RAUL POMPEIA
O
ATHENEU
(CHRONICA DE SAUDADES)
2ª Edição definitiva
(Conforme os originaes e os desenhos deixados pelo autor)
| FRANCISCO ALVES & Cia | AILLAUD, ALVES & Cia | |
| RIO DE JANEIRO | PARIS | |
| 168, RUA DO OUVIDOR, 168 | 96, BOULEVARD MONTPARNASSE, 96 | |
| S. PAULO | (LIVRARIA AILLAUD) | |
| 65, RUA DE S. BENTO, 65 | LISBOA | |
| BELO HORIZONTE | 73, RUA GARRETT, 73 | |
| 1055, RUA DA BAHIA, 1055 | (LIVRARIA BERTRAND) |
Propriedade litteraria e artistica dos editores.
INDICE
CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
O ATHENEU
[I]
«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pae, á porta do Atheneu. Coragem para a lucta.
Bastante experimentei depois a verdade d'este aviso, que me despia, num gesto, das illusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regimen do amor domestico, differente do que se encontra fóra, tão differente, que parece o poema dos cuidados maternos um artificio sentimental, com a vantagem unica de fazer mais sensivel a creatura á impressão rude do primeiro ensinamento, tempera brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hypocrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
Euphemismo, os felizes tempos, euphemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a actualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base phantastica de esperanças, a actualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de purpura ao crepusculo—a paysagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze annos.
Frequentara como externo, durante alguns mezes, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglezas, sob a direcção do pae, distribuiam educação á infancia como melhor lhes parecia. Entrava ás nove horas, timidamente, ignorando as licções com a maior regularidade, e bocejava até ás duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o collegio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contacto da malandragem, de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos mezes de externato; com a lembrança de alguns companheiros—um que gostava de fazer rir á aula, especie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberancia callosa que tinha; outro, adamado, elegante, sempre retirado, que vinha á escola de branco, engommadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do hombro á cinta por botões de madreperola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injuria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam ás mestras por duas iniciaes como em monogramma.
Leccionou-me depois um professor em domicilio.
Apezar d'este ensaio da vida escolar a que me sujeitou a familia, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova phase. O internato! Destacada do conchego placentario da dieta caseira, vinha proximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus ás primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! especie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscopio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilibrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto,—massa tempestuosa das antipathias geographicas, encontro definitivo e ebullição dos seculares odios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providencia Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendencias pela concordia promiscua das caixas de páu. Força era deixar á ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a somnolencia morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos á sombra dos tinhorões, na transparencia adamantina da agua...
Mas um movimento animou-me, primeiro estimulo sério da vaidade: distanciava-me da communhão da familia, como um homem! ia por minha conta empenhar a lucta dos merecimentos; e a confiança nas proprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a noticia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.
Um dia, meu pae tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lagrimas os cabellos e eu parti.
Duas vezes fôra visitar o Atheneu antes da minha installação.
Atheneu era o grande collegio da época. Afamado por um systema de nutrida reclame, mantido por um director que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o geitosamente de novidade, como os negociantes que liquidara para recomeçar com artigos de ultima remessa; o Atheneu desde muito tinha consolidado credito na preferencia dos paes, sem levar em conta a sympathia da meninada, a cercar de acclamações o bombo vistoso dos annuncios.
O Dr. Aristarcho Argollo de Ramos, da conhecida familia do visconde de Ramos, do Norte, enchia o imperio com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas provincias, conferencias em diversos pontos da cidade, a pedidos, á sustancia, atochando a imprensa dos logarejos, caixões, sobre tudo, de livros elementares, fabricados ás pressas com o offegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anonymos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas publicas de toda parte com a sua invasão de capas azues, roseas, amarellas, em que o nome de Aristarcho, inteiro e sonoro, offerecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alphabeto dos confins da patria. Os logares que os não procuravam eram um bello dia surprehendidos pela enchente, gratuita, espontanea, irresistivel! E não havia senão acceitar a farinha d'aquella marca para o pão do espirito.
E engordavam as letras, á força, d'aquelle pão. Um benemerito. Não admira que em dias de gala, intima ou nacional, festas do collegio ou recepções da corôa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constellações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honorificos berloques.
Nas occasiões de apparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grillos: Atheneu! Atheneu! Aristarcho todo era um annuncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei—o autocrata excelso dos syllabarios; a pausa hieratica do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que elle fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação aspera dos supercilios de monstro japonez, penetrando de luz as almas circumstantes—era a educação da intelligencia; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciencias limpas—era a educação moral. A propria estatura, na immobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia d'elle: aqui está um grande homem... não vêem os covados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas massiças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os labios, fecho de prata sobre o silencio de ouro, que tão bellamente impunha como o retrahimento fecundo do seu espirito,—teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do illustre director. Em summa, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, d'esta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da propria estatua. Como tardasse a estatua, Aristarcho interinamente satisfazia-se com a affluencia dos estudantes ricos para o seu instituto. De facto, os educandos do Atheneu significavam a fina flôr da mocidade brasileira.
A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentaculos através do paiz, que não havia familia de dinheiro, enriquecida pela septentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade domestica mandar d'entre seus jovens, um, dois, tres representantes abeberar-se á fonte espiritual do Atheneu.
Fiados nesta selecção apuradora, que é commum o erro sensato de julgar melhores familias as mais ricas, succedia que muitas, indifferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.
A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.
Transformara-se em amphitheatro uma das grandes salas da frente do edificio, exactamente a que servia de capella; paredes estucadas de sumptuosos relevos, e o tecto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos anginhos, ostentando atrevimentos roseos de carne, agitando os minusculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar. Desarmado o oratorio, construiram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alumnos occupavam a archibancada. Como a maior concorrencia preferia sempre a exhibição dos exercicios gymnasticos, solemnisada dias depois do encerramento das aulas, a accommodação deixada aos circumstantes era pouco espaçosa; e o publico, paes e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a immediata. Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pae ministrava-me informações. Diante da archibancada, ostentava-se uma mesa de grosso panno verde e borlas de ouro. Lá estava o director, o ministro do imperio, a commissão dos premios. Eu via e ouvia. Houve uma allocução commovente de Aristarcho; houve discursos de alumnos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas linguas. O espectaculo communicava-me certo prazer respeitoso. O director, ao lado do ministro, de acanhado physico, fazia-o incivilmente desapparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se, elevado no seu orgulho como em um throno. A bella farda negra dos alumnos, de botões dourados, infundia-me a consideração timida de um militarismo brilhante, apparelhado para as campanhas da sciencia e do bem. A letra dos cantos, em côro dos falsetes indisciplinados da puberdade; os discursos, visados pelo director, pansudos de sisudez, na bocca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da burguezia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivella, ou exaggerados, de voz cava e caretas de tragedia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da biblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sabias maximas do ensino redemptor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres á frente, na investida heroica do obscurantismo, agarrando pelos cabellos, derribando, calcando aos pés a Ignorancia e o Vicio, miserrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
Um discurso principalmente impressionou-me. Á direita da commissão dos premios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tezinho, o Venancio, professor do collegio, a quarenta mil réis por materia, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independencia, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievaes com o moderno certamen das armas da intelligencia; depois, uma prelecção pedagogica, tacheada de flôres de rhetorica a martello; e a apologia da vida de collegio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarcho e do Atheneu. «O mestre perorou Venancio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia-zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vae ás conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxilio ampara-nos como a Providencia na terra; escolta-nos assiduo como um anjo de guarda; a sua licção prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pae a existencia do corpo; o mestre cria-nos o espirito (sorites de sensação), e o espirito é a força que impelle, o impulso que triumpha, o triumpho que nobilita, o ennobrecimento que glorifica, e a gloria é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A familia é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança intima inapreciavel da vontade. Acima de Aristarcho—Deus! Deus tão sómente; abaixo de Deus—Aristarcho.»
Um ultimo gesto espaçoso, como um jamegão no vacuo, arrematou o rapto de eloquencia.
Eu me sentia compenetrado d'aquillo tudo; não tanto por entender bem, como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes pintadas da ante-sala imitavam porphyro verde; em frente ao portico aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar superior. Flanqueando a majestosa porta d'esta escada, havia dous quadros de alto relevo: á direita, uma allegoria das artes e do estudo; á esquerda, as industrias humanas, meninos nús como nos frisos de Kaulbach, risonhos, com a ferramenta symbolica—psychologia, pura do trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da innocencia. Eram meus irmãos! Eu estava a esperar que um d'elles, convidativo, me estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria o collegio, traducção concreta da allegoria, ronda angelica de corações á porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no ritual austero da virtude!
Por occasião da festa da gymnastica, voltei ao collegio.
O Atheneu estava situado no Rio Comprido, extremo, ao chegar aos morros.
As eminencias de sombria pedra e a vegetação selvatica debruçavam sobre o edificio um crepusculo de melancolia, resistente ao proprio sol a pino dos meios-dias de Novembro. Esta melancolia era um plagio ao detestavel pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de Minas. Aristarcho dava-se palmas d'esta tristeza aerea—a atmosphera moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior luxo da casa, como um appendice minimo da architectura.
No dia da festa da educação physica, como rezava o programma (programma de arromba, porque o secretario do director tinha o talento dos programmas) não percebi a sensação de ermo tão accentuada em sitios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento faziam sorrir a paysagem. O arvoredo do immenso jardim, entretecido a côres por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de estranha alegria; os vistosos pannos, em meio da ramagem, fingiam flôres collossaes, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos fructificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pae prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.
Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante de mim, um sujeito mais proximo fez-me rir; levava de fóra a fralda da camisa... Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão subia um cheiro forte de canella pisada; através das arvores, com intervallos, passavam rajadas de musica, como uma tempestade de philarmonicas.
Um ultimo aperto mais rijo, estalando-me as costellas, espremeu-me, por um estreito córte de muro, para o espaço livre.
Em frente, um gramal vastissimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes, contentes no espaço, com o pittoresco dos tons energicos cantando vivo sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas de estrado com cadeiras quasi exclusivamente occupadas por senhoras, fulgindo os vestuarios, em violenta confusão de colorido. Algumas protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, á altura da fronte, contra a rutilação do dia, num bloco de nuvens que crescia do céu. Acima do estrado, balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de bambú, projectando franjas longuissimas de sombra pelo campo de relva.
Algumas damas empunhavam binoculos. Na direcção dos binoculos distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. «Ahi vêm! disse-me meu pae; vão desfilar por diante da princeza.» A princeza imperial, Regente nessa época, achava-se á direita em gracioso palanque de sarrafos.
Momentos depois adiantavam-se por mim os alumnos do Atheneu. Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do innumeravel. Todos de branco, apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os quadris e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas livres. Ao hombro esquerdo traziam laços distinctivos das turmas. Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercicios. Primeira turma, os halteres; segunda, as massas; terceira, as barras.
Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercicios geraes.
Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispozeram-se em pelotões, invadiram o gramal, e, cadenciados pelo rhythmo da banda de collegas, que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exercito sob o commando do mais raro instructor.
Diante das fileiras, Bataillard, o professor de gymnastica, exultava, envergando a altivez do seu successo na extremada elegancia do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o compendio inteiro da capacidade profissional, exhibida em galeria por uma serie infinita de attitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plastica de musculos a estalar o brim do uniforme, que elle trajava branco como os alumnos, ou pela nervosa celeridade dos movimentos, effeito electrico de lanterna magica, respeitando-se na variedade prodigiosa a unidade da correcção suprema.
Ao peito tilintavam-lhe as agulhetas do commando appensas de cordões vermelhos em trança. Elle dava as ordens fortemente, com uma vibração penetrante de corneta que dominava á distancia, e sorria á docilidade mecanica dos rapazes. Como officiaes subalternos, auxiliavam-no os chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo á manga distinctivos de fita verde e canutilho.
Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercicios. Musculos do braço, musculos do tronco, tendões dos jarretes, a theoria toda do corpore sano foi praticada valentemente alli, precisamente, com a simultaneidade exacta das extensas machinas. Houve após, o assalto aos apparelhos. Os apparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar idéa do deslumbramento que me ficou d'esta parte. Uma desordem de contorsões, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios á barra fixa, temeridades acrobaticas ao trapezio, ás perchas, ás cordas, ás escadas; pyramides humanas sobre as parallelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de thorax; fórmas de estatuaria viva, tremulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisivel apoio; aqui e alli uma cabecinha loura, cabellos em desordem cacheados á testa, um rosto injectado pela inversão do corpo, labios entre-abertos offegando, olhos semi-cerrados para escapar á areia dos sapatos, costas de suor, collando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, enthusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os ultimos fogos da gloria diurna sobre aquelle triumpho espectaculoso da saude, da força, da mocidade.
O professor Bataillard, enrubecido de agitação, rouco de commandar, chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistinctamente. Duas bandas militares, revezavam-se activamente, communicando a animação á massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alumnos, numa leva ardente de fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguem me olhava.
Deram fim á festa os saltos, os pareos de carreira, as luctas romanas e a distribuição dos premios de gymnastica, que a mão egregia da Serenissima Princeza e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam sobre os peitos vencedores. Foi de vêr-se os jovens athletas aos pares aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o corpo, passo miudo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes, prodigalisando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação desengonçada de avestruz, chegando esbofados, com placas de poeira na cara, ao poste da victoria.
Aristarcho arrebentava de jubilo. Pozera de parte o comedimento soberano que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a rapaziada, e chapéo de Chile, distribuia-se numa ubiquidade impossivel de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os principes com o rizinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e ironico, desfeito em etiquetas de reverente subdito e cortezão; viam-no bradando ao professor de gymnastica, a gesticular com o chapéo seguro pela copa; viam-no formidavel, com o perfil leonino rugir sobre um discipulo que fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver luctado em logar humido, gastando tal vehemencia no ralho, que chegava a ser carinhoso.
O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria celeripede a frente dos estrados, cheio de comprimentos para os convidados especiaes e de interjectivos amaveis para todos. Perpassava como uma visão de brim claro, subito extincta para reapparecer mais viva noutro ponto. Aquella expansão vencia-nos; elle irradiava de si, sobre os alumnos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos estandartes de batalha. Roubava-nos dous terços da attenção que os exercicios pediam; indemnisava-nos com o equivalente em surprezas de vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro em roda, por ascensões cobrejantes de gyrandola, que iam ás nuvens, que baixavam depois serenamente, diluidas na viração da tarde, que os pulmões bebiam. Actor profundo, realisava ao pé da letra, a valer, o papel diaphano, subtil, metaphysico, de alma da festa e alma do seu instituto.
Uma cousa o entristeceu, um pequenino escandalo. Seu filho Jorge, na distribuição dos premios, recusara-se a beijar a mão da princeza, como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho! Tinha já aos quinze annos as convicções ossificadas na espinha inflexivel do caracter! Ninguem mostrou perceber a bravura. Aristarcho, porém, chamou o menino á parte. Encarou-o silenciosamente e—nada mais. E ninguem mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o infeliz, cremado ao fogo d'aquelle olhar! Nesse momento as bandas tocavam o hymno da monarchia jurada, ultima verba do programma.
Começava a anoitecer, quando o collegio formou ao toque de recolher. Desfilaram acclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando alegremente uma canção escolar.
Á noite houve baile nos tres salões inferiores do lance principal do edificio e illuminação no jardim.
Na occasião em que me ia embora, estavam accendendo luzes variadas de Bengala diante da casa. O Atheneu, quarenta janellas, resplendentes do gaz interior, dava-se ares de encantamento com a illuminação de fóra. Erigia-se na escuridão da noite, como immensa muralha de coral flammante, como um scenario animado de saphira com horripilações errantes de sombra, como um castello phantasma batido de luar verde emprestado á selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de luz electrica, derivado de fóco invisivel, feria a inscripção dourada em arco sobre as janellas centraes, no alto do predio. A uma d'ellas, á sacada, Aristarcho mostrava-se. Na expressão olympica do semblante transpirava a beatitude de um gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da immortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim:—luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Pantheon. A contemplação da posteridade em baixo.
Aristarcho tinha momentos d'estes, sinceros. O annuncio confundia-se com elle, supprimia-o, substituia-o, e elle gozava como um cartaz que experimentasse o enthusiasmo de ser vermelho. Naquelle momento, não era simplesmente a alma do seu instituto, era a propria feição palpavel, a synthese grosseira do titulo, o rosto, a testada, o prestigio material de seu collegio, identico com as letras que luziam em aureola sobre a cabeça. As letras, de ouro; elle, immortal: unica differença.
Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do ultimo quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle—o bello bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, photographia estatica, na ventura de um raio electrico.
É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao director do Atheneu e á matricula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiencia de dez annos.
O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.
Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho, feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.
As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.
«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.
—Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu criado» da estricta cortezia.
—Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...
Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director, explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer: «Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»
—Peço licença para defender os meninos bonitos... objectou alguem entrando.
Surprehendendo-nos com esta phrase, unctuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do director, D. Emma. Bella mulher em plena prosperidade dos trinta annos de Balzac, fórmas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupillas retintas, de uma côr só, que pareciam encher o talho folgado das palpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria tambem a côr do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fructo prohibido. Adiantava-se por movimentos oscillados, cadencia de menuetto harmonioso e molle que o corpo alternava. Vestia setim preto justo sobre as fórmas, reluzente como panno molhado; e o setim vivia com ousada transparencia a vida occulta da carne. Esta apparição maravilhou-me.
Houve as apresentações de ceremonia, e a senhora com um nadinha de excessivo desembaraço sentou-se no divan perto de mim.
—Quantos annos tem? perguntou-me.
—Onze annos...
—Parece ter seis, com estes lindos cabellos.
Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabello nos dedos:
—Córte e offereça a mamãe, aconselhou com uma caricia; é a infancia que ahi fica, nos cabellos louros... Depois, os filhos nada mais têm para as mães...
O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina musica. Olhei furtivamente para a senhora. Ella conservava sobre mim as grandes pupillas negras, lucidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pae, formulou sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no internato.
—Mas o Sergio é dos fortes, disse Aristarcho, apoderando-se da palavra. Demais, o meu collegio é apenas maior que o lar domestico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilancia são mais activos. São as crianças os meus predilectos. Os meus esforços mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a familia está fóra, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os detractores...
Enveredando pelo thema querido do elogio proprio e do Atheneu, ninguem mais pôde falar...
Aristarcho, sentado, de pé, cruzando terriveis passadas, immobilisando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como para um auditorio de dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiraveis, como um leiloeiro, e as opulentas facturas, desenrolou, com a memoria de uma ultima conferencia, a narrativa dos seus serviços á causa santa da instrucção. Trinta annos de tentativas e resultados, esclarecendo como um pharol diversas gerações agora influentes no destino do paiz! E as reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporaes, o que já dava uma benemerencia passavel. Era preciso a introducção do methodos novos, suppressão absoluta dos vexames de punição, modalidades aperfeiçoadas no systema das recompensas, ageitação dos trabalhos, de maneira que seja a escola um paraiso; adopção de normas desconhecidas cuja efficacia elle presentia, perspicaz como as aguias. Elle havia de crear... um horror, a transformação moral da sociedade!
Uma hora trovejou-lhe á bocca, em sanguinea eloquencia, o genio do annuncio. Mirámol-o na inteira expansão oral, como, por occasião das festas, na plenitude da sua vivacidade pratica. Contemplavamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica—o homem sandwich da educação nacional, lardeado entre dous monstruosos cartazes. Ás costas, o seu passado incalculavel de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a reclame dos immortaes projectos.
[II]
Abriam-se as aulas a 15 de Fevereiro.
De manhã, á hora regulamentar, compareci.
O director, no escriptorio do estabelecimento, occupava uma cadeira rotativa junto á mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro abria-se em columnas massiças de escripturação e linhas encarnadas.
Aristarcho, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do collegio, conferia, analysava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alumnos. Alguns acompanhados.
A cada entrada, o director lentamente fechava o livro, marcando a pagina com um alfange de marfim; fazia gyrar a cadeira e soltava interjeições de acolhimento, offerecendo episcopalmente a mão pelluda ao beijo contricto e filial dos meninos. Os maiores, em regra, recusavam-se á cerimonia e partiam com um simples aperto de mão.
O rapaz desapparecia, levando o sorriso pallido na face, saudoso da vadiação ditosa das férias. O pae, o correspondente, o portador, despedia-se, depois de banaes comprimentos, ou palavras a respeito do estudante, amenisadas pela gracinha da bonhomia superior de Aristarcho, que punha habilmente um sujeito fóra de portas com o riso fanhoso e o simples modo impellido de segurar-lhe os dedos.
A cadeira gyrava de novo á posição primitiva; o livro da escripturação espalmava outra vez as paginas enormes; e a figura paternal do educador desmanchava-se, volvendo a simplificar-se na esperteza attenta e secca do gerente.
A este vae-vem de attitudes, feição dupla de uma mesma individualidade e contingencia commum dos sacerdocios, estava tão habituado o nosso director, que nenhum esforço lhe custava a manobra. O especulador e o levita ficavam-lhe dentro em camaradagem intima, bras dessus, bras dessous. Sabiam, sem prejuizo da opportunidade, apparecer por alternativa ou simultaneamente; eram como duas almas inconhas num só corpo.
Soldavam-se nelle o educador e o emprezario com uma perfeição rigorosa de accôrdo, dois lados da mesma medalha: oppostos, mas justapostos.
Quando meu pae entrou commigo, havia no semblante de Aristarcho uma pontinha de aborrecimento. Decepção talvez de estatistica; o numero dos estudantes novos não compensando o numero dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despezas do fim do anno. Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como o resto de tunica que apenas tarda a sumir-se numa mutação á vista; e foi com uma explosão de contentamento que o director nos acolheu.
Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção que queria dispensar. Elle tinha maneiras de todos os gráos, segundo a condição social da pessoa. As sympathias verdadeiras eram raras. No amago de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que se percebia bem. E duramente se marcavam distincções politicas, distincções financeiras, distincções baseadas na chronica escolar do discipulo, baseadas na razão discreta das notas do guarda-livros. Ás vezes, uma criança sentia a alfinetada no geito da mão a beijar. Saía indagando comsigo o motivo d'aquillo, que não achava em suas contas escolares... O pae estava dois trimestres atrazado.
Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores. Effectivamente; Aristarcho levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu á sala especial das visitas.
Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as collecções, em armarios, dos objectos proprios para facilitar o ensino. Eu via tudo curiosamente, sem perder os olhares dos collegas desconhecidos, que me fitavam muito ancho na dignidade do uniforme em folha. O edificio fôra caiado e pintado durante as férias, como os navios que aproveitam o descanço nos portos para uma refórma de apresentação. Das paredes pendiam as cartas geographicas, que eu me comprazia de vêr como um itinerario de grandes viagens planejadas. Havia estampas coloridas em molduras negras, assumptos de historia santa e desenho grosseiro, ou exemplares zoologicos e botanicos, que me revelavam direcções de applicação estudiosa em que eu contava triumphar. Outros quadros vidraçados exhibiam sonoramente regras moraes e conselhos muito meus conhecidos de amor á verdade, aos paes, e temor de Deus, que estranhei como um codigo de redundancia. Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre—os mais numerosos; e se esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade incorporea, argamassada de pura essencia de amor e suspiros cortantes de sacrificio, ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para mim, devotamente, jurava desempenhar á risca. Visitámos o refeitorio, adornado de trabalhos a lapis dos alumnos, a cozinha de azulejo, o grande pateo interno dos recreios, os dormitorios, a capella... De volta á sala de recepção, adjacente á da entrada lateral e fronteira ao escriptorio, fui apresentado ao professor Manlio, da aula superior de primeiras letras, um homem aprumado, de barba toda, grisalha e cerrada, pessoa excellente, desconfiando por systema de todos os meninos.
Durante o tempo da visita, não falou Aristarcho senão das suas luctas, suores que lhe custava a mocidade e que não eram justamente apreciados. «Um trabalho insano! Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações; encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos impetos; amordaçar excessivos ardores; retemperar o animo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a corrupção; desilludir as apparencias seductoras do mal; aproveitar os alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos; prevenir a depravação dos innocentes; espiar os sitios obscuros; fiscalisar os amizades; desconfiar das hypocrisias; ser amoroso, ser violento, ser firme; triumphar dos sentimentos de compaixão para ser correcto; proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão depois... Um labor ingrato, titanico, que extenua a alma, que nos deixa acabrunhados ao anoitecer de hoje, para recomeçar com o dia de amanhã... Ah! meus amigos, concluiu offegante, não é o espirito que me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preoccupação... É o caracter! Não é a preguiça o inimigo, é a immoralidade!» Aristarcho tinha para esta palavra uma intonação especial, comprimida e terrivel, que nunca mais esquece quem a ouviu dos seus labios. «A immoralidade!»
E recuava tragicamente, crispando as mãos. «Ah! mas eu sou tremendo quando esta desgraça nos encandalisa. Não! Estejam tranquillos os paes! No Atheneu, a immoralidade não existe! Velo pela candura das crianças, como se fossem, não digo meus filhos: minhas proprias filhas! O Atheneu é um collegio moralisado! E eu aviso muito a tempo... Eu tenho um codigo... » Neste ponto o director levantou-se de salto e mostrou um grande quadro á parede. «Aqui está o nosso codigo. Leiam! Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hypothese: o caso da immoralidade não está lá. O parricidio não figurava na lei grega. Aqui não está a immoralidade. Se a desgraça occorre, a justiça é o meu terror e a lei é o meu arbitrio! Briguem depois os senhores paes!... »
Affianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em superlativo a metaphora sabida das varas verdes. Notando a minha perturbação, o director desvaneceu-se em afagos. «Mas para os rapazes dignos eu sou um pae!... os máus eu conheço: não são as crianças, principalmente como você, o prazer da familia, e que ha de ser, estou certo, uma das glorias do Atheneu. Deixem estar... » Eu tomei a sério a prophecia e fiquei mais calmo.
Quando meu pae saiu, vieram-me lagrimas, que eu tolhi a tempo de ser forte. Subi ao salão azul, dormitorio dos medios, onde estava a minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao numero do deposito geral, meu numero. Não tive coragem de affrontar o recreio. Via de longe os collegas, poucos áquella hora, passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem animação, impressionados ainda pelas recordações de casa; hesitava em ir ter com elles, embaraçado da estréa das calças lanças, como um exaggero comico, e da sensação de nudez á nuca, que o córte recente dos cabellos desabrigara era escandalo. João Numa, inspector ou bedel, baixote, barrigudo, de oculos escuros, movendo-se com vivacidade de bacoro alegre, veio achar-me indeciso, á escada do pateo. «Não desce, a brincar?» perguntou bondosamente. «Vamos, desça, vá com os outros». O amavel bacoro tomou-me pela mão e descemos juntos.
O inspector deixou-me entre dous rapazinhos, que me trataram com sympathia.
Ás onze horas, a sineta deu o signal das aulas. Os meus bons companheiros, de classes atrazadas, indicaram a sala de ensino superior de primeiras letras, que devia ser a minha, e se despediram.
O professor Manlio, a quem eu fôra recommendado, recommendou-me por sua vez ao mais sério dos seus discipulos, o honrado Rebello. Rebello era o mais velho e tinha oculos escuros como João Numa. O vidro, curvo dos oculos cobria-lhe os olhos rigorosamente, monopolisando a attenção no interesse unico da mesa do professor. Como se fosse pouco, o zeloso estudante fazia concha com as mãos ás temporas, para impedir o contrabando evasivo de algum olhar escapado ao monopolio do vidro.
Este luxo de applicação não provinha do simples empenho de fazer attitude de exemplar. Rebello soffria da vista, tanto que muito tarde podera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benevolo de avô; afastou-se um pouco para me dar logar e esqueceu-me incontinente, para afundasse na devoradora attenção que era o seu apanagio.
Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de typos que me divertia. O Gualterio, miudo, redondo de costas, cabellos revoltos, motilidade brusca e caretas de simio—palhaço dos outros, como dizia o professor: o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma fouce; o Alvares, moreno, senho carregado, cabelleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estupido, que Manlio atormentava, designando-o para o mister das plata-fórmas de bond, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translucido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir á pedra com um vagar languido de convalescente; o Maurilio, nervoso, insoffrido, fortissimo em taboada: cinco vezes tres, vezes dous, noves fora, vezes sete?... lá estava Maurilio, tremulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fulgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas accesas, labios inquietos, physionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado tres minutos, sempre á mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um rizinho de pouca vergonha, fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bomzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Manlio repellia, precavido de confianças; Baptista Carlos, raça de bugre, valido, de má cara, coçando-se muito, como se o incommodasse a roupa no corpo, alheio ás cousas da aula, como se não tivesse nada com aquillo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distracções e ferir a orelha aos vizinhos com uma setta de papel dobrado. Ás vezes a setta do bugre ricochetava até á mesa de Manlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquerito. Em vão, que os partistas temiam-no e elle era matreiro e sonso para disfarçar.
Dignos de nota havia ainda o Cruz, timido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi creado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina christã, facil como um despertador para desfechar as licções de cór, perro como uma cravelha para ceder uma idéa por conta propria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando Rebello, primeiro da classe, muito intelligente, vencido apenas por Maurilio na especialidade dos noves fóra vezes tanto, cuidadoso dos exercicios, emulo do Cruz na doutrina, sem competidor na analyse, no desenho linear, na cosmographia.
O resto, uma cambadinha indistincta, adormentados nos ultimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.
Fui tambem recommendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipathico: cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, labios humidos, porejando baba, meiguice viscosa de crapula antigo. Era o primeiro da aula. Primeiro que fosse do côro dos anjos, no meu conceito era a derradeira das creaturas.
Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o meu nome. Fiquei tão pallido que Manlio sorriu e perguntou-me brando, se queria ir á pedra. Precisava examinar-me.
De pé, vexadissimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar odioso e timorato do Cruz, os oculos azues do Rebello, o nariz do Nascimento, virando de vagar como um leme; esperei a setta do Carlos, o quinau do Maurilio, ameaçador, fazendo cócegas ao tecto, com o dedo feroz; respirei no ambiente adversa de maldita hora, perfumado pela emanação acre das resinas do arvoredo proximo, uma conspiração contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até á maldade violenta do Alvares. Cambaleei até á pedra, O professor interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-se-me do espirito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das exhibições, imaginando em roda a ironia má de todos aquelles rostos desconhecidos. Amparei-me á taboa negra, para não cair; fugia-me o sólo aos pés, com a noção do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a ultima energia... pela melhor das maneiras peiores de liquidar-se uma energia.
Do que se passou depois, não tenho idéa. A perturbação levou-me a consciencia das cousas. Lembro-me que me achei com o Rebello, na rouparia, e o Rebello animava-me com um esforço de bondade sincero e commovedor.
Rebello retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre, emquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar a differença d'aquella situação para o ideal de cavallaria com que sonhara assombrar o Atheneu.
Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que alli estava á mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de novo. Ardia-me á face inexplicavel incendio de pudor, constringia-me a garganta exquisito aperto, de nausea. Escravisava-me, porém, a seducção da novidade. Olhei para os lados com um gesto de culpado; não sei que instincto me acordava um sobresalto de remorso. Um simples papel, entretanto, borrado na tiragem rapida dos delictos de imprensa. Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. «Larga d'ahi! disse com brutalidade, isso não é p'ra menino!» E retirou o livrinho.
Esta impressão viva de surpreza curou-me da lembrança do meu triste episodio, crescendo-me na imaginação como as visões, absorvendo-me as idéas. Zumbia-me aos ouvidos a palavra aterrada de Aristarcho... Sim, devia ser isto: um entravamento obscuro de fórmas despidas, roupas abertas, um turbilhão de frades bebados, deslocados ao capricho de todas as deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a sarabanda diabolica sem fim, no empastado negrume da tinta do prelo; aqui e alli, o raio branco de uma falha, fulminando o espectaculo e a gravura, como o estigma complementar do acaso.
A rouparia occupava grande parte do sub-chão do immenso edificio, entre o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos lavatorios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco acima num friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro compartimento, além d'estes, accommodava o arsenal dos apparelhos gymnasticos e o dormitorio da criadagem. Da rouparia para o recreio central atravessava-se obliguamente o saguão das bacias. Logo a sair ao pateo encontrei o benevolo Rebello, que me esperava. Insistiu com um requinte importuno de complacencia sobre o meu incidente, desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insupportavel. Para mudar de conversa, pedi informações acerca do nosso professor. Deu-m'as optimas, nem outras daria um alumno exemplar como elle. Nenhum mestre é máu para o bom discipulo, affirmava uma das maximas da parede.
Era hora de descanço; passeavamos, conversando. Falamos dos collegas. Vi então, de dentro da brandura patriarchal do Rebello descascar-se uma especie de inesperado Thersito, produzindo injurias e maldições. «Uma cafila! uma corja! Não imagina, meu caro Sergio. Conte como uma desgraça ter de viver com esta gente ». E esbeiçou um labio sarcastico para os rapazes que passavam. «Ah! vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais peccados na consciencia que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada pollegada de pelle. Fiem-se nelles. São servis, traidores, brutaes, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Socios de bandalheira! Fuja d'elles, fuja d'elles. Cheiram a corrupção, empestam de longe. Corja de hypocritas! Immoraes! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da vespera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com elles mesmos ha de aprender o que são... Aquelle é o Malheiro, um grande em gymnastica. Entrou graudo, trazendo para cá os bons costumes de quanto collegio por ahi. O pae é official. Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro, todos o temem, muitos o cercam, os inspectores não podem com elle; o director respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... Este que passou por nós, olhando muito, é o Candido, com aquelles modos de mulher, aquelle arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos... Este sujeito... Ha de ser seu conhecido. Mas faço excepções: alli vem o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas uma pérola; É a mansidão em pessoa. Primeira voz do Orpheon, uma vozinha de moça que o director adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os seraphins. Uma perola!»
—Alli está um de joelhos...
—De joelhos... Não ha perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é o primeiro dia, alli está de joelhos o Franco. Assim atravessa as semanas, os mezes, assim o conheço, nesta casa, desde que entrei. De joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O director chama-lhe cão, diz que tem callos na cara. Se não tivesse callos no joelho, não haveria canto do Atheneu que elle não marcasse com o sangue de uma penitencia. O pae é de Matto-Grosso; mandou-o para aqui com uma carta em que o recommendava como incorrigivel, pedindo severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sáe nunca... Afastemo-nos que ahi vem um grupo de gaiatos.
Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.
«Viu aquelle da frente, que gritou calouro? Se eu dissesse o que se conta d'elle... aquelles olhinhos humidos de Senhora das Dôres... Olhe; um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.
«Isto é uma multidão; é preciso força de cotovellos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não póde imaginar. Os genios fazem aqui dous sexos, como se fosse uma escola mixta. Os rapazes timidos, ingenuos, sem sangue, são brandamente impellidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o collegio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e affectuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admittir protectores.»
Ia por diante Rebello com os extraordinarios avisos, quando senti puxarem-me a blusa. Quasi caí. Voltei-me; vi á distancia uma cara amarella, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada para mim, esgarçando a bocca em careta de riso cynico. Um sujeito evidentemente mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de telha e arremessei. O tratante livrou-se, injuriando-me com uma gargalhada, e sumiu-se. «Muito bem», applaudiu Rebello. E á pergunta que fiz, informou: aquelle desagradavel rapaz era o Barbalho, que havia de ser um dia preso como gatuno de joias, nosso companheiro da aula primaria, do numero dos esquecidos nos bancos do fundo.
O professor Manlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para salvar-me das consequencias do escarneo do desastrado incidente da primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras de animação. Os rapazes foram generosos. Maurilio acariciou-me a cabeça mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacavel dos argumentos. Só o amarello dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas á socapa.
Depois do jantar não tornei a vêr o Rebello. Como frequentava algumas aulas extraordinarias do curso superior, recolhia-se a certas horas para as salas de cima.
A sala do professor Manlio era ao nivel do pateo, em pavilhão independente do edificio principal, com duas outras do curso primario, o alojamento da banda de musica e o salão supplementar de recreio, vantajoso em dias de chuva. Formando angulo recto com esta casa, uma extensa construcção de tijolo e taboas pintadas, sala geral do estudo no pavimento terreo e dormitorio em cima, concorria para fechar metade do quadrilatero do pateo, que o grande edificio completava, estentendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No fundo d'esta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro, esteril, insipido como a alegria obrigatoria, algumas arvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o verdor morto das palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que soffrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto, esgalgado cypreste subia até as gotteiras, tentando fugir pelos telhados.
Sem o Rebello, achei-me ahi como perdido, em meio dos rapazes. Os conhecidos da aula desappareciam no tumulto que as salas todas despejavam.
Nem um só de quem me podesse aproximar. Rente com a parede, para que me não dessem attenção, insinuei-me até o logar d'onde o inspector Sylvino, um grande magro, de avultado nariz e suissas dilaceradas, olhar miudo e vivo como chispas, em orbitas de antro, fiscalisava o recreio, graduando a folgança, á mercê de um temivel canhenho. Sentava-se á entrada do portão do lavatorio. Um pouco além da cadeira do Sylvino, fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro, fresco das largas sombras da hora, o movimento dos collegas.
Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a dispersão dos alumnos. Eram os pobres novatos que os veteranos sovavam á cacholeta, fraternalmente.
Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitencia; em pé, cara contra a parede. Como Sylvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para arrancar a cabeça e vêr morrer o bichinho na palma da mão. Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de máu modo: «Lá sei! disse elle. Porque me mandaram.» E continuou a pegar as moscas. Franco era um rapazola de quatorze annos, rachitico, de olhos pasmados, face livida, palpebras pisadas. Á fronte, com a expressão vaga dos olhos e obliquidade dolorida dos supercilios, pousava-lhe uma nevoa de afflicção e paciencia, como se vê no Flos sanctorum. A parte inferior do semblante rebellava-se; um canto dos labios franzia-se em contracção constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca. Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam. Uma quéda alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo da excomunhão com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as manhãs, lendo no refeitorio perante o collegio as notas da vespera.
Os professores já sabiam. Á nota do Franco, sempre má, devia seguir-se especial commentario deprimente, que a opinião esperava e ouvia com delicia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como elle! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anathema. Não convinha expulsar. Uma cousa d'estas aproveita-se como um bibelot do ensino intuitivo, explora-se como a miseria do ilota, para a licção fecunda do asco. A propria indifferença repugnante da victima é util.
Tres annos havia que o infeliz, num supplicio de pequeninas humilhações crueis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das proprias culpas, alli estava,—cariatide forçada no edificio de moralisação do Atheneu, exemplar perfeito de depravação offerecido ao horror santo dos puros.
Varias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de subito em frente, e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era susceptivel o açafrão da cara, perguntava: «Mudou as calças? Um inferno. Até que afinal, o meu desespero estourou.
Foi á noite, pouco antes da ceia. Estavamos a um canto mal illuminado do pateo, quasi sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimivel interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolavamos na poeira engalfinhados como feras. Uma lucta rapida. Avisaram-nos que vinha o Sylvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz.
Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos dormitorios, fundos na sombra do gaz mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.
Era assim o collegio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
Onde metter a machina dos meus ideaes naquelle mundo de brutalidade, que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando á investigação da minha inexperiencia? Qual o meu destino, naquella sociedade que o Rebello descrevera horrorisado, com as meias phrases de mysterio, suscitando temores indefinidos, recommendando energia, como se colleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a norma generosa e sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre aspecto da solemnidade dos premios, dando-me idéa da legião dos soldados do trabalho, que fraternisavam no empenho commum, unidos pelo coração e pela vantagem do collectivo esforço. Individualisados na debandada do receio, com as observações ainda mais da critica do Rebello, bem diverso sentimento inspiravam-me, A reacção do contraste induzia-me a um conceito de repugnancia que o habito havia de esmorecer, que me tirava lagrimas áquella noite. Ao mesmo tempo opprimia-me o presentimento da solidão moral, fazendo adivinhar que as preoccupações minimas e as concomitantes surpresas inconfessaveis dariam pouco para as e effusões de allivio, a que corresponde o conselho, a consolação.
Nada de protector, dissera Rebello, Era o ermo. E, na solidão, conspiradas, as adversidades de toda a especie, falsidade traiçoeira dos affectos, perseguição da malevolencia, espionagem da vigilancia; por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a furia tonante de Jupiter-director, o tremendo Aristarcho dos momentos graves.
Lembranças da familia desviaram-me o curso ás reflexões. Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro somno, nem a oração, tão longe nesse momento, que me protegia á noite como um docel de amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asylos da miseria recolhem.
A convicção do meu triste infortunio lentamente, suavemente, anniquilou-me num conforto de prostração e eu dormi.
Pela noite a dentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens varias do atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarella do Barbalho, a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o collegio inteiro, mil collegios, arrebatados, num pé de vento, voavam leguas a fóra por uma planicie sem termo. Gritavam todos, urravam a sabbatina de taboadas com um enthusiasmo de turbilhão. O pó crescia em nuvens do sólo; a massa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurilio, crescida, enorme, preta, torcendo, destorcendo os dedos sofregos, convulsionados da hysteria do quinau... E eu caía, unico vencido! E o tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me, calcavam-me, pesados, carregando premios, premios aos cestos!
A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angustia. Cinco horas da manhã.
[III]
Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna confecção de mais uma infancia celebre, certo não registraria, entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.
Natação chamava-se o banheiro, construido num terreno das dependencias do Atheneu, vasta toalha d'agua ao rez de terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de ladrilho, offerecia uma inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro. Accusava-se ainda mais esta differença de profundidade por dois degráus convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a agua cobria um homem.
Por occasião dos intensos calores de Fevereiro e Março e do fim do anuo, havia ahi dous banhos por dia. E cada banho era uma festa, naquella agua gorda, salobra da transpiração lavada das turmas precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação; turbulento debate de corpos nús, estreitamente cingidos no calção de malha rajado a côres, enleiando-se os rapazes como lampreias, uns immergindo, reapparecendo outros, olhos injectados, cabellos a escorrer pela cara, vergões na pelle de involuntarias unhadas dos companheiros, entre gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava.
Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a braçadas, levando a hombro a resistencia d'agua; outros se precipitavam cabeça para baixo, volteando os pés no ar como cauda de peixe, prancheando sem vêr a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas ondas de resaca se emborcavam e iam transbordar pelas immediações do banheiro alagando tudo.
Ao longo do tanque, corria o muro divisorio, além do qual ficava a chacara particular do director. Á distancia, viam-se as janellas de uma parte da casa, onde ás vezes eram recolhidos os estudantes enfermos, fechadas sempre a venezianas verdes.
Trepada ao muro e meio escondida por uma mouta de bambús e ramos de hera, vinha Angela, a canarina, vêr os banhos da tarde. Lançava pedrinhas aos rapazes; os rapazes mandavam-lhe beijos e mergulhavam, buscando o seixo. Angela, torcendo os pulsos, reclinando-se para traz, ria perdidamente um grande riso, desabrochado em corolla de flôr através dos dentes alvos.
Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.
Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos banhistas em tres turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido da fiscalisação permittia que as turmas se confundissem e o inspector de serviço, com a varinha destinada aos retardatarios, vigiava, affastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos marmanjos que as espadanas d'agua acobertavam. Mal tinha eu entrado, senti que duas mãos, no fundo prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um impulso violento caí de costas; a agua abafou-me os gritos, cobriu-me a vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asphyxia, pensei morrer. Sem saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, á tôa, immerso a desfallecer, quando alguem me amparou. Um grande tomou-me ao hombro e me depôz á borda, estendido, vomitando agua. Levei algum tempo para me inteirar do que occorrera. Esfreguei por fim os olhos e verifiquei que o Sanches me tinha salvo. «Ia afogar-se!» disse elle, amparando-me a cabeça emquanto me desempastava os cabellos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe effusivamente o que me haviam feito. «Perversos!» observou-me o collega com pena, e attribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropello dos nadadores, desvelando-se em solicitudes por tranquillisar-me. Tive depois motivo para crêr que o perverso e a peste fôra-o elle proprio, na intenção de fazer valer um bom serviço.
Mas a consequencia immediata do facto foi que forcei a repugnancia que o Sanches me causava e me fiz todo gratidão para com elle e intima amizade. Curiosa e accidentada tinha de ser essa minha aventura de apego e confiança...
No Atheneu formávamos a dous para tudo. Para os exercicios gymnasticos, para a entrada na capella no refeitorio, nas aulas, para a saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a distribuição do pão secco depois do canto. Por amor da regularidade do organisação militar, repartiam-se as tres centenas de alumnos em grupos de trinta, sob o directo commando de um decurião ou vigilante. Os vigilantes eram escolhidos por selecção de aristocracia, asseverava Aristarcho. Vigilante era o Malheiro, o heróe do trapezio; vigilante era o Ribas, a melhor vocalisação do Orpheon; vigilante era o Matta, mirrado, corcundinha, de espinha quebrada, appellidado o mascate, mellifluo no trato, nunca punido ninguem sabia por que, reputação de excellente porque ninguem se lembrava de verificar, que, entretanto, Rebello apontava como chefe da policia secreta do director; vigilante o Saulo, que tinha tres distincções na instrucção publica; vigilante Romulo, mestre cook, por alcunha, uma besta, grandalhão, ultimo na gymnastica pela corpulencia bamba, ultimo nas aulas, dispensado do Orpheon pela garganta rachada de requinta velha, mas exercendo no collegio, por excepção de saliencia na largura chata da sua incapacidade, as complexas e delicadas funcções de zabumba da banda. Não sei se este geito particular para o bombo, formula musical do annuncio, não sei se uma celebre herança que Romulo esperava de afortunados parentes, verdade é que entre todos fôra Romulo apurado por Aristarcho para o invejavel privilegio de seu futuro genro.
Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um criterio que dava ensejo a que o escolhido por valentia á barra fixa representava no estudo um papel contristador; vice-versa, outro, como Ribas, exemplar nas aulas, magricella e esgotado, mal podia ao trapezio vacillar a acrobacia simplificada do prumo.
Sanches era tambem vigilante.
Estes officiaes inferiores da milicia da casa faziam-se tyrannetes por delegação da suprema dictadura. Armados de sabres de páu com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma ferocidade adoravel. Os sabres puniam summariamente as infracções da disciplina na fórma: duas palavras ao serra-fila, perna frouxa, desvio notavel do alinhamento. Regimen siberiano, como se vê, do que resultava que os vigilantes eram altamente conceituados.
No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de influir consideravelmente, a bella importancia collegial do vigilante Sanches. Mas outras circumstancias concertaram-se para determinar a nova feição das minhas disposições conforme se accentuou depois do incidente do banho.
Já me era licito julgar iniciada na convivencia intima da escola. Chamado por Manlio a provas, consegui agradar, conquistando uma aura que me devia por algum tempo favorecer. Encontrei o Barbalho. Tinha a face marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio commetti a injustiça de ir deixando o Rebello. Tambem o amavel camarada tinha na bocca um máu cheiro que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava prendendo a gente com dedos de torquez e soltando os aphorismos a queima-roupa. Por seu lado, o venerado collega correspondeu ao movimento massando-se commigo e amuando. Durante as aulas, em que nos sentavamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada attenção e era como se estivesse a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindivel necessidade tinha de me falar, então dirigia-me a palavra com a habitual affabilidade de joven cura.
Estava acclimado, mas eu me acclimara pelo desalento, como um encarcerado no seu carcere.
Depois que sacudi fóra a tranca dos ideaes ingenuos, sentia-me vasio de animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderavel da alma: o vacuo habitava-me dentro. Premia-me a força das cousas; senti-me acovardado. Perdeu-se a licção viril de Rebello: prescindir de protectores. Eu desejei um protector, alguem que me valesse, naquelle meio hostil e desconhecido, e um valimento directo mais forte do que palavras.
Se não houvesse olvidado as praticas, como a assistencia pessoal do Rebello, eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como elle observara a efffeminação morbida das escolas. Mas a theoria é fragil e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A lethargia moral pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças, á maneira do physico, esperasse realmente pelos dias para caracterisar em definitiva a conformação sexual do individuo, sentia-me possuido de certa necessidade preguiçosa de amparo, volupia de fraqueza em rigor impropria do caracter masculino. Convencido de que a campanha do estudo e da energia moral não era precisamente uma cavalgata quotidiana, animada pelo clarim da rhetorica, como nas festas, e pelo verso emphatico dos hymnos, entristeceu-me a realidade crua. Desilludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triumphaes; desmoralisava-me o ram-ram estagnado da paz das casernas, o prosaismo elementar da fachina.
Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o microcosmo do Atheneu. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço tumultuoso dos companheiros á recreação, a maneira facil de conduzir o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade: espantava-me a viveza dos pequenos, tão pequenos alguns! O braço do Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na vertigem do momento.
Eu não estudava: a minha conta era, entretanto, regular, por um concurso de elementos eventuaes direitos da recente matricula á benevolencia, a minha recommendação ao professor Manlio, com os retalhos alinhavados de sciencia anterior. Mantinha-me em satisfactoria média; mas o risco da decadencia era constante. O methodo constituia o peior obstaculo; sem o auxilio de alguem, mais pratico, estava perdido. Sanches havia sem duvida de valer-me com a sua capacidade de grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta affeição, empunhando por meu favor o terrivel sabre de vigilante, com guardas de couro!
Com effeito não tardou que elle me desse a mão como a Minerva benigna de Fenelon.
Entrei pela geographia como em casa minha. As anfractuosidades marginaes dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e affluiam-me para a memoria, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, immensa tropa de amestrados elephantes, arranjavam-se em systemas de orographia facillima; reduzia-se o numero das cidades principaes do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a quota das populações, perdendo as fracções importunas, com prejuizo dos recenseamentos e maior gravame dos uteros nacionaes; uma mnemonica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das provincias. Graças á destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superficie terrestre que se me não collasse ao cerebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fóra a esphera do mundo.
A seu turno a grammatica abria-se como um cofre de confeitos pela Paschoa. Setim côr de céu e assucar. Eu escolhia a bel prazer os adjectivos, como amendoas adocicadas pelas circumstancias adverbiaes da mais agradavel variedade; os amaveis substantivos! voavam-me á roda, proprios e appellativos, como creaturinhas de alfenim alado; a etymologia, a syntaxe, a prosodia, a orthographia, quatro gráos de doçura da mesma gustação. Quando muito, as excepções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados á bocca, saborosissimos.
A historia patria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionarios da catechese colonisadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrophes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flôres, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres, aprendizes da fé e da civilisação, acompanhados da turba selvagem do gentio côr de casca de arvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contricção de fetichismo domado, avultando do seio, do fundo da matta escura, como uma marcha phantastica de troncos. Até ás éras da Independencia, evocação complicada de sarrafos commemorativos das alvoradas do Rocio e de anceios de patriotismo infantil; um principe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda official do Ypiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antonio, as acclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitilla.
Cada pagina era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do collega. Graças á habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antonio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Men de Sá, Mauricio de Nassau; vi passar o heróe mineiro, calmo, mãos atadas como Christo, barba abundante de apostolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escalvada pelo destino para receber melhor a corôa do martyrio.
A historia santa revelou-me este épico, quem o diria?—o conego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capitulos como o canto profundo das cathedraes. Ouvi suspirar a Crença, o idyllio do Eden, o amor primitivo do Genesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnanimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dôr, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez joven de lyrios na tunica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade, das mães, stigmatisada pela maldição de Deus.
E crescia o canto na abóbada e o orgão falava á tradição inteira do soffrimento humano supplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorgeio, entoando a elevação dos psalmos, o extase sensual do Cantico dos Canticos na bocca da Sulamita, e a seducção de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia tragica de Judith, e a serena gloria de Esther, a princeza querida.
Subitamente, entreabriu-se o quadro sonoro para irromper o côro das lamentações. Acabavam no ar, luciolas extinctas, os derradeiros sons da harpa de David; perdia-se em écos a derradeira antistrophe de Salomão; sumiu-se á extremidade do campo a imagem de Ruth, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréa sombria na tenda de Holophernes, levando nos labios o beijo assassino; cobriu-se a apparição luminosa de Esther com o somno da noite de Mardocheu. Era a gamma dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do diluvio, os desesperos de Gommorrha; flammejava no firmamento a espada do anjo de Sennacherib; dialogavam em concerto tetrico as supplicas do Egypto, os gemidos de Babylonia, as pedras condemnadas de Jerusalem. Vozeava o tenebroso grave das prégações dos prophetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o livido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta nocturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mysterio numa escapada de chammas. Nada. A musica solemne era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Bethlem na Judéa debellava a sombra, nem a miragem viva do Thabor. A epopéa agonisava ao rodar do seculo; ecoava numa caverna onde havia um tumulo; bradava triumpho um momento pela Resurreição do Justo; morria, emfim, lento, lento com a prece dos martyres do amphitheatro, com a longinqua prece subterranea dos refugiados das Catacumbas.
A doutrina christã, annotada pela proficiencia do explicador, foi occasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as creações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altissimo; mas havia janellas para o purgatorio a que o Sanches se debruçava commigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de uncção na voz e no modo, uma sobranceria de director espiritual, que fala do peccado sem macular a bocca. Empunha quasi compungido, fincando o olhar no tecto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstracção religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabelludas manifestações de Satanaz no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrario, havia como que o capricho de surprehender com as phantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demonio tinha talvez dous metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.
O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oraculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade d'aquillo era invenção malvada do Sanches. E quando elle punha-se a contar historias de castidade, sem attenção á parvidade da materia do preceito theologico, mulher do proximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxuria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens moraes do matrimonio, e porque a carne, a innocente carne, que eu só conhecia condemnada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalháu, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando rectificava o meu engano, que era outra a carne e guizada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calumnias á santa cartilha do meu devoto credo. Mas a cousa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim opportunamente.
Na taboada e no desenho linear, eu prescindia do collega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miuda como um brinquedo; na taboada e no systema metrico, porque perdera as esperanças de passar de mediocre como gymnasta de calculos, e resolvera deixar a Maurilio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.
Em dous mezes tinhamos vencido por alto a materia toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnifico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.
Referi que Sanches me provocava uma repugnancia de gosma. Depois do caso da natação, o reconhecimento predominou sobre a repulsa e eu admitti as assiduidades com que de então por diante me quiz beneficiar o companheiro. Afinal, porém, tornou-me a apparecer o affastamento instinctivo que me separava do rapaz.
Descrente da fraternidade do collegio, cuja personificação representava-me o Barbalho, eu temia o alvoroço do recreio. Conservar-me na sala das licções era uma medida de prudencia. Estes intervallos regulamentares de descanço, aproveitava-os para me adiantar no curso. Pois bem, durante estes momentos de applicação excepcional em que ficavamos a sós, eu e o grande, definiu-se o fundamento da antipathia presentida. A franqueza da convivencia augmentou dia a dia, em progresso imperceptivel. Tomávamos logar no mesmo banco. Sanches foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro d'elle e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cançaço. Para explicar alguma cousa, distanciava-se um pouco; tomava-me, então, os dedos e amassava-me até doer a mão, como se fosse argilla, cravando-me olhares de raiva injustificada. Volvia novamente ás expansões de affecto e a leitura proseguia, passando-me elle o braço ao pescoço como um furioso amigo.
Eu deixava tudo, fingindo-me insensivel, com um plano de rompimento em idéa, embargado, todavia, pela falta de coragem. Não havia mal naquellas maneiras amigas; achava-as, simplesmente, despropositadas e importunas, maxime não correspondendo a mais insignificante manifestação da minha parte.
Notei que elle variava de attitude quando um inspector mostrava a cabeça á entrada da sala e quando pretendia informar-me de alguma disciplina transcendente.
Então o mestre singular formalisava-se de gravidade severa e distante. Esta inconstancia era o meu alarme. Foi afinal um entretenimento. Eu perdia muitas vezes o fio da leitura para attender ás artimanhas d'aquella novissima comedia.
Por um dia de muito calor, acabava elle de enunciar como um padre uma pagina de religião, os diversos actos de Contricção, de Attricção, de Fé, de Esperança, de Caridade, quando propoz que eu lh'os repetisse sentado aos seus joelhos. Achei inutil a commodidade e repeti a licção passeando pela sala. Que diabo! Aquelle sujeito queria tratar-me definitivamente como um bêbê! Com pouco mais lhe daria o excesso de extremos para me offerecer uma volta de cueiros! Ah! que se ainda me vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem duvida nenhuma ha muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha pelas ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e ductil como um renovo, depois do anniquilamento da primeira decepção. Fui transferindo o conflicto.
Ás vezes a minha resistencia passiva desapontava o preceptor. Elle encarava-me terrivel, e como quem diz: «perde a protecção de um vigilante!», ou disfarçava a impertinencia em riso amarello, numa abstracta expressão de physionomia, que era aliás o facies, de uma idéa fixa.
Os exercidos corporaes effectuavam-se á tarde, uma hora depois do jantar, hora excellente, que habituava a digestão a segurar-se no estomago e não escorrer pela guela quando os estudantes se balançavam a barra-fixa, pelas curvas.
Reconheci o bello campo das manobras quando lá fui pela primeira vez, depois da matricula; tive saudade das flammulas sobre o gramal verde. Mesmo, porém, desmontada a alegria de encommenda das festas, era um sitio amenissimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do regimen interno.
Findos os exercicios, partia o professor Bataillard, e, guardados por dois inspectores, o Sylvino e o João Numa, ou João Numa e o velho Margal, venerando invalido hespanhol querido de todos, ou o Margal e o Conselheiro, tinhamos, os alumnos, um prazo de recreio até cair a noite.
Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente, vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desattento, admirando o crepusculo com a testa franzida, na meia abstracção que era o seu rictus costumeiro. Estavamos a um rodeio da avenida que circumdava o gramal, opposto á cancella onde conversavam os inspectores. Os collegas jogavam a barra através da grama, ou se divertiam ao saut-de-mouton em pontos affastados. Como não apprehendi a pergunta, o Sanches repetiu. Escapou-me involuntario o riso... Abarbava-me a mais rara especie de pretendente! Eu ria com franqueza, mas abysmado. Era de uma extravagancia original aquelle Sanches! Hoje, elle é engenheiro em uma estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...
Vendo que não nos podiamos entender, metteu entre nós o esplendor da tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unanime a respeito.
Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de perdel-o. Deu-me as licções sem uma só das intragaveis ternuras. Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma revolução de caracter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo moderado, que me livrasse dos vexames da vida collegial dos pequenos. O caso era outro. Sanches comprehendera que a ingenuidade tinha contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar á carga.
Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.
Inventou uma analyse dos Lusiadas, livro de exame, cuja difficuldade não cessava de encarecer.
Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava criminosamente o sobresalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante das estrophes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a fumegar alfazema. Barbaro! Havia um trajo de modestia sobre a verdade do vocabulo; elle rasgava as tunicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia do meneio gracil de cada verso uma brutalidade offensiva. Eu acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente victima, e me dava á crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A analyse aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbavel.
Tomava cada periodo, cada oração, altamente, com o ademan sisudo do anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois o significado, zás! um córte de escalpello, e a phrase rolava morta, repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.
Iniciou da mesma forma um curso pittoresco de diccionario. O diccionario é o universo. Gaba-se de esclarecimento, mas atordôa, á primeira vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas. Encarreirados nas paginas consideraveis, os nomes seguem estranhamente com a numerosa prole dos derivados, ou sós, petits-maîtres faceiros, os gallicismos; vaidosos dandys os de proveniencia albionica. Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As significações prolongam-se interminas, entrecruzam-se em confusa rêde topographica. O inexperiente não conquista um passo na immensa capital das palavras. Sanches estava affeito. Penetrou commigo até aos ultimos albergues da metropole, até á cloaca maxima dos termos chulos. Descarnou-me em caricatura de esqueleto, a circumspecção magistral do Lexicon, como polluira a elevação parnasiana do poema.
Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror aquella sabedoria de cousas nunca sonhadas. O honrado director espiritual percebeu que havia agora um ascendente de dominio que me curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de malicia. Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de possuidor forte. Eu andava num deploravel desmantelo de energia. Rebello, de vez em quando, acabrunhava-me, através dos oculos azues, com um olhar de desprezo ou condolencia ainda mais aviltante. Meu pae vinha vêr-me todas as semanas; eu mostrava os premios de applicação, conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receioso dos outros, o meu companheiro era quasi exclusivamente Sanches. Sempre juntos eu e elle. Sabia-se no Atheneu que elle era meu explicador, suppunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas relações.
Comtudo Sanches, como os mal intencionados, fugia dos logares concorridos. Gostava de vaguear commigo, á noite, antes da ceia, cruzando cem vezes o pateo de pouca luz, cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em resignado silencio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebello.
Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tacito, Sanches precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro erravamos pelo saguão das bacias, escuro, humido, rescendendo ao cheiro das toalhas mofadas e dos ingredientes dentifricios, solidão favoravel, multiplicada pelos obstaculos á vista que offereciam enormes pilares quadrados em ordem a sustentar o edificio,—quando, sem transição, o companheiro chegou-me a bocca ao rosto e falou baixinho.
Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, collante, como se fosse cada syllaba uma lesma, horripilou-me, feito o contacto de um supplicio immundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a explosão de todo o meu asco por semelhante individuo, e muito calmo, desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me endefluxara a friagem e... fui buscal-o.
Fóra da zona magnetica em que me captivava o bom amigo, concertaram-se os meus instinctos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me, temperando o olhar com um brilho de facadas.
A occasião é que não era a melhor para o conflicto. Conveniencias do ensino tinham feito dividir-se em duas turmas a aula do professor Manlio, e eu fôra incluido na secção confiada ao Sanches, como auxiliar idoneo. A consequencia foi o que devia ser. Maltratado e condemnado pelo ajudante, provando mal em razão do sobresalto no exame de verificação a que me sujeitou o professor, desmoralisado em reprehensão solemne com grande regosijo do Sanches, jurei vingança. Escandalisaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a materia toda em rapida antecipação de estudo. Isto, porém, não bastava. Bastasse! foi o meu lemma. E toca a desandar. Fiquei abaixo do Barbalho, aliás fóra de classificação decente; fiquei abaixo do Alvares. Fui o ultimo da aula! Resultado razoavel, para emprego de uma energiazinha que despontava.
Ao mesmo tempo, como os philosophos atribulados, busquei a doce consolação dos astros.
Aristarcho iniciara um curso nocturno de cosmographia.
Estrellas era com elle. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de expulsão, abalançava-se a intrometter-se nas onze varas da camisola, de astrologo. E vissem-no, á janella, indicando as constellações, impellindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós discipulos, não viamos nada; mas admiravamos. Bastava elle delinear sabiamente um agrupamento estellino ás alturas, para cada um de nós por seu lado ficar mais a quo. E voava, fugindo, a poeira phosphorecente.
Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que Aristarcho fisgava os astros, quando todos sabem que apontar estrellas faz crear verrugas.
Uma vez, muito enthusiasmado, o illustre mestre mostrou-nos o Cruzeiro do Sul. Pouco depois, cochichando com o que sabiamos de pontos cardeaes, descobrimos que a janella fazia frente para o Norte: não atinamos. Aristarcho reconheceu o descuido: não quiz desdizer-se. Lá ficou a contra-gosto o Cruzeiro estampado no hemispherio da estrella polar.
Eu tomei amor ás cousas do espaço e estudava profundamente a mecanica do infinito pelo compendio de Abreu.
Para as noites brumosas, Aristarcho tinha os apparelhos. Uma infinidade de machinismos do ensino astronomico, exemplificando o systema solar, a theoria dos eclipses, a gravitação dos satellites, as espheras concentricas, terrestre e celeste; a de dentro, de cartão lustrado; a de fóra, de vidro. Um atravancamento indescriptivel, sobre a mesa, de estrellas e arames torcidos, rodas dentadas de latão, lampadas frouxas de naphta parodiando o sol. Aristarcho dava á manivella e gyrava tudo. Com o pince-nez grosso de tartaruga, á ponta do nariz, dominava o tropel dos mundos.
«Vêem, dizia, explicando a natureza, vêem a minha mão aqui?»
Mostrava a mão direita, ao realejo, bella manopla felpuda de fazer inveja a Esaú:
«É a mão da Providencia!»
[IV]
Periodo sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma banqueta de altar, ou com o alphabeto azul que delinêa o fumo do incenso no ar tranquillo, inolvidaveis tregoas de intimo socego em toda a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao fundo descredito escolar.
A astronomia, como os céus do psalmo, levou-me á contemplação. O mal na terra, descripto pelo Sanches com uma pericia de conhecedor e praticante, tomou vulto no seio das minhas cogitações. A incredulidade primeira acabou em meu espirito, reconhecendo o descalabro d'este val de lagrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar á minha rehabilitação nos estudos, puz-me a estudar, como Ignacio de Loyola, talvez na mesma idade, a rehabilitação do mundo.
Encarnei o peccado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu exemplo pontifical de virtudes no solio de Roma; mas a verdade é que me dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal scenographico de trabalho, e fraternidade, que eu quizera que fosse a escola, tinha que soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.
Accresce que predispunha ao enlevo a tristeza oppressa de discipulo máu em que eu jazia. E como nos pequenos esforços que tentava para me reerguer ninguem dava attenção, deixei-me ficar insensivel, resignado, como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciencia em paz, a consciencia que é o espectaculo de Deus. Servia-me a crença como um colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que apezar dos anceios de bemaventurança, eu ia mal no catecismo como no resto.
A mais terrivel das instituições do Atheneu não era a famosa justiça do arbitrio, não era ainda a cafua, asylo das trevas e do soluço, sancção das culpas enormes. Era o Livro das notas.
Todas as manhãs, infallivelmente, perante o collegio em peso, congregado para o primeiro almoço, ás oito horas, o director apparecia a uma porta, com a solemnidade tarda das apparições, e abria o memorial das partes.
Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rotulo vermelho na capa, angulos do mesmo sangue. Na vespera cada professor, na ordem do horario, deixava alli a observação relativa á diligencia dos seus discipulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia, avultava, impunha-se a opinião do Atheneu. Rainha caprichosa e incerta, tyrannisava essa opinião sem correctivo como os tribunaes supremos. O temivel noticiario, redigido ao sabor da justiça suspeita de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos, immoraes, erigia-se em censura irremissivel de reputações. O julgador podia ser posto fóra por uma evidenciação concludente dos seus defeitos; a diffamação estampada era irrevogavel.
E peior é que lavrava o contagio da convicção e surprehendia-se cada um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinario tal discipulo, tal collega, reforçando-se passivamente o conceito, até consummar-se a obra de vilipendio quando, por ultimo, o condemnado, sem mais uma suggestão de revolta achava aquillo justo e baixava a cabeça. A opinião é um adversario infernal que conta com a cumplicidade, emfim, da propria victima.
Com excepção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os que dormiam á sombra de uma reputação habilmente arranjada por um justo conchavo de trabalho e captivante doçura, havia para todos uma espectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um mysterio.
Á medida que se desenrolava a gazetilha, as ancias iam serenando. Os victimados fugiam, acabrunhados de vergonha, opprimidos sob o castigo incalculavel de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de ultraje. Passavam junto de Aristarcho ao sair para a tarefa penal de escripta. O director, arrepiando uma das coleras olympicas que de um momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro ás costas do condemnado, aggravante do injuria e escarneo á pena de diffamação. O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.
Quando a cousa não dava para coleras, Aristarcho limitava-se a sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença cathedratica; ora uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e breve, ora um conselho amortalhado em funebre dó.
Ás vezes enlaçava com dous dedos o menino pela nuca e o voltava, tremente e submisso, para o collegio attento, offerecendo-o ás bofetadas da opinião: «Vejam esta cara!...»
A criança, livida, fechava os olhos.
Em compensação, não havia expressamente punições corporaes.
O professor Manlio, sempre considerando a recommendação, poupou-me longamente ao castigo formidavel das partes. Perdeu por fim a paciencia e fulminou-me.
No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem assucar que me bastasse, o resto do café quinado da espectativa (porque Manlio tinha-me prevenido), quando ouvi Aristarcho, alargando pausas dramaticas de commoção, ler, claro, severo: «O Sr. Sergio tem degenerado...»
Eu havia figurado já na gazetilha do Atheneu com algumas notas de louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O director olhou-me sombrio.
No fundo do silencio commum do refeitorio, cavou-se um silencio mais fundo, como um poço depois de um abysmo. Senti-me devorado por este silencio hiante. A congregação justiceira dos collegas voltou-se para mim, contra mim. Os vizinhos de logar á mesa affastaram-se dos dois lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um ruido argentino, horrivel, de colheres á lavagem; os tamarineiros no parque ciciavam ao vento.
Aristarcho foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.
A peior hypothese do systema do pelourinho era quando o estudante ganhava o callo da habitualidade, um assassinato do pudor, como succedia com o Franco.
Dias depois da terrivel nota, voltava eu a figurar com outra má, menos philosophicamente redigida, porém aggravada de reincidencia. Aristarcho não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma d'ellas doia-me intensamente; comtudo não me indignavam. Aquelle soffrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição actual. Chorava á noite, em segredo, no dormitorio; mas colhia as lagrimas numa taça, como fazem os martyres das estampas bentas, e offerecia ao céu, em remissão dos meus pobres peccados, com as notas más boiando.
No recreio, andava só e calado como um monge. Depois do Sanches não me aproximava de nenhum collega, senão incidentemente, por palavras indispensaveis. Rebello tentou attrahir-me; ou desviava. Sanches, rancoroso, perseguia-me como um demonio. Dizia cousas immundas. «Deixa estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.» Na qualidade de vigilante levava-me brutalmente á espada. Eu tinha as pernas roxas dos golpes; as canellas me incharam. Se Barbalho se lembra de vingar a bofetada, creio que me submettia á letra evangelica.
Durante este periodo de depressão contemplativa uma cousa apenas magoava-me: não tinha o ar angelico do Ribas, não cantava tão bem como elle. Que faria se morresse, entre os anjos, sem saber cantar?
Ribas, quinze annos, era feio, magro, lymphatico. Bocca sem labios, de velha carpideira, desenhada em angustia—a supplica feita bocca, a prece perenne rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto, infinitamente, como uma gotta de cêra pelo fuste de um cyrio...
Mas, quando, na capella, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os olhos para o medalhão azul do tecto, que sentimento! que doloroso encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gothico!
E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos pés de Maria, alto, tremulo, aereo, como aquelle prodigio celeste de garganteio da freira Virginia em um romance do conselheiro Bastos.
Oh! não ser eu angelico como o Ribas! Lembro-me bem de o vêr ao banho: tinha as omoplatas magras para fóra, como duas azas!
E eu era feliz nesse tempo, quando invejava o Ribas.
Havia na minha febre religiosa certo numero de reservas, que pareciam o germen de futuro libertino, como dizem os padres mineiros; eu não admittia a confissão, não pensava em communhão, estranhava os exaggeros do culto publico, votava antipathia aos homens de batina. Santa Rosalia era a minha devoção.
Porque Santa Rosalia? Não havia motivo: era uma pequena imagem em cartão, gravura de aço e aguadas de fino colorido, lembrança que me dera uma prima, então morta, e eu guardava em memoria amavel.
Era boa a priminha. Mais velha do que eu tres annos, carinhosa, maternal commigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmorea pureza, coando uma transparencia de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a agitação, ignorava a impaciencia. Sabia talvez que ia morrer. Ao vêl-a passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador americano—leve na terra como o roçar da veste de um anjo, sentia-se com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquella criança: buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da fórma, sob a campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela manhã—e a liberdade etherea do sentimento.
Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto á pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma identidade commovente de traços physionomicos com a pequenina morta. Guardei então, como um retrato, Santa Rosalia.
Com a evolução de mysticismo era natural completar-se a consagração da estampa; canonisada triumphalmente no concilio ecumenico dos meus mais intimos votos.
Era a sala geral do estudo, á beira do pateo central, uma peça incommensuravel, muito mais extensa do que larga. De uma das extremidades, quem não tivesse extraordinaria vista custaria a reconhecer outra pessoa na extremidade opposta. A um lado, encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de páu envernisado e os bancos. Á parede, em frente, perfilavam-se grandes armarios de portas numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; deposito de livros. Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono pregava um cadeado á portinha e formava um interior á vontade. Uns, os futuros sportmen, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a tesoura, que se atrellavam a pequenos carros de papelão; outros, os politicos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das pelles; outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham espiar a efflorescencia das borboletas; os colleccionadores, Ladislaus Nettos um dia, fingiam museus mineralogicos, museus botanicos, onde abundavam as delicadas rendas seccas de filamentos das folhas descamadas; outros davam-se á zoologia e tinham caveiras de passarinhos, ovos vasados, cobras em cachaça. Um d'estes ultimos soffreu uma decepção. Guardava preciosamente o craneo de não sei que phenomenal quadrupede encontrado em excavações de uma horta, quando verificou-se que era uma carcassa de gallinha!
Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro accesa. Ao fundo, em dourado passe-partout alojaria Santa Rosalia, a padroeira.
O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama, para as escovas e os pentes.
E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração, depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus fervores, symbolisados num tributo de perfume.
Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do amor de Maria.
Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do Atheneu. Abençoados momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do estuque.
O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu. Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera, cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.
Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das miseriazinhas da hora commum.
Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado, sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.
O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença. Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae, impedindo-lhe ás visitas do costume ao Atheneu. Eu pensava nos seus soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do mysticismo.
A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na modestia curvada dos brutos—annullando-me a mim mesmo na angustia do pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do farricoco.
O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.
Triste e feliz.
Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á solidão e ao socego.
Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que o não pedissemos ao Anjo...
Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os collegas.
O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas, guardada a cache-nez nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella... a do hymno...
Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas, espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o conjuncto podia passar por um cantico.
Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.
O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa. O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os accordes—produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação, sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.
Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos, ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...
Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava habitualmente Aristarcho.
Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade, geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á trama concreta das lançadeiras.
Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se, porém, o influxo da realeza impalpavel.
Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento.
O director manobrava este talento de imperio com a pericia do corredor sobre o pur sang sensivel.
A sala geral do estudo tinha innumeras portas. Aristarcho faria apparições, de subito, a qualquer das portas, nos momentos em que menos se podia contar com elle.
Levava as apparições ás aulas, surprehendendo professores e discipulos. Por meio d'este processo de vigilancia de inopinados, mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpetuo do flagrante como uma atmosphera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de todos os bedeis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janellas ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim unico de um bello dia abril-as bruscamente sobre qualquer machinação clandestina da vadiagem. Sorria então no intimo, do effeito pavoroso das armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal, pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um repasto de sangue.
Nos momentos de ira e de exaltações eloquentes é que sabia fazer-se em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olympo; era como se Jupiter mandasse Mercurio catar á terra os raios já disparados e os unisse ao stock inavaliavel dos arsenaes do Etna, para soltar tudo, de uma só vez, de uma só colera, num só trovão, anniquilando a natureza sob a bombarda omnipotente.
Mas não sómente parodiava elle os furores olympicos. Aquella alma ductil de artista sabia decair até á blandicia, até á lagrima a proposito.
Jupiter guardava para a opportunidade a caricia de edredon, o gesto flexuoso do soberano cysne. Expandia-se ás vezes sobre o Atheneu em rompimentos de amor paterno, tão derramado, tão geitosamente sincero, que não tinhamos remedio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal de enternecimento de filhos.
E admiravamos.
A hora solemne do meio-dia Aristarcho aproveitava para distribuir uma merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias, incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só conselhos. Tambem reprimendas em massa por culpas collectivas, arrecadações de cigarros, ou pequenos processos summarios em que se averiguava a autoria de delictos importantes, como encher de papel picado uma sala, cuspir ás paredes, molhar a privada, e mesmo muito mais graves, como num episodio do Franco, que se prende ao periodo beato das minhas reminiscencias.
Assistia o Mestre com a attenção de costume á reza cantada, fazendo gyrar nos dedos uma medalha do relogio sobre o collete, na abertura do fraque. Ao final, depois de um intervallo preparatorio, aperitivo de emoções, tomou a palavra num tom solemne de revelação e referiu, com toda a grandeza de que era susceptivel, a hypothese, reclamando a indignação vingadora do Atheneu.
Franco, no domingo da vespera, aproveitando a largura da vigilancia no dia vago, fôra vadiar ao jardim. E para tomar agua de um poço ahi existente, cuja bomba não funccionava em regra, deliberou, imaginem! humedecer a bucha aspiradora com um liquido que Moysés seria capaz de obter no arido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem que o referido poço fornecia agua para a lavagem dos pratos.
Um murmurio de horror elevou-se das alas de estudantes.
«Adianta-te, Franco», mandou Aristarcho.
Com a insensibilidade petrea que o encouraçava para as humilhações, saiu Franco do logar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no centro da sala. Alli esteve por alguns segundos, exposto, no meio do enorme quadrado de alumnos. Os olhares caíam-lhe em cima, como os projectis de um fuzilamento.
O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados depois da profanação irremediavel da lympha. Passado este effeito, com que contava para a punição moral, o director concluiu o libello. Ficassemos tranquillos, estavam puros os labios. Franco tinha sido surprehendido por um copeiro que o prendera, e fôra a bomba incontinente declarada—interdicta.
Muita gente duvidou da opportunidade da interdicção. Limpavam com asco a lingua no lenço, esfregavam a bocca até esfolar.
«O porco! bramia Aristarcho. O grandissimo porco!» repetia como um deus fóra de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda. Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.
Aristarcho marcou apenas dez paginas de castigo escripto á noite, e passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.
Formulado o veredicto, Franco caiu de rotulas no soalho com estampido, como se repentinamente se lhe houvesse estalado ás pernas uma mola.
«Ahi não! aqui, tratante!» gritou o director, indicando a porta do salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das recreações em dia de chuva, que alargava tres boas portas para o pateo central. Aristarcho estava perto da do meio.
De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas seductoras da merenda, ficava ainda o condemnado com um reforçozinho de pena. Passando por elle, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos com o arremesso dos unicos recursos da sua posição.