XXIII—COLECÇÃO PAULO DE KOCK
A menina Lisa
GUIMARÃES & C.ª EDITORES
R. DO MUNDO, 68—LISBOA
Imp. Lucas
Livraria editora GUIMARÃES & C.ª
68, RUA DO MUNDO, 70—LISBOA
O LIVRO DE MARIETA
(1.º vol. da Biblioteca Infantil)—1 vol. com 23 contos ilustrados com 25 gravuras, br. 300 rs. Enc. 400 rs.
AS MIL E UMA NOITES
(Contos arabes)—2 vol. br. 600 rs. Enc. com linda capa de percalina impressa a 4 cores e ouro 900 rs.
CONTOS
de D. João da Camara—1 vol. br. 600 rs.
CONTOS
do Dr. Candido de Figueiredo—1 vol. br. 200 rs. Enc. 300 rs.
TRATADO DE CIVILIDADE E ETIQUETA
pela condessa de Gencé—1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs.
GUIA MUNDANO DAS MENINAS CASADOIRAS
da Condessa de Gencé—1 vol. br. 500 rs. Enc. 700 rs.
IVANHOÉ
romance de Walter Scott—4 vol. br. 800 rs.
O VIGARIO DE WAKEFIELD
de Goldsmith—1 vol. br. 200 rs.
SAUDADES
(Menina e moça) de Bernardim Ribeiro—1 vol. br. 200 rs.
TROVAS DE CRISFAL
de Bernardim Ribeiro—1 vol. br. 300 rs.
VERSOS PORTUGUESES
de Sá de Miranda—1 vol. br. 500 rs.
PAULO E VIRGINIA
romance de Bernardim de Saint-Pierre—1 vol. III. br. 200 rs.
PAULO DE KOCK
OBRAS COMPLETAS E ILLUSTRADAS
XXIII
A MENINA LISA
(VERSÃO PORTUGUEZA)
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade editora
LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
R. Augusta, 95
45, R. Ivens, 47
1907
VOLUMES PUBLICADOS
| I— | A menina das tres saias—1 vol. |
| II— | Uma vida attribulada—1 vol. |
| III— | Taquinet o Corcunda—1 vol. |
| IV— | O sr. Choublanc á procura da mulher.—1 vol. |
| V— | A Lagôa d’Auteuil (1.º vol.) |
| VI— | A Lagôa d’Auteuil (2.º vol.) |
| VII— | A Lagôa d’Auteuil (3.º vol.) |
| VIII— | A menina dos tres espartilhos—1 vol. |
| IX— | O porteiro da rua du Bac—1 vol. |
| X— | Um namorado caloiro (1.º vol.) |
| XI— | Um namorado caloiro (2.º vol.) |
| XII— | A noiva de Fontenay aux Roses—1 vol. |
| XIII— | A Viuva Tapin—1 vol. |
| XIV— | A Leiteira de Montfermeil (1.º vol.) |
| XV— | A Leiteira de Montfermeil (2.º vol.) |
| XVI— | A Leiteira de Montfermeil (3.º vol.) |
| XVII— | Um rapaz mysterioso—1 vol. |
| XVIII— | Papá-sogro—1 vol. |
| XIX— | A menina do quinto andar (1.º vol.) |
| XX— | A menina do quinto andar (2.º vol.) |
| XXI— | A menina do quinto andar (3.º vol.) |
| XXII— | A Baroneza Blaguiskoff—1 vol. |
| XXIII— | A menina Lisa—1 vol. |
| NO PRELO: | |
| XXIV— | O homem dos tres calções—2 vol. |
PALAVREADO PARA SERVIR DE PREFACIO
De certo tempo para cá, uma nova molestia tem feito irrupção em Paris, por outra, em toda a França; eu poderia mesmo accrescentar que se vae extendendo tambem aos paizes estrangeiros. Socegae, querido leitor e formosa leitora (eu acho sempre as minhas leitoras formosissimas), esta molestia não é d’aquellas de que se morre, ou que podem desfigurar as vossas lindas feições (folgo tambem de crer que possuis umas feições encantadoras); é simplesmente a mania dos autographos, que traz quasi sempre após si a dos albuns.
Quando um homem tem a fortuna—parece-me que seria melhor dizer a desgraça!—emfim, quando um homem tem alguma celebridade, não se passa dia algum em que não receba pedidos de autographos, ou não veja entrar-lhe em casa um sujeito, que lhe é inteiramente desconhecido, mas que traz debaixo do braço um objecto bastante volumoso, cuidadosamente embrulhado em papel e mettido n’uma caixa de cartão. Este sujeito, depois de muitos cumprimentos e d’essas phrases banaes que se dizem a toda e qualquer pessoa de quem se deseja obter alguma coisa, desembrulha o objecto que traz debaixo do braço, tira o papel, abre a caixa, e mostra-nos um album mais ou menos bem encadernado, mas no qual ha ainda uma grandissim quantidade de folhas em branco; depois diz-nos com a sua voz mais insinuante:
—Meu caro senhor, eu possuo já no meu album muitos nomes celebres; mas falta-me o seu, o seu que é indispensavel á minha felicidade! Por quem é não me recuse o que lhe venho pedir! faça-me o obsequio de escrever algumas linhas n’uma d’estas paginas em branco, o que quizer, a mais pequena coisa, não exijo que seja em verso... Entretanto confesso que os versos teem mais encanto, conservam-se melhor na memoria; se não tem agora tempo, se deseja meditar sobre o que ha-de escrever, deixo-lhe cá o meu album; voltarei d’aqui a tres ou quatro dias, quando o senhor quizer!
Estamos já de muito mau humor por sermos incommodados por este sujeito, que nos perturba no nosso trabalho, e que, sem nenhum titulo, nenhuma recommendação, vem fazer-nos um pedido a que muitos amigos e pessoas das nossas relações se não atrevem algumas vezes. Um pedinte de certo nos enfadaria menos, porque teriamos o direito de o pôr immediatamente na rua. Mas o homem—album—olha para nós como se viesse pedir-nos o nosso voto para a academia. Nós não queremos por fórma alguma, ficando com o album, receber uma nova visita d’este senhor, e por isso, mesmo resmungando, mesmo deixando vêr o aborrecimento que isto nos causa, abrimos o album n’uma pagina em branco, pegamos na pena... O tal senhor está cheio de jubilo; ficará talvez menos encantado quando ler o que escrevemos; mas emfim, visto que elle não quer senão a nossa lettra e a nossa assignatura, não póde deixar de ficar satisfeito.
Escrevemos a primeira coisa que nos vem á idéa; mas sempre se deve procurar que seja uma tolice, o que é ás vezes mais difficil de achar do que se julga. Dizem-me que o nosso Scribe, apoquentado tambem pela gente de album, escrevia sempre esta phrase: Perdi o meu guarda-chuva!... e isto era mais que sufficiente.
Devo entretanto dizer que os albuns apresentam-se menos vezes em nossa casa que os simples pedidos de autographos. Estes pedidos quasi sempre se fazem por correspondencia. Recebemos a cada instante cartas, não só de Paris, mas da provincia e mesmo do estrangeiro. Algumas vezes julgâmos reconhecer a letra d’uma pessoa que estimâmos muito e de quem ficariamos encantados de ter noticia; abrimos a carta muito depressa... mas nada! é ainda um pedido de autographo, d’uma pessoa que nunca vimos, que provavelmente não veremos nunca, e que acha simplicissimo talhar-nos obra, como se devessemos estar ás suas ordens!
Ultimamente recebo uma carta d’um sujeito que me manda uns versos de que eu sou o auctor, e que provavelmente elle tinha lido e copiado d’um album. Espero que isto me servirá de lição para não tornar a cair em escrever versos em albuns. Se, como Scribe, eu não tivesse escripto senão: Perdi o meu guarda-chuva! ou perdi a minha bengala, aposto que o tal senhor não teria copiado isto nem m’o teria enviado, fazendo-me o pedido de lh’o transcrever para ter estes lindos versos escriptos por mim? O homem não cessa de me repetir na sua carta que quer por força ter alguma coisa minha.
Se lhe respondesse, o que não tenho tenção de fazer, havia de dizer-lhe: O senhor quer ter alguma coisa minha; mas com que titulo? Recebi eu por ventura alguma coisa sua?
Contaram-me que n’outro tempo, Lablache, famoso cantor italiano, recebêra dos seus admiradores um tão grande numero de caixas de tabaco, que poderia assoalhar com ellas os seus aposentos, e passear em tres casas, pisando sempre caixas de tabaco, todas mais ou menos bonitas, das quaes lhe haviam feito presente. Certamente, eu não cantei nunca como Lablache! mas emfim, pela quantidade immensa de pedidos que recebo, e de amabilidades que muitas pessoas hão por bem dirigir-me, devo pensar que tenho tambem um numero bastante crescido de apreciadores. Pois bem! desde que escrevo... o que faço ha muito tempo, bem sabem, nunca recebi outra cousa senão pedidos de autographos.
Eu não peço nada, nunca pedi nada, em nenhum genero, nem pedirei nunca graças a Deus! se tenho feito o meu caminho, tenho-o feito á minha custa, sem intriga e sem apoio. Mas, por favor, deixem-me socegado e não me apoquentem com os seus pedidos de autographos! Não desejo as caixas de tabaco de Lablache, pois que nunca tomei tabaco!... o que me não impede de admirar uma caixa bonita, quando vale a pena de ser admirada.
—Que diabo se lhe poderia então offerecer? me dizia um sujeito que sempre me pede exemplares dos meus romances, o que é ainda mais indiscreto que um autographo.
—Meu caro senhor, lhe disse eu, quando se tem a peito receber uma resposta de alguem, ha um meio muito simples. Se eu residisse em Tours, mandava-lhe ameixas passadas; em Mans, mandava-lhe um capão; em Strasburgo, um pastel; em Reims, meia duzia de garrafas de Champagne. Cada terra tem a sua especialidade, e o homem por força teria de accusar-me a recepção do meu presente.
Pois o tal sujeito pareceu ficar muito espantado de eu ter achado este meio.
Emquanto estou falando a respeito de autographos, não posso deixar de lhes citar um sujeito que me escrevia de Nice, e que, depois de me ter feito o seu pedido, me rogava que lhe dirigisse a minha resposta para Nice, posta restante, com o nome que elle me indicava.
Se eu respondesse a este senhor, o que tive o cuidado de não fazer, havia de dizer-lhe: «Meu caro senhor: A posta restante não se emprega senão em dois casos: em amor e em politica. O senhor não está namorado de mim, folgo de o crer; e pelo que toca a politica, nunca me occupei de tal coisa, nem já agora me hei-de occupar nunca. Por que razão pois, em vez de me dar francamente o seu endereço, quer que eu lhe responda para a posta restante? Tem então medo de que eu saiba quem é e onde mora? E pede-me a minha assignatura! Realmente, o senhor não é logico!
Emquanto estou de vez para conversar com o meu caro leitor e com a minha adorada leitora, podia confiar-lhes ainda uma d’essas apoquentações a que algumas vezes nos é difficil escapar, desgraçadas celebridades que nós somos. Receio porém abusar da sua paciencia, e portanto ficará para outra occasião.
A MENINA LISA
I
Uma creada que sae a recados
—Adriana! Adriana! vejam lá se ella apparece! Adriana! Ah! esta rapariga é insupportavel! Nunca vem quando se precisa d’ella! E depois, não ha com que chamar! aqui porém deve haver uma campaínha... Adriana!...
Uma rapariga gorda, fresca, bem feita, cara vulgar, nariz mais grosso que comprido e cabello loiro-arruivado, apparece emfim á porta d’um quarto que podia passar por um camarim, e no qual estava uma senhora estendida, como que desmaiada, em cima d’uma poltrona, emquanto que outra senhora, mais nova, mas pouco bonita e cujo vestuario elegante não conseguia fazer esquecer a sua fealdade, lhe batia na mão, sempre chamando em altos gritos a creada grave.
—O que é minha senhora? pergunta a menina Adriana, que parece não se ter apressado nada; a senhora está a gritar! grita como se houvesse fogo em casa!...
—O que é, pois não vê? é a sua ama que acaba de perder os sentidos, depois de ter dado um grito muito grande; como ella se agita... como se põe interiçada...
—Ah! sim, eu conheço isso; a senhora está com o seu ataque de nervos, com o seu faniquito; isso dá-lhe quando é contrariada, ou quando tem alguma altercação com o sr. Casimiro.
—Deu-lhe isso ainda agora depois de ter lido uma carta que a menina acaba de lhe trazer. Mas emfim, quando Ambrosina tem o seu ataque de nervos, a menina faz-lhe tomar alguma coisa, penso eu, não a deixa sem soccorro?
—De certo, minha senhora, faço-lhe tomar a limonada que o medico lhe receitou. E isso faz com que a senhora torne a si ao cabo de alguns minutos.
—Pois bem! dê-lhe a tal limonada; ande depressa, porque ella parece soffrer muito, esta pobre Ambrosina. Sabe onde ella tem essa limonada?
—Sei sim, minha senhora, sei, certamente que sei... Ai! Jesus! agora me lembro...
—De que?
—Ai! valha-me Deus! sim, a senhora tinha-me dito hontem que lhe fosse buscar outra garrafa. É verdade... agora me recordo...
—Como? pois não ha limonada em casa?
A creada grave, que tem ido abrir um armario, traz de lá uma garrafa branca, mas que está de todo vasia, e vem mostral-a á amiga de sua ama, dizendo:
—Aqui tem, veja, não lhe minto, não resta nem uma gota.
—E não foi hontem encommendar mais?!...
—Esqueci-me, a culpa é da porteira, que me demorou para me falar do gato quando eu saîa, o gato desappareceu-lhe ha dois dias.
—Mas não se tracta do gato da porteira, o que é preciso ê soccorrer sua ama. Tem a receita para essa limonada?
—Tenho sim, minha senhora, porque eu tinha tenção de ir hontem á botica, devo-a ter ainda na algibeira.
E a menina Adriana mette a mão na algibeira, tira de lá primeiramente algumas passas de uva, e sorri-se dizendo:
—É aquelle toleirão do caixeiro da tenda que sempre me ha de metter alguma coisa no bolso. Por mais que eu lhe diga: Deixe-me socegada, guarde as suas passas, não quero brincadeiras...
—Mas que é da receita? não se tracta agora do que a menina diz ao caixeiro da tenda.
—Ah! deve ser isto!...
Adriana desembrulha um papel e lê o annuncio d’uma loja nova em que se offerecem as fazendas com oitenta por cento de abatimento; depois atira com o papel para o lado, dizendo:
—Ora! fui lá, minha senhora, mas são uns mentirosos, não vendem nada novo, venderam-me umas calças de panno que tinha sido virado.
—Ah! compra calças de panno para si?
—Nada, era para o irmão d’uma patricia minha.
—Mas então perdeu a receita, desgraçada!
—Não minha senhora; olhe, aqui está, aqui a tem, tinha embrulhado com ella uns torrões de assucar que me deu o moço do botequim.
—Agora corra depressa á botica. É muito longe?
—Não minha senhora, é aqui perto, no fim da rua Meslé, uma bonita botica, no predio novo, que dá quasi para a rua do Templo. Ah! é uma das melhores de Paris.
—Comtanto que o remedio não leve muito tempo a fazer.
—Oh! não, minha senhora, não leva. E depois, direi que tenho muita pressa, para me despacharem logo; aquelles senhores da botica são muito amaveis, muito obsequiadores.
—Vae já muito depressa, não é verdade?
—Sim, minha senhora; é só pôr uma touca na cabeça, e vou immediatamente.
—Para que precisa de touca? Não pode ir assim mesmo como está?
—Oh! a senhora não quer que eu saia em cabello; diz que não é bonito.
—Mas sua ama não o saberá.
—Perdão, podia alguem encontrar-me e vir dizer-lhe que me viu na rua sem touca! A senhora despedia-me logo: mas esteja descançada, não gasto n’isso muito tempo.
A creada grave corre ao seu quarto, que é nas aguas-furtadas, pega n’uma touca, põe-na na cabeça, vê-se a um espelhinho, mas não fica satisfeita; tira a touca, procura outra no fundo d’uma caixa de papelão, experimenta-a, torna a ver-se ao espelho; depois, passado um momento de hesitação, tira ainda esta e torna a pôr a primeira; d’esta vez contenta-se com ella, e desce emfim os cinco andares, para ir buscar o remedio para sua ama, que tem muito tempo para estar demaiada.
Mas, quando vae passar por deante do cubiculo da porteira, grita-lhe esta:
—Menina Adriana! menina Adriana! ah! uma boa noticia...
—Então o que é, sr.ª Bedou?
—Achei já o meu gato; o pobre Pagnole! Achei-o. Olhe! aqui o tem.
—É verdade; e aonde é que estava?
—Ah! eu lhe vou contar o caso, é uma historia completa. Entre cá um instantinho.
—Não posso, vou á botica buscar um remedio para a senhora, que está incommodada, está com o seu ataque de nervos.
—Bem sabe que ella é propensa a esses ataques. Imagine que foi aquelle maroto, aquelle patife do quinto andar, o tal que se diz litterato...
—Ah! o sr. Denegrido.
—Sim, foi aquelle malvado que, para se vingar de eu no outro dia não lhe ter aberto a porta ás duas horas da manhã... A menina comprehende que um homem que mora n’uma agua-furtada de cento e sessenta francos, tenha o atrevimento de recolher para casa ás duas horas da manhã? E demais-a-mais nunca me deu a mais pequena gratificação! Pois bem! elle é que tinha o Pagnole fechado em casa, onde estou bem certa que nunca lhe dava de comer; por isso este pobre martyr emmagreceu tanto n’estes dois dias. Felizmente a creada do procurador do segundo andar ouviu-lhe os gemidos, e veiu dizer-me: «Parece-me que o seu gato está fechado em casa do litterato. Subi n’um pulo até ao quinto andar e reconheci a voz do meu querido bichano. Bati, teria arrombado a porta se elle não a abrisse. Elle gritava-me: «Não estou ainda levantado.»—«Pois levante-se,» respondi eu.—«Não estou vestido.»—Que me importa a mim isso?! pensa que tenho vontade de o retratar?! O homem afinal abriu a porta; o gato veiu logo lançar-se-me nos braços. Affianço-lhe que o tal Denegrido ha de ser despedido no fim do seu arrendamento; demais, elle não paga, não tinhamos tenção de o conservar.
—Até logo, sr.ª Bedou.
—Quando voltar lhe direi o que o escrevinhador me disse para se desculpar de ter fechado o Pagnole. Imagine...
—Sim, sim, quando voltar.
A menina Adriana acha-se emfim na rua. Quando passa por deante da tenda, um dos caixeiros, que parecia estar a espreital-a, toma-lhe o passo, dizendo-lhe:
—Aonde é que vae com tanta pressa? parece que corre n’um velocipede.
—Ora! que tolice! como se as mulheres podessem andar em velocipedes! o que é pena, porque seria uma coisa muito commoda para nós fazermos os nossos recados.
—As mulheres podem muito bem andar em velocipede, o caso é acostumarem-se.
—Vamos, sr. Cebolinha, deixe-me passar, não tenho tempo para conversar agora.
—Oh! a menina commigo nunca tem tempo, mas hontem, ás dez horas da noite, bem a vi estar de paleio com o moço do botequim do boulevard, as casas do boulevard S. Martinho, na margem esquerda têem todas uma saida para a rua Meslée, é commodo...
—E então? sim, bem me lembro, effectivamente, estive a falar com o Alexandre, a senhora queria tomar um capilé de leite antes de se deitar, porque tinha tossido um pouco, e pensava que aquella bebida lhe faria bem á constipação, ia eu então ao café encommendar o que a senhora queria, quando encontrei na rua o Alexandre.
—Ah! não é máu o tal capilé, acho-o porém muito assucarado...
—O quê? o que é que o senhor quer dizer com esse ar de mangação?
—Quero dizer que se a sua ama a esperava para se deitar, teve tempo para adormecer antes de tomar a tal bebida, a menina demorou-se uma boa meia hora na rua com o moço do botequim.
—É que elle provavelmente tinha muito que me contar.
—Se é d’aquella maneira que elle faz o seu serviço, não tarda que o despeçam.
—Bem se importa elle com isso! não tem vontade nenhuma de ficar onde está; vae tomar um café e estabelecer-se por sua conta.
—Oh! então o caso é differente. E a menina é que vae para o balcão?
—Ora! quem sabe! tem-se visto coisas mais de espantar.
—O Alexandre vae tomar um botequim por sua conta! Ah! ah! ah! essa é forte de mais, pode-se juntar com o capilé.
—Sr. Cebollinha, o senhor é muito maldoso, diz mal de toda a gente, desacredita todo o bairro. É uma coisa muito trivial, todos os dias se estão a estabelecer os moços de botequim por sua conta, isso vê-se a cada passo!...
—Sim, mas os que fazem isso são aquelles que têem feito economias, que têem forrado alguma coisa do seu ordenado, e não os gastadores, os extravagantes como o seu Alexandre.
—Porque é que diz: o seu Alexandre? Elle é tanto meu como de qualquer outra! o rapaz deve-lhe alguma coisa, para o senhor estar assim a dizer mal d’elle?
—É verdade que sim; deve-me ainda uma libra de mel que lhe vendi para adoçar as suas tisanas, quando esteve doente, e, como o patrão me tinha prohibido de lhe dar fiado, sou eu que terei de pagar.
—Ora! elle lhe pagará o seu mel. Olhe, lá o chamam, ande, volte para a loja.
—A menina volta?
—Nunca! o senhor tem muito má lingua.
A creada continúa o seu caminho; mas cem passos mais adeante encontra-se com outra creada quasi da mesma edade e que está vestida com muita garridice.
—Ah! és tu Rosa!
—Boas noites, Adriana. Aonde vaes com tanta pressa?
—Vou á botica buscar uma limonada para minha ama, que está com o seu ataque de nervos.
—Ainda estás em casa da tal sr.ª Montémolly?
—Ainda.
—Gostas de lá estar?
—Hum! não muito, não se diverte a gente quasi nada; mas tambem não se está aperreada, pode-se saír e voltar tarde; é o que a casa tem de bom.
—E tua ama é senhora capaz?
—Ora! não sei bem... ella dá-se por viuva.
—D’um general sem duvida? todas ellas são viuvas de um general; é uma das suas manias...
—Não, a minha diz que o marido era banqueiro. O que é certo, é que elle deixou-lhe fortuna: ella tem pelo menos quinze mil francos de renda, talvez mais alguma coisa; nós não fazemos dividas, pagamos tudo a dinheiro de contado. Oh! temos bom governo.
—Que edade tem a tua sr.ª Montémolly?
—Ella diz que tem trinta e quatro annos, mas eu dou-lhe trinta e oito, tambem mais não; foi muito bonita, e está ainda bem conservada.
—E tem muitos adoradores?
—Não! infelizmente! porque se assim fosse, havia de divertir-se a gente muito mais, e seriam maiores os lucros.
—O quê! pois tua ama renunciou aos amores, ainda em edade de agradar!
—Não! é que não percebes; minha ama não renunciou ao amor, muito pelo contraio, ella ama, oh! ama apaixonadamente um rapaz, um bello moço, o Casimiro Dernold, que vem quasi todos os dias fazer-lhe companhia, que é musico, que é pintor tambem... emfim, que faz tudo quanto quer, mas que, segundo eu creio, não quer fazer outra coisa senão divertir-se! A senhora está doida pelo tal Casimiro, não pensa senão n’elle, não sonha n’outra coisa, não se importa com mais ninguem. É por isso que não dá attenção a todos os que procuram fazer-lhe a côrte. É verdadeiramente fiel ao amante, a ponto de adoecer, de sentir as mais vivas inquietações, se elle não chega á hora do costume. Ah! minha querida Rosa! que asneira é amar um homem assim; e como a gente é muito feliz em não se prender! Não pensas como eu?
—Já se vê que sim! eu dou attenção a todos quantos me falam; por isso não tenho um instante de meu. Quando não converso com este, é porque estou conversando com aquelle! Ah! ah! é muito mais divertido! E que edade pode ter esse Casimiro, amante de tua ama?
—Vinte seis a vinte sete annos, talvez.
—E tua ama tem trinta e oito! elle deve-lhe fazer muita falcatrua!...
—Não sei, em todo o caso, a senhora vigia-o muito, é ciumenta como uma panthera! fal-o seguir; é mister que elle lhe dê conta do que faz cada dia, hora por hora.
—Pobre rapaz! olhem que vida! Eu antes queria estar nas galés!...
—Por isso elle algumas vezes respinga, grita, manda bugiar a senhora. Oh! então, são scenas terriveis! A senhora chora, ou pega n’um punhalzinho que traz escondido no seio, e diz que se vae matar...
—Bom! eu conheço essa giria! não tenhas medo de que se mate!...
—Olha, ha um mez, quando ella soube que o seu Casimiro tinha estado no Mabille, quiz cravar o punhal no peito; mas, ao que parece, dirigiu mal o golpe, porque não se feriu senão na orelha, que verteu algum sangue!
—Ah! ah! ah! ella quer-se apunhalar pela orelha. É uma grande farcista a tua ama. E esse Casimiro é rico tambem?
—Rico! elle! pelo contrario, não tem nada de seu. Então não percebeste a situação, e porque é que elle é escravo da senhora?
—Ah! sim, percebo agora; é ella quem o sustenta.
—Exactamente; tem-no seguro pela fome. Se o rapaz tivesse dinheiro, estou bem certa de que ella o não prenderia muito tempo.
—Olha, Adriana, não sei se tu és como eu, mas para mim os homens que não têem nada de seu, não prestam!...
—Eu não faço caso nenhum d’elles! Ora! um homem viver á custa d’uma mulher... é andar o mundo ás avessas! Por ventura o homem não foi feito para ganhar dinheiro e a mulher para o gastar.
—Pois, minha rica, ha ainda muitas mulheres bastante tolas que se deixam depennar pelos derriços. Olha, ahi tens a Bochechuda, tu conheces a Bochechuda?...
—Quem? A Luizita?
—Sim, mas todos lhe chamam a Bochechuda, porque parece ter sempre as faces inchadas. Emfim, ha já algum tempo, a Bochechuda travou conhecimento no baile Pilodo com um bonito rapaz, que lhe diz que é da mesma terra. Dansa com ella todas as dansas mais finas, mesmo as que ella não sabia. Depois convida-a para um jantar no campo no domingo seguinte; ella aceita; vae jantar com o seu novo conhecimento, que bebe como uma esponja; depois, quando chega a occasião de pagar a conta, aquelle senhor declara á Bochechuda que não recebeu da terra um dinheiro com que contava, e pede-lhe que lhe empreste com que pagar a despeza. Ella tinha felizmente levado o porte-monnaie. Empresta vinte francos ao tal sujeitinho, que paga e não lhe dá o troco. O jantar tinha custado apenas nove francos e dez soldos. Volta com ella a pé, não lhe offerece mais nada e larga-a muito cedo, com o pretexto de que tem um trabalho de escripturação a fazer para um tendeiro a quem serve de guarda-livros. A Bochechuda, que não gosta de ir para casa cedo n’um domingo, põe uma touca nova e vae ao baile Pilodo com uma vizinha. Quem é que ella encontra lá? o seu parasita, o seu novo conhecimento, que fazia a côrte a uma mulher e lhe pagava ponche com o troco da moeda de vinte francos que ella lhe tinha emprestado...
—Ah! a peça é bem pregada! e o que fez a Luizita?
—É tão tola que se foi embora chorando. Mas o mais curioso da historia, é que, no domingo seguinte, o tal sujeitinho tornou-lhe a pregar a mesma peça. Jantam n’uma casa de pasto, e na occasião de pagar a despeza o patife diz que não tem dinheiro.
—Ah! isso é forte demais! e ella pagou outra vez?
—Pagou, mas pelas suas proprias mãos, e guardou o troco. Desde esse dia, nunca mais tornou a vêr o seu parasita.
—Pobre Luizita! mas eu não a devo lastimar, que ella é muito presumida. E tu, Rosa, ainda estás em casa dos mesmos patrões?
—Dos Dupont? oh! não, graças a Deus! deixei-os! não era gente fina, aquillo não me convinha! A senhora ia á praça, ella é que me comprava tudo: O patrão descia elle mesmo á adega; sabia a conta das garrafas. Não se podia fazer nada com aquella gente! eram uns piolhosos, minha rica! Fechavam o assucar e os licores; aquillo não me podia convir. Eu tinha acceitado aquella casa emquanto me não apparecia outra; eu bem sabia que não ficaria lá muito tempo.
—E hoje estás melhor?
—Ah! minha rica, tenho um bello commodo! estou em casa d’um homem só, um patrão rico, generoso, nada apoquentador, negoceia por gosto, sómente para se entreter. Temos uma bella casa aqui perto, na rua Béranger, seis casas n’um segundo andar. Fiz com que o senhor tomasse um criado para esfregar; elle não o tinha, mas percebeu que eu não podia fazer tudo.
—Tens boa soldada!
—Seiscentos francos, sem contar as gratificações, os presentes!...
—Teu amo dá-te presentes! sempre és muito feliz!
—É verdade, ainda ultimamente me deu um rico lenço de seda da India!
—Que edade tem o teu patrão?
—E’ um homem que anda pelos seus sessenta annos, mas não parece, está ainda muito bem conservado!...
—Ah! entendo... estás em casa d’elle para todo o serviço. Ah! ah! esses commodos é que são bons!...
—Ah! tu pensas tolices... pois enganas-te, affianço-te que não é isso...
—Ora adeus! então por que te dá elle presentes?...
—Ah! não digo que elle ás vezes não goste de brincar um pouco, de rir, de me deitar os braços á roda da cintura, mas a coisa não chega nunca aonde tu imaginas.
—Deves perceber que isso para mim é-me indifferente; estás no teu direito de fazeres o que quizeres, assim como o teu patrão, visto que não tem mulher a quem dar satisfações. Elle é viuvo ou solteiro?
—Olha! não sei, que ainda lhe não pergunteí isso... mas preciso sabel-o...
—Ai! Jesus! minha ama que está á espera do remedio... e eu aqui a dar á lingua contigo.
—Ninguem pode levar a mal que a gente converse o seu boccado; nós não nos encontramos todos os dias!
—Pois sim, mas agora vou de corrida á botica. Adeus! Rosa!
—Até outra vez, Adriana.
II
Na botica
Quando a menina Adriana entra emfim na botica, que é quasi á esquina da rua Meslée e da rua do Templo, havia lá tanta gente, que os praticantes não sabiam a quem haviam de attender primeiro. Demais d’isso, é muito raro achar uma botica deserta; a concorrencia abunda n’estes laboratorios, onde todos esperamos encontrar remedio ou pelo menos allivio para os nossos soffrimentos ou para os das pessoas que nos são caras. Se isto prova que a profissão é boa, prova tambem que o nosso physico tem amiudadas vezes necessidade de reparo, e que estamos longe de ser perfeitos; é, pelo menos, aquillo de que estamos convencidos ha muito tempo.
Entre os freguezes da botica torna-se saliente uma mulher gorda, que segura pela mão uma criança de quatro a cinco annos, que está de tal modo embrulhada em casacos, aventaes e chales, que é difficil adivinhar se é rapaz ou rapariga; a mãe dirige-se a um dos praticantes:
—Olhe, senhor, o meu pequeno anda ha tres dias com uma tosse, que me parte o coração ouvil-o tossir: são uns ataques como tinha o pae, que padecia d’um catarrho que o não deixava pregar olho toda a noite, e que o levou á cova o anno passado, com uma indigestão que apanhou em consequencia d’um banho de vapor, porque...
—Mas, minha senhora, agora não se tracta de seu marido, visto que morreu; tracta-se do seu pequeno, que está constipado; creio que é por causa d’elle que a senhora cá vem?
—De certo; olhe, aqui o tem, é uma joia.
—É o seu menino?
—Sim, senhor.
—Parecia uma menina.
—Por causa do seu ar malicioso? ah! sim, que elle é muito malicioso; mas veja como está vermelho.
—Não admira! a senhora tral-o tão embrulhado, que o pequeno deve por força sentir muito calor.
—Mas, como elle anda com tosse...
—Não é uma razão para o suffocar.
—O que é então preciso fazer-lhe tomar?
—Uma tisana de flor de malva com mel, e pode tambem dar-lhe um pouco de leite.
—De vacca?
—Já se vê.
—Tinham-me dito que lhe fizesse tomar leite de burra.
—Não é preciso, o menino é ainda muito novo, e não tem cara de quem padece do peito.
—Veja se tem febre.
O praticante quer pegar na mão do pequeno, mas este foge com ella rompendo em altos gritos.
—Então, Dodoro! porque é que não queres que este senhor te pegue na mão? dá-lhe já a mão depressa, patife.
—Não quero! não quero!
—É travesso como um macaco. Faze lá uma careta a este senhor.
—Não quero!
—Então, é ou não velhaco?
—Não lhe tem respeito nenhum.
—Elle é ainda tão pequeno, e depois aprendeu a responder assim com o pae. Isto faz-me lembrar tanto o meu homem! Faça favor de me dar a flor de malva e o mel.
—Sim, senhora, vou avial-a immediatamente.
—E não lhe parece que seria melhor dar-lhe leite de burra?
—Não, senhora; torno-lhe a dizer que o seu menino não precisa d’isso. Mas emfim, se a senhora quer dar-lh’o por força, mal não lhe pode elle fazer.
—Não acha? O senhor não tem cá uma burra?
—Oh! não, senhora, nós não temos leite de burra!
—Que pena! pois ao pé de mim mora uma vizinha que tem uma cabra; o senhor não acha que o leite de cabra lhe faria o mesmo effeito?
—Todos os leites que quizer; o leite não faz nunca mal. Aqui tem a flor de malva e o mel.
—Muito agradecida; isto é para beber quente?
—Tanto quanto seja possivel; sempre é melhor tomal-o quente do que frio...
—Dodoro, atira lá um beijo a este senhor...
Em vez de atirar um beijo, e rapazinho faz uma careta, deitando a lingua de fóra, e resmunga:
—Não quero! não quero!
A mãe pega n’lle e retira-se, exclamando:
—Ah! é exactamente como o pae!...
Uma senhora, de meia edade, com certa garridice no trajo e nas maneiras, dirige-se a outro praticante, requebrando-se toda e fazendo boquinha de sorriso, para deixar vêr uma dentadura completamente postiça, mas que ella suppõe que imita a natural de modo a illudir os mais espertos, e diz-lhe:
—Acontece-me um desastre bem desagradavel, e venho pedir-lhe que me tire isto quanto antes...
—O que é que precisa tirar, minha senhora? Se é algum dente, nós não somos dentistas...
—Não, senhor, não se trata de dentes; por esse lado não preciso nada, graças a Deus! e o senhor bem o deve vêr... mas olhe aqui para cima da minha bocca; o que é que vê?
—Vejo o seu nariz, minha senhora, e de ordinario é n’esse sitio que elle se encontra.
—Sim, senhor, está o meu nariz, que tem uma forma bastante engraçada, posso dizel-o sem desvanecimento; mas sobre o nariz... aqui... á esquerda, não vê nada?
—Ah! sim, vejo uma borbulha... já bastante pronunciada e que está mesmo muito vermelha.
—Está vermelha e pronunciada!... ah! senhor! o que quer isso dizer!...
—Quer dizer que ainda não está madura.
—Madura! como madura? o senhor acha que isto deve amadurecer?
—Naturalmente, minha senhora: não é mais que uma borbulhita, por emquanto, mas assim mesmo tem de seguir o seu curso... amadurecer, crear cabeça, rebentar e sarar...
—Amadurecer, crear cabeça!.. pois eu havia de ter uma borbulha com cabeça no nariz! ah! que horror!... não quero tal coisa!... eu, que nunca tive a mais pequena beliscadura em parte alguma... entende, senhor? em parte alguma... porque me viria nascer uma borbulha no nariz?... qual pode ser a causa d’isto?
—Ignoro totalmente, minha senhora; mas uma borbulha nasce sem se saber porquê; isso pode acontecer a toda a gente!...
—Oh! não, senhor, quando se é d’um aceio minucioso, isto não deve acontecer... Eu não fui metter o nariz em sitios insalubres, pode acreditar-me!
—Estou persuadido d’isso, minha senhora!
—Lavo-me vinte vezes por dia! esfrego-me com cold-cream, com vinagre de Bully, com agua de Portugal, com essencia de jasmim...
—São coisas de mais, minha senhora, é preciso não abusar dos cosmeticos, isso produz ás vezes um effeito muito diverso d’aquelle que se espera...
—Emfim, o senhor vae-me dar alguma coisa para fazer desapparecer isto que me nasceu aqui, logo no nariz... é preciso que se não veja nem o signal...
—Minha senhora, isso ha de ser muito difficil... seria mesmo perigoso; com o nariz não se deve brincar... Já consultou o seu medico?
—Um medico para uma borbulhita... ora essa. Em primeiro logar, eu não posso vêr os medicos, detesto-os, querem sempre purgar-me! E eu não me quero purgar, não quero!
—Faz mal, minha senhora, porque se se tivesse purgado, é provavel que essa borbulha não lhe nascesse no nariz.
—Com que é preciso untar esta borbulha para que desappareça immediatamente? Deve haver algum remedio.
—Minha senhora, advirto-a de que será perigoso; se faz recolher essa borbulha, hão de rebentar-lhe muitas outras n’outros sitios!
—N’outros sitios não me importa, comtanto que não seja na cara.
—A senhora quer?
—Sim, senhor, vou ámanhã a uma soirée... quero ir sem borbulha.
—Então aqui tem ceroto de chumbo, minha senhora, para fazer seccar a sua borbulhinha...
—Oh! muito obrigada, vou untar bem todo o nariz!...
—Só a borbulha, minha senhora... mas previno-a de que lhe hão-de nascer outras...
—Muito bem... farei recolher todas.
A senhora pega no seu boiãosinho de ceroto, paga e vae-se embora, muito contente por ter com que curar ou pelo menos dissimular a sua borbulha.
É substituída por um sujeito moço, bem abafado, mas que tem máu parecer, e se approxima do praticante com um ar acanhado. Os estudantes de pharmacia sabem muito d’isto; adivinham logo por que razão este senhor os quer consultor e vão ao seu encontro. Effectivamente, elle fala-lhes ao ouvido; e então fazem-n’o passar para uma salinha que fica por traz da botica. Alli, o homem explica o seu caso, sempre a meia voz. Dão-lhe uma caixa de pilulas, umas poucas de raízes de morangueiro para fazer tisana, uma garrafa com um xarope já preparado, e o homem leva tudo isto, dando um profundo suspiro.
Os praticantes da pharmacia olham uns para os outros sorrindo, e um d’elles murmura:
—Ita dis placitum, voluptatem ut moeror
Comes consequatur!...
—Os deuses! responde outro, quer dizer, foi só Mercurio que assim o quiz! É o Deus do commercio; terá lá dito comsigo: Isto ha-de-me fazer vender muito.
—Meus senhores! vamos! tomem cuidado nas suas palavras! diz o rapaz que está sentado á carteira.
—Oh! não ha perigo, as senhoras não sabem latim!
Chega um velho gordo, bufando, e atira comsigo para cima d’uma cadeira, dizendo:
—Ah! senhores, que dôr! Irra! que dôr!