dezejo
Quanto o destino promette
Aos nossos ardentes votos,
E aos da assustada Alegrete;
O Deos, que nunca em mim vio
De Odes moiras a manía,
Que sem o assumpto honrarem,
Lhe deshonrão a Poezia;
Que em Oiteiros de Oratorio
Não lhe puz a Lyra ao frio,
Arriscando-a a ter por paga
Ou pedrada, ou assobio;
E muito mais porque vio,
Que da minha petição
Erão sagrados motivos
A amizade, e a gratidão;
Fez fuzilar em meus olhos
Nova luz, vedada, e pura;
E de tudo o que então vi,
Vos vou fazer a pintura.
Vi, Senhora, as loiras Graças
Com doce, e rizonho aspeito,
Tecendo engenhozas danças
Em torno de hum aureo leito;
E abrindo as ricas Cortinas
Trazerem nos castos braços
O digno, e precioso Fruto
De Illustres, sagrados laços.
Sobre o mimoso semblante,
Em que os seus dons inspiravão,
Dos mais altos Pertendentes,
Mil suspiros auguravão;
Os Prazeres sobre as azas
O berço lhe rodeavão;
Fortuna lhe abria os cofres,
As Virtudes a embalavão;
Vi Penalvas, vi Angejas,
Que aos Ceos mil hymnos mandavão;
Aos Ceos, que as duas Familias
Novamente abençoavão:
Vi a roda das Creadas,
Que á Menina dando vai,
Humas, os olhos da Mãi,
Outras, a boca do Pai;
Mas Apollo aqui fechando
As altas couzas futuras,
E deixando o pobre velho
Alegre, mas ás escuras;
Me disse = Conta o que viste;
O mais, em tempo vindoiro,
Fiel, apurada historia,
O dirá em letras de oiro;
Corri: mas trémulas pernas
Tem sempre estrada comprida;
E pois acho a profecia,
Gradas aos Ceos, já cumprida,
Beijo respeitozamente
Estas faixas, que envolvêrão
Aquella, a quem dão a vida
Os que a minha protejêrão;
= Recebe, oh Recem-nascida,
Terno amor, alto respeito;
Teus Avós, teus claros Pais
Te derão este direito;
E tu, Formoza Alegrete,
Que depois de erguida a meza,
Ficavas co'as velhas Aias
De mágicos filtros prêza;
Quando eu a teus pés contava,
Mentirozo historiador,
Ora a do Caixão de vidro,
Ora a das Cidras do amor;
Quando os mesmos tenros annos
A tua Filha contar,
Todos os dias virei
Meu officio exercitar,
E em tanto, a pezar do tempo,
Que a fronte me vai gelando,
Com a rouca Lyra ás costas
Pelo Parnazo trepando:
Vou sentar-me entre os Loireiros,
Que réga Castalia fria;
Onde revôam em bandos
Os genios da Poezia;
E co'a testa descuberta
A' viração bemfeitora,
Traçarei mais dignos versos
Do que estes, que ouvis agora;
Com tempo os irei fazendo;
O Deos também me fez ver,
Que sobre este mesmo assumpto
Tenho muito que escrever.
Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo.
Meu Amigo, duro Amigo,
Fatal, rígido Banqueiro,
Motivo dos meus pezares,
Herdeiro do meu dinheiro;
Em taes termos me deixaste,
Que sou deste rancho o nôjo;
E co'as lagrimas nos olhos
Parto para o Varatojo;
Por ti filho da pobreza,
Irei ser naquelle mato,
Qual foi São Sebastião,
Não na vida, mas no fato;
Vai tu seguindo a fortuna,
E leva a bandeira alçada,
De tarde na laranginha,
A' noite na Arrenegada;
Até que voltando a roda,
Mande teu fado inimigo,
Que deixes crescer as barbas,
E venhas viver comigo:
Vem, e traze o teu baralho,
Ministro dos meus destroços;
Farei do vicio virtude,
Apontando a Padres nossos;
Vem viver entre altas brenhas;
Vem curtir as minhas dores;
Traze o pranto dos Parentes,
Traze as pragas dos Crédores.
Não falla vão Agoureiro,
De cujas palavras rias;
Meus trabalhos me fizerão
Mestre nestas profecias.
Não te fies em ventura;
Quem joga, tem o meu fim;
Outrem te dará os gostos,
Que tu me tens dado a mim.
Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos, que tinha promettido.
A tua polida Carta,
Que honrou hum Poeta razo,
Escrita em pura linguagem,
E assignada no Parnazo;
Da mais injusta ambição
Traz testemunhos fieis;
Possues grossos thezoiros,
E citas-me por dez reis?
Quem do doce Anacreonte
Bebeo o estilo divino,
Quer prostituir seus olhos
Co'as Trovas do Tolentino?
Pago, em fim, divida louca;
Mas quem quer pontualidade,
Cuide tambem em pagar
As dividas da Amizade;
Sabes que intento imprimir;
E porque o Povo não fuja,
Sabio Amigo, emenda, risca,
Põe sabão na roupa suja;
Não te vendo falso íncenso;
Es Juiz da Confraria;
Oxalá que altos negocios
Se tratassem em Poezia;
A Paz, a fugida Paz,
Voltára seu alvo cóllo;
E dera brandos ouvidos
A' branda Lyra de Apollo;
Reziste humana cabeça
A' mais discreta razão;
Mas ao poder da harmonia
Não reziste o coração:
Faze, pois, o que eu te peço;
Que inda que ha vótos diversos,
Se lhe pões a tua lima,
Quem morderá nos meus Versos?
Dá-lhe, depois, teus louvores;
Comprará toda Lisboa,
Se huma vez te ouvir dizer =
Que comprem, que a Obra he boa;
Farta-me a bolsa; e se queres
Ver tambem minha alma farta,
Manda riquezas de Athenas
Embrulhadas n'outra Carta.
Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este prato.
Senhora, tambem hum dia
Entrarei co'a frente erguida;
Não serei na vossa meza
Dependente toda a vida;
Nem sempre abatido pejo
Dirá nesta cara feia
Quanto doe a hum peito altivo
Matar fome em caza alheia;
Airozo, gordo Perum,
He meu soberbo prezente;
Traz inda as pennas molhadas
Co'pranto da minha gente;
No Santo Dia esperavão,
Quebrando antigo jejum,
Cravar inexpertos dentes
Neste primeiro Perum;
A russa, magra Jozefa,[3]
Ergueo queixume sentido;
Custou-lhe mais esta auzencia,
Que a do defunto Marido.
[Nota de rodapé 3: Creada.]
O loiro, alvar galleguinho
Chegou aos olhos seu trapo;
Tinha vistas sobre a carne,
E muitas mais sobre o papo.
Seu almôço requerendo
Em luzindo a madrugada,
Na esquerda, grossa fatia
D'ambas as partes barrada;
Na dextra, com branda cana
O seu pupîlo guiava;
Em tenras, públicas malvas,
Para si o apascentava;
Quando lhe mandei trazer-vos
O bom companheiro seu,
Pedindo-me côxos mezes,
Me disse, que o trouxesse eu.
Eu o trago; a offerta he pura,
Mas a tenção a envenena;
Traz escondida huma uzura,
Maior, que a da meia sena.[4]
[Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]
Com hum sorrizo acceitai
O atraiçoado convite;
Vem a morrer huma vez,
Porque muitas resuscite.
Curai todos os Domingos
A minha doença interna;
Sobre a meza milagroza
Seja esta ave, huma ave eterna;
De outra, que finge a Poezia,
Trocai em verdade a pêta;
E seja hum negro Perum
A Fenis deste Poeta;
Na ondada, pia toalha,
Co'a benção da vossa mão
Seus frios, despidos ossos,
De carne se cubriráõ;
Consenti, que este ouco peito
Ao prodígio se consagre;
E que dentro em si colloque
A mór parte do milagre;
Quanto ao Padre Prégador,[5]
Meu voto he não convidallo;
Porque ha de comer o assumpto,
Muito melhor que prégallo.
[Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]
A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem.
Domingas, debalde queres,
Nesse canto da Cozinha,
Vencer a invencivel teima
Da rebelde carapinha;
Em vão te arripia a frente,
De que zomba o Deos de Amor,
Alvo côto de pomada,
Furtado do Toucador;
Debalde tufado laço
De atadeira fitta Ingleza
Te assombra a lêveda pôpa,
Rissada por natureza.
Debalde altêas as ancas,
Esguias, e enganadoras,
Co'as velhas algibeirinhas,
Que vão deixando as Senhoras,
Amor, fingindo dotar-te,
Te poz, com traidora mão,
Junto dos dentes de neve,
Faces tintas de carvão;
Inda que ancião pezado,
Desprézo teus vãos intentos;
Debaixo de murchas cans
Nutro altivos pensamentos.
Vejo a quebrada madeixa
Já tornada em gêlo frio;
Tudo o tempo me levou,
Mas não me levou o brio.
Debaixo da Zona Ardente
Jurar-te-hia amor, e fé;
Mas não tem culto na Europa
As Deidades de Guiné;
Se ás vezes te ponho os olhos,
Não he de amor sinal certo;
São dezejos de levar-te
A' caza de João Alberto.[6]
[Nota de rodapé 6: Comprador.]
A engomada cazaquinha
Te descobre novas faltas;
Para outro corpo foi feita,
Dizem-no as feições mais altas.
Já n'outros pés teus çapatos
Soffrêrão do tempo o açoite;
Cansada, fendida sêda,
Mostra dedos côr da noite;
E pois que a Amor queres dar-te,
Eu te aponto hum Xafariz,
Onde aches dignos amantes
Assentados em barris;
Acharás o Pai Francisco,
Homem a bulhas contrario,
Já duas vezes Juiz
Na Irmandade do Rozario;
Acharás o forro Antonio,
Que o tabaco, e vinho enjôa;
E tem nos calmozos Junhos
Caiado meia Lisboa;
Verás esbelto Crioilo,
Dado ao vento o peito nû,
Levantando airosos saltos
No manejo do barubû;
Que ávidos cães enxotando,
Tem, com braço arregaçado,
Nas êrmas praias do Téjo
Cem cavallos esfolado;
Nestes, vaidoza Domingas,
Assenta bem teu amor;
Chovão settas de teus olhos
Em peitos da tua côr;
Vai da janella da escada
Acolher, com doce agrado,
Os suspiros que te envião,
Ao som do londum chorado;
E deixa de atormentar-me
Com tuas loucas idéas;
Também sinto dores proprias,
E escuto pouco as alhêas;
Sim, Domingas, nós marchamos
Na mesma infeliz estrada;
E do amor, que eu te não pago,
Assaz estás bem vingada;
Tu puzeste em mim teus olhos,
E eu fui pôr em Marcia os meus;
Que me paga mil extremos,
Assim como eu pago os teus;
Marcia, que em alçando os olhos,
Mil settas nesta alma crava;
E em cuja caza tu tens
A dita de ser escrava;
Tens-me a mim por companheiro;
Temos o mesmo Senhor;
Tu, por cazos da fortuna,
Eu, por castigo de Amor;
E pois que eu não posso amar-te,
Seguirás melhor esteira,
Se de meus ternos suspiros
Quizeres ser mensageira;
Em vendo que ella está só,
Vai-lhe expôr a paixão minha;
Eu peço a Amor, que entretanto
Tóme conta na cozinha;
Amor lavará teus pratos,
E escumará a panella,
Em quanto tu a seus pés
Dizes, que eu morro por ella;
Teus grossos, trombudos beiços,
Lhe vão expôr meus cuidados;
Hão de ser melhor ouvidos,
Que sendo por mim contados;
Pinta-lhe as lagrimas tristes
Em que meu rosto se lava;
Por hum infeliz cativo
Peça huma ditoza escrava;
Dize-lhe, que não se assuste
De meu cabello nevado;
Jura-lhe que não são annos,
Mas penas, que me tem dado;
Que a cauza das minhas rugas
He o seu desabrimento;
E vai da minha velhice
Fazer-me hum merecimento;
Ah Domingas, se em seu peito
Me fazes achar piedade,
Tambem eu juro fazer
A tua felicidade;
E pois que o teu coração
Sómente he baixo, e grosseiro,
Em preferir liberdade
A tão feliz cativeiro;
Por amor serei mesquinho;
Meus gastos verás cortar;
Para ajuntar-te quantia
Com que te possas forrar;
Cheia de teus beneficios
Minha mão agradecida
Te irá pôr em larga praça
Rendozo modo de vida;
E assentada em novo estrado,
De fasquiada madeira,
Ondeando ao som do vento
Trémulo tecto de esteira,
Teus negros, airozos braços,
Chocalhando hum assador,
Encherão famintos peitos
De castanhas, e de amor;
Terás bojudas tigellas
Sobre incendidos tições,
Onde fêrvão em cardumes
Saborosos mexilhões;
Teus doces, sonóros écos,
Sem mentir, apregoaráõ
O azeite de Santarem,
O cravo do Maranhão.
Domingas, segue esse rumo;
Que teu amor reloucado,
Sem te fazer venturoza,
Me deixa a mim desgraçado;
E se sem dó dos meus ais,
Teimas nos projectos teus,
Fallando nos teus amores,
Em vez de fallar nos meus;
Trocando boa amizade
Por entranhado rancor,
Vou descubrir teus intentos
A teu austéro Senhor;
Que em zelo honrozo inflammado,
Sem ser precizo atiçallo,
Vai a caza do Lagoia[7]
Trocar-te por hum cavallo.
[Nota de rodapé 7: Comprador]
CARTA
A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado.
Foi este o ditozo dia,
Que te deo a Espoza bella;
Doce, sólida alegria,
Para ti, junto com ella,
No mesmo berço nascia;
Por tua maior ventura,
Natureza lhe quiz pôr,
Entre os Dons da Formozura,
Outro dote inda maior,
Que he, alma innocente, e pura;
Eu sei teu costume antigo,
A Mulher, que he só formoza,
Não vale tudo comtigo;
Soubeste escolher Espoza,
Em quem tens Espoza, e Amigo;
Quer sempre ter hum Senhor
Nosso humano coração;
E na ventura maior
Inda sente em si hum vão,
Que só enche o casto amor;
De quantos males te eximes,
Dando ao teu tão bom Senhor?
Damnozas paixões reprimes;
Recebes das mãos do Amor
Os prazeres, sem os crimes;
Céga mocidade errada,
A' conjugal união
Quiz chamar vida cansada;
Diz que he triste escravidão,
De mil pensões carregada.
Chama á paz hum dissabor;
Diz, que de susto, e desdens
Se alimenta o Deos de Amor;
E que a certeza dos bens
Lhes diminue o valor;
Fechão olhos á verdade,
Caminhando apôs seus erros;
E em falsa tranquilidade,
Ao som de pezados ferros,
Vão cantando liberdade;
Mil remórsos na alma estão,
Que inda que o rosto os suffoca,
Roendo as entranhas vão;
Que importa rizo na boca,
Se ha punhaes no coração?
Amor he fogo sublime,
Que nas almas se accendeo;
As outras paixões reprime;
Elle he dadiva do Ceo,
O abuzo he que o faz ser crime;
Beija, Amigo, os teus grilhões;
Hum para o outro erão feitos
Os vossos bons corações;
Crava em vossos ternos peitos
Santo Amor os seus farpões;
Onde achas pessoa estranha,
Que não contrafaça o rosto,
Porque vê, que assim te ganha?
Quem he que na pena, ou gosto,
Com verdade te acompanha?
Contas teus cazos sem medo
A quem por amigo passa;
Fiaste-te em rosto lêdo;
Foste no meio da praça
Assoalhar teu segredo;
Mal os homens conheceo
Pura amizade enganada,
O santo rosto escondeo,
E tornou-se envergonhada
Para o Ceo, donde desceo;
O amigo que te rodeia,
Véste das tuas paixões;
Com ellas te lizonjeia;
São raros os corações,
Em que dôa dor alheia;
Quando acertares de ler,
Que houve entre homens união,
O Escritor a quiz fazer;
Não os pintou como são;
Mas como devião ser;
São coizas imaginadas
Dos Nizos o amor profundo;
São fábulas bem contadas;
Ou os não houve no Mundo,
Ou não deixárão pégadas;
Puro amor, limpa verdade,
Só entre Esposos estão;
Desce a elles a Amizade;
Traz-lhes co'a santa união
Huma só alma, e vontade;
Communica á Espoza amada
Teus mais internos cuidados;
E vive em paz descançada
A vida dos bem cazados,
Vida bemaventurada;
Sem receio de perigo
Dorme sono saborozo;
Que não tens junto comtigo;
Lisonjeiro suspeitozo,
Traidor, com rosto de amigo;
Tens por doce companhia
Aquella, que o justo Ceo
Com mil virtudes te invia;
Tu es o cuidado seu,
E como seu, te vigia;
Goza em socego profundo
Tão pura felicidade;
Tens hum thezoiro fecundo;
Tens amor, tens amizade,
Tens todos os bens do Mundo.
E se ha entre homens desvelo
(Coiza que aqui contradigo)
Conta com hum, que he singelo;
E foi sempre teu amigo,
Quanto os homens podem sêlo.
CARTA
Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje Marquez de Angeja.
Senhor, eu não sou culpado;
Traçar outros Versos quiz;
Mas tenho perdido o trilho
Com as Trovas do Luiz;
A Muza, que ha pouco as fez,
Outra rima não me inspira;
Por mais que mordo nas unhas,
E que em vão tempéro a Lyra.
Acceitai meus bons dezejos;
E como homem de razão
Não desprezeis baixos Versos,
Quando os dicta o coração;
Minhas fiéis expressões,
Filhas de amor, e saudade,
O que não tem em poezia,
Lhe vai supprido em verdade.
Em quanto co'as soltas vélas,
Forçadas do vento rijo,
Demandava a Galeota
Os areaes do Montijo;
Em quanto ao Principe Augusto
O patrio Téjo se humilha,
E sobre os rasgados hombros
Lhe leva a soberba quilha;
Meus olhos, meus tristes olhos,
Nas aguas seguindo a esteira,
De lagrimas se arrazavão
Sobre as praias da Junqueira.
Dentro do cansado peito
Se ateou crua peleja;
Senti huma guerra viva
De saudades, e de inveja;
Não era de baixa inveja
Affecto grosseiro, e injusto;
Era invejar ao Creado
Ir junto a seu Amo Augusto.
Senhor, não sou atrevido;
Ha lugares derradeiros;
O meu dezejo me punha
Entre a chusma dos Remeiros;
Com as faces açoitadas
Dos agudos ventos frios,
Entre os borrifos das ondas,
E as pragas dos Algarvios;
A Apóllo pedindo a Lyra,
Que só para isto invéjo,
Chamára das frias grutas
As loiras Filhas do Téjo;
Que escutando o som divino
Entre as húmidas moradas,
E levantando nas ondas
Suas cabeças doiradas;
De tal Hospede soberbas
O lenho rodearião;
E as aguas co'branco peito
A' porfia lhe abririão;
O fatídico Protêo,
Cheio de saber divino,
Revelára ao novo Heróe
Os segredos do Destino;
Famozas acções cantára,
Levantando a sábia voz,
Moldadas sobre as historias
Dos Augustos Pais, e Avós:
Mas, Senhor, a minha Muza
Sem tino ao ar se remonta;
E vai-se mettendo em obra,
De que não póde dar conta;
Esta levantada empreza
Até a Boileau deo sustos;
Dizia que só Virgilios
Podião louvar Augustos;
He queimar-lhe baixo incenso,
Cansallo com Versos frios;
Amor respeitoso, e votos
Serão os meus elogios:
Vós, Illustre Villa Verde,
Com quem sempre me hei achado,
Fazei que seja o meu nome
A seus ouvidos levado;
Se lhe der acolhimento,
Sigamos de Horacio as traças,
Façamos que a par das Muzas
Marchem as rizonhas Graças;
Dizei-lhe, que na Folhinha,
Com letras doiradas puz
Aquelles formozos dias
Das escadas de Quéluz;
Aquelles dias ditozos,
Quando a seus pés ajoelhado,
Era ao abrigo das Muzas
Benignamente escutado;
Quando, tendo já traçado
Melhorar-me os meus destinos,
Se dignava perguntar-me
Como estavão os meninos.
Quando me mandou, que em verso
Contasse como escapára
Naquelle funesto encontro
Dos taes Carreiros da Enxára;[8]
[Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]
E se inda o favor mereço
De tão alta Protecção,
Dizei, que mudei de Officio,
Porém de ventura, não;
Que não me enganão zumbaias
Dos humildes Supplicantes;
Porque a bolsa mais sincera
Trata-me inda como dantes.
Que inda os cães atrás do Russo
Esperão nelle a merenda,
Quando eu vou para Lisboa
Fazendo Versos, e renda;
Que dando aos oucos ilhaes,
Vai marchando triste, e só;
Que as mais seges fazem sécia,
Porém que a minha faz dó;
Que até o boçal Gallego,
Que eu tinha por innocente,
Já me conhece a fraqueza,
E já me revíra o dente;